Mostrar mensagens com a etiqueta Casa de Jaguares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casa de Jaguares. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de dezembro de 2023

O Casamento

 


Eunice Correia por André Consciência



Há uma palavra

Retida

Na geada:


Um sino de gelo

Uma flor de fogo 

Que se debruça

No teu rosto.


No meu

Aqueles anos todos

Despenhados contra ti


E alguém,

Que se levanta do teu sono

Dos precipícios dobrados

E azulados,

A tua mão a esbranquiçar

Curvada nos meus pulsos;


A barra destruída

Da barragem

A lebre trémula

Pelo cio

A luz

Das cortinas

Delineadas no teu peito

A raiva

Pujante dos quadris

Febre.


Sorvo Soma 

Fico a amar-te

As aranhas-coração

Nidificam nas nossas fendas

Os mundos multiplicam-se

Sorvo soma

O licor da tua boca

O verão salgado

A maresia final

E eterna

Em chamas.


Depois o teu nome

A manhã nos portões

As cidades além-mar

E a palavra na geada

Continua a ressoar.



André Consciência

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Lampanário I

 

Arte conceptual para ‘The Abyss’, Moebius



I


As mulheres, curiosas

De músculos salientes

E anémonas nas mãos

Espreitam, sob o colosso

Roxo e vermelho

A névoa do Abismo.



II


Despida, a mulher descansa.

A sola dos pés

E a ponta dos seios

A sorver do ar

O Ventre.


O diabo visionário

De boca escancarada

Oferece-lhe aos lábios

Os sabores da alvorada.



André Consciência

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Depois dos quartos

Eunice Correia




Se a manhã viesse seria crianças
A dormir no jardim com borboletas no dorso
Os seus mantos cheirando a mar
Correndo contra os primeiros alvores.


André Consciência

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Vela Intermitente





Ele:

Ninguém me veja. Sugo o mel das colmeias, os raios do Sol, roubo os primeiros risos dos bebés e cubro-me a mim com um manto se adormeço. No Samein as raparigas chegam com risinhos e faces rosadas, coroas de louro, bolos e leite fresco. Abraçam-me acaloradas, lançam-me elogios sem sentido, oferecem-me laranjas e partem. A caminho, as bocas das borboletas terão os seus filhos, as mulheres chegarão a casa chorosas e de joelhos sujos, devorarão um bago de amoras e deixarão ao cacimbo da alvorada a porta aberta para mim. 

Ela:

Uma estrela caiu e deixou a noite sem Lua, um beijo lançou-se na chuva. A voz de Lorca morreu numa esquina e no largo ouvia-se a poesia sensual das línguas romanas. Alguém bebeu e conversa vestido de andrógino sobre o significado da vida, sobre a Escandinávia e os seus castelos, na vila abandonada. Ela tem meias rendilhadas acima do joelho e fuma antes de entrar no casebre, repleta de romantismo alemão, de agressividade passiva, de perfeccionismo e sarcasmo afectuoso. Chopin nos fones, Salvador Dali no Tablet, uma ficção de distopia no bolso e um desejo de voltar a sangrar da virgindade.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Lugar no alto da falésia




Subitamente, tínhamos chuva à nossa volta, fios de gotas a contorcerem-se na superfície da pele. O vento fazia-se sentir, atacava os seios reluzentes da mulher e fazia com que as minhas asas estremecessem.

Abracei-a através do nevoeiro, os contornos escuros e desfocados das baixas copas de árvore passavam pelas pontas das asas. Abruptamente, as cortinas encardidas de chuva e nuvens abriram-se e nós entrámos um no outro.

"Não assustes os leões", disse-lhe. E o Sol era uma grande e gorda bola de fogo a olhar com espanto para a planície sombria e cintilante de sal que se estendia. Avançávamos lentamente no calor, os pés cobertos de pólen amarelo.


André Consciência

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ao erguer um pouco o seu archote




O peixe senta-se no cadeirão
E o amor cambaleia ébrio
O caminho longo do rio
Beija as pedras.

Despejo o conteúdo do meu caldeirão
E ouve-se um berro no meio da ventania:
Contra os meus quadris
Recua o teu pé esquerdo.


André Consciência

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cetim




O Palácio do dia exalava a fragrância
De bonitas jovens que sonhavam ser cortesãs
E nele um homem de pele enegrecida rugia
O pôr-do-Sol em meia centena de línguas. 


André Consciência 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

RAMMSTEIN; Wilder Wein (1998)

V. M.

 




Vinho Selvagem

Apresento-me
perante o teu castelo
E anunciam o regresso
apenas ao rei
Deus esteja comigo
e abra os teus portões
molhados e mornos
lentamente

perante o teu regaço
foi escrito
Profundo na água
"não atravesses"
Mas o meu desejo
troça das asas
como um pombo
febril e húmido

Diante a escuridão
transformado pela luz
escondido
indefensável
eu aguardo por ti
no fundo da noite

só uma uva
e amargo como neve
aguardo por ti
no fundo da noite.

tradução livre 

por André Consciência

sábado, 17 de maio de 2014

Coxas Fumegantes




As suas lágrimas eram
Chamas, a sua língua brasas
E cinza, e as estrelas de manhã ainda pairavam
Suspensas sob o bréu.

Entravas pela janela
Na forma dos flocos de neve
A flutuar no vento
E o meu rubi pulsava
E os lábios transformavam-se em dentes. 


André Consciência

terça-feira, 13 de maio de 2014

Corre no Sangue




Luz das estrelas e espuma do mar vestiam-na
A donzela, tímida, estava amarrada
Harmonias de prata estrondeavam no seu crânio
Como um cão, eu roia-lhe as orelhas
E, de um lado, cabelos tão vermelhos como o sangue
Caiam-lhe até aos ombros em caracóis oleados.

Um leopardo aos nossos pés,
De língua negra,
Avermelhava-nos com sombras escarlate.


André Consciência

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Agora estavam a latejar





O fogo tem sempre fome
E com o calor a cobrir-lhe a cara
Ela estava em pé por cima de mim
Agarrada ao meu archote
E a uma tristeza que pensei talvez
Quebrar-me no peito.

Sob um manto de folhas
Os meus olhos estranhos
Fendidos e dourados
Reflectindo de volta a luz do meu archote
E um cabelo de Outono
A cantar uma canção de terra
Aos teus pés
Deixei crescer uma grossa
Raiz branca a deslizar para dentro
E para fora, o coração com medo
raiz agora grossa como a perna
E a criança que não era criança
Movia-se depressa
Uma ponte natural sobre o meu
Abismo escancarado
A pele branca excepto
A mancha sangrenta que lhe verti
Até à bochecha.

Agora, a minha raiz penetrava
A carne da sua coxa
E emergia do seu ombro
Com rebentos de folhas vermelhas
E brilhavas uma lagoa de sangue

À luz do meu archote. 


André Consciência

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O relâmpago dividiu o céu






Trotando para Leste sob um manto de estrelas
As jovens donzelas são nuas e belas.
Seguem serpenteando através de bosques
E vales, uma longa fita de prata
Pois durante algum tempo se maravilha
O mundo em cascata.

As mais ousadas deixam-se ficar
Ao Sol com lama pelos joelhos
Depois de beijadas vão a chorar
Criar um príncipe em todos os espelhos.


André Consciência

terça-feira, 18 de março de 2014

Mariposas



Si Sedes Non Is, Vitriol, 2005


Uma sombria mulher
Com a sua suavidade vermelha
É gravidade
De dois homicidas, a leveza lúgubre e distante
Do sexo. Seus pés lavarei.

Homem de garganta dourada onde o Sol põe o corpo,
E o ouvido do vento.
E onde verter de minha poesia um cipreste de gelo,
Quando um ar frio acabe e conclua a carne
Então calarei,
Então calarei a cabisbaixa tristeza da vida.


André Consciência

domingo, 22 de dezembro de 2013

Eufemenismos

Pan & Maid - Judith Page



Escuta o barulho do céu a passar pela casa,
O som do céu a passar pelos nossos corpos não será diferente.

A esponja de Alá lavou a Lua da abobada,
E isso aumentou a sombra dos homens e a sede.
De súbito, a quinta cobriu-se de rapinas esfomeadas
Cobriram os telhados e as folhas e as fontes e bicavam,
Ainda vivas, as dobras das janelas.

Alda, a minha filha, Alda, distante,
Como se sonhasse uma corte de amor no extremo oriente.
Vários homens desapareciam por debaixo da sua saia,
Como se apagados de manhã, sonhos.
A sua fragilidade a quebrar-lhes pescoços.
As suas mãos brancas sem ostentar sangue pisado nem mágoa.

A vontade de um homem não pode ser controlada por esse próprio homem,
E na bestialidade masculina lia Alda uma chuva miúda de alvorada
A limpar as varandas com perfume branco de flor.


André Consciência

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A savage struggle between heaven and things.



Para começar, é uma sombra e atmosfera mais os olhos.

De súbito, endireitou-se, muito 
orgulhosa, muito orgulhosa dos seus 
desígnios, manter o ritmo inicialmente 
estipulado e a esfinge da morte.

As crianças brincam, nadando com a injustiça
Deus espantou-se, com claros peitos de neve 
E derreteu um pano molhado agitado 
Pela tempestade:
Um corpo que falta e que demos às Estátuas. 

Ó soltura das suas necessidades, angústias paradas! 
No relvado enevoado figuras de pedra basilar 
Todos os poetas são loucos são loucos
Porque a aliança que é suprema absorve 
A natureza voluptuosa. 
Mas eu desci com mil cheiros de incenso 
E penetrei-a até à Casa.

André Consciência


domingo, 13 de janeiro de 2013

O Fôrro Do Leito

Octave Tassaert


Algo semelhante a nudez roçou a porta
Vestia uma mulher nua na largura do peito
Iluminada pelo fogo das lâmpadas
E da mesma forma que se abrem as asas
Das borboletas, um astro elevou-se
No pequeno horizonte do vestuário
Ao devassar os mundos inexplorados
Deus é infinitamente pequeno
O nosso sangue habita abismos nocturnos
Há dezoito milhões de rainhas
Na funda caverna
Deidades infinitamente belas
Não conhecem as leis físicas
Os milhões de deuses criaram Adão
No primeiro dia
Amor
Essa passividade de pedra que cai
Os olhos tão ofuscados do absoluto
Que virão fechados
A ocultar a vista com uma mão-estrela
No espaldar, rósea e nua à luz das lâmpadas
Mais não é algo de fixo
É recuar ou avançar no incompreensível
Do fim da noite ao meio dia os amantes
Não tiveram repouso ou repasto
A universal brancura das lâmpadas ilumina
A imensidão da sala
Acesos todos os sírios na mulher mascarada
Os seios erectos, os braços e as pernas convulsos
A caírem sobre a pele de urso
Como se fossem grilos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A longa sombra farpada

Jose Del Nido


Quatro irmãos jantam em quatro longas mesas. As mesas estão decoradas de três diferentes tipos de peixe, caranguejo guisado, mel vindo das colmeias, barro cheio de manteiga, pães de forno. Proferiram uma prece antes da comida ser servida, e tocaram harpa vertical, enchendo a sala de sons suaves e doces, o alimento intocado, só para os anjos.

Lá fora, quando as chamas morreram, uma pobre mulher havia sido violado uma dúzia de vezes, os seus seios tinham sido rasgados, mastigados e comidos.


Horned Wolf 

A mulher dos moinhos de vento

Jose Del Nido


Uma veste cinzenta adejava em volta das suas pernas descarnadas, pele enegrecida mostrava os locais onde as chamas a haviam lambido, mas o tempo e a chuva extinguiam essas marcas. Leões, fumados com cinza e azul, perfilhavam o pavilhão, de olhos carrancudos. As paredes continuam despidas, e ela também. Espero um dia cobri-la com tapeçarias, cenas de piedade e devoção. A nossa janela dá para o bosque sagrado. Lágrimas rolavam-lhe dos olhos castanhos como o bosque e a Serva Branca ladeava-a sem dormir há uma quinzena, durante a qual os cavaleiros vagueavam pela mata de chuva lá fora. A Serva branca era uma mulher que usava só um olho, coberta por manto e capuz. O olho que lhe restava era terrível de contemplar, e as suas faces rasgadas e cheias de cicatrizes. A mulher dragão enrolou uma trança no dedo, estava a corar por baixo das lágrimas. Os criados estavam a trazer um prato de peixe, um lúcio cozido numa crosta de ervas e nozes moídas. Dela, os dedos pálidos acariciaram o ar enquanto na arena, os infiéis eram devorados por areias movediças e lagartos-leões. O resto é ossos e cinzas, uma vila inteira. Cães acesos como archotes corriam-na sem cessa. Eu estava descalço, vestido com uma túnica simples de lã não tingida que me fazia assemelhar-me mais a um pedinte do que a um lorde. Lá fora não haviam pardais, só árvores nuas a cismar, com os ramos negros a elevarem-se no telhado vítreo do céu. Um tapete de folhas mortas rangia sobre a minha cabeça. Sempre que fitava a mulher, recordava que as vidas são como chamas de vela, qualquer aragem vadia as pode cessar.  

Horned Wolf

Fazei soar os campos

Jose del Nido


O seu olhar foi atraído para a donzela sem boca com o cabelo soprado pelo vento e braços ao peito. Um homem de lábios azuis e sem nenhum olho tinha uma rapariga bonita e roliça de dezasseis ou dezassete anos ao colo, descalça e desgrenhada, com os braços envolta do seu pescoço. Sentiu o cheiro do mar que entrava pela janela aberta, embora o quarto fedesse a vinho, sangue e sexo. O vento entrava em rajadas pela nudez. A sombra da tarde caia, como um licor que fosse preparado por magos. Os homens são carne, e a carne come a carne. Descobrirei uma mulher dragão, a mais bela mulher do mundo, para mim.


Horned Wolf

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Cruz Redentora



As ratazanas infiltram-se
Nas mãos, nos olhares
Nas arestas do amor
E as pessoas agitam-se
E gemem em volúpia por tudo
Se perder.

Horned Wolf