segunda-feira, 8 de junho de 2015
Prelúdio
Casa, com o coração cheio de silêncio vi
Os olhos despedaçados das crianças
Crescer de novo para morrer
E brandas de loucura as crianças soterrarem
As mãos na cabeça larga demais para o corpo
O orvalho sedento beber-lhes a oxidação
E os sorrisos cortejarem e esquartejarem
O coração cheio de silêncio vi.
Casa, a soprar um vento escuro
E eu era um jardim soalheiro
Tu a sombra do palácio perdido
E as estrelas com que te lembro apagam-se
Nas paredes e quem me guiará
No baixio silêncioso das palpelbras azuis
Nos rostos que vão para dentro do meu
Até gritar o nome esquecido
E gritá-lo por o ter esquecido
Para lembrar o espírito do mal que grita
As formas brancas da luz com lepra nevam
E tu gravas-te na minha fronte.
Os pardais enchem as valas de morte
Cantam-te, e Casa,
Hei-de me afundar sob os carvalhos
E apagar o teu rasto
Com a mesma ira de seres incêndio.
André Consciência
domingo, 7 de junho de 2015
A Neve Derretia Num Beco Sem Saída
Olho a aldeia de vinho e secura
O Outono que entra e dependura
As cidades de fogo consumidas
Um vento escuro despe as mulheres ébrias
Da cor azul da uva, vidraças estremecem
Malditas, solitárias na noite calma
As feras negras adornam-se de lírios
Tornam-se loucas e o meu demónio chora.
André Consciência
segunda-feira, 4 de maio de 2015
A Porta Azul
O mundo era natural para mim, eu estremecia e nos não tínhamos conhecido, era natural a morte, as mulheres, a sede e o deserto, as feras que se passeiam na areia indiferentemente próximas ou longínquas. Mas demorava-me nos pormenores e encontrei uma porta azul nas ruelas daquele bairro que fazia meu. Essa porta ainda estava fechada no tempo, no entanto, vi-me junto das retortas do clarão da água, junto de ti que cantavas o mar por lhe sentir a falta, e parecia que nunca tinhas levado ali ninguém. Desconfiado, enquanto fitava o pequeno prédio de fora, aumentei-me imenso, para me poder espreitar a sair pelas janelas como um incêndio. Nascia um teatro honesto, uma vida além da morte em que salões eram montados para receber a última nas suas pálpebras azuis de dia e multicoloridas pela noite. Subi só meio degrau, quase insensível, a confiar na sensibilidade do homem artista e afogado na tua pele que ainda desconhecia. As visões de fora e as visões de dentro todas a colidirem como um pesadelo: Um coelho subia a porta azul e uma chama diante das janelas projectava o Sol, o Sol iluminava igrejas só habitadas pelos gongos e o tinir dos sinos estremecia sobre os vales rochosos onde se movia a sombra do peixe maior. Uma torre enorme erguia-se reunindo avalanches em seu redor e nós nadávamos despidos na neve, com pétalas de rosa a brotar das gengivas encarnadas.
Retomei o meu percurso. Então reparei, pela primeira vez, que nada se pode dizer sobre os lugares.
André Consciência
domingo, 3 de maio de 2015
Lá Fora Era Verão
Todos os dias ao passar à porta de mim vejo expostas duas máscaras. Tu antes de mim, e eu, a sorrir como se soubesse que te enganava a minha felicidade. Tu és um anjo e a segunda vive acompanhada num deserto onde se sentam os reis de lábios gretados, com as suas coroas de machado a pesar sobre o bronze dos corpos duros. Nesse deserto sou fera abandonada ao seu sangue, com medo de si mesma e a devorar-te as asas-seio. Tu existires, anjo, e eu não dormir à noite, para verificar se dormirias no escuro um dia e como seria a tua beleza no sono.
Não foi o mal que me levou a odiar-te, mas o teu bem. Porque quando te viam as formas móveis num lodaçal de serpentes, o corpo a gracejar a glória nos teus bicos de pés, a tua dança a escancarar as portas do silêncio para deixar sair feras com o sangue que contra elas se agita eis-me, a olhar-te como o homem invisível e iluminado que a candeia que deixas arder até ao fim revela.
E ao revelares-me sou eu afinal a estátua imóvel com uma chama de pedra, para descobrir o anjo, e revelares-me é morreres para os homens de bronze.
Comeste a comida das aves, mas o meu trabalho é retalhar as asas e esculpir o vento, fazer a areia dividir-se e receber as estrelas e afasta-te tu, pois degustarei os anjos como um homem que se supera na pedra.
André Consciência
André Consciência
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Fénix, Na Casa Luminosa
A Casa ilumina-se, uma fracção fantasmagórica do universo morto, o labirinto elemental das coisas onde a chama ainda se esconde. A casa ilumina-se com um ardor secreto para abrigar no seu subterrâneo um ovo amplo, fechado e sem paredes. Na cave, uma tocha com cabelos de fogo e corpo laranja dança, a sua força a do mar que mói o céu em espaço, a sua segurança a da beleza pura e cristalina da memória.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Um Tríptico, Na Casa Luminosa
Um rosto é sempre simples, dois olhos, duas faces, testa, queixo, os lábios; um instrumento simples, em bruto, com ele te conheço e com ele me conheces. É nos posteriores detalhes que nos esquecemos do que primeiro é o rosto. Nos detalhes representamos, e o corpo todo, porque segue sempre o rosto, torna-se superstição, imortalidade.
Cada semblante possui os seus traços de tempos e épocas distintas, mas eu sou sempre branco, cabelos e asas alvas, olhos transparentes como duas bolsas de vidro vazias.
Pressentes muitas máscaras, tripticas todas, mas só uma te atrai, porque não tens ainda rosto para suportar os muitos rostos, e vais sonhar fundo, adentrando a dimensão.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Nilo, Na Casa Luminosa
Carl McCoy
Em vida, havia o costume de nomear as coisas, todas as coisas tinham um nome e até aquelas que não tinham nome eram evocadas com o nome das outras. A morte, no entanto, é muda, um ovo em corredor que atravessa a existência de uma ponta à outra e a materializa em símbolos. Não há um único som nesta sala estreita e comprida, é uma galeria de essências, expostas em vitrinas como carne no talho, mas intocáveis, impossíveis de tocar ou ingerir, porque em vida tocam, morrem. Ali, aquele indivíduo que era um clarinete, emoldurado, uma palavra que me terá chamado um dia e a que terei feito apelo. Uma caixa de música sem música e só com a dança, a bailarina de plástico rodando à vista de pessoas que foram fadas, dragões, tapetes persas suspensos no tecto como Inanna, carnal aos olhos de Ereshkigal. A morte não é cega, e ao centro do corredor que é o centro do mundo, um globo de madeira, renascentista, que ao girar se abre e deixa cair telas com o retrato de todos os pactos. Fico à espera que estas paredes caiam soterrando-me e me façam símbolo de mim. Espero, imóvel, contra a parede, emoldurado.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
O Músico, Na Casa Luminosa
No claustro, o céu aberto ilumina o azul-branco do mármore em arcada, e o mármore, mais régio que o céu, mais monárquico e alto, lança o manto estelar sobre o jardim. O céu, enquanto pousa no labirinto de arbustos em espiral, ilumina o movimento do mundo, e da longa mesa de pedra a que me sento vejo a fonte ascendente, os raios de luz a atravessar a correnteza que flui para cima, como assim era e como assim será. O rapazinho de cabelo de neve atravessa as roseiras de água e sangue e sobe a pequena escadaria, sem peso dentro do peso, encostando-se a uma enorme harpa cuja cor é a cor das coisas e a mesa enche-se de poesia, os filósofos discutem o encontro dos rios, Lúcifer soa a primeira corda, os quartos-de-lua em ónix brilhante agitam-se sobre os transeuntes e sob a eterna aurora dourada.
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira
sábado, 25 de outubro de 2014
Cinco da Manhã
De noite as portas abrem-se com luz. Todos aqueles que me olharam um dia sentam-se no interior, discutem a vida. Onde estou a voz selou-se e o destino é tudo aquilo que não pode ser dito. Permaneço afastado das portas, aqui ninguém me vê. Fosse o amor esta escuridão onde nada alguma vez chegou tarde de mais, um beijo completo, o horizonte desvanecido onde a vista clareia.
André Consciência
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Acerto de Contas
Vive-se. As flores cobrem as janelas, deixa-se para trás a infância poluída para uma natureza feérica. As pétalas cobrem o tecto e ama-se. Acolhe-se a noite e é-se acolhido pela noite e a vida já passou e tudo retorna uma e outra vez, como uma redenção traiçoeira. Somos as pétalas. Um dia só escutamos o vento, os lábios já não beijam, as preces calam-se.
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Malak
Uma manada de búfalos despertava num amontoado escuro. Cabeças altas, as caudas a agitarem-se, iam-se aproximando ao ver a minha luz tornar-se mais forte, apressando-se a alcançar a segurança do meu corpo, duzentas enormes formas bovinas com as suas cabeças armadas e espáduas negras curvadas. Os meus raios revelavam os pequenos pássaros brancos que pairavam em redor da manada, sempre prontos a desembaraça-los dos incómodos parasitas. Levantei-me, a juba roxa ao longo do dorso ainda erecta, um som que parecia os céus purpura da madrugada, que fazia a terra estremecer e agitava as aguas tranquilas do grande lago.
André Consciência
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Malak
Mantenho-me no céu, nas árvores, e deito-me na erva do pôr-do-sol com os leões de juba negra, disforme no repouso, enquanto recordo a ânsia atávica do caçador. De manhã moscas verdes cobrem-me os olhos e entram-me na boca aberta, como o faziam de resto com os búfalos em que imprimia uma pegada de criança. Ao meio dia emano do ar aquecido, etéreo e semelhante a um chilreio. Os olhos brilham-me, como luas amarelas, e os cascos das colinas ardem.
André Consciência
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
da Terra e da Lua
Um pássaro existe que vagueia sozinho no Sol, como uma sombra atrás da luz do fogo, uma memóra sombria. Veste um corta-vento azul e pode-se ver-lhe linhas de dor na testa, a cara pálida e luzidia de suor, os olhos aterrorizados num mudo apelo, a Palavra entranhada na boca. A cada passada, os metros tornam-se vastos como os céus e fundos como o fosso do inferno. Numa madrugada rosada sentámo-nos na borda do vale, com as penas penduradas, vestindo pijamas e roupão, nenhum de nós acompanhado.
André Consciência
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Lugar no alto da falésia
Subitamente, tínhamos chuva à nossa volta, fios de gotas a contorcerem-se na superfície da pele. O vento fazia-se sentir, atacava os seios reluzentes da mulher e fazia com que as minhas asas estremecessem.
Abracei-a através do nevoeiro, os contornos escuros e desfocados das baixas copas de árvore passavam pelas pontas das asas. Abruptamente, as cortinas encardidas de chuva e nuvens abriram-se e nós entrámos um no outro.
"Não assustes os leões", disse-lhe. E o Sol era uma grande e gorda bola de fogo a olhar com espanto para a planície sombria e cintilante de sal que se estendia. Avançávamos lentamente no calor, os pés cobertos de pólen amarelo.
André Consciência
sábado, 16 de agosto de 2014
A Vastidão
I
Ela caminha sobre uma inclinada encosta de arroz negro, os pés são muito brancos e felinos sobre as dunas. A pele dos braços com uma suave pelugem, as pernas entrecortadas pela saia longa de tecido fino, o leite do largo rosto proeminente. Com as sobrancelhas vermelhas fita o horizonte e não existe ninguém. O Sol é uma Lua e uma ave azul canta através do gelo cristalizado na ferida encarnada de uma bala, encostada aos ângulos mortos.
II
As árvores haviam crescido há muito. A ave azul era um rapaz. Uma estrela caiu para o seu cabelo. Ela prende-a no dedo e depois sopra como se sopra um beijo. O pirilampo esvoaça, apaga-se, e a ave azul partiu. Fita o horizonte e não existe ninguém. O topo das árvores ainda dança com os astros. O céu fica a deslizar para sempre, a noite a cair, os rios a morrer.
André Consciência
domingo, 10 de agosto de 2014
Limpeza total ao crânio
Vi-lhe o brilho, o tom do Sol
A espalhar-se sobre as cúpulas
As rosas, e as raparigas a correr
A nosso encontro, e o gemido da alma
Ecoou brevemente na beleza silenciosa
Sentada no trono uma figura pequena
Completamente descoberta
Era o símbolo vivo do amor:
Envolta em correntes
A mulher estava ferida
Ainda húmida
O rápido fumegar da ira amorosa
Nos olhos azul pálidos
A marcar-nos com os espíritos
Nós, fendidos nos pés
Pela sua chaga, corríamos mais rápido
Que os antílopes. Eu tinha uma pistola
Na mão direita, e apontei-ma.
André Consciência
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Ao erguer um pouco o seu archote
O peixe senta-se no cadeirão
E o amor cambaleia ébrio
O caminho longo do rio
Beija as pedras.
Despejo o conteúdo do meu caldeirão
E ouve-se um berro no meio da ventania:
Contra os meus quadris
Recua o teu pé esquerdo.
André Consciência
A Lança
Sento-me, no colchão de palha,
À espera que alguém apareça,
O cabelo uma massa sibilante
A fera lamuria-se e principia
Um feitiço, enquanto num letreiro lê-se
«Sente o calor do sangue na tua porta»
André Consciência
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Uma Imagem Granulada

fotógrafa: Soraya Moon
Sobre o tórrido amarelo das casinhas e vielas debaixo
Do miradouro planando a Capital, uma criança de calcanhares
Em fogo atravessava os ossos pelo laminal frio do vento
No Verão.
De resto, eu apreciaria escrever
Sobre alguém morto, e que não tivesse de responder por nada
E a pequena está morta
Mas quando a noite se puser
Na hora do amanhecer, pela décima terceira vez,
Há-de o homem-pássaro dar-lhe uma bolacha e eu
Serei sempre partido ao meio e mastigado, com tudo por
Responder.
André Consciência
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Cetim
O Palácio
do dia exalava a fragrância
De bonitas
jovens que sonhavam ser cortesãs
E nele um
homem de pele enegrecida rugia
O pôr-do-Sol
em meia centena de línguas.
André Consciência
domingo, 8 de junho de 2014
Músculo
Tu escrevias como quem tece
O feitiço das verdades que nunca
Cumpriu para as poder salvar
E dizias o tempo ganhava um corpo
Na espera e que a tortura dos alicerces
Em roda quando silenciados
Aproximavam os nossos vultos como
Feridas que se apegam às encostas
A "nascida do mar" tentava acalmar os animais
Nunca nascia, eu pensava que tinha
Fogo de artifício nas gavetas empoeiradas
Dos seus livros.
Eu cavalgava mas tu jogavas de ter um castelo
De cavalos para dormir.
O meu à deriva num mar
De vidro
Não caia qualquer chuva
As mãos de fogo lutavam com as velas
Algo enorme esvoaçava por cima
Da minha cabeça.
André Consciência
O feitiço das verdades que nunca
Cumpriu para as poder salvar
E dizias o tempo ganhava um corpo
Na espera e que a tortura dos alicerces
Em roda quando silenciados
Aproximavam os nossos vultos como
Feridas que se apegam às encostas
A "nascida do mar" tentava acalmar os animais
Nunca nascia, eu pensava que tinha
Fogo de artifício nas gavetas empoeiradas
Dos seus livros.
Eu cavalgava mas tu jogavas de ter um castelo
De cavalos para dormir.
O meu à deriva num mar
De vidro
Não caia qualquer chuva
As mãos de fogo lutavam com as velas
Algo enorme esvoaçava por cima
Da minha cabeça.
André Consciência
sábado, 24 de maio de 2014
O Pássaro
Durante e em expressão de um improviso das bailarinas Mary Nemain e Soraya Moon
Uma corrente de grinaldas
Atada à volta do tornozelo
Um trago de limão
Pelos dias e noites de Verão
Trilhos de serpente que fendem
O corpo em passo de dança
Fogueiras entornadas dos precipícios
Da manhã, o copo a cair
Para o movimento, o espírito
Deslumbrando-se de deslumbramento
Depois, a serenidade transparente
Dos dias se moverem em mim
Com a partilhada vontade dos astros
Os vulcões a apertarem-se no espaço
Entre a vida e a vida
A sensualidade a lavar o peso de ser peso
E a vida a rir-se por vida ser
E a morte, para longe entardecer
O meu corpo estilhaçado
A dançar por todo o lado
Porque a alma prende o fogo
E o vulto em desaforo
Alumia-se ao vulto e sem decoro
Cria a coroa de grinaldas
O tornozelo entre as almas
André Consciência
Uma corrente de grinaldas
Atada à volta do tornozelo
Um trago de limão
Pelos dias e noites de Verão
Trilhos de serpente que fendem
O corpo em passo de dança
Fogueiras entornadas dos precipícios
Da manhã, o copo a cair
Para o movimento, o espírito
Deslumbrando-se de deslumbramento
Depois, a serenidade transparente
Dos dias se moverem em mim
Com a partilhada vontade dos astros
Os vulcões a apertarem-se no espaço
Entre a vida e a vida
A sensualidade a lavar o peso de ser peso
E a vida a rir-se por vida ser
E a morte, para longe entardecer
O meu corpo estilhaçado
A dançar por todo o lado
Porque a alma prende o fogo
E o vulto em desaforo
Alumia-se ao vulto e sem decoro
Cria a coroa de grinaldas
O tornozelo entre as almas
André Consciência
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Reflexos
Lá em baixo
só haviam sonhos
Beijos, e
velas de junco
E camas
feitas por cantores
Depois, a
escuridão,
O rio arder
um pouco mais brilhante
A canção
dos archotes tornar-se mais
Sonora, a
olhar para um rapaz
Com as asas
incrustadas de gelo
A pele
arrancada de metade da cabeça
Uma centena
de cogumelos a crescer-lhe
Lá em
baixo, peixes cegos e brancos
No ventre,
intemporal, vasto
Silencioso
como a Terra Oca
Ou o Mar Sem
Sol, a ouvir o que
Nenhum
homem, os olhos divididos
A dourarem,
a cantar para si próprio
Puro como o
ar de Inverno,
Como a
última brasa de uma
Fogueira
morta, senhor do reino incendiado
Herdeiro de
ruínas, a luz a crescer
Fina e
aguçada como a lâmina de uma
Faca, as
estrelas a tornarem-se estranhas
Como
círculos de ferro, os dias destronados
Pelo Sol, os
anos soterrados no solo
Os séculos
desfeitos em água negra
Que banha
muito grávida e nua a mulher
De cabelo de
nevão.
André Consciência
segunda-feira, 19 de maio de 2014
RAMMSTEIN; Wilder Wein (1998)
V. M.
Vinho Selvagem
Apresento-me
perante o teu castelo
E anunciam o regresso
apenas ao rei
Deus esteja comigo
e abra os teus portões
molhados e mornos
lentamente
perante o teu regaço
foi escrito
Profundo na água
"não atravesses"
Mas o meu desejo
troça das asas
como um pombo
febril e húmido
Diante a escuridão
transformado pela luz
escondido
indefensável
eu aguardo por ti
no fundo da noite
só uma uva
e amargo como neve
aguardo por ti
no fundo da noite.
tradução livre
por André Consciência
Vinho Selvagem
Apresento-me
perante o teu castelo
E anunciam o regresso
apenas ao rei
Deus esteja comigo
e abra os teus portões
molhados e mornos
lentamente
perante o teu regaço
foi escrito
Profundo na água
"não atravesses"
Mas o meu desejo
troça das asas
como um pombo
febril e húmido
Diante a escuridão
transformado pela luz
escondido
indefensável
eu aguardo por ti
no fundo da noite
só uma uva
e amargo como neve
aguardo por ti
no fundo da noite.
tradução livre
por André Consciência
domingo, 18 de maio de 2014
Saco de Estrelas
Ouvia-se as
raparigas a ladrar enquanto corriam para casa
O tamborilar
de pequenos calcanhares nus sobre lajes
Lá fora,
debaixo do frio céu outonal, os rapazes estavam a jorrar,
E o vento
varria as planícies onduladas.
André Consciência
André Consciência
sábado, 17 de maio de 2014
Coxas Fumegantes
As suas
lágrimas eram
Chamas, a
sua língua brasas
E cinza, e
as estrelas de manhã ainda pairavam
Suspensas
sob o bréu.
Entravas
pela janela
Na forma dos
flocos de neve
A flutuar no
vento
E o meu rubi
pulsava
E os lábios
transformavam-se em dentes.
André Consciência
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Branco Como O Osso Antigo
Só as
árvores, infindáveis árvores
A submergir
a torrente de folhas mortas
E castanhas, em verde vidência
O campo
ensopado por caules mortos
O trigo
apodrecido, depois um archote
A árvore a
entrar em erupção
Aos uivos,
as estrelas descerem os olhos
E vertendo
das hastes a arder
O veado
negro faz-se escoltar
Por crianças
despidas, os seus cabelos
Um milheiral
sobre a face
Da Lua.
André Consciência
terça-feira, 13 de maio de 2014
Corre no Sangue
Luz das
estrelas e espuma do mar vestiam-na
A donzela, tímida, estava amarrada
Harmonias de
prata estrondeavam no seu crânio
Como um cão,
eu roia-lhe as orelhas
E, de um
lado, cabelos tão vermelhos como o sangue
Caiam-lhe
até aos ombros em caracóis oleados.
Um leopardo
aos nossos pés,
De língua
negra,
Avermelhava-nos
com sombras escarlate.
André Consciência
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Pecado
Os homens gemiam sob uma lâmpada tremeluzente
Flores de
sangue haviam brotado nas feridas abertas
Como lábios
rechonchudos de uma mulher.
Á
superfície, um enxame de crianças coradas
Construia
neve. E uma mulher de sal
Com um
semblante queimado pelo vento
Presidia.
André Consciência
O Palácio do Amor
Tritões de
mármore iluminavam o caminho enquanto
O vento
vinha aos gritos e uma rapariga nua saltava
Em
cambalhota. Acima, a Lua cheia nadava no céu negro,
Ruborescendo homens de pedra enlouquecidos
Pela fome, e
eu procurava um Sol
No interior
da névoa.
André Consciência
quarta-feira, 7 de maio de 2014
A Filha dos Campos Dourados
Para lá da
água a escorrer-lhe entre os seios
Cintilantes
ao Sol
Cantavam
rouxinóis quebrados pelo vento.
A leste, a
escuridão juntava-se atrás
De uma ilha
rochosa.
André Consciência
Agora estavam a latejar
O fogo tem sempre fome
E com o
calor a cobrir-lhe a cara
Ela estava
em pé por cima de mim
Agarrada ao
meu archote
E a uma
tristeza que pensei talvez
Quebrar-me
no peito.
Sob um manto
de folhas
Os meus
olhos estranhos
Fendidos e
dourados
Reflectindo de volta a luz do meu archote
Reflectindo de volta a luz do meu archote
E um cabelo
de Outono
A cantar uma
canção de terra
Aos teus pés
Deixei crescer uma grossa
Raiz branca
a deslizar para dentro
E para fora,
o coração com medo
A raiz agora grossa como a perna
E a criança
que não era criança
Movia-se
depressa
Uma ponte
natural sobre o meu
Abismo
escancarado
A pele
branca excepto
A mancha
sangrenta que lhe verti
Até à
bochecha.
Agora, a
minha raiz penetrava
A carne da
sua coxa
E emergia do
seu ombro
Com rebentos
de folhas vermelhas
E brilhavas
uma lagoa de sangue
À luz do
meu archote.
André Consciência
Prata Martelada
Lágrimas
frias pingavam sobre eles a cada passo
Mergulhados na sua própria lagoa de silêncio
E fogo, a
soltar baforadas no frio
Se a manhã
viesse seriam crianças
A dormir no
jardim com cem borboletas no dorso
A subir uma
árvore, a apanhar peixes
Nas mãos,
sem que a Casa houvesse deles caído
Pintando em
tons de marfim e prata
Mil telhados
abaixo dela, enluarando fossos
E pirâmides
e eu sozinho,
Os meus
dragões a rugir na escuridão,
O vento nas
árvores de fruto e a palidez
Da mariposa
do jardim, as estrelas a tapar
A Grande
Porta.
André Consciência
Etiquetas:
Casa de Gelo,
Saúda os Senhores no Trono
terça-feira, 6 de maio de 2014
O fogo no fosso
O coração flamejante em vermelho aguarda
Molhado e a
pingar, que uma mão em branco se lhe enterre
Na pele onde
se abre uma goteira e nenhum archote
Está aceso.
Mas quando o
cometa vermelho furar
Os
unicórnios comerão a Palavra,
Na noite, sorverei da alvorada o pão
Da terra, então terei erguido o capuz para ensombrar
O rosto,
esvoaçarei no interior do meu crânio
Como uma
traça apunhalada na chama de uma vela
E uma folha
incendiada, o corpo imóvel
Esculpido em
sal
Com a mão
branca a arder para manter afastado o frio.
André Consciência
segunda-feira, 5 de maio de 2014
O relâmpago dividiu o céu
Trotando para Leste sob um manto de estrelas
As jovens donzelas são nuas e belas.
Seguem serpenteando através de bosques
E vales, uma longa fita de prata
Pois durante algum tempo se maravilha
O mundo em cascata.
As mais ousadas deixam-se ficar
Ao Sol com lama pelos joelhos
Depois de beijadas vão a chorar
Criar um príncipe em todos os espelhos.
André Consciência
Os deuses negros e imóveis choraram
O fantasma dormiu aos pés da cama esta noite
Eu não sonhei com a aurora que afasta o vento
Senti algo frio e húmido na cara, ergui os olhos.
As peles cobriram-na,
Um seio içou-se por sobre uma égua.
André Consciência
sexta-feira, 2 de maio de 2014
A verdade é um momento do falso

Father, I'm Going to Kill You, Dominic McGill, 2005
O rio flutuante, o fugitivo antílope, a rugosa pedra no restolhar de folhas, a areia cinzenta do deserto que esconde o fogo cristalino, as cadeias inflamadas dos penhascos, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra. Tudo é absoluto. Eu não sei porque não o vi antes. Nas cidades, não o via. Nem mesmo quando sobrevoava no meu balão lento as enormes casas de banho de azulejos azuis, com estatuetas claras, várias, e conchas escuras em espiral, rodeadas de tribunais banhados a ouro onde dormem entre papel e tinta as sonolentas escribas. Não o via nas esquinas quadradas, não o via nas escribas serenas, nos edifícios, nem mesmo nas nuvens rosadas quando o Sol se punha. Será que a pedra é menos pedra quando a mulher a esculpe com os seus dedos? Se por um momento, neste roteiro, me despisse de toda a tecnologia, seria diferente desse verme marinho que o cachalote rói sem consciência? Não cairia por terra, para me arrastar, apanhada por toda a gravidade em simultâneo? Nos limites dos ramos, o gelo amarra-se. Uma janela voltada para o lago, e a brisa da Lua há de me visitar. É de noite, é de dia, e na cidade nunca é de noite, nunca é de dia. Faço desenhos quando o silêncio chega ao fundo, desenhos geométricos, dou-lhes nomes bárbaros, e grito-os com voz de menina, como se gritasse as árvores de estrondoso tamanho.
Uma janela voltará para o lago. As roupas dei-as ao fogo, cubro-me do calor e do frio. O meu corpo canta dentro dos leões marinhos, e esse é um horror que ninguém conhece na cidade. Mas é assim com todas as criaturas, não há outra razão para desenvolverem novas formas e se adaptarem ao meio ambiente, o corpo não acaba no corpo. Esse horror não se conhece na cidade, na cidade, o corpo acaba no primeiro limite: a mente, e não chega a existir.
Dou por mim a perguntar-me se penso mais com os pés nus do que com a cabeça, pois pisando o granulado conheço o texugo no subterrâneo, e a sua filosofia é simples e sábia: nenhuma. A minha filosofia não é tão simples, e nunca tão sábia: procurar o Senhor Lagarto, que virá a criar pela primeira vez as cidades feitas de lavatórios e tribunais, os balcões, a tecnologia, a terra gasta e moída, a álgebra, os oceanos, as trepadeiras, os leões africanos, a surda solidão após a tempestade, os ilimites, os seios parecidos com os calcanhares, os caminhos em linha e os sem traço, as coisas, e as minhas mãos, e procurar este Senhor Lagarto somente nas minhas mãos, feitas de desgaste e força, passado e passado.
O rio flutuante, o fugitivo antílope, a rugosa pedra no restolhar de folhas, a areia cinzenta do deserto que esconde o fogo cristalino, as cadeias inflamadas dos penhascos, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra, sem nenhuma palavra. Tudo é absoluto. Eu não sei porque não o vi antes. Nas cidades, não o via. Nem mesmo quando sobrevoava no meu balão lento as enormes casas de banho de azulejos azuis, com estatuetas claras, várias, e conchas escuras em espiral, rodeadas de tribunais banhados a ouro onde dormem entre papel e tinta as sonolentas escribas. Não o via nas esquinas quadradas, não o via nas escribas serenas, nos edifícios, nem mesmo nas nuvens rosadas quando o Sol se punha. Será que a pedra é menos pedra quando a mulher a esculpe com os seus dedos? Se por um momento, neste roteiro, me despisse de toda a tecnologia, seria diferente desse verme marinho que o cachalote rói sem consciência? Não cairia por terra, para me arrastar, apanhada por toda a gravidade em simultâneo? Nos limites dos ramos, o gelo amarra-se. Uma janela voltada para o lago, e a brisa da Lua há de me visitar. É de noite, é de dia, e na cidade nunca é de noite, nunca é de dia. Faço desenhos quando o silêncio chega ao fundo, desenhos geométricos, dou-lhes nomes bárbaros, e grito-os com voz de menina, como se gritasse as árvores de estrondoso tamanho.
Uma janela voltará para o lago. As roupas dei-as ao fogo, cubro-me do calor e do frio. O meu corpo canta dentro dos leões marinhos, e esse é um horror que ninguém conhece na cidade. Mas é assim com todas as criaturas, não há outra razão para desenvolverem novas formas e se adaptarem ao meio ambiente, o corpo não acaba no corpo. Esse horror não se conhece na cidade, na cidade, o corpo acaba no primeiro limite: a mente, e não chega a existir.
Dou por mim a perguntar-me se penso mais com os pés nus do que com a cabeça, pois pisando o granulado conheço o texugo no subterrâneo, e a sua filosofia é simples e sábia: nenhuma. A minha filosofia não é tão simples, e nunca tão sábia: procurar o Senhor Lagarto, que virá a criar pela primeira vez as cidades feitas de lavatórios e tribunais, os balcões, a tecnologia, a terra gasta e moída, a álgebra, os oceanos, as trepadeiras, os leões africanos, a surda solidão após a tempestade, os ilimites, os seios parecidos com os calcanhares, os caminhos em linha e os sem traço, as coisas, e as minhas mãos, e procurar este Senhor Lagarto somente nas minhas mãos, feitas de desgaste e força, passado e passado.
Babalith
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Poesia Insustentável Auto-Sustentável
Sonho no terraço fora, o intermitente placar
Da Coca-Cola, faz nascer bagos de gás,
E se vislumbra o ruído dos aviões
Sem piloto, riscarem os sofás.
Um caminho frágil agarra a harpa
As linhas do metro agitam-se,
Genuínas e inalteráveis em mutuo amor,
A água deserta, a grande paz interior
Nada dorme, e o mundo
Suspenso, sem folhas ou silêncio.
A poesia toma o sabor dos ritmos
E cresce colossal nos insustentáveis mecanismos.
Nos prédios, as luzes não se apagam,
As luzes piscam sobre a sombra invernalE se vislumbra o ruído dos aviões
Sem piloto, riscarem os sofás.
Um caminho frágil agarra a harpa
As linhas do metro agitam-se,
Genuínas e inalteráveis em mutuo amor,
A água deserta, a grande paz interior
Nada dorme, e o mundo
Suspenso, sem folhas ou silêncio.
A poesia toma o sabor dos ritmos
E cresce colossal nos insustentáveis mecanismos.
Nos prédios, as luzes não se apagam,
A cidade em extensão perpétua
Cobre de cinzento o Sol matinal, mais digo:
Quando o mundo acabou, estávamos,
Imagino pelo pisca-pisca vespertino,
Perto do Natal! As lixeiras confundem-se
Com a minha presença de volta nos trituradores
Ruidosos. E danço danço danço a passos
Luminosos, sob a pista dos nossos,
Ossos em lata.
Ah, que havia uma engrenagem, lá perto
Da estação fantasma, onde se ouvia um tal de Dante
Cantar coisas de miragem. Quando tenho febre,
Sei que tremo como as fábricas.
Há alarmes e carros, e toda eu tenho nisso
Veias e maquinismos que são todos
A linguagem.
Na aparelhagem ouvi uma canção
Que era de um século qualquer
E lá se dizia, que o coração
Tinha a forma de mulher.
Os olhos são as lanternas,
Os holofotes em cisternas
As cabeças rapadas dos postes de contenção
Não passam pessoas, vejo só
O seu clarão.
André Consciência
Cobre de cinzento o Sol matinal, mais digo:
Quando o mundo acabou, estávamos,
Imagino pelo pisca-pisca vespertino,
Perto do Natal! As lixeiras confundem-se
Com a minha presença de volta nos trituradores
Ruidosos. E danço danço danço a passos
Luminosos, sob a pista dos nossos,
Ossos em lata.
Ah, que havia uma engrenagem, lá perto
Da estação fantasma, onde se ouvia um tal de Dante
Cantar coisas de miragem. Quando tenho febre,
Sei que tremo como as fábricas.
Há alarmes e carros, e toda eu tenho nisso
Veias e maquinismos que são todos
A linguagem.
Na aparelhagem ouvi uma canção
Que era de um século qualquer
E lá se dizia, que o coração
Tinha a forma de mulher.
Os olhos são as lanternas,
Os holofotes em cisternas
As cabeças rapadas dos postes de contenção
Não passam pessoas, vejo só
O seu clarão.
André Consciência
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Eva
Sol da Meia Noite, Valter Bártolo, 2005
As tonalidades negras começavam a tingir o manto celeste, e o erguer da noite anunciava-se com uma canção azulada – como o não-ser de Novalis é azulado:
Com a noite caiam os homens altos, de longos casacos, solitários e petrificados pelo hálito do gelo, os peitos a arder. Sentavam-se sobre secretárias de madeira velha e molhavam as penas, aberto o corpo, os olhos iniciavam o processo da chuva e os papiros tornavam-se livros. Órfãos, todos eles, desenhavam o rasto da Mãe.
André Consciência
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Casa de Morcegos,
Saúda os Senhores no Trono
O Poeta Pintado

Retirantes, Cândido Portinari, 1944
Não sei dizer a solidão
Que atravessa a brandura
Das estátuas imóveis.
Enroscas-te nos precipícios
Do calor longínquo
Para imaginar as clareiras
Da lembrança
Leitor, no teu amor
Suspira
E lembra-te que estes dedos
São cinza.
André Consciência
A Virgem Gótica
Senza Titolo, Saturno Buttò, 1994
Afunda-se em todos
Os miradouros
A tocadora de alaúde.
O ventre
Saliente, ligeiramente,
E os seios
Empinados
Miram céus
Inacabados.
O vulto
De carne e sensação
Entrega-se
Com força
Às investidas
Da roda chamejante.
André Consciência
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Olhar Elísio

Olhar Elísio, Mia d'Lavernne
A fome pisa este chão de fogo,
E ergue-se, com garras de aço
A luminosidade incorpórea
Da esperança.
Se sonhou ao contrário
O menino cuja extremidade da morte
Iniciava o conforto da vida;
Se inscreveu sinais de angústia
Nas paredes mitológicas
Do medo dos fartos;
Guardou, para sempre,
O tesouro da manhã
Dentro da bruma em brasa
Da noite incandescente
Do olhar inviolável
Ofertado por mãos
Da sobrevivência que
Ao homem, ofereceu veemência.
Não chega dizer
A opressão que nunca o prostrou
O ruído dos homens que nunca
Nele falou.
De asas bravias se recebe
No solo olvidado
Da rua,
Elevado, mudo,
Desperto e parado.
Fita o mundo lavrado
E aguarda a idade,
Que a idade possui
Para que se decifre
A impoluta essência
No abandono do seu rosto.
André Consciência
domingo, 27 de abril de 2014
Apenas para anjos
Escorrem cinzas na estalagem do tempo,
deslizam espelhos desinteressadamente,
silenciosamente, e na sua sabedoria
caímos, como mancha vítrea
quebrada ao embate claro.
Sei o incêndio. Sei a pilhagem dos anjos,
os meus despojos na neve e ninguém
me segue.
A noite não é calcada, e sem se ferir,
lança a noite as estrelas para sacrifício,
os homens espalham-se e esfarelam-se.
Não existe nenhuma marca
que possas ver sobre mim,
mentiram-te, as escrituras,
a noite não pode ser marcada
nem medida, e é a noite que
rodeia a minha fronte.
André Consciência
sábado, 26 de abril de 2014
O contrário da estátua
The Sun is Also a Star, Awbarr, 2007
Ondula a figura de chifre e a seiva
Solta do estival augúrio
Derrama as alegrias simples
Dos carneiros descansados.
As crianças, despidas,
Miram a pedra
E esperam
A lamúria das águas.
André Consciência
Derrama as alegrias simples
Dos carneiros descansados.
As crianças, despidas,
Miram a pedra
E esperam
A lamúria das águas.
André Consciência
sexta-feira, 25 de abril de 2014
O Cântico da Folhagem

The Bard, Thomas Jones, 1769
Fulgura
O luciferário no pavio das épocas
Que esmorece o pó e o vento
E eu suspiro o renascimento
Pelo sacrifício litúrgico
do bardo.
E sei a velha raiz do seu sangue
De morte persistente, na morte
Que aos corpos nossos anima
Persistir.
Torna-se
As crianças de braços verdejantes,
As nucas de cabelo solto,
As mulheres garridas
O encarnado das flores silvestres.
Toca-me
No trovão, nas vísceras,
No voo cantarolado das aves,
No ondular espectral da chama,
Na queda dos corpos agonizantes
Na visão do poeta
Despejado a vasos sanguíneos
Aos lábios da ética.
Depois, já druida, sepulta-se,
Sobre cada pedra de cultivo,
E lamenta, metade-vivo,
a espessura da noite,
Os espíritos ribeirinhos
Dos riachos
Que se fazem sensoriais fachos
E no mel e no hidromel
No azeite no sangue e no leite
No afecto aquático pelo vinho
E nas marés pelo sabor entorpecidas,
Nos promontórios e nos montes
Nas éguas belas e velozes
Que a ventania tempestiva
Fecunda,
O bramido afunda.
E rebenta o térreo
Salgueiro que a sombra
Hibernou, e devaneou
O Infernal Senhor do Céu
Que fez as águas termais morar,
Arremessou a fonte à moeda
da promessa ateada,
E a fertilidade solar
Acendeu refulgente
Do ardor familiar.
André Consciência
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Casa de Fogo,
Saúda os Senhores no Trono
Noites de Verão
Cyberpunk Generation, Golpe de Estado, 1993
O assédio da tv funérea na cantina,
Assassinando a cada olhar o vigor da juventude,
O enfado de estar vivo, o fado e o alaúde.
A fanfarra – festejo lúgubre, o latido dos cães,
Nem noite, nem dia e o silêncio submerge
No vale.
André Consciência
O assédio da tv funérea na cantina,
Assassinando a cada olhar o vigor da juventude,
O enfado de estar vivo, o fado e o alaúde.
A fanfarra – festejo lúgubre, o latido dos cães,
Nem noite, nem dia e o silêncio submerge
No vale.
André Consciência
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Dedos Que Cantam
.
O futuro abre o olhar e cria para trás. Molhamo-nos. Sentir que nunca mais partiremos, e que nem a terra nem a lua são um lugar de verdade. Que o tempo não é uma passagem.
Depois, a tristeza das coisas que foram alegremente fundas e se esquecerão para sempre de deixar de ser. Iluminas-me no meu canto escuro, porque a noite chegou e o rio é a espessura da isolação que corre. Iluminas-me. O meu singelo cantar. A minha voz cheia de ti.
A menina de olhos verdes abre as pálpebras que tremem ao Sol. Ergue-se do verde como quem saltita, e segue o rio. O menino de olhos verdes é um pássaro que segue contra o rio, e rodopiam numa outra corrente que sobe, que desce e que sobe. A menina fecha os olhos e toca o sol com as pálpebras, porque param. Segue contra o rio e ele segue a favor do rio e rodopiam e o rio é um furacão fresco de alegria. Sentam-se palpitantes e desenham histórias com os dedos no ar, expressivos e dançantes. O verde namorisca o vento que salpica a água. Erguem-se de um salto e chove, não se tocam, senão com a alegria radiante dos corpos distantes. Fecham os olhos e abrem os olhos e o menino é passaro, é homem e ela dança e dança e a floresta ri-se com o rio.
Contra remoinhos e a fúria dos elementos navegam os cavalos sobre a terra de serpentes e feras, a brisa nos cabelos e o sorriso como uma fenda clara de céu.
Prescrutam as maravilhas do verde e do amarelo que borbulham no ar, com olhos laranja de fogo. Todas as serpentes de cabeça comida. O riso triunfal dos bárbaros na sapiência dos edificios de mármore onde os homens se reúnem para ler as colunas antigas.
O mundo cai e cai numa espiral, elas cavalgam a queda e voam, os cabelos contra a corrupção do tempo. Os estandartes orgulhosos erguidos contra as montanhas negras. O clarão do homem que se ergue ao Pôr do Sol como um Sol Nascente. As estrelas na ponta dos dedos que queimam e cintilam de riso e vitória, e as mulheres cospem as chamas e molham os campos.
Anrdé Consciência
Depois, a tristeza das coisas que foram alegremente fundas e se esquecerão para sempre de deixar de ser. Iluminas-me no meu canto escuro, porque a noite chegou e o rio é a espessura da isolação que corre. Iluminas-me. O meu singelo cantar. A minha voz cheia de ti.
A menina de olhos verdes abre as pálpebras que tremem ao Sol. Ergue-se do verde como quem saltita, e segue o rio. O menino de olhos verdes é um pássaro que segue contra o rio, e rodopiam numa outra corrente que sobe, que desce e que sobe. A menina fecha os olhos e toca o sol com as pálpebras, porque param. Segue contra o rio e ele segue a favor do rio e rodopiam e o rio é um furacão fresco de alegria. Sentam-se palpitantes e desenham histórias com os dedos no ar, expressivos e dançantes. O verde namorisca o vento que salpica a água. Erguem-se de um salto e chove, não se tocam, senão com a alegria radiante dos corpos distantes. Fecham os olhos e abrem os olhos e o menino é passaro, é homem e ela dança e dança e a floresta ri-se com o rio.
Contra remoinhos e a fúria dos elementos navegam os cavalos sobre a terra de serpentes e feras, a brisa nos cabelos e o sorriso como uma fenda clara de céu.
Prescrutam as maravilhas do verde e do amarelo que borbulham no ar, com olhos laranja de fogo. Todas as serpentes de cabeça comida. O riso triunfal dos bárbaros na sapiência dos edificios de mármore onde os homens se reúnem para ler as colunas antigas.
O mundo cai e cai numa espiral, elas cavalgam a queda e voam, os cabelos contra a corrupção do tempo. Os estandartes orgulhosos erguidos contra as montanhas negras. O clarão do homem que se ergue ao Pôr do Sol como um Sol Nascente. As estrelas na ponta dos dedos que queimam e cintilam de riso e vitória, e as mulheres cospem as chamas e molham os campos.
Anrdé Consciência
terça-feira, 22 de abril de 2014
Faces Estendidas

Portrait of Marguerite, Countess of Blessington, Thomas Lawrence, 1819
Está escuro, e passos tardos de mulheres cálidas.
Amanheceu, e as estrelas secas sobre os semblantes
Estendidos da luz, sentaram-se, por cima do manto
De orvalho.
A porta de vidro baço
Transporta-te à luz de um néon.
A tua ausência é carne, de noite,
A morte tece trepadeiras
E encima os manequins
No jardim, na laje prata
Colorida de fogo negro.
A guitarra geme nas sombras
Enquanto pulsas, e eu não beijarei
O teu ombro.
O teu ligeiro pescoço, quebrado
O balido das cabras na erva
Silenciosa, límpida, e o ferimento
Espalha-se, no meu dorso.
Com a tua formusura
A perda exalta-se,
Acendendo vindimas
De água primordial
Os precipícios bebem a tua
Estranheza, no lombo
Da colina.
Esta mulher não começa, enquanto
O tempo acaba nunca,
Jorrarei dias, os meus dedos
E os pássaros calam-se.
Nela se congelam
As cidades de seios brancos
Os chapéus de sol.
... Está quente, e ser-se erva,
Parece-se muito
Com o arco do teu ombro
Beijado.
André Consciência
Vesta ao espelho

Satã Observando o Amor de Adão e Eva, William Blake
Nas mãos feridas que aguam o Mundo, vivem templos de bárbara
glória,
Intempérie que se precipita, gentilmente, nos riachos das clareiras
estivais,
E escala, intrepidamente, a paz esverdeada do corpo do sono e
depois,
O rubor do leitoso e último Pôr-do-Sol: a angústia do Verão
A nascer morto com lírios de fogo.
Aí, o céu ejacula carne lúcida nas fendas dos ventos
Para esculpir o teu corpo de serpente largada
Com a realeza de quem ri a dormir, e segreda
Que o Outono vale nada, que as cores ao cair
Se apagam de Inverno.
A neve rodopia e descendem crianças loiras, para correr contigo
Em campos de milho e de trigo, todas as folhas
Caídas, e as estrelas paralisam o céu:
Corvo na cruz negra das palavras, nas linhas de cevada,
Nos espantalhos molhados, e aquieta-se, branca, a pedra trémula.
André Consciência
segunda-feira, 21 de abril de 2014
O Sacrifício de Mitra

Mitra e o Touro, do mithraeum em Marino, séc. III
O touro fita as pastagens e cresce, perante a sua atenção, o verde,
O negro rasga-se, e a morte suspende-se.
Sabendo-o, as nuvens atropelam-se em galope, sedentas de terra
E miríades de gotas se precipitam contra o efémero,
Tudo se torna sombra móvel d’aquele que luze,
A tarde cura a manhã, a manhã cura a noite, e redime
A noite a tarde, na precipitação renovada da terra, da planta,
Da água dos poderes.
O horizonte rouba o corpo desse touro, como Tarquínio e Lucrécia
E dos seus grilhões levanta os mares, os rios aéreos, o veloz cavalo
Do Sol cujos cascos pisam o Reino e doam calor, as nascentes
Muitas, que, ricas em leite, alimentam as crianças; levanta a Lua,
Que guarda do ardor cândido a semente do touro, e as
Estrelas que no corpo da besta plantaram as águas.
A dor afasta-se, a febre adormece, o mal evapora-se, a infecção,
E a carcaça do touro decompõe-se.
André Consciência
O Zelator & O Sol
O Grito, Edvard Munch, 1893
Contemplei a vida nas mulheres, nas estatuetas de bronze, nos quadros negros e vermelhos. Saboreei a história dos livros e a teoria dos que se calaram para sempre nas suas páginas. Mas as mulheres caíram, como muralhas, a estátua qual granizo, e cai o negro vermelho como o negro branco da neve, a história desfaz-se um pincel contra a pele. Não vejo nada. O teu Rosto é uma permutação.
André Consciência
André Consciência
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Casa de Treva,
Saúda os Senhores no Trono
sábado, 19 de abril de 2014
O Fim da Terra
Huuvola, Peter Murphy, 1995
Derrotado, nas areias húmidas soprado,
O corpo do astro frio, branco como espelho
Incendeia as praias, um farol náufrago
Por qual montes sangram prados.
Dezembro inóspito, quando as cinzas
Desatadas dos nossos tornozelos
Conheceram os dilúvios estrangeiros
De um povo almiscarado.
A barcaça outonal, construída a folhas soltas
É comida pelas rosas que no oceano
Ardem.
A idade foge-lhes dos pulsos,
Pálida imagem que existe
No côncavo da vaga.
André Consciência
O corpo do astro frio, branco como espelho
Incendeia as praias, um farol náufrago
Por qual montes sangram prados.
Dezembro inóspito, quando as cinzas
Desatadas dos nossos tornozelos
Conheceram os dilúvios estrangeiros
De um povo almiscarado.
A barcaça outonal, construída a folhas soltas
É comida pelas rosas que no oceano
Ardem.
A idade foge-lhes dos pulsos,
Pálida imagem que existe
No côncavo da vaga.
André Consciência
sexta-feira, 18 de abril de 2014
O Mar

Water Nymphs - Hans Zatzka
As memórias que oferta
A voz infante de poetisa
No canto a vaga certa
E acerta, na saudade –
Melancólica Artemisa.
Da bruma nas profundezas
As vozes e harpas
Que fazes soar
Parecem-se ao bramido
Furor da terra por mar.
E se me sento na sombra
Fresca e contemplo a Lua
Lesta, lembro-me dos cânticos
Que surgiam nesse ribombar
Da errância contra o lar,
Em que abismos perfilavam
E de toda a pedra o coração amavam.
André Consciência
A voz infante de poetisa
No canto a vaga certa
E acerta, na saudade –
Melancólica Artemisa.
Da bruma nas profundezas
As vozes e harpas
Que fazes soar
Parecem-se ao bramido
Furor da terra por mar.
E se me sento na sombra
Fresca e contemplo a Lua
Lesta, lembro-me dos cânticos
Que surgiam nesse ribombar
Da errância contra o lar,
Em que abismos perfilavam
E de toda a pedra o coração amavam.
André Consciência
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Lua de Outono

Fingal Heads Dawn, David de Groot, s/d
O Tejo sorve o azul e mancha Lisboa de céus. O musgo atravessa a pedra dos castelos onde o Sol não o faz. O salgueiro é dotado de uma tamanhosa barba verde e exibe-a às planuras. As baías cavalgam as pétalas soltas das flores, acenando aos montes. O paraíso verte gotas para os vales e anéis para a Serra. A Terra acorda, estremece e as folhas caem. Ao longe chega o monge, em busca de sombras, imobiliza-se e contempla a Lua adormecer no rio. A música dos passos, o murmurinho do cais. A névoa fica muito quieta e observa o monge olvidar-se na sombra. As planícies gritam o silêncio das árvores. As filhas de Cariocecus no orvalho, pousam a correria e cessam os seus arcos de luar. Empalidecem e voltam o rosto, o rio esconde a beleza e o bosque a nudez. Película fina de treva salpicada por uma chuva de estrelas. O monge e o rio fitam-se como dois corpos de neblina, e fundem-se como dois espíritos na espuma. Uma onda de sonhos azuis mergulha as trepadeiras. Afunda-se o astro frio. A bruma da terra é mais escura, noiva do Tejo. Emudecidas, as rochas ocultam os nossos clamores. O fogo queima e a única luz é cinza. O monge solta um murmúrio com os senhores da tempestade, um leve riso nas câmaras do clarão. Embalado nos ventos, o rio paira sobre uma nuvem. O monge senta-se dependurado na penumbra, cego, emitindo luar.
Ara dos Anciãos
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Luva de Chuva
We Are the Strange, M. dot Strange, 2007
Não há lugar para mim, onde o azul me cerca
De dia pintado, de noite lembrado, e o azul
Me cega, no teu grito cantado, em dança
Roubado, ao Deus que o Inverno enterra.
E os meus dedos azuis (pétalas)
Caiem sobre todos os palpitantes amantes,
Que sorriem, distantes, num sonho de ti,
Em que dançava cego envolta do calor, e queimava-me,
Em peles estrangeiras a neve lembrar,
De como já o corpo foi alma. Dentro do meu peito,
Tudo canta, por não haver leito:
Eis que é espada de coveiro, pá de mago,
A voz que vê, no corvo ofuscado,
Chuva que cai, queda, e escuta
Desfeita, quieta, as aves soltas,
Memórias de terra.
André Consciência
De dia pintado, de noite lembrado, e o azul
Me cega, no teu grito cantado, em dança
Roubado, ao Deus que o Inverno enterra.
E os meus dedos azuis (pétalas)
Caiem sobre todos os palpitantes amantes,
Que sorriem, distantes, num sonho de ti,
Em que dançava cego envolta do calor, e queimava-me,
Em peles estrangeiras a neve lembrar,
De como já o corpo foi alma. Dentro do meu peito,
Tudo canta, por não haver leito:
Eis que é espada de coveiro, pá de mago,
A voz que vê, no corvo ofuscado,
Chuva que cai, queda, e escuta
Desfeita, quieta, as aves soltas,
Memórias de terra.
André Consciência
Descobrimentos Verticais
African Fashion Series, Hans Silvester, 2008
Ice Dance, Danny Elfman, 1990
A folhagem que é granizo encontra-se perdida
Nos vidros do telhado, e solta-se a ferida
Desse espelho contemplado – todos os dias
Que a Noite sonhou – esvoaçando
O meu desejo esmagado.
Nada cabe em nada, os flocos de neve
Doridos nos mamilos do Atlântico,
A sandália de Hermes perdida, no deserto
Titânico.
Tudo em tudo transborda,
É impossível a persistência, de um só
Minúsculo homem, no vendaval
Da beleza, licor animal; não
Eu, por minha vez, tornei-me pétala
Que desliza no desfiladeiro do vento
Para visitar os palácios nos casais
Que a forma, em pino dançada, não contém.
Na ausência dos teus lábios, juntou-se
Um exército de sábios, afogados, derramados,
Que nos ombros de elefantes procuram.
A savana uma superfície de geada, e a tua...
Majestosa liberdade recaiu sobre a nossa
Desesperada idade. O enregelado
Retomará a forma do sangue, os teus lábios
Conhecerão o meu manto informe.
Não serei homem,
Apenas canto,
E acordarei quem dorme.
André Consciência
Nos vidros do telhado, e solta-se a ferida
Desse espelho contemplado – todos os dias
Que a Noite sonhou – esvoaçando
O meu desejo esmagado.
Nada cabe em nada, os flocos de neve
Doridos nos mamilos do Atlântico,
A sandália de Hermes perdida, no deserto
Titânico.
Tudo em tudo transborda,
É impossível a persistência, de um só
Minúsculo homem, no vendaval
Da beleza, licor animal; não
Eu, por minha vez, tornei-me pétala
Que desliza no desfiladeiro do vento
Para visitar os palácios nos casais
Que a forma, em pino dançada, não contém.
Na ausência dos teus lábios, juntou-se
Um exército de sábios, afogados, derramados,
Que nos ombros de elefantes procuram.
A savana uma superfície de geada, e a tua...
Majestosa liberdade recaiu sobre a nossa
Desesperada idade. O enregelado
Retomará a forma do sangue, os teus lábios
Conhecerão o meu manto informe.
Não serei homem,
Apenas canto,
E acordarei quem dorme.
André Consciência
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Das Aves Azuis

O Aterro em 1881; No Cais do Tejo, Alfredo Keil
Chove, as paredes de água deslizam
Luminosidade sobre as cidades, com rostos
De mulheres cansadas, e homens
Embrutecendo o silêncio.
O silêncio principia com a fluidez
Dos momentos parados desta noite que não passa
E sobre a qual os dias são como nuvens
No céu estável que me lembra
Primeiro os fantasmas dos teus olhos
Depois a eternidade do peito ondulante
Nas noites em que principiava
Como um desponte que lá fora o mundo pinta.
As palavras de um poema, este, passam-nos
Ao lado, e assim o grilo, sem se reparar,
Faz parte da tranquilidade escurecida
Dos nossos campos inabitados, que as crianças
E os adultos que passeiam crianças
Pisam, numa manifestação de dedos, nossos,
Entrelaçados para além das cores que compõem
A canção colossal da civilização.
E deixa, os amores morrerem, os pensamentos
Envelhecerem.
Deixa, os temores correrem, os rancores
Esmorecerem.
Nada temos com este tédio
Nem o rio com a garça.
A luz e a sombra são tão duas demoras,
E as demoras são todas horas, nossas,
De assombro com que as olhamos se
Nos olhamos.
Luminosidade sobre as cidades, com rostos
De mulheres cansadas, e homens
Embrutecendo o silêncio.
O silêncio principia com a fluidez
Dos momentos parados desta noite que não passa
E sobre a qual os dias são como nuvens
No céu estável que me lembra
Primeiro os fantasmas dos teus olhos
Depois a eternidade do peito ondulante
Nas noites em que principiava
Como um desponte que lá fora o mundo pinta.
As palavras de um poema, este, passam-nos
Ao lado, e assim o grilo, sem se reparar,
Faz parte da tranquilidade escurecida
Dos nossos campos inabitados, que as crianças
E os adultos que passeiam crianças
Pisam, numa manifestação de dedos, nossos,
Entrelaçados para além das cores que compõem
A canção colossal da civilização.
E deixa, os amores morrerem, os pensamentos
Envelhecerem.
Deixa, os temores correrem, os rancores
Esmorecerem.
Nada temos com este tédio
Nem o rio com a garça.
A luz e a sombra são tão duas demoras,
E as demoras são todas horas, nossas,
De assombro com que as olhamos se
Nos olhamos.
André Consciência
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Plaia Hermosa

Rusalki - Konstantin Makovsky
A erva arde de noite, e o silêncio comove-se.
De mim até ao céu uma sombra invertida alonga-se.
O vazio sussurra as poesias da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Atlântico.
Escuta-se então na penumbra um clarão,
O sibilar constante das correntes
Com a pureza do negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu ergui-me, para encontrar as ninfas.
Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Pendendo a sua rede de sede e água salgada. Uma a uma,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos vivos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.
André Consciência
De mim até ao céu uma sombra invertida alonga-se.
O vazio sussurra as poesias da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Atlântico.
Escuta-se então na penumbra um clarão,
O sibilar constante das correntes
Com a pureza do negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu ergui-me, para encontrar as ninfas.
Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Pendendo a sua rede de sede e água salgada. Uma a uma,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos vivos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.
André Consciência
domingo, 6 de abril de 2014
Sobre O Vento

Saudade - Sara Conde
Desta vez, a simplicidade
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.
André Consciência
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.
André Consciência
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Traje de Romaria

Azulejo alusivo às lanchas e catraias, Póvoa do Varzim
O mar também não conhece a imobilidade, e por isso transmite perpétuamente esta benéfica quietude. Normalmente a minha mulher sabia as histórias, os conflitos e as amizades das vagas que, por me rodearem, rodeiam a doca. Normalmente durante a hora de almoço, a minha mulher, sentada numa cadeira de tábuas, ouvia o mar falar-lhe de raparigas. Das suas humildades, dos seus egoísmos, dos seus cepticismos, das suas coragens, das suas expansividades. Ela dava-lhes nomes como quem baptizava futuras filhas.
Aos domingos, parece ser noite de manhã, e por isso a noite demora mais a chegar. A ausência da minha esposa entrou na doca. É o princípio do dia de trabalho. Senta-se na sua cadeira que algum calafete que não eu improvisou com despojos de uma Lancha Poveira do Alto. A ausência da minha esposa pousa a cabeça entre as mãos e os meus movimentos tornam-se mais rápidos. Quase no fim do Verão, a jovem que ali passava fechava os olhos e era inocente. No fim do verão ela era sempre inocente, e vivia e estava completamente viva. O seu coração estava separado dela, por isso, o seu coração era uma doca que havia sempre e em todo o lugar. Mas era meio-dia de segunda-feira, em Outubro, ela não vestia na cabeça flores douradas nem no peito moedas, quando ele chegou da Galiza. Às vezes, no fim das manhãs o marujo esperado vinha e abanava o seu listrão de ouro. Era o sombreado de uma tarde de Outono e eles sorriam, analisavam os objectos que ele fazia regressar do além-mar.
A minha mulher deixou a casa desarrumada, não a limpou no começo desse dia nem na duração dos seguintes, e fugiu para nos casarmos. Saiu com uma única mala na mão, com o olhar cheio de esperança, acreditava que nunca mais me ia perder. Durámos essa noite abraçados, e o dia que antecedeu essa noite, e esquecemos-nos até de casar. Aconteceu no crepúsculo do dia seguinte. Eu habituara-me a presenciar o pó que Deus agarra às coisas, como sinal da sua mão sobrenatural, e o meu corpo ia-se tornando nesse aperto. Na primeira manhã, já ela, com a sua camisa de algodão branco oculta no pano de lã vermelho, lenço estampado na cabeça e chinelos de bico arrebitado, limpava as prateleiras em que ninguém tocava desde que a minha mãe morreu. As panelas voltaram a ter a cor das panelas. A madeira voltou a ser madeira. Os cantos das divisões ganharam claridade, a loiça brilhou. Lavou e cozeu a minha roupa. Raspou o chão e desapareceu com a humidade das paredes. A minha mão deixou de querer escrever sonetos. Os meus olhos de procurar os pergaminhos de mistérios antigos, o meu pensamento de se preocupar com o sentido (que é uma preocupação dos homens sem sentido), nos ditames filosóficos, que apenas são facas que afiamos em tempos de tormenta. Levei a toalha às mãos e as mãos levei-as ao rosto. Jantámos, e decidi ser calafate. Ela podia ver-me todos os dias a ser calafate. Ela podia estar comigo, se eu fosse calafate ou pintasse as siglas nos navios. A minha mulher despe um vestido azul e pensa vagamente na eternidade. Mesmo depois desse dia, o vestido continuará.
A forma de me ligar a esse outro além-mar é escrever uma sigla na minha roupa, as únicas iniciais que gostaria de ver em todas as embarcações, fosse eu nelas ou não, e que são as iniciais da minha falecida. Sou feliz assim.
André Consciência
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Deslizamento de terras

Hercules - Júlio Cezar Ramos Lobo
Os ermos soluçam silêncios íngremes,
Os bosques esqueceram o nome dos deuses,
Assim, os deuses despertaram (n)os bosques.
Nos campos, o Sol quieto, mais, até, nos campos que no céu.
Porque os campos estão quentes.
As filhas avançam, sentadas, nesses tronos
De calor. Impeço a minha imaginação de ser minha.
Pendem arcos com elas, temperados com flechas de Abril.
Do Oriente rios de negritude atingem
Como uma brisa refrescante, os cabelos das Noivas.
Os lobos confiam nas neblinas.
De dia. As noivas brandem lanças: ou seja, há pedras
E é só.
Ó Portugal, por que terras te escondes? Choves por todo o hemisfério.
Chove aqui e eu, como uma nuvem na colina, e um amante nos abraços
Da Eterna Juventude, desposaria
Os rostos azuis dos oceanos, e voltaria.
André Consciência
Os ermos soluçam silêncios íngremes,
Os bosques esqueceram o nome dos deuses,
Assim, os deuses despertaram (n)os bosques.
Nos campos, o Sol quieto, mais, até, nos campos que no céu.
Porque os campos estão quentes.
As filhas avançam, sentadas, nesses tronos
De calor. Impeço a minha imaginação de ser minha.
Pendem arcos com elas, temperados com flechas de Abril.
Do Oriente rios de negritude atingem
Como uma brisa refrescante, os cabelos das Noivas.
Os lobos confiam nas neblinas.
De dia. As noivas brandem lanças: ou seja, há pedras
E é só.
Ó Portugal, por que terras te escondes? Choves por todo o hemisfério.
Chove aqui e eu, como uma nuvem na colina, e um amante nos abraços
Da Eterna Juventude, desposaria
Os rostos azuis dos oceanos, e voltaria.
André Consciência
quarta-feira, 2 de abril de 2014
O Embondeiro Que Sonhava Pássaros

Detalhe de Elefante - Jeanne Marie
Os reis são adorados pelos povos, porque crêem que vieram do céu, e falam-lhes sempre com grande acatamento, à distância e de joelhos. Muitos destes reis, para maior cerimonial, nunca se deixam ver quando comem, para não modificarem a opinião que os povos deles têm, de que vivem sem tomar alimento. Adoram o Sol e crêem que as almas são imortais, e que depois da morte vão habitar junto ao Sol. No reino de Benim têm um costume mais antigo do que entre os outros, o qual tem sido observado até ao presente: quando morre o rei, todo o povo se junta num grande campo, no meio do qual abrem um poço muito fundo, ficando largo em baixo e vindo a apertar para a boca. Dentro deste poço deitam o corpo do rei morto, e apresentando-se todos os seus amigos e servidores, aqueles que se julga terem-lhe sido mais caros e favoritos (no que não há pequena contenda entre eles, desejando todos esta honra), voluntariamente descem a fazer-lhe companhia; e logo que estão em baixo, põe-se uma grande lage sobre a boca do poço, e o povo não sai dali, nem de dia nem de noite. No segundo dia vão alguns deputados descobrir a pedra, e perguntam aos de baixo se algum deles já foi servir o rei, e respondem-lhe que não. No terceiro dia fazem a mesma pergunta, e algumas vezes lhes respondem que fulano (dizendo-lhe o nome) foi o primeiro a partir, e fulano o segundo, porque é reputado coisa de grande louvor ter sido o primeiro. E de tudo isto, o povo que está à roda fica falando com suma admiração, considerando-o bem-aventurado e feliz. E ao fim de três ou quatro dias morrem todos aqueles desgraçados. Os que estão em cima, ao pressentirem isto, e vendo que ninguém lhes responde, informam imediatamente o rei sucessor, o qual manda fazer um grande fogo sobre o dito poço, onde assa muitos animais, que dá a comer ao povo. E com esta cerimónia entende ser verdadeiramente rei, e ter jurado governar bem.
Autor Desconhecido (Navegação de Lisboa à Ilha de São Tomé Escrita por um Piloto Português)
Crescer em leveza, eis ao que se propunha
O rei asceta, que sobre o reino compunha.
Da raça do céu, desceu em cidades papagaio
De papel, tocando a terra então tendas, flores
E mel.
E as pedras, pegadas de Lua,
Dos prédios cansados,
Faria rendilhados.
E os rios, descansos solares,
Do cal das paredes,
Transparentes nenúfares.
E a árvore, estrela em repouso,
Das casas empilhadas,
Folhas ceifadas.
E nem cresceu o reino para dentro,
Para ter de crescer para fora,
Cresceu em leveza, e será a Aurora.
André Consciência
Os reis são adorados pelos povos, porque crêem que vieram do céu, e falam-lhes sempre com grande acatamento, à distância e de joelhos. Muitos destes reis, para maior cerimonial, nunca se deixam ver quando comem, para não modificarem a opinião que os povos deles têm, de que vivem sem tomar alimento. Adoram o Sol e crêem que as almas são imortais, e que depois da morte vão habitar junto ao Sol. No reino de Benim têm um costume mais antigo do que entre os outros, o qual tem sido observado até ao presente: quando morre o rei, todo o povo se junta num grande campo, no meio do qual abrem um poço muito fundo, ficando largo em baixo e vindo a apertar para a boca. Dentro deste poço deitam o corpo do rei morto, e apresentando-se todos os seus amigos e servidores, aqueles que se julga terem-lhe sido mais caros e favoritos (no que não há pequena contenda entre eles, desejando todos esta honra), voluntariamente descem a fazer-lhe companhia; e logo que estão em baixo, põe-se uma grande lage sobre a boca do poço, e o povo não sai dali, nem de dia nem de noite. No segundo dia vão alguns deputados descobrir a pedra, e perguntam aos de baixo se algum deles já foi servir o rei, e respondem-lhe que não. No terceiro dia fazem a mesma pergunta, e algumas vezes lhes respondem que fulano (dizendo-lhe o nome) foi o primeiro a partir, e fulano o segundo, porque é reputado coisa de grande louvor ter sido o primeiro. E de tudo isto, o povo que está à roda fica falando com suma admiração, considerando-o bem-aventurado e feliz. E ao fim de três ou quatro dias morrem todos aqueles desgraçados. Os que estão em cima, ao pressentirem isto, e vendo que ninguém lhes responde, informam imediatamente o rei sucessor, o qual manda fazer um grande fogo sobre o dito poço, onde assa muitos animais, que dá a comer ao povo. E com esta cerimónia entende ser verdadeiramente rei, e ter jurado governar bem.
Autor Desconhecido (Navegação de Lisboa à Ilha de São Tomé Escrita por um Piloto Português)
Crescer em leveza, eis ao que se propunha
O rei asceta, que sobre o reino compunha.
Da raça do céu, desceu em cidades papagaio
De papel, tocando a terra então tendas, flores
E mel.
E as pedras, pegadas de Lua,
Dos prédios cansados,
Faria rendilhados.
E os rios, descansos solares,
Do cal das paredes,
Transparentes nenúfares.
E a árvore, estrela em repouso,
Das casas empilhadas,
Folhas ceifadas.
E nem cresceu o reino para dentro,
Para ter de crescer para fora,
Cresceu em leveza, e será a Aurora.
André Consciência
terça-feira, 1 de abril de 2014
Milagre das Rosas

Rainha Santa Isabel - Bezeguinho
Em pleno Janeiro, vi, a boa Rainha Isabel,
Dar a comer aos anjos, rosas de sangue.
E o peito
Abre olhos de Ouro.
E a dúvida
Ao amor, com a certeza adora.
Ao reinar namora, o lume delicado
Nas meninas juízes, os olhos
Que são flores aos molhos.
André Consciência
Dar a comer aos anjos, rosas de sangue.
E o peito
Abre olhos de Ouro.
E a dúvida
Ao amor, com a certeza adora.
Ao reinar namora, o lume delicado
Nas meninas juízes, os olhos
Que são flores aos molhos.
André Consciência
segunda-feira, 31 de março de 2014
Ossian Cego

Ossian IX - Calum Colvin
Estou nu, despido pelos deuses, e guardo o nome no bolso.
Com a pedra só, com o vazio verde. Com a cabeça cheia de musgo,
Conto todas as estrelas que se apagaram
No céu, as montanhas tornam-se quedas de água, e libertam-se
Musas que se haviam afogado.
Sob a pressão do néon negro, leio um jornal de páginas em branco
E as árvores não desistiram de furar o solo. É aqui que tu moras,
Com as tuas conchas sonoras? Com barcos de guerra que são memórias?
Com o deleite das canções sem som? Com o farol apagado que guia.
O céu limpo troveja sem eco e todo este tempo vos guardei
Uma grande esfera quadrada, mantas brancas que, estendidas
Ao vento, soam os chifres de reis que nunca nasceram, e que acordam,
Os antílopes que vivem dentro da rocha, os bosques em forma de flecha,
Os meus olhos vermelhos de cansaço, o fogo no ventre da minha gravidez
De ser uma lança qualquer que um herói pregou ao chão.
André Consciência
Materialização
O clarão da bandeira a existir estranhamente leve, um Sol que torna os homens pesados sob o calor. Depois calei-me, para que os marinheiros voltassem a fitar o mar. Mas já ninguém o via. Agora a embarcação prosseguia, as velas desfaziam-se, apáticas. Até os enigmas se fizeram sóbrios, toda a luz era escura e completa. Agora, os precipícios não tinham nada que enganar. Os predadores que comigo seguiam tornaram-se, ao meu silêncio, transparentes, suaves, entreabrindo os lábios em preguiçosa volúpia. O Sol nunca mais retornaria a pôr-se. Pensavam-me terra em pleno mar.
André Consciência
André Consciência
A Ti Que A Morte Levou

Levantavas da tua caixa favorita
Flores que eram flocos de neve
Chuvas matinais, de olhos velados.
Dizias-me, que os papagaios eram luz
As flores jorrarem das janelas abertas
Por teres partido, e no chão pousarem
Como um Sol enfraquecido.
De um fogo que é mulher, antiga
Do outro lado, o amor escondido,
Os sobreiros de mãos na cabeça
O choro que congela o frio
E abre as janelas.
André Consciência
Flores que eram flocos de neve
Chuvas matinais, de olhos velados.
Dizias-me, que os papagaios eram luz
As flores jorrarem das janelas abertas
Por teres partido, e no chão pousarem
Como um Sol enfraquecido.
De um fogo que é mulher, antiga
Do outro lado, o amor escondido,
Os sobreiros de mãos na cabeça
O choro que congela o frio
E abre as janelas.
André Consciência
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