quarta-feira, 30 de abril de 2014

Eva



Sol da Meia Noite, Valter Bártolo, 2005




As tonalidades negras começavam a tingir o manto celeste, e o erguer da noite anunciava-se com uma canção azulada – como o não-ser de Novalis é azulado:

Com a noite caiam os homens altos, de longos casacos, solitários e petrificados pelo hálito do gelo, os peitos a arder. Sentavam-se sobre secretárias de madeira velha e molhavam as penas, aberto o corpo, os olhos iniciavam o processo da chuva e os papiros tornavam-se livros. Órfãos, todos eles, desenhavam o rasto da Mãe. 

André Consciência

O Poeta Pintado


Retirantes, Cândido Portinari, 1944


Não sei dizer a solidão
Que atravessa a brandura
Das estátuas imóveis.

Enroscas-te nos precipícios
Do calor longínquo
Para imaginar as clareiras
Da lembrança

Leitor, no teu amor
Suspira
E lembra-te que estes dedos
São cinza.


André Consciência

A Virgem Gótica


Senza Titolo, Saturno Buttò, 1994


Afunda-se em todos
Os miradouros
A tocadora de alaúde.

O ventre
Saliente, ligeiramente,
E os seios
Empinados
Miram céus
Inacabados.

O vulto
De carne e sensação
Entrega-se
Com força
Às investidas
Da roda chamejante.


André Consciência

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Olhar Elísio



Olhar Elísio, Mia d'Lavernne


A fome pisa este chão de fogo,
E ergue-se, com garras de aço
A luminosidade incorpórea
Da esperança.

Se sonhou ao contrário
O menino cuja extremidade da morte
Iniciava o conforto da vida;
Se inscreveu sinais de angústia
Nas paredes mitológicas
Do medo dos fartos;

Guardou, para sempre,
O tesouro da manhã
Dentro da bruma em brasa
Da noite incandescente
Do olhar inviolável
Ofertado por mãos
Da sobrevivência que
Ao homem, ofereceu veemência.

Não chega dizer
A opressão que nunca o prostrou
O ruído dos homens que nunca
Nele falou.

De asas bravias se recebe
No solo olvidado
Da rua,
Elevado, mudo,
Desperto e parado.
Fita o mundo lavrado
E aguarda a idade,
Que a idade possui
Para que se decifre
A impoluta essência
No abandono do seu rosto.



André Consciência

domingo, 27 de abril de 2014

Apenas para anjos


For Angels Only, André Consciência 2009



Escorrem cinzas na estalagem do tempo,
deslizam espelhos desinteressadamente,
silenciosamente, e na sua sabedoria
caímos, como mancha vítrea
quebrada ao embate claro.

Sei o incêndio. Sei a pilhagem dos anjos,
os meus despojos na neve e ninguém
me segue.

A noite não é calcada, e sem se ferir,
lança a noite as estrelas para sacrifício,
os homens espalham-se e esfarelam-se.

Não existe nenhuma marca
que possas ver sobre mim,
mentiram-te, as escrituras,
a noite não pode ser marcada
nem medida, e é a noite que
rodeia a minha fronte.


André Consciência

sábado, 26 de abril de 2014

O contrário da estátua


The Sun is Also a Star, Awbarr, 2007



Ondula a figura de chifre e a seiva
Solta do estival augúrio
Derrama as alegrias simples
Dos carneiros descansados.

As crianças, despidas,
Miram a pedra
E esperam
A lamúria das águas.

André Consciência

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Cântico da Folhagem


The Bard, Thomas Jones, 1769


Fulgura
O luciferário no pavio das épocas
Que esmorece o pó e o vento
E eu suspiro o renascimento
Pelo sacrifício litúrgico
do bardo.
E sei a velha raiz do seu sangue
De morte persistente, na morte
Que aos corpos nossos anima
Persistir.

Torna-se
As crianças de braços verdejantes,
As nucas de cabelo solto,
As mulheres garridas
O encarnado das flores silvestres.

Toca-me
No trovão, nas vísceras,
No voo cantarolado das aves,
No ondular espectral da chama,
Na queda dos corpos agonizantes
Na visão do poeta
Despejado a vasos sanguíneos
Aos lábios da ética.

Depois, já druida, sepulta-se,
Sobre cada pedra de cultivo,
E lamenta, metade-vivo,
a espessura da noite,
Os espíritos ribeirinhos
Dos riachos
Que se fazem sensoriais fachos
E no mel e no hidromel
No azeite no sangue e no leite
No afecto aquático pelo vinho
E nas marés pelo sabor entorpecidas,
Nos promontórios e nos montes
Nas éguas belas e velozes
Que a ventania tempestiva
Fecunda,
O bramido afunda.

E rebenta o térreo
Salgueiro que a sombra
Hibernou, e devaneou
O Infernal Senhor do Céu
Que fez as águas termais morar,
Arremessou a fonte à moeda
da promessa ateada,
E a fertilidade solar
Acendeu refulgente
Do ardor familiar.


André Consciência

Noites de Verão

Cyberpunk Generation, Golpe de Estado, 1993


O assédio da tv funérea na cantina,
Assassinando a cada olhar o vigor da juventude,
O enfado de estar vivo, o fado e o alaúde.

A fanfarra – festejo lúgubre, o latido dos cães,
Nem noite, nem dia e o silêncio submerge
No vale.


André Consciência

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dedos Que Cantam


.
O futuro abre o olhar e cria para trás. Molhamo-nos. Sentir que nunca mais partiremos, e que nem a terra nem a lua são um lugar de verdade. Que o tempo não é uma passagem.
Depois, a tristeza das coisas que foram alegremente fundas e se esquecerão para sempre de deixar de ser. Iluminas-me no meu canto escuro, porque a noite chegou e o rio é a espessura da isolação que corre. Iluminas-me. O meu singelo cantar. A minha voz cheia de ti.

A menina de olhos verdes abre as pálpebras que tremem ao Sol. Ergue-se do verde como quem saltita, e segue o rio. O menino de olhos verdes é um pássaro que segue contra o rio, e rodopiam numa outra corrente que sobe, que desce e que sobe. A menina fecha os olhos e toca o sol com as pálpebras, porque param. Segue contra o rio e ele segue a favor do rio e rodopiam e o rio é um furacão fresco de alegria. Sentam-se palpitantes e desenham histórias com os dedos no ar, expressivos e dançantes. O verde namorisca o vento que salpica a água. Erguem-se de um salto e chove, não se tocam, senão com a alegria radiante dos corpos distantes. Fecham os olhos e abrem os olhos e o menino é passaro, é homem e ela dança e dança e a floresta ri-se com o rio.

Contra remoinhos e a fúria dos elementos navegam os cavalos sobre a terra de serpentes e feras, a brisa nos cabelos e o sorriso como uma fenda clara de céu.

Prescrutam as maravilhas do verde e do amarelo que borbulham no ar, com olhos laranja de fogo. Todas as serpentes de cabeça comida. O riso triunfal dos bárbaros na sapiência dos edificios de mármore onde os homens se reúnem para ler as colunas antigas.

O mundo cai e cai numa espiral, elas cavalgam a queda e voam, os cabelos contra a corrupção do tempo. Os estandartes orgulhosos erguidos contra as montanhas negras. O clarão do homem que se ergue ao Pôr do Sol como um Sol Nascente. As estrelas na ponta dos dedos que queimam e cintilam de riso e vitória, e as mulheres cospem as chamas e molham os campos.


Anrdé Consciência

terça-feira, 22 de abril de 2014

Faces Estendidas


Portrait of Marguerite, Countess of Blessington, Thomas Lawrence, 1819

Está escuro, e passos tardos de mulheres cálidas.
Amanheceu, e as estrelas secas sobre os semblantes
Estendidos da luz, sentaram-se, por cima do manto
De orvalho.

A porta de vidro baço
Transporta-te à luz de um néon.
A tua ausência é carne, de noite,
A morte tece trepadeiras
E encima os manequins
No jardim, na laje prata
Colorida de fogo negro.

A guitarra geme nas sombras
Enquanto pulsas, e eu não beijarei
O teu ombro.
O teu ligeiro pescoço, quebrado
O balido das cabras na erva
Silenciosa, límpida, e o ferimento
Espalha-se, no meu dorso.

Com a tua formusura
A perda exalta-se,
Acendendo vindimas
De água primordial
Os precipícios bebem a tua
Estranheza, no lombo
Da colina.

Esta mulher não começa, enquanto
O tempo acaba nunca,
Jorrarei dias, os meus dedos
E os pássaros calam-se.

Nela se congelam
As cidades de seios brancos
Os chapéus de sol.

... Está quente, e ser-se erva,
Parece-se muito
Com o arco do teu ombro
Beijado.


André Consciência

Vesta ao espelho


Satã Observando o Amor de Adão e Eva, William Blake

Nas mãos feridas que aguam o Mundo, vivem templos de bárbara
glória,
Intempérie que se precipita, gentilmente, nos riachos das clareiras
estivais,
E escala, intrepidamente, a paz esverdeada do corpo do sono e
depois,
O rubor do leitoso e último Pôr-do-Sol: a angústia do Verão
A nascer morto com lírios de fogo.
 
Aí, o céu ejacula carne lúcida nas fendas dos ventos
Para esculpir o teu corpo de serpente largada
Com a realeza de quem ri a dormir, e segreda
Que o Outono vale nada, que as cores ao cair
Se apagam de Inverno.
 
A neve rodopia e descendem crianças loiras, para correr contigo
Em campos de milho e de trigo, todas as folhas
Caídas, e as estrelas paralisam o céu:
 
Corvo na cruz negra das palavras, nas linhas de cevada,
Nos espantalhos molhados, e aquieta-se, branca, a pedra trémula.
   


André Consciência

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O Sacrifício de Mitra


Mitra e o Touro, do mithraeum em Marino, séc. III


O touro fita as pastagens e cresce, perante a sua atenção, o verde,
O negro rasga-se, e a morte suspende-se.
Sabendo-o, as nuvens atropelam-se em galope, sedentas de terra
E miríades de gotas se precipitam contra o efémero,
Tudo se torna sombra móvel d’aquele que luze,
A tarde cura a manhã, a manhã cura a noite, e redime
A noite a tarde, na precipitação renovada da terra, da planta,
Da água dos poderes.

O horizonte rouba o corpo desse touro, como Tarquínio e Lucrécia
E dos seus grilhões levanta os mares, os rios aéreos, o veloz cavalo
Do Sol cujos cascos pisam o Reino e doam calor, as nascentes
Muitas, que, ricas em leite, alimentam as crianças; levanta a Lua,
Que guarda do ardor cândido a semente do touro, e as
Estrelas que no corpo da besta plantaram as águas.

A dor afasta-se, a febre adormece, o mal evapora-se, a infecção,
E a carcaça do touro decompõe-se.


André Consciência

O Zelator & O Sol

O Grito, Edvard Munch, 1893

Contemplei a vida nas mulheres, nas estatuetas de bronze, nos quadros negros e vermelhos. Saboreei a história dos livros e a teoria dos que se calaram para sempre nas suas páginas. Mas as mulheres caíram, como muralhas, a estátua qual granizo, e cai o negro vermelho como o negro branco da neve, a história desfaz-se um pincel contra a pele. Não vejo nada. O teu Rosto é uma permutação.

André Consciência

sábado, 19 de abril de 2014

O Fim da Terra



Huuvola, Peter Murphy, 1995


Derrotado, nas areias húmidas soprado,
O corpo do astro frio, branco como espelho
Incendeia as praias, um farol náufrago
Por qual montes sangram prados.

Dezembro inóspito, quando as cinzas
Desatadas dos nossos tornozelos
Conheceram os dilúvios estrangeiros
De um povo almiscarado.

A barcaça outonal, construída a folhas soltas
É comida pelas rosas que no oceano
Ardem.

A idade foge-lhes dos pulsos,
Pálida imagem que existe
No côncavo da vaga.


André Consciência

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O Mar

Water Nymphs - Hans Zatzka 

As memórias que oferta
A voz infante de poetisa
No canto a vaga certa
E acerta, na saudade –
Melancólica Artemisa.

Da bruma nas profundezas
As vozes e harpas
Que fazes soar
Parecem-se ao bramido
Furor da terra por mar.

E se me sento na sombra
Fresca e contemplo a Lua
Lesta, lembro-me dos cânticos
Que surgiam nesse ribombar
Da errância contra o lar,
Em que abismos perfilavam
E de toda a pedra o coração amavam.


André Consciência

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Lua de Outono


Fingal Heads Dawn, David de Groot, s/d


O Tejo sorve o azul e mancha Lisboa de céus. O musgo atravessa a pedra dos castelos onde o Sol não o faz. O salgueiro é dotado de uma tamanhosa barba verde e exibe-a às planuras. As baías cavalgam as pétalas soltas das flores, acenando aos montes. O paraíso verte gotas para os vales e anéis para a Serra. A Terra acorda, estremece e as folhas caem. Ao longe chega o monge, em busca de sombras, imobiliza-se e contempla a Lua adormecer no rio. A música dos passos, o murmurinho do cais. A névoa fica muito quieta e observa o monge olvidar-se na sombra. As planícies gritam o silêncio das árvores. As filhas de Cariocecus no orvalho, pousam a correria e cessam os seus arcos de luar. Empalidecem e voltam o rosto, o rio esconde a beleza e o bosque a nudez. Película fina de treva salpicada por uma chuva de estrelas. O monge e o rio fitam-se como dois corpos de neblina, e fundem-se como dois espíritos na espuma. Uma onda de sonhos azuis mergulha as trepadeiras. Afunda-se o astro frio. A bruma da terra é mais escura, noiva do Tejo. Emudecidas, as rochas ocultam os nossos clamores. O fogo queima e a única luz é cinza. O monge solta um murmúrio com os senhores da tempestade, um leve riso nas câmaras do clarão. Embalado nos ventos, o rio paira sobre uma nuvem. O monge senta-se dependurado na penumbra, cego, emitindo luar.

Ara dos Anciãos



 
Boys sit at the Chalice Well in Galstonbury, Austin Cline, s/d



Vazia, a vida que largo
Sobre a ossada, da sabedoria
E afunda no Navia,
Para dentro de dentro
De todos os rios
Os meus olhos eu deixo
À Taça.

André Consciência

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Luva de Chuva



We Are the Strange, M. dot Strange, 2007

Não há lugar para mim, onde o azul me cerca
De dia pintado, de noite lembrado, e o azul
Me cega, no teu grito cantado, em dança
Roubado, ao Deus que o Inverno enterra.

E os meus dedos azuis (pétalas)
Caiem sobre todos os palpitantes amantes,
Que sorriem, distantes, num sonho de ti,
Em que dançava cego envolta do calor, e queimava-me,
Em peles estrangeiras a neve lembrar,
De como já o corpo foi alma. Dentro do meu peito,
Tudo canta, por não haver leito:

Eis que é espada de coveiro, pá de mago,
A voz que vê, no corvo ofuscado,
Chuva que cai, queda, e escuta
Desfeita, quieta, as aves soltas,
Memórias de terra.


André Consciência

Descobrimentos Verticais


African Fashion Series, Hans Silvester, 2008


Ice Dance, Danny Elfman, 1990

A folhagem que é granizo encontra-se perdida
Nos vidros do telhado, e solta-se a ferida
Desse espelho contemplado – todos os dias
Que a Noite sonhou – esvoaçando
O meu desejo esmagado.

Nada cabe em nada, os flocos de neve
Doridos nos mamilos do Atlântico,
A sandália de Hermes perdida, no deserto
Titânico.

Tudo em tudo transborda,
É impossível a persistência, de um só
Minúsculo homem, no vendaval
Da beleza, licor animal; não
Eu, por minha vez, tornei-me pétala
Que desliza no desfiladeiro do vento
Para visitar os palácios nos casais
Que a forma, em pino dançada, não contém.


Na ausência dos teus lábios, juntou-se
Um exército de sábios, afogados, derramados,
Que nos ombros de elefantes procuram.
A savana uma superfície de geada, e a tua...
Majestosa liberdade recaiu sobre a nossa
Desesperada idade. O enregelado
Retomará a forma do sangue, os teus lábios
Conhecerão o meu manto informe.

Não serei homem,
Apenas canto,
E acordarei quem dorme.


André Consciência

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Das Aves Azuis





O Aterro em 1881; No Cais do Tejo, Alfredo Keil


Chove, as paredes de água deslizam
Luminosidade sobre as cidades, com rostos
De mulheres cansadas, e homens
Embrutecendo o silêncio.


O silêncio principia com a fluidez
Dos momentos parados desta noite que não passa
E sobre a qual os dias são como nuvens
No céu estável que me lembra
Primeiro os fantasmas dos teus olhos
Depois a eternidade do peito ondulante
Nas noites em que principiava
Como um desponte que lá fora o mundo pinta.

As palavras de um poema, este, passam-nos
Ao lado, e assim o grilo, sem se reparar,
Faz parte da tranquilidade escurecida
Dos nossos campos inabitados, que as crianças
E os adultos que passeiam crianças
Pisam, numa manifestação de dedos, nossos,
Entrelaçados para além das cores que compõem
A canção colossal da civilização.

E deixa, os amores morrerem, os pensamentos
Envelhecerem.
Deixa, os temores correrem, os rancores
Esmorecerem.
Nada temos com este tédio
Nem o rio com a garça.

A luz e a sombra são tão duas demoras,
E as demoras são todas horas, nossas,
De assombro com que as olhamos se
Nos olhamos.


André Consciência

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Plaia Hermosa


Rusalki - Konstantin Makovsky


A erva arde de noite, e o silêncio comove-se.
De mim até ao céu uma sombra invertida alonga-se.
O vazio sussurra as poesias da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Atlântico.

Escuta-se então na penumbra um clarão,
O sibilar constante das correntes
Com a pureza do negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu ergui-me, para encontrar as ninfas.

Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Pendendo a sua rede de sede e água salgada. Uma a uma,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos vivos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.


André Consciência

domingo, 6 de abril de 2014

Sobre O Vento


Saudade - Sara Conde


Desta vez, a simplicidade
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.


André Consciência

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Traje de Romaria



Azulejo alusivo às lanchas e catraias, Póvoa do Varzim


O mar também não conhece a imobilidade, e por isso transmite perpétuamente esta benéfica quietude. Normalmente a minha mulher sabia as histórias, os conflitos e as amizades das vagas que, por me rodearem, rodeiam a doca. Normalmente durante a hora de almoço, a minha mulher, sentada numa cadeira de tábuas, ouvia o mar falar-lhe de raparigas. Das suas humildades, dos seus egoísmos, dos seus cepticismos, das suas coragens, das suas expansividades. Ela dava-lhes nomes como quem baptizava futuras filhas.

Aos domingos, parece ser noite de manhã, e por isso a noite demora mais a chegar. A ausência da minha esposa entrou na doca. É o princípio do dia de trabalho. Senta-se na sua cadeira que algum calafete que não eu improvisou com despojos de uma Lancha Poveira do Alto. A ausência da minha esposa pousa a cabeça entre as mãos e os meus movimentos tornam-se mais rápidos. Quase no fim do Verão, a jovem que ali passava fechava os olhos e era inocente. No fim do verão ela era sempre inocente, e vivia e estava completamente viva. O seu coração estava separado dela, por isso, o seu coração era uma doca que havia sempre e em todo o lugar. Mas era meio-dia de segunda-feira, em Outubro, ela não vestia na cabeça flores douradas nem no peito moedas, quando ele chegou da Galiza. Às vezes, no fim das manhãs o marujo esperado vinha e abanava o seu listrão de ouro. Era o sombreado de uma tarde de Outono e eles sorriam, analisavam os objectos que ele fazia regressar do além-mar.

A minha mulher deixou a casa desarrumada, não a limpou no começo desse dia nem na duração dos seguintes, e fugiu para nos casarmos. Saiu com uma única mala na mão, com o olhar cheio de esperança, acreditava que nunca mais me ia perder. Durámos essa noite abraçados, e o dia que antecedeu essa noite, e esquecemos-nos até de casar. Aconteceu no crepúsculo do dia seguinte. Eu habituara-me a presenciar o pó que Deus agarra às coisas, como sinal da sua mão sobrenatural, e o meu corpo ia-se tornando nesse aperto. Na primeira manhã, já ela, com a sua camisa de algodão branco oculta no pano de lã vermelho, lenço estampado na cabeça e chinelos de bico arrebitado, limpava as prateleiras em que ninguém tocava desde que a minha mãe morreu. As panelas voltaram a ter a cor das panelas. A madeira voltou a ser madeira. Os cantos das divisões ganharam claridade, a loiça brilhou. Lavou e cozeu a minha roupa. Raspou o chão e desapareceu com a humidade das paredes. A minha mão deixou de querer escrever sonetos. Os meus olhos de procurar os pergaminhos de mistérios antigos, o meu pensamento de se preocupar com o sentido (que é uma preocupação dos homens sem sentido), nos ditames filosóficos, que apenas são facas que afiamos em tempos de tormenta. Levei a toalha às mãos e as mãos levei-as ao rosto. Jantámos, e decidi ser calafate. Ela podia ver-me todos os dias a ser calafate. Ela podia estar comigo, se eu fosse calafate ou pintasse as siglas nos navios. A minha mulher despe um vestido azul e pensa vagamente na eternidade. Mesmo depois desse dia, o vestido continuará.

A forma de me ligar a esse outro além-mar é escrever uma sigla na minha roupa, as únicas iniciais que gostaria de ver em todas as embarcações, fosse eu nelas ou não, e que são as iniciais da minha falecida. Sou feliz assim.


André Consciência

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Deslizamento de terras


Hercules - Júlio Cezar Ramos Lobo

Os ermos soluçam silêncios íngremes,
Os bosques esqueceram o nome dos deuses,
Assim, os deuses despertaram (n)os bosques.

Nos campos, o Sol quieto, mais, até, nos campos que no céu.
Porque os campos estão quentes.
As filhas avançam, sentadas, nesses tronos
De calor. Impeço a minha imaginação de ser minha.
Pendem arcos com elas, temperados com flechas de Abril.

Do Oriente rios de negritude atingem
Como uma brisa refrescante, os cabelos das Noivas.
Os lobos confiam nas neblinas.

De dia. As noivas brandem lanças: ou seja, há pedras
E é só.

Ó Portugal, por que terras te escondes? Choves por todo o hemisfério.
Chove aqui e eu, como uma nuvem na colina, e um amante nos abraços
Da Eterna Juventude, desposaria
Os rostos azuis dos oceanos, e voltaria.


André Consciência

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Embondeiro Que Sonhava Pássaros


Detalhe de Elefante - Jeanne Marie
Os reis são adorados pelos povos, porque crêem que vieram do céu, e falam-lhes sempre com grande acatamento, à distância e de joelhos. Muitos destes reis, para maior cerimonial, nunca se deixam ver quando comem, para não modificarem a opinião que os povos deles têm, de que vivem sem tomar alimento. Adoram o Sol e crêem que as almas são imortais, e que depois da morte vão habitar junto ao Sol. No reino de Benim têm um costume mais antigo do que entre os outros, o qual tem sido observado até ao presente: quando morre o rei, todo o povo se junta num grande campo, no meio do qual abrem um poço muito fundo, ficando largo em baixo e vindo a apertar para a boca. Dentro deste poço deitam o corpo do rei morto, e apresentando-se todos os seus amigos e servidores, aqueles que se julga terem-lhe sido mais caros e favoritos (no que não há pequena contenda entre eles, desejando todos esta honra), voluntariamente descem a fazer-lhe companhia; e logo que estão em baixo, põe-se uma grande lage sobre a boca do poço, e o povo não sai dali, nem de dia nem de noite. No segundo dia vão alguns deputados descobrir a pedra, e perguntam aos de baixo se algum deles já foi servir o rei, e respondem-lhe que não. No terceiro dia fazem a mesma pergunta, e algumas vezes lhes respondem que fulano (dizendo-lhe o nome) foi o primeiro a partir, e fulano o segundo, porque é reputado coisa de grande louvor ter sido o primeiro. E de tudo isto, o povo que está à roda fica falando com suma admiração, considerando-o bem-aventurado e feliz. E ao fim de três ou quatro dias morrem todos aqueles desgraçados. Os que estão em cima, ao pressentirem isto, e vendo que ninguém lhes responde, informam imediatamente o rei sucessor, o qual manda fazer um grande fogo sobre o dito poço, onde assa muitos animais, que dá a comer ao povo. E com esta cerimónia entende ser verdadeiramente rei, e ter jurado governar bem.
Autor Desconhecido (Navegação de Lisboa à Ilha de São Tomé Escrita por um Piloto Português)


Crescer em leveza, eis ao que se propunha
O rei asceta, que sobre o reino compunha.
Da raça do céu, desceu em cidades papagaio
De papel, tocando a terra então tendas, flores
E mel.

E as pedras, pegadas de Lua,
Dos prédios cansados,
Faria rendilhados.

E os rios, descansos solares,
Do cal das paredes,
Transparentes nenúfares.

E a árvore, estrela em repouso,
Das casas empilhadas,
Folhas ceifadas.

E nem cresceu o reino para dentro,
Para ter de crescer para fora,
Cresceu em leveza, e será a Aurora.


André Consciência

terça-feira, 1 de abril de 2014

Milagre das Rosas


Rainha Santa Isabel - Bezeguinho

Em pleno Janeiro, vi, a boa Rainha Isabel,
Dar a comer aos anjos, rosas de sangue.

E o peito
Abre olhos de Ouro.
E a dúvida
Ao amor, com a certeza adora.

Ao reinar namora, o lume delicado
Nas meninas juízes, os olhos
Que são flores aos molhos.


André Consciência

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ossian Cego


Ossian IX - Calum Colvin


Estou nu, despido pelos deuses, e guardo o nome no bolso.
Com a pedra só, com o vazio verde. Com a cabeça cheia de musgo,
Conto todas as estrelas que se apagaram
No céu, as montanhas tornam-se quedas de água, e libertam-se
Musas que se haviam afogado.

Sob a pressão do néon negro, leio um jornal de páginas em branco
E as árvores não desistiram de furar o solo. É aqui que tu moras,
Com as tuas conchas sonoras? Com barcos de guerra que são memórias?
Com o deleite das canções sem som? Com o farol apagado que guia.

O céu limpo troveja sem eco e todo este tempo vos guardei
Uma grande esfera quadrada, mantas brancas que, estendidas
Ao vento, soam os chifres de reis que nunca nasceram, e que acordam,
Os antílopes que vivem dentro da rocha, os bosques em forma de flecha,
Os meus olhos vermelhos de cansaço, o fogo no ventre da minha gravidez
De ser uma lança qualquer que um herói pregou ao chão.


André Consciência

Materialização




O clarão da bandeira a existir estranhamente leve, um Sol que torna os homens pesados sob o calor. Depois calei-me, para que os marinheiros voltassem a fitar o mar. Mas já ninguém o via. Agora a embarcação prosseguia, as velas desfaziam-se, apáticas. Até os enigmas se fizeram sóbrios, toda a luz era escura e completa. Agora, os precipícios não tinham nada que enganar. Os predadores que comigo seguiam tornaram-se, ao meu silêncio, transparentes, suaves, entreabrindo os lábios em preguiçosa volúpia. O Sol nunca mais retornaria a pôr-se. Pensavam-me terra em pleno mar.

André Consciência

A Ti Que A Morte Levou




Levantavas da tua caixa favorita
Flores que eram flocos de neve
Chuvas matinais, de olhos velados.

Dizias-me, que os papagaios eram luz
As flores jorrarem das janelas abertas
Por teres partido, e no chão pousarem
Como um Sol enfraquecido.

De um fogo que é mulher, antiga
Do outro lado, o amor escondido,
Os sobreiros de mãos na cabeça
O choro que congela o frio
E abre as janelas.


André Consciência

domingo, 30 de março de 2014

Retrato Preto e Branco

Retrato Preto e Branco - Inês Xavier

I

O rio começou a estremecer e os dias
Escuros,
A senhora com as rosas não traçou a curva
Na noite seguida.

O mar devorou tudo, ficou a procura
E há cartas com saliva de beijos, que se lembram
Do sangue das facas nas mãos unidas, disse:
“Segura-me a mão que a esmague”, venenos
E ocasionais despedidas cheias de soluções.

Irás acompanhado toda a morte
De raízes estendidas no ar
E um corpo de madeira, uma casa
Onde o meio-dia é, também, escuridão.


II

As duas vezes que brilhaste fora da água
Enrolam-se num lençol de pálpebras perfumadas
E os rios atravessam as pontes, na cidade.

É rápida a queda
Mas nem mesmo os homens acabam-
A sanidade chove como uma febre delirante
E a branca mão que apaga rosto e feição
Daquele que o túmulo desprezou, como a vida.


III

Fecho as mãos de coleccionador de borboletas
E depeno um corvo sem alma.
Vejo-me ao espelho e quebro este lado
Por acreditar em tudo o que nunca me dirão.


André Consciência

sábado, 29 de março de 2014

Retrato Branco e Preto

Sem Título - Rui Gusmão


Desprezo os poemas,
As paredes de céu e os meus sapatos,
As sílabas perdidas
À prisão dos sofás com vista
Para ti
Coberta de hera, coragem e paixão,
E um fogo natural faz bela a coisa interna
E somente deixa o verso que grita ou cala
O gelo escuro sem imagem
Que a noite possui ossos.
Cai o cigarro,
E fica só o brilho, o justo mal.


André Consciência

segunda-feira, 24 de março de 2014

Amendoeiras Em Flor


Amendoeira - Sofia Costa Figueiredo


Montado na relâmpago,
Às majestosas portas de Carmona.

Desmonto e sinto um punhado de areia na mão,

Que atiro ao vento. O rio Eufrates passa à minha frente,
Um sorriso tranquilo como o ruivo Pôr-do-Sol,
Enquanto a fogueira aos mugidos me lembra o correr do tempo.

“Deus seja louvado por ter colocado um mar entre nós!”,

Uma, de tez diferente e raça distinguida.
Bela, como uma Lua que o Sol banhou e cuidou durante a noite eterna,
Um creme, um leite das estrelas entre as peles escurecidas de assassinos.
O caixão dourado dos desejos que a sua mordedura selou
Sobre os tornozelos decorados, torna o sangue como um vinho servido por astros,
A morte como uma doçura jorrada dos peitos negros da noite.
Como é bela e se movem as suas pálpebras, entre a matança,
E com elas desnuda, prisioneira, a mãos de mulher, os exércitos,
E rasga com a fúria das espadas a carne e beija com a fragrância doce das flores
Os campos azuis da alma… Eclipso-me e, vazio, visto-a como coroa.

Numa nostalgia das brancuras do norte empalideço até ao fim da minha luz

E o óleo da minha alma extingue-se.
A Primavera desperta um festival de amendoeiras, agora,
Pousada sobre um ninho de albinas rosas selvagens, ela,
O azul da lua perdido no jardim das estrelas.



André Consciência

domingo, 23 de março de 2014

Fruto do deus secreto


Fruit of the Secret God - John Santerineross


O desejo limpa também a prata
Horas a passar sobre a trepadeira.
Com as moradas a serem, pois, extensões da rua que volta.

Apertamos as mãos dormentes, entrelaçamos os rios,
Avançamos como portas dos fundos, e etéreos
Desmoronamos as cidades da memória.

Está calor, nada nos pertence.


André Consciência

Estátua da Liberdade




A lembrança não conhece a sequência. Cada momento está parado, para sempre, sem lugar para mais nenhum. Mas as coisas movimentam-se. As pessoas. Nós estamos no espaço entre elas. As cores. Os ponteiros que soluçam sem alterar o mundo, e o ar. A areia. A linha das tuas ancas: não há sorte ou caminho. Estátuas, o que são as lembranças. Eu, um homem duplo, porque não tenho imagem no espelho. Se vestisse rosto, não saberia ver o Sol a bater no mar, ou o teu lábio trémulo. Havia destroços na praia. Havia destroços na praia desde o início. Havia destroços na praia desde o início das praias. Também o caranguejo na minha mão, o caranguejo na minha mão não ser mais do que posso ver, do que me pode esconder.


André Consciência

sábado, 22 de março de 2014

A tua casa



O Vampiro, Philip Burne-Jones, 1897
Como um Vampiro, Mão Morta, 2010


Fiquei sozinho e a roer o tempo sem ossos.
Era uma manhã cheia de erva seca e sangue e mãos que se transformam naquilo que as rodeia.
Era uma noite feérica no Inferno em que as feridas se lavam, como quando gememos, a dormir.
A vidraça chovia contra o vento, disso me lembro, e as persianas que se escancaravam para além dos seus limites, em tua casa.
A metamorfose do saber, descobri, era, naquela luzente geometria, uma pantera com asas de morcego, proibida de passar à frente de olhos tal como era. Por isso, coleccionávamos filmes pornográficos com ministros escancarados.
Passavam por cima dos móveis e das emanações, deixando pegadas de paixões, enquanto o meu olhar rasgava o jornal e a minha mão reconstruía o pénis.
Sentei-me no teu sofá com almofadas da Monroe e morto, apodreci, as mãos enterravam-se e eu escrevia não chegar ninguém a tua casa sem ninguém. Por trás dos muros da cidade, alimentava-me dos povos.
Feliz da idade em que o sangue das civilizações pulsa por esgotos e as suas canalizações.


André Consciência


* Santo Agostinho escreveu que os demónios tinham “imortalidade corporal e paixões como seres humanos", mas não podiam produzir sémen. São Clemente testemunha que os demónios possuem paixões humanas mas "não órgãos, assim eles voltam-se para os humanos para usar os seus órgãos. Uma vez exercendo controlo sobre esses órgãos, podem obter o que querem".

sexta-feira, 21 de março de 2014

Palha ao vento e o Sol acima


Sol de Palha - João Costa


Nada há de especialmente belo no bravio perfume,
Chuva que me faça estar aqui,

O teu rosto acende-se, seco e cadavérico. Não há poemas.
Eu estou aqui porque está frio. Porque o teu rosto recorda o pó
Que os meus anos acumulam em segredo. E a pele
De estar frio.

Esta terra que piso sem emoção, lavou-me as meninas
E sinto que fui eu a mata-las, sem pena ou remorso,
Mesmo enquanto dançavam o festival dos lírios,
E a Coroa do Sol girava.

Não tenho nome, o que tinha não era meu e depois esqueci-me
Quando o tempo se cansou das coisas, e retirou içando a bagagem
Das esperanças. Ainda me dói a fome, ou que a vegetação
Volte a crescer no meu mármore. Oh mãe, que engoliste até
As sepulturas, as carícias maternais, os sonhos, as lonjuras,
Se agora mato, que se regue o céu com a ancestral palavra.


André Consciência

Lugar onde existe barro



Barreiro - Ricardo Almeida

Livre. É o asfalto que se solta quando largo a confusão pacífica do andamento do carril. Sinto a pressão do calor a comprimir-me e a espalhar-me também pelas paredes da estação. De vez em quando, fico agarrado aos outros, como uma consciência pegajosa, ou emano deles se suam. Não hoje. Há um casebre abandonado que graffitis coloridos insistem amar sempre que eu olhe ou que ninguém esteja atento, e que cada vez mais parecem vir a perder, sem pressa, o significado de se moverem ao fim da noite. As fábricas murmuram ao longe, e lembro-me de como não gostas do campo, de como te é mais fácil a ligadura cinzenta dos fumos: um pardal saltitante que adormece ao som das linhas de montagem e escreve a independência do amor a dormir. Duas baratas que se aprimoram perto das botas que passeio. O rato junto ao lago e a tua presença na cadeira metálica do café. Os pássaros movem-se com uma animalidade que sinto, agora que o Sol se pôs. Um alarmismo imperioso e sereno. E de noite enches-te, como a tua terra, de copas de árvores amarelas como lâmpadas torradas, ou da esquadra da polícia mesmo ao lado da Igreja com paredes por pintar, da escuridão do pontão que o rio murmura com um ou dois pescadores enterrados no outro lado do tempo. Olho para dentro das habitações brumosas. No Barreiro Velho, a negritude é sempre um Sol tostado. O teu sorriso também é as ruas.


André Consciência

terça-feira, 18 de março de 2014

Mariposas



Si Sedes Non Is, Vitriol, 2005


Uma sombria mulher
Com a sua suavidade vermelha
É gravidade
De dois homicidas, a leveza lúgubre e distante
Do sexo. Seus pés lavarei.

Homem de garganta dourada onde o Sol põe o corpo,
E o ouvido do vento.
E onde verter de minha poesia um cipreste de gelo,
Quando um ar frio acabe e conclua a carne
Então calarei,
Então calarei a cabisbaixa tristeza da vida.


André Consciência

sexta-feira, 14 de março de 2014

Um Anoitecer Primaveril



Vem anoitecer, amigo, que a minha fronte beijas com escuridão
A deslizar na suavidade verde da semeadura.
E solenemente e calmamente acenam os chorões;
Uma voz amada a sussurrar pelos ramos.
O vento, pachorrento, faz flutuar as coisas belas
De algures até aqui e o perfume do narciso
Com toque de prata te toca.
No bosque de aveleiras troteia o melro -
Responde a canção do pastor pelos pinheiros.
Quão longamente desaparecera o pequeno habitáculo
Onde agora crescem tiras de vidoeiro;
A lagoa porta uma constelação solitária -
As sombras rondam em silêncio dourado!
E o tempo é milagroso tanto,
Que em humanos relances se procuram anjos
Inocente e deleitada brincadeira.
Sim! O tempo é milagroso.

Georg Trakl
traduzido por André Consciência

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Pedra Planta


Dolmen Music, Meredith Monk, 1979 (interpretado por The M6, 2008)


Acabou-se a luz, onde as flores começaram,
E o perfume a pedra soletra-se
Amanhecido nos frutos dos deuses:
Escuta, que um lago imenso arrasta os fogos.

Deixa, os peixes espalhados na relva
E os javalis da floresta, em carne-lua
E os dedos das mãos e dos pés
De Albion,

São como as pontas soltas da História.

Moves-te um musgo desperto, eu dou-te
Um colar de rosas, a tua garganta atemoriza
Todo o machado: as tuas asas de pardal pousam
Nos pináculos da hera.

Há suicidas a quem abres a porta,
Lobos pelados e outros vazios
Como astros apagados a acender
O negro, o céu: o chilrear
Das aranhas.

O lago atravessa-me e leva a morte
Os passarinhos descobriram o teu nome
Abrem a boca para beijar.


André Consciência

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cova do Lobisomem



Aldeia da Lomba (Vale de Cambra) - Fernando do Vale


Há crianças titubeantes
Onde me movo e paro para estar orgulhosamente.
Idosos, parecidos com papel fino imbuído em urina.


André Consciência

Sede


Um Cadáver na Praia, Carlos Alberto R. S. Silva, 2008


Um beijo. Sonolento, arrebatado pela doçura, um beijo. O silêncio. Não bebi sangue. Foi um beijo, atrever-me-ia a dizer um beijo como qualquer outro. Ao Sol, os corrimões amarelos e a vista da praia de Sesimbra. O azul. Ele estava perto da máquina de escrever. As cortinas de céu. Os lábios de homem, ásperos e com feridas. Os meus lábios de rapaz. O vermelho incandescente dos pés da escrivaninha, um incêndio. A ausência de sangue e a velhice eterna. A sua pele encarquilhada, o seu corpo inclinado, débil, esvoaçante nas cortinas carcomidas. Observo nos espelhos. Os seus dedos já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa. Observo nos espelhos. O toque dos meninos e das meninas no meu pénis. A carne que morre quente. Observo nos espelhos. A neblina e ela salta, lá fora, eu estou dentro. O restaurante é quente por dentro. Outros dedos tocam piano. Lá fora. Desce o corpo esguio pela neblina na água negra da piscina. As mulheres que se sentam juntas à beira. Observo nos espelhos. A cave branca com música industrial, o ruído giratório dos patins. O corpo do rapazito. O silêncio no corpo do rapazito. O silêncio entre os instrumentos. O silêncio entrecortado da respiração. O azul. A humidade nas paredes da cave. O corpo esguio desce entre a neblina, em eternidades sucessivas. Os meus olhos afundam-se nas covas dos meus olhos. Os meus olhos afundados nos meus olhos. Os meus olhos afundados nas covas dos meus olhos. Os meus dedos tocariam piano.

A madeira funda e leve a flutuar no mar. Enegrecida. Mãos brancas. Tremem, no meu colo de vinho. A minha transparência. Todas as veias. O nosso sangue é o silêncio. Os nossos beijos são como qualquer outro. Lábios. Fantasmas molhados. Sonhar contigo. Observo dos espelhos. A menina estava sempre sozinha. As pálpebras dos meus olhos não existem. Globos brancos e o ruído dos globos brancos. A boca trémula e os lábios que se afundaram nos lábios. Os lábios que se derrocaram nas gengivas. O ruído vivo da dor. Só conheço os meus olhos fechados. O azul. As pombas morrem. A casa inteira-se de esqueletos de pomba. O ruído seco do chilreio de pardais, como agulhas. As mãos brancas na minha saia. Nas minhas pernas de rapaz. Todas as veias. O azul. O silêncio. O nosso sangue é o silêncio. O som surdo do rapazito. Devorado em sucessivas pausas movimentadas. Não haviam manchas no cadeirão. Carne podre. Fria. Fecho os olhos. Ele e ela sozinhos na fábrica que antes derrocou. Vida intensa. No seio da noite. Da solidão. O rosto de todos os fins a procriar mais um. Foram felizes. Os fantasmas molhados. Os lábios. A boca é a secura onde morrem as chamas. O estalido do silêncio. O azul. A madeira negra no mar. A agonia da espinha torcida como um ramo seco. O estalido do silêncio. Observo nos espelhos. Ela chora. São tantas as vozes. Ela chora. Muitos os lamentos. Ninguém escuta todas as suas vozes. Os seus dedos tocam piano. O silêncio das teclas. O silêncio do desejo. O silêncio do desejo de ouvir a melodia. A madeira surda do piano.

Poetas mortos nos rochedos. Observo nos espelhos. Sem roupa, o corpo mudo e carnudo. Com vergonha. Rubor sem som. Oferece uma concha. O vazio a ecoar. Ela estende a mão nua. Os ossos por debaixo. O azul. Ardor nos globos brancos. Ela esticada com formas. Apanha o objecto. O vazio a ecoar com força. Sentem-se felizes. É como se a praia fosse deles. De noite, nas paragens do silêncio do tempo. A noite é deles. A solidão. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Todos os fins a procriarem mais um. Frio. A tremer. Os tendões a gritar. Aponta para uma estrela. Faz dela uma concha. A luz gritante da estrela no silêncio dela. Odeio-me. Os lábios cerrados. Todo eu. Os lábios cerrados. Engolidos. As memórias não salvam. Ela canta nos meus olhos. A minha vida é nos olhos cerrados. A intensidade febril dos bichos da madeira. O silêncio azul. A madrugada sem testemunha. Ela. O pé despido fincado na areia. Ele. Comparam as pegadas. Ele. Ri-se. O ruído das ondas. Ri-se. Ouço só as vagas. A espuma. Apatia. Quero rasgar tudo. Observo nos espelhos. Os ossos. Os ossos estavam vibrantes. As pernas eram velozes. Correm. A areia. Entulho. Madeira negra. A flutuar no mar. Riem-se, surdos. Quero gritar. Observo nos espelhos. O azul. O silêncio. O sangue. Os ossos. Riem-se. Surdos. O entulho. Queimam o entulho. Frio fugidio. As mãos, sempre uma na outra. Bailam. Os dedos. Ele adora os dedos. Fome de viver. O roupeiro. A intensidade febril dos bichos da madeira. Destroços. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Magia. Testemunhas da madrugada. Ruído contínuo da luz. Agulhas. Pardais. Neblina. Os dedos, e ele a adorar os dedos. Ela. Está quieta, atenta ao respirar do rapaz. Queimam o entulho. Fogo. Escuto-o e não tem som nem calor. Deitam-se. Em redor da luz. Como agulhas. Lutam, riem. Não alcanço as vagas. Não consigo dormir. O sussurro desassossegado das vagas. Sem ar. Beijam-se. Beijam-se. Beijam-se. O azul. Observo nos espelhos. Beijam-se. Os lábios sumidos. Fantasmas secos. O azul das lágrimas. Lua. Observo. Frio avassalador. A neblina. A neblina limpa tudo. O gelo das noites. Sentem-se felizes. O estrondo mudo das vagas, do fogo. Observo nos espelhos. O gelo das estrelas. Suspiros longínquos, como garras. Os nossos beijos. Fantasmas molhados.


André Consciência

Carta na garrafa


Praia do Rosário – Moita, Erika Alexandra, 2006

Os rádios pousados no Outono verdejante das matas. Trazia o Walkman quadrado, azul. Depois fumávamos, orgulhosos das nossas botas, e conversávamos. Ainda muito novo, tinha a idade das brisas tristes e da brincadeira das luzes. Caíamos sem chão, sempre com mais que uma palavra sobre o voo. Olhava para ti, muito para o alto. Sabia muitas coisas que não te dizia, e tu, de mim, sabias sobretudo essa. “A vida é uma avalanche”, dizias, “uma grandiosa bola de neve a precipitar-se, espumosa e raivosa, na tua direcção,” abrias os olhos, “deve-se dela capturar todas as forças em proveito próprio.” Depois, já não conseguias fechá-los. Todos te desprezavam, a tua liberdade medonha. Eu não. Mas ficou de noite nas matas e eu comprei um rádio para mim, e sem querer, em tua memória. Outro dia, vi-te numa loja para crianças. Gritaste o meu nome de índio com a tua voz de vocalista, e sentámos-nos num café. Querias dizer-me estas palavras, e os teus olhos tão abertos e amados da insónia ocultavam qualquer sinal do teu olhar. “Estou feliz, com mulher dedicada, comprei uma vivenda em Alhos Vedros. O trabalho ao balcão é bom. Agora” disseste “sou uma pessoa normal.” Não te soube responder. Duas semanas a seguir a tua mãe contou-me do teu suicídio. Não lhe soube responder. Olha, fui à escola, há muita gente a comprar vivendas. Os tectos já não chovem e ninguém anda ao ar livre: há vidros e quadrados. Ninguém se lembra de nós, e ninguém queimaria um caixote do lixo. Também amo alguém. Disse-lhe que morreste. Olhou-me, e naquele momento era uma estranha. “Então e conta mais coisas”, soletrou, munida da voz mais bela que conheço. Depois, acho que aquele miúdo selvagem e desconfiado da sabedoria, dos afectos e da vida dos homens quis tomar conta de tudo o que se foi seguindo. Mas tenho algumas palavras agora. Abri um sítio como nós costumávamos sonhar. Um bar a meia luz onde as pessoas vão especialmente para abrir o olhar. Sorrio-te. Foste o primeiro a encontrar um lugar no mundo.


André Consciência

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coroa da Terra



Recinto Megalítico da Portela de Mogos - autor desconhecido


Aquele que pensa a árvore imóvel comete um grave erro. A árvore precipita-se verticalmente num salto mais veloz que o sobressalto da fera e a sua existência é que o respire. Envolvendo as árvores existem mulheres sem nenhuma idade no seu interior, que dão as mãos e cantam sem som – esse cântico não é diferente do chamamento da morte, da morte antes da culpa a haver dividido, e que ensinou o amor aos vivos. Em cima, as estrelas sonham as coisas genuínas que se soltam da pele putrefacta, as luzes que corroem com ácido todas as correntes, e as árvores estão, como eu, presas na sua teia. O solo seco fervilha com insectos roídos por propósito, basta tocá-los com o sangue para a sua ausência de dúvida me criar em cinza: depois movo-a e escuto, com os ouvidos do pó: o céu inteiro a passar dentro de cada menir com um rugido diferente. As rapinas sobrevoam-me com desconfiança e o meu corpo nu não treme. Percorrido o anoitecer e longa a noite, chegam os outros, os das tendas, também eles despidos à excepção dos mantos de linho negro. São idosos, lentos e rancorosos, apelidam-me de sábio. Queimam ervas, falam línguas e desenham a óleo na pele marmórea. Ao meu primeiro grito lancinante a fauna desperta um festejo, eu canto as palavras antes das palavras, sabendo que o espaço não suporta vazio e não existe vazio. Ao segundo, petrifica-se a floresta e encobre-se num gelado silêncio predatório. Respiro e sei que as árvores não se enfurecem, as pedras não se convulsionaram, as estrelas não despertaram, mas cintila uma amargura profunda no tempo entre a árvore, o menir, a estrela, e o canto até chegar aos homens. São agora derrubados pela volúpia de anjos-leão, soluçam os choros das mães carpideiras, pranteiam e derramam vómito borbulhante. Depois, estranhamente vergastados, exaustos e satisfeitos, retornam estas fezes dos titãs às suas tendas. Encosto o meu corpo nu e ofegante à pedra mãe. Carreiros de aranhas albinas (não conheço outros senão os de Portela de Mogos) acariciam-me em escala e contornam o mel e o leite para desaparecer do outro lado da Lua. Só as almas dos homens perderam o corpo e são o chão longínquo na vertigem dos deuses.


André Consciência

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Santa


... Nascemos no alto mar - Carla Salgueiro

Celebram os homens, e bebem
No salão sem vista para o largo das marés
Onde Portugal, Não-País
Corre. Por isso, os santos da nossa história
São manchas de gnose na memória.

Joana Princesa senta-se, e a sua beleza
Derramada no altar chama os sopros quentes
Do Luar.

O mundo passa sem escorrer
Joana não o vê
Na sua pele lugar que o faz ser.

O mar sem coroas a voz
De almas soltas, levavam-lhe a riqueza
Uma flor alta por cada corsário
Na barca da morte, ébrio, o seu emissário.


André Consciência

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não Conhecer Metáforas



Por do sol alegre (Porto Alegre) - Lucimar


Entre o poema e o ardor
Uma mulher pelicano.
Cresço, a leite virgem,
Não transcendo, não engano.

André Consciência

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mar Alto




Um fantasma acendeu um cigarro
No fundo da noite.
Ou duas memórias que se beijaram
No alto mar.

Quem quer que sejas, vistas o que vestires,
Não chegarás a este espaço pensando-o
Teu.

A altura nada deseja, e isso vê-se
No fundo do precipício.
Não há reclamada pátria, nem horizonte,
Há estrela, serpente e fonte.


André Consciência

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Inverno de Céu


Experiment VII - Erlend Mork


Era uma vez um galho muito bonito, da cor branca do Sol,
Onde pousavam os passarinhos a cantar e as flores do Luar,
Depois, passava a Primavera e mudava, e o galho
Esperava.

Na outra Primavera, novas canções os passarinhos
Criavam do sangue do galho picado, e alegres
Voavam para outro lado.

Então, pousou o mocho e piou esta canção:
Conheço um lugar onde o chão se funde ao coração
E larga do ar o devaneio.

E o galho, todo cheio de neve, rangeu ao de leve:
Escrevi uma vez um poema, tão cedo acabei me envergonhei:
Leram os pássaros, e vi ainda depois serem pássaros.

E o mocho de bico roxo: A beleza revela,
Jamais se rebela. Cantaste à ave e não ao anjo.
E o galho já grisalho: "Não haveis conhecido
Ser esse divino e incorrompido?

Ele é, outra coisa não, além de um poema
E um se sem asa rasteja, e a pedra brilha,
Feito mundo belo, que mais ninguém via.

Puro é aquele que arde no inferno
E ilumina o Inverno."

Viu assim o mocho, que falava um anjo coxo
E de todas as aves espetou esta o coração
Na ponta solta da sua solidão.


André Consciência

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Unhas do Diabo


A Ponte de Lima - Pedro M. Moreira

Deambulo numa zona sem esferas nem descontinuidades
A terra abre-se sob os meus pés como turbilhões
Ninguém dá pelo meu grito de recém-nascido.
A minha paixão nos amantes que se abandonam
Às camaratas do olhar e se despem totalmente de Deus
Nas mãos a ferver uns dos outros
Fatais e simples, como a beleza de dedos femininos.

O poeta sentava-se sobre mesas de poeira e escrevia a vida,
Os seus poemas transfiguram a memória em essência
Depois, o poeta descobriu que se tocava na pedra,
A mesma se oferecia em bálsamo de sibilância e louvor pagão.
Oferecia-se aos lagos com sinais. A pedra como a água,
Depois o céu, eram tempo engarrafado em poema.

Na ocasião que, acariciando a luminosidade de um poema,
Alguém lhe louvava a formosura da alma, o poeta sonhava
A volúpia de enterrar os dentes no sangue a ter falado e o transformar
Todo em poema e bailado.

Haviam depois as cabeças baixas com a chuva, dos frades franciscanos
Que pareciam escorrer constantemente com igual melancolia
Até aos riachos do paraíso perdido.


André Consciência

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mater Dolorosa




Os montes escalvados marejavam os fidalgos
Com as sombras dos homens todas a serem íngremes
Asas de um anjo fadado a suportar a fúria infinita
Da paz e da glória. Os valados sobem e separam-se
Em diversos pinhais, urzes e fragões. A encosta da Serra
A vastidão imensa da distância
Arranca-lhes os olhares das pálpebras e fá-los abobadas.

Os homens são planuras uns dos outros, pensa o Rei
Enquanto cavalga sobre uma. Reconhece um rasto
E devolve-se o seu olhar à água móvel com pelugem do lince.

Um silvado de espinheiros sabe que ele é homem e fá-lo estacar,
Todo ele agreste à vista estupefacta de uma alcaieta musculosa,
E os olhos das (es)feras eram os olhos de Deus se espreitaram
Demasiado fundo.

Distraiam-se com a distância das ravinas que através deles se evaporavam,
Silêncio eriçado pelo vento, beijos de penhascos. A sua fronte lapidada
Com a brancura das anémonas eternas. Os seus lábios negros,
Porque o abismo das bocas. O manto azul das existências afogado
Nas luminosidades de se arrancar à existência para ser, para que os olhos
Em terra, a dianteira das marés. Os seus seios espetados são a carnalidade
Primorosa. Os lobos uivam sem cessa, jorrando, das traseiras,
Um trilho de leite virgem.

Fica erguida a Mater Dolorosa, seduzindo o volver dos séculos,
Confundindo-lhes as direcções, rugindo do fim alto da terra as tempestades
Do mundo.


André Consciência

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Das coisas que param


Dedicado à Babalith


Arachne - Judith Mason


A senhora está no banco de trás da casa, parada, e isto explica porque é que as coisas param. Estar parada no banco de trás da casa é como Lua a crescer na erva e os corpos mortos romperem a luz que é o escuro. Isto é, a senhora está pendente no banco de trás, sente a vida como uma coisa que nasce de muito longe para perto dela, e a distância ser o tempo de se aperceber disso. Imagina que as ervas a crescer (na Lua ou seja onde for) existem dessa forma, porque não é possível testemunhar o crescimento de coisa nenhuma sem ser imaginando a memória. E o que é isto da memória? A memória é uma clareira numa floresta de sensações muitas, ou um homem que se perdeu numa terra estrangeira e inventou as terras natais.

Agora calemos o suposto autor e a suposta velha na cadeira de baloiço à janela da retaguarda da vivenda do jardim-de-infância, autora do autor. A coisa mais salutar é depois que as coisas se escrevam e se escavem a si próprias, porque nunca precisaram de intérprete, que é, na escrita e na arte, o lazer e o intervalo nas coisas se trabalharem quietas, e uma segunda camada ilusória de movimento e fantasmagoria (agrada-me esta palavra porque evoca debaixo do mesmo conceito o conceito “agora” e o conceito “fantasma”). Que é, no fundo, o fantasma do Fernando Pessoa, não o nego.


André Consciência

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Eu Antes de Mim



Natureza Morta - Baltazar Gomes Figueira


A mãozinha das estrelas. Cintilante.
Eu sento-me em todas as figueiras
E conto a história ingénua, dos homens
Antes de homens serem.
Não tenho outras coisas a dizer
O Sol nasce e as noites cobrem-no
De Amor. Os anjos reúnem-se
Nos crepúsculos e tocam pífaro
À dança dos cometas.

E sei olhar para dentro
Dos homens,
Com aquela perícia mesma
De quem nunca se cansa com eles
Porque tem o mundo todo, nas canções
Que foram as primeiras carnes
Muito semelhantes aos fogos impolutos
E que reflectem.


André Consciência

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vorcego


Infinitum Mr. Autumn - Mia Lavernne

Vários homens situam-se num cruzamento de estradas largas, munido de sinais luminosos, por onde não passam carros ou se avistam prédios. Por vezes, nas esquinas, cruza uma rapariga de negro e cabelos rubros, com o coração doente, e por onde passa existiram sempre edifícios. Todos se encontram frenéticos. Uns com os olhos parados, outros com os mesmos inquietos de ausência de objecto a ausência de objecto. Todos desviam o olhar da rapariga que vai morrer excepto um, que não vê mais nada. Deles há aquele que não era esse, e que estava vestido a gabardine de escuro cinzento e uma cartola, recebe um telefonema. O Sol tem um som ensurdecedor e agudo, como o orgasmo da terra. Cada floco de neve contém os braços de uma mulher (diferente da que dobra esquinas) cujo nome ele disse. O sujeito de gabardine riu e, sem mais, desligou o telefone. Pensou, antes de interromper as coisas que são pensamentos, e nós sabemos só uma certa chuva invisível e que talvez seja mais uma particularidade dos nossos corpos do que da cidade. Fitou o que havia em seu redor: a enorme urbanização de prédios espelhados, invisíveis e altos. Outro sujeito, de pendente e manga curta, e que não era o que olhava a rapariga, usava um veludo apertado e disparou “absurdo”. Um, que estava nu, com os cabelos sobre os mamilos, era o desejo liberto do que olhava a rapariga, e independente. Estava calmo pois tudo o que ele fitava lhe obedecia à sabedoria. Vez em vez, porém, tomava figuras de um lobo de cabelo fogoso, olhos clamorosos, e arturianos chifres de veado. Dirigia-se às coisas invisíveis, que os outros viam como cortinas ao vento ou sombras numa caverna, e, ao mesmo tempo, sempre para a rapariga ruiva, que devorava por causa do sangue e do sal da sua neve. Respondeu-lhes: “Nesta encruzilhada parada passam muitos carros que não sabemos, e nos atropelam. É preciso evocar a existência, para depois existir, primeiro criar um deus para que depois possamos ser, à sua imagem. É esse espectro, esse fantasma boreal que alguns apelidaram de Lua, ou de pus amarelado na lixeira.” Determinou. De repente, viam-se muitas térmitas, nas paredes invisíveis das coisas. O de gabardine cinzenta, acrescentou por fim que lhe apetecia voltar a beber, era um homem angustiado, porque no geral se encontrava demasiado embriagado numa espécie de profundidade e calmaria carnal para sentir o efeito dos licores que fazem acreditar que a vida algo tem a ver com uma sequência de eventos.

O Corvo Cego tentava imitá-los no que diziam: “Caiem e morrem as prostitutas do meu nome. Existir em todas as árvores e em nenhuma floresta.”


André Consciência

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Gárgula do Buçaco


Imagem: Bola de Espaço (Palácio Real do Buçaco) - Horned Wolf
Música: Mask, Bauhaus, 1981


Escreverei sobre a essência das lendas.
Podia começar no Ninho de Águia,
Voando pelos moinhos conjuntados,
E terminando pousado na Senhora do Monte Alto,
As termas do luso e os frondosos verdes.

Nada disso importa.
Os nossos olhos estão mortos e só o líquido das palavras se move.
Há uma gárgula no Palácio Real do Buçaco.
Escoa as águas, inclinando-se para o mundo aberto
Do horizonte em linha recta, enquanto a água dos olhos
Corre para dentro.

Não pousa ali anjo que venha sem Deus todo,
Se pousa é escorrido,
Estar com Deus é estar para fora,
O temor da coisa absoluta e real:
A pedra ser, mesmo se nunca viveu,
E tudo o que viveu se esmagar tudo contra a pedra.

A gárgula não foi açoitada para os infernos
Nem elevada para os céus:
Se fosse é que não teria as penas da eternidade.
Também Deus reparar nela é a falta de Deus reparar nela.

O segredo da gárgula se estender é este:
Ela quer ver-se a si própria e não se olha.

Esta é a lenda da Gárgula do Palácio Real.
A história não passa por baixo de si.
Não se descobre. Contrariada,
Sem todo nem contra-parte.


André Consciência

domingo, 12 de janeiro de 2014

Estava Escuro



Darkest Dreaming - David Sylvian
Estava escuro, quando ele abriu a boca e tentou sorver
Um pouco mais daquela substância almiscarada
De coisas que são nada.

Engoliu outro copo, com o olhar perdido no limiar
Do lume perdido no copo.

Vida madrasta e puta e gasta. Caralho
Para esta merda.

Depois viu as pessoas a passar, à frente,
Da escuridão evasiva. Decidiu libertar um pasmo
Uma onda de caos espasmódica. Uma soltura
De coisa nenhuma.

Ah, quem me dera a juventude que não cheguei a ter,
Os poemas que nunca fiz, as bocas que beijei,
Mas fazer amor de todas as maneiras que ficaram
Em cada pessoa. Que merda de vida, pensar que tu,
André, não estás aqui. E eu que sempre te odiei em segredo.
Nada passava por cima de ti e não estendias a mão a ninguém,
Tinhas raios, como esse esterco de astro que é a Lua.

Agora olha, como és mais um peixe no abismo fundo do oceano
E a vida largou tudo o que esperava que tivesses tido,
E não te sobrou nada, não conheceste o teu túmulo para te
Visitares e sobreviveres.

Deixa estar, nós nunca nos esquecemos de ti.
Espalhamos-te pelas coisas, as tuas cinzas, e lembramos
De nos lamber no espaço entre elas.

Não abras os olhos, muito menos
Nesta hora. Por agora, deixa-te levar
Como o Tubarão Martelo, pelas formas
Serem um veiculo de nunca se preencher
E deita-te nos planaltos do vazio, sem dormir
Insone como a mãe de mil filhos que se cospem dela
Como da água fervida se elevam as bolhas e a carne húmida
E esquecida, do amor antigo, ou da ferida indetectável que te roubou
O corpo e os membros forçando a tua alma a ganhar corpo e membros nas raízes
Cheias de sapos e fungos e putrefacções de corações humanos e algas negras com seringas.

Que gemido é este agora que se solta da tontura das estrelas amarem o raiar da manhã
E nada amanhecer deste lado do Sol, que arrefece com a leveza da morte
Ó, teu rosto amado pelo qual trocaria o poema e a luz e a centelha
Trocaria a vida e a estrela e a veia por essa mão pequena
O que faz na sarjeta o teu corpo exausto de morrer?
Quero lembrar-me de ti todos os dias como quem
Caixão próprio não tem.

André é só o nome no gotejar das grutas
Repletas de putas.


André Consciência

sábado, 4 de janeiro de 2014

Lamia

Serra D'Arga - Francisco Sampaio

A distância das estações desabava e permitia Deus todo:
Assaltava-me uma imensa beleza, fazia-me escorrer água para todas as coisas,
Em que as bebia e não mais delas me distinguia. Depois,
Essa saudade melancólica e soturna das horas entre as horas,
O desassossego das coisas serem tanto que não se bastam,
O carnívoro e terrível anfíbio da consciência.

Deus é Luz e pensar-se dia, como no coração selvagem
O Anjo é a civilização. Mas a noite é eterna e cobre a luz e o dia,
Da mesma forma cobre a alma do homem toda a civilização.

Nisto, procurei de minha disciplina escutar o que me dizia a serra
E o que da serra se via, e ainda falá-lo. O emprego era a sede, beber pouco,
Comer pouco, mantendo essa necessidade acesa, essa fraqueza que obriga
A força a movimentar-se, carne e osso. E pelos delírios daqui fumegados
Lia o livro virgem cujo ventre só se pode penetrar dele saindo, e nunca entrando.

O Éden viu que estava nu. Era Verão intenso de Agosto,
A garganta podia ser encontrada, com a desidratação,
Espinhosa, aguda. A água, que aplacasse todas as iras,
E quando nada é tempo tudo é Deus e os lugares as coisas
O paraíso não se ter perdido para dentro das consciências sem fim.

Mas cego, cegado por dois punhos no escuro.
Estrondosa e ribombante mudez, luz sem cor,
Arrependido ante a visão do corpo divino atirou os olhos à fonte
Agora, dos rios de neve que lhe caiam dos veios vazios das covas esvaziadas
Onde antes pousara teimosamente e incauta a vista,
Finalmente solta da Terra, Mulher comprida e fendida
Como se parisse o vácuo constantemente, manchada de carmesim duro
E transparente. A pele lisa contorcia-se contra si mesma, em laivos de nevão,
E os cabelos eram como cristais felizes e eléctricos.
A expressão branca era negra como um fosso sem fundo, os olhos
Imortais como a queda do universo para cima.

A garganta do monge era um rio e o seu estômago um oásis.


André Consciência

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Talha da Cal


A Talha da Cal - Chanel


Pelas nove da manhã, Évora com um Sol Íntimo
Dourando o ar. O orvalho fresco
Quer que a planície seja um vento. Mal a olha,
O cansaço submerge-o e
As praças continuam longe, a cidade, branca,
Os seus olhos de luto. A cidade toda é uma alucinação
Das árvores da avenida, ou talvez da luz no empedrado
Das ruas, ou do sangue em que se cruzam as fachadas
Dos prédios. Os templos são velhos e as manchas negras
O alto. As Torres da Sé disparam o céu em lapsos.

A tarde é calma, com o Outono moribundo
Sobre a massa da montanha, erguida em frente
De uma casa ao Sol. Há pátios, reflexos
De brancura, globos albinos, candeeiros pálidos.
Entrou no seu quarto solitário, abriu na noite
A janela, a massa da montanha ainda banhava
A grande e solene aldeia suspendida sobre a Lua.


André Consciência

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Auto-Estrada

AUTO-ESTRADA
Para a Babalith


Vintage Woman (Steampunk Version) - Itkupilli



Deslocavas a tua cilindrada
Ás ruínas, que sabias que eu amava,
E amavas saber que tudo o que não era de ninguém
Fosse teu, e sentir disso a aura
Dos ventos, das noites, do hoje.

Falavas e enganavas-te
Com graça tamanha que eu estivesse convencido
Que estavas certa, acima da gramática, ou da razão,
Porque a graça que te habitava, estas coisas
Vinha também habitar e sedutoramente mentir.

Olhavas-me muito fundo e procuravas em mim
Um lugar que não existisses, forçando esse lugar
A reconhecer que existisses. “André,
Nada te limita, mas tudo o que aos outros limitará
A ti mesmo te apresentará, como uma mancha que alastra
Como esta noite de vento e estrelas”.

E eu devolvo-te por isso a minha compreensão
Dos crisântemos de cores caídas para os olhos
Do Outono solar e triste, as linhas férreas, saber que
Tudo isso é hoje as casas brancas se sobreporem
Apinhando-se umas às outras, com medo tanto
Do deserto, que se tornam nisso mesmo que temem:
Um deserto. Cobrir tão totalmente a planície
Que a perdendo de vista, se totalmente esquecessem
Na planície.

Oh, eu, que te conheço a estranheza, como quem diz
Te conhecer a história, sei que gostavas de causar à família
Uma aflição da qual fosses indiferente, que impuseste sempre
A tua estranheza de viver, para que nada da vida possa
Ser estranho à vida, e te tentaste um par de vezes
Suicídio, mas eles não sabiam, que a tua filosofia fora sempre
Maior que a minha, mais axiomática e antiga,
Breve e evidente: raiavas sobre o mundo e destruías-lhe
Todos os máximos, todos os mínimos, e ele tornava-se
Finalmente mundo: iluminação, desamparo de Outono,
Um baile de campos, do destino para o deserto
Da estrada, o absoluto da destruição acima da pequena
E insegura compensação, sonho, acto, gesto, espectro
De uma azinheira, chuvas, terras escuras,
Porque a minha poesia procura evadir-se, e a tua despir-se.

Aqui, os espectros de um e de outro homem, ou da azinheira
Escorrem pelos fios de Sol que a estrada sobe pelo céu
Azul e vasto onde o Verão não cessa, mas a gelar
Tu desces, e tudo se faz festa.


André Consciência