Vejo, de uma montanha, o lago abaixo. No lago, um barco. A tripulação fixa os olhos na minha direção, sem me ver, nublados de segredos e ilusões.
Desço para a praia, também eu um pouco apático, um pouco ansioso.
Na praia, escuto o galope de cavalos. Uma negritude invade a vista.
Alguém que partiu retorna por uma porta aberta. Decido entrar. Absorvo rapidamente: um trono na sala, um cadáver no chão, um caranguejo depois dele. A minha magia é fraca. A minha palavra célere. Escuta-se o som de alguém que arrasta a mobília. Desperto:
Vejo agora um cavalo com armas medievais a carga. Ao lado, uma pedra que jaz no passado, e sobre ela um pombo que toma voo no futuro, deixando a descoberto uma flauta. No horizonte aproxima-se uma tempestade densa.
No lago agora trémulo nada uma baleia distraída. Um alegre cheiro a petróleo. A baleia move-se continuamente, arrastando uma rede de pesca com ela e todas as palavras (todas as ciências). A mudar de aparência, corro para a gruta:
Há água no chão. Quem quer que seja o retornado, tosse. Reparo que à entrada da gruta o terreno é rochoso. Escuto, novamente, o galope de cavalos; no céu, um relâmpago começa por confessar os segredos dos mortos que dançam. Não muito longe, uma floresta seduz-me. Tudo principia a amarelar no arvoredo, e entre o cansaço, chega finalmente o sábio burro. Agora, o amarelo reconcilia-se com o encarnado. Quando a vista regressa, vejo um homem africano, a pele negra molhada na água do amor. A minha aura resplandece. Ali está a porta aberta, e o homem, e eu atravesso:
Dentro do quarto, algum felino pincelou a caos e no entanto, a varanda dá acesso a um jardim animalesco. Sim... é o jardim que alberga o lago. Uma moeda dourada cai do passado para o futuro, embatendo e afundando na superfície aquosa. Outra moeda se lhe segue. Depois, novamente o odor de petróleo.
Estou na montanha com cheiro a peixe e o meu trono perto da falésia. Não tenho fraquezas mas o som crescente do galope, a intensidade vermelha. Na gruta, o morto foi deposto sobre uma mesa e a água continua a correr. O morto reluz. Chegam os tambores tribais, a contar a estória da obsessão em si mesma, a água levanta sobre a mesa e o homem flutua.
Agora, entre o fogo de artifício que se reflete no lixo metálico e no leite azedo, o homem africano traz um jovem loiro e de roupa suja pela mão. Quando entram no lago, saem limpos, e eu começo a menstruar. Á direita do homem, a mesa que erguia o morto deixa agora crescer erva. É também visível a ereção masculina.
Na areia molhada e lamacenta da gruta de paredes negras jazem os meus pés. Há ali uma fornalha, mas apagada, as brasas abaixo de si. Um dia escutei o galope dos cavalos, e as paredes receberam a luz, deixando entrar uma cor ciana. Olho, de sexo murcho, o rio que atravessa a árvore despida. Algo flutua por ali, e na margem um sapato fedorento que me angústia e amarelece os sentidos. Está frio, húmido, e o céu tempestuoso abana o nevoeiro tudo à volta. Uma mulher desfigurada pela idade bebe rum sobre um declive do rio tóxico. Com bravura, fito o triângulo de evocação e os meus pensamentos mudam, a água aquece e no seu borbulhar traz pedras preciosas e ramos caídos à tona. Escuto o som do marejar e inalo o seu perfume. Emerge uma harpa prateada, mas manchada, de sangue. Sinto-me ansioso.
Dizia, todavia, que o triângulo de pedras está situado sobre a erva amarelecida, queimada pelo Sol, perto da queda de água, onde nada um cão, e além fica o campo repleto de corpos, camélias e perfumes florais exalados. O homem negro está morto, a meu lado, o jovem de cabelo dourado geme de dor: um porco que devora os cadáveres
Os pássaros erguem-se com fogo
E cospem na luxúria dos homens
Canções sem fim
Os imortais ficam
Tudo se abre
Cada poro do mundo
A vulva mostra a noiva
Não há sol além de mim.
6.
A boca expande-se depois do corpo
Shekinah deita-se no mantel azul
E chove com cores conhecidas e desconhecidas
A luz ergue-se da terra e a terra também é um arco
Eu estou no olho da miríade
A boca abre-se além do ovo
O que sai não pode ser dito
Mas é
Adonai salta do meu pulso.
7.
Morto, Adonai larga a espada
E a espada é um homem, uma mulher
Acima das nuvens cai, sem cessa, o Sol
A rainha senta-se, lânguida
A coroa dispara
Mas os meus pés dançam sobre a sua luz
A minha boca é um túnel, cá fora
Mas cá fora é um túnel, dentro
Para outro lugar.
8.
A divina embriagues dita
A realidade escreve
Uma torre senciente desce
Ao mundo sem fundo
Nada mais será eterno
Que o espírito move
E a morte perde o ser
Ó, coroa irradiada dos umbrais
Consome-te a ti mesma.
9.
A pedra era pedra antes e depois de a ser
O seu vulto está aqui, agora
Além de si, está ela própria
Assim canta o poeta
E a montanha ergue-se de uma só
Pedra
A folha que cai levanta
Há ouro e ouro
Poeta, poema.
É simples o tilintar da folha, o canto alto do pássaro, é alto e é simples, e é fundo.
Na distância vertical o vapor sobe e esfuma-se e o braseiro alumia-se e acentua-se, assim era o que fugia das mãos e o amor que teimava e vencia.
Vê, se mesmo a treva, agora, não se tornou dócil, com o seu fruto incessante em correnteza, se a luz oriental não habitou o copo vazio, o cinzeiro apagado e a noite sem estrelas.
E sê baixo, para que tudo possas reconhecer recortado no mapa das estrelas. Deixa para a sabedoria o ser titã, alta e orgulhosa e na torre de silêncio és titã, alto e orgulhoso.
Como uma silenciosa estrela no espaço é toda a palavra. O processo que no iniciado desperta a natureza angélica é o poético. Primeiro ele é sensível à terra, ao mar, à carne, à sua habitação, à cidade, ao deserto e ao campo; às montanhas e aos vales, às ilhas, às praias e às florestas. Depois tacteia o que emana das pessoas, dos elementos, dos poderes, dos anfíbios e dos mamíferos. Medita na mente dos cientistas, dos filósofos, dos químicos, abre o crânio ao céu e ultrapassa os obstáculos. A seguir deixa-se ficar só com o que há de imediato. Dá aos outros o que ele não tem mas que é destes, e os astros descem à terra, ao mar, à carne, à cidade e às florestas. Sabe que o espelho das coisas o oculta, e que o fogo o revela. Por meio de incendiar o espelho pode depois olhar a natureza e observar a sua profundidade em extensão, as inteligências que a governam. Então, vestido das ideias afirma automaticamente o espírito, e ainda que as suas ideias não sejam universais, o seu espírito será. Caminha como uma imperatriz sobre o corredor vermelho do pecado, adquire a experiência de um tigre, cobre-se dos elementos da terra e desaparece nela. De si ficará só a força e estará vestido de fogo, as paixões, encurraladas, irromperão pela sua carne, o seu espírito como uma águia bicando o seu corpo e o seu corpo estrangulando-lhe o espírito como uma serpente. Mas direcciona todos esses elementos para o seguinte enigma: "No espaço vazio, o que significa a Ousadia?", os seus instintos fazendo-o silencioso como o caçador; e sem nunca descobrir a terra prometida, retorna um monumento da mesma, como um homem que, durante tempo suficiente, se fitou ao espelho, apercebendo-se que a maior porção da sua aparência jaz entre as sobrancelhas.
André Consciência, de um apotamento escrito aos dezoito anos.
As folhas caem lá fora e a beleza levanta-se. Tudo se ergue no ar, na luz do Sol. Eu fecho os olhos e penso em ti, sejas tu quem fores, de olhos abertos e eu de olhos abertos, fendidos no incêndio da escuta. E quando eu morrer, enterra-me no musgo, que as minhas palavras ganhem silêncio e falem. E o ruído constante do escombro colossal que é o mundo há-de-se chegar para o lado. Um abraço há-de vencer as distâncias, e um pardal pousará na margem plúmbea do rio, se amanhecer, as penas rubras e azuis, como brasas retiradas da fogueira e que, por uma vez, não se apagam. Talvez eu acorde, talvez esteja Sol sob os teus ornamentos exóticos e eu ouça os riachos das fontes a correr e pense que o céu é uma boca sem chão e a vida um balão alaranjado sobre os Olivais Primeiros.
189 - Valentino, gnóstico do sec. II, afirmava que Cristo comia, bebia, mas não defecava.
190 - João Erigena, teólogo do sec. IX, dizia que Adão podia levantar o membro como levantamos um braço.
191 - O desacordo com a merda é metafísico, a merda não é imoral, mas põe em causa o criador.
192 - Como foi dito, o Kitsch é um biombo atrás do qual se esconde a morte.
193 - Os movimentos políticos repousam não sobre o racional, sim sobre imagens, representações, arquétipos, vocabulário, que no conjunto constituem o Kitsch político.
194 - Em vez de "viva o comunismo", diz-se: "viva a vida".
195 - Nos tempos modernos, não é uma questão de acção ou de não acção, mas de dar espectáculo ou nada fazer.
196 - A intervenção assemelha-se a um grupo de teatro combatendo um exército.
Dizem que o medo não magoa mais do que um sonho, como a felicidade não chega sem ser convidada. Depois, há os que acreditam que um abraço pode mudar um dia, uma semana, um mês na vida de alguém. Nada disto eu sei, e não parece que importe. Procuro continuamente a minha última esperança, os rostos da minha última luz cada vez que me despeço, e nunca mais me esqueço. De resto, fico acordado à noite, de noite pode dizer-se e ouvir-se qualquer coisa sem que se estranhe.
I
Quando se caminha sozinho na cidade é-se superior a todos os outros, a melancolia absorve os vestígios do desespero e desacredita a dúvida. O Sol não se espreita na fresta dos prédios, mas aquece nos vales cinzentos e dentro das janelas, quando a noite chegar deixando do dia só as brasas, os moradores não adormecem, tornam-se chamas pequenas a arder nos lençóis. E se, a caminhar sozinhos na cidade, vemos o absoluto, ele canta uma negação.
Numa destas noites como as que descrevo, Lisboa encheu-se de pequenas velas nos parapeitos, seguiram-se oito minutos e uma criança parecida a um apagador subiu ao terraço, contou estrelas e árvores, a imaginar. Deixou-se cair.
II
As suas palavras calavam-no quando o beijavam. Mudo, vestia-se dos milheirais, esquecia-se do que sabia e atava tranças como quem aprende uma canção. Uma menina estava vestida de vermelho, usava rosas na cabeça, depois estava nua, um tornozelo na anca do rapaz, outro no ombro, ele uma espada em brasa. Um dia, a menina era menina e colhia frutos na falésia, o mundo ainda não existia. E possam amar-se, quando, se houver silêncio, adormecerem.
III
Somos estrelas. Caímos e olhamos para cima, para ver as estrelas. Sonhamos e com esse esforço suamos, um ranho a sair dos poros e dos sapatos escaldados, então pensamos: "só o melhor" e rimo-nos de tudo o que não são as estrelas, telefonamos aos nossos pares e separamo-nos. Engordamos, enriquecemos, tropeçamos no amor e sobrevivemos e os que voam morrem. Eu colocarei uma gola de renda ao teu pescoço, branca e frágil, e te agite nua, os teus seios uma alforreca que pulsa, eu trémulo e a largar maçãs. Todos somos fósforos no festival do fogo, e tu seguras um balão de hélio com os pés nus, as ancas levantadas, a profundidade morta.
IV
Alguém te deu memórias e se tornou memória. A beleza consome o pôr-do-Sol como consome os indivíduos, inflama o espírito e o espírito apaga-se, torna-se nas coisas mas já nenhuma coisa existe. Existem olhos nas máquinas fotográficas, olhos tão imóveis e fixos como o que somos quando ninguém vê, e a tua arte afoga-se nos miradouros, ele ganhava asas, não seria bonito ama-lo e seria amado, a sua casa seria um mundo, construída numa ilha sob uma ponte frágil e pisada com temor, a sua alma queimaria o teu corpo que envelhece. Nenhum anjo te pariu e não herdarás o mundo. Um dia talvez alguém te veja e as minhas mãos segurem dois círios.
V
Semicerrava os olhos e as luzes vestiam uma torrente de fantasmas à procura de casa. Então permanecia estóico, uma candeia na noite dos mortos, coleccionava as mãos das estrelas para salvar as estradas. Amarrava a escuridão numa parede branca, aguardava pelo tempo húmido, endurecia e penetrava-a, para que pudesse amar pelo menos o que havia de mais brilhante nos outros. Desabitava-se, e esperava que algum fantasma entrasse para um tinto e assombrasse a habitação com bruxaria nos lábios, mesmo que não ficasse muito tempo, porque as garras lupinas marcadas no chão atrás do caminho não deixam esquecer o tempo, e eu como sempre as flores ao primeiro sinal que murcham. Ao pico da noite descia às praias, não olhava a Lua, punha-se a pensar que lhe conhecia o rosto e todos os outros o cu. Descia às praias, esperava pela maré enchente e punha-se a arder alto, a desafiar as vagas, as palavras a afundarem-se e o crânio em lâmpada. Sim, atirava o coração às gaivotas e as estrelas caiam sobre a estrada. Depois a morte descalçava-se, descia o alcatrão incandescente aos risinhos, oferecia-lhe limões e chovia. Os dois sentavam-se, os vivos começavam a ouvir-se, com as suas lutas, as suas canções.
VI
Por vezes a nossa alma abre as pálpebras azuis e encontramos o lugar que os seus olhos habitam. De vez em quando pensamos no futuro, mas o futuro não vai por ali, entretém-se a escapar ao presente. De qualquer modo o Sol fica a brilhar, não é bonito, arde. Quando se põe restam as estrelas, calamos um choro, bebemos vinho, beijam-se as línguas e dançamos debaixo da Lua. Ou talvez olhemos durante muito tempo para um ecrã. Se calhar as mulheres sentam-se a escrever sobre relações. Eu levanto-me com os ossos debaixo do peso das vidas, a casa incendiada para dar melhor lugar à vista, o ouro cai e não é de dia nem de noite, os ossos caem a estalar sob os meus pés, os campos choram e eu colho as desesperadas violetas dos meus pulsos.
VII
Todos os dias, em algum lugar, espero que o céu me alcance, que o seu humor se torne como o meu ao longo do Sol. Por vezes a rádio passa aquela música que diz que alguém esteve comigo, mesmo nunca tendo sido. Afio a memória como se afia uma espada, e quando todos os seus ângulos são de cristal saio do carro de novo menino, colho laranjas, deixo a morte entrar: a erva, o amor, o fogo que ruge no Inverno, de novo a cor do céu.
VIII
Chegará o Outono. O Verão terá morrido bem, antes do tempo. Os adolescentes vão juntar-se no conforto de casa com uma bebida e a ver filmes de terror, a pensar que conhecem filmes de terror. As mulheres vão acender mais velas. Eu talvez arda uma fogueira, mergulhado num mar de folhas. Já não interessa o outro mar, a terra terá engolido o outro fogo e as fadas populado jardins secretos. No banco que abandonei, a tua mão terá caído sobre o meu colo. Num livro, estarei a beijar. E talvez chegue ao Inverno, talvez me livre do presente, com todo o passado, e me encontre exacto como a grande antiguidade.
IX
Quando viajamos, no momento em que encontramos despedimo-nos, por isso nos lembramos com nitidez das viagens. Mas ele apercebeu-se desde cedo. Rodeamo-nos de plantações, colhemos o que semeamos. E se desviamos os olhos dos milheirais, por um só segundo, sabemos que somos nós a colheita. Um raio percorre-nos o corpo, e nós somos o raio. Os outros agarram-se no escuro, à procura de calor, cegos para as ossadas. A ele, lhe fora dada calma, sorria para os homens, cuidava dos escorpiões e emudecia as mulheres.
X
As ruas vazias, o vento gelado a percorrer a cidade, a mulher com a lingerie número vinte e quatro num alpendre de madeira, a flor amarela no umbigo. Estou cansado das vozes no vento, dos objectos que populam as ruas. Há asas em mim e o mundo nas têmporas. Um génio consome-me o corpo. Se pudesse manter uma única memória lembrar-me-ia do Sol, o dossel de penas rasgaria o ar.
Prólogo
Um dia seremos duas pessoas que se conhecem novamente pela primeira vez. Acabaremos por subir à nudez dos sítios altos, voltaremos a pensar que temos mais dias do que restam, mas há sempre o silêncio, as janelas por dentro da cidade, o tempo que parece que mata e apenas morre. Não sei que dia é. Acendo um cigarro.
Father, I'm Going to Kill You, Dominic McGill, 2005
O rio flutuante, o fugitivo antílope, a rugosa pedra no restolhar de folhas, a areia cinzenta do deserto que esconde o fogo cristalino, as cadeias inflamadas dos penhascos, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra. Tudo é absoluto. Eu não sei porque não o vi antes. Nas cidades, não o via. Nem mesmo quando sobrevoava no meu balão lento as enormes casas de banho de azulejos azuis, com estatuetas claras, várias, e conchas escuras em espiral, rodeadas de tribunais banhados a ouro onde dormem entre papel e tinta as sonolentas escribas. Não o via nas esquinas quadradas, não o via nas escribas serenas, nos edifícios, nem mesmo nas nuvens rosadas quando o Sol se punha. Será que a pedra é menos pedra quando a mulher a esculpe com os seus dedos? Se por um momento, neste roteiro, me despisse de toda a tecnologia, seria diferente desse verme marinho que o cachalote rói sem consciência? Não cairia por terra, para me arrastar, apanhada por toda a gravidade em simultâneo? Nos limites dos ramos, o gelo amarra-se. Uma janela voltada para o lago, e a brisa da Lua há de me visitar. É de noite, é de dia, e na cidade nunca é de noite, nunca é de dia. Faço desenhos quando o silêncio chega ao fundo, desenhos geométricos, dou-lhes nomes bárbaros, e grito-os com voz de menina, como se gritasse as árvores de estrondoso tamanho.
Uma janela voltará para o lago. As roupas dei-as ao fogo, cubro-me do calor e do frio. O meu corpo canta dentro dos leões marinhos, e esse é um horror que ninguém conhece na cidade. Mas é assim com todas as criaturas, não há outra razão para desenvolverem novas formas e se adaptarem ao meio ambiente, o corpo não acaba no corpo. Esse horror não se conhece na cidade, na cidade, o corpo acaba no primeiro limite: a mente, e não chega a existir.
Dou por mim a perguntar-me se penso mais com os pés nus do que com a cabeça, pois pisando o granulado conheço o texugo no subterrâneo, e a sua filosofia é simples e sábia: nenhuma. A minha filosofia não é tão simples, e nunca tão sábia: procurar o Senhor Lagarto, que virá a criar pela primeira vez as cidades feitas de lavatórios e tribunais, os balcões, a tecnologia, a terra gasta e moída, a álgebra, os oceanos, as trepadeiras, os leões africanos, a surda solidão após a tempestade, os ilimites, os seios parecidos com os calcanhares, os caminhos em linha e os sem traço, as coisas, e as minhas mãos, e procurar este Senhor Lagarto somente nas minhas mãos, feitas de desgaste e força, passado e passado.
Estou nu, despido pelos deuses, e guardo o nome no bolso.
Com a pedra só, com o vazio verde. Com a cabeça cheia de musgo,
Conto todas as estrelas que se apagaram
No céu, as montanhas tornam-se quedas de água, e libertam-se
Musas que se haviam afogado.
Sob a pressão do néon negro, leio um jornal de páginas em branco
E as árvores não desistiram de furar o solo. É aqui que tu moras,
Com as tuas conchas sonoras? Com barcos de guerra que são memórias?
Com o deleite das canções sem som? Com o farol apagado que guia.
O céu limpo troveja sem eco e todo este tempo vos guardei
Uma grande esfera quadrada, mantas brancas que, estendidas
Ao vento, soam os chifres de reis que nunca nasceram, e que acordam,
Os antílopes que vivem dentro da rocha, os bosques em forma de flecha,
Os meus olhos vermelhos de cansaço, o fogo no ventre da minha gravidez
De ser uma lança qualquer que um herói pregou ao chão.
Celebram os homens, e bebem
No salão sem vista para o largo das marés
Onde Portugal, Não-País
Corre. Por isso, os santos da nossa história
São manchas de gnose na memória.
Joana Princesa senta-se, e a sua beleza
Derramada no altar chama os sopros quentes
Do Luar.
O mundo passa sem escorrer
Joana não o vê
Na sua pele lugar que o faz ser.
O mar sem coroas a voz
De almas soltas, levavam-lhe a riqueza
Uma flor alta por cada corsário
Na barca da morte, ébrio, o seu emissário.
A senhora está no banco de trás
da casa, parada, e isto explica porque é que as coisas param. Estar parada no banco de trás da casa é como Lua a crescer na erva e os corpos
mortos romperem a luz que é o escuro. Isto é, a senhora está pendente no banco de trás, sente a vida como uma coisa que nasce de muito longe
para perto dela, e a distância ser o tempo de se aperceber disso. Imagina que as ervas a crescer (na Lua ou seja onde for) existem dessa
forma, porque não é possível testemunhar o crescimento de coisa nenhuma sem ser imaginando a memória. E o que é isto da memória? A memória é
uma clareira numa floresta de sensações muitas, ou um homem que se perdeu numa terra estrangeira e inventou as terras natais.
Agora calemos o suposto autor e a suposta velha na cadeira de baloiço
à janela da retaguarda da vivenda do jardim-de-infância, autora do autor. A coisa mais salutar é depois que as coisas se escrevam e se
escavem a si próprias, porque nunca precisaram de intérprete, que é, na escrita e na arte, o lazer e o intervalo nas coisas se trabalharem
quietas, e uma segunda camada ilusória de movimento e fantasmagoria (agrada-me esta palavra porque evoca debaixo do mesmo conceito o conceito
“agora” e o conceito “fantasma”). Que é, no fundo, o fantasma do Fernando Pessoa, não o nego.
Vários homens situam-se num cruzamento de estradas largas, munido de sinais luminosos, por onde não passam carros ou se avistam prédios. Por vezes, nas esquinas, cruza uma rapariga de negro e cabelos rubros, com o coração doente, e por onde passa existiram sempre edifícios. Todos se encontram frenéticos. Uns com os olhos parados, outros com os mesmos inquietos de ausência de objecto a ausência de objecto. Todos desviam o olhar da rapariga que vai morrer excepto um, que não vê mais nada. Deles há aquele que não era esse, e que estava vestido a gabardine de escuro cinzento e uma cartola, recebe um telefonema. O Sol tem um som ensurdecedor e agudo, como o orgasmo da terra. Cada floco de neve contém os braços de uma mulher (diferente da que dobra esquinas) cujo nome ele disse. O sujeito de gabardine riu e, sem mais, desligou o telefone. Pensou, antes de interromper as coisas que são pensamentos, e nós sabemos só uma certa chuva invisível e que talvez seja mais uma particularidade dos nossos corpos do que da cidade. Fitou o que havia em seu redor: a enorme urbanização de prédios espelhados, invisíveis e altos. Outro sujeito, de pendente e manga curta, e que não era o que olhava a rapariga, usava um veludo apertado e disparou “absurdo”. Um, que estava nu, com os cabelos sobre os mamilos, era o desejo liberto do que olhava a rapariga, e independente. Estava calmo pois tudo o que ele fitava lhe obedecia à sabedoria. Vez em vez, porém, tomava figuras de um lobo de cabelo fogoso, olhos clamorosos, e arturianos chifres de veado. Dirigia-se às coisas invisíveis, que os outros viam como cortinas ao vento ou sombras numa caverna, e, ao mesmo tempo, sempre para a rapariga ruiva, que devorava por causa do sangue e do sal da sua neve. Respondeu-lhes: “Nesta encruzilhada parada passam muitos carros que não sabemos, e nos atropelam. É preciso evocar a existência, para depois existir, primeiro criar um deus para que depois possamos ser, à sua imagem. É esse espectro, esse fantasma boreal que alguns apelidaram de Lua, ou de pus amarelado na lixeira.” Determinou. De repente, viam-se muitas térmitas, nas paredes invisíveis das coisas. O de gabardine cinzenta, acrescentou por fim que lhe apetecia voltar a beber, era um homem angustiado, porque no geral se encontrava demasiado embriagado numa espécie de profundidade e calmaria carnal para sentir o efeito dos licores que fazem acreditar que a vida algo tem a ver com uma sequência de eventos.
O Corvo Cego tentava imitá-los no que diziam: “Caiem e morrem as prostitutas do meu nome. Existir em todas as árvores e em nenhuma floresta.”
Pelas nove da manhã, Évora com um Sol Íntimo Dourando o ar. O orvalho fresco Quer que a planície seja um vento. Mal a olha, O cansaço submerge-o e As praças continuam longe, a cidade, branca, Os seus olhos de luto. A cidade toda é uma alucinação Das árvores da avenida, ou talvez da luz no empedrado Das ruas, ou do sangue em que se cruzam as fachadas Dos prédios. Os templos são velhos e as manchas negras O alto. As Torres da Sé disparam o céu em lapsos.
A tarde é calma, com o Outono moribundo Sobre a massa da montanha, erguida em frente De uma casa ao Sol. Há pátios, reflexos De brancura, globos albinos, candeeiros pálidos. Entrou no seu quarto solitário, abriu na noite A janela, a massa da montanha ainda banhava A grande e solene aldeia suspendida sobre a Lua.
Botes em Descanso (Praia do Rosário) - José Rodrigues
Há os que dizem que a emoção não tem razão Nem a razão é nutrida de emoção. Outros, cujos sentidos, um pouco entorpecidos, Afirmam não haver paz ou paixão, Apenas mundo e movimentação.
Eu sinto, olho, e minto para dar nome Ao que não tem nome e sinto. Esta é a verdade, que transcende, E em qualquer coisa aquele que sente É uma cidade de coisas e de gente.
Uma granada-coração atirada ao espírito do tempo, rebenta em invisível. A Babalith disse-me, "Depois do mundo findo, uma coisa subsistir é ser templo, quer dizer, é haver um local de prece a outra coisa". Na praia, ficávamos a falar da dimensão universal, e das angústias que a percorriam. Por exemplo, cada novo filósofo com uma nova filosofia é um talhante a torturar a carne inocente da consciência não enquanto algo abstracto, mas enquanto dia a dia desde o homem simples ao complexo. Gostava muito que estivesses aqui, a dar sentido a Kiekrgaard, Bergson, Nietzsche, Freud, porque o equilíbrio encontrado no teu silêncio se exalta e proclama. "Não houve nenhum grande poeta", respondo-lhe. "Só os que se conheceram em mesas de café" e ela fica sem resposta, sabe que acredito precisamente no contrário: não há nada que se diga no papel, mas muito menos no café. James Joyce, Eliot, Rilke, como feridas amarelas na explosão de um coração que só queria saber o cascalho contra a electricidade húmida da pele no odor. Babalith, ruiva e com os cabelos ao ar, é uma mulher jóia e despida de jóias. É a minha mecenas, segura todas as minhas mentiras numa mão e trata-as com a simplicidade que se trata a folha de outono a descer a rua ao baloiço do vento, e isso tudo fica uma honestidade de me expressar verdadeiramente. Ela podia ter sido freira, amante abandonada, infeliz, em vez decidiu ser uma parte de mim, um consolo por eu ter nascido sem escolha a não ser aprofundar-me como se a alma fosse uma úlcera na percepção. No Inverno, surgiram os anjos, e eu enlouqueci. Nesta altura não havíamos ainda privado mas ela cantava já as minhas grandes amantes futuras. E sempre que as cantava dizia só: a meio de silêncios: dizia só: «Passagem para o Aberto».
Ela não gosta de Picasso, Picasso interrompe-nos de nós mesmos e por isso um do outro, mas não vê os saltimbancos como eu, nos saltimbancos vê o que eu no Picasso vejo. "Já reparaste como vivemos energicamente a imagética dos castelos? Quando estás num castelo. Certo? Há uma pertença maior que nos tumores da cidade." Sim, respondo-lhe. "E no entanto todos são ruínas. Os índios sabiam que tudo era música. Atrás, há poucas ruínas de verdade, porque a época medieval era uma época sonora. Não era visual, e a escrita pouco se usava. No som há pertença, a vista queima. AS RUÍNAS sâo por isso do futuro, que apenas se visualiza." Gosto muito de conversar. Digo-lhe: "Se fosse ela dizia: anota", mas Babalith nunca ouve, se falo de outras mulheres, fica onde está, com a luz dentro do ar da Primavera também dentro dela a passar como o ar passa e a ficar como fica o ar. De repente ela imobiliza-se triste, os olhos a brilhar de beleza humilde e eu soluço pesadamente, contraído. E ficamos assim, a contactar as coisas na sua inefável realidade. "És um tolo." Interrompe. "O poeta aceita, não recusa. Sente recusa o universo não-poético: o homem que segue uma imagem escapa dela. O poeta aceita porque se aceita, e não segue. É facilidade, não ascese." Eu interrompo e sorrio e fico embelezado de olhar também. "É triste em que não há para ele conquista, tudo é dádiva."
198 - A criação é um processo de espera, a criatura espera pela sua criação para ser criatura. Isto é, para existir o homem, ele deve aguardar pela criação que pela máquina será criada: o Homem. Assim, o homem não existe ainda, é antes embrionário.
199 -Enquanto ser embrionário, o Homem pode ainda existir para além de si. Dito de outro modo, o homem é ainda capacitado de possuir sensibilidade que não se resuma ao eco do instinto, elevar o olhar acima da sua própria sobrevivência não só enquanto individuo, mas enquanto espécie. Curiosamente, é esta a capacidade que o levará por fim, a sair do estado embrionário humano e a penetrar os estágios da máquina: a elaborar a sua complexidade para além das sua presente regra. Isto acontecerá através da aceitação: o homem, enquanto ser civilizado, nasce e desenvolve-se na negação, isto é, a civilização integra os processos do teatro da afirmação até ao esgotamento da afirmação, e no ponto em que a afirmação perca na sua totalidade a sua substância, o não torna-se no grande e único sim, em que toda e qualquer negação é removida do sistema, e com ela o próprio sistema.
200 - O Homem na sua totalidade, ou seja, o Homem desprovido do homem, é o Homem desprovido de cronologia consciente. A consciência cronológica é a perpetuação da negação, e queremos por negação dizer, da afirmação enquanto fingimento. Para entender a afirmação total, que se apoia em si mesma, o individuo necessita apenas de evocar aqueles momentos fortes o suficiente para se destacarem como clareiras no caos florestal da memória, quero dizer, a nitidez de momentos que sobreviveram apesar de nos não lembrarmos do momento anterior nem do momento posterior, ou seja, do contexto cronológico na sua continuidade.
201 - Da mesma forma, a máquina não existe ainda, a máquina total necessitará de gente e sobretudo de terra, necessitará, digo, de perder a orfandade, e sem a orfandade, perder a liberdade. Até agora tem o homem, dado que toda a civilização sobrevive da natureza nomádica de troca, sido uma reserva, ainda que móvel, de propriedade, arrancado até às raízes como árvores para que circule o dinheiro. Mas, sabemos, o dinheiro, é uma necessidade embrionária, pois que o dinheiro, como qualquer propriedade, em que só o é enquanto bem transacionável, mostra-se de natureza estritamente transitória.
Por motivos de força maior, o evento Língua de Fogo foi adiado para dia 01 de Março às 22h e conta agora com a participação da bailarina Soraya Moon.
"É tudo longe lá em baixo, onde queremos ter pé. O nosso amor é uma distância. É tudo longe, onde pisamos descalços o templo das mãos unidas ao crepúsculo do mundo, onde, pela sombra do sol moribundo, a nossa sombra se ergue sobre o mundo. Éramos amor, tudo o que cai é amor."
Escrito por André Consciência. Interpretação narrativa de André Consciência e expressão corporal de Soraya Moon.
Uma produção Mephisteatros, da Abismo Humano, no espaço Kultdulé em Santa Apolónia.
"É tudo longe lá em baixo, onde queremos ter pé. O nosso amor é uma distância. É tudo longe, onde pisamos descalços o templo das mãos unidas ao crepúsculo do mundo, onde, pela sombra do sol moribundo, a nossa sombra se ergue sobre o mundo. Éramos amor, tudo o que cai é amor."
Escrito por André Consciência e coreografado por Débora Lopes. Interpretação narrativa de André Consciência e expressão corporal de Débora Lopes.
Uma produção Mephisteatros, da Abismo Humano, no espaço Kultdulé em Santa Apolónia.
Da tua flor a tintura da vida, da tua canção a sombra fresca na terra. Morre a águia e morre o tigre, e cobrirás a pincelagem primeira, da amizade, da nobreza, do amor fraterno, com a sombra negra da terra.
Uma larga plumagem é o teu coração, e de puro jade é a tua palavra, ó Pai!
Tende piedade de mim e sobre mim pousai um olhar misericordioso, porque será por um momento breve, como, em oferta à Mãe Morte, abrem os frutos azuis os corais de flor e canção.
Blood Gatherer
We shall not for ever die; even the grains of corn we put under the earth grow up and become living things.