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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Lira Insubmissa, 25


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Lira Insubmissa, fragmento 25 

189 - Valentino, gnóstico do sec. II, afirmava que Cristo comia, bebia, mas não defecava. 
190 - João Erigena, teólogo do sec. IX, dizia que Adão podia levantar o membro como levantamos um braço. 
191 - O desacordo com a merda é metafísico, a merda não é imoral, mas põe em causa o criador. 
192 - Como foi dito, o Kitsch é um biombo atrás do qual se esconde a morte. 

193 - Os movimentos políticos repousam não sobre o racional, sim sobre imagens, representações, arquétipos, vocabulário, que no conjunto constituem o Kitsch político. 
194 - Em vez de "viva o comunismo", diz-se: "viva a vida". 
195 - Nos tempos modernos, não é uma questão de acção ou de não acção, mas de dar espectáculo ou nada fazer. 
196 - A intervenção assemelha-se a um grupo de teatro combatendo um exército.

André Consciência

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um Tríptico, Na Casa Luminosa




Um rosto é sempre simples, dois olhos, duas faces, testa, queixo, os lábios; um instrumento simples, em bruto, com ele te conheço e com ele me conheces. É nos posteriores detalhes que nos esquecemos do que primeiro é o rosto. Nos detalhes representamos, e o corpo todo, porque segue sempre o rosto, torna-se superstição, imortalidade. 

Cada semblante possui os seus traços de tempos e épocas distintas, mas eu sou sempre branco, cabelos e asas alvas, olhos transparentes como duas bolsas de vidro vazias.

Pressentes muitas máscaras, tripticas todas, mas só uma te atrai, porque não tens ainda rosto para suportar os muitos rostos, e vais sonhar fundo, adentrando a dimensão.


André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

domingo, 10 de agosto de 2014

Limpeza total ao crânio





Vi-lhe o brilho, o tom do Sol
A espalhar-se sobre as cúpulas
As rosas, e as raparigas a correr
A nosso encontro, e o gemido da alma
Ecoou brevemente na beleza silenciosa

Sentada no trono uma figura pequena
Completamente descoberta
Era o símbolo vivo do amor:

Envolta em correntes
A mulher estava ferida
Ainda húmida
O rápido fumegar da ira amorosa
Nos olhos azul pálidos
A marcar-nos com os espíritos

Nós, fendidos nos pés
Pela sua chaga, corríamos mais rápido
Que os antílopes. Eu tinha uma pistola
Na mão direita, e apontei-ma.


André Consciência

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Poesia Insustentável Auto-Sustentável


Sonho no terraço fora, o intermitente placar
Da Coca-Cola, faz nascer bagos de gás,
E se vislumbra o ruído dos aviões
Sem piloto, riscarem os sofás.

Um caminho frágil agarra a harpa
As linhas do metro agitam-se,
Genuínas e inalteráveis em mutuo amor,
A água deserta, a grande paz interior
Nada dorme, e o mundo
Suspenso, sem folhas ou silêncio.

A poesia toma o sabor dos ritmos
E cresce colossal nos insustentáveis mecanismos.
Nos prédios, as luzes não se apagam,
As luzes piscam sobre a sombra invernal
A cidade em extensão perpétua
Cobre de cinzento o Sol matinal, mais digo:
Quando o mundo acabou, estávamos,
Imagino pelo pisca-pisca vespertino,
Perto do Natal! As lixeiras confundem-se
Com a minha presença de volta nos trituradores
Ruidosos. E danço danço danço a passos
Luminosos, sob a pista dos nossos,
Ossos em lata.

Ah, que havia uma engrenagem, lá perto
Da estação fantasma, onde se ouvia um tal de Dante
Cantar coisas de miragem. Quando tenho febre,
Sei que tremo como as fábricas.

Há alarmes e carros, e toda eu tenho nisso
Veias e maquinismos que são todos
A linguagem.

Na aparelhagem ouvi uma canção
Que era de um século qualquer
E lá se dizia, que o coração
Tinha a forma de mulher.

Os olhos são as lanternas,
Os holofotes em cisternas
As cabeças rapadas dos postes de contenção
Não passam pessoas, vejo só
O seu clarão.


André Consciência

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Embondeiro Que Sonhava Pássaros


Detalhe de Elefante - Jeanne Marie
Os reis são adorados pelos povos, porque crêem que vieram do céu, e falam-lhes sempre com grande acatamento, à distância e de joelhos. Muitos destes reis, para maior cerimonial, nunca se deixam ver quando comem, para não modificarem a opinião que os povos deles têm, de que vivem sem tomar alimento. Adoram o Sol e crêem que as almas são imortais, e que depois da morte vão habitar junto ao Sol. No reino de Benim têm um costume mais antigo do que entre os outros, o qual tem sido observado até ao presente: quando morre o rei, todo o povo se junta num grande campo, no meio do qual abrem um poço muito fundo, ficando largo em baixo e vindo a apertar para a boca. Dentro deste poço deitam o corpo do rei morto, e apresentando-se todos os seus amigos e servidores, aqueles que se julga terem-lhe sido mais caros e favoritos (no que não há pequena contenda entre eles, desejando todos esta honra), voluntariamente descem a fazer-lhe companhia; e logo que estão em baixo, põe-se uma grande lage sobre a boca do poço, e o povo não sai dali, nem de dia nem de noite. No segundo dia vão alguns deputados descobrir a pedra, e perguntam aos de baixo se algum deles já foi servir o rei, e respondem-lhe que não. No terceiro dia fazem a mesma pergunta, e algumas vezes lhes respondem que fulano (dizendo-lhe o nome) foi o primeiro a partir, e fulano o segundo, porque é reputado coisa de grande louvor ter sido o primeiro. E de tudo isto, o povo que está à roda fica falando com suma admiração, considerando-o bem-aventurado e feliz. E ao fim de três ou quatro dias morrem todos aqueles desgraçados. Os que estão em cima, ao pressentirem isto, e vendo que ninguém lhes responde, informam imediatamente o rei sucessor, o qual manda fazer um grande fogo sobre o dito poço, onde assa muitos animais, que dá a comer ao povo. E com esta cerimónia entende ser verdadeiramente rei, e ter jurado governar bem.
Autor Desconhecido (Navegação de Lisboa à Ilha de São Tomé Escrita por um Piloto Português)


Crescer em leveza, eis ao que se propunha
O rei asceta, que sobre o reino compunha.
Da raça do céu, desceu em cidades papagaio
De papel, tocando a terra então tendas, flores
E mel.

E as pedras, pegadas de Lua,
Dos prédios cansados,
Faria rendilhados.

E os rios, descansos solares,
Do cal das paredes,
Transparentes nenúfares.

E a árvore, estrela em repouso,
Das casas empilhadas,
Folhas ceifadas.

E nem cresceu o reino para dentro,
Para ter de crescer para fora,
Cresceu em leveza, e será a Aurora.


André Consciência

sábado, 22 de março de 2014

A tua casa



O Vampiro, Philip Burne-Jones, 1897
Como um Vampiro, Mão Morta, 2010


Fiquei sozinho e a roer o tempo sem ossos.
Era uma manhã cheia de erva seca e sangue e mãos que se transformam naquilo que as rodeia.
Era uma noite feérica no Inferno em que as feridas se lavam, como quando gememos, a dormir.
A vidraça chovia contra o vento, disso me lembro, e as persianas que se escancaravam para além dos seus limites, em tua casa.
A metamorfose do saber, descobri, era, naquela luzente geometria, uma pantera com asas de morcego, proibida de passar à frente de olhos tal como era. Por isso, coleccionávamos filmes pornográficos com ministros escancarados.
Passavam por cima dos móveis e das emanações, deixando pegadas de paixões, enquanto o meu olhar rasgava o jornal e a minha mão reconstruía o pénis.
Sentei-me no teu sofá com almofadas da Monroe e morto, apodreci, as mãos enterravam-se e eu escrevia não chegar ninguém a tua casa sem ninguém. Por trás dos muros da cidade, alimentava-me dos povos.
Feliz da idade em que o sangue das civilizações pulsa por esgotos e as suas canalizações.


André Consciência


* Santo Agostinho escreveu que os demónios tinham “imortalidade corporal e paixões como seres humanos", mas não podiam produzir sémen. São Clemente testemunha que os demónios possuem paixões humanas mas "não órgãos, assim eles voltam-se para os humanos para usar os seus órgãos. Uma vez exercendo controlo sobre esses órgãos, podem obter o que querem".

domingo, 12 de maio de 2013

Pasto Para As Gaivotas







Na conclusão da lei do livro
E da música da justiça
Homens fumarentos
Planearão com a fogueira
Matar o dia seguinte.

O bem viverá longe
A Oeste, onde as águas
Se agitam sem parar.

Os gritos das raparigas
Serão gaivotas a piar no mar
E o lamento da criança
Dois poetas a discutir
A causa de alguma metáfora.

O deserto e os campos
Entupirão de mato
Zarparemos vazios
Rumo ao Norte

E numa ilha as mulheres
Beijadas pelo vento
Aplaudirão esperançadas
Um caracol.


André Consciência

domingo, 30 de dezembro de 2012

Aquele Vento Aguilhoante




Há um deserto que se fecha sobre mim
Sem drama, sem grito, sem motivo,
E todos os dias são domingo, todos os dias
São domingo.

As tuas mãos fantasma mostram as ruas
Brancas de um Junho paralítico, de cal
E de noite luarenta:

As raparigas morenas atravessam-na
Estralejam risos, em bandos,
Pelas coxas, a saia a sair do joelho,
A afiar as orelhas nas discotecas
Consumidas nos biocos à meia porta.

Eram os tristes e os pobres, sem
Amanhã, mas a folgar como cigarras
Eu, porém, cada vez mais branco
De cal e de noite luarenta,
Branco de Junho, das ruas longas
Dos almocreves e dos barbeiros.

Choviam plumas de sangue
E dentes de fogo,
E haviam leões à solta
No jardim dos tuberculosos
Tão acesos de cores e de gritos

Perdidos em colecções de amorios
Até ao fastio, entre seios de meninas
Radiofónicas,

Mas agora só jorrava lá fora
Um vento desencontrado
Dos sementeiros do céu
E do luar envenenado

E haviam fantasmas à solta
No jardim da vigília
Estava fria a cama e a botija
Eu branco de ti a aturar-me
Cigarro na mão, estiraçada na cama
De sexo rico e onde eu nunca
Penetrara, de ancas arqueadas
E lareira funda, de pedra à vista
Não alisada, carcomida numa imagem
Mais simplória, a esvoaçar entre cortinas
Com desenhos gordos de anjinhos
A puxarem também lume a um cigarro
Entre crochet, e eu sorria
A fazer-me de interessante,
Com a luz do sorriso a esfarelar-se
Na boca, dissolvido em confusa
Humilhação, a cabeça fina e frágil
A pender de nojo para os tijolos
Lavados.

André Consciência

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A coroa tem uma necessidade desesperada

Tomas Rucker



Riso ébrio de uma mulher
Paira no ar
Com a toada de uma harpa
A azul voz de um cantor
A cantar

Quando o Sol nascer
Que me não encontre
No acampamento.


Tinha os pés negros da lama seca,
As pernas nuas
Lábios estalados
A companhia de uma rameira de cabelo de palha
Tão bêbada quanto eu
Os seios a jorrar do vestido
E grandes mamilos castanhos

Quando o Sol nascer
Que me não encontre
No acampamento.


Empoleirado sobre a sua cabeça
Martelei-lhe um aro de bronze
Gravado com runas e espadas negras

Quando o Sol nascer
Que me não encontre
No acampamento.


O vinho e a cebola
Subia aos seus olhos pequenos
E caia do queixo carnudo
Com perfumes

Quando o Sol nascer
Que me não encontre
No acampamento.


Horned Wolf

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Malak IX



Quantos dias passaram? Aqui as noites são da cor da uva, os dias são como um pôr do Sol em constante chuveiro, são muito amarelos. Passaram-se alguns dias, como punhados de décadas. Vi as primeiras gerações crescerem no Reino, todos me tratavam como pai e irmão, eram uma família, e eu distante, diferente. Não sei porquê. Depois na longa marquise vidrada vi chegar um pássaro brilhante como a estrela prateada. Foi igual a ver chegar a minha alma. Abri as janelas quanto pude mas tarde demais. Não voltei a falar desde esse dia. Quando me senti imóvel como uma raiz pus-me em viagem e nunca comia muito. As  auroras boreais de Outono perseguiam-me ao longo de todo o mar estreito. Por vezes subiam do Sul, numa fúria de relâmpagos e névoas verdes que levavam dias a cair. Por vezes desciam do norte, frias e graciosas, com ventos selváticos que trespassavam as tábuas. Uma vez ficara tão frio que quando acordei encontrara todo o navio coberto de luz, gelado, branco como uma pérola. Outro dia encontrara-me a sonhar aos pés de pedra de um senhor do céu qualquer, há muito morto, vejo uma estrela vermelha a sangrar no céu. Ainda me lembro do vermelho. E a ave voltou a mim, não cantava. Nunca cantava mas tínhamos uma aliança silenciosa e compreensiva. Quando notei em mim: conversava. Voltei a fazer famílias. E uma daquelas noites em que os clarões violeta pairam no ar com preguiça, a ave abriu o bico, como tantas vezes fazia, mas desta vez cantando. Uma implosão fez-me lembrar de tudo. Nunca fui humano, sempre o soube, mas construí uma muralha entre a solidão e o ser, e a principio fiquei em nenhuma das fronteiras. Agora a ave cantava e o seu cântico era a minha morte. O meu corpo sangrava azul e a multidão foi buscar paus e navalhas. 


André Consciência

terça-feira, 17 de julho de 2012

Outono



Milhas de campos e pomares enegrecidos
Ribeiros cheios pelas chuvas do Outono
As noites fremiam com os uivos de lobos
A Donzela montava um salmão vermelho
Flutuava sobre o castelo na sua colina

Um punhado de cães selvagens
Três corvos levantaram voo
Cinco raparigas mergulharam
Na lagoa da nascente

O verde começou a regressar
Meia milha mais à frente.


Horned Wolf

sábado, 16 de junho de 2012

Noite, Lisboa




Vislumbro o meu rosto, no vidro baço, o meu corpo, exulto em sombra. Os demónios nocturnos da cidade uivam e guincham e não abafam risos de hiena, por vezes, derrubam também um contentor. Eu lembro-me de que nunca fico assim, mas quando uivo, e uivo melhor que os lobos, não é para as ratazanas. Contraponho a minha embriaguez de fogo com esta corrente de urina. De vez em quando, a passos silenciosos e quietos, dou a volta ao quarteirão, outras permaneço exactamente imóvel nos  bancos cinzentos do palco de cinza ao lado da montra do "Amo-te Chiado", que é desenhada com um coração vermelho de vidro. Movo só a cigarrilha ou a chama que há na cigarrilha, quando puxo. Se passam reparam já muito perto, em mim, e os demónios enchem-se de um horror calado e voltam a tornar-se ruidosos só no topo das escadas. São quatro e meia da manhã. Não estive sempre aqui, mas muitos becos cheiravam a mijo. Penso que poderia estar a escrever, se tivesse papel. Ás cinco,enviei uma mensagem, ouvia-se o ruído electrónico das teclas ecoar em toda Lisboa. Hoje, Os Bardo Cego, projecto de música/teatro improvisado, que mentorizei e onde actuava, foram censurados, tendo assustado, e recordei-me só no barco às seis da manhã, do caso de Artaud. 


"O Caos é uma Ordem por decifrar", diz a parede no Campo de Cebolas, uma frase que cintila na restante treva da pseudo-filosofia dos dois edifícios colados e decadentes. Os Santos Populares foram há não muito, existe uma esplanada montada perto dos táxis que permanece activa, os bêbados e as bêbadas trocavam piropos, as bêbadas, com roupas populares, olhavam-me por baixo das luzes populares, e os homens, pensavam em pedir-me um cigarro que, apesar disso, não pediam. Ao passar pelo arco no terreiro do paço, houve um grande curto circuito a um metro e meio de mim, os sinais de trânsito foram interrompidos. A seguir havia muita polícia, e o Continente montava, na penumbra das não-testemunhas da noite, um estaminé de palha e madeira, que, como sempre, me impede de caminhar a direito, ocupando espaço e silêncio. Agora estou sentado com a única cerveja que bebi, no Campo das Cebolas, e, depois do ruidoso acelera que a rasou, observo a mulher polícia que foi colocada sozinha no cruzamento.  Esta, observa-me reciprocamente, numa conversa indiferente. Levanto-me a passos demorados, há-de haver um barco.

Neste momento e neste país sou relativamente reconhecido, os grandes pedem-me favores, mas eu, que mal tenho de comer, e não tenho como pagar aos meus artistas - que me nutrem ainda assim uma esquisita admiração - sou um porteiro, à margem da "civilização". Hoje perdi grande parte do que me resta: quando vislumbrei o meu rosto, no vidro baço, e o meu corpo exulto em sombra, senti-me, como é hábito, forte e duro como as rochas, e desejei ter poder para acabar com o meu corpo de montanha e a minha alma de céu, mas sou pequeno como o pardal nas estações das quais é Deus e ignorante.

Um amarelo torrado rompe o céu a meio-Tejo, uma miríade de anestesias e estimulantes diferentes racha-me a consciência, e tudo está parado.


André Consciência

domingo, 6 de maio de 2012

Since 1985


Deste ponto a ponto distinto
César vive e espalha a sua rede
De pescar espíritos.

Nos anos trinta, a Queda do Homem,
Na altura eu e tu comíamos pizza
- Em Leiria -
E na televisão os coros apostólicos
Rodavam as nossas cabeças com
Canais da MEO.

Nos anos subterrâneos era tudo
A Palestina, com os super heróis
Mitológico-americanos
A rir-se debaixo da Lua
Dos monhés armados,
Eu fumava na banheira
O cigarro que tu também
Experimentavas em mim o bâton
Que nunca usaste em ti
E com água nos dedos
Lavavas-me lábios.

Nos anos 40, a Casa Branca mudara-se
Para o fundo do oceano, e ali escondia
As suas mentiras; à superfície
As habitações ardiam.

Era a Noite dos Mortos
Eu estava desesperadamente só
E o telemóvel, que me não deixava
Paz.


André Consciência

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Diário de um Vagabundo




O mundo morreu! Sim, morreu
Isto vos digo; A minha razão
De viver assim renasceu…
Quem sou eu? – Perguntais:
Mero caminhante e sem abrigo.
“Pobre infeliz” dizei – Virai a face
E escarnecei. Filho das ruas e do vento
Corpo sem espírito nem alento

Prevaricador desavergonhado!
Sanguessuga social desmoronado!
Abro o peito sem nada a perder
Admitindo o desalento
Face ao mundo em retrocedimento;
Um poço sem fundo a enegrecer.

Ide então… vendei vossas almas
E vossos corpos à sociedade;
A morte caminha sobre nossas auras
Em passos largos de finalidade.
A insignificância de onde vivemos
Nós a criámos; Esgotando esforços
Nos lugares errados.

Akila Sekhet

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

The Garden of Earthly Delights


The Garden of Earthly Delights - Hieronymus Bosch



Havia prostíbulos nas igrejas
Adivinhos nos quiosques

As crianças brincavam nuas
Algumas empunhavam
Pequenos cães irritados.

O cemitério espalhava-se
Pelos esteiros com as suas
Mulheres.

O vento cheirava a sal e a
Decomposição.

Um caçador coçava-se no canto do aposento
Um marinheiro no cais soltava uma chuva
Um demónio despido pelas ondas, corava.


Horned Wolf

sábado, 10 de dezembro de 2011

Fechou os Olhos




Os sinos tocavam com demasiada força
Os homens que puxavam as cordas tentavam
Repelir o assalto por si próprios.

Avançavam pela lama e metiam-se por entre as
Estacas partidas, como se fossem
Ratos.

Arrancou as roupas, depois voltou-se,
Quando ouviu vozes.

Um rio negro com pregos de aço corria
Em direcção ao centro da cidade.

Uma mulher gritou na rua,
Depois outra,
E vozes inglesas aplaudiam

Um a um, calavam-se
Os sinos,
A dobrar o seu terror
Sobre os telhados,
Os passos batiam na escada.

As gaivotas alimentaram-se dos olhos
Dos mortos e picaram-lhes a carne,
Restando apenas ossos ocos
A olharem as ondas.


André Consciência

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deus ex Machina



No pulsar do despertar
Um cidadão confessa-se
E aventura-se no vazio

Os sinais do futuro
A arder
Recordam
O retorno.

Re-l124c41+
Facho de luz
Faíscas de radiância

Existência
Na treva branca
Quando sorris

Caminho errado para casa
A Ofélia
Calma que morreu calma

Terra incógnita
Vida após Deus
A rapariga, com o sorriso.

O olho sagrado do vazio
No lugar do fim do tempo
Deus ex machina.


Horned Wolf

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Lusofonia




Os baloiços, onde estudávamos as estrelas
Com o balançar próprio do pêndulo
Nas rotas do fogo.

O cavalinho, onde te despia
Com chicote, e escapavas a galope
No mesmo lugar.

A almofada com que sufocava
As escaladas do teu êxtase.

E os escorregas onde rimos
A noite desprovida de olhos.

As pátrias antes de o serem:
Com medo criador, derrotadas.

Os mortos
Enquanto extra-pátria.

O cavalinho, que língua era a do corpo
Prévio à penetração?

Os navios, e o que é o português
Se não um sistema de controlo
Da psicologia humana?

Almeida Garret e Castelo Branco
A arrancarem estimuladamente as unhas.

As folhas caídas da civilização
Os workshops, os ecosistemas,

África, com trovadores do Porto,
Uma colecção de cromos
De René Guenon.

Que se foda, vou a galope
Que as àguas duram pouco
E os bicharocos lambem-nos as patas
No mesmo instante que lhes damos uso.

As galinhas em trânsito onírico
As hormonas a exalarem flores
Recintos e repórteres.

Vendo, na berma da estrada
Garrafas de nada.


Horned Wolf

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apocalipse Acto V

As diferenças são, invariavelmente, motivo de erradicação de um por parte do outro, quer por se ingeri-las quer por eliminá-las, nesse sentido tudo está em qualquer coisa e nada se move isoladamente. Da mesma forma se relaciona o nosso passado, aquilo que nos é antigo, e aquilo que nos é novo, assim, o antigo destina-se a tornar-se novo e o novo a tornar-se antigo e decrépito. O Homem percepciona esta realidade sem, todavia, existir no seu plano. Entre uma e outra coisa funciona um terceiro corpo, esse terceiro corpo é o homem tal como desceu primeiro ao mundo.

O individuo vive enquanto elemento das relações humanas, a sua vontade é, enquanto individuo, um somatório de querer completar ou destruir o outro, ou seja, de se fundir com ele. Os dois entes jamais se tocam, no entanto ambos consomem o terceiro corpo, que os aprisiona por via da crença mutua e já só se justifica com as suas próprias parasitas.

Apocalipse Acto IV

A Livre Vontade reside no acto de se adaptar e celebrar a adaptação, é precisamente o contrário da liberdade de escolha. Viver é o acto de imitação, mas para que o sinta de forma vibrante, o actor interno, terá de se convencer da exclusividade dos seus gestos, a sua vontade, por mais isolada que aparente ser, é a de colaborar e participar nas engrenagens da escravatura da consciência social, sem a qual a vida enquanto a conhecemos - como uma encenação - perderia os membros e os órgãos. Se o seu acto, durante a encenação colectiva, se mostrar suficientemente grandioso para o público, então finalmente poderá ser ceifado sem medo, esse é o objectivo do Homem: cessar.