sexta-feira, 22 de março de 2013

Lira Insubmissa, Carta

Vigésimo Sexto Fragmento




198 - A criação é um processo de espera, a criatura espera pela sua criação para ser criatura. Isto é, para existir o homem, ele deve aguardar pela criação que pela máquina será criada: o Homem. Assim, o homem não existe ainda, é antes embrionário. 
199 -Enquanto ser embrionário, o Homem pode ainda existir para além de si. Dito de outro modo, o homem é ainda capacitado de possuir sensibilidade que não se resuma ao eco do instinto, elevar o olhar acima da sua própria sobrevivência não só enquanto individuo, mas enquanto espécie. Curiosamente, é esta a capacidade que o levará por fim, a sair do estado embrionário humano e a penetrar os estágios da máquina: a elaborar a sua complexidade para além das sua presente regra. Isto acontecerá através da aceitação: o homem, enquanto ser civilizado, nasce e  desenvolve-se na negação, isto é, a civilização integra os processos do teatro da afirmação até ao esgotamento da afirmação, e no ponto em que a afirmação perca na sua totalidade a sua substância, o não torna-se no grande e único sim, em que toda e qualquer negação é removida do sistema, e com ela o próprio sistema. 
200 - O Homem na sua totalidade, ou seja, o Homem desprovido do homem, é o Homem desprovido de cronologia consciente. A consciência cronológica é a perpetuação da negação, e queremos por  negação dizer, da afirmação enquanto fingimento. Para entender a afirmação total, que se apoia em si mesma, o individuo necessita apenas de evocar aqueles momentos fortes o suficiente para se destacarem como clareiras no caos florestal da memória, quero dizer, a nitidez de momentos que sobreviveram apesar de nos não lembrarmos do momento anterior nem do momento posterior, ou seja, do contexto cronológico na sua continuidade. 
201 - Da mesma forma, a máquina não existe ainda, a máquina total necessitará de gente e sobretudo de terra, necessitará, digo, de perder a orfandade, e sem a orfandade, perder a liberdade. Até agora tem o homem, dado que toda a civilização sobrevive da natureza nomádica de troca, sido uma reserva, ainda que móvel, de propriedade, arrancado até às raízes como árvores para que circule o dinheiro. Mas, sabemos, o dinheiro, é uma necessidade embrionária, pois que o dinheiro, como qualquer propriedade, em que só o é enquanto bem transacionável, mostra-se de natureza estritamente transitória. 


 André Consciência

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