terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Malak IV


Annunciation - Boticelli


Os homens aproximaram-se mais das mulheres, ao entrarem na mata, e os anjos receberam archotes, aos quais foi ateado fogo com uns carvões em brasa levados em vasos de barro perfurados. Os anjos (rapazinhos) corriam para trás e para diante no atalho, agitando os paus fumegantes e gritando para atrair as raparigas que poderiam aparecer para engravidar. Lá mais adiante, as meninas tinham começado a cantar e o volume do cântico aumentava, à medida que o povo ia apanhando a melodia. Passou para os que caminhavam atrás, sem que os anjos se lhe juntassem. Um pombo saiu de entre as folhas, batendo as asas e partindo na direcção do Sol.

Horned Wolf

domingo, 29 de janeiro de 2012

Homem Azul


Blue Man of the Minch - Marion Boddy-Evans


0 - The Fool

. I like to watch the bulls, they eat the corpses
. . and I saw that it was good
. I have spoken to you
. Search for childhood


1 - The Magician

. Care not to explain
. . Act by instinct
. ' . Search no reason for your actions nor for others actions
: : Endure.


2 - The Priestess

. They gave the beast to the inner man, and told him how to act.
. . The beast stopped at will, to utter: I won't be corrupted
. ' . Therefore he broke his own prision cell and spilt it's magick blood. In this the spear of Will.
: : To act by instinct is to come to the perfect understanding of one's inner senses and outer limits.


3 - The Empress

. There is something that we remember still
. . A love not lost nor growing ill
. ' . There is a Way where we belong
: : Let it be inside all wild's god's song


4 - The Emperor

. A Titan, you my BABALON
. . Standing Sin on the Sun
. ' . All is still in your Will
: : Silence, and I know that you are God


5 - The Hierophant

. I am in the edge of the stars, as that litlle drop of melting semen
. . Mine is the substance that dares and mine the fall
. ' . If men fall not how can he dare, if men dares how can he not die?
: : Men must be broken, in order to rely on himself, says the reaper


7 - The Lovers

. Her's the waving music and her's the cube: both in union, both in paradox
. . Open legs to heal the wound
. . Now the dogs of envy ravish upon your soul
: : Let the swan go, and accept the dove.


8 - The Chariot

. I did spread myself in light for my delight
. . and I saw that it was good
.'. That my actions are as but reflections
: : Under the night of PAN


9 - Justice

. In brilliant gallant white
. . She comes serene, all confort's night
. ' . She holds my hand, and now we mend
: : Her's the Word of Light


10 - Wheel of Fortune

. Nothing comes out of nothing
. . Two points of light are beginning to contact
.'. There is a fire burning bright
: : To let their children loose, dancing to it's curse


11 - Fortitude

. You are heading down to death
. . All seems perfect, even the sky is brighter
.'. You feel like flying
: : But there is treason in everything: You are doomed to die daily


12 - The Hanged Man

. We all reunite, black roses, white dead bodies, we smoke and make a song out of a poem
. . We sing about the dead ages and call it the new way of life; we valse around the dead whore drinking bad wine
. ' . Aries circling upon me
: : I travel the world to the tall Towers of Fall;


13 - Death

. Once for sleeping, twice for dreaming
. ' . I will bind you to me and tell you: love me, desire me
.. Cold and exhausted
. We will make flesh out of love,


14 - Temperance

. He has the tail of knowledge, and the horn to wake the dead, make women pregnant, and call to war
. . There is an army of dogs, there are the dogs of envy, the master exorcists, and all those whirlwinds to attract the end and the begining of the world
. ' . There is a queen and that queen is lust, she sits on a throne for Therion to subdue, her's is the net ruled by the king, she is the net and he is the spider named "slaves shall obey"
: : The beast for the men, the men for the beast


15 - The Devil

. Lamed: death as an egg
. . There are no places, there are worlds,
. ' . they veil their faces to reveal their nature; they won't see you, because you think too much, you are the dream, but they the touch.
: : Now the virginal bird of wisdom eats it all, Do what thou Wilt, there is no fall.


16 - The Tower

. The Temple of the Black Egg and a Cross; The Temple of the Six Pillars and a White Singing Maid:
. . The Snow Vestal lights the candles. She is the light that flickers in the night.
. ' . The horned women is clothed with the sun: she is the dealer between the serpent that has risen and the bird who has fallen
: : The duty of all lovers is to battle.


17 - The Star

. Blank.
. . There is a secret in desguise, it can't be hidden from the light
. ' . In your realm your appearence will throw me back.
: : I dream of nothing but reflections now.


18 - The Moon

. I change to the colony of insects, I leave the hills of the sun and happily burn in the city of the night
. . a valkyre binds me to her body of stars.
. ' . I am granted three shadows from the world of the living
: : Temptation is the key to Initiation.


19 - The Sun

. . In your realm I call to thee
. . She turns to old flesh
. ' . Now if you see him, that mourns his soul-mate, the one with wounded hands, take no pity
: : Blind fear might drive you Home


20 - Judgement

. On and on, called by the name of correlation. Nobody knows there is something else.
.. We follow the train of our thoughts with heavy shoulders and deep voices.
.'. But I know what's on the other side, and I have come to the knowledge of a world outside.
: : I have entered trough the closed door.


21 - The World

.. The Keeper will smash my legs and will me to fall
. ' . she is the perversion of the Will
.'. But I know life is but a dream
: : at the door of Void


Horned Wolf

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ketsár-ruách



Luz

Pisei o templo, com luz no pescoço
Pulsante, o meu movimento
Era amor que vai contra o tempo.

Que liberdade maior, que ser-se Deus
Nas rotas infinitas de um adeus,
Ou o harpão de Neptuno
Nas mãos benditas de Juno?


Obra a Negro

Um Deus munido de conas
Arrastou-me a peregrinação
Do sangue
E largou do meu coração
Quebrado como uma maçã
Arrojada e podre
As sementes que hoje são voz.

Ah, por amor deixei cair
A própria dor,
Pesa-me a ausência
E esperar que cresça
No centro esvoaçante do Inverno
O Verão Eterno

Nas nossas bocas.


Saturno

Escuta, a luz parou de cintilar
Há aranhas nos veios tubulares
Que rodeiam a garganta, esganada
Deste cão negro e sem nada
Deste deus que se vira para morar
No traiçoeiro mar
Da luz sem vento.

Quantas ninfas se estendem para mim
Com seus membros de marfim
E quantos coros na voz de um serafim
E quantos eunucos se contorcem
Para a vivência palpitante do meu pénis
Com cores de arco-iris
E depois as mãos aguadas com sangue
Os membros lavados com sangue
As pernas de pau espetadas
No abcesso do que havia de ser asas
Pénis retalhados na mesa de cinza
Colocada sob a testa de um equilibrista sem peso.

Come rosas, aspirante ao fogo secreto
De noite olha o céu e não deixes nenhuma estrela
Sair do eixo, não fites tampouco o chão
Porque o chão esmaga-te.

Não esperes superar-te, massa de pó
E pedaços de marisco cansado.

Olha, como a tua amante te morde as feridas
E confunde o pus com a luz.
Esconde-te do mundo, sua merda.
Esconde-te do mundo.

Despedaçamos-te com uma multidão de sorrisos
E seguimos-te o rasto para o paraíso mecânico
Das velas sem pavio.


Lua

O açúcar amarelo, de manhã
A palpitar de embate aos resíduos
Do ar da noite.

Sabias que te amo? Amanhã também
E enquanto o globo for portador de electricidade
E a paixão for uma miragem, uma vaidade
E a verdade sair do cu
E não de Nu.


Mercúrio

Mercúrio, alinhado com aquele augúrio
De se falar sem língua nenhuma
E deixa que o filho esgane o pai
E do seu estômago escapem promessas
Com mandíbulas várias
Para comer assim devagar
O peito de quem ousa amar.

A candeia de vidro em prata
Derrete-me a pele, Pai.

Derrete-me a pele
E não há no mundo
Terror maior
Que perder a forma humana.


Vénus

Em Vénus, deveria escrever com desenhos bonitos
As figuras todas do fotograma
Dos teus movimentos quando vieste
Das longínquas espanhas.

Não temas, que eu me lembre de ti
O teu fogo é no meu, e será sempre
Aqui.

A luz do meu pescoço está no teu
Agora
E tu és menina que guardei nas praias
De outrora
Nunca mais dormi
Os meus olhos são estrelas
Ardem em ti
Quando os reconheceres
Dormirás
Para eu poder dormir.

Para eu poder dormir.

No fim de tudo.
No fim de tudo.
Praias lamacentas.
Nós bébés
Com placentas.
Por favor.
Nós bébés
Com placentas.

No fim de tudo
Um nenúfar abraça uma jóia
No lago escuro
Da solidão
Ainda o muro.


André Consciência

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Conto da Venda



A sombra das nuvens engolia a passagem, enquanto Miguel e Gabriel corriam em direcção ao Tempo. Gabriel estava nua, tinha frio e estava assustada. Miguel também estava receoso, mas o povo da fronteira era famoso pelas suas riquezas e a ganância de Miguel era superior ao medo de entrar no tempo.

Miguel dirigiu-se à antiga entrada Sul, onde uma estreita labareda levava ao fogoso interior. Uma vez atravessada a labareda, Miguel pôs-se de gatas e rastejou por entre as aveleiras. Gabriel seguiu-o com relutância, sem querer ficar sozinha na passagem quando estoirasse a ira de Deus.

Para surpresa de Miguel, o Tempo não estava completamente coberto de arbustos, pois havia o Espaço, no local onde se situava a Casa dos Mortos.

Alguém deveria já visitar o Tempo, porque as ervas daninhas foram arrancadas, a relva cortada com uma faca e apenas uma caveira humana se encontrava aí, no local onde se sentava agora um forasteiro, encostado à única coluna que restava do tempo. O rosto do homem estava pálido e tinha os olhos vendados, de modo a que não consumisse o mundo, mas o seu peito subia e descia, com a respiração.

Horned Wolf

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As Novas Criaturas - The New Creatures (excerto)





Frescas poças
de um terreno cansado
afogam-se agora
na paz do crepúsculo
Fraquejam nuvens
e morrem.
O sol, caveira laranja,
sussurra sossegadamente, torna-se
ilha, & parte.

Ali estão
observando
-nos tudo
será escuro.
A luz modificou-se.
Éramos atentos
até aos joelhos no ar palpitante
enquanto os barcos empurram
comboios a despertar.


Jim Morrison
Traduzido por André Consciência

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Coroa da Inocência


Death Crowning Innocence - George Frederic Watts




Um homem morto no meio da rua
Sem ninguém que o enterrasse

As valas estavam bordejadas de flores
Porque era Primavera

A morte encharcava os novos pastos
Os cordeiros brincavam, as lebres saltavam
Cresciam as anémonas e a murugem.


Horned Wolf

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

The Garden of Earthly Delights


The Garden of Earthly Delights - Hieronymus Bosch



Havia prostíbulos nas igrejas
Adivinhos nos quiosques

As crianças brincavam nuas
Algumas empunhavam
Pequenos cães irritados.

O cemitério espalhava-se
Pelos esteiros com as suas
Mulheres.

O vento cheirava a sal e a
Decomposição.

Um caçador coçava-se no canto do aposento
Um marinheiro no cais soltava uma chuva
Um demónio despido pelas ondas, corava.


Horned Wolf

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Iluminura

O homem atormentado pelas bestas, no códice Comentários ao Apocalipse, do Beato de Liébana


O Senhor caminhava sobre as aguas da Galileia
Abaixo, as almas caiam no fogo do inferno.

A única luz da igreja provinha
Da silenciosa língua de São Renano:
Tratava-se de um livro.

O livro sobrevivera à queda da cidade.

Senhoras vestidas de negro estavam ajoelhadas
A rezar na nave,
O livro por baixo dos sexos.

Soprou o pó e as teias de aranha
Colocando-as ao lado das velas.

Uma das mulheres sussurrou que ele estava
A ser ímpio.


Horned Wolf

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Retumbar Numa Caverna Profunda




Mostrou umas pernas
Quando levantou o vestido para calçar as meias
E parecia muito frágil
Ao mesmo tempo que levava um dedo aos lábios
Saiu pela escotilha da cabina para se vestir no convés
Pálida como a bruma e esguia como uma flecha
Uma rapariguinha.


André Consciência

Nas Sombras da Porta da Igreja

Gustave Doré


Focas e estranhos animais marinhos erguiam-se do leito do oceano para uivar à Lua em quarto crescente, começando depois a cantar acerca de marinheiros e de um cego que tocava harpa num canto da taberna.

André Consciência

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sereia

A tua pele, luar com mar,
Esmeralda com azul;
O meu intelecto perde-se
No teu braço.

Sem dor, separação, perda
Os nossos relógios acabaram.

As luzes da cidade
Com fogos secretos
Sentei-me na janela,
A contemplar.

Quando a água evapora
Há mestres que se sentem sós.
Mas até à tua pele
Os seus passos hão-de ser
Salpicados e espumosos
O seus mantos cheirando
A mar.


André Consciência

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Recollection



I

As ruas eram escuras


Como sombras de homens no fogo.

II


Um clarão, flutuava como um Sol cicatrizado e meio comido, por alguém sobre ele sentado.

Tinha mãos rasgadas e escurecidas, mãos de trapo, o corpo era meio sangue manchado meio transparência, 
a cara era pálida, os cabelos longos, uma cartola escondia-lhe os olhos, e a boca um corte pequeno. Era um 
homem mas usava uma espécie de saias de árvore descascada ou talvez de rede de pesca. Era uma veste descosida, como a sua barriga. No peito, seguindo a linha da coluna afiguravam-se quatro circulares fendas, como que corações esvaziados. Desenhado nas paredes vandalizadas, estava um Arcanjo atrofiado, na lua rachado, e que à Lua mesma havia quebrado. Por isso o olhei, mudamente, porque é com mudez que se fita a morte. Com um sorriso, pela sorte. "Olá."


A sua voz tremia e era ao mesmo tempo tão sólida e fria como a sua branca cara de manequim. "Veste-te de mim." Pediu. Mudo mais o fitei. "Se te for o Sol golpeado, sobre ele senta-te, deixa-o meio ofuscado, talvez possas sufoca-lo, nas trevas sobreviver, uma luz ferida faz-te morrer. Veste-me, saberás como sofrer." Voltou a falar. Pareceu olhar-me embora nunca lhe visse eu os olhos, podia contar o quão frios e sofridos se mostravam. A sua boca na qual só se via escuridão, voltou a ligeiramente abrir-se. "A tua semente. A tua semente, porque raro é já quem me vê, quando passa por aqui, sem saber porquê." 

Mostrou-me visões, de pessoas e futuros, e futuros clarões, dias puros, amizades, amor e resplendor.

E disse: "Todos estes virão em seu calor, e tu a todos negarás e escurecerás." E vi a minha gémea alma 
aterrorizada caminhar em ruas tão escuras, tão pesadamente calmas quanto estas em que 

me descobria. 

Após uma 


Pausa abismal, continuei. 

"Estas ruas são as minhas mais exaltadas amantes, e as mais calmas e perseverantes. Com elas rio e danço, e elas nunca riem, jamais dançam. A cada passo de dança desvaneço, mas num louco riso,

por elas cresço. Não há estrelas, e com elas danço. Não há Sol, e com ele avanço. O acto de amor, são estas 
palavras, 
e os seus venenos, 
como tu, tu 
que a cada noite aqui ficas e ninguém te vê, 
mas eu, e fujo, sabendo que 
daqui, como foi assim para ti, não há retorno." Quando virei as costas, senti a sua decadência dar-me a mão, como se quisesse seguir-me, mas não se pudesse soltar daquele devorado clarão. E emagrecia, apodrecia e 
sentia-lhe a definhação. 


III

Na próxima curva então, abriu-se um castanho poeirento nevão, sobre mim pairou uma ornada prostituta, de carne escura e enrugada, cara de bode e cabelo de branca palha, luvas de trapo, e nos pés uma qualquer falha, que não haviam, com a sua volumosa cauda se confundiam. As suas curtas roupas a vidro quebrado se assemelhavam, e guiou-me mais à frente, onde uma fenda na parede, tinha uma luz pálida e indiferente, para mostrar o seu corpo à espera nu e fervente. A parede para lá desse recôndito mostrava-se descascada, e a luz meio suada. Já perto, parei, mas não entrei. 

"Ajuda-me a descender." Tinha uma voz rouca e rasgada, agonizada por querer-se não tão abismal, e causava mais ardor a pena, que a sua feissima sedução. Aproximei-me, e tomei-a nos braços. À sua vagina dirigia-me a boca. Soltei o meu fogo a corpo aquele, e numa explosão ele fez-se rebelde. "Pois tudo o mais se mostra cadente." E quando terminei a primeira vez, pediu-me "Volta sempre." Não paguei. Quando voltei, não havia ali mais nada. E ouvi a voz e de novo o nevão, e ela não mais ali estava para mim, de corpo no chão. Ia-me dizendo: "Não cairás agora da graça?" E senti-lhe no coração o bater de uma asa podre, em que se retirava criando-me cada vez mais. Tentei mais fundo, mais fundo me afundar, como se para procurar o segredo que a fizesse voltar. "Preciso-te incompleto." E nunca mais a encontrou, por mais que o meu coração escavou. 


IV

Na próxima curva, os prédios soltavam-se e afastavam-se, encontrei no escuro, um cais de cristal. A Lua 
mostrava-se, e uma sua criação aproximava-se. De corpo nu, um corpo prateado escurecido, estendia o pescoço
e face ao vento inexistido, 
em que o seu longo escuro cabelo, voava, 
mais triste que contente, mas celebrando 
uma mais noite morrente. 

Os seus saltos altos de cristal romperem-me o coração, 
como se tentasse a luz do dia curar as cicatrizes de Lua Cheia e em vez as estalasse, mais dolorosa as 

provocasse.

Da escuridão tão funda ela ergueu-me, só para a luz lunar nos ambos povoar. Ela tinha esperança que ela nos fosse misturar, numa estratégia de aranha, me caçar. "Vim-te ensinar, se queres ao teu coração povoar, com tão sublimes ruas quanto estas, que não possam mais voar na luz da vida, mas na escuridão se aprisionar, e não percas, não vão, pois pesar vão, neste cristal que te impus no coração, farás tua teia, prenderás o que, daquilo que queres, te rodeia." E no momento em que ela, à luz da Lua, desapareceu, eu senti que a luz sua, apesar de escura, roubaria a noite. Viver que nunca acabava, mas todos a caçavam noite fora, ninguem a encontrava. E eu que, por estas ruas, a encontrei, não me ensinara qualquer bem.


V

Quanto mais
pessimista, mais eu era instigado, a poder mover-me de novo, 
uma vontade de ser re derrotado. O coração já
completado. 

E quando a voltei a 
encontrar num fundo abissal, ela era só uma cicatriz nos meus lábios cortados e no meu corpo roubado, e
perdoei-lhe tudo. E esse fogo andante, se olhasse para traz puxar-me queria,
através de todas as mentiras que mantinham as ruas, e a ausência de qualquer dia. Por isso nunca olhei, nem 

nunca

resisti. Estas résteas de beleza aqui ganham tristeza, se no mundo da clareza.  
Rastejando lá fui, e encotrei-a, vestindo o Diabo: Uma luz tremeluzente, trémula, febril, fluente.
Um ardente tridente. Esta estranha existência, outro devaneio, outra demência. Uma outra amante sem 
qualquer reverência. Espalhou o veneno nas mãos, esfregou o corpo, aproximou-se um pouco, puxou-me, 

um 
louco, 

E a quietude abraçou-me dentro da tempestade. O auge.


VI

Era um fantasma de latão, cuja casa ficava à grande janela de uma escura e abandonada catedral, um fantasma, que flutuava à luz do vitral, cinzenta, branca, azul e vermelha. Um fantasma com um antigo gira discos, de latão, as colunas como trompas, a manivela, e quem a rodava, uma mão, como boca que sangrava, e dele acima, uma mão que à sua cabeça se encostava, e uma carrancuda ferida cara, que horrenda, o amaldiçoava. Como

Deus, 

Como a mais maldita fada. Uma simples, simples cartola. Uma lágrima, lágrimas luz, que cortavam olhos fora. Usava pêra e nunca abriu a sua boca, estava seca, golpeada, e tosca. Girava a manivela e me revela:
"Quereis saber o que fora no mundo se faz? Dividas de sangue, não tem banco, ninguém as olha, não são pagas. 
Os corações são delas os guardiões, e todas, vigilancias vãs e vagas. Celebram-se os estranhos. Quando se fazem
mais, mais que estranhos, não se pagam as dividas sanguíneas, celebram-se os estranhos." E ali sempre chovia. Girava a manivela e me revela: "Quereis saber o que dentro se passa? Respostas são mentidas, desmentidas, e levam demasiado longe. Para o escuro

onde só ha nada." 

Essa mão e essa cara
Protegiam-no e magoavam. E dos vitrais via-se manhã, 
E vi então que aquela cara na cartola, na janela,
era jamais a mesma. Ele dizia quem era, era jamais a mesma. 


VII

Vi agora no seu peito múltiplos cortes, e uma mão sombria que das costas lhe rompia, e na Lua se prendia. Uma só asa de borboleta, o entendia, uma só, decepada ou então esquecida. Frente a isto acendi velas e
vivi a vida eterna, tão lenta corria ela, num espectáculo de lamentos, sempre igual, sem mais verdadeiros 
momentos. Frios eternos beijos, frios, e no fim só a beleza do frio é. Na verdade não saira dali, deixava as velas arder e as estacas. 


VIII

Foi então que continuando, encontrei uma rua sem saída, e para o escuro continuando, encontrei uma outra rua escondida. Ali havia um porto, agua, e um Sol quase que morto, nos seus raios segurava espinhos e a ouriço se assemelhava. Por ali a prostituta que em tempos conhecera, se agora aproximava. Tinha desta ela asas, rasgadas e definhadas, mas voava, e nas pernas crescido haviam-lhe duas grandes garras. Seguindo-a vinha um barco que dali talvez me levasse. Abraçamo-nos e a sua pele era como que pó, que eu inundei e habitei. Ardeu com ela, no vermelho por do Sol. Nesse barco partimos, e juntos naufragamos.


IX

Dormi, dormi como um menino nos braços do mar tão tribulado, revirado, irado e exaltado. Na costa acordei, era tudo negro, foi sem mais Sol que acordei. Havia um castelo e duas torres, que deixavam passar a luz da Lua por duas janelas em arco. Como se dentro ali prendessem o astro, porque cá fora, dele outro sinal, não havia. E uma mulher que da cintura abaixo era serpente, rastejou para a minha frente. A cara era toda ela tão delicada e deliciosa, mas os olhos vendados e decepados, e de espinhos tinha as mãos e costas cercadas. "Toda a vida falha,", falou, e parecia querer confortar embora ríspida e gelada, "excepto na sua própria falha. Toda ela, como a conheces, falha. Todos os lábios que provaste já, puros fantasmas. Sempre fantasmas. Enamoraste fantasmas. Tudo o que já encontraste, fantasmas." E no cristal que me fora em tempos ensinado, tudo ali, atribulado, prendi. E nesse momento, nas estrelas inexistentes me sentei, e quando acordei, eu era o homem, esse homem que primeiro encontrei, sentado num meio-devorado clarão. 


André Consciência
26/01/03

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Solstício de Inverno



















A chuva caia sem cessar
Pingava das árvores
Para aumentar a tristeza.

Ás quatro horas da manhã ajoelhou,
Beijou uma pena da asa do Arcanjo São Gabriel.

De madrugada, o monte estava vazio
O moinho, com as suas velas de linho
Dobradas e amarradas, rangia ao vento
Que fazia ondular a erva alta.

Uma vez estive contigo neste moinho.
Montei-te, para olhar para nascente.

Uma estrada vazia em direcção a anjos
Que bebiam inúmeros homens.

Há coisa nenhuma a gozar o ar da manhã
E eu não consigo abatê-la:
Rebentos de trigo e cevada
Condenados a morrer no Inverno.


André Consciência

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Iluminado por dois Archotes




A outra madrugada separou-os
Avistaram o horizonte no fumo
E partiram.

Sorriu.
O silêncio quebrou-a.

Com a pele a brilhar por cima da margem
Uma lontra deslizou da outra água.

Ergueu o focinho, olhou um momento
Para mim
E mergulhou de novo.

O céu ainda não estava completamente escuro
Tinha um tom luminoso como a chama de uma vela
Por trás de uma placa de osso.

Sentaram-se junto ao ribeiro.

Separaram-se na outra madrugada.

Um atalho conduzia à morte através da charneca
De tomilhos no perfume, sobre a qual
Esvoaçava o azul das borboletas.

 O fumo cavalgou na minha direcção.


Horned Wolf

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Os dias nunca mais acabam


Vista do Castelo de Palmela


Aproximou-se da porta branca do terraço, com o estuque carcomido e o quarto sempre na escuridão. O cigarro queimava, algo lânguido, uma mortalha branca. Além um mar de luzes trémulas na penumbra verde e terrena, alongando-se por Palmela até ao castelo no topo do monte ao fundo nocturno do horizonte. Pela sua mente em vácuo passaram muitas vivências imortais que ali haviam tomado lugar, algumas sob o abrigo feliz e vibrante do dia e várias sob a eternidade protectora das horas tardias. A vida repleta de coisas, por si próprias, sem fim, como um milagre estonteante, mas os dias não haviam modo de acabar e instalar a paz numa só delas.


André Consciência

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um Choro Distante




Ouvias as cotovias, o grito das tarambolas e o múrmurio do vento por entre as árvores. Caiu um pingo de chuva, espalhando-se na tua pele, mas foi apenas uma gota solitária, pertencendo a um aguaceiro que se afastava para Ocidente. O teu rosto ficava perto do rio e da janela da tua casa podia ver-se agua a correr sob os arcos da ponte. Os morcegos esvoaçavam em volta do teu vulto enrolado e semi-adormecido, enquanto que as casas para além do rio estavam iluminadas por um intenso quarto crescente.


André Consciência

sábado, 10 de dezembro de 2011

Fechou os Olhos




Os sinos tocavam com demasiada força
Os homens que puxavam as cordas tentavam
Repelir o assalto por si próprios.

Avançavam pela lama e metiam-se por entre as
Estacas partidas, como se fossem
Ratos.

Arrancou as roupas, depois voltou-se,
Quando ouviu vozes.

Um rio negro com pregos de aço corria
Em direcção ao centro da cidade.

Uma mulher gritou na rua,
Depois outra,
E vozes inglesas aplaudiam

Um a um, calavam-se
Os sinos,
A dobrar o seu terror
Sobre os telhados,
Os passos batiam na escada.

As gaivotas alimentaram-se dos olhos
Dos mortos e picaram-lhes a carne,
Restando apenas ossos ocos
A olharem as ondas.


André Consciência

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Malak III


Sphinx - Franz von Stuck


Tinha trinta anos, peito largo e queimado do Sol. O mercador de prata e mulheres vivia numa bela casa de pedra. Era a noite antes da Páscoa e rezou a São Jorge, enquanto numa das suas câmaras seladas, a juvenil beldade de cabelo branco, cuja pele era albina e os olhos arredondavam cegos, dançava na escuridão, assustada pelas megeras que gritavam no monte enquanto as ondas intermináveis se lançavam e sugavam as pedras.

Uma luz cinzenta entrava pela janela, sob o altar coberto.


André Consciência

Malak II



Corria para o mar junto a uma praia coberta de pequenos calhaus. Barcos de pesca partiam do meu peito. Uma língua de seixos contornava o meu último braço. Mesmo assim, o mar rugira sobre mim e desfizera os barcos.

O padre poderia ter sido bispo mas persegui-o com sonhos, estivera fechado na cela de um mosteiro devido a possessão demoníaca. Os demónios abandonaram-no e foi enviado para a aldeia, onde aterrorizava os seus habitantes pregando às gaivotas e chorando os pecados junto à costa, eu batia-lhe no peito com pedras aguçadas. Uivava como uma cadela, em noites em que a maldade pesava a consciência. Caminhava só, com o rosto severo, o cabelo desgrenhado e os olhos a brilhar.

Porém, naquela noite, depois do pôr do sol, durante a vigília, apenas quatro acólitos observavam as minhas chamas enormes e firmes. Um escutou o ressonar dos três companheiros e limitou-se a olhar para mim, semi-obscurecido por uma rede de pesca pendurada a secar. Uma corrente de ar frio fez reluzir as minhas chamas gémeas. Algures na aldeia, um cão uivava. Olhava para mim no tecto da igreja e rezava.

Macio e forte, o ventre liso
De uma rapariga.

Naquela noite, recordou-se dela
Que servia na pequena taberna da aldeia.

E do anjo, primeiro visto sobre os telhados:
Tinha comido numa só noite todo um bando
De gansos.


André Consciência

Malak


Sem Título - Ove Tøpfer

Assim, durante oito anos, fiquei suspenso na pequena igreja, acumulando pó e teias de aranha que cintilavam com reflexos prateados quando o sol entrava pela janela alta da torre poente. Os pardais pousavam no meu tronco e em algumas manhãs havia morcegos pendurados nas minhas coxas. Raramente me movia e quase nunca descia, embora, de vez em quando, o padre exigisse que lhe trouxessem a escada e me soltassem das minhas correntes, de modo a poder orar junto a ele, enquanto o afagava.


André Consciência

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Subhuman


Afterglow - Sem Título


O ar quente cheirava os fabricantes de carvão
Com pirliteiro e fumo.

A floresta tinha atravessado os filhos
As crianças corriam aos gritos pelas escadas
Estreitas; Onde é
O Caminho do Céu?

O Sol atrairá-nos para o exterior
Do outro Sol. Estávamos num campo
Perto de casa.

As pastagens combinavam passeios
Com os bosques; Onde é
O Caminho do Céu?

Num pedaço de terra horizontal,
A sua figura arredondava-se e as suas feições
Começavam a ganhar uma frescura
Que faziam adivinhar uma beleza; Onde é
O Caminho do Céu?

Com o cabelo escuro a ondular atrás de si
A erva, sob os seus pés, estava cheia de flores
Silvestres; Onde é
O Caminho do Céu?

Apoiado nos cotovelos, semicerrava os olhos
Por causa do Sol; Onde é
O Caminho do Céu?

Mais abaixo, os cães tinham enlouquecido.
Um anjo farejou-me as saias, olhou em volta
E depois aliviou-se contra a parede.
Eu limpo - disse eu à pressa. Um belo anjo
Ainda, era, virgem...

Levei-o lá para fora e ensinei-o a ter necessidades
Num sitio quente. A lua apareceu no nosso quarto
Bordando cinco raparigas a dançar em fila.
Naquele momento estava deitada na escuridão
A imaginar a mão dele a tirar-me os cabelos.

Onde é
O Caminho do Céu?


Horned Wolf

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

Não há nenhuma rua
As cadelas soltam um piar lento
Um dia vou escrever sobre ti

Todos aqueles que me largaram

Pára, vê a praça a crescer
Alimentam-se de ti, quando bebem cafés

Um dia pensei que te tinha tido
Não olhes agora para as mãos
Observa o fim das metas
Ninguém está nelas
Excepto o fogo que te separa
Não és um anjo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Tocador de Tulum




Quatro remadores em terra
Esperaram que nós encontrássemos
Um caminho.

A água ali tinha apenas uma
Fina língua de água.

As árvores chegavam quase
Ao alto.

Estávamos quase
A desistir.

A enseada subira um pouco
E gritou
Um zimbro a rastejar
Pelo solo pedregoso

Com a tenacidade de uma mulher
Madura.

Fragmentos de roupa, tranças,
Fivelas sem brilho.

A folhagem e depois um minúsculo regato
A correr por entre as pernas
Antes de se precipitar no mar.

Já era tarde
Coníferas de solo lamacento
Primavera chuvosa
Sempre que parámos para avaliar
O nosso progresso

A luz estava a desaparecer
E com ela
Os últimos vestígios de calor no ar.


Horned Wolf

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Esperança


Hans Ruedi Giger


Marinheiros subindo aos mastros
A noite afundando-se por completo
Sentada no catre enquanto o barco
Começava.

Não resistiria, deliciosas
Covinhas e inteligência viva.
À noite, com os dedos o rosto
Com a Lua a encobrir o céu.

A vegetação nocturna estava fora
De nós uma enseada estreita
Para passar.

Os marinheiros levavam a esperança
O ferro clareava
A gente rezava por ventos favoráveis.

Uma coisa secreta, privada, especial
As noites que passara com ele no han
Pertenciam a uma fracção diferente.

No chão, às escuras, na cama.

Uma escuridão através da qual
Senti os movimentos do barco
E as vozes. Completa-me.


Babalith

sábado, 26 de novembro de 2011

Maçãs




Uma figura pousada
Nos ombros de outra
Sem calças, muito
Indecoroso.

E tentava agarrar
Qualquer coisa
Maçãs.

O homem em cujas costas
Ela estendia o rosto
Também estava equilibrado
Em cima de uma boca.

E havia mais qualquer coisa...
Folhas em ramos a esticar-se à luz
Mas com cuidado.

A cortina tapava a paisagem
Prendi a respiração
Fechei os olhos com força e
Penetrei.


Horned Wolf

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deus ex Machina



No pulsar do despertar
Um cidadão confessa-se
E aventura-se no vazio

Os sinais do futuro
A arder
Recordam
O retorno.

Re-l124c41+
Facho de luz
Faíscas de radiância

Existência
Na treva branca
Quando sorris

Caminho errado para casa
A Ofélia
Calma que morreu calma

Terra incógnita
Vida após Deus
A rapariga, com o sorriso.

O olho sagrado do vazio
No lugar do fim do tempo
Deus ex machina.


Horned Wolf

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Underneath the Stars



São mais raras as estrelas, do que os barcos no oceano nocturno
Da respiração intermitente do teu vulto enquanto forma sonhada
E desmaiada em todos os pólos da minha maldade
Ah os lábios dos teus lábios chegam
Embora nos não beijemos às vezes
Aos meus lábios chegarem a chegar
Ao porto seguro da tua alma inavegável.

E na luz do seu silêncio me guiava
E engolido pelo seu ventre menstrual, que inchava
O oceano negro do seu coração cantando
Amarrava o céu e o inferno, meus.

Eu sou minuto vivo na coreografia
Do seu mamilo em bico
Uma dança ao Sol
Um tiro na humidade celeste
Uma sombra aquecida
Na noite dos amantes.

Um raio de Sol que entra
Nos poros do seu umbigo
Um grão de para-sempre
Incrustado nos mares
A paz para além da personalidade
A paixão para lá da dor.

Deixa-me levares-me os braços
O crisma, a roda, a medicina!
Besunta o amor sem lágrimas
E dissipa a solidez solitária.

Determino-me nas estrelas
Tão pequeno quanto é pequeno
Ser a vê-las.
Enorme quanto é grande
Amanhecê-las.


Horned Wolf

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Lago das Almas, O Carrocel dos Corpos


The Spheres - John Santerineross

Quando Gabriel sopra o chifre
E os lobisomens da rua
E a mulher nas mulheres
Se move nua

Quando a terra estremece
E os corpos do avesso
Repetem os seus hinos

Quando sou chamado
Para o meu lugar amado
E a pequenez do peso
Que deixou de ser voo

Digo-te "caminho
Pelo vale aéreo da luz
Anos sem fim
E no mar das almas
Não há terror ou selva
Que nos tapem

Olha para mim
Não te esqueças que voei
Ou penses, que esse voo
Teve fim
Por mais que derrubado
Os cães me comam

Quando o chifre soa
Eu não posso levantar
Se não para outro corpo
E só os ouvidos são ainda
Semelhantes ao que eu todo
Fui

As cidades em sal
Se um de nós dança
E ousa

Perdoem-me as águas
Por serem desmedidas
A vaga por aparentar limite
Sem o haver
Ou o fogo por romper
Todos os corpos
Que nos foram dados
Que a terra não se esqueça
De ser o primeiro retrato
De um romance
Da saudade
Sem alcance
E me perdoe o ar
Como antes
Eu não poder voar"


André Consciência

domingo, 13 de novembro de 2011

La Gitana



O teu cabelo em rosas na geada enquanto dançávamos,
A feiticeira a enfeitiçar e o paladino em luar,
À luz das estrelas teciamo-nos numa teia de seda e aço
Sem memória como o mármore nas câmaras de Boabdil,
No jardim secreto das rosas com as fontes e os orvalhos
Onde a nevada serra nos suavizou com as brisas e os galhos!
À luz das estrelas enquanto tremíamos do riso à carícia
E o deus veio quente sobre nós na nossa pagã delícia.
Era o Baille de la Bona demasiado sedutor? Sentiste
Pelo silêncio e pela doçura toda a tensão que assentiste?
Pois o teu cabelo em rosas e a minha carne em espinhos,
E a meia noite desceu em nós como mil loucas auroras.
Ah! minha cigana, minha Gitana, minha Saliya! estavas desejosa
Que a dança se tornasse solene? - Ó solarenga terra de Espanha!
Minha Gitana, minha Saliya! Mais deliciosa que uma pomba!
Com teu cabelo incendiado por rosas e teus lábios acesos por amor!
Deverei ver-te? E beijar-te uma vez mais? Eu divago para longe
Da terra solarenga de verão para a gelada estrela polar
Hei-de encontrar-te, hei-de encontrar-te! Eu estou a retornar
Da obscenidade e da neblina para te procurar na solarenga terra de Espanha.
Hei-de encontrar-te, minha Gitana, minha Saliya! como antigamente
Com teus cabelos incendiados de rosas e o teu corpo feliz com ardosas.
Eu hei-de encontrar-te, eu hei-de ter-te, no sul e no verão
Com a nossa paixão no teu corpo e o nosso amor na tua boca -
Com o nosso espanto e a nossa adoração seja o mundo incendiado e renovado!
Minha Gitana, minha Saliya! Eu retorno para ti!


Tradução de André Consciência

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Lusofonia




Os baloiços, onde estudávamos as estrelas
Com o balançar próprio do pêndulo
Nas rotas do fogo.

O cavalinho, onde te despia
Com chicote, e escapavas a galope
No mesmo lugar.

A almofada com que sufocava
As escaladas do teu êxtase.

E os escorregas onde rimos
A noite desprovida de olhos.

As pátrias antes de o serem:
Com medo criador, derrotadas.

Os mortos
Enquanto extra-pátria.

O cavalinho, que língua era a do corpo
Prévio à penetração?

Os navios, e o que é o português
Se não um sistema de controlo
Da psicologia humana?

Almeida Garret e Castelo Branco
A arrancarem estimuladamente as unhas.

As folhas caídas da civilização
Os workshops, os ecosistemas,

África, com trovadores do Porto,
Uma colecção de cromos
De René Guenon.

Que se foda, vou a galope
Que as àguas duram pouco
E os bicharocos lambem-nos as patas
No mesmo instante que lhes damos uso.

As galinhas em trânsito onírico
As hormonas a exalarem flores
Recintos e repórteres.

Vendo, na berma da estrada
Garrafas de nada.


Horned Wolf

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carruagem do Sol




O Douro doura
Despenhado
No mar das montras.

Ela saia da loja
Transportada pela carruagem
Do Sol.

O movimento da emoção volteava
Em som de cascalho.

Fomos peixes fora de água
A ver A Morta, de Rembrandt.

Foste Leviatã exterior ao aquário
Sobre o meu corpo emocional
A chuva rebrilhava por ti
E a lunaridade do alvão.

Houve uma altura em que não acreditava
Existir. Nessa altura, conseguia ver bandeiras,
E não conseguia aquários ou fora deles.

De súbito encontro-te
Na uva azul e nervurada.

Vou alcançar-te, vamos... exercitar-nos
Nos pastos. Somos bonitos, hoje.


Horned Wolf

Lisboa




Belém sombreia o Tejo.

As esplanadas a deslizarem
Para o despenhadeiro das margens.

Minha mão a calcar os Jerónimos,
A planar a fria cidadela de onde
Um urbano castanho se esguincha.

Ouve-se a chuva nos telhados
Romanescos.

É desconfortável um mundo
Em que haja céu visível
Sem telhado inteiro, ou outro
Embaciado.

Lisboa é um tecto para baixo
Uma beleza que fez nascer
Calçada, fumo, portos
E o terror do firmamento
Confortavelmente tapado.

Este conceito do belo decresce
Conforme diminui o outro conceito
O do terror. São cercos a Lisboa.

A estética a bater a punheta
Com as mãos de um general inagarrável
Pelos séculos.

A Graça desce na cidadania do vento,
De embate às molas da insónia
E à sofreguidão messiânica do futuro.

Um rio terroso vai avançando
E subindo o cimento. Abrindo-o,
A Travessa de S. Vicente,
Um andar soterrado
E sem felinos, acaba.


II

Cidade de luz, à noite.
Cidade de noite, à luz.

Os inspectores-de-fora viajam
Para o lodaçal Lisboeta
Reportando um velório criminal
De que nada é
Excepto na medida
Da sua intrínseca
Inexistência.

Os bairros encavalitados
Com as pedras da loucura
E Bosch num trono de poeira
Luminosa, a olhar sobre a cidadela
Corvo.

No piso inferior, Jerónimo
De Sousa, deixa-se sodomizar
Pelas investidas sensatas
De Artaud.

Os trabalhadores faltam
Bebem chá verde
Por dentro de garrafas.

Montículos de fogo
Na tua boca
E que a cidade não se pronuncie.


Horned Wolf

sábado, 5 de novembro de 2011

Café e Lenha


Estado Líquido - Babalith


As margens fecharam a luz
E um lago dançou a meio de mim.

Os cafés pairavam, debaixo da água.
Em conversa, tu, com o cântico das sereias, eu
Como faróis negros ao longe.

O escuro entrava nos relógios que boiavam
Em nosso redor, apagando-os para o outro lado
Do Universo, e ela ria-se, sem que a sua
Cadeira, perturbasse o lago.

Eu leio o que te ouvi dizer, e escrevo.

Tu também estás na margem:
Os ângulos todos. Jactos de luz rápida
Que nos iluminavam por dentro:
Nunca tinha visto o meu corpo por fora,
Ou melhor, o teu corpo por dentro.

Cidades inteiras giram à volta das árvores
Mas o lago quieto, o café quieto,
Fora do horizonte, a ver o horizonte
Por paisagem, como quem sabe amar
O tempo.


Horned Wolf

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Trémula II


Fuente de La Vida - Temple of Meus


O búlgaro atravessou o pátio
E subiu as escadas,
Ofegante.

Olhou para mim e inclinou
Ligeiramente, a cabeça.
Surpreendera-me a mim mesma.

Quando os venezianos começaram
A despir-se
O meu corpo pegajoso
Encontrava os nervos à flor
Da pele.

O homem, com a idade do meu pai,
Arrancara-me segredos.
Fizera-se acompanhar por seus dois
Sócios.

Um, cansado, bebia um copo
De chá. Agarrei a oportunidade,
Fui buscar o desejo ao inferior
Passei os lábios como qualquer outra
Rapariga recatada, fazendo algumas
Declarações introdutórias.

Refreei o júbilo e o aborrecimento
Despindo gentilmente os meus
Visitantes. Fiquei na galeria até eles
Aparecerem. Tirei o véu, passei os dedos
Pelos cabelos, e iniciei uma dança
Privada de triunfo. Um homem no pátio
Fitava-me sem expressão nas feições
Rapaces.

Acordei a meio de nus, tomando subitamente
Consciência do cansaço e da transpiração.
Entrancei devidamente os cabelos, ainda fazia noite,
Puxei o véu para a cabeça e retirei-me para o meu
Apartamento.


Horned Wolf

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Trémula




Enquanto os homens estavam nos banhos ou ocupados
Adquiri o hábito de me passear nua com os ouvidos abertos.

Encontrava-se junto da porta com um pénis cor de rubi
Nas mãos enormes e revoltadas.

Diz-se que os pés dele eram como as raízes da volúpia
Mais profunda, e que milhares de cúpidos e faunos
Faziam ninho no seu cabelo.

Ao meio dia, fornecia-lhe pele em bruto. Gostava
De me apreciar segurando objectos de vidro, de qualidade.

Perguntei a mim própria se teriam filhos, ele
E a Tristeza, perguntei-me como seriam
Com suas pequenas fendas palpitantes.

O aparecimento de uma visitante bem proporcionada, elegante,
Subia os degraus ao fundo, os cabelos cobertos
Por um véu verde escuro, por baixo, o corpo nu
Apenas completado por chinelos dourados.

Estava despida como assistente, somente, e por um momento
Vi-me a querer um adereço para as extremidades inferiores.

A mulher elegante apareceu nos aposentos de Maria,
Um homem grande de cafetã e turbante, banqueteando-se
Nas suas costas. Encontrei-lhe o olhar
Sem querer.

Inclinou a cabeça. Não olhes. Embaraçada, voltei
A minha atenção para o musculado rubi.

Os venezianos estavam atrasados.


Horned Wolf

Your God That Daughter of Light


Cthulho Stele - Parjer Ryan


Descrevi o poeta como uma cidade
De mármore e profiro, jóia
Das jóias.

Os seus palácios e as suas mesquitas
Erguem-se do céu em direcção
Às águas.

Descrevi no poeta
O caldeirão das culturas.

Torres e minaretes de floresta
Paredes altas e jardins verdes
O Sol a brilhar por entre a água
E o casco a passar pelas pesadas nuvens.

Descrevi o poema como dança nocturna
Extática,
Em que os homens se mutilam para se parecerem
Mais
Com as mulheres.

Entre o poeta e o poema
Um personagem impressionante
Com um turbante de neve na cabeça
E uma túnica de seda púrpura
Até aos pés:

O personagem tremulava
Agitado pelo capricho das brisas.
Em redor, nada se movia:

A silhueta de uma mulher vestida
De negro.

Em redor, pilhas de frutos estranhos,
Um chapéu alto, um monte de pães redondos
E achatados, um burro, um par de sacos
De pele, água, moviam-se.


Horned Wolf

domingo, 16 de outubro de 2011

Multidão Memória


The Loss of Alsace Lorraine - Emmanuel Benner



Saíram, vestidos de mimos,
Os sonhos que eu perdi, todos,
A ver um espectáculo de luzes.

No céu sem ninguém habitam granadas
Como um silêncio de revoluções subterrâneas.
O meu peito jorra todo em neve que derrete:
Eu tenho memórias nos dedos,
Canções sem letra, choros leves
No peso amplo da noite.

Os seus cabelos lambem
A sua pele rosada
E eu fico a ouvir os poemas da torneira
A pingar lágrimas
Quando a chama se eleva
Aos patamares do inalcançável:
Haver tudo passado
E o cinzento ser pele de manhã.

A multidão na rua caminha devagar
Embora esteja a chover torrencialmente
Procurei o contorno da tua nuca
A tua respiração
Mas tudo o que passou não tinha
Nome
Excepto eu, com os meus dedos
Irrequietos.


Horned Wolf

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Entrámos




A Lua levantou-se e a sua luz fria,
Nós estávamos sentados, a olhar o vazio.
De repente, o rosto escorregava-me
Lágrimas abaixo.

Os cabelos escuros dela a meu lado
Estenderam borboletas brancas.

As pedras pareciam engolir-nos aos dois.
Ficámos um pouco de tempo na floresta iluminada
Imóveis pelo peso do que acabara de acontecer.


Horned Wolf

terça-feira, 11 de outubro de 2011

...



Naquela noite
A Lua Cheia mal chegava
Para alimentar um pássaro.

O velho dissera uma palavra
Desde o crepúsculo, as suas faces
Estavam encovadas e o seu rosto
Demasiado grande para os olhos.
Cada parcela do seu corpo concentrada
Em trazê-la de volta.

Depois do quarto minguante
Retirava-se gradualmente
Para um mundo sombrio.

O lume da verdade transformava
Os monstros em rapazinhos
Excepto ele, com os seus dedos
Irrequietos.

Havia muito entre nós:
Muito amor, muita dor,
Muitos mal entendidos,
Pele esticada, pálpebras sombrias,
Quando os carneiros começaram a nascer.

Para lá da janela verde
A luz no nosso quarto era doce.

A rapariga escondia-se na cozinha, enchia o corpo de cinza
E tapava o rosto por debaixo de peles
Espalhando as pernas com um presente misterioso:
Gemia com voz de folha a sussurrar ao vento.

Um dragão embateu nos meus punhos
Levantei-me e fui buscar um copo de água.
O meu corpo parecia uma corda de piano.

O Sol pôs-se para lá das janelas coloridas
Quatro vezes, e no interior do nosso quarto.
No extremo do pomar havia um banco de pedra
Cheio de musgo.

A Primavera acabara de chegar e eu não sabia quanto tempo
Teria de esperar ao frio.
Os vidoeiros que cresciam em nosso redor envolviam-nos
Como uma capa prateada sussurrante.
Dentro de nós, o fumo erguia-se das chaminés.

As faúlhas da minha fogueira subiam em espiral
Como pequenas bailarinas.

O toque da sua mão aqueceu-me o corpo todo,
Senti uma felicidade deliciosa que me começava
No coração a expandir-se pelo corpo.

O velho não dissera uma palavra
Desde manhã, as suas faces
Estavam encovadas e o seu rosto
Demasiado grande para os olhos.
Cada parcela do seu corpo concentrada
Em morrer.


Horned Wolf

sábado, 8 de outubro de 2011

Na Manhã Seguinte




Afastou-se na direcção da floresta sem uma palavra
E as sombras engoliram-na.
Naquele momento soou uma trompa
No pequeno pavilhão.

Sentia o rosto a arder
A luz das lanternas dourava-lhe o cabelo
E no seu vestido leve ela estendia
Os braços brancos numa súplica
Os seus gritos rachavam o gelo
E espantavam os pássaros das árvores.

Uma risada percorreu a multidão
A clareira pareceu escurecer
Percorrida pelo sino da voz.

Vigio-te há muito, desde antes
Do tempo ser tempo.

Haverá mais cor no teu rosto
Como se uma longa geada
Começado a derreter.

Transportei-te até ao meu barco,
Onde núpcias.
Ninguém disse uma palavra.

Um pouco mais longe
A serpente branca estava enrolada
No ramo de um arbusto.

Disse-te palavras:
Amor, verdade, lealdade,
Confiança, sorriste
Reflectindo a luz da Lua
Nos teus dentes pontiagudos.

Ouviu-se um cacarejar de desdém,
Trocista, e depois o silêncio.

Transportei-a até ao meu barco,
Onde nos deitámos.
Ninguém disse uma palavra.

Um pouco mais longe
A serpente branca estava enrolada
No ramo de um arbusto.

A nossa última visita ao outro reino
Terminara.


Horned Wolf

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pássaro Azul



O céu estava rosado. Ela queria escrever as linhas da eternidade num frágil bloco no carro, à beira do horizonte. O pôr do Sol nas árvores ou o mesmo astro a nascer perpendicular ao mar que se descobria no fundo do descampado que, com vegetação densa e molhada, apenas caminhávamos a custo. O reflexo das copas no rio, ou o pontão desfeito com as madeiras semi-mergulhadas. Uma família de férias, as suas silhuetas no crepúsculo, com os mais velhos a segurar luzidamente cachimbos finos. Mas eu sou nuvens e fumo, um cheiro que se deixou cair nas coisas sem se tornar algo. A substância efervescente do céu, que nenhum Deus veio abraçar. Musgo verde nas pedras do lago, a explosão de uma partícula de água numa superfície aquosa. O desabrochar de flores nas minhas lágrimas. A neblina na terra. O gelo macio da tua pele. . . . . . . . . São lúgubres as virtudes do homem, da mulher, o Homem é vil e o seu amor é mais devastador que o ódio dos anjos. Se existe um pássaro azul na hora mais escura, com as mãos em oração e as asas como frondosas velas ao vento, revele-se agora. Ilumine a minha alma peregrina com os sonhos dos primeiros leões, das crianças invioladas, das virgens em luta - de outra coisa mais antiga, um amor que não é o dos homens. . . . . . Nada no mundo está parado, excepto os deuses nos seus imóveis corpos de pedra, prova crassa do tédio que nos criou. Um dia tu também te lembrarás do pássaro que morreu na tua barriga, e chorarás a minha queda.

André Consciência

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apocalipse Acto V

As diferenças são, invariavelmente, motivo de erradicação de um por parte do outro, quer por se ingeri-las quer por eliminá-las, nesse sentido tudo está em qualquer coisa e nada se move isoladamente. Da mesma forma se relaciona o nosso passado, aquilo que nos é antigo, e aquilo que nos é novo, assim, o antigo destina-se a tornar-se novo e o novo a tornar-se antigo e decrépito. O Homem percepciona esta realidade sem, todavia, existir no seu plano. Entre uma e outra coisa funciona um terceiro corpo, esse terceiro corpo é o homem tal como desceu primeiro ao mundo.

O individuo vive enquanto elemento das relações humanas, a sua vontade é, enquanto individuo, um somatório de querer completar ou destruir o outro, ou seja, de se fundir com ele. Os dois entes jamais se tocam, no entanto ambos consomem o terceiro corpo, que os aprisiona por via da crença mutua e já só se justifica com as suas próprias parasitas.

Apocalipse Acto IV

A Livre Vontade reside no acto de se adaptar e celebrar a adaptação, é precisamente o contrário da liberdade de escolha. Viver é o acto de imitação, mas para que o sinta de forma vibrante, o actor interno, terá de se convencer da exclusividade dos seus gestos, a sua vontade, por mais isolada que aparente ser, é a de colaborar e participar nas engrenagens da escravatura da consciência social, sem a qual a vida enquanto a conhecemos - como uma encenação - perderia os membros e os órgãos. Se o seu acto, durante a encenação colectiva, se mostrar suficientemente grandioso para o público, então finalmente poderá ser ceifado sem medo, esse é o objectivo do Homem: cessar.

Apocalipse Acto III

O facto inegável de não possuirmos qualquer tipo de forma é interrompido pelas maquinações da palavra, a existência da mesma criou um Deus que, sendo inferior a nós, sobre nós domina. A palavra não tem forma e, todavia, nomeia a arquitectura da forma. Depois de um homem conhecer a palavra, mesmo o esforço de a calar, se equivale ao esforço de tentar conter um caudal num recipiente frágil demais para o mesmo. Neste sentido se criaram os ossos (gigantes para a chispa que somos), antenas que escoam a alma e a reduzem ao pó, com o fim de eliminar o vírus da palavra. A consciência, entre a morte a que o seu corpo a força e a morte a que a sua alma a força, improvisa e procura crescer para além do tempo e do espaço agarrando-se com todo o ímpeto ao tempo e ao espaço. Este crescimento acelera a sua dissolução, a consciência, pois, procura a mágoa, de forma a paralisar-se e a olhar sobre si mesma, ou sobre outro, que é não só idêntico a olhar sobre si mesma, como uma e a mesma coisa. É necessário, todavia, que alguém acredite na sua vitimização, para tal fim o ente magoará o seu semelhante, procurando, além disso e desta forma, preservá-lo. Mas o homem que rir e o homem que, através dessa prática, troçar desta condição, será o homem que, à porta do inferno, guardará as chaves do paraíso.

O riso do Joker é inútil, e muito menos salva, por isso, ele contém todo o significado que o mundo pode conter, e o êxtase de existir.

A alma é uma criança, mas a palavra, que ainda está para vir e sempre o estará, é anciã e imposta sobre a alma.

Apocalipse Acto II

Para ganhar pele, há que lançar a alma ao fungo da humidade. A carne não existe, ela é a crença que a dissolução ostenta em si mesma sobre si mesma e que a impede de se dissolver. Qualquer lugar que os sentidos da alma, ou seja, o corpo, perceba, é uma prova da irrealidade. O lugar é irreal, mas a estadia da alma naquele lugar, tal como a percebe, é real. É-se perfeito apenas no que jamais se atinge, mas por isso em tudo se é perfeito e o mundo é uma totalidade em harmonia, jamais coisa alguma se atinge num todo, mas tal facto é o acto. A consciência é o factor que ilumina este factor, sem ela, a perfeição não seria imaginada. Na consciência, o pilar do céu estrelado da perfeição é a percepção da culpa de em nada se atingir a beleza total, a beleza total seria um sono eterno e o esquecimento de si mesma. Por isso, as mãos trabalham com arrogância na evolução: toda a evolução é uma falácia diabólica e brutal.

Apocalipse Acto I

Acordei e vi-me ao espelho. O espelho mostrou uma imagem de mim se o que eu fosse não fosse mais do que esquecer-me: porque esquecer é ter figura. As quatro mãos do meu cansaço, duas em mim e duas no espelho, conversavam em linguagem gestual sobre assassínios que curam, sempre com o sarcasmo da linguagem universal que é a mentira. Se um dia eu pudesse ter só um braço, só um olho, uma narina apenas, e a minha figura quebrasse os espelhos, a repetição seria nova e o novo um sentimento familiar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A Drowning



Uma a uma, as pessoas adormeceram. No exterior, a neve caia sobre os muitos telhados da memória, com a forma de silêncios longos. As cores estavam às escuras. Pegava numa chama pela raiz. Só se ouviam os relógios, partidos, à procura de funcionarem uma vez mais. Por favor... Disse. Estou aqui, André. Respondeu o palhaço do frio astro. Estremeci, imaginando até onde a sua fúria o levaria. Há muito tempo, vagueou pela neve até morrer, sem alcançar lado algum. Tem de ser, palhaço. Tu e eu. Murmurei. Percorri a casa em bicos de pés assim que a primeira luz do dia agarrou o chão. Com a luz, todos os adormecidos haviam agora perecido. Que os santos vão contigo, André. Disse o intruso, retirando a chama do meu braço.

A principio, nem sequer tentei descobrir onde era o covil do lobo ornado ou como chegar lá rapidamente. O meu objectivo era desaparecer. Assim, fiz o que pude para tornar a minha alma difícil de seguir. Muito dentro de mim, eu podia fechar os olhos e sair em qualquer outro lugar. Tens a certeza? Pareces estranho, triste. Não precisas de vir, sabes? Pedi. Eu sei, André. A superfície do lago mostrava-se gelada e a bruma pairava como uma mortalha cinzenta móvel. Os pássaros nus e falecidos, penduravam-se inanimados nos ramos dos azevinhos com bagas. A vegetação encontrava-se triste. Por cima das copas afastadas das árvores não havia céu, só o infinito. Gelaria tão depressa que não teria tempo de me afogar. É ela - O quê? - É ela! O palhaço enterrou a cabeça na palma da minha mão, tremendo violentamente. Tens medo de mim, André? Perguntei-lhe.


Horned Wolf

Multidão Memória - Performance Poética

Sábado, 15 de Outubro de 2011 - 21:00h

Poesia de André Consciência interpretada pelo autor, acompanhada pelas atmosferas sonoras de Alma Púrpura e a dança interpretativa de Soraya Moon. O acto será agraciado por uma exposição de algumas das gravuras de Borus Aura e contemplará o peso espectral da memória tanto como a cegueira da conduta.



"A jaula perto da fonte, na praça,
Alberga três gémeos cegos. Ao lado,
Um teatro de marionetas, desempenha
Uma peça sem sentido."

Valor da inscrição: 5,00€

Local: Sintra - Rua Tomé de Barros Queirós, nº 29b - Sintra

Inscrições no local, através do telefone 219 234 257 ou por e-mail:

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cavalos. Visitantes. III




Uma gota de sangue carmesim em contraste com a pele
Branca,
Uma jovem viúva.

Os seus olhos estavam lavados e caiam-lhe, escuros
E lustrosos,
Pelos ombros.

Falámos do tempo, da música
Da sua casa, sobre
Uma nuvem de trovoada.

Um ser humano de meia-idade, vestido com o traje
Esfarrapado de um pastor, sacudia e contorcia o corpo
Rudemente:
O bonecreiro obrigava-o a mexer-se.

Umas gotas de éter num pano e depois...
Andar um pouco a cavalo, talvez.

Ela movia-se nos meus braços
Como uma ave elegante:
Os olhos escuros continuavam
A arder e a pele a derreter.

No seu pescoço estava o fio de prata
Da minha mãe.

A noite de lua nova
Encontrava a porta ligeiramente aberta.


Horned Wolf

sábado, 1 de outubro de 2011

Sombras de Pólen

Homenagem ao blogue The Scarlet Chamber




Na noite fluvial
O veneno percorrendo as veias
Em taças de cascavéis escoantes
Na embriaguez de pessoas

Vidraças nos olhares esgazeados
Sorvendo palavras de fumo
No êxtase líquido da secura tragada

Na fermentação de egos
Exaltando folículos fendidos
Formam-se crisálidas consistentes
Expirando larvas em pólen

E em cada sombra de rostos
De chamas pálidas e inexpressivas
Uma ave ergue o olhar aos céus


Tatiana Pereira

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cavalos. Visitantes. II




Ouvi-la-ei chamar-me na pulsação do sangue
No premente bater do coração.

Sob os sombrios carvalhos onde estávamos
Tudo era sombra e imobilidade,
As luzes coloridas brilhavam difusamente
E a música zumbia.

A imundice dos campos
Seguia-nos a medo
No cacarejar de uma velha.

Uma confusão de pés no relvado
Alguns descalços, outros calçados.

De novo, à sombra do vidoeiro sem folhas
Encostada a um tronco, com a roupa despida
Na erva estendida.

Uma a uma, as minhas memórias
Entraram nos trenós e começaram
A deslizar pelo gelo,
Correndo contra os primeiros alvores
Do dia.

O Inverno começava a clarear,
Trémulo de exaustão,
Com o corpo coberto por uma camada
De gelo.

Do meu peito saiu um grande soluço.


Horned Wolf

Cavalos. Visitantes.

Sobre um lençol de gelo negro
Os nossos acompanhantes vinham de trenó
Com longos nomes de estrelas e
As suas luzes a surgirem da bruma.

Uma teia de aranha ao vento
Dançava com as mulheres leves.

Mais à frente
O conjunto de peixes mortos
Tremia com
Sentimentos afectuosos.


Horned Wolf

sábado, 24 de setembro de 2011

Frio




As margens do rio que as chuvas recentes
Fizeram torrente castanha e espumosa.
Pousei a cabeça na mão, com o meu
Suspiro, com a minha... caligrafia.

O frio entrava por cada frincha
O vapor de água saia-me pela boca.
Os outros bebem com a sua pele
Cor de cera e os seus olhos mortos.

Uma sentou-se e ficou a observar
Com olhos sonhadores
Ao som dos fragmentos de gelo a deslocarem-se
Na água, e do pio solitário de um mocho.

Eu fiquei à espera.


Horned Wolf

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Padrão da Noite


Orla de Floresta - Courbet


Criaturas de todas as formas e feitios
Pegavam-nos pelas pequenas mãos e ensinavam-nos
Os passos.

Na floresta sem fim, algumas árvores
Tinham o teu perfume, outras o meu
E o arvoredo, odor conjunto.

Depois, sabíamos os passos
De cór,
Sentávamo-nos sobre as árvores
A cada Lua Cheia, e olhávamos
A nudez a brilhar, e tocávamos
A água prateada da pele
Com os movimentos
Emocionais
De escorrermos no astro.

Quando a Lua estava mais alta
E viamos por entre os ramos
Dos carvalhos mais altos
Vislumbravamo-nos na orla
Da floresta.


Horned Wolf

O Vôo




Um músico aspira
À composição que será capaz
Apenas uma vez na vida.

Os nossos pés
Aclararam perto
Do chão das folhas.

Caímos, os pulsos
Percorridos de velocidade
As faces rubras
A romperem o Sol
Com sangue
À sombra das árvores.

Era uma música
Que continuaríamos a ouvir em sonhos
Vidas depois
E nos cobriria a solidão
Do seu percurso
Com capas vaporosas.

A Clareira da Dança
Tinha as suas próprias
Regras.


André Consciência