sábado, 23 de dezembro de 2023

O Casamento

 


Eunice Correia por André Consciência



Há uma palavra

Retida

Na geada:


Um sino de gelo

Uma flor de fogo 

Que se debruça

No teu rosto.


No meu

Aqueles anos todos

Despenhados contra ti


E alguém,

Que se levanta do teu sono

Dos precipícios dobrados

E azulados,

A tua mão a esbranquiçar

Curvada nos meus pulsos;


A barra destruída

Da barragem

A lebre trémula

Pelo cio

A luz

Das cortinas

Delineadas no teu peito

A raiva

Pujante dos quadris

Febre.


Sorvo Soma 

Fico a amar-te

As aranhas-coração

Nidificam nas nossas fendas

Os mundos multiplicam-se

Sorvo soma

O licor da tua boca

O verão salgado

A maresia final

E eterna

Em chamas.


Depois o teu nome

A manhã nos portões

As cidades além-mar

E a palavra na geada

Continua a ressoar.



André Consciência

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Lampanário I

 

Arte conceptual para ‘The Abyss’, Moebius



I


As mulheres, curiosas

De músculos salientes

E anémonas nas mãos

Espreitam, sob o colosso

Roxo e vermelho

A névoa do Abismo.



II


Despida, a mulher descansa.

A sola dos pés

E a ponta dos seios

A sorver do ar

O Ventre.


O diabo visionário

De boca escancarada

Oferece-lhe aos lábios

Os sabores da alvorada.



André Consciência

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Nilo de Saturno

Cronos


Vejo, de uma montanha, o lago abaixo. No lago, um barco. A tripulação fixa os olhos na minha direção, sem me ver, nublados de segredos e ilusões.

Desço para a praia, também eu um pouco apático, um pouco ansioso.

Na praia, escuto o galope de cavalos. Uma negritude invade a vista.  

Alguém que partiu retorna por uma porta aberta. Decido entrar. Absorvo rapidamente: um trono na sala, um cadáver no chão, um caranguejo depois dele. A minha magia é fraca. A minha palavra célere. Escuta-se o som de alguém que arrasta a mobília. Desperto:

Vejo agora um cavalo com armas medievais a carga. Ao lado, uma pedra que jaz no passado, e sobre ela um pombo que toma voo no futuro, deixando a descoberto uma flauta. No horizonte aproxima-se uma tempestade densa. 

No lago agora trémulo nada uma baleia distraída. Um alegre cheiro a petróleo. A baleia move-se continuamente, arrastando uma rede de pesca com ela e todas as palavras (todas as ciências). A mudar de aparência, corro para a gruta: 

Há água no chão. Quem quer que seja o retornado, tosse. Reparo que à entrada da gruta o terreno é rochoso. Escuto, novamente, o galope de cavalos; no céu, um relâmpago começa por confessar os segredos dos mortos que dançam. Não muito longe, uma floresta seduz-me. Tudo principia a amarelar no arvoredo, e entre o cansaço, chega finalmente o sábio burro. Agora, o amarelo reconcilia-se com o encarnado. Quando a vista regressa, vejo um homem africano, a pele negra molhada na água do amor. A minha aura resplandece. Ali está a porta aberta, e o homem, e eu atravesso: 

Dentro do quarto, algum felino pincelou a caos e no entanto, a varanda dá acesso a um jardim animalesco. Sim... é o jardim que alberga o lago. Uma moeda dourada cai do passado para o futuro, embatendo e afundando na superfície aquosa. Outra moeda se lhe segue. Depois, novamente o odor de petróleo.

Estou na montanha com cheiro a peixe e o meu trono perto da falésia. Não tenho fraquezas mas o som crescente do galope, a intensidade vermelha. Na gruta, o morto foi deposto sobre uma mesa e a água continua a correr. O morto reluz. Chegam os tambores tribais, a contar a estória da obsessão em si mesma, a água levanta sobre a mesa e o homem flutua. 

Agora, entre o fogo de artifício que se reflete no lixo metálico e no leite azedo, o homem africano traz um jovem loiro e de roupa suja pela mão. Quando entram no lago, saem limpos, e eu começo a menstruar. Á direita do homem, a mesa que erguia o morto deixa agora crescer erva. É também visível a ereção masculina. 

Na areia molhada e lamacenta da gruta de paredes negras jazem os meus pés. Há ali uma fornalha, mas apagada, as brasas abaixo de si. Um dia escutei o galope dos cavalos, e as paredes receberam a luz, deixando entrar uma cor ciana. Olho, de sexo murcho, o rio que atravessa a árvore despida. Algo flutua por ali, e na margem um sapato fedorento que me angústia e amarelece os sentidos. Está frio, húmido, e o céu tempestuoso abana o nevoeiro tudo à volta. Uma mulher desfigurada pela idade bebe rum sobre um declive do rio tóxico. Com bravura, fito o triângulo de evocação e os meus pensamentos mudam, a água aquece e no seu borbulhar traz pedras preciosas e ramos caídos à tona. Escuto o som do marejar e inalo o seu perfume. Emerge uma harpa prateada, mas manchada, de sangue. Sinto-me ansioso.

Dizia, todavia, que o triângulo de pedras está situado sobre a erva amarelecida, queimada pelo Sol, perto da queda de água, onde nada um cão, e além fica o campo repleto de corpos, camélias e perfumes florais exalados. O homem negro está morto, a meu lado, o jovem de cabelo dourado geme de dor: um porco que devora os cadáveres  


André Consciência

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Batismo de Fogo


Oláfur Arnalds - This Place Was a Shelter



I


Branco como a chuva gelada, cor de mel e feito de fogo negro, percorro a floresta nevada que se estende da Rússia de Leste, atravessa a Europa e desemboca nas Américas. Encosto-me ao pinheiro, as lascas secas e escarpadas atravessam-me na luz, as camadas húmidas e bruxuleantes. Uma ave cor de uva bica uma pinha e mistura-se com o ar, vital, e dá lugar ao javali, mas só o corvo ao cimo sabe o nome que pronunciam. 


II


As árvores secas atravessam os vales como rios picados. A neve é o meu nome. E eu procuro-te. Procuro-te no sol frio e boreal. Durante o inverno, os dias são tão curtos e a temperatura tão baixa, que o crescimento fica suspenso. As árvores brancas e pontilhadas de amarelo suportam pouca vida. Mas a terra respira. Os rios. 


III


Os salmões ancestrais elevam-se com a névoa branca e dourada, do azul crispado. Há um canto de águia, intermitente, como uma canção tua que se esqueceu. As águias são agora como borrões negros nos fios albinos e arbóreos. Quando a névoa os começa a amar, também eu estico as asas doridas e magoadas pelo gelo. Um qualquer tronco caído, e uma cabeça de plumagem branca e lança de ouro solta um canto fúnebre. 



IV 


As rapinas nidificam, a neve cai tão abundante que se tornam invisíveis entre escombros. Um vulto triste de reis e rainhas celestes de corpos pesados com a água abismal. Enquanto o inverno avança a precipitação lenitiva torna o tempo descendente e vertical. Também o ar se torna rio nebuloso.



V


Adiante, os ventos trazem ar húmido e quente do Oceano Pacífico, e eu cresço o ano inteiro, impulsionado por um desejo misterioso de regressar à alma que me fez nascer. No fim do verão, o Sol tostou a floresta tão intensamente que está tão seca como palha. Cabelos de fogo irrompem dos castanhos como uma água ruiva e os ramos pendem para baixo num abraço. A terra vomita uma densidade cinzenta. O vermelho sobe aos céus. De repente, o teu semblante na água quente, móvel e ascendente. A tua destruição aparente e a tua bondade plena. As árvores são lanças negras despidas contra a vastidão estelar. E um demónio de pó baila em espiral, uma coluna e um corredor até à nossa morada. O vento, ao varrer o chão da floresta recém exposto, levanta turbilhões de cinza. Ergues-te agora do solo sem vida. Eu vivo em ti, que te lembras, vital.    


André Consciência

domingo, 19 de abril de 2020

Caminheiro

Sunsphere - André Consciência


1.

No céu uma luz agarra a terra
A terra torna-se celeste
E o Sol, duas colunas
Sem fim, entra o clarão
A estrada ergue-se mais
Acabam as luzes
Não respires, um sonho acerca-se
Da coisa morta
E nada o privará. 


2. 

De costas vista, a alma é o passado
De frente alcançada, o futuro
É a criação que gera o criador
Agora, a pirâmide só tem topo
A primeira palavra da amalgama animal
A última palavra de um homem para todos
É a última palavra de todos a si mesmos
Um silêncio chega e arde
Um fogo congela e as asas descristalizam.


3.

Onde fica o céu só há a terra
Onde fica a terra só há o céu
Tudo o que cresce infinitamente
Recolhe infinitamente
E o mundo não o tem
Não há luz onde há a treva
Nem as trevas
Olha para mim, D'us
Reconhece-te.


4.

O tempo mostra as mãos
O trabalho solta-se em perfume
O incenso banha o espaço e chega uma visita
Um corpo de estrelas o habita
Mostra os seios e vem a noite
Ninguém habita a minha forma
Os raios da sua testa leonina
Sorvem o sangue
Mas é o sangue quem consome.


5.

Quando a onda nasce do seu pico 
Os pássaros erguem-se com fogo
E cospem na luxúria dos homens
Canções sem fim
Os imortais ficam
Tudo se abre
Cada poro do mundo
A vulva mostra a noiva
Não há sol além de mim.


6.

A boca expande-se depois do corpo
Shekinah deita-se no mantel azul
E chove com cores conhecidas e desconhecidas
A luz ergue-se da terra e a terra também é um arco
Eu estou no olho da miríade
A boca abre-se além do ovo
O que sai não pode ser dito
Mas é
Adonai salta do meu pulso.


7.

Morto, Adonai larga a espada
E a espada é um homem, uma mulher
Acima das nuvens cai, sem cessa, o Sol
A rainha senta-se, lânguida
A coroa dispara
Mas os meus pés dançam sobre a sua luz
A minha boca é um túnel, cá fora
Mas cá fora é um túnel, dentro
Para outro lugar.


8.

A divina embriagues dita
A realidade escreve
Uma torre senciente desce
Ao mundo sem fundo
Nada mais será eterno
Que o espírito move
E a morte perde o ser
Ó, coroa irradiada dos umbrais
Consome-te a ti mesma.


9.

A pedra era pedra antes e depois de a ser
O seu vulto está aqui, agora
Além de si, está ela própria
Assim canta o poeta
E a montanha ergue-se de uma só
Pedra
A folha que cai levanta
Há ouro e ouro
Poeta, poema.



André Consciência

quinta-feira, 9 de abril de 2020

TA-O

ilustração de André Consciência

No céu as mãos são rosa, não pesam e tudo erguem
Na alma a memória é futura, não foi e fará ser
No campo, as cearas erguem-se agora até às estrelas
O véu sobe também para revelar a nudez noiva
A esposa remove a morte do orgasmo e o seu fim
O espírito sagrado senta-se a seus pés
Como aos pés do guerreiro a coroa de D'us
O vinho sobe e engole o céu, as cearas, o vento
Tudo será como sempre foi.

André Consciência

domingo, 5 de maio de 2019

A Tempestade


Santuário de Fátima Masuma



Em redor do fogo há uma voz que leva a morugem a perder-se na pastagem da Primavera. Sobre as camélias, sob o capuz alto e por cima de cascos vermelhos o homem com metade do rosto mordido por estrelas montava brando. Um rio a rasgar-lhe o peito com os pensamentos incessantes dos povos, no lugar do coração a pedra verde de todas as pedras palpitava, e o sangue regava a vegetação e as papoilas e os lírios e os cravos erguiam-se do topo das suas pequenas torres e minaretes para gritar ao vento: «nada acaba, para que tudo comece, e por isso os astros devoram e têm fome» Mas ao longe, sobre os ombros egípcios de uma menina despida, cai a Lua Nova e ele vê, ela ergue uma pequena pena ornada desse um só olho que a observa contra a luz das quedas-de-água e o homem sobe, galopando o céu nocturno para romper o azul, regar o inferno e levar a justiça à boca dos cães selvagens. E um dia, sem autor algum, arderá a esperança e a lembrança no pó das luas negras.

André Consciência


quarta-feira, 3 de abril de 2019

O Poeta

O Poeta, Javier Rodriguez





Montado num boi observo com a ave de gelo ao ombro. Três mulheres sentam-se à porta da fogueira e miram as estrelas de pedra. Inteligente e nas rachas da chama cresce uma trepadeira de forte perfume. 



André Consciência

quinta-feira, 7 de março de 2019

Luz Nas Pedras



Philip Glass - Violin Concert 2nd Movement



I

Eu tinha trazido dois cães lobo, a minha sombra cinzenta e as minhas pernas compridas, ela uma sugestão, violetas na mão disforme, cabelos de prata interminável. 

Acocorei-me e voltei a cobrir-me. O dia acabaria por nascer além da orla da floresta, mas as estradas já não me incomodavam. 

II

A chuva começou a cair em impiedosas bátegas de água. Havia um travo gélido no ar. Tu enegreceste ainda mais como se caísses com o crepúsculo a estender-me um manto de ouro. A minha cabeça baixa escorre como água mas tu uma fogueira em cima da égua contra o chicote do vento e da chuva.

André Consciência

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Operário


Sisyphys (1548–49) by Titian


Um homem caminha
A brilhar de si para si
E o mundo prostra-se
Em alívio.

Aos ombros o homem traz
As brasas, e a superfície pesada
Do Sol, as suas costas negras
Esclarecem a escuridão
E há fagulhas no céu
Que se levantam do chão. 

As pernas de ferro movem-se
Uma à frente da outra, 
E alguma coisa cai com estrondo
De um lugar longínquo
Mas o homem prossegue
Os olhos postos no Inferno
E em alguém que fraqueja. 

O chumbo do seu peito
É uma clareira estranha
E quando chove o homem, pulsante 
Escreve, mas a chuva não lhe toca
E a solidão boquiaberta
Foge à sua toca.

André Consciência

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Aztlan


fotografia de Eunice Correia



I

Primeiro atravessava o céu no fogo líquido da faísca da vida e da morte, depois massas de pedra surgiram, uma deslumbrante queda de areia, a abóbada negra e depois da cor do fogo. Enquanto isso, alguém escrevia, à proa dos raios vermelhos no mar e nas nuvens, pousou numa ilhota do mar Cáspio e encontrou vestígios de conchas e duas cabanas cobertas em vidro, depois, as casas com pedras brancas, negras e vermelhas, nos pátios das quais escravos e senhores bebiam e dançavam juntos. Mais além, uma muralha de ouro, templos ornamentados de jóias e paredes de prata, e o Sol sentado. Nas proximidades, um crânio de rena, e na costa, o fogo e a água continuavam a travar combate, e os homens eram enterrados com as faces voltadas para Oeste, a contemplar completamente surpreendidos as florestas, as casas e as cidades. A fome não existe aqui, mas existem os dilúvios, nas alturas celestes o barulho das chamas.



II

Quando os homens se multiplicaram, construíram um altíssimo zigurate, fundindo as suas pedras com um relâmpago monstruoso, para que aí pudessem encontrar refúgio no caso de o segundo mundo vir a ser destruído. Ali, ensinava astronomia, com vista para as pirâmides meio-cobertas pela lava sólida. Os monarcas e os guerreiros passeavam-se nos largos ostentando cruzes ao pescoço. Todo em redor, vagas altas como montanhas, furacões, explosões vulcânicas e barbárie. Um peixe e um pai caminham-se pela costa. Uma ave metálica pia. E voam os homens-pássaro sobre os braços do mar e em redor da Lua. As luzes das estrelas apagam-se e elas sobem o céu. O meu rosto ilumina-se. Preparei-me, levantei-me e atravessei a vasta terra em que os impuros dormem sob uma massa de meteoritos. Os meus membros movidos à força celeste, o meu peito à potência do Universo, o meu semblante dez mil sóis, que só escondia para chorar a falta dos meninos do Zigurate, cujo tempo, naquele mesmo instante, desfigurava os corpos, lançando por terra as unhas e os cabelos e os vasos de barro e esbranquiçando as aves e morrendo nas regiões exteriores do espaço e por cima dos ventos.

Perdi-me em vales cheios de neve ou escondi-me nas catacumbas do fundo das montanhas. Acendi uma luz no abismo que assegurava o crescimento das plantas. Ás vezes disfarçava-me de mercador, pastor ou soldado, e surgia de súbito no deserto, montado a cavalo para dar presentes aos mongóis. Nas montanhas surgia a avançar na obscuridade de tocha na mão, e prestava socorro a viajantes. No rio Dichu, cultivava flores azuis no gelo que oferecia a alguma exploradora. Raramente, de noite, rodeava-me de massas fulgurantes que enchiam o céu de línguas de fogo e punha-me a pairar, o olhar voltado na direcção da Ilha Branca.



III

Ás vezes, quando acendo as pedras negras para aquecer a água dos banhos, o pensamento ainda foge para os dias primevos, e consigo ver a ave a arder, agigantando as árvores sob o seu calor e emprenhando os animais. Então, vinha o desejo de que a minha lâmpada eterna algum dia se apagasse também.

domingo, 29 de abril de 2018

Ao espírito dos pobres


fotografia de Soraya Moon



Ás vezes as paredes não estavam vazias
Escutava-se uma respiração familiar
Um perdão distante que alterava o rumo
Do vento, das pedras, das casas
Da vista que se escapa dos olhos
Para longe, e as paredes vazias
Surgiam no alto do campanário
Fechava os olhos com força
Á espera da ausência do tempo
O ar estarrecia, claro, altivo
Frio, e eu sozinho, inteiro
E na parede um riso de criança
Arrastava a mão para lado nenhum
E um dia cairá uma chama
Alta, do alto das campainhas,
Como um aviso, e a memória efervescente
Acenderá todos os lugares
Os campos a arder e as crianças a dançar
Sob o jugo do fogo e a habitar as paredes
Evocarão um nome que ninguém conheceu
E eu poderei rir, e a minha respiração
Há-de ser familiar, os cabelos o trigo
A palavra o ar.

André Consciência

quarta-feira, 21 de março de 2018

Ossadas

poema poeirento encontrado aquando de arrumações para sair de um campo que campo já não é


A caveira à ladeira da porta
Deixa entrar no bar
As mortes de Lisboa
E não posso deixar de pensar
Que as grandes cidades de fantasmas
São habitadas pelos vivos.

Nos campos, sopra o vento
No vento, o fôlego perdido da cidade
Até que a minha terra límpida
E brilhante
Seja o esqueleto de nunca ter sido
Cidade.

André Consciência

sábado, 4 de novembro de 2017

Gabriel


foto de: Eunice Correia



As palavras são triviais
A cabeça do girassol é uma lâmina
A ponta do alfinete um estranho oásis
A criança que lava a cabeça no rio
A tua sombra
E a mãe que porta o rosto de Deus
Uma clareira no verde
E não o sabem as palavras
Importa a nobreza das camélias
A ancestralidade das pedras
O vulto perdido das searas
Todas estas coisas que abrem
os livros.

André Consciência

domingo, 30 de julho de 2017

Malak




I 

O cisne canta ao longo da água como num tapete persa. Atravesso-o. As três árvores de granito ficam também para trás, regadas pelas suas três fontes, depois, por seu mantel, a superfície de cristal manso e líquido onde as árvores se põem a subir infinitamente para o céu, continua e visivelmente, e eu suspiro um suspiro que adapta a flora e enriquece a fauna, o veado, a lebre, a gazela. Tudo é móvel, soprado pelo poder doce, e se fixa à minha aproximação. Então, a aurora ilumina a primeira montanha, tingindo de vermelho as pedras do céu, e outra água principia a cair, onde se deleitam arcanjos femininos de Zoroastro. Pensava ter encontrado a morada que segrega a luz que sou, mas a minha luz não vinha do chão ou do céu ou da treva do pensamento, os germes cresciam e avolumavam-se numa forma em que cada gesto é um significado e eu permanecia sozinho, como um objecto iluminado cuja luz tem de ser objecto. 

II 


Aqui matei o meu filho, e ele ergueu-se com as árvores que sobem infinitamente. Já nada vem do céu ou do chão ou da penumbra do pensamento. As coisas segregam luz, a minha mão marca a pedra e o horizonte perde distância e as alturas profundidade e ganham presença. Estou cheio de flores, rios, árvores, pássaros, montanhas. O céu azul. No céu, sou o céu, no mundo, sistema nervoso. Ali, lúcido e sereno, diáfano e translúcido, compreendendo a inexistente deslocação dos corpos. Depois, rebela-se o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e as formas femíninas que penetram as águas recebem o fogo e concebem, luz sobre a luz, os homens retêm a respiração e inicia neles uma respiração outra. 


André Consciência

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Depois dos quartos

Eunice Correia




Se a manhã viesse seria crianças
A dormir no jardim com borboletas no dorso
Os seus mantos cheirando a mar
Correndo contra os primeiros alvores.


André Consciência

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Ein Sof

Tudo em tudo transborda,
Rosas de sangue, o peito
Os olhos sobre um ninho de flores selvagens.

As coisas pousam
Ao de leve, na melancolia do Sol
As andorinhas nos fios eléctricos.

Então a noite ameaça os vidros:
Acende-se nunca
A cidade que é céu
As lâmpadas fundidas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Shofar

Eunice Correia por Gonçalo Rodrigues Batista

Há um coração no circulo de pedras, silente e rumorejante no seu silêncio, que canta os dias que fui e depois se debruça sobre o tempo presente e encontra tudo isso nos traços das suas próprias mãos. Depois há uma concha, contendo uma pérola, que foi ofertada sobre o antigo altar. Um anjo sobe e materializa-se, a cantar com as penas que roçam umas nas outras.  E outro anjo desce e beija-te, lânguida ao longo das pedras como uma cobra imensa, e ajoelha os alces e levanta os dorsos das baleias do ártico e vocifera o frio mudo e a claridade. Eu abro os olhos, pendo sobre a ternura dos dias e balanço-me no pêndulo de fogo do teu ventre, o teu peito a florescer uma floresta de urze com lagos, o teu sorriso um palhaço de sangue reforçado pelas dobras do desejo. E onde a pele era um deserto a neve derrete-se, escoalha-se, revolve-se, ergue-se e canta na boca do anjo, um verme de luz insinuante. Anda, senta-te. Teçamos o mundo e as águas no fundo. Alguém voa, com os teus cabelos e o meu rosto, os teus olhos e os meus dedos. Alguém se senta, a tecer os dias sobre os quais os alces correm e o gelo chora e a cabeça alva da Lua se torna rubra. E não tenhas pena da morte, todos os homens morrem aqui. 

André Consciência, dedicado a Eunice Correia

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A Tríade






O palácio do Príncipe é uma mulher de paredes brancas e janelas voltadas ao crepúsculo. As janelas são muitas e para lá das gloriosas sacadas de ouro escuta-se o sussurrar das princesas ao longo dos beirais esculpidos. Ali, os poetas vestem-se de peles ou de seda e andorinhas migram em pequenos círculos sempre no mesmo céu. Os pomares decompõem-se com as flores que florescem, os lagartos brilham esticados e imóveis ao Sol de barbas congeladas, os homens adormecem ao meio-dia da neve que cobre as ameias, as borboletas flutuam sobre pingentes de gelo, e os pássaros de plumagem brilhante equilibram-se no vento selvagem dos locais abandonados, as mariposas maravilham-se pelos campos frios entre flocos, mais altas ainda que os contrafortes, e os gansos selvagens voam baixo, com os gloriosos insectos e as orquídeas iridescentes. As águas gorgolejam quentes sob as nuvens negras e tudo dança num círculo de luz.

André Consciência

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O Cancioneiro


Leonard Cohen


É simples o tilintar da folha, o canto alto do pássaro, é alto e é simples, e é fundo. 

Na distância vertical o vapor sobe e esfuma-se e o braseiro alumia-se e acentua-se, assim era o que fugia das mãos e o amor que teimava e vencia. 

Vê, se mesmo a treva, agora, não se tornou dócil, com o seu fruto incessante em correnteza, se a luz oriental não habitou o copo vazio, o cinzeiro apagado e a noite sem estrelas.

E sê baixo, para que tudo possas reconhecer recortado no mapa das estrelas. Deixa para a sabedoria o ser titã, alta e orgulhosa e na torre de silêncio és titã, alto e orgulhoso.