sexta-feira, 21 de março de 2014

Palha ao vento e o Sol acima


Sol de Palha - João Costa


Nada há de especialmente belo no bravio perfume,
Chuva que me faça estar aqui,

O teu rosto acende-se, seco e cadavérico. Não há poemas.
Eu estou aqui porque está frio. Porque o teu rosto recorda o pó
Que os meus anos acumulam em segredo. E a pele
De estar frio.

Esta terra que piso sem emoção, lavou-me as meninas
E sinto que fui eu a mata-las, sem pena ou remorso,
Mesmo enquanto dançavam o festival dos lírios,
E a Coroa do Sol girava.

Não tenho nome, o que tinha não era meu e depois esqueci-me
Quando o tempo se cansou das coisas, e retirou içando a bagagem
Das esperanças. Ainda me dói a fome, ou que a vegetação
Volte a crescer no meu mármore. Oh mãe, que engoliste até
As sepulturas, as carícias maternais, os sonhos, as lonjuras,
Se agora mato, que se regue o céu com a ancestral palavra.


André Consciência

Lugar onde existe barro



Barreiro - Ricardo Almeida

Livre. É o asfalto que se solta quando largo a confusão pacífica do andamento do carril. Sinto a pressão do calor a comprimir-me e a espalhar-me também pelas paredes da estação. De vez em quando, fico agarrado aos outros, como uma consciência pegajosa, ou emano deles se suam. Não hoje. Há um casebre abandonado que graffitis coloridos insistem amar sempre que eu olhe ou que ninguém esteja atento, e que cada vez mais parecem vir a perder, sem pressa, o significado de se moverem ao fim da noite. As fábricas murmuram ao longe, e lembro-me de como não gostas do campo, de como te é mais fácil a ligadura cinzenta dos fumos: um pardal saltitante que adormece ao som das linhas de montagem e escreve a independência do amor a dormir. Duas baratas que se aprimoram perto das botas que passeio. O rato junto ao lago e a tua presença na cadeira metálica do café. Os pássaros movem-se com uma animalidade que sinto, agora que o Sol se pôs. Um alarmismo imperioso e sereno. E de noite enches-te, como a tua terra, de copas de árvores amarelas como lâmpadas torradas, ou da esquadra da polícia mesmo ao lado da Igreja com paredes por pintar, da escuridão do pontão que o rio murmura com um ou dois pescadores enterrados no outro lado do tempo. Olho para dentro das habitações brumosas. No Barreiro Velho, a negritude é sempre um Sol tostado. O teu sorriso também é as ruas.


André Consciência

terça-feira, 18 de março de 2014

Mariposas



Si Sedes Non Is, Vitriol, 2005


Uma sombria mulher
Com a sua suavidade vermelha
É gravidade
De dois homicidas, a leveza lúgubre e distante
Do sexo. Seus pés lavarei.

Homem de garganta dourada onde o Sol põe o corpo,
E o ouvido do vento.
E onde verter de minha poesia um cipreste de gelo,
Quando um ar frio acabe e conclua a carne
Então calarei,
Então calarei a cabisbaixa tristeza da vida.


André Consciência

sexta-feira, 14 de março de 2014

Um Anoitecer Primaveril



Vem anoitecer, amigo, que a minha fronte beijas com escuridão
A deslizar na suavidade verde da semeadura.
E solenemente e calmamente acenam os chorões;
Uma voz amada a sussurrar pelos ramos.
O vento, pachorrento, faz flutuar as coisas belas
De algures até aqui e o perfume do narciso
Com toque de prata te toca.
No bosque de aveleiras troteia o melro -
Responde a canção do pastor pelos pinheiros.
Quão longamente desaparecera o pequeno habitáculo
Onde agora crescem tiras de vidoeiro;
A lagoa porta uma constelação solitária -
As sombras rondam em silêncio dourado!
E o tempo é milagroso tanto,
Que em humanos relances se procuram anjos
Inocente e deleitada brincadeira.
Sim! O tempo é milagroso.

Georg Trakl
traduzido por André Consciência

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Pedra Planta


Dolmen Music, Meredith Monk, 1979 (interpretado por The M6, 2008)


Acabou-se a luz, onde as flores começaram,
E o perfume a pedra soletra-se
Amanhecido nos frutos dos deuses:
Escuta, que um lago imenso arrasta os fogos.

Deixa, os peixes espalhados na relva
E os javalis da floresta, em carne-lua
E os dedos das mãos e dos pés
De Albion,

São como as pontas soltas da História.

Moves-te um musgo desperto, eu dou-te
Um colar de rosas, a tua garganta atemoriza
Todo o machado: as tuas asas de pardal pousam
Nos pináculos da hera.

Há suicidas a quem abres a porta,
Lobos pelados e outros vazios
Como astros apagados a acender
O negro, o céu: o chilrear
Das aranhas.

O lago atravessa-me e leva a morte
Os passarinhos descobriram o teu nome
Abrem a boca para beijar.


André Consciência

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Cova do Lobisomem



Aldeia da Lomba (Vale de Cambra) - Fernando do Vale


Há crianças titubeantes
Onde me movo e paro para estar orgulhosamente.
Idosos, parecidos com papel fino imbuído em urina.


André Consciência

Sede


Um Cadáver na Praia, Carlos Alberto R. S. Silva, 2008


Um beijo. Sonolento, arrebatado pela doçura, um beijo. O silêncio. Não bebi sangue. Foi um beijo, atrever-me-ia a dizer um beijo como qualquer outro. Ao Sol, os corrimões amarelos e a vista da praia de Sesimbra. O azul. Ele estava perto da máquina de escrever. As cortinas de céu. Os lábios de homem, ásperos e com feridas. Os meus lábios de rapaz. O vermelho incandescente dos pés da escrivaninha, um incêndio. A ausência de sangue e a velhice eterna. A sua pele encarquilhada, o seu corpo inclinado, débil, esvoaçante nas cortinas carcomidas. Observo nos espelhos. Os seus dedos já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa. Observo nos espelhos. O toque dos meninos e das meninas no meu pénis. A carne que morre quente. Observo nos espelhos. A neblina e ela salta, lá fora, eu estou dentro. O restaurante é quente por dentro. Outros dedos tocam piano. Lá fora. Desce o corpo esguio pela neblina na água negra da piscina. As mulheres que se sentam juntas à beira. Observo nos espelhos. A cave branca com música industrial, o ruído giratório dos patins. O corpo do rapazito. O silêncio no corpo do rapazito. O silêncio entre os instrumentos. O silêncio entrecortado da respiração. O azul. A humidade nas paredes da cave. O corpo esguio desce entre a neblina, em eternidades sucessivas. Os meus olhos afundam-se nas covas dos meus olhos. Os meus olhos afundados nos meus olhos. Os meus olhos afundados nas covas dos meus olhos. Os meus dedos tocariam piano.

A madeira funda e leve a flutuar no mar. Enegrecida. Mãos brancas. Tremem, no meu colo de vinho. A minha transparência. Todas as veias. O nosso sangue é o silêncio. Os nossos beijos são como qualquer outro. Lábios. Fantasmas molhados. Sonhar contigo. Observo dos espelhos. A menina estava sempre sozinha. As pálpebras dos meus olhos não existem. Globos brancos e o ruído dos globos brancos. A boca trémula e os lábios que se afundaram nos lábios. Os lábios que se derrocaram nas gengivas. O ruído vivo da dor. Só conheço os meus olhos fechados. O azul. As pombas morrem. A casa inteira-se de esqueletos de pomba. O ruído seco do chilreio de pardais, como agulhas. As mãos brancas na minha saia. Nas minhas pernas de rapaz. Todas as veias. O azul. O silêncio. O nosso sangue é o silêncio. O som surdo do rapazito. Devorado em sucessivas pausas movimentadas. Não haviam manchas no cadeirão. Carne podre. Fria. Fecho os olhos. Ele e ela sozinhos na fábrica que antes derrocou. Vida intensa. No seio da noite. Da solidão. O rosto de todos os fins a procriar mais um. Foram felizes. Os fantasmas molhados. Os lábios. A boca é a secura onde morrem as chamas. O estalido do silêncio. O azul. A madeira negra no mar. A agonia da espinha torcida como um ramo seco. O estalido do silêncio. Observo nos espelhos. Ela chora. São tantas as vozes. Ela chora. Muitos os lamentos. Ninguém escuta todas as suas vozes. Os seus dedos tocam piano. O silêncio das teclas. O silêncio do desejo. O silêncio do desejo de ouvir a melodia. A madeira surda do piano.

Poetas mortos nos rochedos. Observo nos espelhos. Sem roupa, o corpo mudo e carnudo. Com vergonha. Rubor sem som. Oferece uma concha. O vazio a ecoar. Ela estende a mão nua. Os ossos por debaixo. O azul. Ardor nos globos brancos. Ela esticada com formas. Apanha o objecto. O vazio a ecoar com força. Sentem-se felizes. É como se a praia fosse deles. De noite, nas paragens do silêncio do tempo. A noite é deles. A solidão. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Todos os fins a procriarem mais um. Frio. A tremer. Os tendões a gritar. Aponta para uma estrela. Faz dela uma concha. A luz gritante da estrela no silêncio dela. Odeio-me. Os lábios cerrados. Todo eu. Os lábios cerrados. Engolidos. As memórias não salvam. Ela canta nos meus olhos. A minha vida é nos olhos cerrados. A intensidade febril dos bichos da madeira. O silêncio azul. A madrugada sem testemunha. Ela. O pé despido fincado na areia. Ele. Comparam as pegadas. Ele. Ri-se. O ruído das ondas. Ri-se. Ouço só as vagas. A espuma. Apatia. Quero rasgar tudo. Observo nos espelhos. Os ossos. Os ossos estavam vibrantes. As pernas eram velozes. Correm. A areia. Entulho. Madeira negra. A flutuar no mar. Riem-se, surdos. Quero gritar. Observo nos espelhos. O azul. O silêncio. O sangue. Os ossos. Riem-se. Surdos. O entulho. Queimam o entulho. Frio fugidio. As mãos, sempre uma na outra. Bailam. Os dedos. Ele adora os dedos. Fome de viver. O roupeiro. A intensidade febril dos bichos da madeira. Destroços. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Magia. Testemunhas da madrugada. Ruído contínuo da luz. Agulhas. Pardais. Neblina. Os dedos, e ele a adorar os dedos. Ela. Está quieta, atenta ao respirar do rapaz. Queimam o entulho. Fogo. Escuto-o e não tem som nem calor. Deitam-se. Em redor da luz. Como agulhas. Lutam, riem. Não alcanço as vagas. Não consigo dormir. O sussurro desassossegado das vagas. Sem ar. Beijam-se. Beijam-se. Beijam-se. O azul. Observo nos espelhos. Beijam-se. Os lábios sumidos. Fantasmas secos. O azul das lágrimas. Lua. Observo. Frio avassalador. A neblina. A neblina limpa tudo. O gelo das noites. Sentem-se felizes. O estrondo mudo das vagas, do fogo. Observo nos espelhos. O gelo das estrelas. Suspiros longínquos, como garras. Os nossos beijos. Fantasmas molhados.


André Consciência

Carta na garrafa


Praia do Rosário – Moita, Erika Alexandra, 2006

Os rádios pousados no Outono verdejante das matas. Trazia o Walkman quadrado, azul. Depois fumávamos, orgulhosos das nossas botas, e conversávamos. Ainda muito novo, tinha a idade das brisas tristes e da brincadeira das luzes. Caíamos sem chão, sempre com mais que uma palavra sobre o voo. Olhava para ti, muito para o alto. Sabia muitas coisas que não te dizia, e tu, de mim, sabias sobretudo essa. “A vida é uma avalanche”, dizias, “uma grandiosa bola de neve a precipitar-se, espumosa e raivosa, na tua direcção,” abrias os olhos, “deve-se dela capturar todas as forças em proveito próprio.” Depois, já não conseguias fechá-los. Todos te desprezavam, a tua liberdade medonha. Eu não. Mas ficou de noite nas matas e eu comprei um rádio para mim, e sem querer, em tua memória. Outro dia, vi-te numa loja para crianças. Gritaste o meu nome de índio com a tua voz de vocalista, e sentámos-nos num café. Querias dizer-me estas palavras, e os teus olhos tão abertos e amados da insónia ocultavam qualquer sinal do teu olhar. “Estou feliz, com mulher dedicada, comprei uma vivenda em Alhos Vedros. O trabalho ao balcão é bom. Agora” disseste “sou uma pessoa normal.” Não te soube responder. Duas semanas a seguir a tua mãe contou-me do teu suicídio. Não lhe soube responder. Olha, fui à escola, há muita gente a comprar vivendas. Os tectos já não chovem e ninguém anda ao ar livre: há vidros e quadrados. Ninguém se lembra de nós, e ninguém queimaria um caixote do lixo. Também amo alguém. Disse-lhe que morreste. Olhou-me, e naquele momento era uma estranha. “Então e conta mais coisas”, soletrou, munida da voz mais bela que conheço. Depois, acho que aquele miúdo selvagem e desconfiado da sabedoria, dos afectos e da vida dos homens quis tomar conta de tudo o que se foi seguindo. Mas tenho algumas palavras agora. Abri um sítio como nós costumávamos sonhar. Um bar a meia luz onde as pessoas vão especialmente para abrir o olhar. Sorrio-te. Foste o primeiro a encontrar um lugar no mundo.


André Consciência

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Coroa da Terra



Recinto Megalítico da Portela de Mogos - autor desconhecido


Aquele que pensa a árvore imóvel comete um grave erro. A árvore precipita-se verticalmente num salto mais veloz que o sobressalto da fera e a sua existência é que o respire. Envolvendo as árvores existem mulheres sem nenhuma idade no seu interior, que dão as mãos e cantam sem som – esse cântico não é diferente do chamamento da morte, da morte antes da culpa a haver dividido, e que ensinou o amor aos vivos. Em cima, as estrelas sonham as coisas genuínas que se soltam da pele putrefacta, as luzes que corroem com ácido todas as correntes, e as árvores estão, como eu, presas na sua teia. O solo seco fervilha com insectos roídos por propósito, basta tocá-los com o sangue para a sua ausência de dúvida me criar em cinza: depois movo-a e escuto, com os ouvidos do pó: o céu inteiro a passar dentro de cada menir com um rugido diferente. As rapinas sobrevoam-me com desconfiança e o meu corpo nu não treme. Percorrido o anoitecer e longa a noite, chegam os outros, os das tendas, também eles despidos à excepção dos mantos de linho negro. São idosos, lentos e rancorosos, apelidam-me de sábio. Queimam ervas, falam línguas e desenham a óleo na pele marmórea. Ao meu primeiro grito lancinante a fauna desperta um festejo, eu canto as palavras antes das palavras, sabendo que o espaço não suporta vazio e não existe vazio. Ao segundo, petrifica-se a floresta e encobre-se num gelado silêncio predatório. Respiro e sei que as árvores não se enfurecem, as pedras não se convulsionaram, as estrelas não despertaram, mas cintila uma amargura profunda no tempo entre a árvore, o menir, a estrela, e o canto até chegar aos homens. São agora derrubados pela volúpia de anjos-leão, soluçam os choros das mães carpideiras, pranteiam e derramam vómito borbulhante. Depois, estranhamente vergastados, exaustos e satisfeitos, retornam estas fezes dos titãs às suas tendas. Encosto o meu corpo nu e ofegante à pedra mãe. Carreiros de aranhas albinas (não conheço outros senão os de Portela de Mogos) acariciam-me em escala e contornam o mel e o leite para desaparecer do outro lado da Lua. Só as almas dos homens perderam o corpo e são o chão longínquo na vertigem dos deuses.


André Consciência

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Santa


... Nascemos no alto mar - Carla Salgueiro

Celebram os homens, e bebem
No salão sem vista para o largo das marés
Onde Portugal, Não-País
Corre. Por isso, os santos da nossa história
São manchas de gnose na memória.

Joana Princesa senta-se, e a sua beleza
Derramada no altar chama os sopros quentes
Do Luar.

O mundo passa sem escorrer
Joana não o vê
Na sua pele lugar que o faz ser.

O mar sem coroas a voz
De almas soltas, levavam-lhe a riqueza
Uma flor alta por cada corsário
Na barca da morte, ébrio, o seu emissário.


André Consciência

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não Conhecer Metáforas



Por do sol alegre (Porto Alegre) - Lucimar


Entre o poema e o ardor
Uma mulher pelicano.
Cresço, a leite virgem,
Não transcendo, não engano.

André Consciência

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mar Alto




Um fantasma acendeu um cigarro
No fundo da noite.
Ou duas memórias que se beijaram
No alto mar.

Quem quer que sejas, vistas o que vestires,
Não chegarás a este espaço pensando-o
Teu.

A altura nada deseja, e isso vê-se
No fundo do precipício.
Não há reclamada pátria, nem horizonte,
Há estrela, serpente e fonte.


André Consciência

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Inverno de Céu


Experiment VII - Erlend Mork


Era uma vez um galho muito bonito, da cor branca do Sol,
Onde pousavam os passarinhos a cantar e as flores do Luar,
Depois, passava a Primavera e mudava, e o galho
Esperava.

Na outra Primavera, novas canções os passarinhos
Criavam do sangue do galho picado, e alegres
Voavam para outro lado.

Então, pousou o mocho e piou esta canção:
Conheço um lugar onde o chão se funde ao coração
E larga do ar o devaneio.

E o galho, todo cheio de neve, rangeu ao de leve:
Escrevi uma vez um poema, tão cedo acabei me envergonhei:
Leram os pássaros, e vi ainda depois serem pássaros.

E o mocho de bico roxo: A beleza revela,
Jamais se rebela. Cantaste à ave e não ao anjo.
E o galho já grisalho: "Não haveis conhecido
Ser esse divino e incorrompido?

Ele é, outra coisa não, além de um poema
E um se sem asa rasteja, e a pedra brilha,
Feito mundo belo, que mais ninguém via.

Puro é aquele que arde no inferno
E ilumina o Inverno."

Viu assim o mocho, que falava um anjo coxo
E de todas as aves espetou esta o coração
Na ponta solta da sua solidão.


André Consciência

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Unhas do Diabo


A Ponte de Lima - Pedro M. Moreira

Deambulo numa zona sem esferas nem descontinuidades
A terra abre-se sob os meus pés como turbilhões
Ninguém dá pelo meu grito de recém-nascido.
A minha paixão nos amantes que se abandonam
Às camaratas do olhar e se despem totalmente de Deus
Nas mãos a ferver uns dos outros
Fatais e simples, como a beleza de dedos femininos.

O poeta sentava-se sobre mesas de poeira e escrevia a vida,
Os seus poemas transfiguram a memória em essência
Depois, o poeta descobriu que se tocava na pedra,
A mesma se oferecia em bálsamo de sibilância e louvor pagão.
Oferecia-se aos lagos com sinais. A pedra como a água,
Depois o céu, eram tempo engarrafado em poema.

Na ocasião que, acariciando a luminosidade de um poema,
Alguém lhe louvava a formosura da alma, o poeta sonhava
A volúpia de enterrar os dentes no sangue a ter falado e o transformar
Todo em poema e bailado.

Haviam depois as cabeças baixas com a chuva, dos frades franciscanos
Que pareciam escorrer constantemente com igual melancolia
Até aos riachos do paraíso perdido.


André Consciência

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mater Dolorosa




Os montes escalvados marejavam os fidalgos
Com as sombras dos homens todas a serem íngremes
Asas de um anjo fadado a suportar a fúria infinita
Da paz e da glória. Os valados sobem e separam-se
Em diversos pinhais, urzes e fragões. A encosta da Serra
A vastidão imensa da distância
Arranca-lhes os olhares das pálpebras e fá-los abobadas.

Os homens são planuras uns dos outros, pensa o Rei
Enquanto cavalga sobre uma. Reconhece um rasto
E devolve-se o seu olhar à água móvel com pelugem do lince.

Um silvado de espinheiros sabe que ele é homem e fá-lo estacar,
Todo ele agreste à vista estupefacta de uma alcaieta musculosa,
E os olhos das (es)feras eram os olhos de Deus se espreitaram
Demasiado fundo.

Distraiam-se com a distância das ravinas que através deles se evaporavam,
Silêncio eriçado pelo vento, beijos de penhascos. A sua fronte lapidada
Com a brancura das anémonas eternas. Os seus lábios negros,
Porque o abismo das bocas. O manto azul das existências afogado
Nas luminosidades de se arrancar à existência para ser, para que os olhos
Em terra, a dianteira das marés. Os seus seios espetados são a carnalidade
Primorosa. Os lobos uivam sem cessa, jorrando, das traseiras,
Um trilho de leite virgem.

Fica erguida a Mater Dolorosa, seduzindo o volver dos séculos,
Confundindo-lhes as direcções, rugindo do fim alto da terra as tempestades
Do mundo.


André Consciência

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Das coisas que param


Dedicado à Babalith


Arachne - Judith Mason


A senhora está no banco de trás da casa, parada, e isto explica porque é que as coisas param. Estar parada no banco de trás da casa é como Lua a crescer na erva e os corpos mortos romperem a luz que é o escuro. Isto é, a senhora está pendente no banco de trás, sente a vida como uma coisa que nasce de muito longe para perto dela, e a distância ser o tempo de se aperceber disso. Imagina que as ervas a crescer (na Lua ou seja onde for) existem dessa forma, porque não é possível testemunhar o crescimento de coisa nenhuma sem ser imaginando a memória. E o que é isto da memória? A memória é uma clareira numa floresta de sensações muitas, ou um homem que se perdeu numa terra estrangeira e inventou as terras natais.

Agora calemos o suposto autor e a suposta velha na cadeira de baloiço à janela da retaguarda da vivenda do jardim-de-infância, autora do autor. A coisa mais salutar é depois que as coisas se escrevam e se escavem a si próprias, porque nunca precisaram de intérprete, que é, na escrita e na arte, o lazer e o intervalo nas coisas se trabalharem quietas, e uma segunda camada ilusória de movimento e fantasmagoria (agrada-me esta palavra porque evoca debaixo do mesmo conceito o conceito “agora” e o conceito “fantasma”). Que é, no fundo, o fantasma do Fernando Pessoa, não o nego.


André Consciência

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Eu Antes de Mim



Natureza Morta - Baltazar Gomes Figueira


A mãozinha das estrelas. Cintilante.
Eu sento-me em todas as figueiras
E conto a história ingénua, dos homens
Antes de homens serem.
Não tenho outras coisas a dizer
O Sol nasce e as noites cobrem-no
De Amor. Os anjos reúnem-se
Nos crepúsculos e tocam pífaro
À dança dos cometas.

E sei olhar para dentro
Dos homens,
Com aquela perícia mesma
De quem nunca se cansa com eles
Porque tem o mundo todo, nas canções
Que foram as primeiras carnes
Muito semelhantes aos fogos impolutos
E que reflectem.


André Consciência

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vorcego


Infinitum Mr. Autumn - Mia Lavernne

Vários homens situam-se num cruzamento de estradas largas, munido de sinais luminosos, por onde não passam carros ou se avistam prédios. Por vezes, nas esquinas, cruza uma rapariga de negro e cabelos rubros, com o coração doente, e por onde passa existiram sempre edifícios. Todos se encontram frenéticos. Uns com os olhos parados, outros com os mesmos inquietos de ausência de objecto a ausência de objecto. Todos desviam o olhar da rapariga que vai morrer excepto um, que não vê mais nada. Deles há aquele que não era esse, e que estava vestido a gabardine de escuro cinzento e uma cartola, recebe um telefonema. O Sol tem um som ensurdecedor e agudo, como o orgasmo da terra. Cada floco de neve contém os braços de uma mulher (diferente da que dobra esquinas) cujo nome ele disse. O sujeito de gabardine riu e, sem mais, desligou o telefone. Pensou, antes de interromper as coisas que são pensamentos, e nós sabemos só uma certa chuva invisível e que talvez seja mais uma particularidade dos nossos corpos do que da cidade. Fitou o que havia em seu redor: a enorme urbanização de prédios espelhados, invisíveis e altos. Outro sujeito, de pendente e manga curta, e que não era o que olhava a rapariga, usava um veludo apertado e disparou “absurdo”. Um, que estava nu, com os cabelos sobre os mamilos, era o desejo liberto do que olhava a rapariga, e independente. Estava calmo pois tudo o que ele fitava lhe obedecia à sabedoria. Vez em vez, porém, tomava figuras de um lobo de cabelo fogoso, olhos clamorosos, e arturianos chifres de veado. Dirigia-se às coisas invisíveis, que os outros viam como cortinas ao vento ou sombras numa caverna, e, ao mesmo tempo, sempre para a rapariga ruiva, que devorava por causa do sangue e do sal da sua neve. Respondeu-lhes: “Nesta encruzilhada parada passam muitos carros que não sabemos, e nos atropelam. É preciso evocar a existência, para depois existir, primeiro criar um deus para que depois possamos ser, à sua imagem. É esse espectro, esse fantasma boreal que alguns apelidaram de Lua, ou de pus amarelado na lixeira.” Determinou. De repente, viam-se muitas térmitas, nas paredes invisíveis das coisas. O de gabardine cinzenta, acrescentou por fim que lhe apetecia voltar a beber, era um homem angustiado, porque no geral se encontrava demasiado embriagado numa espécie de profundidade e calmaria carnal para sentir o efeito dos licores que fazem acreditar que a vida algo tem a ver com uma sequência de eventos.

O Corvo Cego tentava imitá-los no que diziam: “Caiem e morrem as prostitutas do meu nome. Existir em todas as árvores e em nenhuma floresta.”


André Consciência

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Gárgula do Buçaco


Imagem: Bola de Espaço (Palácio Real do Buçaco) - Horned Wolf
Música: Mask, Bauhaus, 1981


Escreverei sobre a essência das lendas.
Podia começar no Ninho de Águia,
Voando pelos moinhos conjuntados,
E terminando pousado na Senhora do Monte Alto,
As termas do luso e os frondosos verdes.

Nada disso importa.
Os nossos olhos estão mortos e só o líquido das palavras se move.
Há uma gárgula no Palácio Real do Buçaco.
Escoa as águas, inclinando-se para o mundo aberto
Do horizonte em linha recta, enquanto a água dos olhos
Corre para dentro.

Não pousa ali anjo que venha sem Deus todo,
Se pousa é escorrido,
Estar com Deus é estar para fora,
O temor da coisa absoluta e real:
A pedra ser, mesmo se nunca viveu,
E tudo o que viveu se esmagar tudo contra a pedra.

A gárgula não foi açoitada para os infernos
Nem elevada para os céus:
Se fosse é que não teria as penas da eternidade.
Também Deus reparar nela é a falta de Deus reparar nela.

O segredo da gárgula se estender é este:
Ela quer ver-se a si própria e não se olha.

Esta é a lenda da Gárgula do Palácio Real.
A história não passa por baixo de si.
Não se descobre. Contrariada,
Sem todo nem contra-parte.


André Consciência

domingo, 12 de janeiro de 2014

Estava Escuro



Darkest Dreaming - David Sylvian
Estava escuro, quando ele abriu a boca e tentou sorver
Um pouco mais daquela substância almiscarada
De coisas que são nada.

Engoliu outro copo, com o olhar perdido no limiar
Do lume perdido no copo.

Vida madrasta e puta e gasta. Caralho
Para esta merda.

Depois viu as pessoas a passar, à frente,
Da escuridão evasiva. Decidiu libertar um pasmo
Uma onda de caos espasmódica. Uma soltura
De coisa nenhuma.

Ah, quem me dera a juventude que não cheguei a ter,
Os poemas que nunca fiz, as bocas que beijei,
Mas fazer amor de todas as maneiras que ficaram
Em cada pessoa. Que merda de vida, pensar que tu,
André, não estás aqui. E eu que sempre te odiei em segredo.
Nada passava por cima de ti e não estendias a mão a ninguém,
Tinhas raios, como esse esterco de astro que é a Lua.

Agora olha, como és mais um peixe no abismo fundo do oceano
E a vida largou tudo o que esperava que tivesses tido,
E não te sobrou nada, não conheceste o teu túmulo para te
Visitares e sobreviveres.

Deixa estar, nós nunca nos esquecemos de ti.
Espalhamos-te pelas coisas, as tuas cinzas, e lembramos
De nos lamber no espaço entre elas.

Não abras os olhos, muito menos
Nesta hora. Por agora, deixa-te levar
Como o Tubarão Martelo, pelas formas
Serem um veiculo de nunca se preencher
E deita-te nos planaltos do vazio, sem dormir
Insone como a mãe de mil filhos que se cospem dela
Como da água fervida se elevam as bolhas e a carne húmida
E esquecida, do amor antigo, ou da ferida indetectável que te roubou
O corpo e os membros forçando a tua alma a ganhar corpo e membros nas raízes
Cheias de sapos e fungos e putrefacções de corações humanos e algas negras com seringas.

Que gemido é este agora que se solta da tontura das estrelas amarem o raiar da manhã
E nada amanhecer deste lado do Sol, que arrefece com a leveza da morte
Ó, teu rosto amado pelo qual trocaria o poema e a luz e a centelha
Trocaria a vida e a estrela e a veia por essa mão pequena
O que faz na sarjeta o teu corpo exausto de morrer?
Quero lembrar-me de ti todos os dias como quem
Caixão próprio não tem.

André é só o nome no gotejar das grutas
Repletas de putas.


André Consciência

sábado, 4 de janeiro de 2014

Lamia

Serra D'Arga - Francisco Sampaio

A distância das estações desabava e permitia Deus todo:
Assaltava-me uma imensa beleza, fazia-me escorrer água para todas as coisas,
Em que as bebia e não mais delas me distinguia. Depois,
Essa saudade melancólica e soturna das horas entre as horas,
O desassossego das coisas serem tanto que não se bastam,
O carnívoro e terrível anfíbio da consciência.

Deus é Luz e pensar-se dia, como no coração selvagem
O Anjo é a civilização. Mas a noite é eterna e cobre a luz e o dia,
Da mesma forma cobre a alma do homem toda a civilização.

Nisto, procurei de minha disciplina escutar o que me dizia a serra
E o que da serra se via, e ainda falá-lo. O emprego era a sede, beber pouco,
Comer pouco, mantendo essa necessidade acesa, essa fraqueza que obriga
A força a movimentar-se, carne e osso. E pelos delírios daqui fumegados
Lia o livro virgem cujo ventre só se pode penetrar dele saindo, e nunca entrando.

O Éden viu que estava nu. Era Verão intenso de Agosto,
A garganta podia ser encontrada, com a desidratação,
Espinhosa, aguda. A água, que aplacasse todas as iras,
E quando nada é tempo tudo é Deus e os lugares as coisas
O paraíso não se ter perdido para dentro das consciências sem fim.

Mas cego, cegado por dois punhos no escuro.
Estrondosa e ribombante mudez, luz sem cor,
Arrependido ante a visão do corpo divino atirou os olhos à fonte
Agora, dos rios de neve que lhe caiam dos veios vazios das covas esvaziadas
Onde antes pousara teimosamente e incauta a vista,
Finalmente solta da Terra, Mulher comprida e fendida
Como se parisse o vácuo constantemente, manchada de carmesim duro
E transparente. A pele lisa contorcia-se contra si mesma, em laivos de nevão,
E os cabelos eram como cristais felizes e eléctricos.
A expressão branca era negra como um fosso sem fundo, os olhos
Imortais como a queda do universo para cima.

A garganta do monge era um rio e o seu estômago um oásis.


André Consciência

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A Talha da Cal


A Talha da Cal - Chanel


Pelas nove da manhã, Évora com um Sol Íntimo
Dourando o ar. O orvalho fresco
Quer que a planície seja um vento. Mal a olha,
O cansaço submerge-o e
As praças continuam longe, a cidade, branca,
Os seus olhos de luto. A cidade toda é uma alucinação
Das árvores da avenida, ou talvez da luz no empedrado
Das ruas, ou do sangue em que se cruzam as fachadas
Dos prédios. Os templos são velhos e as manchas negras
O alto. As Torres da Sé disparam o céu em lapsos.

A tarde é calma, com o Outono moribundo
Sobre a massa da montanha, erguida em frente
De uma casa ao Sol. Há pátios, reflexos
De brancura, globos albinos, candeeiros pálidos.
Entrou no seu quarto solitário, abriu na noite
A janela, a massa da montanha ainda banhava
A grande e solene aldeia suspendida sobre a Lua.


André Consciência

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Auto-Estrada

AUTO-ESTRADA
Para a Babalith


Vintage Woman (Steampunk Version) - Itkupilli



Deslocavas a tua cilindrada
Ás ruínas, que sabias que eu amava,
E amavas saber que tudo o que não era de ninguém
Fosse teu, e sentir disso a aura
Dos ventos, das noites, do hoje.

Falavas e enganavas-te
Com graça tamanha que eu estivesse convencido
Que estavas certa, acima da gramática, ou da razão,
Porque a graça que te habitava, estas coisas
Vinha também habitar e sedutoramente mentir.

Olhavas-me muito fundo e procuravas em mim
Um lugar que não existisses, forçando esse lugar
A reconhecer que existisses. “André,
Nada te limita, mas tudo o que aos outros limitará
A ti mesmo te apresentará, como uma mancha que alastra
Como esta noite de vento e estrelas”.

E eu devolvo-te por isso a minha compreensão
Dos crisântemos de cores caídas para os olhos
Do Outono solar e triste, as linhas férreas, saber que
Tudo isso é hoje as casas brancas se sobreporem
Apinhando-se umas às outras, com medo tanto
Do deserto, que se tornam nisso mesmo que temem:
Um deserto. Cobrir tão totalmente a planície
Que a perdendo de vista, se totalmente esquecessem
Na planície.

Oh, eu, que te conheço a estranheza, como quem diz
Te conhecer a história, sei que gostavas de causar à família
Uma aflição da qual fosses indiferente, que impuseste sempre
A tua estranheza de viver, para que nada da vida possa
Ser estranho à vida, e te tentaste um par de vezes
Suicídio, mas eles não sabiam, que a tua filosofia fora sempre
Maior que a minha, mais axiomática e antiga,
Breve e evidente: raiavas sobre o mundo e destruías-lhe
Todos os máximos, todos os mínimos, e ele tornava-se
Finalmente mundo: iluminação, desamparo de Outono,
Um baile de campos, do destino para o deserto
Da estrada, o absoluto da destruição acima da pequena
E insegura compensação, sonho, acto, gesto, espectro
De uma azinheira, chuvas, terras escuras,
Porque a minha poesia procura evadir-se, e a tua despir-se.

Aqui, os espectros de um e de outro homem, ou da azinheira
Escorrem pelos fios de Sol que a estrada sobe pelo céu
Azul e vasto onde o Verão não cessa, mas a gelar
Tu desces, e tudo se faz festa.


André Consciência

domingo, 29 de dezembro de 2013

Arranha Céus


Skyscrapers of Shinjuku and Mount Fuji - Morio

Um casarão vive vasto na minha mãe
E a minha terra vai só,
Depois, o inicio dos olhos é uma raiva
Que busca a visita da música irredutível
Minha presença no mundo,
Electricidade estática que empresta a montanha
O pinheiro e a pedra.

Não há estrondo maior, do que o de alguém
A fechar os olhos, e a minha terra
Tem a idade da música, os seus homens
A idade do destino, aqui as eras
São consumidas pelos olhos, até a solidão cantar
E vir às portas pedir esmola, porque o fogo é o que
Da terra, mais está perto da não-terra.

O silêncio das fragas morre ao longe
No coro, e a montanha avança para mim.



André Consciência

Canoas do Tejo


Botes em Descanso (Praia do Rosário) - José Rodrigues


Há os que dizem que a emoção não tem razão
Nem a razão é nutrida de emoção.
Outros, cujos sentidos, um pouco entorpecidos,
Afirmam não haver paz ou paixão,
Apenas mundo e movimentação.

Eu sinto, olho, e minto para dar nome
Ao que não tem nome e sinto.
Esta é a verdade, que transcende,
E em qualquer coisa aquele que sente
É uma cidade de coisas e de gente.


André Consciência

sábado, 28 de dezembro de 2013

Fêmur de Loba


Beauty and the Beast - Annie Leibovitz

I
Um dos lados do seu pescoço comia.

As pessoas não eram feitas desta brancura
Nem a areia fina tem forma.

Na pista, vindo da escuridão
Restolhava um mar de saias.
Partia as palavras e fazia-as respirar.
Deixou cair os braços do condutor da camioneta.
Não sabia.

Enfim, chegaram os lobos.


II
A terra pisou o centro da noite
Um sobreiro parou debaixo dela,
França.

A mulher tentava falar mas não se entendia o que dizia:
“Qualquer coisa”. A terra macia e as pedras separavam os tojos
Desfaziam as veredas. As mulheres e os homens eram seguidos
Por caudas, ao tropeçar, e quando tropeçavam batiam
Nas costas outras, a abrir asas deformadas. Tinham o que viam
A calcar a grandeza do céu negro e grande. O caminho sabia
Enfiar-se no homem que conduzira a camioneta e só
Ela levantava-se diante dos rostos
A cabeça dos outros mergulhava
Como que para dentro de um vidro, na sua voz,
“Qualquer coisa” , a felicidade fazia promessas, com grilos
No arrastar dos passos.

É o pensamento que faz nascer a ausência.
Desconsolada, a noite olhou para dentro dela
E recusou-lhe um pedaço, muitos pedaços,
Três pedaços, a olhar para os homens
Cortou-os como lascas de pão, abraçou o chão
E deixou as suas malas de lado.
Um ribeiro simples passava,
Um fio de água foi sentar-se com ela.

Tudo aconteceu quando descansaram para parar.
Ficou duas horas a subir e descer os cabelos.


Horned Wolf

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Três Cantigas




Há mar infindo sem vida
Na escuridão um trono
De três mães, a cor obsidia.

Lembra-nos aquele que vinha
A luz que as ilumina
Messias que não vem.

Ó sangue do nosso povo
Que derramastes a fruir
Onde está o nosso louco
Destino não mais a cumprir?

(A da esquerda, bailando em roda
E muito queda)

Ouve ninfa!, que o mundo volteia:
Tudo será de nossa mui nobre ceia
Se a voz que te traz na candeia
Louvar ao céu um final de epopeia.

(A da direita, clareando a água
Da sua garganta ampla e estreita)

A sombra da vitória: eis ao que chamam
De História. Se o meu canto é solene
Sombrio, lúgubre, perene, lembra-te
Da memória, não há fim ao nosso ser
Nem inicio, no eterno amanhecer.

O trono parou, e as três
Imóveis, a fitar
Para onde, não acaba nunca
A gente acabar.


André Consciência

domingo, 22 de dezembro de 2013

Eufemenismos

Pan & Maid - Judith Page



Escuta o barulho do céu a passar pela casa,
O som do céu a passar pelos nossos corpos não será diferente.

A esponja de Alá lavou a Lua da abobada,
E isso aumentou a sombra dos homens e a sede.
De súbito, a quinta cobriu-se de rapinas esfomeadas
Cobriram os telhados e as folhas e as fontes e bicavam,
Ainda vivas, as dobras das janelas.

Alda, a minha filha, Alda, distante,
Como se sonhasse uma corte de amor no extremo oriente.
Vários homens desapareciam por debaixo da sua saia,
Como se apagados de manhã, sonhos.
A sua fragilidade a quebrar-lhes pescoços.
As suas mãos brancas sem ostentar sangue pisado nem mágoa.

A vontade de um homem não pode ser controlada por esse próprio homem,
E na bestialidade masculina lia Alda uma chuva miúda de alvorada
A limpar as varandas com perfume branco de flor.


André Consciência

YH VH - A cidade irreal num cerco à terra

Judith Page - Kether



Ponho um disco no aparelho, e do centro da música
Arranco à socapa as flores, talheres, lâmpadas, móveis,
Pratos de sopa, copos de cristal, exposições de arte
E fios de aço. Nisto é que um homem lhe resta
Estar lúcido, e se nele raiou algum vislumbre
Do que é o futuro: a presença de nós próprios
Como alarme do sonho, a interrogação submersa
Na intimidade, como se não escrevesse aqui,
Porque deixou de haver pedra e cardos,
E jazemos dentro das pedras e dos cardos.


André Consciência

sábado, 21 de dezembro de 2013

Transfiguração Poética




dedicado a Luiza Nilo Nunes


I

Lançou a candeia a nascente e uivou
De seguida, a Sul, acenderam-se fogos que apagaram a sua candeia,
tudo a deslizar pelo poente.

Encheu-se de caminhos enquanto o mundo a seu redor se vedava.
Conseguia ver nos crânios os homens de espírito.
Esquecia-se neles.


II

Descendentemente, as pastagens de gado
Cheias de água do rio Mouro
Agarradas aos seus pés como um sonho.

Descansou no dólmen,
Os seus falecidos deitaram-se nele,
com palavras brandas.

O seu coração explodiu,
espantando um aglomerado de moscas.



III


Sonhava que tudo estava no seu crânio: sonhava
Ter pele na luz e por conseguinte no movimento.

Por exemplo, nenhum buraco somente um buraco,
Todos os buracos a ser centopeias conscientes de si próprias.

É a razão irracional do quilópode que o permite movimentar-se,
A sua racionalidade é, por isso, um buraco,
E a partir deste buraco arrancou do sistema nervoso o gnomo negro
Que é um lagarto: as escamas uma luz de tochas no vinho à deriva,
Palavra a escorrer das estrelas.

O corpo réptil cintilava com deslizes suaves pelo Sol,
Três dias seguidos, encontraram-na em forma rochosa,
Enquanto encimava o penhasco de Portela do Lagarto.


André Consciência

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

as ideias mais altas alteram o aspecto da nossa terra




Não escaves dentro das pedras
Os corpos dos anjos
Se sentes a serenidade de te ter
Por toda a parte
E eternamente intima a origem
Da Perfeição e das ruas,
E dos anjos...

Outra coisa
As bermas de cinco mil labaredas
Pelos meus campos de Concentração
Ou o "si mesmo" no fim dos
Objectos.

Envolta do Sol o céu é um único som
E a mudança faz todas as crianças
Poderem reinventar-se no chão.


André Consciência

A savage struggle between heaven and things.



Para começar, é uma sombra e atmosfera mais os olhos.

De súbito, endireitou-se, muito 
orgulhosa, muito orgulhosa dos seus 
desígnios, manter o ritmo inicialmente 
estipulado e a esfinge da morte.

As crianças brincam, nadando com a injustiça
Deus espantou-se, com claros peitos de neve 
E derreteu um pano molhado agitado 
Pela tempestade:
Um corpo que falta e que demos às Estátuas. 

Ó soltura das suas necessidades, angústias paradas! 
No relvado enevoado figuras de pedra basilar 
Todos os poetas são loucos são loucos
Porque a aliança que é suprema absorve 
A natureza voluptuosa. 
Mas eu desci com mil cheiros de incenso 
E penetrei-a até à Casa.

André Consciência


NOMES, O Homem


"Criança geopolítica assistindo ao nascimento do Homem Novo" de DALI



Desembocámos num rio com o Deus que corrói.
A massa negra desperta e voa
Reúne todas as graças
A própria beleza o determina:
Para votares tens de estar nu.

A sombra cada dia tira ideias análogas por uma dor antiga
Os flocos pousam nos cedros, dois peitos de neve derretem,
A trovoada começou, próxima, e nós deambulávamos
Desconsoladamente sobre uma aldeia coberta de branco.

Mas é preciso conhecer os felinos
Gastar a luz do céu
Os esvoaçantes grãos de mim.

Tudo o que existe, existe
E na vida, nunca soubemos agir
Com um sangue incorruptível,
Um dia todos nos esquecemos...


André Consciência

sábado, 24 de agosto de 2013

O Braseiro

Kevin Rolly


Tens no teu silêncio
As aves albinas a desdenhar o sangue
As noites em que nos sentamos
A iluminar as cidades e as cascatas
Nas fontes
De olhos brancos como a memória

As mãos petrificadas pelo olhar
Que gostariam um dia de se dar
Vêem agora as crianças na fome
Arquearem-se para a morte

Um deserto abre-se contra a carne
Na amnésia das almas
Mas vês-me ainda sob a lua
A brilhar sobre um piano.


André Consciência

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Durante O Dia

Du Arte - Babalith



Sentado
Á janela
Espero que tu
Em corridinha venhas a passar
Ondulante com o uniforme crucifixo
A lembrares-me de mim próprio
Talvez (divago sem certeza)
Te pudesse confortar
Eu amo os sulcos dos teus olhos
E os furores de ansiedade
Sobre a tua expressão cerrada
O rosto por vir
A face sem experiência objectiva
E escolheste o trilho do músculo
Contra a dor
Quão intimo és
Nas mentes de todos
E eu saúdo-te
Corajoso espírito
Que tanto ingeriu
Tão pouco desfrutando.


Leonard Cohen traduzido por André Consciência

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Rapariga Na Escuridão


Colette Saint Yves





Era uma rapariga delicada
E estava nua com pequenos seios hirtos
E coxas redondas, numa mão
Um raminho de lírios,
Uma espada curta na escuridão fria
Da extinção das chamas a resplandecer
Com o seu rosto obscurecido voltado
Para as pedras, os seus passos
Perdidos no seu próprio sonho
Materializada no primeiro degrau
Da arcada, orlada pelos cabelos
Onde luziam raios de luz
Apontando delicadamente os dedos
Dos pés enquanto pisava.

Um sinal dos deuses, luz
Na escuridão, beleza
Entre os despojos.


André Consciência

terça-feira, 14 de maio de 2013

Andraste





Numa madrugada gelada e cinzenta
Lutaremos contra o mundo
Sairemos em fila da luz das fogueiras
Para a escuridão
Atravessaremos prados cobertos de erva
Chão empapado, escuridão e chuva
Pesada e persistente, fria e mordaz
Que pinga para dentro
Sem uma estrela para nos guiar
Ou Lua para iluminar o caminho
Cada um com um único olho
Conseguindo ver o rio a reluzir
No vale, cheio de sonhos e ilusões
Como fantasmas na madrugada
Alados pelo medo
E os redemoinhos escuros arrastarão
Dois cisnes pela corrente.


André Consciência

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fornalhas dos Ferreiros




Olhos postos nos pântanos varridos
Nas grandes e descoradas ondas de chuva
Os dois por entre o torrencial
Até ao cume, regressávamos a casa
E descíamos como tolos os caminhos
Do destino, sem falar,
Com a cabeça descoberta sob as estrelas
E as sombras da noite estendiam-se longas
Escuras, pela terra coberta de erva mortiça
Será que os deuses precisam de homens?
Ou somos como cães a ladrar para chamar os donos
Que não querem ouvir?
O caos vencido pelos poderes do mistério,
O dia dava lugar ao crepúsculo no chão
Musgoso por baixo da sombra do carvalho
Enquanto a mente se afundava nas trevas.


André Consciência

domingo, 12 de maio de 2013

Pasto Para As Gaivotas







Na conclusão da lei do livro
E da música da justiça
Homens fumarentos
Planearão com a fogueira
Matar o dia seguinte.

O bem viverá longe
A Oeste, onde as águas
Se agitam sem parar.

Os gritos das raparigas
Serão gaivotas a piar no mar
E o lamento da criança
Dois poetas a discutir
A causa de alguma metáfora.

O deserto e os campos
Entupirão de mato
Zarparemos vazios
Rumo ao Norte

E numa ilha as mulheres
Beijadas pelo vento
Aplaudirão esperançadas
Um caracol.


André Consciência

sábado, 11 de maio de 2013

Casa Real





Dêem-me edifícios romanos
Um pomar, um lago e um jardim,
Um pátio onde harpistas
Tocarão um céu sem fim

Mas carregarei jarros de vinho
A regatos secretos
Numa clareira escondida
De candeias em salgueiros
E a minha paixão por ti
Dilacerará a terra.

Levar-te-ei sozinha
A um vale tão profundo
Que mesmo ao fim da tarde
A geada da manhã
Ainda cubra a erva.


André Consciência

sábado, 4 de maio de 2013

Evocação À Lua




A geada estalava debaixo dos nossos pés e estava muito frio nas folhas castanhas. O céu cinzento tinha a mesma cor acre e amarelada da espada, enquanto o Inverno repousava taciturnamente escuro na erva. O céu está vazio e o fumo mantém-se rente ao chão. Nenhum de nós era maior do que uma criança dobrada mesmo no centro, cinzenta e lisa. Rezámos uma oração e em seguida o rei menino foi exibido à volta da parte exterior das coisas. Depois, voltá-mo-lo contra o Sol. Uma criança colocou uma rosa em frente dele, e a espada partiu a pedra. Pelo portão, via-se cair uma saraiva gelada, e uma lufada de vento fez que vergastasse o espesso colmo do telhado e agitasse as chamas, as nuvens afastaram-se e revelaram um brilho por entre o tremeluzir das estrelas. "Sim, minha senhora", disse, e olhei com ela para a interminável extensão de planície à nossa frente.


Horned Wolf

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O'diamar




Odiar-te,
Se a noite entra para nós
E a miragem no suspiro
Porque a língua da chama
Limpa e reclama
O seu ciclo venenoso.

Amar-te,
afastar-te de mãos leves e braços caídos
como amantes de livros velhos
esquecidos em clavículas arranhadas
pelo sabor do suor que te escorre pelo corpo
em viagens desesperadas.

Comprimidos no desejo
Da madrugada passageira
Loucos na solidão
Da brasa altaneira
Famintos canibais
Sem confessar que o somos
Ou se acabamos e o cais.


André Consciência & Daniela Sophia
Adaptado do blogue Poisoned Dreams

Anel de Amor

A Vida É Um Breve Sonho - Arnold Böcklin




Era uma mulher de rosto fino
Cabelo tingido de vermelho-ferrugem
Esbelta negro e afável
Com um pesado cinto de lontra
Pele de prata e ouro
Reluzente pulso e pescoço.

Um grito feminino rasgou a noite
E atravessou velhos edifícios
E alcançou a ilha dos mortos.

Foi nessa altura que cresceu a minha primeira barba.


Horned Wolf

Malak XIII


Malak Al Mawt - PriestofTerror



Meio-dia mergulhou no verde a Sul. O grande bosque amortecia as nossas asas. De vez em quando ouvia-se um pombo fazer barulho por entre as folhas, o matraquear de um pica-pau num tronco de árvore, uma mulher que lavava a roupa na casa dos espíritos da água. Ouviam-se também as flores a salpicar as pastagens. Mas as nossas asas, o grande bosque amortecia. Um veado saiu a correr do bosque e apareceu no limiar do arvoredo. Ouviu-se uma corneta. Lá ao longe, outra corneta, depois o zumbido das abelhas no rio. O fumo infestou a tarde, a morte infestou o reino, não para nele viver e proliferar, mas para o matar. Chegara a idade em que os tronos nada mais eram do que cadeiras e as terras vazias, impossíveis de ocupar, não cessavam ainda assim de convidar as lanças. A Sul do rio bois castrados deslocavam-se pesadamente, como se nos vissem, e para os ver, veio o rosto de um homem. Cobri-o de cicatrizes, abri-lhe a boca, os dentes amarelados. E à nossa volta o bosque verde estava quente e esbaforido e eu conseguia sentir o cheiro do homem, do suor que escorria para os seus olhos enquanto o terror gritava. A alegria e o medo são exactamente a mesma coisa e a alegria é para quem age. Vi o sangue avivar o dia e o pescoço tornar-se madeira podre. Alto nos ramos das árvores, um pássaro piou, e as nossas sombras espalharam-se à nossa frente e a erva foi comida, com as margaridas, com as centáureas azuis, as tasneiras.  


André Consciência

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cães Vadios





O Oeste caia numa chuva miudinha e iluminava as tochas apagadas da escadaria. A praça era de vento batido, e brilhava. No meu centro alguém desatou a rir, a vibrar pelos telhados, a ecoar no céu louco e furioso. Deixei-me cair nas pedras, uma coisa sem forma e a tremer. Na verdade os tronos nada mais eram do que cadeiras. 

Horned Wolf

Snuff





I

O silêncio da estrada
E os teus pés denegridos
Pelo marchar das horas
Quando o Sol ilumina
As fissuras na montra
Do teu coração.

Lua. Morta na pedra. As palmeiras a esvoaçar o azul escuro. O sangue das nossas mãos. O sangue. Das nossas mãos.



II

Agora não há nada que te prenda aqui. Disse a rapariga de branco. Ela pensa que te moves dentro das suas pálpebras. O ar mudou. De repente já não escrevia. O banco contra o sol morno da carcaça daquele dia convidava-nos a sentar. O amarelo espalhava-se por tudo, tórrido e mudo. O inchaço dos teus olhos. Contra o ar de chumbo entre nós. Não há clarão nos dias tempestivos que não seja tenebroso. O peito do homem caia aos trambolhões pelo precipício da sua desalmada inclinação. Não tentes olhar para mim antes do dia acabar.

III

A carne viva. A febre. A tontura. Ofegante. Ofegante. A arranhar-se contra as paredes de si. A tontura liberta contra tudo. Perdeu a memória. Disse. O taxi. Perdi a memória. Os olhos lançados contra o lamaçal poeirento do tempo ausente. A mão suada e rigida como a de um peixe morto no gelo da eternidade apodrecida. A testa a ferver com os desvarios da origem. O banco afunda-se para dentro de nós e quebra-nos os ossos. Há um adeus nas carnes a soldo. Tudo era um peixe e o seu olhar vidrado quando olhavas. Tudo era água fria. "Devias beber mais água", dizia nua a meio do oceano infindo, sem costa, inútil, insólito. Tudo inútil.


IV

As plantas. O caminho de terra móvel parada. O vento claro e ofuscante. O sol tímido e afogado. A tua figura recortada e primordial. As pernas grandes e chamativas, como a cauda dos peixes-homem. O cabelo de algas. Achavas provavelmente que eu não sabia o que era estar morto a só existir letras. Ah, mas as minhas personagens a cruzar para este mundo sem morrer de febre. Débil. Débil. Débil. E os meus músculos a enfraquecerem na tua morte adornada de chifres. O meu calor a ser um frio maior. Não. Não te esqueças que sorrimos. O metro com a boca enorme. A cuspir o bafo do adeus. Tudo a apagar-se e eu a sorrir. Idiota contra os dias. Idiota contra a palidez das memórias da infância. Idiota contra a luminosidade das clarabóias distantes. A passeares-te monstruosamente saída de mim. Metropolis. "A seguir, não me lembrava de nada, ou de ter saído de ti. Só me lembro de um velho, o eterno homem, um pé entre as ruínas" Lembras-te de mim?


V

A cabeça do mar estremece no meu punho. A mulher morreu para eu viver. Todos os Homens, todos os Monstros engolem serpentes.  


André Consciência

domingo, 21 de abril de 2013

Rei Sem Terra





Uma procissão de donzelas trouxe flores para as rainhas
Por detrás do escuro veio de montes baixos ocidentais
Tochas chamejantes choveram nessa noite, e subiram
Homens com capas e sem chapéu, e os pardais consideravam-te
Um verdadeiro e amplo mundo.

Duas mulheres de asas iguais montavam o contorno vermelho
De um veado a correr, os chifres de uma criatura do mar
Mergulhavam numa taça. E as crianças faziam ninhos
Altaneiros.

Á luz do assombro, o teu rosto magro faiscava,
As mulheres atrás de ti soltavam gritos trémulos,
Agudas e em êxtase.

Violámos as nossas mulheres e assassinámos as nossas
Crianças, e ainda existiam as matas sagradas,
As cavernas, as caveiras dos mortos.


Horned Wolf

domingo, 14 de abril de 2013

Raminhos de Mimosas





Não era bonita nem feia, mas o seu rosto possuía uma vivacidade e uma energia que dispensavam qualquer beleza formal. Invadia-a uma tristeza gerada pela inteligência. Ela sabia demais, já nascera a saber e era, afinal, de extremos, com ela era tudo ou nada. O nome dela dizia-se uma fórmula mágica: nomes de deuses do mar, da morte, da aurora, e, embora o escondesse, da guerra. Mas a maior parte dos nomes eram-me estranhos e ditos numa voz hipnótica e muito calma. E, depois, subiu para o monte de peles e cobertores onde se enrolou nos meus braços. O pó flutuava. Adormeceu com o seu corpo magro entorpecendo o meu braço direito. Eu fiquei acordado, receoso e confuso. A magia acontece nos momentos em que a vida dos anjos e dos homens se tocam. O quarto estalava e enchia-se de brumas. Os mortos levantavam-se. Mas houve um tempo em que ordenávamos a luz: nós cumpríamos as suas ordens, mas as suas ordens eram os nossos desejos. Uma coisa é verdade: em nenhum momento a minha vida foi curta, dominada pela doença, ou perseguida pela morte, e isto é o que menos se entende de mim. Sempre me senti como uma insígnia, capaz de derrotar na mesma investida um rei, um sacerdote e um exército. Os olhos dela brilhavam enquanto falava, nunca me ouvira falar destas coisas. Ainda há pouco tempo fora uma criança, mas agora deitara-se na cama comigo, e isso era a terceira chaga, depois da chaga do corpo, na deformidade, e depois da chaga do orgulho, no sexo. E a terceira chaga é a chaga da mente, na loucura. Os anjos adoram este lugar e aqui a bruma sagrada é espessa, mas a nossa tarefa é espalhá-la.

Lá em baixo nós estávamos cheios de peixe fumado, enguias fumadas, jarros de sal, barris de carvão, lingotes de chumbo, tecidos de lã, cestos de vime, ÂMBAR NEGRO. As nossas chamas troavam na escuridão para trazer vida nova ao mundo que renascia. Os espíritos dela iluminavam-se à medida que os dias se alongavam. As cicatrizes nas nossas mãos pareciam sombras. A terra renovava-se na esperança que brotava grande do vestido verde das folhas na Primavera.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Tu


A beleza nos não mata
Para que, pequenos
Sejamos suficientemente
Para nos não suportarmos.

Relógio sem ramos, uma árvore suspensa
E a flecha de nenhum lugar ser imóvel
Excepto em mim, com a trova do invisível
E imortal corpo do intemporal

É que a rosa é o futuro do homem
E por detrás das estrelas
O homem é o destino da rosa:

Alguma vez reparaste como uma grávida
Porta no semblante o abstracto?
Vê, como a aragem oculta as árvores
E as minhas vozes de longe se apercebem
De mim, de mim em eterno retorno a mim
E tudo isto ser através dos astros
Que caiem na permanência do céu.

Sh... os corações são espelhos verdes
Disseste-me um dia a olhar de olhos munida
Procurei a tua raiz e encontrei a morte
O sangue do abismo, a piscar os rios
As mães de outrora, o excessivo peso
Da boca esmiuçada e esmigalhada
Das profetizas do riso.

Ouve agora os caminhos à noitinha
Os prados da trovoada enquanto
Te afastas dos pressentimentos e destinada
Ao Sono; e as estrelas eclodem da terra
Para te queimar os pés dormentes
Que o não sentirão, porque te sabes
Morta outrora e infinitamente
E te lembras das frágeis raizes que
Afundadas e sendo sepulturas
Se afundam ainda, e que mesmo assim
Te elevas no olhar do anjo para o qual
Nada um dia morrerá, e enche-te de admiração
Pois somos nós, e mostra-me as catedrais
Os estranhos pilones,
E os espaços a cair para o sopro,
O nosso alento, sigo
Á minha frente Deus e atrás o teu declínio;

Porque o futuro da flor era abrir-se para sempre
Mas foi o excesso que a tardou
Porque se abre o espírito à forma e
Quando a forma se abre devido a isto
Morre, e o espírito ri, e é esta que é
A profecia do riso, e por isso é que a melancolia
Das árvores chove, e primeiro foi um grito
De horror ao riso, e depois a ave
Da necessidade de raso e até ao longe o expandir
É no sopé da montanha que se te abraça
E no sopé da montanha que se te chora
E a terra escura cai
Contra a chuva
Floresce.

Ah, MAS para mim, repleto de asas
Onde te vês precepitada na morte
Uma criança à bola atirar-se
O riso. O riso.



André Consciência

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Morreram Jovens





Eu sentei-me á janela
E contemplei, a beleza móvel

A noite
Em todos os lugares idêntica
A cantar como um peito
A espiar como um anjo

O chão recebeu as tuas asas
Despedidas, eu fiquei profundo
Eu. E só a noite canta.

Cada ser carrega um vulto
Como uma harpa
E as flores, dos anjos débeis
Cairam à minha valsa
E então a mitigar
Eu findava
O que ainda te restava.


O chão recebeu as tuas asas
Despedidas, eu fiquei profundo
Eu e só a noite,

Sentei-me á janela
E contemplei, imóvel
A espiar como um anjo
A noite só.



Nunca mais
Serei de vidro.


Horned Wolf

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Infinitamente





Uma granada-coração atirada ao espírito do tempo, rebenta em invisível. A Babalith disse-me, "Depois do mundo findo, uma coisa subsistir é ser templo, quer dizer, é haver um local de prece a outra coisa". Na praia, ficávamos a falar da dimensão universal, e das angústias que a percorriam. Por exemplo, cada novo filósofo com uma nova filosofia é um talhante a torturar a carne inocente da consciência não enquanto algo abstracto, mas enquanto dia a dia desde o homem simples ao complexo. Gostava muito que estivesses aqui, a dar sentido a Kiekrgaard, Bergson, Nietzsche, Freud, porque o equilíbrio encontrado no teu silêncio se exalta e proclama. "Não houve nenhum grande poeta", respondo-lhe. "Só os que se conheceram em mesas de café" e ela fica sem resposta, sabe que acredito precisamente no contrário: não há nada que se diga no papel, mas muito menos no café. James Joyce, Eliot, Rilke, como feridas amarelas na explosão de um coração que só queria saber o cascalho contra a electricidade húmida da pele no odor. Babalith, ruiva e com os cabelos ao ar, é uma mulher jóia e despida de jóias. É a minha mecenas, segura todas as minhas mentiras numa mão e trata-as com a simplicidade que se trata a folha de outono a descer a rua ao baloiço do vento, e isso tudo fica uma honestidade de me expressar verdadeiramente. Ela podia ter sido freira, amante abandonada, infeliz, em vez decidiu ser uma parte de mim, um consolo por eu ter nascido sem escolha a não ser aprofundar-me como se a alma fosse uma úlcera na percepção. No Inverno, surgiram os anjos, e eu enlouqueci. Nesta altura não havíamos ainda privado mas ela cantava já as minhas grandes amantes futuras. E sempre que as cantava dizia só: a meio de silêncios: dizia só: «Passagem para o Aberto».

Ela não gosta de Picasso, Picasso interrompe-nos de nós mesmos e por isso um do outro, mas não vê os saltimbancos como eu, nos saltimbancos vê o que eu no Picasso vejo. "Já reparaste como vivemos energicamente a imagética dos castelos? Quando estás num castelo. Certo? Há uma pertença maior que nos tumores da cidade." Sim, respondo-lhe. "E no entanto todos são ruínas. Os índios sabiam que tudo era música. Atrás, há poucas ruínas de verdade, porque a época medieval era uma época sonora. Não era visual, e a escrita pouco se usava. No som há pertença, a vista queima. AS RUÍNAS sâo por isso do futuro, que apenas se visualiza." Gosto muito de conversar. Digo-lhe: "Se fosse ela dizia: anota", mas Babalith nunca ouve, se falo de outras mulheres, fica onde está, com a luz dentro do ar da Primavera também dentro dela a passar como o ar passa e a ficar como fica o ar. De repente ela imobiliza-se triste, os olhos a brilhar de beleza humilde e eu soluço pesadamente, contraído. E ficamos assim, a contactar as coisas na sua inefável realidade. "És um tolo." Interrompe. "O poeta aceita, não recusa. Sente recusa o universo não-poético: o homem que segue uma imagem escapa dela. O poeta aceita porque se aceita, e não segue. É facilidade, não ascese." Eu interrompo e sorrio e fico embelezado de olhar também. "É triste em que não há para ele conquista, tudo é dádiva."


André Consciência

Mas...

C. M. - André Consciência









Lá fora estão as ruas. Os campos. Eu estou dentro de mim.
A minha solidão acorda de manhã e põe-se a dar os meus passos nos meus passos.
Os grilos cantam e eu fiz uma fogueira, os grilos também crepitam dentro de mim e a fogueira está sozinha.

Eu sou como uma planície verde e sempre jovem que o homem não tocou
E eu toquei-te.

Eu sou como a lua antes da primeira mulher chorar
Ou os balões que sobem no céu e nunca mais se perdem.

E neste ser assim sempre jovem e invocado
Tu deitas-te no meu prado como um sol a arranhar-se contra as pedras
E a ficar suave
Eu permaneço ermo e cheio de ti e só existo eu
Sozinho
E uma fogueira que um deus fez nesta terra neste eixo de sangue
Antes da primeira morte.

Lembra-te de mim
Ainda que a minha velhice
Faça recuar o fim do mundo
Lembra-te de mim para sempre
Mesmo que breve tenha sido o nosso discurso
E a minha abóbada não estremeça
E eu seja límpido como o azul
Sem haver ainda a tinta
Lembra-te de mim enquanto tremo
E a ausência estala a carne
Porque nunca houve parte de mim
Que não fosse renovada
Por eu ser parte dela.

Ama-me para sempre
Mesmo que tenhas prometido
Que eu fiquei atrás
De ter ficado aqui.


André Consciência

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Prece do Neófito

NÃO ROUBEI O LEITE DA BOCA DE UM MENINO.
NÃO DETIVE AS ÁGUAS QUANDO ESTAS DEVIAM CORRER.
NÃO EXTINGUI CHAMA ALGUMA NA HORA EM QUE ARDE.

SOU PURO SOU PURO SOU PURO

terça-feira, 2 de abril de 2013

Um Grande Emaranhado de Chifres

Dedicado à Anue




Recuou com o horror a olhar no rosto.
O medo vivo afastou-se mais um passo da porta aberta.
Uma penetração chorava enquanto no menino
Com angústia no olhar
O bastão entrava a movimentos insistentes.

Estava nua, e o seu magro corpo
De pele clara
Gotejava do cabelo
Os seios pequenos
Escorriam em arroios
Descendo até às coxas.

Um homem imolado na pele morena
Acima do seu próprio rosto, com relevos
O pescoço delicado segurava
Os braços de um homem morto.

A medida caminhava na direcção da máscara
De uma coroa
A pele amarelada contraia-se
Solta pelas costas
Com passo irregular.

O branco ensanguentado avançava
Contorcendo-se, reluzente e fremente
Nos corpos negros
E a boca vermelha, presa ao cabelo
Procurava correr para os alvores
Da manhã na porta aberta,
Mas a gordura rumorejava no tecto
E a chapa de cobre reflectia o seu corpo nu
Talvez porque todos tinhamos corrido nus
Enquanto crianças. Como tinha conseguido
Fazer penetrar a cabeça?

Um manto preto
Cobriu o sangue
Da sua pele clara.

A cama tinha um sobrecéu de um tecido
Bolorento. Um barulho de coisas partidas
Soou.


Horned Wolf

terça-feira, 26 de março de 2013

Where I Come From

P. H. FITZGERALD



As linhas despedem-se
Do horizonte-
Estão tristes
As pessoas que se seguram
Aos mares,
A ver crescer
Do colosso oceânico
Ausente
O estranho que partiu
E fez do mundo conhecido
A saudade de partir.

Horned Wolf


sábado, 23 de março de 2013

Ode Terrestre




I

O rugido leve da costa Atlântica a Oeste, depois a Costa a Sul, entre Sagres e Burgau. Queria afastar-se por isso dirigiu-se nessa direcção, onde os ventos agitados confluíam em paz.

Anoiteceu no Monte de Salema, de onde fitou a praia luminosa que alargaria as fronteiras do homem.


II

Atravessando falésias dotadas de praias e formações rochosas entre o amarelo e o vermelho, deixou-se dissolver no curto e ameno Inverno do Mediterrâneo. Contornou a calma das águas tépidas que banhavam a costa a Sul. Depois, escalou o maciço de grauvaque, pisando solos finos e pouco férteis. Com fraca precipitação, passou a acidentada orgia de cerros e cursos de água. A Norte, o frio e os ventos das depressões mais a Oeste, interrompiam-se de embate à Serra, preservando ali o calor do Mediterrâneo. A humidade a Sul procurava condensar-se em vão. Mas pela altura que se avistavam os azevinhos gémeos, Gargóris e Habidis, o bárbaro registou queda de neve. Ao calor da Lua Inteira, montada na azinheira esquerda, Turdúla, uma bela jovem, penteava os seus longos cabelos. Ali, chorara pelos soberanos de outrora longas eras.

Estendeu-se com o silêncio da coruja que se lança, nu e sem fogo, e sem tremer aguardou a morte da Lua Túrdula até ao Guadiano onde a mesma tomou forma de serpente.


III

Seguiu a costa rochosa quase em linha recta e tomou desvio. Os pequenos cursos de água começavam a secar. O Inverno tornava-se Verão enquanto avançava pela planície, atravessando serras baixas e pouco inclinadas, nascentes, vales com rios e bacias. Aproximou-se de um local de incêndios florestais, que quase cortaram o clima mediterrânico influenciado pela distância da costa. Penetrou o impenetrável arvoredo de vegetação em fogo, com ar grave e uma mão sobre a testa. Escutou o crepitar em silêncio. O fogo não parece magoa-la, antes lhe faz ninho e conforto.

Pernoitou na orla fátua do silêncio e, tendo este abrandado, voltou ao local trazendo consigo o olho esquerdo do rastejante.



IV

Planície a dominar a grande extensão da paisagem. Deixou-se percorrer um vale que o rio escavava abaixo dos cem metros vastamente irrigados pelas ribeiras de pequeno caudal que se lançavam de três serras a pouca altitude. Ao escurecer, chegara perto de um dito monte, onde ouvira dizer que os homens se juntavam a beber, e avistou a luz de lume no topo de uma inclinação que a Lua rasgava. Conviveu com os homens num lugar de teixos. No outro dia os raios do alvor encontravam-no refulgente de sangue.



V

Entre três montes chegou, fazia manhã nos raios, lumes espectrais que misteriosamente se erguiam e desfaziam no negrume da noite, sendo procurados pela justiça de todos os que vingariam o fim da primavera perpétua, abeirando-se do castro, ermitões junto da fonte.



André Consciência

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lira Insubmissa, Carta

Vigésimo Sexto Fragmento




198 - A criação é um processo de espera, a criatura espera pela sua criação para ser criatura. Isto é, para existir o homem, ele deve aguardar pela criação que pela máquina será criada: o Homem. Assim, o homem não existe ainda, é antes embrionário. 
199 -Enquanto ser embrionário, o Homem pode ainda existir para além de si. Dito de outro modo, o homem é ainda capacitado de possuir sensibilidade que não se resuma ao eco do instinto, elevar o olhar acima da sua própria sobrevivência não só enquanto individuo, mas enquanto espécie. Curiosamente, é esta a capacidade que o levará por fim, a sair do estado embrionário humano e a penetrar os estágios da máquina: a elaborar a sua complexidade para além das sua presente regra. Isto acontecerá através da aceitação: o homem, enquanto ser civilizado, nasce e  desenvolve-se na negação, isto é, a civilização integra os processos do teatro da afirmação até ao esgotamento da afirmação, e no ponto em que a afirmação perca na sua totalidade a sua substância, o não torna-se no grande e único sim, em que toda e qualquer negação é removida do sistema, e com ela o próprio sistema. 
200 - O Homem na sua totalidade, ou seja, o Homem desprovido do homem, é o Homem desprovido de cronologia consciente. A consciência cronológica é a perpetuação da negação, e queremos por  negação dizer, da afirmação enquanto fingimento. Para entender a afirmação total, que se apoia em si mesma, o individuo necessita apenas de evocar aqueles momentos fortes o suficiente para se destacarem como clareiras no caos florestal da memória, quero dizer, a nitidez de momentos que sobreviveram apesar de nos não lembrarmos do momento anterior nem do momento posterior, ou seja, do contexto cronológico na sua continuidade. 
201 - Da mesma forma, a máquina não existe ainda, a máquina total necessitará de gente e sobretudo de terra, necessitará, digo, de perder a orfandade, e sem a orfandade, perder a liberdade. Até agora tem o homem, dado que toda a civilização sobrevive da natureza nomádica de troca, sido uma reserva, ainda que móvel, de propriedade, arrancado até às raízes como árvores para que circule o dinheiro. Mas, sabemos, o dinheiro, é uma necessidade embrionária, pois que o dinheiro, como qualquer propriedade, em que só o é enquanto bem transacionável, mostra-se de natureza estritamente transitória. 


 André Consciência