Branco como a chuva gelada, cor de mel e feito de fogo negro, percorro a floresta nevada que se estende da Rússia de Leste, atravessa a Europa e desemboca nas Américas. Encosto-me ao pinheiro, as lascas secas e escarpadas atravessam-me na luz, as camadas húmidas e bruxuleantes. Uma ave cor de uva bica uma pinha e mistura-se com o ar, vital, e dá lugar ao javali, mas só o corvo ao cimo sabe o nome que pronunciam.
II
As árvores secas atravessam os vales como rios picados. A neve é o meu nome. E eu procuro-te. Procuro-te no sol frio e boreal. Durante o inverno, os dias são tão curtos e a temperatura tão baixa, que o crescimento fica suspenso. As árvores brancas e pontilhadas de amarelo suportam pouca vida. Mas a terra respira. Os rios.
III
Os salmões ancestrais elevam-se com a névoa branca e dourada, do azul crispado. Há um canto de águia, intermitente, como uma canção tua que se esqueceu. As águias são agora como borrões negros nos fios albinos e arbóreos. Quando a névoa os começa a amar, também eu estico as asas doridas e magoadas pelo gelo. Um qualquer tronco caído, e uma cabeça de plumagem branca e lança de ouro solta um canto fúnebre.
IV
As rapinas nidificam, a neve cai tão abundante que se tornam invisíveis entre escombros. Um vulto triste de reis e rainhas celestes de corpos pesados com a água abismal. Enquanto o inverno avança a precipitação lenitiva torna o tempo descendente e vertical. Também o ar se torna rio nebuloso.
V
Adiante, os ventos trazem ar húmido e quente do Oceano Pacífico, e eu cresço o ano inteiro, impulsionado por um desejo misterioso de regressar à alma que me fez nascer. No fim do verão, o Sol tostou a floresta tão intensamente que está tão seca como palha. Cabelos de fogo irrompem dos castanhos como uma água ruiva e os ramos pendem para baixo num abraço. A terra vomita uma densidade cinzenta. O vermelho sobe aos céus. De repente, o teu semblante na água quente, móvel e ascendente. A tua destruição aparente e a tua bondade plena. As árvores são lanças negras despidas contra a vastidão estelar. E um demónio de pó baila em espiral, uma coluna e um corredor até à nossa morada. O vento, ao varrer o chão da floresta recém exposto, levanta turbilhões de cinza. Ergues-te agora do solo sem vida. Eu vivo em ti, que te lembras, vital.
Montado num boi observo com a ave de gelo ao ombro. Três mulheres sentam-se à porta da fogueira e miram as estrelas de pedra. Inteligente e nas rachas da chama cresce uma trepadeira de forte perfume.
O cisne canta ao longo da água como num tapete persa. Atravesso-o. As três árvores de granito ficam também para trás, regadas pelas suas três fontes, depois, por seu mantel, a superfície de cristal manso e líquido onde as árvores se põem a subir infinitamente para o céu, continua e visivelmente, e eu suspiro um suspiro que adapta a flora e enriquece a fauna, o veado, a lebre, a gazela. Tudo é móvel, soprado pelo poder doce, e se fixa à minha aproximação. Então, a aurora ilumina a primeira montanha, tingindo de vermelho as pedras do céu, e outra água principia a cair, onde se deleitam arcanjos femininos de Zoroastro. Pensava ter encontrado a morada que segrega a luz que sou, mas a minha luz não vinha do chão ou do céu ou da treva do pensamento, os germes cresciam e avolumavam-se numa forma em que cada gesto é um significado e eu permanecia sozinho, como um objecto iluminado cuja luz tem de ser objecto.
II
Aqui matei o meu filho, e ele ergueu-se com as árvores que sobem infinitamente. Já nada vem do céu ou do chão ou da penumbra do pensamento. As coisas segregam luz, a minha mão marca a pedra e o horizonte perde distância e as alturas profundidade e ganham presença. Estou cheio de flores, rios, árvores, pássaros, montanhas. O céu azul. No céu, sou o céu, no mundo, sistema nervoso. Ali, lúcido e sereno, diáfano e translúcido, compreendendo a inexistente deslocação dos corpos. Depois, rebela-se o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e as formas femíninas que penetram as águas recebem o fogo e concebem, luz sobre a luz, os homens retêm a respiração e inicia neles uma respiração outra.
Há um coração no circulo de pedras, silente e rumorejante no seu silêncio, que canta os dias que fui e depois se debruça sobre o tempo presente e encontra tudo isso nos traços das suas próprias mãos. Depois há uma concha, contendo uma pérola, que foi ofertada sobre o antigo altar. Um anjo sobe e materializa-se, a cantar com as penas que roçam umas nas outras. E outro anjo desce e beija-te, lânguida ao longo das pedras como uma cobra imensa, e ajoelha os alces e levanta os dorsos das baleias do ártico e vocifera o frio mudo e a claridade. Eu abro os olhos, pendo sobre a ternura dos dias e balanço-me no pêndulo de fogo do teu ventre, o teu peito a florescer uma floresta de urze com lagos, o teu sorriso um palhaço de sangue reforçado pelas dobras do desejo. E onde a pele era um deserto a neve derrete-se, escoalha-se, revolve-se, ergue-se e canta na boca do anjo, um verme de luz insinuante. Anda, senta-te. Teçamos o mundo e as águas no fundo. Alguém voa, com os teus cabelos e o meu rosto, os teus olhos e os meus dedos. Alguém se senta, a tecer os dias sobre os quais os alces correm e o gelo chora e a cabeça alva da Lua se torna rubra. E não tenhas pena da morte, todos os homens morrem aqui.
O palácio do Príncipe é uma mulher de paredes brancas e janelas voltadas ao crepúsculo. As janelas são muitas e para lá das gloriosas sacadas de ouro escuta-se o sussurrar das princesas ao longo dos beirais esculpidos. Ali, os poetas vestem-se de peles ou de seda e andorinhas migram em pequenos círculos sempre no mesmo céu. Os pomares decompõem-se com as flores que florescem, os lagartos brilham esticados e imóveis ao Sol de barbas congeladas, os homens adormecem ao meio-dia da neve que cobre as ameias, as borboletas flutuam sobre pingentes de gelo, e os pássaros de plumagem brilhante equilibram-se no vento selvagem dos locais abandonados, as mariposas maravilham-se pelos campos frios entre flocos, mais altas ainda que os contrafortes, e os gansos selvagens voam baixo, com os gloriosos insectos e as orquídeas iridescentes. As águas gorgolejam quentes sob as nuvens negras e tudo dança num círculo de luz.
Sonhei que caminhava sobre vidro no nosso espaço xamânico. Chegado a uma árvore alta, escrevi com um caco o teu nome no cascalho. Passei a mão pelo cabelo e murmurei-te: os teus lábios eram suaves e o Sol pingava ouro, o anoitecer lânguido com uma centena de pirilampos. A vela intermitente iluminava alguns títulos de livros e o cheiro do musgo chamou a chuva, a chuva chamou as flores, tudo era urze.
F. Scott Fitzegarld
Há uma relação directa entre a morte e a luz maior: no cemitério o fogo queima até a pedra e as estátuas deterioram-se, ou, se nos apaixonamos, a mordedura das borboletas degrada a lucidez, os olhos negros ganham um tom azulado e a pele empalidece. Quando se beijam, os amantes abrem os lábios, a vida escapa-se e a neve cai vermelha de alturas insondáveis, às quatro da manhã ainda estaremos a dançar de pijama e as estrelas a gritar com vertigem.
O dia a seguir nascerá bonito, e como todos os dias nascidos do bem convocará a tempestade, a manifestação das potências, a chuva de pó nas páginas amarelecidas da poesia, o cigarro sobre o álcool, as pisaduras nos braços que se estendem para a escuridão dos quartos sem saída, os Outonos nebulosos ou o gelo que faz brilhar as estrelas.
Franz Kafka
A esperança é chama baça. Visto um saco de plástico sobre a cabeça, e vou pelas ruas da nostalgia, a sorver a chuva com a língua, com os ossos rachados, com os fantasmas que aprisiono nos pulmões, as veias dos pulsos, o cheiro dos livros. E sou um soldado, de saco de plástico como elmo, a esperança a força gravítica que arrasta a luz a um buraco negro. Sento-me, a ouvir crianças, contam estórias dos mortos, o futuro é um calabouço.
H. P. Lovecraft
A certa altura da noite a morte estremece e morre. Por um momento não respira, antes de retomar o seu passo lento, e nesse momento o céu é de uma luminusidade estranha. Nada se explica, e essa luminusidade explica que assim seja. Camile Saint-Saens numa casa vazia, a olhar o céu numa varanda que se pisa sem testemunha, o silêncio a sobrepor-se ao gira-discos mesmo assim. Daqui posso ver o Oceano, a escuridão no seu seio onde tremem as almas dos meninos.
Jack Kerouac
É impossível estar-se vivo sem paixão, mesmo o suicida, no último segundo ama ainda a vida. Da mesma forma, é impossível ser-se terra sem extensão ao infinito, ser-se gente sem tontura, haver universo sem enigma e descoberta. É impossível o ideal que seja possível, possível é o vento que alastra nos cabelos e a neblina no crânio, a incerteza sobre os ombros onde existem as asas, passar-se pelas brasas ao Sol, guiar de noite com risadas e café, gritar contra o filho da puta do deserto um grito de vida, o esquecimento.
Edgar Allan Poe
O eu começa na intimidade de um segredo. Dizemo-lo e o crepúsculo apressa-se mais como se impelido por uma chuva súbita, o sangue seca e o licor derrama-se. E nenhuma flor na campa é um segredo até que murche. Olha, eu mordo um limão, o olhar enche-se de vidro e roço nos teus os meus lábios, a morte a pesar-me o coração, a perfeição no teu fim. A chama só é chama se auto-inflngida, a sabedoria só é nos olhos das aves negras quando calam o seu canto, e Deus quando há pó: menos nas estrelas que desmancham a pedra tumular, menos nos corações que sentem o calor das mãos fora do corpo, menos no espaço oco que há dentro dos ossos, ou no nevoeiro que é o horizonte.
Na escuridão, não distingo os teus movimentos ondulantes, mas sinto o prazer causado. À minha direita, numa laje enorme, vejo que foi esculpida a tua magnífica cabeça, a cabeça de uma ave, rodeada de chamas. O teu interior é vagamente iluminado por archotes e as paredes estão cobertas de mascaras e outros objectos esculpidos em madeira. Tiro da parede uma máscara que simboliza o Sol, como se me estivesse a rasgar ao meio. A luz é escassa e só forçando a vista distingo os teus contornos a mover-se de um lado para o outro. Enquanto isso, das profundezas da gruta chegam-me aos ouvidos os teus terríveis uivos de mulher. O gemido tenebroso torna-se num grito lancinante mas eu prossigo, e no cume da montanha de fogo, para leste, vejo o amanhecer, as folhas vermelhas exalam o teu agradável cheiro adocicado. A noite chega para nos tirar as formas e o tempo e depois a aurora, apaziguada, abandona o seu esconderijo, um pássaro de bela plumagem a passar por dentro de um arco em chamas.
II
O vento começa a soprar com força, atirando-me pedaços de neve para a cara. Viro a cabeça para baixo e luto contra o vento. De súbito, por detrás da cortina de neve, surge a tua elegante sombra branca. A subida íngreme e a neve que não pára de rodopiar à minha volta impedem-me de andar depressa. Uma das minhas mãos está queimada do frio. Há uma rocha suspensa e a nossa pequena cabana que está encostada à escarpa com o telhado coberto de neve, as janelas pendendo longas estalactites de gelo. Reparo nas tuas pegadas pequenas e leves que partem dali e sobem a montanha.
A porta da cabana não se pode abrir por causa do gelo e empurro-a com o ombro. Lá dentro, na única divisão que existe, encontro a tua pele. A cama de madeira, uma cadeira e os utensílios de cozinha tantas vezes usados.
Agora o nevão de Verão cessou, o céu mostra-se azul e luminoso. A brisa é fria e agreste e a neve desfaz-se debaixo dos meus pés. Encaminho-me lentamente para a encosta até que encontro uma escarpa demasiado alcantilada para escalar. Resolvo circunda-la e deparo-me com uma autentica parede de gelo. O coração começa-me a bater descompassado ao avistar um bocado do teu vulto. Mais adiante, noto uma abertura na parede do lado esquerdo. Dirijo-me para ai e espreito. Vejo um homem muito velho a esfolar um alce. Ouço vozes a cantar ao longe e a tua gargalhada jovem ecoa pela câmara.
III
Lembro-me do Verão. A neve espessa cobria-te e um vento glacial saia dos teus ossos. Eu e tu gostávamos de seguir atrás das carroças, sem destino. Ás vezes roubávamos os tecidos, eu vestia-te deles e imaginava que me pintava com as tuas cores. Depois, bebíamos chás e trocávamos os tecidos por peles, peças de marfim e presas de mamute. A certa altura atravessámos um lago gelado e, ao longe, avistámos os picos cobertos de neve das montanhas. É Verão, e o Verão parece emergir das nuvens baixas. Neva continuamente, embora com pouca intensidade. Paro, fazemos amor. De súbito, o som de uma trompa de caça rompe o silêncio. Os teus olhos, de um azul-vivo, perscrutam o horizonte em busca de sinais de vida. A neve está tinta de sangue. Alcanço-te uma hora depois, com a noite já a cair, e descrevo-te o que encontrei. Fazemos um circulo, para melhor nos protegermos durante a noite, e no centro é ateada uma fogueira enorme. Sento-me perto dela, à conversa contigo. Reina uma atmosfera de nervosismo, mantenho-me atento a quaisquer movimentos do exterior. O nevão cessa finalmente quando nos preparamos para dormir, mas o sono demora a chegar. Quando acordo ao nascer do Sol, a fogueira não é mais que um monte de cinzas por onde sai um fumo que se mistura com a neblina da manhã. Não se ouve um som. A neve recomeça.
IV
Quando as imagens se fixam novamente, ganhas vida, batendo as tuas asas enormes. Da cabeça aos pés começas a cantar uma canção de embalar e os insectos ficam sonolentos, caem no chão. Reparo que o teu corpo se movimenta ao ritmo da canção. A fonte está livre.
V
Com um grito de dor cortas a tua própria perna. Tudo muda constantemente. De forma. De posição. Através de descampados sem fim talvez um dia encontre a jovem que segui. Mesmo que haja um frio anormal no ar, um nevoeiro sobre os caminhos de terra batida. E pelo caminho hei-de mergulhar a cabeça no rio coberto de neblinas, a minha pele ficará verde, coberta de escamas, sem mais medo da ave de fogo. E talvez ainda te veja delineada contra o horizonte, com o pulso feminino a esconderes-te atrás das árvores, a morte a cantar e a voar nas tuas mãos como se fosses o segredo da harmonia, mas o meu coração permanecerá nobre como o do lagarto, sem juízos, só com os demónios das planícies, uma centopeia gigante de barriga mergulhada nas águas brancas que uma massa de escuridão informe não consegue engolir. Então vou celebrar-te, a morte cantará com luz e destruirá completamente, contornarei o poço para te enfrentar. Os teus olhos rolarão para cima, deixando-te completamente cega. Seguirás às apalpadelas no meu vulto e eu serei a porta do casebre.
VI
Dirijo-me apressadamente para a saída da aldeia e fico a ver as portas de ferro e carvalho. Não tenho como me defender. Não tenho como me defender dos olhos brilhantes como pérolas que emergem do lamaçal, mas as árvores distorcidas e as plantas crescem, eu também.
Fora, atravesso os pátios dos palácios com um andar autoritário, as aves-peixe fazem-me continência, os planaltos arborizados alternam com vales belos e calmos, aninhando-se quase invisíveis entre penhascos escarpados, desgastados pelos rios. Ao anoitecer, viro-me para o espelho e pergunto o nome daquele lugar. O meu coração deixou de bater. Busco um local seco para descansar.
És tu? Como ninguém responde, sei que és tu. E de resto, ouve-se o som baixinho e típico de pés a correr. O meu rosto é uma mascara de fúria e dor, com os olhos a arderem devido ao que é libertado pelo deserto.
Olho a aldeia de vinho e secura
O Outono que entra e dependura
As cidades de fogo consumidas
Um vento escuro despe as mulheres ébrias
Da cor azul da uva, vidraças estremecem
Malditas, solitárias na noite calma
As feras negras adornam-se de lírios
O mundo era natural para mim, eu estremecia e nos não tínhamos conhecido, era natural a morte, as mulheres, a sede e o deserto, as feras que se passeiam na areia indiferentemente próximas ou longínquas. Mas demorava-me nos pormenores e encontrei uma porta azul nas ruelas daquele bairro que fazia meu. Essa porta ainda estava fechada no tempo, no entanto, vi-me junto das retortas do clarão da água, junto de ti que cantavas o mar por lhe sentir a falta, e parecia que nunca tinhas levado ali ninguém. Desconfiado, enquanto fitava o pequeno prédio de fora, aumentei-me imenso, para me poder espreitar a sair pelas janelas como um incêndio. Nascia um teatro honesto, uma vida além da morte em que salões eram montados para receber a última nas suas pálpebras azuis de dia e multicoloridas pela noite. Subi só meio degrau, quase insensível, a confiar na sensibilidade do homem artista e afogado na tua pele que ainda desconhecia. As visões de fora e as visões de dentro todas a colidirem como um pesadelo: Um coelho subia a porta azul e uma chama diante das janelas projectava o Sol, o Sol iluminava igrejas só habitadas pelos gongos e o tinir dos sinos estremecia sobre os vales rochosos onde se movia a sombra do peixe maior. Uma torre enorme erguia-se reunindo avalanches em seu redor e nós nadávamos despidos na neve, com pétalas de rosa a brotar das gengivas encarnadas.
Retomei o meu percurso. Então reparei, pela primeira vez, que nada se pode dizer sobre os lugares.
Todos os dias ao passar à porta de mim vejo expostas duas máscaras. Tu antes de mim, e eu, a sorrir como se soubesse que te enganava a minha felicidade. Tu és um anjo e a segunda vive acompanhada num deserto onde se sentam os reis de lábios gretados, com as suas coroas de machado a pesar sobre o bronze dos corpos duros. Nesse deserto sou fera abandonada ao seu sangue, com medo de si mesma e a devorar-te as asas-seio. Tu existires, anjo, e eu não dormir à noite, para verificar se dormirias no escuro um dia e como seria a tua beleza no sono.
Não foi o mal que me levou a odiar-te, mas o teu bem. Porque quando te viam as formas móveis num lodaçal de serpentes, o corpo a gracejar a glória nos teus bicos de pés, a tua dança a escancarar as portas do silêncio para deixar sair feras com o sangue que contra elas se agita eis-me, a olhar-te como o homem invisível e iluminado que a candeia que deixas arder até ao fim revela.
E ao revelares-me sou eu afinal a estátua imóvel com uma chama de pedra, para descobrir o anjo, e revelares-me é morreres para os homens de bronze.
Comeste a comida das aves, mas o meu trabalho é retalhar as asas e esculpir o vento, fazer a areia dividir-se e receber as estrelas e afasta-te tu, pois degustarei os anjos como um homem que se supera na pedra.
Em vida, havia o costume de nomear as coisas, todas as coisas tinham um nome e até aquelas que não tinham nome eram evocadas com o nome das outras. A morte, no entanto, é muda, um ovo em corredor que atravessa a existência de uma ponta à outra e a materializa em símbolos. Não há um único som nesta sala estreita e comprida, é uma galeria de essências, expostas em vitrinas como carne no talho, mas intocáveis, impossíveis de tocar ou ingerir, porque em vida tocam, morrem. Ali, aquele indivíduo que era um clarinete, emoldurado, uma palavra que me terá chamado um dia e a que terei feito apelo. Uma caixa de música sem música e só com a dança, a bailarina de plástico rodando à vista de pessoas que foram fadas, dragões, tapetes persas suspensos no tecto como Inanna, carnal aos olhos de Ereshkigal. A morte não é cega, e ao centro do corredor que é o centro do mundo, um globo de madeira, renascentista, que ao girar se abre e deixa cair telas com o retrato de todos os pactos. Fico à espera que estas paredes caiam soterrando-me e me façam símbolo de mim. Espero, imóvel, contra a parede, emoldurado.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
Um pássaro existe que vagueia sozinho no Sol, como uma sombra atrás da luz do fogo, uma memóra sombria. Veste um corta-vento azul e pode-se ver-lhe linhas de dor na testa, a cara pálida e luzidia de suor, os olhos aterrorizados num mudo apelo, a Palavra entranhada na boca. A cada passada, os metros tornam-se vastos como os céus e fundos como o fosso do inferno. Numa madrugada rosada sentámo-nos na borda do vale, com as penas penduradas, vestindo pijamas e roupão, nenhum de nós acompanhado.
Da tua flor a tintura da vida, da tua canção a sombra fresca na terra. Morre a águia e morre o tigre, e cobrirás a pincelagem primeira, da amizade, da nobreza, do amor fraterno, com a sombra negra da terra.
Uma larga plumagem é o teu coração, e de puro jade é a tua palavra, ó Pai!
Tende piedade de mim e sobre mim pousai um olhar misericordioso, porque será por um momento breve, como, em oferta à Mãe Morte, abrem os frutos azuis os corais de flor e canção.
Blood Gatherer
We shall not for ever die; even the grains of corn we put under the earth grow up and become living things.