sábado, 16 de junho de 2012

Noite, Lisboa




Vislumbro o meu rosto, no vidro baço, o meu corpo, exulto em sombra. Os demónios nocturnos da cidade uivam e guincham e não abafam risos de hiena, por vezes, derrubam também um contentor. Eu lembro-me de que nunca fico assim, mas quando uivo, e uivo melhor que os lobos, não é para as ratazanas. Contraponho a minha embriaguez de fogo com esta corrente de urina. De vez em quando, a passos silenciosos e quietos, dou a volta ao quarteirão, outras permaneço exactamente imóvel nos  bancos cinzentos do palco de cinza ao lado da montra do "Amo-te Chiado", que é desenhada com um coração vermelho de vidro. Movo só a cigarrilha ou a chama que há na cigarrilha, quando puxo. Se passam reparam já muito perto, em mim, e os demónios enchem-se de um horror calado e voltam a tornar-se ruidosos só no topo das escadas. São quatro e meia da manhã. Não estive sempre aqui, mas muitos becos cheiravam a mijo. Penso que poderia estar a escrever, se tivesse papel. Ás cinco,enviei uma mensagem, ouvia-se o ruído electrónico das teclas ecoar em toda Lisboa. Hoje, Os Bardo Cego, projecto de música/teatro improvisado, que mentorizei e onde actuava, foram censurados, tendo assustado, e recordei-me só no barco às seis da manhã, do caso de Artaud. 


"O Caos é uma Ordem por decifrar", diz a parede no Campo de Cebolas, uma frase que cintila na restante treva da pseudo-filosofia dos dois edifícios colados e decadentes. Os Santos Populares foram há não muito, existe uma esplanada montada perto dos táxis que permanece activa, os bêbados e as bêbadas trocavam piropos, as bêbadas, com roupas populares, olhavam-me por baixo das luzes populares, e os homens, pensavam em pedir-me um cigarro que, apesar disso, não pediam. Ao passar pelo arco no terreiro do paço, houve um grande curto circuito a um metro e meio de mim, os sinais de trânsito foram interrompidos. A seguir havia muita polícia, e o Continente montava, na penumbra das não-testemunhas da noite, um estaminé de palha e madeira, que, como sempre, me impede de caminhar a direito, ocupando espaço e silêncio. Agora estou sentado com a única cerveja que bebi, no Campo das Cebolas, e, depois do ruidoso acelera que a rasou, observo a mulher polícia que foi colocada sozinha no cruzamento.  Esta, observa-me reciprocamente, numa conversa indiferente. Levanto-me a passos demorados, há-de haver um barco.

Neste momento e neste país sou relativamente reconhecido, os grandes pedem-me favores, mas eu, que mal tenho de comer, e não tenho como pagar aos meus artistas - que me nutrem ainda assim uma esquisita admiração - sou um porteiro, à margem da "civilização". Hoje perdi grande parte do que me resta: quando vislumbrei o meu rosto, no vidro baço, e o meu corpo exulto em sombra, senti-me, como é hábito, forte e duro como as rochas, e desejei ter poder para acabar com o meu corpo de montanha e a minha alma de céu, mas sou pequeno como o pardal nas estações das quais é Deus e ignorante.

Um amarelo torrado rompe o céu a meio-Tejo, uma miríade de anestesias e estimulantes diferentes racha-me a consciência, e tudo está parado.


André Consciência

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Em Busca da Origem do Nilo


sen benim zamanımsın


Agora,  para onde quer que olhássemos
Víamos grandes árvores
Com vastos espaços verdes entre os fantásticos
Troncos, à distância, monumentos
De granito cinzento
Nas planícies de erva amarela
À sombra frondosa dos bosques
De acácias, começaram a mover-se.

André Consciência

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Arquivo

I

Pela espuma da manhã, passam,
Nus, os teus membros.

Saúdo-te, os teus seios pintados
Num poema que do corpo não fala
Nem descreve a sombra alta
Do teu vulto na manhã.



II

A espuma do crepúsculo rende-me
E o corpo,
Despido e vencido
Debaixo daquela manhã
Descreve-te horas a fio com vento
Que me passa na pele, no cabelo,
No papel.


André Consciência

sábado, 12 de maio de 2012

Albatroz Errante




As estrelas na carência.

Eu, também, um dia
Fui de Sol, sentia-me a nascer
A luz quente de enternecer.

Morremos, se morremos,
E gloriosa a chama há
Dessa incumbência
A latência da latência
De um dia matar
A solidão de todos
Os outros dias.

Nada passa, nada consome
Mas contra a costa um barco
Enfurece, e tudo em nós
Se torna cântico de nenhuma voz,
Que só ouve... o albatroz.


André Consciência





É alto mar, por vezes, a marinhagem cai
E caça um albatroz, ave enorme e feroz,
Que num voo triunfal, numa carreira assaz
Faz seguir pelo azul a viajante embarcação.

Mas quando o albatroz preso, e suspendido
Nas tábuas do convés, - pobre rei em vão temido!
Que dó nos traz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para os pés!

Rei do espaço, eis perdido o seu nimbo!
Desproporcional e gentil, ei-lo grotesco e imbecil!...
Ao bico um leva o fumo do cachimbo
Outro mutila a pata da ave inerme.

O poeta é como esta marinha águia
Que desdenha a bússola, e afronta os vendavais;
Exilado em terra, entre escarninha plebe
Não o deixam caminhar as asas infernais!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de André Consciência

domingo, 6 de maio de 2012

Since 1985


Deste ponto a ponto distinto
César vive e espalha a sua rede
De pescar espíritos.

Nos anos trinta, a Queda do Homem,
Na altura eu e tu comíamos pizza
- Em Leiria -
E na televisão os coros apostólicos
Rodavam as nossas cabeças com
Canais da MEO.

Nos anos subterrâneos era tudo
A Palestina, com os super heróis
Mitológico-americanos
A rir-se debaixo da Lua
Dos monhés armados,
Eu fumava na banheira
O cigarro que tu também
Experimentavas em mim o bâton
Que nunca usaste em ti
E com água nos dedos
Lavavas-me lábios.

Nos anos 40, a Casa Branca mudara-se
Para o fundo do oceano, e ali escondia
As suas mentiras; à superfície
As habitações ardiam.

Era a Noite dos Mortos
Eu estava desesperadamente só
E o telemóvel, que me não deixava
Paz.


André Consciência

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Seal of the Prophets

Lucifer - Guillaume Geefs 

Quando o Sol desmaiava no horizonte recortado de granito, eu prosseguia. O deserto à minha volta, imóvel, movia-se ameaçadoramente. Tão intenso que mesmo o meu espírito forte se sentia igualado. A minha coluna ondulava como uma serpente ferida pelos filões de rochas negras e pelas dunas de tons verdes, seguindo a estrada antiga, ao longo da qual nenhum viajante se conhecia haver passado. 

Quando a noite por fim se levantou sobre mim, o céu ressuscitou com tantas estrelas eclipsantes e a areia do deserto encontrava-se tão brilhante, que do lugar onde eu ia a trezentos passos conseguia ver a estátua da humanidade, longe de todos os homens e de todas as mulheres.

Horned Wolf

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Elefantina























Travels to discover the source of the Nile - James Bruce


O estreito começava no rio
De cada lado, a terra verde
Com faixas.

Através de nós
O Sul navegando
Mais e mais.

Apertava-nos o que parecia ser
O deserto.

A conturbação do Nilo sobre as águas
Debruçava o seu peso verdejante
A esmagar os campos de granito negro.

Penhascos altos entre passagens
Estranguladas, e selvaticamente
Açoitadas.

Os estreitos empurravam uma corrente
De ilhas asfixiadas.

Um tubarão monstruoso
Persegue os baixios
De carácter e cor distinta
Usurpador do deserto no rio.

O calor na miragem dançava
Salpicando montes negros.

Estes desertos tinham em comum
Ser assassinos do homem.

Um rio de prata
Incrustava-se na coroa verde
E reluzente

Uma sombra esverdiada
Em forma
De guarda-chuva

O palácio do faraó estendia-se.


Horned Wolf

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Chunguila

Tatiana Portrait - André Consciência




I

Tu, ao anoitecer
Tremeluzente sobre o rio
A gotejar um voo triunfal
Tilintavas a despedida solar
E arrepiavas-te ao ver-me
Escrever deste terraço
Sonante e sentado

Mas tu maior que eu
A escapar no meu poema



II

Ao crepúsculo, sentado no terraço
Vejo Oeste tomar o mundo de surpresa
Com flores cansadas atrás de sombras
A brilhar envolta de colinas

Arde contra a corrente obscura o verde
Do castanho nos teus olhos, e pairas
Entre o dia e a noite, móis a luz
E cozes uma tapeçaria de projecções

Furas debaixo das pontes, uma súbita
Tremura de ar contra si mesmo
A ondulação pára a água
E os pardais deitam-se tarde.


André Consciência

domingo, 22 de abril de 2012

Mistress






A cobra veio ao poço
E eu, de pijama,
Num dia de calor
Á sombra funda e estranha
Com perfume da macieira
Ladeando a escadaria
Onde se espera
Descer o poço.

Ela entrou na soturna fissura
Da muralha de pedra
Amarela e suave e toda uma barriga
A fazer o fim da pedra
A descansar toda garganta
No topo da pedra
Onde a água mais pingava na ascendente
Vertical ela bebia de boca direita
Glandulas lânguidas e silêncio húmido

Eu esperava, e o meu poço
Não era meu, a cabeça ela ergueu
E baixou, e mais bebeu.

E o meu poço não era meu,
Mas eu era negro, negro
E inocente, e ela dourada
Resplandecente.


Horned Wolf

O Verão da Noite






Uma mulher alta, avançando
Na ondulação dos seus cabelos de dormir
Tropeçou no quarto encoberto
Do silêncio fora da porta do quarto
Entrando viu uma pira e um homem
Que a pira erguia à espera

De arder.


Á vista disto, empinou-se
Pés erectos como um arco esticado
Ou a proa de um barco, esticou para trás
A cabeça, e ficou a ver as sombras
Num mar de neve, com sinos de gelo a tocar
E ela viu-o, a cair como feno em chamas
E deitou-se como um fantasma molhado e um
Tapete, no solo abaixo

Suave como a pétala que cai
Da flor, sem ser ouvida
A entrada eclipsada, o olho escuro
E grave do seu sexo, afundou-se no esquecimento
Em orgulhosa sucção.


Horned Wolf

Comedor de Branco
























Night Train - Kent Whitaker



Um comboio
Caia da linha
Para o espaço
E um meteorito
Desaparecia
Para dentro

Uma realidade
Caia da ilusão
Para os olhos
E um trovão
Ejectava-se para cima

Os olhos caiam do comboio
Para o comboio que caia dos olhos
E o tempo despedia-se
De outro tempo


Horned Wolf

Vou Nevar

Verge - David Jay Spyker



O sangue do Sol é a névoa
Com as suas coxas cinzentas
E espasmódicas

Como penhascos a abundarem
Na sombra do oceano
Em cinza.

Os becos sem saída enterram
O sexo na areia do descampado
Suficientemente longe para escapar
Ás investidas da manhã.

O meu elmo embaciado
Reflecte o movimento aéreo
Dos anjos altos que avançam
Pela treva alerta e sobre nós.


Horned Wolf

Som Branco







Ao sairmos do bosque
A Grande Luz
Içou a noite
Vestida de branco


Tu, o que serás
Tão justa - o cintilante
Passo desajeitado
E vestido de branco.


Como qualquer campo
Em neve e quente perseguição
A ofegante noite afagou
O nosso rosto.


O corpo aquecido da noite branca era
Como os perfumes da tua garganta
Acendida na noite e branca
Uma estocada que encanta.


A pulsar por toda a fusão de nós
Uma coisa que escapa sem escapar
E uma raiva colosso, a morte
O cintilante passo desajeitado
E vestido de branco.


Em reverência e êxtase
Inteira e branca, a noite
Fita mudamente a árvore negra
Que desflorou para dentro
A transformar-se, no fantasma luminoso
De um anjo indecoroso.



Horned Wolf

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Aleph



Cristo pestaneja. A Lua à sua frente rege um movimento, a noite negra da alma espalha-se no chão, escorrendo do astro ferido. A morte entre um passo e o outro, o caos e a destruição estendendo os braços, querendo arrasta-lo para o estado de graça. Bebe o vinho de uma virgem, pois todas as virgens são ainda serpentes - ninguém se torna virgem sem antes cair do céu, e ninguém sobe, sem que, ao descer, ela tenha marcado o caminho que esqueceu. "Um dia, destruirei a civilização e descobrirei por isso Atlantis..." - "O Cordeiro, expulso do reino celeste, sofre o amor de Deus, mas o amor de Deus é a Serpente e a Serpente é o Céu" - "Os licores do Sol pode o homem beber numa mulher, e os licores da Lua bebe a mulher num homem, se para as bocas um do outro verterem todo o seu sangue"

André Consciência

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Camélia Incendiária




Há-de nascer em mim uma última camélia
Naquele momento em que tudo o que
Alguma vez fiz acreditado, ceder
E ficar a noite comprida sobre
Os nossos ombros gastos e marmóreos
Com a Lua a coroar o abismo
Das coisas existirem, e isso ser
Absoluto. Os teus cabelos mortos.

Os nomes de todas as raparigas
Passarão a ser luzes no fim do mundo
E elas não serão. Um último corvo
Numa última manhã, turva e curva
A pender já para a noite
Que nos encerra aos penhascos
Da existência luzidia.

A mãe, o pai, o irmão, o filho
Se o houvesse, transformados na cinza
Que me cobre os olhos vítreos
E arranhados no alvorecer.

A última glória
Despida de glória.
A vida não vale.
E que por fim a tocha arda
Pesada no corpo
E nada dê aos homens
Que não a sombra dos anjos
E o engano constante
E precioso, de se continuar
A traição, de se continuar...


André Consciência

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sol em Taurus




Uma chama lambe a forma vazia de conteúdo
A nossa fluidez correu com os touros
Nas planícies iluminadas do hospital
Uma mulher em gesso, nua
O touro firma os seus cascos
Chegado à terra, o homem lembra-se
Que aquele que não brilha com maldade
Será incapaz de bondade
Nos relógios
O Sol quebra o limite dos dias
E o touro finca-se
Os pássaros sopram
Na boca vaginal
Da semelhança
E um olhar apavorado
Trespassa, concentrado
A incompatibilidade.


Horned Wolf

quinta-feira, 29 de março de 2012

The End of Orgy


Susanne - Saudek



Luz da manhã, Sol anterior
Ao Sol. Habita este tabernáculo
De flor e deserto,
Desterra o pensamento
Que é escrever as linhas suadas
Da vida em esturpor.

Que a ave não tenha asas
Ou o poeta coração
Que o pintor seque seco
E a luz na escuridão
Ou serei o santuário
De todas as canções
Que a morte não calou.

Feiticeira das auroras
Cujo cântico é o cântico
De todas as demoras
Olha para mim e ver-me-às
Sem braços ou pernas,
Membro ou língua
Olhos ou dente
E desfaz-te do teu abraço
Para que seja o meu abraço
Quando não tenho cauda
Ou membros ou luz

Tu, tu que me amaste
Quando os quartos foram escuros
Prende-me à tua memória
Um crucifixo niilista
Da translucidez
E do outrora.


André Consciência

terça-feira, 27 de março de 2012

Dug Our Treasures There

No pôr de Vénus um amor
Do tamanho da brandura aconchegada
Que te são os olhos
A dizer-me: saúda o limite
Dos tranpolins dourados do desejo

E como se eu não te visse
Carrego a penugem sombriada
Dos fins do mundo
Com ofertas de outros Sol poentes
Que embrenharemos na solidão
E a rompemos

Ah, janela à Lua
Pele do meu calor
Carmesim.
Da morte
Sabem não saber
O teu rosto
E nada sabem.

Há homens que se despenham
Na noite interrompida.
Nós somos cobras nos trigos
Da manhã.

Ama-me
E eu saberei amar
O fim de mim.


André Consciência

terça-feira, 13 de março de 2012

Malak VII

No terraço, com a vastidão verde do Nilo à minha frente, untei-a, na sua nudez, de mel e leite de cabra. A luz do pôr do Sol incidia na vela solitária e eu senti a minha alegria a encher-se.

Acordei antes do alvorecer ainda com o terror a pairar sobre mim.

domingo, 4 de março de 2012

O Sopro de Hórus


Horus Blowing - Babalith


Asas de ganso em pleno voo
Luzindo ao Sol
Rastos de múltiplas ondinas
Espraiavam nas águas plácidas
Um enorme leão de juba negra
Com a sua lança de bronze
Entrelaçado para fazer uma corda
Retesado(s) e saliente(s) no orgulho
Do esforço
Asas sussurrantes encobriam o Sol
Das plantações de papiro
Em densa nuvem
Ìbis pretos e brancos de vulturinas
Cabeças e plumagem escarlate
No centro do peito

Um redemoinho pesado e volumoso que fez o meu ânimo
Estremecer.


André Consciência

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Malak VI



A nossa última noite foi por entre árvores que cresciam na estreita língua de terra entre dois rios. Amarrámos o barco à margem e depois acendemos fogueiras. A noite estava quente e seca. Fizemos um cordão de fogo de uma à outra margem do rio para não deter os anjos, vigiamos para lá das chamas e alimentámo-las na escuridão. Depois reunimo-nos para entoar cânticos, até que o cansaço nos venceu. Envolvemo-nos nas nossas capas debaixo das árvores. Escutei os ruídos do rio, enquanto ela respirava, até os sonhos chegarem.


Horned Wolf

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Diário de um Vagabundo




O mundo morreu! Sim, morreu
Isto vos digo; A minha razão
De viver assim renasceu…
Quem sou eu? – Perguntais:
Mero caminhante e sem abrigo.
“Pobre infeliz” dizei – Virai a face
E escarnecei. Filho das ruas e do vento
Corpo sem espírito nem alento

Prevaricador desavergonhado!
Sanguessuga social desmoronado!
Abro o peito sem nada a perder
Admitindo o desalento
Face ao mundo em retrocedimento;
Um poço sem fundo a enegrecer.

Ide então… vendei vossas almas
E vossos corpos à sociedade;
A morte caminha sobre nossas auras
Em passos largos de finalidade.
A insignificância de onde vivemos
Nós a criámos; Esgotando esforços
Nos lugares errados.

Akila Sekhet

o irmão estava a pensar

No tempo entre a sua elevação a deusa e a sua morte no fogo do Sol

Todas as manhãs guerreiros que lhes abençoasse as espadas pescadores tocava nos barcos

Túmulos abriam as enormes pedras para o seu cavernoso interior

misturavam sombras húmidas

jovem dourado pelos vales embriagados onde o povo lavava

simples circulo governava a região


Horned Wolf

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Túmulo

O Túmulo - Emanuel Pereira


Os salmões voltaram
As gralhas cresciam nos ulmeiros
O cucu cantava onde o gelo do Inverno
Tinha fechado o rio.

As graças banqueteavam-se
Com os patinhos do Mai
As libelinhas esvoaçavam
Por entre os túmulos dos antepassados.

A Primavera avançava sobre os veados
Os chifres mudavam, o pêlo cinzento
Os campos eram lavrados
Por entre os túmulos dos antepassados.

As mulheres sacrificavam um cordeiro
Os peneireiros voavam sobre o tempo
Asas azuis flutuavam, as orquídeas floriam.

O Verão calava os tordos
Mas não os túmulos dos antepassados.


Horned Wolf

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Malak V




Quando a escuridão da noite era total e as fagulhas rodopiavam no céu, correndo entre as estrelas brancas e duras, doze raparigas nuas iam passear-se pelo círculo de fogo, onde os homens as perseguiam. Os anjos, que até ai haviam dançado junto ao anel de chamas, detinham-se para verem as raparigas esquivarem-se do desejo, às voltas. Porém, uma a uma, as raparigas eram apanhadas e cobertas.

André Consciência

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Malak IV


Annunciation - Boticelli


Os homens aproximaram-se mais das mulheres, ao entrarem na mata, e os anjos receberam archotes, aos quais foi ateado fogo com uns carvões em brasa levados em vasos de barro perfurados. Os anjos (rapazinhos) corriam para trás e para diante no atalho, agitando os paus fumegantes e gritando para atrair as raparigas que poderiam aparecer para engravidar. Lá mais adiante, as meninas tinham começado a cantar e o volume do cântico aumentava, à medida que o povo ia apanhando a melodia. Passou para os que caminhavam atrás, sem que os anjos se lhe juntassem. Um pombo saiu de entre as folhas, batendo as asas e partindo na direcção do Sol.

Horned Wolf

domingo, 29 de janeiro de 2012

Homem Azul


Blue Man of the Minch - Marion Boddy-Evans


0 - The Fool

. I like to watch the bulls, they eat the corpses
. . and I saw that it was good
. I have spoken to you
. Search for childhood


1 - The Magician

. Care not to explain
. . Act by instinct
. ' . Search no reason for your actions nor for others actions
: : Endure.


2 - The Priestess

. They gave the beast to the inner man, and told him how to act.
. . The beast stopped at will, to utter: I won't be corrupted
. ' . Therefore he broke his own prision cell and spilt it's magick blood. In this the spear of Will.
: : To act by instinct is to come to the perfect understanding of one's inner senses and outer limits.


3 - The Empress

. There is something that we remember still
. . A love not lost nor growing ill
. ' . There is a Way where we belong
: : Let it be inside all wild's god's song


4 - The Emperor

. A Titan, you my BABALON
. . Standing Sin on the Sun
. ' . All is still in your Will
: : Silence, and I know that you are God


5 - The Hierophant

. I am in the edge of the stars, as that litlle drop of melting semen
. . Mine is the substance that dares and mine the fall
. ' . If men fall not how can he dare, if men dares how can he not die?
: : Men must be broken, in order to rely on himself, says the reaper


7 - The Lovers

. Her's the waving music and her's the cube: both in union, both in paradox
. . Open legs to heal the wound
. . Now the dogs of envy ravish upon your soul
: : Let the swan go, and accept the dove.


8 - The Chariot

. I did spread myself in light for my delight
. . and I saw that it was good
.'. That my actions are as but reflections
: : Under the night of PAN


9 - Justice

. In brilliant gallant white
. . She comes serene, all confort's night
. ' . She holds my hand, and now we mend
: : Her's the Word of Light


10 - Wheel of Fortune

. Nothing comes out of nothing
. . Two points of light are beginning to contact
.'. There is a fire burning bright
: : To let their children loose, dancing to it's curse


11 - Fortitude

. You are heading down to death
. . All seems perfect, even the sky is brighter
.'. You feel like flying
: : But there is treason in everything: You are doomed to die daily


12 - The Hanged Man

. We all reunite, black roses, white dead bodies, we smoke and make a song out of a poem
. . We sing about the dead ages and call it the new way of life; we valse around the dead whore drinking bad wine
. ' . Aries circling upon me
: : I travel the world to the tall Towers of Fall;


13 - Death

. Once for sleeping, twice for dreaming
. ' . I will bind you to me and tell you: love me, desire me
.. Cold and exhausted
. We will make flesh out of love,


14 - Temperance

. He has the tail of knowledge, and the horn to wake the dead, make women pregnant, and call to war
. . There is an army of dogs, there are the dogs of envy, the master exorcists, and all those whirlwinds to attract the end and the begining of the world
. ' . There is a queen and that queen is lust, she sits on a throne for Therion to subdue, her's is the net ruled by the king, she is the net and he is the spider named "slaves shall obey"
: : The beast for the men, the men for the beast


15 - The Devil

. Lamed: death as an egg
. . There are no places, there are worlds,
. ' . they veil their faces to reveal their nature; they won't see you, because you think too much, you are the dream, but they the touch.
: : Now the virginal bird of wisdom eats it all, Do what thou Wilt, there is no fall.


16 - The Tower

. The Temple of the Black Egg and a Cross; The Temple of the Six Pillars and a White Singing Maid:
. . The Snow Vestal lights the candles. She is the light that flickers in the night.
. ' . The horned women is clothed with the sun: she is the dealer between the serpent that has risen and the bird who has fallen
: : The duty of all lovers is to battle.


17 - The Star

. Blank.
. . There is a secret in desguise, it can't be hidden from the light
. ' . In your realm your appearence will throw me back.
: : I dream of nothing but reflections now.


18 - The Moon

. I change to the colony of insects, I leave the hills of the sun and happily burn in the city of the night
. . a valkyre binds me to her body of stars.
. ' . I am granted three shadows from the world of the living
: : Temptation is the key to Initiation.


19 - The Sun

. . In your realm I call to thee
. . She turns to old flesh
. ' . Now if you see him, that mourns his soul-mate, the one with wounded hands, take no pity
: : Blind fear might drive you Home


20 - Judgement

. On and on, called by the name of correlation. Nobody knows there is something else.
.. We follow the train of our thoughts with heavy shoulders and deep voices.
.'. But I know what's on the other side, and I have come to the knowledge of a world outside.
: : I have entered trough the closed door.


21 - The World

.. The Keeper will smash my legs and will me to fall
. ' . she is the perversion of the Will
.'. But I know life is but a dream
: : at the door of Void


Horned Wolf

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ketsár-ruách



Luz

Pisei o templo, com luz no pescoço
Pulsante, o meu movimento
Era amor que vai contra o tempo.

Que liberdade maior, que ser-se Deus
Nas rotas infinitas de um adeus,
Ou o harpão de Neptuno
Nas mãos benditas de Juno?


Obra a Negro

Um Deus munido de conas
Arrastou-me a peregrinação
Do sangue
E largou do meu coração
Quebrado como uma maçã
Arrojada e podre
As sementes que hoje são voz.

Ah, por amor deixei cair
A própria dor,
Pesa-me a ausência
E esperar que cresça
No centro esvoaçante do Inverno
O Verão Eterno

Nas nossas bocas.


Saturno

Escuta, a luz parou de cintilar
Há aranhas nos veios tubulares
Que rodeiam a garganta, esganada
Deste cão negro e sem nada
Deste deus que se vira para morar
No traiçoeiro mar
Da luz sem vento.

Quantas ninfas se estendem para mim
Com seus membros de marfim
E quantos coros na voz de um serafim
E quantos eunucos se contorcem
Para a vivência palpitante do meu pénis
Com cores de arco-iris
E depois as mãos aguadas com sangue
Os membros lavados com sangue
As pernas de pau espetadas
No abcesso do que havia de ser asas
Pénis retalhados na mesa de cinza
Colocada sob a testa de um equilibrista sem peso.

Come rosas, aspirante ao fogo secreto
De noite olha o céu e não deixes nenhuma estrela
Sair do eixo, não fites tampouco o chão
Porque o chão esmaga-te.

Não esperes superar-te, massa de pó
E pedaços de marisco cansado.

Olha, como a tua amante te morde as feridas
E confunde o pus com a luz.
Esconde-te do mundo, sua merda.
Esconde-te do mundo.

Despedaçamos-te com uma multidão de sorrisos
E seguimos-te o rasto para o paraíso mecânico
Das velas sem pavio.


Lua

O açúcar amarelo, de manhã
A palpitar de embate aos resíduos
Do ar da noite.

Sabias que te amo? Amanhã também
E enquanto o globo for portador de electricidade
E a paixão for uma miragem, uma vaidade
E a verdade sair do cu
E não de Nu.


Mercúrio

Mercúrio, alinhado com aquele augúrio
De se falar sem língua nenhuma
E deixa que o filho esgane o pai
E do seu estômago escapem promessas
Com mandíbulas várias
Para comer assim devagar
O peito de quem ousa amar.

A candeia de vidro em prata
Derrete-me a pele, Pai.

Derrete-me a pele
E não há no mundo
Terror maior
Que perder a forma humana.


Vénus

Em Vénus, deveria escrever com desenhos bonitos
As figuras todas do fotograma
Dos teus movimentos quando vieste
Das longínquas espanhas.

Não temas, que eu me lembre de ti
O teu fogo é no meu, e será sempre
Aqui.

A luz do meu pescoço está no teu
Agora
E tu és menina que guardei nas praias
De outrora
Nunca mais dormi
Os meus olhos são estrelas
Ardem em ti
Quando os reconheceres
Dormirás
Para eu poder dormir.

Para eu poder dormir.

No fim de tudo.
No fim de tudo.
Praias lamacentas.
Nós bébés
Com placentas.
Por favor.
Nós bébés
Com placentas.

No fim de tudo
Um nenúfar abraça uma jóia
No lago escuro
Da solidão
Ainda o muro.


André Consciência

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Conto da Venda



A sombra das nuvens engolia a passagem, enquanto Miguel e Gabriel corriam em direcção ao Tempo. Gabriel estava nua, tinha frio e estava assustada. Miguel também estava receoso, mas o povo da fronteira era famoso pelas suas riquezas e a ganância de Miguel era superior ao medo de entrar no tempo.

Miguel dirigiu-se à antiga entrada Sul, onde uma estreita labareda levava ao fogoso interior. Uma vez atravessada a labareda, Miguel pôs-se de gatas e rastejou por entre as aveleiras. Gabriel seguiu-o com relutância, sem querer ficar sozinha na passagem quando estoirasse a ira de Deus.

Para surpresa de Miguel, o Tempo não estava completamente coberto de arbustos, pois havia o Espaço, no local onde se situava a Casa dos Mortos.

Alguém deveria já visitar o Tempo, porque as ervas daninhas foram arrancadas, a relva cortada com uma faca e apenas uma caveira humana se encontrava aí, no local onde se sentava agora um forasteiro, encostado à única coluna que restava do tempo. O rosto do homem estava pálido e tinha os olhos vendados, de modo a que não consumisse o mundo, mas o seu peito subia e descia, com a respiração.

Horned Wolf

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As Novas Criaturas - The New Creatures (excerto)





Frescas poças
de um terreno cansado
afogam-se agora
na paz do crepúsculo
Fraquejam nuvens
e morrem.
O sol, caveira laranja,
sussurra sossegadamente, torna-se
ilha, & parte.

Ali estão
observando
-nos tudo
será escuro.
A luz modificou-se.
Éramos atentos
até aos joelhos no ar palpitante
enquanto os barcos empurram
comboios a despertar.


Jim Morrison
Traduzido por André Consciência

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Coroa da Inocência


Death Crowning Innocence - George Frederic Watts




Um homem morto no meio da rua
Sem ninguém que o enterrasse

As valas estavam bordejadas de flores
Porque era Primavera

A morte encharcava os novos pastos
Os cordeiros brincavam, as lebres saltavam
Cresciam as anémonas e a murugem.


Horned Wolf

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

The Garden of Earthly Delights


The Garden of Earthly Delights - Hieronymus Bosch



Havia prostíbulos nas igrejas
Adivinhos nos quiosques

As crianças brincavam nuas
Algumas empunhavam
Pequenos cães irritados.

O cemitério espalhava-se
Pelos esteiros com as suas
Mulheres.

O vento cheirava a sal e a
Decomposição.

Um caçador coçava-se no canto do aposento
Um marinheiro no cais soltava uma chuva
Um demónio despido pelas ondas, corava.


Horned Wolf

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Iluminura

O homem atormentado pelas bestas, no códice Comentários ao Apocalipse, do Beato de Liébana


O Senhor caminhava sobre as aguas da Galileia
Abaixo, as almas caiam no fogo do inferno.

A única luz da igreja provinha
Da silenciosa língua de São Renano:
Tratava-se de um livro.

O livro sobrevivera à queda da cidade.

Senhoras vestidas de negro estavam ajoelhadas
A rezar na nave,
O livro por baixo dos sexos.

Soprou o pó e as teias de aranha
Colocando-as ao lado das velas.

Uma das mulheres sussurrou que ele estava
A ser ímpio.


Horned Wolf

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Retumbar Numa Caverna Profunda




Mostrou umas pernas
Quando levantou o vestido para calçar as meias
E parecia muito frágil
Ao mesmo tempo que levava um dedo aos lábios
Saiu pela escotilha da cabina para se vestir no convés
Pálida como a bruma e esguia como uma flecha
Uma rapariguinha.


André Consciência

Nas Sombras da Porta da Igreja

Gustave Doré


Focas e estranhos animais marinhos erguiam-se do leito do oceano para uivar à Lua em quarto crescente, começando depois a cantar acerca de marinheiros e de um cego que tocava harpa num canto da taberna.

André Consciência

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sereia

A tua pele, luar com mar,
Esmeralda com azul;
O meu intelecto perde-se
No teu braço.

Sem dor, separação, perda
Os nossos relógios acabaram.

As luzes da cidade
Com fogos secretos
Sentei-me na janela,
A contemplar.

Quando a água evapora
Há mestres que se sentem sós.
Mas até à tua pele
Os seus passos hão-de ser
Salpicados e espumosos
O seus mantos cheirando
A mar.


André Consciência

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Recollection



I

As ruas eram escuras


Como sombras de homens no fogo.

II


Um clarão, flutuava como um Sol cicatrizado e meio comido, por alguém sobre ele sentado.

Tinha mãos rasgadas e escurecidas, mãos de trapo, o corpo era meio sangue manchado meio transparência, 
a cara era pálida, os cabelos longos, uma cartola escondia-lhe os olhos, e a boca um corte pequeno. Era um 
homem mas usava uma espécie de saias de árvore descascada ou talvez de rede de pesca. Era uma veste descosida, como a sua barriga. No peito, seguindo a linha da coluna afiguravam-se quatro circulares fendas, como que corações esvaziados. Desenhado nas paredes vandalizadas, estava um Arcanjo atrofiado, na lua rachado, e que à Lua mesma havia quebrado. Por isso o olhei, mudamente, porque é com mudez que se fita a morte. Com um sorriso, pela sorte. "Olá."


A sua voz tremia e era ao mesmo tempo tão sólida e fria como a sua branca cara de manequim. "Veste-te de mim." Pediu. Mudo mais o fitei. "Se te for o Sol golpeado, sobre ele senta-te, deixa-o meio ofuscado, talvez possas sufoca-lo, nas trevas sobreviver, uma luz ferida faz-te morrer. Veste-me, saberás como sofrer." Voltou a falar. Pareceu olhar-me embora nunca lhe visse eu os olhos, podia contar o quão frios e sofridos se mostravam. A sua boca na qual só se via escuridão, voltou a ligeiramente abrir-se. "A tua semente. A tua semente, porque raro é já quem me vê, quando passa por aqui, sem saber porquê." 

Mostrou-me visões, de pessoas e futuros, e futuros clarões, dias puros, amizades, amor e resplendor.

E disse: "Todos estes virão em seu calor, e tu a todos negarás e escurecerás." E vi a minha gémea alma 
aterrorizada caminhar em ruas tão escuras, tão pesadamente calmas quanto estas em que 

me descobria. 

Após uma 


Pausa abismal, continuei. 

"Estas ruas são as minhas mais exaltadas amantes, e as mais calmas e perseverantes. Com elas rio e danço, e elas nunca riem, jamais dançam. A cada passo de dança desvaneço, mas num louco riso,

por elas cresço. Não há estrelas, e com elas danço. Não há Sol, e com ele avanço. O acto de amor, são estas 
palavras, 
e os seus venenos, 
como tu, tu 
que a cada noite aqui ficas e ninguém te vê, 
mas eu, e fujo, sabendo que 
daqui, como foi assim para ti, não há retorno." Quando virei as costas, senti a sua decadência dar-me a mão, como se quisesse seguir-me, mas não se pudesse soltar daquele devorado clarão. E emagrecia, apodrecia e 
sentia-lhe a definhação. 


III

Na próxima curva então, abriu-se um castanho poeirento nevão, sobre mim pairou uma ornada prostituta, de carne escura e enrugada, cara de bode e cabelo de branca palha, luvas de trapo, e nos pés uma qualquer falha, que não haviam, com a sua volumosa cauda se confundiam. As suas curtas roupas a vidro quebrado se assemelhavam, e guiou-me mais à frente, onde uma fenda na parede, tinha uma luz pálida e indiferente, para mostrar o seu corpo à espera nu e fervente. A parede para lá desse recôndito mostrava-se descascada, e a luz meio suada. Já perto, parei, mas não entrei. 

"Ajuda-me a descender." Tinha uma voz rouca e rasgada, agonizada por querer-se não tão abismal, e causava mais ardor a pena, que a sua feissima sedução. Aproximei-me, e tomei-a nos braços. À sua vagina dirigia-me a boca. Soltei o meu fogo a corpo aquele, e numa explosão ele fez-se rebelde. "Pois tudo o mais se mostra cadente." E quando terminei a primeira vez, pediu-me "Volta sempre." Não paguei. Quando voltei, não havia ali mais nada. E ouvi a voz e de novo o nevão, e ela não mais ali estava para mim, de corpo no chão. Ia-me dizendo: "Não cairás agora da graça?" E senti-lhe no coração o bater de uma asa podre, em que se retirava criando-me cada vez mais. Tentei mais fundo, mais fundo me afundar, como se para procurar o segredo que a fizesse voltar. "Preciso-te incompleto." E nunca mais a encontrou, por mais que o meu coração escavou. 


IV

Na próxima curva, os prédios soltavam-se e afastavam-se, encontrei no escuro, um cais de cristal. A Lua 
mostrava-se, e uma sua criação aproximava-se. De corpo nu, um corpo prateado escurecido, estendia o pescoço
e face ao vento inexistido, 
em que o seu longo escuro cabelo, voava, 
mais triste que contente, mas celebrando 
uma mais noite morrente. 

Os seus saltos altos de cristal romperem-me o coração, 
como se tentasse a luz do dia curar as cicatrizes de Lua Cheia e em vez as estalasse, mais dolorosa as 

provocasse.

Da escuridão tão funda ela ergueu-me, só para a luz lunar nos ambos povoar. Ela tinha esperança que ela nos fosse misturar, numa estratégia de aranha, me caçar. "Vim-te ensinar, se queres ao teu coração povoar, com tão sublimes ruas quanto estas, que não possam mais voar na luz da vida, mas na escuridão se aprisionar, e não percas, não vão, pois pesar vão, neste cristal que te impus no coração, farás tua teia, prenderás o que, daquilo que queres, te rodeia." E no momento em que ela, à luz da Lua, desapareceu, eu senti que a luz sua, apesar de escura, roubaria a noite. Viver que nunca acabava, mas todos a caçavam noite fora, ninguem a encontrava. E eu que, por estas ruas, a encontrei, não me ensinara qualquer bem.


V

Quanto mais
pessimista, mais eu era instigado, a poder mover-me de novo, 
uma vontade de ser re derrotado. O coração já
completado. 

E quando a voltei a 
encontrar num fundo abissal, ela era só uma cicatriz nos meus lábios cortados e no meu corpo roubado, e
perdoei-lhe tudo. E esse fogo andante, se olhasse para traz puxar-me queria,
através de todas as mentiras que mantinham as ruas, e a ausência de qualquer dia. Por isso nunca olhei, nem 

nunca

resisti. Estas résteas de beleza aqui ganham tristeza, se no mundo da clareza.  
Rastejando lá fui, e encotrei-a, vestindo o Diabo: Uma luz tremeluzente, trémula, febril, fluente.
Um ardente tridente. Esta estranha existência, outro devaneio, outra demência. Uma outra amante sem 
qualquer reverência. Espalhou o veneno nas mãos, esfregou o corpo, aproximou-se um pouco, puxou-me, 

um 
louco, 

E a quietude abraçou-me dentro da tempestade. O auge.


VI

Era um fantasma de latão, cuja casa ficava à grande janela de uma escura e abandonada catedral, um fantasma, que flutuava à luz do vitral, cinzenta, branca, azul e vermelha. Um fantasma com um antigo gira discos, de latão, as colunas como trompas, a manivela, e quem a rodava, uma mão, como boca que sangrava, e dele acima, uma mão que à sua cabeça se encostava, e uma carrancuda ferida cara, que horrenda, o amaldiçoava. Como

Deus, 

Como a mais maldita fada. Uma simples, simples cartola. Uma lágrima, lágrimas luz, que cortavam olhos fora. Usava pêra e nunca abriu a sua boca, estava seca, golpeada, e tosca. Girava a manivela e me revela:
"Quereis saber o que fora no mundo se faz? Dividas de sangue, não tem banco, ninguém as olha, não são pagas. 
Os corações são delas os guardiões, e todas, vigilancias vãs e vagas. Celebram-se os estranhos. Quando se fazem
mais, mais que estranhos, não se pagam as dividas sanguíneas, celebram-se os estranhos." E ali sempre chovia. Girava a manivela e me revela: "Quereis saber o que dentro se passa? Respostas são mentidas, desmentidas, e levam demasiado longe. Para o escuro

onde só ha nada." 

Essa mão e essa cara
Protegiam-no e magoavam. E dos vitrais via-se manhã, 
E vi então que aquela cara na cartola, na janela,
era jamais a mesma. Ele dizia quem era, era jamais a mesma. 


VII

Vi agora no seu peito múltiplos cortes, e uma mão sombria que das costas lhe rompia, e na Lua se prendia. Uma só asa de borboleta, o entendia, uma só, decepada ou então esquecida. Frente a isto acendi velas e
vivi a vida eterna, tão lenta corria ela, num espectáculo de lamentos, sempre igual, sem mais verdadeiros 
momentos. Frios eternos beijos, frios, e no fim só a beleza do frio é. Na verdade não saira dali, deixava as velas arder e as estacas. 


VIII

Foi então que continuando, encontrei uma rua sem saída, e para o escuro continuando, encontrei uma outra rua escondida. Ali havia um porto, agua, e um Sol quase que morto, nos seus raios segurava espinhos e a ouriço se assemelhava. Por ali a prostituta que em tempos conhecera, se agora aproximava. Tinha desta ela asas, rasgadas e definhadas, mas voava, e nas pernas crescido haviam-lhe duas grandes garras. Seguindo-a vinha um barco que dali talvez me levasse. Abraçamo-nos e a sua pele era como que pó, que eu inundei e habitei. Ardeu com ela, no vermelho por do Sol. Nesse barco partimos, e juntos naufragamos.


IX

Dormi, dormi como um menino nos braços do mar tão tribulado, revirado, irado e exaltado. Na costa acordei, era tudo negro, foi sem mais Sol que acordei. Havia um castelo e duas torres, que deixavam passar a luz da Lua por duas janelas em arco. Como se dentro ali prendessem o astro, porque cá fora, dele outro sinal, não havia. E uma mulher que da cintura abaixo era serpente, rastejou para a minha frente. A cara era toda ela tão delicada e deliciosa, mas os olhos vendados e decepados, e de espinhos tinha as mãos e costas cercadas. "Toda a vida falha,", falou, e parecia querer confortar embora ríspida e gelada, "excepto na sua própria falha. Toda ela, como a conheces, falha. Todos os lábios que provaste já, puros fantasmas. Sempre fantasmas. Enamoraste fantasmas. Tudo o que já encontraste, fantasmas." E no cristal que me fora em tempos ensinado, tudo ali, atribulado, prendi. E nesse momento, nas estrelas inexistentes me sentei, e quando acordei, eu era o homem, esse homem que primeiro encontrei, sentado num meio-devorado clarão. 


André Consciência
26/01/03

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Solstício de Inverno



















A chuva caia sem cessar
Pingava das árvores
Para aumentar a tristeza.

Ás quatro horas da manhã ajoelhou,
Beijou uma pena da asa do Arcanjo São Gabriel.

De madrugada, o monte estava vazio
O moinho, com as suas velas de linho
Dobradas e amarradas, rangia ao vento
Que fazia ondular a erva alta.

Uma vez estive contigo neste moinho.
Montei-te, para olhar para nascente.

Uma estrada vazia em direcção a anjos
Que bebiam inúmeros homens.

Há coisa nenhuma a gozar o ar da manhã
E eu não consigo abatê-la:
Rebentos de trigo e cevada
Condenados a morrer no Inverno.


André Consciência

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Iluminado por dois Archotes




A outra madrugada separou-os
Avistaram o horizonte no fumo
E partiram.

Sorriu.
O silêncio quebrou-a.

Com a pele a brilhar por cima da margem
Uma lontra deslizou da outra água.

Ergueu o focinho, olhou um momento
Para mim
E mergulhou de novo.

O céu ainda não estava completamente escuro
Tinha um tom luminoso como a chama de uma vela
Por trás de uma placa de osso.

Sentaram-se junto ao ribeiro.

Separaram-se na outra madrugada.

Um atalho conduzia à morte através da charneca
De tomilhos no perfume, sobre a qual
Esvoaçava o azul das borboletas.

 O fumo cavalgou na minha direcção.


Horned Wolf

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os dias nunca mais acabam


Vista do Castelo de Palmela


Aproximou-se da porta branca do terraço, com o estuque carcomido e o quarto sempre na escuridão. O cigarro queimava, algo lânguido, uma mortalha branca. Além um mar de luzes trémulas na penumbra verde e terrena, alongando-se por Palmela até ao castelo no topo do monte ao fundo nocturno do horizonte. Pela sua mente em vácuo passaram muitas vivências imortais que ali haviam tomado lugar, algumas sob o abrigo feliz e vibrante do dia e várias sob a eternidade protectora das horas tardias. A vida repleta de coisas, por si próprias, sem fim, como um milagre estonteante, mas os dias não haviam modo de acabar e instalar a paz numa só delas.


André Consciência

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um Choro Distante




Ouvias as cotovias, o grito das tarambolas e o múrmurio do vento por entre as árvores. Caiu um pingo de chuva, espalhando-se na tua pele, mas foi apenas uma gota solitária, pertencendo a um aguaceiro que se afastava para Ocidente. O teu rosto ficava perto do rio e da janela da tua casa podia ver-se agua a correr sob os arcos da ponte. Os morcegos esvoaçavam em volta do teu vulto enrolado e semi-adormecido, enquanto que as casas para além do rio estavam iluminadas por um intenso quarto crescente.


André Consciência

sábado, 10 de dezembro de 2011

Fechou os Olhos




Os sinos tocavam com demasiada força
Os homens que puxavam as cordas tentavam
Repelir o assalto por si próprios.

Avançavam pela lama e metiam-se por entre as
Estacas partidas, como se fossem
Ratos.

Arrancou as roupas, depois voltou-se,
Quando ouviu vozes.

Um rio negro com pregos de aço corria
Em direcção ao centro da cidade.

Uma mulher gritou na rua,
Depois outra,
E vozes inglesas aplaudiam

Um a um, calavam-se
Os sinos,
A dobrar o seu terror
Sobre os telhados,
Os passos batiam na escada.

As gaivotas alimentaram-se dos olhos
Dos mortos e picaram-lhes a carne,
Restando apenas ossos ocos
A olharem as ondas.


André Consciência

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Malak III


Sphinx - Franz von Stuck


Tinha trinta anos, peito largo e queimado do Sol. O mercador de prata e mulheres vivia numa bela casa de pedra. Era a noite antes da Páscoa e rezou a São Jorge, enquanto numa das suas câmaras seladas, a juvenil beldade de cabelo branco, cuja pele era albina e os olhos arredondavam cegos, dançava na escuridão, assustada pelas megeras que gritavam no monte enquanto as ondas intermináveis se lançavam e sugavam as pedras.

Uma luz cinzenta entrava pela janela, sob o altar coberto.


André Consciência

Malak II



Corria para o mar junto a uma praia coberta de pequenos calhaus. Barcos de pesca partiam do meu peito. Uma língua de seixos contornava o meu último braço. Mesmo assim, o mar rugira sobre mim e desfizera os barcos.

O padre poderia ter sido bispo mas persegui-o com sonhos, estivera fechado na cela de um mosteiro devido a possessão demoníaca. Os demónios abandonaram-no e foi enviado para a aldeia, onde aterrorizava os seus habitantes pregando às gaivotas e chorando os pecados junto à costa, eu batia-lhe no peito com pedras aguçadas. Uivava como uma cadela, em noites em que a maldade pesava a consciência. Caminhava só, com o rosto severo, o cabelo desgrenhado e os olhos a brilhar.

Porém, naquela noite, depois do pôr do sol, durante a vigília, apenas quatro acólitos observavam as minhas chamas enormes e firmes. Um escutou o ressonar dos três companheiros e limitou-se a olhar para mim, semi-obscurecido por uma rede de pesca pendurada a secar. Uma corrente de ar frio fez reluzir as minhas chamas gémeas. Algures na aldeia, um cão uivava. Olhava para mim no tecto da igreja e rezava.

Macio e forte, o ventre liso
De uma rapariga.

Naquela noite, recordou-se dela
Que servia na pequena taberna da aldeia.

E do anjo, primeiro visto sobre os telhados:
Tinha comido numa só noite todo um bando
De gansos.


André Consciência

Malak


Sem Título - Ove Tøpfer

Assim, durante oito anos, fiquei suspenso na pequena igreja, acumulando pó e teias de aranha que cintilavam com reflexos prateados quando o sol entrava pela janela alta da torre poente. Os pardais pousavam no meu tronco e em algumas manhãs havia morcegos pendurados nas minhas coxas. Raramente me movia e quase nunca descia, embora, de vez em quando, o padre exigisse que lhe trouxessem a escada e me soltassem das minhas correntes, de modo a poder orar junto a ele, enquanto o afagava.


André Consciência

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Subhuman


Afterglow - Sem Título


O ar quente cheirava os fabricantes de carvão
Com pirliteiro e fumo.

A floresta tinha atravessado os filhos
As crianças corriam aos gritos pelas escadas
Estreitas; Onde é
O Caminho do Céu?

O Sol atrairá-nos para o exterior
Do outro Sol. Estávamos num campo
Perto de casa.

As pastagens combinavam passeios
Com os bosques; Onde é
O Caminho do Céu?

Num pedaço de terra horizontal,
A sua figura arredondava-se e as suas feições
Começavam a ganhar uma frescura
Que faziam adivinhar uma beleza; Onde é
O Caminho do Céu?

Com o cabelo escuro a ondular atrás de si
A erva, sob os seus pés, estava cheia de flores
Silvestres; Onde é
O Caminho do Céu?

Apoiado nos cotovelos, semicerrava os olhos
Por causa do Sol; Onde é
O Caminho do Céu?

Mais abaixo, os cães tinham enlouquecido.
Um anjo farejou-me as saias, olhou em volta
E depois aliviou-se contra a parede.
Eu limpo - disse eu à pressa. Um belo anjo
Ainda, era, virgem...

Levei-o lá para fora e ensinei-o a ter necessidades
Num sitio quente. A lua apareceu no nosso quarto
Bordando cinco raparigas a dançar em fila.
Naquele momento estava deitada na escuridão
A imaginar a mão dele a tirar-me os cabelos.

Onde é
O Caminho do Céu?


Horned Wolf

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

Não há nenhuma rua
As cadelas soltam um piar lento
Um dia vou escrever sobre ti

Todos aqueles que me largaram

Pára, vê a praça a crescer
Alimentam-se de ti, quando bebem cafés

Um dia pensei que te tinha tido
Não olhes agora para as mãos
Observa o fim das metas
Ninguém está nelas
Excepto o fogo que te separa
Não és um anjo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Tocador de Tulum




Quatro remadores em terra
Esperaram que nós encontrássemos
Um caminho.

A água ali tinha apenas uma
Fina língua de água.

As árvores chegavam quase
Ao alto.

Estávamos quase
A desistir.

A enseada subira um pouco
E gritou
Um zimbro a rastejar
Pelo solo pedregoso

Com a tenacidade de uma mulher
Madura.

Fragmentos de roupa, tranças,
Fivelas sem brilho.

A folhagem e depois um minúsculo regato
A correr por entre as pernas
Antes de se precipitar no mar.

Já era tarde
Coníferas de solo lamacento
Primavera chuvosa
Sempre que parámos para avaliar
O nosso progresso

A luz estava a desaparecer
E com ela
Os últimos vestígios de calor no ar.


Horned Wolf

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Esperança


Hans Ruedi Giger


Marinheiros subindo aos mastros
A noite afundando-se por completo
Sentada no catre enquanto o barco
Começava.

Não resistiria, deliciosas
Covinhas e inteligência viva.
À noite, com os dedos o rosto
Com a Lua a encobrir o céu.

A vegetação nocturna estava fora
De nós uma enseada estreita
Para passar.

Os marinheiros levavam a esperança
O ferro clareava
A gente rezava por ventos favoráveis.

Uma coisa secreta, privada, especial
As noites que passara com ele no han
Pertenciam a uma fracção diferente.

No chão, às escuras, na cama.

Uma escuridão através da qual
Senti os movimentos do barco
E as vozes. Completa-me.


Babalith

sábado, 26 de novembro de 2011

Maçãs




Uma figura pousada
Nos ombros de outra
Sem calças, muito
Indecoroso.

E tentava agarrar
Qualquer coisa
Maçãs.

O homem em cujas costas
Ela estendia o rosto
Também estava equilibrado
Em cima de uma boca.

E havia mais qualquer coisa...
Folhas em ramos a esticar-se à luz
Mas com cuidado.

A cortina tapava a paisagem
Prendi a respiração
Fechei os olhos com força e
Penetrei.


Horned Wolf

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deus ex Machina



No pulsar do despertar
Um cidadão confessa-se
E aventura-se no vazio

Os sinais do futuro
A arder
Recordam
O retorno.

Re-l124c41+
Facho de luz
Faíscas de radiância

Existência
Na treva branca
Quando sorris

Caminho errado para casa
A Ofélia
Calma que morreu calma

Terra incógnita
Vida após Deus
A rapariga, com o sorriso.

O olho sagrado do vazio
No lugar do fim do tempo
Deus ex machina.


Horned Wolf

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Underneath the Stars



São mais raras as estrelas, do que os barcos no oceano nocturno
Da respiração intermitente do teu vulto enquanto forma sonhada
E desmaiada em todos os pólos da minha maldade
Ah os lábios dos teus lábios chegam
Embora nos não beijemos às vezes
Aos meus lábios chegarem a chegar
Ao porto seguro da tua alma inavegável.

E na luz do seu silêncio me guiava
E engolido pelo seu ventre menstrual, que inchava
O oceano negro do seu coração cantando
Amarrava o céu e o inferno, meus.

Eu sou minuto vivo na coreografia
Do seu mamilo em bico
Uma dança ao Sol
Um tiro na humidade celeste
Uma sombra aquecida
Na noite dos amantes.

Um raio de Sol que entra
Nos poros do seu umbigo
Um grão de para-sempre
Incrustado nos mares
A paz para além da personalidade
A paixão para lá da dor.

Deixa-me levares-me os braços
O crisma, a roda, a medicina!
Besunta o amor sem lágrimas
E dissipa a solidez solitária.

Determino-me nas estrelas
Tão pequeno quanto é pequeno
Ser a vê-las.
Enorme quanto é grande
Amanhecê-las.


Horned Wolf

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Lago das Almas, O Carrocel dos Corpos


The Spheres - John Santerineross

Quando Gabriel sopra o chifre
E os lobisomens da rua
E a mulher nas mulheres
Se move nua

Quando a terra estremece
E os corpos do avesso
Repetem os seus hinos

Quando sou chamado
Para o meu lugar amado
E a pequenez do peso
Que deixou de ser voo

Digo-te "caminho
Pelo vale aéreo da luz
Anos sem fim
E no mar das almas
Não há terror ou selva
Que nos tapem

Olha para mim
Não te esqueças que voei
Ou penses, que esse voo
Teve fim
Por mais que derrubado
Os cães me comam

Quando o chifre soa
Eu não posso levantar
Se não para outro corpo
E só os ouvidos são ainda
Semelhantes ao que eu todo
Fui

As cidades em sal
Se um de nós dança
E ousa

Perdoem-me as águas
Por serem desmedidas
A vaga por aparentar limite
Sem o haver
Ou o fogo por romper
Todos os corpos
Que nos foram dados
Que a terra não se esqueça
De ser o primeiro retrato
De um romance
Da saudade
Sem alcance
E me perdoe o ar
Como antes
Eu não poder voar"


André Consciência

domingo, 13 de novembro de 2011

La Gitana



O teu cabelo em rosas na geada enquanto dançávamos,
A feiticeira a enfeitiçar e o paladino em luar,
À luz das estrelas teciamo-nos numa teia de seda e aço
Sem memória como o mármore nas câmaras de Boabdil,
No jardim secreto das rosas com as fontes e os orvalhos
Onde a nevada serra nos suavizou com as brisas e os galhos!
À luz das estrelas enquanto tremíamos do riso à carícia
E o deus veio quente sobre nós na nossa pagã delícia.
Era o Baille de la Bona demasiado sedutor? Sentiste
Pelo silêncio e pela doçura toda a tensão que assentiste?
Pois o teu cabelo em rosas e a minha carne em espinhos,
E a meia noite desceu em nós como mil loucas auroras.
Ah! minha cigana, minha Gitana, minha Saliya! estavas desejosa
Que a dança se tornasse solene? - Ó solarenga terra de Espanha!
Minha Gitana, minha Saliya! Mais deliciosa que uma pomba!
Com teu cabelo incendiado por rosas e teus lábios acesos por amor!
Deverei ver-te? E beijar-te uma vez mais? Eu divago para longe
Da terra solarenga de verão para a gelada estrela polar
Hei-de encontrar-te, hei-de encontrar-te! Eu estou a retornar
Da obscenidade e da neblina para te procurar na solarenga terra de Espanha.
Hei-de encontrar-te, minha Gitana, minha Saliya! como antigamente
Com teus cabelos incendiados de rosas e o teu corpo feliz com ardosas.
Eu hei-de encontrar-te, eu hei-de ter-te, no sul e no verão
Com a nossa paixão no teu corpo e o nosso amor na tua boca -
Com o nosso espanto e a nossa adoração seja o mundo incendiado e renovado!
Minha Gitana, minha Saliya! Eu retorno para ti!


Tradução de André Consciência

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Lusofonia




Os baloiços, onde estudávamos as estrelas
Com o balançar próprio do pêndulo
Nas rotas do fogo.

O cavalinho, onde te despia
Com chicote, e escapavas a galope
No mesmo lugar.

A almofada com que sufocava
As escaladas do teu êxtase.

E os escorregas onde rimos
A noite desprovida de olhos.

As pátrias antes de o serem:
Com medo criador, derrotadas.

Os mortos
Enquanto extra-pátria.

O cavalinho, que língua era a do corpo
Prévio à penetração?

Os navios, e o que é o português
Se não um sistema de controlo
Da psicologia humana?

Almeida Garret e Castelo Branco
A arrancarem estimuladamente as unhas.

As folhas caídas da civilização
Os workshops, os ecosistemas,

África, com trovadores do Porto,
Uma colecção de cromos
De René Guenon.

Que se foda, vou a galope
Que as àguas duram pouco
E os bicharocos lambem-nos as patas
No mesmo instante que lhes damos uso.

As galinhas em trânsito onírico
As hormonas a exalarem flores
Recintos e repórteres.

Vendo, na berma da estrada
Garrafas de nada.


Horned Wolf

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carruagem do Sol




O Douro doura
Despenhado
No mar das montras.

Ela saia da loja
Transportada pela carruagem
Do Sol.

O movimento da emoção volteava
Em som de cascalho.

Fomos peixes fora de água
A ver A Morta, de Rembrandt.

Foste Leviatã exterior ao aquário
Sobre o meu corpo emocional
A chuva rebrilhava por ti
E a lunaridade do alvão.

Houve uma altura em que não acreditava
Existir. Nessa altura, conseguia ver bandeiras,
E não conseguia aquários ou fora deles.

De súbito encontro-te
Na uva azul e nervurada.

Vou alcançar-te, vamos... exercitar-nos
Nos pastos. Somos bonitos, hoje.


Horned Wolf