sábado, 29 de setembro de 2012

Formas de Ferro




No dia do meu desapontamento

Havia rosas num mar de ferro
Não significávamos nada
E as nossas memórias sido mijadas
No topo, por mulheres furadas, e,

Com formas de leitão.


Horned Wolf

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Todas as luzes são as últimas


Last Lights - Tomabw




Visitava palácios de duendes, corais de musas, catedrais de anjos.
Há três formas de ser poeta, e nenhuma delas - existe.
Se via uma pessoa a caminhar na minha rua de palha e árvores
Pedras e cobrinhas, permanecia quieto como o mar antes
De ser mar
Sentia que o amor - ali chovia com força
E derrotava o facto da pessoa ser pessoa
Pele sem limites, quente com alma.

Se toquei a primeira alma fiquei noite
O amor procura o mundo para ser calor
Mas eu não sou do mundo. Fora do mundo
O amor é gelo que preserva o Anjo.

As minhas mãos acenderam-se: nas pessoas
As mãos são a parte da alma que está no mundo
Não existe nada sobre os sentidos
Que possa ser verificado.

O meu rosto mentia sobre tudo
Mas a culpa nunca foi minha
É a natureza dos rostos expressar-se.

Fiquei quieto, muito tempo, mesmo muito tempo
As mãos mexiam-se no vento, no baloiço
Da trepadeira, no coração apaixonado das meninas
Que ainda se apaixonam a fingir a sua própria
Crença, na videira das manhãs que roubam
O toxicodependente da loucura
E arrastam os filhos das mulheres
Aos pesadelos sem solução.

Quase desejava não ter rosto
Que me tocassem no gelo
Mesmo que morressem
Porque o frio não morre.


André Consciência

O mundo sem um mundo






O silêncio aumenta com os dias, dentro da neve.
A boca dos lobos, pendente e morta.
A pele macia da tua presença sorve a voz
Para brilhar o alto.
As memórias pairam sobre o chão moscado
As almas vertem-se na bacia dos vendavais
Do esquecimento.

Ergue-te, coisa amorfa
Do que foi confiança
No meu dissemelhante:
O coração um corvo cego
Na cabeça um martelo.

A eternidade é um machado
Que corta a vida
Do seu outro lado
E não restarão então banheiras
Para arrefecer a tosse
De estar vivo.

Os outros, que caiam
Como maçãs, surdamente
Na neve muda: os milagres
São um cântico
Ao contrário.


Horned Wolf

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Malak IX



Quantos dias passaram? Aqui as noites são da cor da uva, os dias são como um pôr do Sol em constante chuveiro, são muito amarelos. Passaram-se alguns dias, como punhados de décadas. Vi as primeiras gerações crescerem no Reino, todos me tratavam como pai e irmão, eram uma família, e eu distante, diferente. Não sei porquê. Depois na longa marquise vidrada vi chegar um pássaro brilhante como a estrela prateada. Foi igual a ver chegar a minha alma. Abri as janelas quanto pude mas tarde demais. Não voltei a falar desde esse dia. Quando me senti imóvel como uma raiz pus-me em viagem e nunca comia muito. As  auroras boreais de Outono perseguiam-me ao longo de todo o mar estreito. Por vezes subiam do Sul, numa fúria de relâmpagos e névoas verdes que levavam dias a cair. Por vezes desciam do norte, frias e graciosas, com ventos selváticos que trespassavam as tábuas. Uma vez ficara tão frio que quando acordei encontrara todo o navio coberto de luz, gelado, branco como uma pérola. Outro dia encontrara-me a sonhar aos pés de pedra de um senhor do céu qualquer, há muito morto, vejo uma estrela vermelha a sangrar no céu. Ainda me lembro do vermelho. E a ave voltou a mim, não cantava. Nunca cantava mas tínhamos uma aliança silenciosa e compreensiva. Quando notei em mim: conversava. Voltei a fazer famílias. E uma daquelas noites em que os clarões violeta pairam no ar com preguiça, a ave abriu o bico, como tantas vezes fazia, mas desta vez cantando. Uma implosão fez-me lembrar de tudo. Nunca fui humano, sempre o soube, mas construí uma muralha entre a solidão e o ser, e a principio fiquei em nenhuma das fronteiras. Agora a ave cantava e o seu cântico era a minha morte. O meu corpo sangrava azul e a multidão foi buscar paus e navalhas. 


André Consciência

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Eterno Crepúsculo



A escuridão caia sobre a cidade e, ferida, arrastava-se por mim, pelas vielas, pelos canais, agarrava-se às habitações. Há duas noites, estava em pé junto à janela, não sabia se devia praguejar ou chorar enquanto via a última luz do Sol desaparecer atrás de seios bicudos. Mas há muitos anos, nesta mesma orla de cidade onde repousa a lagoa, uma agonia repleta de luar ouviu-me cantar, sobre uma cortesã, e recompensara-me com um beijo, um estrondo oco ecoou sobre os telhados, um trovão distante. Depois, todas as pessoas se tornavam velas, mas nenhum fogo me queimava. 


André Consciência

Peixe-Lua



Uma ave desce na chuva, o dilúvio que o decora, decora-me. Eu, que sou um desejo tão antigo que se esqueceu por quem. Lá fora os homens e as mulheres de cio, iluminados pelas feras nocturnas, não me conhecem. Na praia, rompiam-se as neblinas altas dos abismos e falei-te, tu ouviste-me, quando falaste fiquei a ouvir-te: e com esta loucura julgam os deuses perder a razão, mas quando o fundo purpúreo da terra com todas as suas estrelas em cor de cereja se erguer, uma e outra vez, arrastando a noite à queda, e as magias onde vivo me deslumbrarem uma vez mais, tudo o que é sólido será ainda mais sólido, evaporado, e é dessa paixão que a madrugada acende as brasas todas do mundo, e eu ainda não me lembro. É manhã.

A terra tinha o teu sabor e bebia-me os olhos.
O tempo passa como uma neve cinzenta nos nossos cabelos.
A dor ilumina-se, a fingir uma luz que resgata.
Inicias um labor nos meus ossos, mais velho que eles.
Tudo se evapora, excepto o coração do homem morto,
...e como ele ama...
Terás sido talvez alguém que me procurou encontrando
Os meus pertences de defunto
Enquanto para mim uma fundura térrea se abre de tu seres
E não se queda jamais.

As minhas mãos têm entre os dedos
Líquenes que brilham
Luminescentes como uma vigília no sono
Não terão sido sempre sós.

Havemos de fumar um cigarro e olhar o mar.


André Consciência

sábado, 8 de setembro de 2012

Além-bismo




Dentro da casca que não se parte por estar quente
As estrelas guardam as suas premonições:

Existe uma esperança interna às coisas simples
Mas o sangue diz-nos que somos em todos os momentos
Como se a esperança fosse os momentos que já são.

Abandonado o rio, caímos como pássaros finalmente vivos,
Como a areia, voamos em círculos.

Onde está a escuridão penetrante das auroras mortas
Olho para esses momentos, o rosa dourado...

Soraya Moon & André Consciência

quinta-feira, 30 de agosto de 2012



Respiro cores quando me visito
mas visitar-me tornou-se ousado
Expandi, enlouquecendo
estou afogada em luz, já não vivo aqui
sorrio com todo o meu corpo
visitaram-me
e tudo se tornou real em mim
não preciso mais procurar os meus olhos
Mil pássaros me voam
para onde vou não há forma de compreender


Soraya Moon

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Praça do Bocage




Conversam sobre a vida
E a vida parece assim
Ligeiro assunto
Mas conhecem, todos,
A eternidade passageira
A alma em retalhos.

No conforto do lar
Reflicto depois, abrindo a asa
Que me sobra da outra asa
Nada importa,
Nem se a vida surge viva
Ou morta:

Tudo o que há
É o que passa
E o que passa
Fica, como uma praça
Onde conversam sobre a vida
E a vida parece
Que amanhece.


André Consciência

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

And Death Shall Have No Dominion





Defuntos nus fundir-se-ão
Com a lua a poente e o homem do vento;
Quando os seus ossos forem limpos e os limpos ossos varridos,
Haverão estrelas onde haviam pés e cotovelos;
Ainda que enlouqueçam serão sãos,
Ainda que se afundem no mar deverão emergir;
Ainda que se percam amantes não se perderá o amor;
E a morte não dominará.

E a morte não dominará.
Sob as dobras do mar
Aqueles que há muito jazem não perecerão ao vento;
Contorcendo-se desesperadamente enquanto sem romperem
Acorrentados a uma roda, os tendões cedem;
A fé nas suas mãos fender-se-á,
E os males unicórnios atropelam;
Em todas as extremidades rachadas estão ainda intactos;
E a morte não dominará.

E a morte não dominará.
As gaivotas não tornarão a chorar aos seus ouvidos
Ou as ondas a quebrar alto nas costas;
Onde uma flor desabrochou nenhuma outra flor
Erguerá a cabeça às investidas da chuva;
Ainda que estejam enlouquecidas e mortas como pregos,
As suas cabeças martelarão as margaridas;
Irrompem ao Sol até que o Sol se rompa,
E a morte não dominará.


Dylan Thomas
Traduzido por André Consciência

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Dentro do Fim

I

A vida acaba cedo
E prolonga-se tarde demais
Gostava de viver noutro tempo
Noutra terra, partir de outro cais
Onde o teu nome gravado
Não fosse um nunca mais...


II

É de manhã
Tive de vender o carro
Por 150 euros.

Lembras-te das nuvens
Como eram
Nas outras manhãs
Perfilhadas como corredores brancos
Por dentro do teu carro
Com bancos recolhidos
Onde nos deitávamos sobre nós
Com mais que sentidos?


III

Dói-me existir
Sem a dignidade possível
Dos primeiros momentos.

Os pássaros voam sobre as carcaças translúcidas
Das nossas almas pouco lúcidas
Que se lavam nas margens de beijos,
Ou de mulheres abertas com filhos
E homens que choram em brilhos.


IV


As luzes na penumbra dos aguaceiros deixam-me morrer menos sozinho.

Ninguém me lembre, tudo o que eu fui não foi caminho.


André Consciência

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pós-Sonho




Todas as janelas se tornaram negras
O fedor da morte estava
A ficar mais forte
O Sol pusera-se de vez
Asas pretas batiam contra o ar
Da noite enquanto procuravam
Uma forma de entrar
Conseguia ver a ténue luz
De estrelas distantes
Como um noivo a caminho da cama
Um corvo jantava um rei
Pelas portas da Mãe marcharam mulheres brancas.


Horned Wolf

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os Homens Ocos

I

Somos vazios
Homens de palha
Inclinamo-nos juntos
Elmos com cerradura. Ei-las!
As nossas vozes secas, no momento
Em que juntos sussurramos
Estão quietas e obsoletas
Como vento na erva morta
Ou passos de rato sobre vidro partido
No nosso abafado sótão 

Contorno sem forma, mancha sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;

Aqueles que passaram
De olhos directos, para o Reino outro da morte
Recordem-nos - se de todo - não como almas
Perdidas e violentas, mas apenas
Como os homens ocos
E empalhados.



II

Olhos que temo ver em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Ali, os olhos são
Sol na coluna quebrada
Ali, uma árvore que balança
E vozes são
Na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que a estrela desvanecente.

Que demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
E que vista
Enganos mui deliberados
Casacos de rato, pele de corvo, estacas cruzadas
Num campo
A comportar-me como o vento
E não mais -

Não aquele último encontro
No reino do crepúsculo.



III

Eis a terra morta
Eis a terra dos cactos
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui recebem
A suplica da mão de um morto
Sob a radiância de uma estrela moribunda.

É assim
No reino outro da morte
Acordar sós
Na hora em que nós
Trememos de ternura
Lábios que beijariam
Formam preces à pedra quebrada.


IV

Os olhos não estão cá
Cá, não há olhos
Neste vale de estrelas a morrer
Neste vale oco
Esta mandíbula estilhaçada dos nossos reinos perdidos
Neste último dos lugares de encontro
Tacteamos juntos
A evitar discurso
Reunidos nesta praia do rio túrgido

Cegos, a não ser
Que olhos ressurjam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino crepuscular da morte
A esperança apenas
De homens ocos.


V

Aqui rondamos a figueira-brava
Brava figueira brava figueira
Aqui rondamos a figueira-brava
Ás cinco da manhã
Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o acto
Cai a Sombra
Pois Vosso é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a resposta
Cai a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descida
Cai a Sombra
Pois Vosso é o Reino
Pois Vosso é
A vida é
Pois Vosso é

É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
Não com um estrondo, com um suspiro.


T. S. Elliot
Tradução de André Consciência

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vénus Desarma Cúpido



Não sabia o que desejar, tal como não sabia o que esperava sob aquela luz distante. Os flocos pairavam com a suavidade e o silêncio da memória, cobrindo a erva, salpicando de branco os arbustos e as estátuas e inclinando os ramos das árvores. A neve doía-lhe naquela manhã. Partira com os flocos a turbilhonar à sua volta para ver o grande e vasto mundo. Da mesma forma, a esposa deixou as portadas abertas enquanto se despia. Despiu um manto de raposa branca, luvas de couro, botas atadas a nível do joelho, dois pares de meias para as pernas, o vestido de lã azul, e a roupa interior de seda e linho, quando a neve começou a entrar pela janela. Sustive a respiração, sem desejar perturbar uma beleza tão perfeita. O silêncio fantasmagórico caía e caía, e acumulava-se numa camada grossa e contínua no chão. O mundo tinha fugido de todas as cores. Era finalmente negro, cinzento e branco. Um mundo puro. Flocos de neve roçavam o rosto da estátua da Mulher Chorosa no centro do jardim, com a leveza dos beijos de um amante. Viraram o olhar para o céu e sentiram a neve nas pestanas, saborearam-na nos lábios.

Horned Wolf

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Aneis de Vénus

Venus Disarming Cupid - Parmigianino

Prato 1

Vénus, com um lampião numa mão, uma rosa na outra, uma espada na terceira e uma foice na quarta brame para o sacerdote do fogo secreto - mero aspirante, neste caso -, que foi da luz e depois vendado pois de outro modo os seus olhos consumiriam o mundo:

«O segredo desta porta é ser em oposição a ter»

O aspirante pôs-se a pensar, demorando-se.

Vénus: 

«Estávamos a conversar, mas deixaste de me olhar»

O aspirante:

«Se não pondero movo-me no mundo como uma besta, e sou apenas o que me dá o universo a ser. Sem a razão o homem cai num buraco do qual não poderá sair mais tarde - nisto os escolares não estavam errados, arrisca a condenação que dura sempre»

O anjo que mencionamos sob o nome de Vénus:

«Muitas vezes confunde o profano a vigilância com o pensamento vago e vagueante onde se perde e se faz distraído - esta é que é a tentação do ter. Fecha os olhos longamente, no escuro, não te movas e fita a chama do teu fundo, sob pretexto desta questão. O que vedes?»

O aspirante:

«Um homem. Ficou cego. Ficou cego por muito tempo e os seus olhos tornaram-se estrelas. Este homem vê dois mastins a combaterem no Inferno»

O anjo:

«E atrás desse véu?»

O aspirante:

«Um homem ficou cego por muito tempo até perder o medo da escuridão, e quando perdeu o medo os seus olhos tornaram-se estrelas. Um dia este homem viu uma mulher cuja pele era branca como a Lua e os olhos dois astros azuis. Porque não tinha medo, combateu-a e amou-a. Com ela deu à luz filhos e gerou vida, apesar da mulher ser a morte»

O anjo:

«E atrás desse véu?»

O aspirante:

«Um rei construiu uma muralha para preservar a civilização. Emparedou-se na parte externa a vigiar para fora, de forma que só aqueles sem motivos para temer a luz do rei fizessem estadia no seu reino»

O anjo:

O anjo calou-se.




Horned Wolf

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Ver Estrelas Cadentes




A muralha chorou e o Sol atravessou lentamente um céu de um azul forte, perto do cair da noite. As sombras estendiam-se negras e bem definidas por todo o castelo. O ocidente tomara a cor de uma nódoa negra, mas o céu por cima da sua cabeça mostrava-se azul cobalto, aprofundando-se até ao púrpura, e as estrelas começavam a surgir. Sentou-se entre melros, apenas com um espantalho como companhia, e observou-a a galopar pelo céu acima, com uma seta entre os seios. Os cristais de gelo tinham pousado no seu rosto, e, ao luar, parecia que estava a usar uma máscara cintilante de prata.   

Horned Wolf

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sete Céus





I


Atravessando casinhas, pavilhões e torres pequenas, rosáceas e arabescos esculpidos no gelo, fizemos amor nas varandas de balaustradas finas como teias de aranha... Diante de nós a majestosa catedral, cuja porta de gelo tem gravado um pássaro com as asas abertas estendidas para o céu. Fico a olhar para ti, um órgão de gelo escassamente iluminado por raios de luz, sem fazer a mínima ideia de como se toca. Um Gigante da Geada esconde-se atrás de uns rochedos, lá em baixo no vale. Disparas uma saraivada de esferazinhas cor de pérola, que me explodem em cima com efeitos mágicos muito agradáveis. Ouve-se um suspiro fundo e dolorido pelos subterrâneos. As tuas ancas ganham vida e emitem agora um azul da cor do céu. A tua pele está fria, sem ser gelada, e não se derrete. Lá fora, as montanhas continuam até perder de vista, cortadas ao longe por um planalto. O vento faz rodopiar os flocos de neve. O céu está tão claro e azul como nunca vi e os raios do Sol de Inverno reflectem-se intensamente na neve, quase a cegar-nos. Atrás da varanda e das janelas cobertas de geada, a porta dá para uma cela onde jaz um homem acorrentado de pés e mãos à parede de pedra preta e lisa.



II

O Terror dá lugar ao alívio, o Pássaro de Gelo canta outra vez e os duendes fazem coro com ele numa polifonia harmoniosa cujos ecos chegam aos cantos mais recônditos da Catedral. Um grande mocho branco desce a meio da noite, em tom reprovador. Ela é toda uma chuva luminosa de partículas douradas que me enregelam e me oferecem vitalidade. Pego nas chaves de gelo e penduro-as ao lado do órgão. As botas rangem na neve endurecida, quando atravesso casinhas, pavilhões e torres pequenas. Desemboco num cemitério todo salpicado de neve. Algo absolutamente selvático andou a abrir as tuas sepulturas, deixando espalhados fragmentos de gelo e os teus corpos amortalhados em fases diferentes. Sente-se no ar o teu desassossego. Crepita ainda um fogo frio já muito fraco. O pior é que o nosso pequeno quarto está vazio, apenas tapado por uma camada de pó. Talvez fosse imaginação minha, mas era capaz de jurar que ouvi risos ainda há pouco... 



III

A rir, corres para uma das paredes de gelo e dissolves-te nela. Fugiste com uma das minhas coisas! O brinquedo que colocavas à cintura está a desfazer-se por causa do frio e da humidade. Ao entardecer, avisto um alce a comer líquenes nuns rochedos. Uma nuvem de neve está a descer a encosta. As pessoas estão a vestir uma espécie de arreios, após o que saltam para os céus numa espécie de arco. Ao maravilhoso canto do pássaro, as enormes portas de gelo abrem-se de par em par. Continuo na direcção do coro e do órgão. Sobre o teclado está suspenso um enorme anjo de gelo. Parece mentira, mas o bonito pássaro conseguiu sobreviver no meio do calor e da humidade deste lugar infernal. Abre as asas e levanta voo! As tuas feições contraem-se num esgar de espanto e de amor, mas logo lanças para o ar uma magia que faz explodir a ave em mil fragmentos. O problema é que, no vale, a neve é muito espessa e temos de andar constantemente às voltas para nos desviarmos dos montões brancos. De manhã, comemos outra vez, faço-te uma boa massagem nos músculos doridos das pernas e retomamos a caminhada. Soltas um risinho abafado e disparas uma saraivada de beijos. O teu corpo cor de cobre invisível é encimado por duas enormes cabeças de dragão. A força e a bondade que irradias quase me paralisam de pavor. O Pássaro de Gelo endireita a cabeça e começa a cantar. Entoa uns acordes de forma magnífica e, depois, volta a esconder a cabeça debaixo da asa. 



IV

Cheira a queimado e a enxofre. Com a garganta irritada e os olhos a arder, abraço-te. Partimos em direcção ao norte, rezando para que a criatura que por aqui sobrevoa não me veja. Desamarramos a manta de peles no meio do pinhal e preparamo-nos para dormir. É óbvio que as salas foram todas saqueadas. As portas estão arrombadas e as esculturas e decorações de gelo feitas em pedaços. De tempos a tempos, ouço-te gemer do lado de lá da porta. É assim: o coração da Torre está no centro, atrás da Parede Preta. Pus-te no dedo um anel de prata muito simples. O dia está a acabar. A tarde passa devagar... Das tuas mãos sai um perfume, rosado e bem cheiroso, que me bate em cheio na cara. Lá de cima caem flocos de neve, que ficam suspensos a meia altura e rodopiam em torno da tua forma coberta de pingentes de gelo. O Sol põe-se no horizonte e sopra uma nortada agreste.  A tua voz é liquido dourado com reflexos azuis. Tenho uma noite cheia de sonhos estranhos com castelos e torres de gelo no meio de uma planície gélida e sem sombra de vida. Acordo. Subo a escadaria e abro a porta. As paredes da sala estão tapadas de baixos-relevos e esculturas de uma qualidade impressionante. Colunas de gelo com veios de cores delicadas elevam-se em formas sinuosas até ao tecto; a um dos lados, vejo o que me parece ser um órgão. 


V

Fazes uma vénia e conduzes-me à câmara principal, depois, desapareces com as tuas vestimentas. Um pouco receoso, avanço para a luz. E na manhã seguinte também. Os cães começam a ganir e afastam-se da beira do planalto. Caminho quase todo o dia até ficar exausto e com os olhos a arder por causa dos reflexos do Sol na neve. De manhã, comes uma refeição e vais lá para fora esticar as pernas, olhando para o céu azul pulvilhado de nuvens. És como uma forma alada no céu, para sul. Salta à vista que roubaram tudo o que havia de valor no quarto. Um molho de chaves e a tua túnica é tudo o que resta. Ficámos a ver o alce pastar, todo satisfeito. De repente, sinto-me alto e com porte de rei. Mal o dia nasce, comes uma refeição e partes rumo a leste. Ao princípio da tarde, chegámos a uma escarpa plana, sobranceira a um grande vale. Lá ao longe pasta um rebanho de alces. O Sol brilha no azul pálido do céu, mas os seus raios são completamente desprovidos de calor. As tuas cores cintilam ao Sol de Inverno. É que há coisas ainda piores que a morte. A porta dá para lá da cela, onde jaz um homem algemado e acorrentado, ofereço-lhe um livro castanho com apenas cinco parágrafos. «Isto alegra-me o coração e dá-me forças!», diz baixinho. A tua túnica é a última a saltar no espaço. A beleza do cântico em coro polifónico, que soa à distância, é de cortar a respiração. Bem que gostaria de ficar ali a ouvir. Não se pode separar o livro castanho do Pássaro de Gelo, porque a lombada do livro está presa à pata do pássaro. Ao fim do dia encontrei o teu corpo na neve preso numa armadilha. Na altura ainda estavas quente. Ainda irradiavas uma luz tão intensa, que mal podia distinguir os traços do teu rosto bondoso e afável.


André Consciência

Silêncio das Espadas





Á luz azul prateada das espadas
As lâminas criavam pequenas ilhas
A  rapariga parecia pálida e feroz
Envolta em silêncio e couraçada de neve
O rapaz ardia com uma luz fria
Branca, vermelha, escura
Deram por si no meio da escuridão estrelada
No interior de um grupo de árvores
O luar cintilava, pálido
Sobre o toco no qual descansaram a cabeça
O musgo cobria-os de tal forma
Que antes não notara que a carne estava
Branca.

Entrei numa sala vazia e vi uma cadeira vazia.

O meio-dia arrasta um castelo que se debruça sobre o lago.


Horned Wolf

terça-feira, 17 de julho de 2012

Deserto




Cavalguei até de madrugada enquanto as estrelas olhavam para baixo como se fossem olhos, e os dias que vivi são tão incontáveis quanto as há no céu. Gostava de dormir no salão arruinado, sob a lua e sob as estrelas, apertava-me à pele de leão e sempre que regressava trazia uma nova canção. Gostava de penetrar um circulo no meu coração, ver as últimas luzes que desapareciam a ocidente e as tempestades que se enfureciam para norte, mas o peito estava acima das chuvas: não, não acima do vento, que se faz sentir como se alguém nos puxasse pelo manto: é que o coração, e isto é quanto mais alto é, está assombrado: olha para as profundezas das chamas como se nada mais existisse no mundo inteiro. Hoje, o cabelo cai-me às mãos-cheias, ninguém me beija há mil anos, e não gosto das chamas pois o carvalho sonha a bolota e a bolota sonha o carvalho e o fogo é tudo aquilo que separa a vida da vida. Puxei o capuz do manto para cima da cabeça, e encolhi-me, empapado e a tremer de calor, sem jamais esmorecer. Os cascos do cavalo faziam sons de sucção ao libertarem-se da lama. Cavalgava para Sul, a fim de defender um castelo vazio, uma aldeia queimada entregue ao archote anos atrás, casebres enegrecidos e sem telhados, ervas daninhas que me davam pela cintura.            


Horned Wolf 

Último Dia




A vida, com os seus comprimentos e pináculos, elevando-se sobre as pequenas grandes coisas. Quebramos correntes, destruímos a maldade e com ela a cor do olhar, o eixo das mãos fraternas, o amor intermitente da paixão intemporal, zangamo-nos com a perda, a traição, o afastamento, ficamos mais atentos e mais apáticos, tudo se torna cada vez mais gigante mas já não nos assustaria o maior gigante. Olha, como trilhamos o pó, como navegamos na espuma dos nossos sonhos à semelhança da brancura fugaz sobre as ondas. Hoje é o último dia, o vento sopra igual sobre o dourado do campo e o vermelho das folhas, a água sussurra nitidamente como quando eu era ainda um pequeno mago de ouvidos limpos. Mas olha, tudo o que eu fiz brilha. No último dia fica a gratidão e uma enorme saudade. Porque aqueles que se partilham nunca se zangam, o que se zanga é outra coisa, uma coisa que nunca venceu a vida mas que só a morte pode derrotar. É o último dia. Por favor. Seja o último dia.



André Consciência

Outono



Milhas de campos e pomares enegrecidos
Ribeiros cheios pelas chuvas do Outono
As noites fremiam com os uivos de lobos
A Donzela montava um salmão vermelho
Flutuava sobre o castelo na sua colina

Um punhado de cães selvagens
Três corvos levantaram voo
Cinco raparigas mergulharam
Na lagoa da nascente

O verde começou a regressar
Meia milha mais à frente.


Horned Wolf

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ruína em pé entre as ruínas

Thorton Oakley



Fora de tom o mundo gira, a inocência dói
As promessas apelam com cantos de mãe e caiem
Sem saber o que fazer os mares modificam-se.

As páginas mudam, mas eu não.
Todos os homens dormem em vão, porém
Nesta câmara e de pulmões cheios de água
Fito o espaço, e não chamo ninguém
E ninguém segue ninguém.


André Consciência

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Alaúde Revolto





Caminhava descalço e nu na neve, dedilhando o seu alaúde e enchendo a noite com uma música estranha e selvagem. Tinha subido aos ermos e desolados colmilhos de gelo em busca de uma canção terrível o suficiente para derrubar a muralha que separa o mundo do mundo.  O vento estava a soprar neve para os seus olhos. Viu o cavalo morto, estatelado no sopé do monte, meio enterrado na brancura espessa. Viu os outros, todos os outros, com as extremidades retorcidas de um modo grotesco e os olhos cegos fixos na morte, os corvos a esvoaçar de um para o outro. Virara-se ao ouvir o súbito som de asas. Que a pedra o lembrasse, ao último dos homens, ao pai do primeiro silêncio.


Horned Wolf 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Rotura de Águas





Havia um terraço, amplo, e a sua vista larga, e a minha vista larga e ampla.
Havia um terraço. O Sol batia. O Terraço, a grande liberdade. Era o teu corpo
No nosso corpo. E o Sol, resplandecente, batia, e apertava-nos e embalava-nos
Num sufoco amarelo, e dourado, e num sufoco envenenado. Eu ficava todo penas
Se te tocava, todo asa, tu toda voo. Imaginávamos por isso saltar os limites
Do Terraço, e fazer do mundo o nosso terraço.

E depois do primeiro pôr do Sol, não voltei a ver-te
O nascer do Sol era uma consequência sem causa
As asas feriam-me o corpo, não paravam de crescer
Em tantos lugares, as asas, arrastavam-me pelo chão,
Nos lugares do vento, contra mulheres despidas e homens
Desarmados.

André Consciência

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Goths




I

O ocaso já se espalhava pela floresta
Os cães ganiam quando o Sol se escondia
Quando o Sol se escondia, podiamos encontrar sozinhos
Os nossos festins



II

Porque vou morrer, eu visto-me de preto
Como uma espada na escuridão, ou um fogo que arde
Contra o frio, ou uma luz que precede
A alvorada, ou a trombeta sobre os rostos
Dos que dormem;

E quando o vento dedilhar a muralha
Ou as chamas estremecerem com frio
O fogo nas minhas vestes será apenas
Como um súbito silêncio.


III

Soprei-lhe o cabelo suave e perfumado
Para ouvir as aves a cantar, e sentir-me
Como o rio a correr debaixo do barco.



IV

Os homens olhavam-me com olhos mortiços
Um carvalho morto cheio de mulheres vivas
A cheirar a chuva.


Horned Wolf

sábado, 16 de junho de 2012

Noite, Lisboa




Vislumbro o meu rosto, no vidro baço, o meu corpo, exulto em sombra. Os demónios nocturnos da cidade uivam e guincham e não abafam risos de hiena, por vezes, derrubam também um contentor. Eu lembro-me de que nunca fico assim, mas quando uivo, e uivo melhor que os lobos, não é para as ratazanas. Contraponho a minha embriaguez de fogo com esta corrente de urina. De vez em quando, a passos silenciosos e quietos, dou a volta ao quarteirão, outras permaneço exactamente imóvel nos  bancos cinzentos do palco de cinza ao lado da montra do "Amo-te Chiado", que é desenhada com um coração vermelho de vidro. Movo só a cigarrilha ou a chama que há na cigarrilha, quando puxo. Se passam reparam já muito perto, em mim, e os demónios enchem-se de um horror calado e voltam a tornar-se ruidosos só no topo das escadas. São quatro e meia da manhã. Não estive sempre aqui, mas muitos becos cheiravam a mijo. Penso que poderia estar a escrever, se tivesse papel. Ás cinco,enviei uma mensagem, ouvia-se o ruído electrónico das teclas ecoar em toda Lisboa. Hoje, Os Bardo Cego, projecto de música/teatro improvisado, que mentorizei e onde actuava, foram censurados, tendo assustado, e recordei-me só no barco às seis da manhã, do caso de Artaud. 


"O Caos é uma Ordem por decifrar", diz a parede no Campo de Cebolas, uma frase que cintila na restante treva da pseudo-filosofia dos dois edifícios colados e decadentes. Os Santos Populares foram há não muito, existe uma esplanada montada perto dos táxis que permanece activa, os bêbados e as bêbadas trocavam piropos, as bêbadas, com roupas populares, olhavam-me por baixo das luzes populares, e os homens, pensavam em pedir-me um cigarro que, apesar disso, não pediam. Ao passar pelo arco no terreiro do paço, houve um grande curto circuito a um metro e meio de mim, os sinais de trânsito foram interrompidos. A seguir havia muita polícia, e o Continente montava, na penumbra das não-testemunhas da noite, um estaminé de palha e madeira, que, como sempre, me impede de caminhar a direito, ocupando espaço e silêncio. Agora estou sentado com a única cerveja que bebi, no Campo das Cebolas, e, depois do ruidoso acelera que a rasou, observo a mulher polícia que foi colocada sozinha no cruzamento.  Esta, observa-me reciprocamente, numa conversa indiferente. Levanto-me a passos demorados, há-de haver um barco.

Neste momento e neste país sou relativamente reconhecido, os grandes pedem-me favores, mas eu, que mal tenho de comer, e não tenho como pagar aos meus artistas - que me nutrem ainda assim uma esquisita admiração - sou um porteiro, à margem da "civilização". Hoje perdi grande parte do que me resta: quando vislumbrei o meu rosto, no vidro baço, e o meu corpo exulto em sombra, senti-me, como é hábito, forte e duro como as rochas, e desejei ter poder para acabar com o meu corpo de montanha e a minha alma de céu, mas sou pequeno como o pardal nas estações das quais é Deus e ignorante.

Um amarelo torrado rompe o céu a meio-Tejo, uma miríade de anestesias e estimulantes diferentes racha-me a consciência, e tudo está parado.


André Consciência

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Em Busca da Origem do Nilo


sen benim zamanımsın


Agora,  para onde quer que olhássemos
Víamos grandes árvores
Com vastos espaços verdes entre os fantásticos
Troncos, à distância, monumentos
De granito cinzento
Nas planícies de erva amarela
À sombra frondosa dos bosques
De acácias, começaram a mover-se.

André Consciência

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Arquivo

I

Pela espuma da manhã, passam,
Nus, os teus membros.

Saúdo-te, os teus seios pintados
Num poema que do corpo não fala
Nem descreve a sombra alta
Do teu vulto na manhã.



II

A espuma do crepúsculo rende-me
E o corpo,
Despido e vencido
Debaixo daquela manhã
Descreve-te horas a fio com vento
Que me passa na pele, no cabelo,
No papel.


André Consciência

sábado, 12 de maio de 2012

Albatroz Errante




As estrelas na carência.

Eu, também, um dia
Fui de Sol, sentia-me a nascer
A luz quente de enternecer.

Morremos, se morremos,
E gloriosa a chama há
Dessa incumbência
A latência da latência
De um dia matar
A solidão de todos
Os outros dias.

Nada passa, nada consome
Mas contra a costa um barco
Enfurece, e tudo em nós
Se torna cântico de nenhuma voz,
Que só ouve... o albatroz.


André Consciência





É alto mar, por vezes, a marinhagem cai
E caça um albatroz, ave enorme e feroz,
Que num voo triunfal, numa carreira assaz
Faz seguir pelo azul a viajante embarcação.

Mas quando o albatroz preso, e suspendido
Nas tábuas do convés, - pobre rei em vão temido!
Que dó nos traz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para os pés!

Rei do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Desproporcional e gentil, ei-lo grotesco e imbecil!...
Ao bico um leva o fumo do cachimbo
Outro mutila a pata da ave inerme.

O poeta é como esta marinha águia
Que desdenha a bússola, e afronta os vendavais;
Exilado em terra, entre escarninha plebe
Não o deixam caminhar as asas infernais!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de André Consciência

domingo, 6 de maio de 2012

Since 1985


Deste ponto a ponto distinto
César vive e espalha a sua rede
De pescar espíritos.

Nos anos trinta, a Queda do Homem,
Na altura eu e tu comíamos pizza
- Em Leiria -
E na televisão os coros apostólicos
Rodavam as nossas cabeças com
Canais da MEO.

Nos anos subterrâneos era tudo
A Palestina, com os super heróis
Mitológico-americanos
A rir-se debaixo da Lua
Dos monhés armados,
Eu fumava na banheira
O cigarro que tu também
Experimentavas em mim o bâton
Que nunca usaste em ti
E com água nos dedos
Lavavas-me lábios.

Nos anos 40, a Casa Branca mudara-se
Para o fundo do oceano, e ali escondia
As suas mentiras; à superfície
As habitações ardiam.

Era a Noite dos Mortos
Eu estava desesperadamente só
E o telemóvel, que me não deixava
Paz.


André Consciência

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Seal of the Prophets

Lucifer - Guillaume Geefs 

Quando o Sol desmaiava no horizonte recortado de granito, eu prosseguia. O deserto à minha volta, imóvel, movia-se ameaçadoramente. Tão intenso que mesmo o meu espírito forte se sentia igualado. A minha coluna ondulava como uma serpente ferida pelos filões de rochas negras e pelas dunas de tons verdes, seguindo a estrada antiga, ao longo da qual nenhum viajante se conhecia haver passado. 

Quando a noite por fim se levantou sobre mim, o céu ressuscitou com tantas estrelas eclipsantes e a areia do deserto encontrava-se tão brilhante, que do lugar onde eu ia a trezentos passos conseguia ver a estátua da humanidade, longe de todos os homens e de todas as mulheres.

Horned Wolf

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Elefantina























Travels to discover the source of the Nile - James Bruce


O estreito começava no rio
De cada lado, a terra verde
Com faixas.

Através de nós
O Sul navegando
Mais e mais.

Apertava-nos o que parecia ser
O deserto.

A conturbação do Nilo sobre as águas
Debruçava o seu peso verdejante
A esmagar os campos de granito negro.

Penhascos altos entre passagens
Estranguladas, e selvaticamente
Açoitadas.

Os estreitos empurravam uma corrente
De ilhas asfixiadas.

Um tubarão monstruoso
Persegue os baixios
De carácter e cor distinta
Usurpador do deserto no rio.

O calor na miragem dançava
Salpicando montes negros.

Estes desertos tinham em comum
Ser assassinos do homem.

Um rio de prata
Incrustava-se na coroa verde
E reluzente

Uma sombra esverdiada
Em forma
De guarda-chuva

O palácio do faraó estendia-se.


Horned Wolf

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Chunguila

Tatiana Portrait - André Consciência




I

Tu, ao anoitecer
Tremeluzente sobre o rio
A gotejar um voo triunfal
Tilintavas a despedida solar
E arrepiavas-te ao ver-me
Escrever deste terraço
Sonante e sentado

Mas tu maior que eu
A escapar no meu poema



II

Ao crepúsculo, sentado no terraço
Vejo Oeste tomar o mundo de surpresa
Com flores cansadas atrás de sombras
A brilhar envolta de colinas

Arde contra a corrente obscura o verde
Do castanho nos teus olhos, e pairas
Entre o dia e a noite, móis a luz
E cozes uma tapeçaria de projecções

Furas debaixo das pontes, uma súbita
Tremura de ar contra si mesmo
A ondulação pára a água
E os pardais deitam-se tarde.


André Consciência

domingo, 22 de abril de 2012

Mistress






A cobra veio ao poço
E eu, de pijama,
Num dia de calor
Á sombra funda e estranha
Com perfume da macieira
Ladeando a escadaria
Onde se espera
Descer o poço.

Ela entrou na soturna fissura
Da muralha de pedra
Amarela e suave e toda uma barriga
A fazer o fim da pedra
A descansar toda garganta
No topo da pedra
Onde a água mais pingava na ascendente
Vertical ela bebia de boca direita
Glandulas lânguidas e silêncio húmido

Eu esperava, e o meu poço
Não era meu, a cabeça ela ergueu
E baixou, e mais bebeu.

E o meu poço não era meu,
Mas eu era negro, negro
E inocente, e ela dourada
Resplandecente.


Horned Wolf

O Verão da Noite






Uma mulher alta, avançando
Na ondulação dos seus cabelos de dormir
Tropeçou no quarto encoberto
Do silêncio fora da porta do quarto
Entrando viu uma pira e um homem
Que a pira erguia à espera

De arder.


Á vista disto, empinou-se
Pés erectos como um arco esticado
Ou a proa de um barco, esticou para trás
A cabeça, e ficou a ver as sombras
Num mar de neve, com sinos de gelo a tocar
E ela viu-o, a cair como feno em chamas
E deitou-se como um fantasma molhado e um
Tapete, no solo abaixo

Suave como a pétala que cai
Da flor, sem ser ouvida
A entrada eclipsada, o olho escuro
E grave do seu sexo, afundou-se no esquecimento
Em orgulhosa sucção.


Horned Wolf

Comedor de Branco
























Night Train - Kent Whitaker



Um comboio
Caia da linha
Para o espaço
E um meteorito
Desaparecia
Para dentro

Uma realidade
Caia da ilusão
Para os olhos
E um trovão
Ejectava-se para cima

Os olhos caiam do comboio
Para o comboio que caia dos olhos
E o tempo despedia-se
De outro tempo


Horned Wolf

Vou Nevar

Verge - David Jay Spyker



O sangue do Sol é a névoa
Com as suas coxas cinzentas
E espasmódicas

Como penhascos a abundarem
Na sombra do oceano
Em cinza.

Os becos sem saída enterram
O sexo na areia do descampado
Suficientemente longe para escapar
Ás investidas da manhã.

O meu elmo embaciado
Reflecte o movimento aéreo
Dos anjos altos que avançam
Pela treva alerta e sobre nós.


Horned Wolf

Som Branco







Ao sairmos do bosque
A Grande Luz
Içou a noite
Vestida de branco


Tu, o que serás
Tão justa - o cintilante
Passo desajeitado
E vestido de branco.


Como qualquer campo
Em neve e quente perseguição
A ofegante noite afagou
O nosso rosto.


O corpo aquecido da noite branca era
Como os perfumes da tua garganta
Acendida na noite e branca
Uma estocada que encanta.


A pulsar por toda a fusão de nós
Uma coisa que escapa sem escapar
E uma raiva colosso, a morte
O cintilante passo desajeitado
E vestido de branco.


Em reverência e êxtase
Inteira e branca, a noite
Fita mudamente a árvore negra
Que desflorou para dentro
A transformar-se, no fantasma luminoso
De um anjo indecoroso.



Horned Wolf

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aleph



Cristo pestaneja. A Lua à sua frente rege um movimento, a noite negra da alma espalha-se no chão, escorrendo do astro ferido. A morte entre um passo e o outro, o caos e a destruição estendendo os braços, querendo arrasta-lo para o estado de graça. Bebe o vinho de uma virgem, pois todas as virgens são ainda serpentes - ninguém se torna virgem sem antes cair do céu, e ninguém sobe, sem que, ao descer, ela tenha marcado o caminho que esqueceu. "Um dia, destruirei a civilização e descobrirei por isso Atlantis..." - "O Cordeiro, expulso do reino celeste, sofre o amor de Deus, mas o amor de Deus é a Serpente e a Serpente é o Céu" - "Os licores do Sol pode o homem beber numa mulher, e os licores da Lua bebe a mulher num homem, se para as bocas um do outro verterem todo o seu sangue"

André Consciência

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Camélia Incendiária




Há-de nascer em mim uma última camélia
Naquele momento em que tudo o que
Alguma vez fiz acreditado, ceder
E ficar a noite comprida sobre
Os nossos ombros gastos e marmóreos
Com a Lua a coroar o abismo
Das coisas existirem, e isso ser
Absoluto. Os teus cabelos mortos.

Os nomes de todas as raparigas
Passarão a ser luzes no fim do mundo
E elas não serão. Um último corvo
Numa última manhã, turva e curva
A pender já para a noite
Que nos encerra aos penhascos
Da existência luzidia.

A mãe, o pai, o irmão, o filho
Se o houvesse, transformados na cinza
Que me cobre os olhos vítreos
E arranhados no alvorecer.

A última glória
Despida de glória.
A vida não vale.
E que por fim a tocha arda
Pesada no corpo
E nada dê aos homens
Que não a sombra dos anjos
E o engano constante
E precioso, de se continuar
A traição, de se continuar...


André Consciência

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sol em Taurus




Uma chama lambe a forma vazia de conteúdo
A nossa fluidez correu com os touros
Nas planícies iluminadas do hospital
Uma mulher em gesso, nua
O touro firma os seus cascos
Chegado à terra, o homem lembra-se
Que aquele que não brilha com maldade
Será incapaz de bondade
Nos relógios
O Sol quebra o limite dos dias
E o touro finca-se
Os pássaros sopram
Na boca vaginal
Da semelhança
E um olhar apavorado
Trespassa, concentrado
A incompatibilidade.


Horned Wolf

quinta-feira, 29 de março de 2012

The End of Orgy


Susanne - Saudek



Luz da manhã, Sol anterior
Ao Sol. Habita este tabernáculo
De flor e deserto,
Desterra o pensamento
Que é escrever as linhas suadas
Da vida em esturpor.

Que a ave não tenha asas
Ou o poeta coração
Que o pintor seque seco
E a luz na escuridão
Ou serei o santuário
De todas as canções
Que a morte não calou.

Feiticeira das auroras
Cujo cântico é o cântico
De todas as demoras
Olha para mim e ver-me-às
Sem braços ou pernas,
Membro ou língua
Olhos ou dente
E desfaz-te do teu abraço
Para que seja o meu abraço
Quando não tenho cauda
Ou membros ou luz

Tu, tu que me amaste
Quando os quartos foram escuros
Prende-me à tua memória
Um crucifixo niilista
Da translucidez
E do outrora.


André Consciência

terça-feira, 27 de março de 2012

Dug Our Treasures There

No pôr de Vénus um amor
Do tamanho da brandura aconchegada
Que te são os olhos
A dizer-me: saúda o limite
Dos tranpolins dourados do desejo

E como se eu não te visse
Carrego a penugem sombriada
Dos fins do mundo
Com ofertas de outros Sol poentes
Que embrenharemos na solidão
E a rompemos

Ah, janela à Lua
Pele do meu calor
Carmesim.
Da morte
Sabem não saber
O teu rosto
E nada sabem.

Há homens que se despenham
Na noite interrompida.
Nós somos cobras nos trigos
Da manhã.

Ama-me
E eu saberei amar
O fim de mim.


André Consciência

terça-feira, 13 de março de 2012

Malak VII

No terraço, com a vastidão verde do Nilo à minha frente, untei-a, na sua nudez, de mel e leite de cabra. A luz do pôr do Sol incidia na vela solitária e eu senti a minha alegria a encher-se.

Acordei antes do alvorecer ainda com o terror a pairar sobre mim.

domingo, 4 de março de 2012

O Sopro de Hórus


Horus Blowing - Babalith


Asas de ganso em pleno voo
Luzindo ao Sol
Rastos de múltiplas ondinas
Espraiavam nas águas plácidas
Um enorme leão de juba negra
Com a sua lança de bronze
Entrelaçado para fazer uma corda
Retesado(s) e saliente(s) no orgulho
Do esforço
Asas sussurrantes encobriam o Sol
Das plantações de papiro
Em densa nuvem
Ìbis pretos e brancos de vulturinas
Cabeças e plumagem escarlate
No centro do peito

Um redemoinho pesado e volumoso que fez o meu ânimo
Estremecer.


André Consciência

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Malak VI



A nossa última noite foi por entre árvores que cresciam na estreita língua de terra entre dois rios. Amarrámos o barco à margem e depois acendemos fogueiras. A noite estava quente e seca. Fizemos um cordão de fogo de uma à outra margem do rio para não deter os anjos, vigiamos para lá das chamas e alimentámo-las na escuridão. Depois reunimo-nos para entoar cânticos, até que o cansaço nos venceu. Envolvemo-nos nas nossas capas debaixo das árvores. Escutei os ruídos do rio, enquanto ela respirava, até os sonhos chegarem.


Horned Wolf

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Diário de um Vagabundo




O mundo morreu! Sim, morreu
Isto vos digo; A minha razão
De viver assim renasceu…
Quem sou eu? – Perguntais:
Mero caminhante e sem abrigo.
“Pobre infeliz” dizei – Virai a face
E escarnecei. Filho das ruas e do vento
Corpo sem espírito nem alento

Prevaricador desavergonhado!
Sanguessuga social desmoronado!
Abro o peito sem nada a perder
Admitindo o desalento
Face ao mundo em retrocedimento;
Um poço sem fundo a enegrecer.

Ide então… vendei vossas almas
E vossos corpos à sociedade;
A morte caminha sobre nossas auras
Em passos largos de finalidade.
A insignificância de onde vivemos
Nós a criámos; Esgotando esforços
Nos lugares errados.

Akila Sekhet

o irmão estava a pensar

No tempo entre a sua elevação a deusa e a sua morte no fogo do Sol

Todas as manhãs guerreiros que lhes abençoasse as espadas pescadores tocava nos barcos

Túmulos abriam as enormes pedras para o seu cavernoso interior

misturavam sombras húmidas

jovem dourado pelos vales embriagados onde o povo lavava

simples circulo governava a região


Horned Wolf

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Túmulo

O Túmulo - Emanuel Pereira


Os salmões voltaram
As gralhas cresciam nos ulmeiros
O cucu cantava onde o gelo do Inverno
Tinha fechado o rio.

As graças banqueteavam-se
Com os patinhos do Mai
As libelinhas esvoaçavam
Por entre os túmulos dos antepassados.

A Primavera avançava sobre os veados
Os chifres mudavam, o pêlo cinzento
Os campos eram lavrados
Por entre os túmulos dos antepassados.

As mulheres sacrificavam um cordeiro
Os peneireiros voavam sobre o tempo
Asas azuis flutuavam, as orquídeas floriam.

O Verão calava os tordos
Mas não os túmulos dos antepassados.


Horned Wolf

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Malak V




Quando a escuridão da noite era total e as fagulhas rodopiavam no céu, correndo entre as estrelas brancas e duras, doze raparigas nuas iam passear-se pelo círculo de fogo, onde os homens as perseguiam. Os anjos, que até ai haviam dançado junto ao anel de chamas, detinham-se para verem as raparigas esquivarem-se do desejo, às voltas. Porém, uma a uma, as raparigas eram apanhadas e cobertas.

André Consciência

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Malak IV


Annunciation - Boticelli


Os homens aproximaram-se mais das mulheres, ao entrarem na mata, e os anjos receberam archotes, aos quais foi ateado fogo com uns carvões em brasa levados em vasos de barro perfurados. Os anjos (rapazinhos) corriam para trás e para diante no atalho, agitando os paus fumegantes e gritando para atrair as raparigas que poderiam aparecer para engravidar. Lá mais adiante, as meninas tinham começado a cantar e o volume do cântico aumentava, à medida que o povo ia apanhando a melodia. Passou para os que caminhavam atrás, sem que os anjos se lhe juntassem. Um pombo saiu de entre as folhas, batendo as asas e partindo na direcção do Sol.

Horned Wolf

domingo, 29 de janeiro de 2012

Homem Azul


Blue Man of the Minch - Marion Boddy-Evans


0 - The Fool

. I like to watch the bulls, they eat the corpses
. . and I saw that it was good
. I have spoken to you
. Search for childhood


1 - The Magician

. Care not to explain
. . Act by instinct
. ' . Search no reason for your actions nor for others actions
: : Endure.


2 - The Priestess

. They gave the beast to the inner man, and told him how to act.
. . The beast stopped at will, to utter: I won't be corrupted
. ' . Therefore he broke his own prision cell and spilt it's magick blood. In this the spear of Will.
: : To act by instinct is to come to the perfect understanding of one's inner senses and outer limits.


3 - The Empress

. There is something that we remember still
. . A love not lost nor growing ill
. ' . There is a Way where we belong
: : Let it be inside all wild's god's song


4 - The Emperor

. A Titan, you my BABALON
. . Standing Sin on the Sun
. ' . All is still in your Will
: : Silence, and I know that you are God


5 - The Hierophant

. I am in the edge of the stars, as that litlle drop of melting semen
. . Mine is the substance that dares and mine the fall
. ' . If men fall not how can he dare, if men dares how can he not die?
: : Men must be broken, in order to rely on himself, says the reaper


7 - The Lovers

. Her's the waving music and her's the cube: both in union, both in paradox
. . Open legs to heal the wound
. . Now the dogs of envy ravish upon your soul
: : Let the swan go, and accept the dove.


8 - The Chariot

. I did spread myself in light for my delight
. . and I saw that it was good
.'. That my actions are as but reflections
: : Under the night of PAN


9 - Justice

. In brilliant gallant white
. . She comes serene, all confort's night
. ' . She holds my hand, and now we mend
: : Her's the Word of Light


10 - Wheel of Fortune

. Nothing comes out of nothing
. . Two points of light are beginning to contact
.'. There is a fire burning bright
: : To let their children loose, dancing to it's curse


11 - Fortitude

. You are heading down to death
. . All seems perfect, even the sky is brighter
.'. You feel like flying
: : But there is treason in everything: You are doomed to die daily


12 - The Hanged Man

. We all reunite, black roses, white dead bodies, we smoke and make a song out of a poem
. . We sing about the dead ages and call it the new way of life; we valse around the dead whore drinking bad wine
. ' . Aries circling upon me
: : I travel the world to the tall Towers of Fall;


13 - Death

. Once for sleeping, twice for dreaming
. ' . I will bind you to me and tell you: love me, desire me
.. Cold and exhausted
. We will make flesh out of love,


14 - Temperance

. He has the tail of knowledge, and the horn to wake the dead, make women pregnant, and call to war
. . There is an army of dogs, there are the dogs of envy, the master exorcists, and all those whirlwinds to attract the end and the begining of the world
. ' . There is a queen and that queen is lust, she sits on a throne for Therion to subdue, her's is the net ruled by the king, she is the net and he is the spider named "slaves shall obey"
: : The beast for the men, the men for the beast


15 - The Devil

. Lamed: death as an egg
. . There are no places, there are worlds,
. ' . they veil their faces to reveal their nature; they won't see you, because you think too much, you are the dream, but they the touch.
: : Now the virginal bird of wisdom eats it all, Do what thou Wilt, there is no fall.


16 - The Tower

. The Temple of the Black Egg and a Cross; The Temple of the Six Pillars and a White Singing Maid:
. . The Snow Vestal lights the candles. She is the light that flickers in the night.
. ' . The horned women is clothed with the sun: she is the dealer between the serpent that has risen and the bird who has fallen
: : The duty of all lovers is to battle.


17 - The Star

. Blank.
. . There is a secret in desguise, it can't be hidden from the light
. ' . In your realm your appearence will throw me back.
: : I dream of nothing but reflections now.


18 - The Moon

. I change to the colony of insects, I leave the hills of the sun and happily burn in the city of the night
. . a valkyre binds me to her body of stars.
. ' . I am granted three shadows from the world of the living
: : Temptation is the key to Initiation.


19 - The Sun

. . In your realm I call to thee
. . She turns to old flesh
. ' . Now if you see him, that mourns his soul-mate, the one with wounded hands, take no pity
: : Blind fear might drive you Home


20 - Judgement

. On and on, called by the name of correlation. Nobody knows there is something else.
.. We follow the train of our thoughts with heavy shoulders and deep voices.
.'. But I know what's on the other side, and I have come to the knowledge of a world outside.
: : I have entered trough the closed door.


21 - The World

.. The Keeper will smash my legs and will me to fall
. ' . she is the perversion of the Will
.'. But I know life is but a dream
: : at the door of Void


Horned Wolf

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ketsár-ruách



Luz

Pisei o templo, com luz no pescoço
Pulsante, o meu movimento
Era amor que vai contra o tempo.

Que liberdade maior, que ser-se Deus
Nas rotas infinitas de um adeus,
Ou o harpão de Neptuno
Nas mãos benditas de Juno?


Obra a Negro

Um Deus munido de conas
Arrastou-me a peregrinação
Do sangue
E largou do meu coração
Quebrado como uma maçã
Arrojada e podre
As sementes que hoje são voz.

Ah, por amor deixei cair
A própria dor,
Pesa-me a ausência
E esperar que cresça
No centro esvoaçante do Inverno
O Verão Eterno

Nas nossas bocas.


Saturno

Escuta, a luz parou de cintilar
Há aranhas nos veios tubulares
Que rodeiam a garganta, esganada
Deste cão negro e sem nada
Deste deus que se vira para morar
No traiçoeiro mar
Da luz sem vento.

Quantas ninfas se estendem para mim
Com seus membros de marfim
E quantos coros na voz de um serafim
E quantos eunucos se contorcem
Para a vivência palpitante do meu pénis
Com cores de arco-iris
E depois as mãos aguadas com sangue
Os membros lavados com sangue
As pernas de pau espetadas
No abcesso do que havia de ser asas
Pénis retalhados na mesa de cinza
Colocada sob a testa de um equilibrista sem peso.

Come rosas, aspirante ao fogo secreto
De noite olha o céu e não deixes nenhuma estrela
Sair do eixo, não fites tampouco o chão
Porque o chão esmaga-te.

Não esperes superar-te, massa de pó
E pedaços de marisco cansado.

Olha, como a tua amante te morde as feridas
E confunde o pus com a luz.
Esconde-te do mundo, sua merda.
Esconde-te do mundo.

Despedaçamos-te com uma multidão de sorrisos
E seguimos-te o rasto para o paraíso mecânico
Das velas sem pavio.


Lua

O açúcar amarelo, de manhã
A palpitar de embate aos resíduos
Do ar da noite.

Sabias que te amo? Amanhã também
E enquanto o globo for portador de electricidade
E a paixão for uma miragem, uma vaidade
E a verdade sair do cu
E não de Nu.


Mercúrio

Mercúrio, alinhado com aquele augúrio
De se falar sem língua nenhuma
E deixa que o filho esgane o pai
E do seu estômago escapem promessas
Com mandíbulas várias
Para comer assim devagar
O peito de quem ousa amar.

A candeia de vidro em prata
Derrete-me a pele, Pai.

Derrete-me a pele
E não há no mundo
Terror maior
Que perder a forma humana.


Vénus

Em Vénus, deveria escrever com desenhos bonitos
As figuras todas do fotograma
Dos teus movimentos quando vieste
Das longínquas espanhas.

Não temas, que eu me lembre de ti
O teu fogo é no meu, e será sempre
Aqui.

A luz do meu pescoço está no teu
Agora
E tu és menina que guardei nas praias
De outrora
Nunca mais dormi
Os meus olhos são estrelas
Ardem em ti
Quando os reconheceres
Dormirás
Para eu poder dormir.

Para eu poder dormir.

No fim de tudo.
No fim de tudo.
Praias lamacentas.
Nós bébés
Com placentas.
Por favor.
Nós bébés
Com placentas.

No fim de tudo
Um nenúfar abraça uma jóia
No lago escuro
Da solidão
Ainda o muro.


André Consciência

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Conto da Venda



A sombra das nuvens engolia a passagem, enquanto Miguel e Gabriel corriam em direcção ao Tempo. Gabriel estava nua, tinha frio e estava assustada. Miguel também estava receoso, mas o povo da fronteira era famoso pelas suas riquezas e a ganância de Miguel era superior ao medo de entrar no tempo.

Miguel dirigiu-se à antiga entrada Sul, onde uma estreita labareda levava ao fogoso interior. Uma vez atravessada a labareda, Miguel pôs-se de gatas e rastejou por entre as aveleiras. Gabriel seguiu-o com relutância, sem querer ficar sozinha na passagem quando estoirasse a ira de Deus.

Para surpresa de Miguel, o Tempo não estava completamente coberto de arbustos, pois havia o Espaço, no local onde se situava a Casa dos Mortos.

Alguém deveria já visitar o Tempo, porque as ervas daninhas foram arrancadas, a relva cortada com uma faca e apenas uma caveira humana se encontrava aí, no local onde se sentava agora um forasteiro, encostado à única coluna que restava do tempo. O rosto do homem estava pálido e tinha os olhos vendados, de modo a que não consumisse o mundo, mas o seu peito subia e descia, com a respiração.

Horned Wolf