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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Agora estavam a latejar





O fogo tem sempre fome
E com o calor a cobrir-lhe a cara
Ela estava em pé por cima de mim
Agarrada ao meu archote
E a uma tristeza que pensei talvez
Quebrar-me no peito.

Sob um manto de folhas
Os meus olhos estranhos
Fendidos e dourados
Reflectindo de volta a luz do meu archote
E um cabelo de Outono
A cantar uma canção de terra
Aos teus pés
Deixei crescer uma grossa
Raiz branca a deslizar para dentro
E para fora, o coração com medo
raiz agora grossa como a perna
E a criança que não era criança
Movia-se depressa
Uma ponte natural sobre o meu
Abismo escancarado
A pele branca excepto
A mancha sangrenta que lhe verti
Até à bochecha.

Agora, a minha raiz penetrava
A carne da sua coxa
E emergia do seu ombro
Com rebentos de folhas vermelhas
E brilhavas uma lagoa de sangue

À luz do meu archote. 


André Consciência

sábado, 28 de dezembro de 2013

Fêmur de Loba


Beauty and the Beast - Annie Leibovitz

I
Um dos lados do seu pescoço comia.

As pessoas não eram feitas desta brancura
Nem a areia fina tem forma.

Na pista, vindo da escuridão
Restolhava um mar de saias.
Partia as palavras e fazia-as respirar.
Deixou cair os braços do condutor da camioneta.
Não sabia.

Enfim, chegaram os lobos.


II
A terra pisou o centro da noite
Um sobreiro parou debaixo dela,
França.

A mulher tentava falar mas não se entendia o que dizia:
“Qualquer coisa”. A terra macia e as pedras separavam os tojos
Desfaziam as veredas. As mulheres e os homens eram seguidos
Por caudas, ao tropeçar, e quando tropeçavam batiam
Nas costas outras, a abrir asas deformadas. Tinham o que viam
A calcar a grandeza do céu negro e grande. O caminho sabia
Enfiar-se no homem que conduzira a camioneta e só
Ela levantava-se diante dos rostos
A cabeça dos outros mergulhava
Como que para dentro de um vidro, na sua voz,
“Qualquer coisa” , a felicidade fazia promessas, com grilos
No arrastar dos passos.

É o pensamento que faz nascer a ausência.
Desconsolada, a noite olhou para dentro dela
E recusou-lhe um pedaço, muitos pedaços,
Três pedaços, a olhar para os homens
Cortou-os como lascas de pão, abraçou o chão
E deixou as suas malas de lado.
Um ribeiro simples passava,
Um fio de água foi sentar-se com ela.

Tudo aconteceu quando descansaram para parar.
Ficou duas horas a subir e descer os cabelos.


Horned Wolf

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Snuff





I

O silêncio da estrada
E os teus pés denegridos
Pelo marchar das horas
Quando o Sol ilumina
As fissuras na montra
Do teu coração.

Lua. Morta na pedra. As palmeiras a esvoaçar o azul escuro. O sangue das nossas mãos. O sangue. Das nossas mãos.



II

Agora não há nada que te prenda aqui. Disse a rapariga de branco. Ela pensa que te moves dentro das suas pálpebras. O ar mudou. De repente já não escrevia. O banco contra o sol morno da carcaça daquele dia convidava-nos a sentar. O amarelo espalhava-se por tudo, tórrido e mudo. O inchaço dos teus olhos. Contra o ar de chumbo entre nós. Não há clarão nos dias tempestivos que não seja tenebroso. O peito do homem caia aos trambolhões pelo precipício da sua desalmada inclinação. Não tentes olhar para mim antes do dia acabar.

III

A carne viva. A febre. A tontura. Ofegante. Ofegante. A arranhar-se contra as paredes de si. A tontura liberta contra tudo. Perdeu a memória. Disse. O taxi. Perdi a memória. Os olhos lançados contra o lamaçal poeirento do tempo ausente. A mão suada e rigida como a de um peixe morto no gelo da eternidade apodrecida. A testa a ferver com os desvarios da origem. O banco afunda-se para dentro de nós e quebra-nos os ossos. Há um adeus nas carnes a soldo. Tudo era um peixe e o seu olhar vidrado quando olhavas. Tudo era água fria. "Devias beber mais água", dizia nua a meio do oceano infindo, sem costa, inútil, insólito. Tudo inútil.


IV

As plantas. O caminho de terra móvel parada. O vento claro e ofuscante. O sol tímido e afogado. A tua figura recortada e primordial. As pernas grandes e chamativas, como a cauda dos peixes-homem. O cabelo de algas. Achavas provavelmente que eu não sabia o que era estar morto a só existir letras. Ah, mas as minhas personagens a cruzar para este mundo sem morrer de febre. Débil. Débil. Débil. E os meus músculos a enfraquecerem na tua morte adornada de chifres. O meu calor a ser um frio maior. Não. Não te esqueças que sorrimos. O metro com a boca enorme. A cuspir o bafo do adeus. Tudo a apagar-se e eu a sorrir. Idiota contra os dias. Idiota contra a palidez das memórias da infância. Idiota contra a luminosidade das clarabóias distantes. A passeares-te monstruosamente saída de mim. Metropolis. "A seguir, não me lembrava de nada, ou de ter saído de ti. Só me lembro de um velho, o eterno homem, um pé entre as ruínas" Lembras-te de mim?


V

A cabeça do mar estremece no meu punho. A mulher morreu para eu viver. Todos os Homens, todos os Monstros engolem serpentes.  


André Consciência

terça-feira, 2 de abril de 2013

Um Grande Emaranhado de Chifres

Dedicado à Anue




Recuou com o horror a olhar no rosto.
O medo vivo afastou-se mais um passo da porta aberta.
Uma penetração chorava enquanto no menino
Com angústia no olhar
O bastão entrava a movimentos insistentes.

Estava nua, e o seu magro corpo
De pele clara
Gotejava do cabelo
Os seios pequenos
Escorriam em arroios
Descendo até às coxas.

Um homem imolado na pele morena
Acima do seu próprio rosto, com relevos
O pescoço delicado segurava
Os braços de um homem morto.

A medida caminhava na direcção da máscara
De uma coroa
A pele amarelada contraia-se
Solta pelas costas
Com passo irregular.

O branco ensanguentado avançava
Contorcendo-se, reluzente e fremente
Nos corpos negros
E a boca vermelha, presa ao cabelo
Procurava correr para os alvores
Da manhã na porta aberta,
Mas a gordura rumorejava no tecto
E a chapa de cobre reflectia o seu corpo nu
Talvez porque todos tinhamos corrido nus
Enquanto crianças. Como tinha conseguido
Fazer penetrar a cabeça?

Um manto preto
Cobriu o sangue
Da sua pele clara.

A cama tinha um sobrecéu de um tecido
Bolorento. Um barulho de coisas partidas
Soou.


Horned Wolf

domingo, 17 de março de 2013

A Cidade Que Não Dorme







No céu ninguém dorme.
Ninguém, ninguém.
Ninguém dorme.

As bestas lunares farejam
a patrulhar o desfiladeiro.
As vitais iguanas
mordem os homens que não sonham,
e o homem que foge,
o seu espírito quebrado,
encontra na estrada
o improvável crocodilo,
imóvel sob
o debate suave
das estrelas.

Ninguém na terra dorme.
Nem um, nem um, ninguém.
Ninguém adormecido.

No distante cemitério
propaga-se um cadáver
três anos lamentoso
da saúde estilhaçada
que suporta;
e o rapazinho
enterrado esta manhã
chorava tão estrondosamente
que os cães foram levados
a acabar com o seu pranto.

A vida não é um sonho.
Cautela! Atenção!
Em guarda, todos!
Pela escada da vida
havemos de tombar
para comer chão árido
ou subir à faca-
limite da neve
entre floridas
canções de desolação.

Mas não há
memória;
não há
sonhos;
Há carne.
Carne apenas.

Aqui está carne.

As nossas bocas tacteiam beijos
no labirinto de veias frescas,
e cuja dor na dor
ferirá todos os dias
e quem desejar afastar
da morte a casa
deverá para sempre ser
o esposo não-amado da morte.

Um dia
cavalos viverão
nos salões
e formigas enraivecidas
hão-de se atirar
aos céus amarelos
que se refugiam
nos olhos das vacas.

Outro dia
havemos de ver
as ressuscitadas
borboletas se erguerem
dos túmulos
por terra
de esponjas cinzentas
e ociosos barcos;
ainda capazes,
jovens ainda,
havemos de ver
as nossas jóias secretas cintilar
e as rosas açoitar
a nossa língua.

Cuidado! Atento! Em guarda!
Os homens que portam cicatrizes
de garra e tempestade,
e o rapazinho em chuva
porque não sabe
das pontes inventadas,
das pontes edificadas;
ou aquele homem
que possui
sapato e cabeça;
devemos a todos levar
à muralha
onde aguardam iguanas
cobras
e os dentes de ursos
se antecipam,
e a mão mumificada do rapazinho
trémula
e os cabelos do camelo
erectos
com o soluço selvagem, azul-celeste.

Ninguém dorme no céu.
Ninguém, ninguém.
Ninguém dorme.
Se um só fechar um só olho,
se alguma pálpebra desliza,
chicotes a abrem, e que batam!

A atmosfera que desejamos
é uma de olhos vastamente abertos
e feridas melancólicas incendiadas.

Ninguém está a dormir
neste mundo.
Ninguém, ninguém.

Repito-me.

Ninguém está a dormir.
Mas se algum se encontra
dorido
nos tornozelos
pela noite,
abram os alçapões
e que veja esse
ao luar
os traiçoeiros cálices,
e o veneno,
e as caveiras do teatro.


Federico Garcia Lorca
traduzido por André Consciência

domingo, 30 de dezembro de 2012

Naquele Descampado O Chão Eram Lençóis

André Consciência



Ganhava a vida a atascar o braço na vulva das vacas
Doíam-lhe os calos, as botas, os pés inchados,
E cortava o cabelo com as unhas grossas e duras
Sem querer saber para nada de Lisboa nem do estrangeiro
A amar a terra indivisa e fecunda, para além da própria vida
Que fecunda e indivisa se fazia.

Grosso e escarlatino, grande,
Meio monstro e meio bobo ia a Lisboa
Quando muito a Évora, e deitava ao leito
Uma ou outra menina, que as visse
Pintadas de bucólicas rosinhas azuis.

Mas na cidade as camas eram sempre estreitas e fracas
Para ele, e só então reconhecia na sua nobre consciência
A sua monstruosidade, já o corpo agigantado e espesso
Se separava dele e no outro lado do mundo as mulheres choravam
Mas ele estava noutro planeta, todo cravado
De dores, um poço sem feitio.

O tempo era parado, desumano,
Quando tinha pena -
Um animal doente e nefasto,
Aliás, nunca pensava nele.

Levava-as para aquela rua mais pobre
Onde as casas nem sequer tinham janelas,
Depois, com ondulações de mar nos flancos
Morriam, doce e resignadamente, com uns olhos de água
E de amor, e pouco a pouco emudeciam, bracejantes
Naquele tapete verde-amarelo do crepúsculo.

Como eram decentes a morrer!

Metia-as lá fora, o Sol a escaldar,
Mulheres velhas e novas também,
Todas agora sem idade.
Que Sol! Que caras de fome!
Minguadas, raquiticas, cosidas com rugas,
Todas em tempos a alimentarem-se de violetas
E a urinarem prata.

Um dia também vi um querubim de cinco anos
A esmigalhar ranhoso a cabeça de um gatito
Tranquilamente entre duas pedras.


Horned Wolf

sábado, 29 de setembro de 2012

Formas de Ferro




No dia do meu desapontamento

Havia rosas num mar de ferro
Não significávamos nada
E as nossas memórias sido mijadas
No topo, por mulheres furadas, e,

Com formas de leitão.


Horned Wolf

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os Homens Ocos

I

Somos vazios
Homens de palha
Inclinamo-nos juntos
Elmos com cerradura. Ei-las!
As nossas vozes secas, no momento
Em que juntos sussurramos
Estão quietas e obsoletas
Como vento na erva morta
Ou passos de rato sobre vidro partido
No nosso abafado sótão 

Contorno sem forma, mancha sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;

Aqueles que passaram
De olhos directos, para o Reino outro da morte
Recordem-nos - se de todo - não como almas
Perdidas e violentas, mas apenas
Como os homens ocos
E empalhados.



II

Olhos que temo ver em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Ali, os olhos são
Sol na coluna quebrada
Ali, uma árvore que balança
E vozes são
Na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que a estrela desvanecente.

Que demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
E que vista
Enganos mui deliberados
Casacos de rato, pele de corvo, estacas cruzadas
Num campo
A comportar-me como o vento
E não mais -

Não aquele último encontro
No reino do crepúsculo.



III

Eis a terra morta
Eis a terra dos cactos
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui recebem
A suplica da mão de um morto
Sob a radiância de uma estrela moribunda.

É assim
No reino outro da morte
Acordar sós
Na hora em que nós
Trememos de ternura
Lábios que beijariam
Formam preces à pedra quebrada.


IV

Os olhos não estão cá
Cá, não há olhos
Neste vale de estrelas a morrer
Neste vale oco
Esta mandíbula estilhaçada dos nossos reinos perdidos
Neste último dos lugares de encontro
Tacteamos juntos
A evitar discurso
Reunidos nesta praia do rio túrgido

Cegos, a não ser
Que olhos ressurjam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino crepuscular da morte
A esperança apenas
De homens ocos.


V

Aqui rondamos a figueira-brava
Brava figueira brava figueira
Aqui rondamos a figueira-brava
Ás cinco da manhã
Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o acto
Cai a Sombra
Pois Vosso é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a resposta
Cai a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descida
Cai a Sombra
Pois Vosso é o Reino
Pois Vosso é
A vida é
Pois Vosso é

É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
É assim que o mundo acaba
Não com um estrondo, com um suspiro.


T. S. Elliot
Tradução de André Consciência

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Morte a Saldo




O coração rechassado para longe do cais
Das auroras. Ficaste a beber, com gestos
Repetidos, a tristeza do rosto pelos
Lábios. A febre, engrossada com a seiva
Dos cedros acima, até que tocavas o corpo
Da morte. A luz um véu, a esperança, um
Horror sinistro, ilegível lâmpada
Arbusto estelar, ah, mil putas sufocam
Sob o jugo das minhas asas: relógios
Agitados pelo fim. Este poema, do que fala?
Do que fala este poema do que fala?
Os olhos, fustigados de mistério assombroso
Que há no bolor fumarento do tédio;
O ar!, que sufoca e paralisa numa torrencial
Euforia; Centenas de putas desfiguradas
E já sem nome, misturam-se na cicuta que abeira
O precipício da beleza do teu corpo:
Disse.

Os jornais, repletos de letras em merda
Inscritas, avançam pelo dia como barcos.

O mundo não deixou de ser
Outro dia qualquer
Após a miríade de irrelevâncias
Intransponível.


Horned Wolf

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lixo




Queria uma nascente que me mostrasse
Os sonhos que eu perdi, todos, como se
A começar, e a vida fosse bela como o teu riso
No meu cadente olhar.

Mas a vida foi passando, e a nascente
Sempre a brilhar, demorou-me os dias
Lentos a passar, os meus olhos roucos
Secaram, deixando um burburinho surdo
Da pérola do meu peito contra o sonho desfeito.

Não tenho a quem a dar, prefiro os rios,
Ficar a imaginar. Nascerão cidades
Famílias de braço dado, todo um viver
Feliz e amado. Nascerá do outro lado do rio
A vida que não tendo e a querendo
A mim me consumiu.


André Consciência

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

...


A Calling - William Adolphe Bougeureau


O chão axadrezado, as paredes brancas, uma janela no tecto. Não me vou pôr a embelezar a coisa. Está incenso e luz de vela e lenço estranho com várias cores no altar. Eu com uma pia prateada nas mãos. Procuro não mostrar medo, para não desapontar os crescidos, todos de branco, eu de branco. Bem que podia usar um vestido de menina a ser baptizada – era mais... Falta-me a palavra. Era mais literal. A maior parte das vezes, na sua casa de campo com jardins delirantes, o velho está sozinho comigo, de negro, como um carpideiro, e espalha cinzas na minha testa e na dele para depois administrar a hóstia e fazer-me a queimadura e o sangue. Durante aqueles dias não posso deixar a sala, a Lua entra pela única janela (que está sempre fechada) e o Sol, no espaço frente ao altar, encandeando o resto da sala. Mas há um… Perdi-me. Há um pássaro, isso, um pardal que entra na sala hermeticamente selada, de vez em quando. Canta com muito eco e acaba por se ir embora. O velho dá-me de comer só pão e vinho e rosas (rosas, para não de me ferir muitas vezes). Hoje, ainda como rosas. Às quatro da tarde lê-me as escrituras e canta no que hoje julgo ter sido hebraico, mas não faço ideia, e fica ali, muito magro, a balançar-se para trás e para a frente, depois. Se me apanha a masturbar bate-me com a vara – é uma das coisas proibidas durante o tempo de preparação. Nos últimos dias traz o espelho e tem-me despido quando me lê as escrituras. Só aparece às 4 da tarde, mas a comida e a bebida só devem ser tomadas, restritamente, às 9 da manhã e às 9 da noite (a água várias vezes). Devo orar ao amanhecer até se estabilizar a manhã. Ao entardecer até se estabilizar a tarde. Ao anoitecer, e dormir de forma repartida, de modo que nunca restem vestígios do dia-a-dia. Uma vez chamou outras pessoas e chamou outras vezes. No dia em que o anjo finalmente vem e eu tenho de pôr a cabeça na bandeja de prata a primeira coisa são as fezes e a urina que não se controlam e o liquido seminal e a saliva e as lágrimas abundantes.


Horned Wolf

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Evocação IV


L'Arcangelo Raffaele - Autor Desconhecido

Ó meu Senhor! Purifica-os das transgressões; as tristezas, desvanece-lhes e transforma a sua escuridão em luz. Permite que -entrem no jardim da felicidade, purifiquem-se com a água mais límpida e, no mais sublime monte, contemplem Teus esplendores. (‘Abdu’l-Bahá).

Alguém te comeu o estômago. O teu coração palpita descompassadamente e à vista dos olhos de todos. Por várias vezes os comprimidos com que evocavas a morte e que te beberam o sangue. Hoje já não queres partir. Assim, cada pulsar agita as larvas rebeldes que habitam o teu peito, que é para dizer que a tua respiração é um assobio atroz. Contorces-te no triângulo. Queres proteger o peito com as mãos delgadas e isso é um ataque à carne lívida. Eu conhecia um padre que morreu, ficou sem pernas num acidente de automóvel e morreu. Vestia sempre o negro e um chapéu de cowboy. Esse padre depois falava comigo e eu pedia-lhe que te cuidasse. Que te sarasse o peito – e às vezes o teu peito parecia ser só o que era, o leito puro, limpo e perfeito para as minhas lágrimas evaporarem e os meus beijos repousarem. Hoje continuas na mesma escuridão, continuas devorada, como um vampiro rendido. E eu olho-te a partir do meu casebre da arte, as minhas mão começam a sangrar. Se te viro as costas os meus olhos voltam-se para as minhas costas. Deixei de trazer a espada comigo, porque sei que se te olhar tempo o suficiente te matarás de novo. Não. O teu olhar doloroso e inteligente não espera nada de mim. É por isso que a tua carne sensível magoa a minha carne aérea. Uma espuma de heresias sopra do lábio ferido, sem que o movas. Tornas-te macia e suave, como a banha das larvas. Preparas-te para dormir.

Horned Wolf

segunda-feira, 8 de março de 2010

Casa de Lâminas


Ch'am


Na segunda noite dirigi-me por meu próprio intento à Casa de Lâminas, cuja entrada em madeira não possuía qualquer inscrição, excepto marcas de haverem existido inscrições depois raspadas. Sentei-me e, enquanto esperava, pela primeira vez desde a minha viagem ao Lugar do Medo, passei pelas brasas. De imediato isto veio chamar uma legião tremeluzente de escaravelhos que ostentavam, no lugar de mandíbulas, tortuosas lâminas. Não soube de outra forma de lidar com esta prova, excepto o que fiz: negociar que, não oferecendo resistência, levassem apenas a carne dos animais. Quero com isto dizer que devoraram somente a minha cauda e as minhas asas. Da minha cauda organizaram um tacho de pétalas encarnadas, e das asas um vaso de pétalas brancas. Um momento posterior, na minha língua fizeram família as pétalas amarelas, que espantaram os insectos ainda antes da manhã ser chegada.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diários do Quotidiano



A primeira vez que escreveu poesia soube o que era não ter pais. Escrevera um poema a cantar de fezes, que deixou no correio da sua avó junto com um lenço ao qual se havia assoado. Era uma traquinice, ainda assim percebeu que, ao poetizar, era ele pai e mãe, e nada acima dele.

A primeira coisa é esta. A irmã leva um caniche literalmente arrastado pela trela. O pobre bicho não tem velocidade para acompanhar a menina. Ele dizia para ela parar, sem ser escutado. Depois afirmou, a pulmões cheios, que nunca havia gostado da irmã, só para ganhar a atenção, também ele um menino. Com isto, confundiu-se a si próprio, e ficou mais adulto.

A menina atacava-o com o cinto, brincadeiras de gaiato. Ele conseguiu roubar-lhe o cinto numa das investidas e simulou um ataque. A mãe entrou no quarto e acusou-o de maus tratos à menina.

O pai ficava a aspirar a casa depois de saber do nascimento da filha, dizia que era para estar tudo limpo quando ela chegasse. Mas o miúdo só queria saber como era a bebé. Depois viu-a, e sentiu uma tranquilidade e uma paz inesperadas.

A mãe subira ao pediatra, e para distrair a bebé o miúdo pôs-se a brincar com ela usando-se da sua aranha de plástico, acontece que a aranha fazia alergia ao bebé. Quando a mãe chegou acusou o miúdo de saber que estava a fazer mal e de o fazer por gosto.

Alguns anos mais tarde, depois do miúdo se mudar muitas vezes e já não ser um miúdo, a primeira namorada desaparecer doente, e ele não querer ver os livros da nova escola, ela com já parte da vassoura partida na mão, ofegante, com espuma nos cantos da boca, as faces rubras, os maxilares alargados e as narinas dilatadas, os olhos a quererem saltar para fora e ver o mundo (cof cof). Ele sentia uma linha em brasa nas costas, estava aparentemente calmo, muito quieto, a olha-la fixamente com uma chispa no olhar e um sorriso trocista no rosto. Ela dizia: "Não és nosso filho. És filho do diabo!" O rapaz regalava-se com uma descoberta irrefutável, capacidade que tinha para tirar até ao último resquício de auto-controlo da mulher. Se esse poder era ser filho do diabo, havia de o exercitar não só naquela mulher mas noutras mulheres e noutros homens, e dedicar os anos seguintes a refinar essa arte.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada IX


Hollow Project - Garden of Bad Things


Bruma, não existe nenhuma caixa sobre o meu cérebro, não existe cabeça e não existem pés. Não tenho corpo mas tenho bruma negra e a percepção da bruma negra. Ninguém me ouve, ninguém escuta as minhas palavras, eu não as escuto, não tenho voz, onde estão os meus lábios. Peito, peito, incontinência. Dedos, dedos cheios de palavras e que só soltam musica: dedos que nunca conheceram palavras.

Demência, foi no que nos tornámos. Eras tu a tremer no teu quarto como se a morte da tua mãe, depois de dois anos, fosse ainda febre no teu corpo, a impedir-te de pensar, a impedir-te de amar, a gastar a cor das coisas. Oh como tu me querias magoar. Tornamos-nos em demência, eu quis cuidar de ti, quisemos cuidar de ti, e tu quiseste destruir-te sem aviso. Eu fui a primeira ferida que te fizeste. Éramos demência: éramos eu sem cortar unhas, sem me lavar, sem limpar os dentes: era o teu silêncio desconhecido e insuportável. “Somos estação”, e eu ria-me. “Somos estação”, repetia o absurdo.

Demência, foi no que nos tornámos, eu feria-me e escrevia para ti num sangue rosado pela folha branca. Não via nada, a dor era cegueira. Tu nunca aceitaste a minha carta, nunca leste o meu sangue. Depois era praia, era os meus movimentos nos dias como se fossem todos eles movimentos de fugir. Eram os olhos, naquele dia maiores, da minha mãe, uma presença clara, “Calma, tu queres viver tudo ao mesmo tempo. Calma, ainda és tão novito”. Eu repetia, repetia essa verdade em mim: “Eu sou tudo, vivo, em cada detalhe. A minha presa são os momentos, o meu rebanho os segundos.”
A água de Tróia conseguia, por um momento, eclipsar o resto do mundo, juntei a si as minhas lágrimas, o meu interior, que doía, parava só por um instante, de doer lá fora como carne esfolada, esfolada de ti, de não estares nela.

Mentiste-me, quiseste magoar-me cada vez mais: destruí-te com uma só estocada, foste pior que nada: foste sangue por debaixo de cascos de cavalo, sangue que se une à lama de gente que se arrasta de ossos quebrados de luas partidas.

Não tinha boca: O mar fala de coisas de mim: o mar fala de coisas que nunca vi: que perdi para sempre. Tu, quando irrompes das coisas. Formas com demasiado conteúdo, quebravam o mundo.

A Metade Devorada VI


Acceptance vs Rejection - Squish Squash


I

O gato, alvo e com um olho de cada cor, estava muito preso, muito apertado e respirava ar queimado e abafado, esfregava-se contra os vidros.

Vesti o fato de macaco branco, coloquei os óculos grossos e fingi que me entusiasmava, cobri os pés de borracha isoladora, fitei as portas largas e gradeadas e abri-as.

Então quando me dizia que a minha zona de trabalho passaria a ser o inferno, fixou-se no meu sorriso e foi-se embora, para o outro lado de filas de maquinas de aço que, por nunca pararem de se mover, podiam bem estar mais vivas que os operadores.
Por vezes os rádios soltavam uma melodia e, se esta melodia fora significativa noutros tempos, éramos invadidos por reminiscências de caminhos humanos, mas a névoa ao contrário de se abrir, fazia-se notar com mais insistência, sendo que os óculos fechados e embaciados do suor eram o maior grilhão que nos separava de tudo o que fora uma vez nosso.

Depois, quando nos atiraram para a sala vidrada e que não era, como tudo naquela cidade secreta com passadeiras e carros colossos de amarelos; e coisas que esmagam e coisas que queimam e coisas que prendem e outras que rasgam; quando nos atiraram para ali e todos iniciaram o processo de deitar fumo pela boca e engolir líquidos castanhos, ou aglomerarem-se como pequenos carneiros em filas por alimento; quando me atiraram para a pequena sala quadrada, senti-me asfixiado. Os passos e os olhares e respirar pesavam-me com o peso dos pesadelos. E ela, que estava por ali, não havia modo de surgir. E quando o fez, na sua falta de sorriso cansado, balbuciou qualquer coisa sobre eu não ir ter com ela, e depois como se não houvesse mais nada a dizer-me, sentou-se com uma desconhecida que era como se conspurcasse tudo o que era familiar e próximo. E eu pedi que se sentasse num outro lugar mais espaçoso, onde eu podia sentar-me também. Os deuses e o diabo sabiam porque estava na fábrica. Os deuses e o diabo sabiam que ela não respeitava a minha falta de dinheiro e que vagabundos poetas se amam por um dia. Ela, como se dormisse, não respondeu, e a sua colega fez um sorriso impossível.


II

De repente, toda a minha vida estava nela, e nas minhas praticas, nas minhas disciplinas sórdidas e bizarras. Depois ela, apoiando o coração na nossa solidão entre os quilómetros de Lisboa-Porto, e horas de trabalho ingrato que me emudeciam os lábios com revolta calada, e um olhar desesperado por escapatórias e soluções, sem que viessem, e dias que faltava e procurava que o meu currículo encaixasse por toda Lisboa; e dias que ela telefonava e eu calado, não nos falávamos quando falávamos, e ela tocava-me como despedidas a prepararem-se. Apoiando o coração na nossa solidão foi rachando-o e quebrou-o. Mas ela havia sempre de voltar, eu sei, porque, coração completo ou metade devorado, éramos casa um do outro, porque jurávamos que amávamos não para amar, mas porque não se continha.

Depois foi o silêncio total: Irreconhecível e fora da vida que se conhecia e concebia. Quatro dias paralisados. Depois uma mensagem: “Telefona-me agora”

Ás vezes, sempre com a mente na alquimia e no deserto, e naquilo que escrevia dia e noite sobre a alma das coisas se resumir numa só alma de coisas, vinha uma espécie de ladrão e esse ladrão, em vez de me roubar o coração, roubava-me a paz ao devolver-mo. Ás vezes aguentava muito, e lia Byron, Blake ou Yeats, depois chorava muito, e continuava a ler entre as lágrimas. De seguida chorava muito sem livros, só comigo e com os meus movimentos desregulados de círculos caminhados. Depois pegava no telemóvel, que tinha estragado quando ela me disse do outro colo, e tentava pessoas: pessoas que me pisavam, prostrando-me humilhado, em lições sobre mim mesmo, em castigos de quebra de eremitério.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Coração Punho


Exodus - Babalith


Farei do meu coração sanguíneo, um punho fechado
E sentir-me-eis impelido, a esmurrar
Sem que nenhum sentimento em particular
Me venha a impedir, o rosto frágil e pedinte dos afectos.

Isso farei, com particular apreço; de seguida
Escutarei falar da pátria que me vendeu
Ao Deus dos vadios famintos, e esse músculo
Da vida, formará o laço apertado de quem esgana
O seu soberano. Deste acto, a sobriedade será a imperadora.

Quando, por fim, o meu corpo cansado
Vier dar à costa da minha atribulação, e
O território escavar a areia com os ossos das nossas
Desilusões, terei esquecido o teu nome eterno.

O meu punho decompõe-se, formando moscas
Sem destino. O teu rosto escava a praia
Como a praia escava o teu rosto. Eu passei.

Horned Wolf

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ruínas


Must Have Been Love - Babalith


Relacionei-me com homens que foram virtuosos. Morriam aos sessenta anos, e ninguém deixava de exclamar: "Praticaram o bem na Terra, ou seja, praticaram a caridade: e só isso, nada de mais, qualquer um pode fazer o mesmo." Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatravam na véspera, por uma palavra mal interpretada, separam-se, um para o oriente, outro para o ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não voltam a rever-se, cada um envolto do seu solitário orgulho. É um milagre que se renova a cada dia, e que nem por isso é menos miraculoso. (...) Coveiro, é belo contemplar as ruínas das cidades; mas é mais belo contemplar as ruínas dos seres humanos.

D'Os Cantos de Maldoror, Lautreamont

sábado, 31 de outubro de 2009

Casa de Sonho


In Every Dream Home an Heartache, Fields of the Nephilim


De semblantes estimulados,
Os braços envolta de mulheres
E a luz cintila, que entra
O céu gelado, o chão morno
E toda a luz cinzenta é pele
Se as árvores soltam chuva
E as cabeças habitam lâminas
De perfume, e todo
O cinzento é pele de manhã.

Agora isto, gritos em casas de sonho,
De paredes mornas e tectos quebrados
A deixar entrar os pés frios de uma cabeça
Cheia de balas.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Speech for Deaf Citizens

O mundo, sobre nós, agiganta-se.

E a nossa pequenez alastra-se.

A canção da manhã escapou-se através do nosso silêncio.

As ruas continuam, e as gentes que as populam, os risos ordinários.

Eu fui sepultado, na cova da tua boca.