sexta-feira, 14 de abril de 2017

Depois dos quartos

Eunice Correia




Se a manhã viesse seria crianças
A dormir no jardim com borboletas no dorso
Os seus mantos cheirando a mar
Correndo contra os primeiros alvores.


André Consciência

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ein Sof

Tudo em tudo transborda,
Rosas de sangue, o peito
Os olhos sobre um ninho de flores selvagens.

As coisas pousam
Ao de leve, na melancolia do Sol
As andorinhas nos fios eléctricos.

Então a noite ameaça os vidros:
Acende-se nunca
A cidade que é céu
As lâmpadas fundidas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Shofar

Eunice Correia por Gonçalo Rodrigues Batista

Há um coração no circulo de pedras, silente e rumorejante no seu silêncio, que canta os dias que fui e depois se debruça sobre o tempo presente e encontra tudo isso nos traços das suas próprias mãos. Depois há uma concha, contendo uma pérola, que foi ofertada sobre o antigo altar. Um anjo sobe e materializa-se, a cantar com as penas que roçam umas nas outras.  E outro anjo desce e beija-te, lânguida ao longo das pedras como uma cobra imensa, e ajoelha os alces e levanta os dorsos das baleias do ártico e vocifera o frio mudo e a claridade. Eu abro os olhos, pendo sobre a ternura dos dias e balanço-me no pêndulo de fogo do teu ventre, o teu peito a florescer uma floresta de urze com lagos, o teu sorriso um palhaço de sangue reforçado pelas dobras do desejo. E onde a pele era um deserto a neve derrete-se, escoalha-se, revolve-se, ergue-se e canta na boca do anjo, um verme de luz insinuante. Anda, senta-te. Teçamos o mundo e as águas no fundo. Alguém voa, com os teus cabelos e o meu rosto, os teus olhos e os meus dedos. Alguém se senta, a tecer os dias sobre os quais os alces correm e o gelo chora e a cabeça alva da Lua se torna rubra. E não tenhas pena da morte, todos os homens morrem aqui. 

André Consciência, dedicado a Eunice Correia