domingo, 30 de julho de 2017

Malak





O cisne canta ao longo da água como num tapete persa. Atravesso-o. As três árvores de granito ficam também para trás, regadas pelas suas três fontes, depois, por seu mantel, a superfície de cristal manso e líquido onde as árvores se põem a subir infinitamente para o céu, continua e visivelmente, e eu suspiro um suspiro que adapta a flora e enriquece a fauna, o veado, a lebre, a gazela. Tudo é móvel, soprado pelo poder doce, e se fixa à minha aproximação. Então, a aurora ilumina a primeira montanha, tingindo de vermelho as pedras do céu, e outra água principia a cair, onde se deleitam arcanjos femininos de Zoroastro. Pensava ter encontrado a morada que segrega a luz que sou, mas a minha luz não vinha do chão ou do céu ou da treva do pensamento, os germes cresciam e avolumavam-se numa forma em que cada gesto é um significado e eu permanecia sozinho, como um objecto iluminado cuja luz tem de ser objecto. 

II 


Aqui matei o meu filho, e ele ergueu-se com as árvores que sobem infinitamente. Já nada vem do céu ou do chão ou da penumbra do pensamento. As coisas segregam luz, a minha mão marca a pedra e o horizonte perde distância e as alturas profundidade e ganham presença. Estou cheio de flores, rios, árvores, pássaros, montanhas. O céu azul. No céu, sou o céu, no mundo, sistema nervoso. Ali, lúcido e sereno, diáfano e translúcido, compreendendo a inexistente deslocação dos corpos. Depois, rebela-se o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e as formas femíninas que penetram as águas recebem o fogo e concebem, luz sobre a luz, os homens retêm a respiração e inicia neles uma respiração outra. 


André Consciência

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Depois dos quartos

Eunice Correia




Se a manhã viesse seria crianças
A dormir no jardim com borboletas no dorso
Os seus mantos cheirando a mar
Correndo contra os primeiros alvores.


André Consciência

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ein Sof

Tudo em tudo transborda,
Rosas de sangue, o peito
Os olhos sobre um ninho de flores selvagens.

As coisas pousam
Ao de leve, na melancolia do Sol
As andorinhas nos fios eléctricos.

Então a noite ameaça os vidros:
Acende-se nunca
A cidade que é céu
As lâmpadas fundidas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Shofar

Eunice Correia por Gonçalo Rodrigues Batista

Há um coração no circulo de pedras, silente e rumorejante no seu silêncio, que canta os dias que fui e depois se debruça sobre o tempo presente e encontra tudo isso nos traços das suas próprias mãos. Depois há uma concha, contendo uma pérola, que foi ofertada sobre o antigo altar. Um anjo sobe e materializa-se, a cantar com as penas que roçam umas nas outras.  E outro anjo desce e beija-te, lânguida ao longo das pedras como uma cobra imensa, e ajoelha os alces e levanta os dorsos das baleias do ártico e vocifera o frio mudo e a claridade. Eu abro os olhos, pendo sobre a ternura dos dias e balanço-me no pêndulo de fogo do teu ventre, o teu peito a florescer uma floresta de urze com lagos, o teu sorriso um palhaço de sangue reforçado pelas dobras do desejo. E onde a pele era um deserto a neve derrete-se, escoalha-se, revolve-se, ergue-se e canta na boca do anjo, um verme de luz insinuante. Anda, senta-te. Teçamos o mundo e as águas no fundo. Alguém voa, com os teus cabelos e o meu rosto, os teus olhos e os meus dedos. Alguém se senta, a tecer os dias sobre os quais os alces correm e o gelo chora e a cabeça alva da Lua se torna rubra. E não tenhas pena da morte, todos os homens morrem aqui. 

André Consciência, dedicado a Eunice Correia