quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Promessas 4 ***


Partida das Bruxas - Luis Ricardo Farelo


"Parecia que entrara nele uma parcela da fascinação amorosa daquela mulher, assim como no ferro entra um pouco da virtude do íman. Tratava-se, verdadeiramente, de uma sensação magnética do prazer."

"O homem sentia a presença da mulher deslizar e misturar-se no seu sangue até ao ponto deste se tornar a vida dela, e o sangue dela a sua própria vida."
G. d'Annunzui

"Quando me uno a uma mulher a percepção através do sangue é intensa, suprema... Dá-se a passagem não sei exactamente do quê, entre o seu sangue e o meu, no momento da união. De tal modo que, mesmo que se afaste de mim, permanece entre nós esse modo de nos conhecermos através do sangue, mesmo que se tenha interrompido a percepção através do cérebro."
D.H. Lawrence

"O sangue é o grande agente simpático da vida, o motor da imaginação; é o substrato animado da luz magnética, ou luz astral, polarizadas nos seres vivos; é a primeira incarnação do fluido universal, é a força vital materializada."
Eliphas Levi



How We Became Fire - Moonspell

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

A Morte Comer Para Viver


Ruínas do Convento do Carmo - Wolf38


Sento-me no chão frio deste mosteiro, que foi barrado a cimento pelas portas e de onde brotaram as sementes daqueles depois de mim.
Reconheço, aqui na escuridão em que a minha sombra é o pátio e depois do pátio o mundo e a seguir para dentro do mundo, ser um destroço perdido dessa penumbra móvel, que sou um fruto da árvore branca da ignorância. Em todos nós, que cantámos neste solo regado, doentes com o medo e o nosso medo cheio de criação, a amável memória do caos no rosto d’Ela, que o Inverno sepultou de brancura e gelo. No fundo de todos nós, doentes com a organização, como uma flama albina dentro do espelho, a saudade. Geração após geração este esquecimento pueril. Do medo do escravo construimos o temor do guerreiro. Da saudade inútil esculpimos poetas e lançamos-los para fora destas paredes. Edificámos um forte contra a poluição da tua indiferença. Envelhecemos e morremos incontáveis vezes, fortalecendo as paredes com os nossos ossos.
Uma noite, a maçã caiará sobre este caixão de cristal quebrando-o todo, as canções da Lua serão Carne. Depois, o Mundo não será uma esfera, mas será uma continuidade de mundos.


Horned Wolf

sábado, 21 de Novembro de 2009

A Sede


Rede de Esgoto

A tez negra da pele. As expressões. Peculiares. Os barcos europeus. Ficam encalhados na costa. Maciços. Na areia. A sonoridade enrolada da água. Os vidros. Cordas. Pele queimada. Luzidia. Pele de negro. A corda. Esticada. Quase rompe. Linhas. Linhas que são feitas de homens, os homens todos feitos de músculos. O vento puxa para um lado. Os homens puxam para o outro. O vento. Não possui rosto. Não tenho pé aqui. O vento. Não possui assobio. Observo nas ondas. Martelos quadrados. A ferrugem. É o estuque dos barcos. Os homens sentam-se parados. Absorvem o sol. As mulheres dançam em procissões, com pedrinhas de muitas cores que soltam tons que eu não ouço. Os olhos das mulheres brilham. Verdes. Pálpebras núbias. Reconstroem os barcos. Os europeus não lhes podem roubar a mãe. Os europeus não lhes podem roubar o mar. A não ser que electrifiquem também a rede marítima. Não consigo sentar-me tanto tempo como eles, quieto. Com o Sol. Treinei. Na Europa. Treinei. Treinei horas de meditação. Treinei horas de posturas. E não consigo ficar parado como eles. O próprio acto de estar parado inquieta-me. Como um movimento. Irritante. Merda. O rapazinho. Os meus lábios não sorriem. Movimento de sucção constante. Sorvem ar queimado. O rapazinho e o lenço que ata à volta da cabeça bonita dela. Que prende perto da nuca formosa dela. Ela. Ata-lhe tranças. Depois o lenço. Na praia. De noite. Poetas mortos no rochedo. Observo nos espelhos. Ardor nos globos brancos. O perfume dela. As minhas narinas uma queimadura. Carne podre. O perfume dela: ondas do mar. O perfume do mar. Barcos. São barcos de madeira. Quebrados. Urram. Ele. Urram. Ela. Gestos. Gesticulam como bárbaros. Planeiam comandar os barcos fantasmas. Ele sente-se feliz. Ele vê-a a rir-se. Ele vê as estrelas e o som das estrelas no silêncio dos olhos alegres dela. Alegres. Sonhadores. Pega numa cana. Ela. Faz serpentes na areia. Vê o som do cano que rasga a praia. Ele. Pega numa cana ele. Faz círculos para apanhar a serpente. Um pequeno. Ela. Evita. Maior. Outro maior. Ela perfura. Ele ri-se. Ela ri-se. Mãos. Dedos. Ele a adorar os dedos. O rapazinho. Que os dedos dela são os dedos mais bonitos que viu. O olhar dela é mil abraços. Quentes. Como sopros quentes. No inverno. O cheiro da madeira podre. O armário. O grito mudo da carne putrefacta. Um grito de revolta. Contra a morte. A vida. É liberdade. Ele. Pega numa cana. A casota em ruínas perto do entulho. Riem-se. Ele. Conta uma estória. Uma estória: vivia ali um eremita muito sábio que aprendeu todos os mistérios do universo com um caranguejo. Ela, continua uma estória. Beijam-se. Beijam-se. Filha da puta. O barulho entaramelado dos bichos da madeira. Lutam com as canas, à espada. Ele ganha sempre. Depois. Abre os braços. Sacrifica o coração. O sorriso dela. Golpeada. Depois da derrota. Os canos do esgoto. Cortam a praia.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O Espelho

The Cyclops - Odilon Rendon


Se, durante demasiado tempo, fixamos o espelho, o nosso corpo é invadido de uma dormência.

Os nossos olhos incendeiam-se, e o nosso corpo não conhece as labaredas.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

O 13º Cavaleiro de Vénus


Alma a Vagar na Pradaria - Guilherme de Faria


O cavalo golpeia o rio
Branco como o Sol
Nunca foi montado
E nunca atravessado.

De noite, o cavalo dorme
E sonha, os banquetes de homens
Perdidos na fluidez
Do chão.

O cavaleiro monta a morte
Negro como o breu
E da Lua, vê a sorte.

Se o Sol o acorda, com a brisa
Não se lembra da sua donzela
E as suas mãos são pedra selada
Contra rosa.

Vai, depois, uma morte
Acender tantas
Que a inocência oculta
E o azul sepulta.

Agora o lago, sacia
Bandos de cavalos selvagens.
O céu trespassa os exércitos
Vertendo penas, são carcaças.

Horned Wolf

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo


Tudo é Vaidade, Charles Allan Gilbert


Ó Poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Colheita


Rússia durante a Fome de 1921-1923


Aproximam-se, da falésia
Com paz nos cadáveres
As crianças, e curam
A crença da tortura
Numa dança.