Escutava-se uma respiração
familiar Um perdão distante que alterava o rumo
Do vento, das pedras, das casas Da
vista que se escapa dos olhos
Para longe, e as paredes vazias
Surgiam no alto do campanário Fechava
os olhos com força Á espera da ausência do tempo
O ar estarrecia, claro, altivo Frio,
e eu sozinho, inteiro
E na parede um riso de
criança Arrastava a mão para lado nenhum E um dia cairá uma
chama Alta, do alto das campainhas, Como um aviso, e a memória
efervescente
Acenderá todos os lugares Os campos
a arder e as crianças a dançar
Sob o jugo do fogo e a habitar as
paredes Evocarão um nome que ninguém conheceu E eu poderei
rir, e a minha respiração Há-de ser familiar, os cabelos o
trigo A palavra o ar.
poema poeirento encontrado aquando de arrumações para sair de um campo que campo já não é
A caveira à ladeira da porta
Deixa entrar no bar
As mortes de Lisboa
E não posso deixar de pensar
Que as grandes cidades de fantasmas
São habitadas pelos vivos.
Nos campos, sopra o vento
No vento, o fôlego perdido da cidade
Até que a minha terra límpida
E brilhante
Seja o esqueleto de nunca ter sido
Cidade.
É simples o tilintar da folha, o canto alto do pássaro, é alto e é simples, e é fundo.
Na distância vertical o vapor sobe e esfuma-se e o braseiro alumia-se e acentua-se, assim era o que fugia das mãos e o amor que teimava e vencia.
Vê, se mesmo a treva, agora, não se tornou dócil, com o seu fruto incessante em correnteza, se a luz oriental não habitou o copo vazio, o cinzeiro apagado e a noite sem estrelas.
E sê baixo, para que tudo possas reconhecer recortado no mapa das estrelas. Deixa para a sabedoria o ser titã, alta e orgulhosa e na torre de silêncio és titã, alto e orgulhoso.
Clap clap clap clap clap clap clap clap, assim. Três batiam palmas, um saltava para o meio, os transeuntes na escadaria a ver. Há alturas da vida em que ficamos novamente jovens, ou fingimos bem o suficiente para nos enganarmos. Mas de noite, chegava-me uma angústia, quando era para dormir. angústia. Levantava-me da cama, deixava-a a descansar e ia sozinho perder-me até começarem a assobiar nas ruas os que levam o lixo, os que abastecem os bares. Todos assobiavam. E depois as freiras a brilharem ao sol, os cavalos a começarem a preparar-se para o dia. Dirigia-me para o terraço do hotel. Ficava a comer, beber, fumar, à espera. Ela pegava em mim e levava-me para um jardim onde dormíamos ao calor.
Dizem que o medo não magoa mais do que um sonho, como a felicidade não chega sem ser convidada. Depois, há os que acreditam que um abraço pode mudar um dia, uma semana, um mês na vida de alguém. Nada disto eu sei, e não parece que importe. Procuro continuamente a minha última esperança, os rostos da minha última luz cada vez que me despeço, e nunca mais me esqueço. De resto, fico acordado à noite, de noite pode dizer-se e ouvir-se qualquer coisa sem que se estranhe.
I
Quando se caminha sozinho na cidade é-se superior a todos os outros, a melancolia absorve os vestígios do desespero e desacredita a dúvida. O Sol não se espreita na fresta dos prédios, mas aquece nos vales cinzentos e dentro das janelas, quando a noite chegar deixando do dia só as brasas, os moradores não adormecem, tornam-se chamas pequenas a arder nos lençóis. E se, a caminhar sozinhos na cidade, vemos o absoluto, ele canta uma negação.
Numa destas noites como as que descrevo, Lisboa encheu-se de pequenas velas nos parapeitos, seguiram-se oito minutos e uma criança parecida a um apagador subiu ao terraço, contou estrelas e árvores, a imaginar. Deixou-se cair.
II
As suas palavras calavam-no quando o beijavam. Mudo, vestia-se dos milheirais, esquecia-se do que sabia e atava tranças como quem aprende uma canção. Uma menina estava vestida de vermelho, usava rosas na cabeça, depois estava nua, um tornozelo na anca do rapaz, outro no ombro, ele uma espada em brasa. Um dia, a menina era menina e colhia frutos na falésia, o mundo ainda não existia. E possam amar-se, quando, se houver silêncio, adormecerem.
III
Somos estrelas. Caímos e olhamos para cima, para ver as estrelas. Sonhamos e com esse esforço suamos, um ranho a sair dos poros e dos sapatos escaldados, então pensamos: "só o melhor" e rimo-nos de tudo o que não são as estrelas, telefonamos aos nossos pares e separamo-nos. Engordamos, enriquecemos, tropeçamos no amor e sobrevivemos e os que voam morrem. Eu colocarei uma gola de renda ao teu pescoço, branca e frágil, e te agite nua, os teus seios uma alforreca que pulsa, eu trémulo e a largar maçãs. Todos somos fósforos no festival do fogo, e tu seguras um balão de hélio com os pés nus, as ancas levantadas, a profundidade morta.
IV
Alguém te deu memórias e se tornou memória. A beleza consome o pôr-do-Sol como consome os indivíduos, inflama o espírito e o espírito apaga-se, torna-se nas coisas mas já nenhuma coisa existe. Existem olhos nas máquinas fotográficas, olhos tão imóveis e fixos como o que somos quando ninguém vê, e a tua arte afoga-se nos miradouros, ele ganhava asas, não seria bonito ama-lo e seria amado, a sua casa seria um mundo, construída numa ilha sob uma ponte frágil e pisada com temor, a sua alma queimaria o teu corpo que envelhece. Nenhum anjo te pariu e não herdarás o mundo. Um dia talvez alguém te veja e as minhas mãos segurem dois círios.
V
Semicerrava os olhos e as luzes vestiam uma torrente de fantasmas à procura de casa. Então permanecia estóico, uma candeia na noite dos mortos, coleccionava as mãos das estrelas para salvar as estradas. Amarrava a escuridão numa parede branca, aguardava pelo tempo húmido, endurecia e penetrava-a, para que pudesse amar pelo menos o que havia de mais brilhante nos outros. Desabitava-se, e esperava que algum fantasma entrasse para um tinto e assombrasse a habitação com bruxaria nos lábios, mesmo que não ficasse muito tempo, porque as garras lupinas marcadas no chão atrás do caminho não deixam esquecer o tempo, e eu como sempre as flores ao primeiro sinal que murcham. Ao pico da noite descia às praias, não olhava a Lua, punha-se a pensar que lhe conhecia o rosto e todos os outros o cu. Descia às praias, esperava pela maré enchente e punha-se a arder alto, a desafiar as vagas, as palavras a afundarem-se e o crânio em lâmpada. Sim, atirava o coração às gaivotas e as estrelas caiam sobre a estrada. Depois a morte descalçava-se, descia o alcatrão incandescente aos risinhos, oferecia-lhe limões e chovia. Os dois sentavam-se, os vivos começavam a ouvir-se, com as suas lutas, as suas canções.
VI
Por vezes a nossa alma abre as pálpebras azuis e encontramos o lugar que os seus olhos habitam. De vez em quando pensamos no futuro, mas o futuro não vai por ali, entretém-se a escapar ao presente. De qualquer modo o Sol fica a brilhar, não é bonito, arde. Quando se põe restam as estrelas, calamos um choro, bebemos vinho, beijam-se as línguas e dançamos debaixo da Lua. Ou talvez olhemos durante muito tempo para um ecrã. Se calhar as mulheres sentam-se a escrever sobre relações. Eu levanto-me com os ossos debaixo do peso das vidas, a casa incendiada para dar melhor lugar à vista, o ouro cai e não é de dia nem de noite, os ossos caem a estalar sob os meus pés, os campos choram e eu colho as desesperadas violetas dos meus pulsos.
VII
Todos os dias, em algum lugar, espero que o céu me alcance, que o seu humor se torne como o meu ao longo do Sol. Por vezes a rádio passa aquela música que diz que alguém esteve comigo, mesmo nunca tendo sido. Afio a memória como se afia uma espada, e quando todos os seus ângulos são de cristal saio do carro de novo menino, colho laranjas, deixo a morte entrar: a erva, o amor, o fogo que ruge no Inverno, de novo a cor do céu.
VIII
Chegará o Outono. O Verão terá morrido bem, antes do tempo. Os adolescentes vão juntar-se no conforto de casa com uma bebida e a ver filmes de terror, a pensar que conhecem filmes de terror. As mulheres vão acender mais velas. Eu talvez arda uma fogueira, mergulhado num mar de folhas. Já não interessa o outro mar, a terra terá engolido o outro fogo e as fadas populado jardins secretos. No banco que abandonei, a tua mão terá caído sobre o meu colo. Num livro, estarei a beijar. E talvez chegue ao Inverno, talvez me livre do presente, com todo o passado, e me encontre exacto como a grande antiguidade.
IX
Quando viajamos, no momento em que encontramos despedimo-nos, por isso nos lembramos com nitidez das viagens. Mas ele apercebeu-se desde cedo. Rodeamo-nos de plantações, colhemos o que semeamos. E se desviamos os olhos dos milheirais, por um só segundo, sabemos que somos nós a colheita. Um raio percorre-nos o corpo, e nós somos o raio. Os outros agarram-se no escuro, à procura de calor, cegos para as ossadas. A ele, lhe fora dada calma, sorria para os homens, cuidava dos escorpiões e emudecia as mulheres.
X
As ruas vazias, o vento gelado a percorrer a cidade, a mulher com a lingerie número vinte e quatro num alpendre de madeira, a flor amarela no umbigo. Estou cansado das vozes no vento, dos objectos que populam as ruas. Há asas em mim e o mundo nas têmporas. Um génio consome-me o corpo. Se pudesse manter uma única memória lembrar-me-ia do Sol, o dossel de penas rasgaria o ar.
Prólogo
Um dia seremos duas pessoas que se conhecem novamente pela primeira vez. Acabaremos por subir à nudez dos sítios altos, voltaremos a pensar que temos mais dias do que restam, mas há sempre o silêncio, as janelas por dentro da cidade, o tempo que parece que mata e apenas morre. Não sei que dia é. Acendo um cigarro.
O som subtil dos lábios que se separam num sorriso espontâneo cola-se ao ruído descontrolado da cidade de Lisboa, e um homem que colecciona os lugares colecciona as vidas. Lembro-me por exemplo dos teus pés frágeis, brancos na curvatura, a pisar as folhas do mato sobranceiro ao rio, a antiguidade muda da terra entre os dedos, a claridade de um fim de tarde que furava as copas a reluzir nos teus calcanhares, com todas as folhas, com a sonoridade móvel de todos os ramos. Dizem que na morte se torna tudo, e que se sabe talvez todas as coisas, mas é isto que é a morte, uma fotografia que está viva. E um dia voltamos aos lugares, estamos sozinhos a caminhar dentro do que também está dentro dos nossos, num anel de fogo somos os lugares e estamos a presenciar-nos, transparentes, quebrados, o Sol a atravessar as fissuras, a corrente das almas a resplandecer.
Os livros, os mares, os rios e os lugares, os pensamentos, o vento das horas que sopra no corpo dos dias, as manhãs e os sábados com palavras, a certeza nos lábios e o desejo nos beijos: tudo isto é a solidão da minha ilha, o fogo nas minhas mãos com as noites, os quartos, os barcos soprados pelas cidades, o choro dos saxofones nas ruas, o silêncio que espera a solidão de uma ilha e a arara nas minhas mãos.
Na escuridão, não distingo os teus movimentos ondulantes, mas sinto o prazer causado. À minha direita, numa laje enorme, vejo que foi esculpida a tua magnífica cabeça, a cabeça de uma ave, rodeada de chamas. O teu interior é vagamente iluminado por archotes e as paredes estão cobertas de mascaras e outros objectos esculpidos em madeira. Tiro da parede uma máscara que simboliza o Sol, como se me estivesse a rasgar ao meio. A luz é escassa e só forçando a vista distingo os teus contornos a mover-se de um lado para o outro. Enquanto isso, das profundezas da gruta chegam-me aos ouvidos os teus terríveis uivos de mulher. O gemido tenebroso torna-se num grito lancinante mas eu prossigo, e no cume da montanha de fogo, para leste, vejo o amanhecer, as folhas vermelhas exalam o teu agradável cheiro adocicado. A noite chega para nos tirar as formas e o tempo e depois a aurora, apaziguada, abandona o seu esconderijo, um pássaro de bela plumagem a passar por dentro de um arco em chamas.
II
O vento começa a soprar com força, atirando-me pedaços de neve para a cara. Viro a cabeça para baixo e luto contra o vento. De súbito, por detrás da cortina de neve, surge a tua elegante sombra branca. A subida íngreme e a neve que não pára de rodopiar à minha volta impedem-me de andar depressa. Uma das minhas mãos está queimada do frio. Há uma rocha suspensa e a nossa pequena cabana que está encostada à escarpa com o telhado coberto de neve, as janelas pendendo longas estalactites de gelo. Reparo nas tuas pegadas pequenas e leves que partem dali e sobem a montanha.
A porta da cabana não se pode abrir por causa do gelo e empurro-a com o ombro. Lá dentro, na única divisão que existe, encontro a tua pele. A cama de madeira, uma cadeira e os utensílios de cozinha tantas vezes usados.
Agora o nevão de Verão cessou, o céu mostra-se azul e luminoso. A brisa é fria e agreste e a neve desfaz-se debaixo dos meus pés. Encaminho-me lentamente para a encosta até que encontro uma escarpa demasiado alcantilada para escalar. Resolvo circunda-la e deparo-me com uma autentica parede de gelo. O coração começa-me a bater descompassado ao avistar um bocado do teu vulto. Mais adiante, noto uma abertura na parede do lado esquerdo. Dirijo-me para ai e espreito. Vejo um homem muito velho a esfolar um alce. Ouço vozes a cantar ao longe e a tua gargalhada jovem ecoa pela câmara.
III
Lembro-me do Verão. A neve espessa cobria-te e um vento glacial saia dos teus ossos. Eu e tu gostávamos de seguir atrás das carroças, sem destino. Ás vezes roubávamos os tecidos, eu vestia-te deles e imaginava que me pintava com as tuas cores. Depois, bebíamos chás e trocávamos os tecidos por peles, peças de marfim e presas de mamute. A certa altura atravessámos um lago gelado e, ao longe, avistámos os picos cobertos de neve das montanhas. É Verão, e o Verão parece emergir das nuvens baixas. Neva continuamente, embora com pouca intensidade. Paro, fazemos amor. De súbito, o som de uma trompa de caça rompe o silêncio. Os teus olhos, de um azul-vivo, perscrutam o horizonte em busca de sinais de vida. A neve está tinta de sangue. Alcanço-te uma hora depois, com a noite já a cair, e descrevo-te o que encontrei. Fazemos um circulo, para melhor nos protegermos durante a noite, e no centro é ateada uma fogueira enorme. Sento-me perto dela, à conversa contigo. Reina uma atmosfera de nervosismo, mantenho-me atento a quaisquer movimentos do exterior. O nevão cessa finalmente quando nos preparamos para dormir, mas o sono demora a chegar. Quando acordo ao nascer do Sol, a fogueira não é mais que um monte de cinzas por onde sai um fumo que se mistura com a neblina da manhã. Não se ouve um som. A neve recomeça.
IV
Quando as imagens se fixam novamente, ganhas vida, batendo as tuas asas enormes. Da cabeça aos pés começas a cantar uma canção de embalar e os insectos ficam sonolentos, caem no chão. Reparo que o teu corpo se movimenta ao ritmo da canção. A fonte está livre.
V
Com um grito de dor cortas a tua própria perna. Tudo muda constantemente. De forma. De posição. Através de descampados sem fim talvez um dia encontre a jovem que segui. Mesmo que haja um frio anormal no ar, um nevoeiro sobre os caminhos de terra batida. E pelo caminho hei-de mergulhar a cabeça no rio coberto de neblinas, a minha pele ficará verde, coberta de escamas, sem mais medo da ave de fogo. E talvez ainda te veja delineada contra o horizonte, com o pulso feminino a esconderes-te atrás das árvores, a morte a cantar e a voar nas tuas mãos como se fosses o segredo da harmonia, mas o meu coração permanecerá nobre como o do lagarto, sem juízos, só com os demónios das planícies, uma centopeia gigante de barriga mergulhada nas águas brancas que uma massa de escuridão informe não consegue engolir. Então vou celebrar-te, a morte cantará com luz e destruirá completamente, contornarei o poço para te enfrentar. Os teus olhos rolarão para cima, deixando-te completamente cega. Seguirás às apalpadelas no meu vulto e eu serei a porta do casebre.
VI
Dirijo-me apressadamente para a saída da aldeia e fico a ver as portas de ferro e carvalho. Não tenho como me defender. Não tenho como me defender dos olhos brilhantes como pérolas que emergem do lamaçal, mas as árvores distorcidas e as plantas crescem, eu também.
Fora, atravesso os pátios dos palácios com um andar autoritário, as aves-peixe fazem-me continência, os planaltos arborizados alternam com vales belos e calmos, aninhando-se quase invisíveis entre penhascos escarpados, desgastados pelos rios. Ao anoitecer, viro-me para o espelho e pergunto o nome daquele lugar. O meu coração deixou de bater. Busco um local seco para descansar.
És tu? Como ninguém responde, sei que és tu. E de resto, ouve-se o som baixinho e típico de pés a correr. O meu rosto é uma mascara de fúria e dor, com os olhos a arderem devido ao que é libertado pelo deserto.
A Casa ilumina-se, uma fracção fantasmagórica do universo morto, o labirinto elemental das coisas onde a chama ainda se esconde. A casa ilumina-se com um ardor secreto para abrigar no seu subterrâneo um ovo amplo, fechado e sem paredes. Na cave, uma tocha com cabelos de fogo e corpo laranja dança, a sua força a do mar que mói o céu em espaço, a sua segurança a da beleza pura e cristalina da memória.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
Vive-se. As flores cobrem as janelas, deixa-se para trás a infância poluída para uma natureza feérica. As pétalas cobrem o tecto e ama-se. Acolhe-se a noite e é-se acolhido pela noite e a vida já passou e tudo retorna uma e outra vez, como uma redenção traiçoeira. Somos as pétalas. Um dia só escutamos o vento, os lábios já não beijam, as preces calam-se.
Ela caminha sobre uma inclinada encosta de arroz negro, os pés são muito brancos e felinos sobre as dunas. A pele dos braços com uma suave pelugem, as pernas entrecortadas pela saia longa de tecido fino, o leite do largo rosto proeminente. Com as sobrancelhas vermelhas fita o horizonte e não existe ninguém. O Sol é uma Lua e uma ave azul canta através do gelo cristalizado na ferida encarnada de uma bala, encostada aos ângulos mortos.
II
As árvores haviam crescido há muito. A ave azul era um rapaz. Uma estrela caiu para o seu cabelo. Ela prende-a no dedo e depois sopra como se sopra um beijo. O pirilampo esvoaça, apaga-se, e a ave azul partiu. Fita o horizonte e não existe ninguém. O topo das árvores ainda dança com os astros. O céu fica a deslizar para sempre, a noite a cair, os rios a morrer.
Tu escrevias como quem tece
O feitiço das verdades que nunca
Cumpriu para as poder salvar
E dizias o tempo ganhava um corpo
Na espera e que a tortura dos alicerces
Em roda quando silenciados
Aproximavam os nossos vultos como
Feridas que se apegam às encostas
A "nascida do mar" tentava acalmar os animais
Nunca nascia, eu pensava que tinha
Fogo de artifício nas gavetas empoeiradas
Dos seus livros.
Eu cavalgava mas tu jogavas de ter um castelo
De cavalos para dormir.
O meu à deriva num mar
De vidro
Não caia qualquer chuva
As mãos de fogo lutavam com as velas
Algo enorme esvoaçava por cima
Da minha cabeça.
As tonalidades negras começavam a tingir o manto celeste, e o erguer da noite anunciava-se com uma canção azulada – como o não-ser de Novalis é azulado:
Com a noite caiam os homens altos, de longos casacos, solitários e petrificados pelo hálito do gelo, os peitos a arder. Sentavam-se sobre secretárias de madeira velha e molhavam as penas, aberto o corpo, os olhos iniciavam o processo da chuva e os papiros tornavam-se livros. Órfãos, todos eles, desenhavam o rasto da Mãe.
Não há lugar para mim, onde o azul me cerca
De dia pintado, de noite lembrado, e o azul
Me cega, no teu grito cantado, em dança
Roubado, ao Deus que o Inverno enterra.
E os meus dedos azuis (pétalas)
Caiem sobre todos os palpitantes amantes,
Que sorriem, distantes, num sonho de ti,
Em que dançava cego envolta do calor, e queimava-me,
Em peles estrangeiras a neve lembrar,
De como já o corpo foi alma. Dentro do meu peito,
Tudo canta, por não haver leito:
Eis que é espada de coveiro, pá de mago,
A voz que vê, no corvo ofuscado,
Chuva que cai, queda, e escuta
Desfeita, quieta, as aves soltas,
Memórias de terra.
Azulejo alusivo às lanchas e catraias, Póvoa do Varzim
O mar também não conhece a imobilidade, e por isso transmite perpétuamente esta benéfica quietude. Normalmente a minha mulher sabia as histórias, os conflitos e as amizades das vagas que, por me rodearem, rodeiam a doca. Normalmente durante a hora de almoço, a minha mulher, sentada numa cadeira de tábuas, ouvia o mar falar-lhe de raparigas. Das suas humildades, dos seus egoísmos, dos seus cepticismos, das suas coragens, das suas expansividades. Ela dava-lhes nomes como quem baptizava futuras filhas.
Aos domingos, parece ser noite de manhã, e por isso a noite demora mais a chegar. A ausência da minha esposa entrou na doca. É o princípio do dia de trabalho. Senta-se na sua cadeira que algum calafete que não eu improvisou com despojos de uma Lancha Poveira do Alto. A ausência da minha esposa pousa a cabeça entre as mãos e os meus movimentos tornam-se mais rápidos. Quase no fim do Verão, a jovem que ali passava fechava os olhos e era inocente. No fim do verão ela era sempre inocente, e vivia e estava completamente viva. O seu coração estava separado dela, por isso, o seu coração era uma doca que havia sempre e em todo o lugar. Mas era meio-dia de segunda-feira, em Outubro, ela não vestia na cabeça flores douradas nem no peito moedas, quando ele chegou da Galiza. Às vezes, no fim das manhãs o marujo esperado vinha e abanava o seu listrão de ouro. Era o sombreado de uma tarde de Outono e eles sorriam, analisavam os objectos que ele fazia regressar do além-mar.
A minha mulher deixou a casa desarrumada, não a limpou no começo desse dia nem na duração dos seguintes, e fugiu para nos casarmos. Saiu com uma única mala na mão, com o olhar cheio de esperança, acreditava que nunca mais me ia perder. Durámos essa noite abraçados, e o dia que antecedeu essa noite, e esquecemos-nos até de casar. Aconteceu no crepúsculo do dia seguinte. Eu habituara-me a presenciar o pó que Deus agarra às coisas, como sinal da sua mão sobrenatural, e o meu corpo ia-se tornando nesse aperto. Na primeira manhã, já ela, com a sua camisa de algodão branco oculta no pano de lã vermelho, lenço estampado na cabeça e chinelos de bico arrebitado, limpava as prateleiras em que ninguém tocava desde que a minha mãe morreu. As panelas voltaram a ter a cor das panelas. A madeira voltou a ser madeira. Os cantos das divisões ganharam claridade, a loiça brilhou. Lavou e cozeu a minha roupa. Raspou o chão e desapareceu com a humidade das paredes. A minha mão deixou de querer escrever sonetos. Os meus olhos de procurar os pergaminhos de mistérios antigos, o meu pensamento de se preocupar com o sentido (que é uma preocupação dos homens sem sentido), nos ditames filosóficos, que apenas são facas que afiamos em tempos de tormenta. Levei a toalha às mãos e as mãos levei-as ao rosto. Jantámos, e decidi ser calafate. Ela podia ver-me todos os dias a ser calafate. Ela podia estar comigo, se eu fosse calafate ou pintasse as siglas nos navios. A minha mulher despe um vestido azul e pensa vagamente na eternidade. Mesmo depois desse dia, o vestido continuará.
A forma de me ligar a esse outro além-mar é escrever uma sigla na minha roupa, as únicas iniciais que gostaria de ver em todas as embarcações, fosse eu nelas ou não, e que são as iniciais da minha falecida. Sou feliz assim.
Livre. É o asfalto que se solta quando largo a confusão pacífica do andamento do carril. Sinto a pressão do calor a comprimir-me e a espalhar-me também pelas paredes da estação. De vez em quando, fico agarrado aos outros, como uma consciência pegajosa, ou emano deles se suam. Não hoje. Há um casebre abandonado que graffitis coloridos insistem amar sempre que eu olhe ou que ninguém esteja atento, e que cada vez mais parecem vir a perder, sem pressa, o significado de se moverem ao fim da noite. As fábricas murmuram ao longe, e lembro-me de como não gostas do campo, de como te é mais fácil a ligadura cinzenta dos fumos: um pardal saltitante que adormece ao som das linhas de montagem e escreve a independência do amor a dormir. Duas baratas que se aprimoram perto das botas que passeio. O rato junto ao lago e a tua presença na cadeira metálica do café. Os pássaros movem-se com uma animalidade que sinto, agora que o Sol se pôs. Um alarmismo imperioso e sereno. E de noite enches-te, como a tua terra, de copas de árvores amarelas como lâmpadas torradas, ou da esquadra da polícia mesmo ao lado da Igreja com paredes por pintar, da escuridão do pontão que o rio murmura com um ou dois pescadores enterrados no outro lado do tempo. Olho para dentro das habitações brumosas. No Barreiro Velho, a negritude é sempre um Sol tostado. O teu sorriso também é as ruas.
Da tua flor a tintura da vida, da tua canção a sombra fresca na terra. Morre a águia e morre o tigre, e cobrirás a pincelagem primeira, da amizade, da nobreza, do amor fraterno, com a sombra negra da terra.
Uma larga plumagem é o teu coração, e de puro jade é a tua palavra, ó Pai!
Tende piedade de mim e sobre mim pousai um olhar misericordioso, porque será por um momento breve, como, em oferta à Mãe Morte, abrem os frutos azuis os corais de flor e canção.
Blood Gatherer
We shall not for ever die; even the grains of corn we put under the earth grow up and become living things.