terça-feira, 8 de setembro de 2009

Portugal Progressista?



Antigamente, as questões do amor estavam mais ligadas à etiqueta do que no presente, por exemplo, filho de barão casa com filha de barão, e os casamentos eram quer política quer estratégia de negócio. Instalaram já há algum tempo uma nova Vesta em Nova York (por mérito de França e da sua revolução), e a chama que uma vez preservava toda a Roma é agora a Chama da Liberdade - a Liberdade é, cada vez mais, a Luz guia e o calor que alimenta a nossa civilização. Hoje, o ideal do amor começa também a ser a liberdade (tendo, no geral, ramificado para a leviandade).

Na Idade Média adoptamos o patriarcalismo hebreu e o prazer e a matéria eram vistos como "maus", ainda, Agostinho determinou que o sexo era a fonte de todos os pecados, e devia ser um sacrifício apenas justificável quando para procriação. Entre os atenienses, o sexo teria de ser produto da submissão e da dominação - as mulheres eram totalmente desvalorizadas. A seguir, com a ascensão da burguesia, a nudez deixa de ser vista com naturalidade, e o sexo não deve ser falado, a informação dos livros é controlada. A partir de 1870 começou a aparecer uma espécie de ciência sexual. Continua a questão dos nascimentos legítimos e dos não legítimos (a ideia é o controlo populacional).

Com a mulher a ir trabalhar então o sexo (em vez do dever) passa a ser visto como a base do casamento. Mas ainda ha a necessidade de uma contra-cultura: por exemplo, o movimento de luta pelos direitos civis e os hippies que aceitam o sexo fora do casamento, o aborto, a nudez, e.t.c. A liberdade sexual era símbolo da liberdade social. Resulta a celebração do prazer e a independência sexual. Os casais passam a poder constituir família sem filhos. Os homossexuais passam a poder ter espaços próprios, diminui o tabu sobre a sexualidade das crianças. Agora, com todas as liberdades, o sexo passa a ser o produto principal do consumismo, toda e qualquer propaganda passa a ter uma referência ao sexo, a luta pela liberdade sexual da mulher é estigmatizada: para comprar um pacote de cereais nada melhor que a imagem de uma mulher semi-nua em poses sugestivas. A liberdade ficou assim manipulada, a cenoura pendurada à frente do focinho do burro conduz o burro e descansam-se um pouco as rédeas. Agora, tudo parece mais confortável. pu** da cenoura! Está quase! Tiro na cabeça.

A sociedade que vivemos hoje conseguiu avanços quantitativos, os tabus afrouxaram, mas, esquecendo-se dos avanços qualitativos (afecto, humanização), o nosso sexo é mecânico.

Mudamos agora a palavra “amor”, para a palavra “patriotismo”, a palavra “sexo” ou “sexualidade” para a palavra “progresso”, e revemos o texto. Depois continuamos. Ao individuo move-o o amor, mas ao ser social move-o o ódio, o medo e a inveja. Assim, face ao progresso, a opinião pública tende a opor-se, no sentido de salvar a identidade, criança que procura não evoluir com medo da morte (um exemplo que evoco à memória é o facto do PS/PSD permanecerem no poder, apesar do interminável e enjoativo queixume). Portugal é um país que já morreu. Morreu, a titulo alegórico, com D. Sebastião e espreita-nos, como um grande fantasma, da névoa. Agarramos-nos à carcaça e arrastamos-la pela Região, que se tornou ninho de vermes, cães famintos, e criminosos. O mais comum dos cidadãos é educado a pensar como um escravo ou como um ladrão, porque, sem identidade, sem alma, todo o sistema, ou os seres sociais que compõem o sistema, vagueia fora da lei ou dentro da tirania. O saudosismo cria uma fronte de batalha pelos valores da terra, da história, do património cultural, edifica deuses como D. Afonso Henriques ou ainda Viriato, numa tentativa de recordar os cães de que um dia tiveram um dono e também uma matilha. “Houveram deuses, não venha então o medo. Preciso de uma razão para ser eu mesmo. Criaram aquilo que sou, por isso sei que sou eu mesmo.” Constituem-se esforços pelo tribalismo de um lado, do outro um Portugal desesperado (que morreu ainda infante) chega a sugerir o seu “velho” e virtual império, desta vez debaixo da bandeira cultural, destacando-se sobre os países pobres do nosso falecido colonialismo, enquanto por outro lado o progresso, todavia, dirige-se à universalidade, a moralidade do cientista aponta que a ciência é para o mundo, e não para uma nação em específico (excluímos a divisão ocidente/oriente). O progresso indica as liberdades, os privilégios, os prestigios, os direitos humanos (o desejo está a tornar-se sinónimo de direito) e, numa palavra, o individuo. Não obstante, o burro e a cenoura voltam a penetrar o cenário. Igualdade = direito de consumir. Fraternidade = supermecado. Luz = dinheiro. Somos produtos à venda dos nossos produtos. Como se ensina a liberdade a pessoas que conhecem apenas a promiscuidade e a arte de escravizar, mentir, e manipular? O progresso moderno tem um só ideal, a Verdade, inseparável da liberdade, porque toda a mentira é construção do medo e o medo pai de toda a opressão. Todavia nós nada sabemos desses conceitos, ficámos perdidos na névoa, com D. Sebastião, o Rei que faria do Mundo o Império de Cristo. As nossas maiores mentes sentiram esse medo da verdade e da morte tanto quanto o vulgo saca-carteiras, por isso criaram obras como “A Mensagem”, para se esconderem e ao seu povo dentro da redoma da superstição. “Alento Portugal! Alento! Afinal, somos um povo de suspiros.” É importante é dormir, porque a dormir sonhamos.

1 comentário:

  1. "O mais comum dos cidadãos é educado a pensar como um escravo ou como um ladrão (...)"


    É mesmo...sinto que somos educados para ser escravos e depois quando crescemos, dizem-nos (muitas vezes os mesmos que nos educaram): "Agora, esquece tudo o que aprendeste. Ou tornas-te ladrão, ou não te safas..."

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