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sábado, 23 de dezembro de 2023

O Casamento

 


Eunice Correia por André Consciência



Há uma palavra

Retida

Na geada:


Um sino de gelo

Uma flor de fogo 

Que se debruça

No teu rosto.


No meu

Aqueles anos todos

Despenhados contra ti


E alguém,

Que se levanta do teu sono

Dos precipícios dobrados

E azulados,

A tua mão a esbranquiçar

Curvada nos meus pulsos;


A barra destruída

Da barragem

A lebre trémula

Pelo cio

A luz

Das cortinas

Delineadas no teu peito

A raiva

Pujante dos quadris

Febre.


Sorvo Soma 

Fico a amar-te

As aranhas-coração

Nidificam nas nossas fendas

Os mundos multiplicam-se

Sorvo soma

O licor da tua boca

O verão salgado

A maresia final

E eterna

Em chamas.


Depois o teu nome

A manhã nos portões

As cidades além-mar

E a palavra na geada

Continua a ressoar.



André Consciência

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Batismo de Fogo


Oláfur Arnalds - This Place Was a Shelter



I


Branco como a chuva gelada, cor de mel e feito de fogo negro, percorro a floresta nevada que se estende da Rússia de Leste, atravessa a Europa e desemboca nas Américas. Encosto-me ao pinheiro, as lascas secas e escarpadas atravessam-me na luz, as camadas húmidas e bruxuleantes. Uma ave cor de uva bica uma pinha e mistura-se com o ar, vital, e dá lugar ao javali, mas só o corvo ao cimo sabe o nome que pronunciam. 


II


As árvores secas atravessam os vales como rios picados. A neve é o meu nome. E eu procuro-te. Procuro-te no sol frio e boreal. Durante o inverno, os dias são tão curtos e a temperatura tão baixa, que o crescimento fica suspenso. As árvores brancas e pontilhadas de amarelo suportam pouca vida. Mas a terra respira. Os rios. 


III


Os salmões ancestrais elevam-se com a névoa branca e dourada, do azul crispado. Há um canto de águia, intermitente, como uma canção tua que se esqueceu. As águias são agora como borrões negros nos fios albinos e arbóreos. Quando a névoa os começa a amar, também eu estico as asas doridas e magoadas pelo gelo. Um qualquer tronco caído, e uma cabeça de plumagem branca e lança de ouro solta um canto fúnebre. 



IV 


As rapinas nidificam, a neve cai tão abundante que se tornam invisíveis entre escombros. Um vulto triste de reis e rainhas celestes de corpos pesados com a água abismal. Enquanto o inverno avança a precipitação lenitiva torna o tempo descendente e vertical. Também o ar se torna rio nebuloso.



V


Adiante, os ventos trazem ar húmido e quente do Oceano Pacífico, e eu cresço o ano inteiro, impulsionado por um desejo misterioso de regressar à alma que me fez nascer. No fim do verão, o Sol tostou a floresta tão intensamente que está tão seca como palha. Cabelos de fogo irrompem dos castanhos como uma água ruiva e os ramos pendem para baixo num abraço. A terra vomita uma densidade cinzenta. O vermelho sobe aos céus. De repente, o teu semblante na água quente, móvel e ascendente. A tua destruição aparente e a tua bondade plena. As árvores são lanças negras despidas contra a vastidão estelar. E um demónio de pó baila em espiral, uma coluna e um corredor até à nossa morada. O vento, ao varrer o chão da floresta recém exposto, levanta turbilhões de cinza. Ergues-te agora do solo sem vida. Eu vivo em ti, que te lembras, vital.    


André Consciência

domingo, 19 de abril de 2020

Caminheiro

Sunsphere - André Consciência


1.

No céu uma luz agarra a terra
A terra torna-se celeste
E o Sol, duas colunas
Sem fim, entra o clarão
A estrada ergue-se mais
Acabam as luzes
Não respires, um sonho acerca-se
Da coisa morta
E nada o privará. 


2. 

De costas vista, a alma é o passado
De frente alcançada, o futuro
É a criação que gera o criador
Agora, a pirâmide só tem topo
A primeira palavra da amalgama animal
A última palavra de um homem para todos
É a última palavra de todos a si mesmos
Um silêncio chega e arde
Um fogo congela e as asas descristalizam.


3.

Onde fica o céu só há a terra
Onde fica a terra só há o céu
Tudo o que cresce infinitamente
Recolhe infinitamente
E o mundo não o tem
Não há luz onde há a treva
Nem as trevas
Olha para mim, D'us
Reconhece-te.


4.

O tempo mostra as mãos
O trabalho solta-se em perfume
O incenso banha o espaço e chega uma visita
Um corpo de estrelas o habita
Mostra os seios e vem a noite
Ninguém habita a minha forma
Os raios da sua testa leonina
Sorvem o sangue
Mas é o sangue quem consome.


5.

Quando a onda nasce do seu pico 
Os pássaros erguem-se com fogo
E cospem na luxúria dos homens
Canções sem fim
Os imortais ficam
Tudo se abre
Cada poro do mundo
A vulva mostra a noiva
Não há sol além de mim.


6.

A boca expande-se depois do corpo
Shekinah deita-se no mantel azul
E chove com cores conhecidas e desconhecidas
A luz ergue-se da terra e a terra também é um arco
Eu estou no olho da miríade
A boca abre-se além do ovo
O que sai não pode ser dito
Mas é
Adonai salta do meu pulso.


7.

Morto, Adonai larga a espada
E a espada é um homem, uma mulher
Acima das nuvens cai, sem cessa, o Sol
A rainha senta-se, lânguida
A coroa dispara
Mas os meus pés dançam sobre a sua luz
A minha boca é um túnel, cá fora
Mas cá fora é um túnel, dentro
Para outro lugar.


8.

A divina embriagues dita
A realidade escreve
Uma torre senciente desce
Ao mundo sem fundo
Nada mais será eterno
Que o espírito move
E a morte perde o ser
Ó, coroa irradiada dos umbrais
Consome-te a ti mesma.


9.

A pedra era pedra antes e depois de a ser
O seu vulto está aqui, agora
Além de si, está ela própria
Assim canta o poeta
E a montanha ergue-se de uma só
Pedra
A folha que cai levanta
Há ouro e ouro
Poeta, poema.



André Consciência

quarta-feira, 3 de abril de 2019

O Poeta

O Poeta, Javier Rodriguez





Montado num boi observo com a ave de gelo ao ombro. Três mulheres sentam-se à porta da fogueira e miram as estrelas de pedra. Inteligente e nas rachas da chama cresce uma trepadeira de forte perfume. 



André Consciência

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O Operário


Sisyphys (1548–49) by Titian


Um homem caminha
A brilhar de si para si
E o mundo prostra-se
Em alívio.

Aos ombros o homem traz
As brasas, e a superfície pesada
Do Sol, as suas costas negras
Esclarecem a escuridão
E há fagulhas no céu
Que se levantam do chão. 

As pernas de ferro movem-se
Uma à frente da outra, 
E alguma coisa cai com estrondo
De um lugar longínquo
Mas o homem prossegue
Os olhos postos no Inferno
E em alguém que fraqueja. 

O chumbo do seu peito
É uma clareira estranha
E quando chove o homem, pulsante 
Escreve, mas a chuva não lhe toca
E a solidão boquiaberta
Foge à sua toca.

André Consciência

domingo, 29 de abril de 2018

Ao espírito dos pobres


fotografia de Soraya Moon



Ás vezes as paredes não estavam vazias
Escutava-se uma respiração familiar
Um perdão distante que alterava o rumo
Do vento, das pedras, das casas
Da vista que se escapa dos olhos
Para longe, e as paredes vazias
Surgiam no alto do campanário
Fechava os olhos com força
Á espera da ausência do tempo
O ar estarrecia, claro, altivo
Frio, e eu sozinho, inteiro
E na parede um riso de criança
Arrastava a mão para lado nenhum
E um dia cairá uma chama
Alta, do alto das campainhas,
Como um aviso, e a memória efervescente
Acenderá todos os lugares
Os campos a arder e as crianças a dançar
Sob o jugo do fogo e a habitar as paredes
Evocarão um nome que ninguém conheceu
E eu poderei rir, e a minha respiração
Há-de ser familiar, os cabelos o trigo
A palavra o ar.

André Consciência

domingo, 30 de julho de 2017

Malak





O cisne canta ao longo da água como num tapete persa. Atravesso-o. As três árvores de granito ficam também para trás, regadas pelas suas três fontes, depois, por seu mantel, a superfície de cristal manso e líquido onde as árvores se põem a subir infinitamente para o céu, continua e visivelmente, e eu suspiro um suspiro que adapta a flora e enriquece a fauna, o veado, a lebre, a gazela. Tudo é móvel, soprado pelo poder doce, e se fixa à minha aproximação. Então, a aurora ilumina a primeira montanha, tingindo de vermelho as pedras do céu, e outra água principia a cair, onde se deleitam arcanjos femininos de Zoroastro. Pensava ter encontrado a morada que segrega a luz que sou, mas a minha luz não vinha do chão ou do céu ou da treva do pensamento, os germes cresciam e avolumavam-se numa forma em que cada gesto é um significado e eu permanecia sozinho, como um objecto iluminado cuja luz tem de ser objecto. 

II 


Aqui matei o meu filho, e ele ergueu-se com as árvores que sobem infinitamente. Já nada vem do céu ou do chão ou da penumbra do pensamento. As coisas segregam luz, a minha mão marca a pedra e o horizonte perde distância e as alturas profundidade e ganham presença. Estou cheio de flores, rios, árvores, pássaros, montanhas. O céu azul. No céu, sou o céu, no mundo, sistema nervoso. Ali, lúcido e sereno, diáfano e translúcido, compreendendo a inexistente deslocação dos corpos. Depois, rebela-se o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e as formas femíninas que penetram as águas recebem o fogo e concebem, luz sobre a luz, os homens retêm a respiração e inicia neles uma respiração outra. 


André Consciência

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Shofar

Eunice Correia por Gonçalo Rodrigues Batista

Há um coração no circulo de pedras, silente e rumorejante no seu silêncio, que canta os dias que fui e depois se debruça sobre o tempo presente e encontra tudo isso nos traços das suas próprias mãos. Depois há uma concha, contendo uma pérola, que foi ofertada sobre o antigo altar. Um anjo sobe e materializa-se, a cantar com as penas que roçam umas nas outras.  E outro anjo desce e beija-te, lânguida ao longo das pedras como uma cobra imensa, e ajoelha os alces e levanta os dorsos das baleias do ártico e vocifera o frio mudo e a claridade. Eu abro os olhos, pendo sobre a ternura dos dias e balanço-me no pêndulo de fogo do teu ventre, o teu peito a florescer uma floresta de urze com lagos, o teu sorriso um palhaço de sangue reforçado pelas dobras do desejo. E onde a pele era um deserto a neve derrete-se, escoalha-se, revolve-se, ergue-se e canta na boca do anjo, um verme de luz insinuante. Anda, senta-te. Teçamos o mundo e as águas no fundo. Alguém voa, com os teus cabelos e o meu rosto, os teus olhos e os meus dedos. Alguém se senta, a tecer os dias sobre os quais os alces correm e o gelo chora e a cabeça alva da Lua se torna rubra. E não tenhas pena da morte, todos os homens morrem aqui. 

André Consciência, dedicado a Eunice Correia

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A Tríade






O palácio do Príncipe é uma mulher de paredes brancas e janelas voltadas ao crepúsculo. As janelas são muitas e para lá das gloriosas sacadas de ouro escuta-se o sussurrar das princesas ao longo dos beirais esculpidos. Ali, os poetas vestem-se de peles ou de seda e andorinhas migram em pequenos círculos sempre no mesmo céu. Os pomares decompõem-se com as flores que florescem, os lagartos brilham esticados e imóveis ao Sol de barbas congeladas, os homens adormecem ao meio-dia da neve que cobre as ameias, as borboletas flutuam sobre pingentes de gelo, e os pássaros de plumagem brilhante equilibram-se no vento selvagem dos locais abandonados, as mariposas maravilham-se pelos campos frios entre flocos, mais altas ainda que os contrafortes, e os gansos selvagens voam baixo, com os gloriosos insectos e as orquídeas iridescentes. As águas gorgolejam quentes sob as nuvens negras e tudo dança num círculo de luz.

André Consciência

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Exosfera





Como uma silenciosa estrela no espaço é toda a palavra. O processo que no iniciado desperta a natureza angélica é o poético. Primeiro ele é sensível à terra, ao mar, à carne, à sua habitação, à cidade, ao deserto e ao campo; às montanhas e aos vales, às ilhas, às praias e às florestas. Depois tacteia o que emana das pessoas, dos elementos, dos poderes, dos anfíbios e dos mamíferos. Medita na mente dos cientistas, dos filósofos, dos químicos, abre o crânio ao céu e ultrapassa os obstáculos. A seguir deixa-se ficar só com o que há de imediato. Dá aos outros o que ele não tem mas que é destes, e os astros descem à terra, ao mar, à carne, à cidade e às florestas. Sabe que o espelho das coisas o oculta, e que o fogo o revela. Por meio de incendiar o espelho pode depois olhar a natureza e observar a sua profundidade em extensão, as inteligências que a governam. Então, vestido das ideias afirma automaticamente o espírito, e ainda que as suas ideias não sejam universais, o seu espírito será. Caminha como uma imperatriz sobre o corredor vermelho do pecado, adquire a experiência de um tigre, cobre-se dos elementos da terra e desaparece nela. De si ficará só a força e estará vestido de fogo, as paixões, encurraladas, irromperão pela sua carne, o seu espírito como uma águia bicando o seu corpo e o seu corpo estrangulando-lhe o espírito como uma serpente. Mas direcciona todos esses elementos para o seguinte enigma: "No espaço vazio, o que significa a Ousadia?", os seus instintos fazendo-o silencioso como o caçador; e sem nunca descobrir a terra prometida, retorna um monumento da mesma, como um homem que, durante tempo suficiente, se fitou ao espelho, apercebendo-se que a maior porção da sua aparência jaz entre as sobrancelhas.

André Consciência, de um apotamento escrito aos dezoito anos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cidade



modelo: André Consciência; fotografa: Eunice Correia



Não me viste, na casa do príncipe
Quando as paredes se pintaram com o verbo
E não sabias que um dia o meu corpo
Foi um cisne, compacto, invertebrado, e luminoso,
A arrumar os cantos da penumbra, da hera e de arruda,
As clareiras do vento, do coração e do poente
Junto aos lírios e aos precipícios, erguendo-me ao cair do mundo
Fendendo as árvores, baloiços por ancas.

André Consciência

terça-feira, 14 de junho de 2016

MALAK

Malak XXI


I


A palidez do rio tremulava nas minhas faces. Abri uma clareira de ar com a mão a azular-se e colhi uma dúzia de búzios. Uma ave fitava-me na margem, chamuscada pelo Sol, e eu cantei um piar louco, desajustado com a voz dos anjos. Não te via, Deus, há tanto tempo. Procura-me. Dizia. Aqui, do outro lado do rio é sempre igual. Mas, pelo menos, depois deste rio não hei-de ver nenhum homem, fisicamente capaz e ausente, a querer ser uma rocha que nunca soube parar. Mesmo nas proximidades do lago e na região sulina do mar, os mestiços caminham de cabeça baixa, a cultura pesando-lhes sobre o pescoço. Uma vez, esperei durante oitenta e três anos num jardim do Golfo Pérsico, outra na costa oriental do Mediterrâneo, numa estreita península que se projectava para Oeste, quase uma ilha. A ave também lá estava, rubra, azul, a portar a glória da manhã mesmo na noite, mas só eu cantei. Raramente chovia, ainda que a precipitação não poupasse os planaltos circundantes e quedasse copiosamente. Havia uma árvore como as árvores em Casa, alimentada pelo rio que atravessa a Mesopotâmia, coberta de metais e pedras preciosas. Sentei-me e esperei por muito tempo, ganhei ramos, raízes, cascalho, e pus-me a brilhar, eu e a árvore, a ignorância, a selvajaria e a treva a rugir à nossa volta. Começou-se a levar ali pastoreio, aves e espécies domesticadas. E um casal, vindo de mundos distantes e centrais, alimentou-se dos meus cabelos, a sua existência animal não envelhecendo nem um dia. Quando acordei, a árvore ardia, o fundo do mar mediterrâneo a leste, que unia África a Sicília, afundava, e apenas as trevas exteriores haviam chegado. Aqui e agora, do outro lado deste rio, existe a voz seráfica de outro jardim. O concerto nunca acabou, e sinto que só eu canto...


II


Certa vez vi o Casal Celeste descer sobre um templo ao Pai Abandonado e dez dias depois, tornar-se homem e mulher. Recuperaram a consciência simultâneamente, de todos os tempos, de todos os lugares, mas vividos em par. Ergueram-se trôpegos, com três metros de altura, a pairar sobre Jerusalém, e os conflitos do mundo baixaram-se rasteiros, com um gemido longo, e calaram-se, perdendo a consciência, a personalidade, principiando a rir-se como crianças no convívio da família. O Casal também me viu, um peregrino ao meio-dia, e falando-me, a ave cantou na minha língua. Debaixo da Lua sentámo-nos, eu e a ave, a fazer planos para o dia seguinte. De manhã, erguemo-nos sobre os vastos jardins do mundo a beber o leite das nozes e o suco das frutas. Depois do meio-dia, punha-me a absorver a luz de certas regiões do universo. Então vimo-los subir os montes, prostrarem-se, a verter leite, um e o outro, dos seios. Sob o Sol, os seus corpos nus emitiam uma luz difusa, mas de noite a Lua vestiu-os e só as suas cabeças irradiavam, num uivo que alastrava a uma distância insondável.


Malak XXII

Tinha cruzado a fronteira que intersectava o meridiano e atravessado a estrada de quilómetro e meio para Sul e segui para Este, embrenhando-me nos vales, e transpus a garganta para Sul, embrenhando-me nas planícies, atravessei os montes e fui até às montanhas. Tinha no peito uma ferida já cintilante, no ponto em que Deus me mordera dois anos antes, algures nas montanhas sonoras. 

Deambulei depois disso pelo Oriente durante um ano, Comia camelos e cavalos selvagens e marcava as árvores com a minha mão. Depois de tanto tempo a ignorância dos homens ainda era para mim um enigma, com os pés em tumulto, a deambular, a urrar e a debaterem-se através da vida, arrastando tudo no seu caminho até morrerem. Os homens evocavam em mim uma qualquer raiva de fera, uma fome, como se violassem uma velha ordem. Imprimia estes princípios: nunca regressar para junto de um vivo uma segunda vez, nunca atravessar a mesma estrada nem a mesma linha férrea. Nunca louvar o Sol duas vezes no mesmo local da terra, embora ele sempre no meio-dia do céu. 

À noite, descia até às planícies e perseguia os macaco-leão, a vê-los rodopiar e fluir na sua própria massa, a poeira levantava-se como um fumo e eu recordava-me do Leite do Pai a descer. Os seus membros erguiam-se, as suas cabeças, e principiavam numa histeria que fazia o mundo passar pela sua passagem lentamente. Procurava qualquer indício entre eles que me indicasse quais marcar. Mas consumia as crias deixadas para trás, vindas de outro mundo, cegas e moribundas, translúcidas porque amanhecia. Alguma coisa tinha de rasgar o silêncio terrível.



Malak XXIII

No rio e nos rápidos pouco fundos e nas línguas de cascalho, não encontro o teu nome. Um bando de patos escuta-me a bater as minhas asas, distingo-os em lampejos ao erguerem-se contra o céu. A água forma remoinhos vagarosos e negros que luzem na margem do rio, e para além dos salgueiros-anões eu não encontro o teu nome. Se te chamar na paisagem escura, o meu lamento não terá outra origem que não a noite em si.



Malak XXIV

Havia dias que levantava as terras. Ateava piras nas montanhas desabrigadas e de noite, por vezes, afastava-me através dos prados e deitava-me no chão, no silêncio do mundo, e remirava a chama do firmamento por cima de mim. Nessas noites, pensava muitas vezes em Deus, imaginava-o sentado junto a um silêncio igualzinho àquele, numa paisagem em tudo igual àquela. Então, eu descansava, o halo sobre a minha cabeça a ocultar-se no Sol matinal, o Pai a converter-se num outro ser, desprovido de história, desprovido de futuro.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Eshter


dedicado à santa


O sangue correu para dentro
E docemente, correndo
Em enchente até aos recifes, 
Ela de pé delicado e cabelo de mel
Para acender a estrela no altar
E proteger a noite do seu despertar,

Espírito de Eva, no jardim sem espinhos
Abriu a boca muda num inchaço lunar:
Vaga que varre as baías, sonhos sem pé
Negro a dourar com a graça de virgens
Coração do meu coração a casar 
A noite em silêncio. 

E escala às estrelas em pulso com o Inferno
Alegra-te, dança, tremuleia e alegra-te
E que tudo esteja bem. 

André Consciência

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Anel




O som subtil dos lábios que se separam num sorriso espontâneo cola-se ao ruído descontrolado da cidade de Lisboa, e um homem que colecciona os lugares colecciona as vidas. Lembro-me por exemplo dos teus pés frágeis, brancos na curvatura, a pisar as folhas do mato sobranceiro ao rio, a antiguidade muda da terra entre os dedos, a claridade de um fim de tarde que furava as copas a reluzir nos teus calcanhares, com todas as folhas, com a sonoridade móvel de todos os ramos. Dizem que na morte se torna tudo, e que se sabe talvez todas as coisas, mas é isto que é a morte, uma fotografia que está viva. E um dia voltamos aos lugares, estamos sozinhos a caminhar dentro do que também está dentro dos nossos, num anel de fogo somos os lugares e estamos a presenciar-nos, transparentes, quebrados, o Sol a atravessar as fissuras, a corrente das almas a resplandecer.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Moinho




Quieto. O túmulo arde.
Silêncio. A brilhar tu pisas
Com um pé ferido
A luz que se abate nos meus
Olhos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Prelúdio




Casa, com o coração cheio de silêncio vi
Os olhos despedaçados das crianças
Crescer de novo para morrer
E brandas de loucura as crianças soterrarem
As mãos na cabeça larga demais para o corpo
O orvalho sedento beber-lhes a oxidação
E os sorrisos cortejarem e esquartejarem
O coração cheio de silêncio vi.

Casa, a soprar um vento escuro
E eu era um jardim soalheiro
Tu a sombra do palácio perdido
E as estrelas com que te lembro apagam-se
Nas paredes e quem me guiará
No baixio silêncioso das palpelbras azuis
Nos rostos que vão para dentro do meu
Até gritar o nome esquecido
E gritá-lo por o ter esquecido
Para lembrar o espírito do mal que grita
As formas brancas da luz com lepra nevam
E tu gravas-te na minha fronte.

Os pardais enchem as valas de morte
Cantam-te, e Casa,
Hei-de me afundar sob os carvalhos
E apagar o teu rasto
Com a mesma ira de seres incêndio.

André Consciência

domingo, 7 de junho de 2015

A Neve Derretia Num Beco Sem Saída




Olho a aldeia de vinho e secura
O Outono que entra e dependura
As cidades de fogo consumidas

Um vento escuro despe as mulheres ébrias
Da cor azul da uva, vidraças estremecem
Malditas, solitárias na noite calma
As feras negras adornam-se de lírios

Tornam-se loucas e o meu demónio chora.

André Consciência

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Fénix, Na Casa Luminosa




A Casa ilumina-se, uma fracção fantasmagórica do universo morto, o labirinto elemental das coisas onde a chama ainda se esconde. A casa ilumina-se com um ardor secreto para abrigar no seu subterrâneo um ovo amplo, fechado e sem paredes. Na cave, uma tocha com cabelos de fogo e corpo laranja dança, a sua força a do mar que mói o céu em espaço, a sua segurança a da beleza pura e cristalina da memória.

André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Lança




Sento-me, no colchão de palha,
À espera que alguém apareça,
O cabelo uma massa sibilante
A fera lamuria-se e principia
Um feitiço, enquanto num letreiro lê-se
«Sente o calor do sangue na tua porta»


André Consciência

sábado, 24 de maio de 2014

O Pássaro

Durante e em expressão de um improviso das bailarinas Mary Nemain e Soraya Moon

 



Uma corrente de grinaldas
Atada à volta do tornozelo
Um trago de limão
Pelos dias e noites de Verão
Trilhos de serpente que fendem
O corpo em passo de dança
Fogueiras entornadas dos precipícios
Da manhã, o copo a cair
Para o movimento, o espírito
Deslumbrando-se de deslumbramento

Depois, a serenidade transparente
Dos dias se moverem em mim
Com a partilhada vontade dos astros
Os vulcões a apertarem-se no espaço
Entre a vida e a vida
A sensualidade a lavar o peso de ser peso
E a vida a rir-se por vida ser
E a morte, para longe entardecer

O meu corpo estilhaçado
A dançar por todo o lado
Porque a alma prende o fogo
E o vulto em desaforo
Alumia-se ao vulto e sem decoro
Cria a coroa de grinaldas
O tornozelo entre as almas


André Consciência