domingo, 19 de abril de 2020

Caminheiro

Sunsphere - André Consciência


1.

No céu uma luz agarra a terra
A terra torna-se celeste
E o Sol, duas colunas
Sem fim, entra o clarão
A estrada ergue-se mais
Acabam as luzes
Não respires, um sonho acerca-se
Da coisa morta
E nada o privará. 


2. 

De costas vista, a alma é o passado
De frente alcançada, o futuro
É a criação que gera o criador
Agora, a pirâmide só tem topo
A primeira palavra da amalgama animal
A última palavra de um homem para todos
É a última palavra de todos a si mesmos
Um silêncio chega e arde
Um fogo congela e as asas descristalizam.


3.

Onde fica o céu só há a terra
Onde fica a terra só há o céu
Tudo o que cresce infinitamente
Recolhe infinitamente
E o mundo não o tem
Não há luz onde há a treva
Nem as trevas
Olha para mim, D'us
Reconhece-te.


4.

O tempo mostra as mãos
O trabalho solta-se em perfume
O incenso banha o espaço e chega uma visita
Um corpo de estrelas o habita
Mostra os seios e vem a noite
Ninguém habita a minha forma
Os raios da sua testa leonina
Sorvem o sangue
Mas é o sangue quem consome.


5.

Quando a onda nasce do seu pico 
Os pássaros erguem-se com fogo
E cospem na luxúria dos homens
Canções sem fim
Os imortais ficam
Tudo se abre
Cada poro do mundo
A vulva mostra a noiva
Não há sol além de mim.


6.

A boca expande-se depois do corpo
Shekinah deita-se no mantel azul
E chove com cores conhecidas e desconhecidas
A luz ergue-se da terra e a terra também é um arco
Eu estou no olho da miríade
A boca abre-se além do ovo
O que sai não pode ser dito
Mas é
Adonai salta do meu pulso.


7.

Morto, Adonai larga a espada
E a espada é um homem, uma mulher
Acima das nuvens cai, sem cessa, o Sol
A rainha senta-se, lânguida
A coroa dispara
Mas os meus pés dançam sobre a sua luz
A minha boca é um túnel, cá fora
Mas cá fora é um túnel, dentro
Para outro lugar.


8.

A divina embriagues dita
A realidade escreve
Uma torre senciente desce
Ao mundo sem fundo
Nada mais será eterno
Que o espírito move
E a morte perde o ser
Ó, coroa irradiada dos umbrais
Consome-te a ti mesma.


9.

A pedra era pedra antes e depois de a ser
O seu vulto está aqui, agora
Além de si, está ela própria
Assim canta o poeta
E a montanha ergue-se de uma só
Pedra
A folha que cai levanta
Há ouro e ouro
Poeta, poema.



André Consciência

quinta-feira, 9 de abril de 2020

TA-O

ilustração de André Consciência

No céu as mãos são rosa, não pesam e tudo erguem
Na alma a memória é futura, não foi e fará ser
No campo, as cearas erguem-se agora até às estrelas
O véu sobe também para revelar a nudez noiva
A esposa remove a morte do orgasmo e o seu fim
O espírito sagrado senta-se a seus pés
Como aos pés do guerreiro a coroa de D'us
O vinho sobe e engole o céu, as cearas, o vento
Tudo será como sempre foi.

André Consciência