quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Esperança


Hans Ruedi Giger


Marinheiros subindo aos mastros
A noite afundando-se por completo
Sentada no catre enquanto o barco
Começava.

Não resistiria, deliciosas
Covinhas e inteligência viva.
À noite, com os dedos o rosto
Com a Lua a encobrir o céu.

A vegetação nocturna estava fora
De nós uma enseada estreita
Para passar.

Os marinheiros levavam a esperança
O ferro clareava
A gente rezava por ventos favoráveis.

Uma coisa secreta, privada, especial
As noites que passara com ele no han
Pertenciam a uma fracção diferente.

No chão, às escuras, na cama.

Uma escuridão através da qual
Senti os movimentos do barco
E as vozes. Completa-me.


Babalith

sábado, 26 de novembro de 2011

Maçãs




Uma figura pousada
Nos ombros de outra
Sem calças, muito
Indecoroso.

E tentava agarrar
Qualquer coisa
Maçãs.

O homem em cujas costas
Ela estendia o rosto
Também estava equilibrado
Em cima de uma boca.

E havia mais qualquer coisa...
Folhas em ramos a esticar-se à luz
Mas com cuidado.

A cortina tapava a paisagem
Prendi a respiração
Fechei os olhos com força e
Penetrei.


Horned Wolf

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Deus ex Machina



No pulsar do despertar
Um cidadão confessa-se
E aventura-se no vazio

Os sinais do futuro
A arder
Recordam
O retorno.

Re-l124c41+
Facho de luz
Faíscas de radiância

Existência
Na treva branca
Quando sorris

Caminho errado para casa
A Ofélia
Calma que morreu calma

Terra incógnita
Vida após Deus
A rapariga, com o sorriso.

O olho sagrado do vazio
No lugar do fim do tempo
Deus ex machina.


Horned Wolf

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Underneath the Stars



São mais raras as estrelas, do que os barcos no oceano nocturno
Da respiração intermitente do teu vulto enquanto forma sonhada
E desmaiada em todos os pólos da minha maldade
Ah os lábios dos teus lábios chegam
Embora nos não beijemos às vezes
Aos meus lábios chegarem a chegar
Ao porto seguro da tua alma inavegável.

E na luz do seu silêncio me guiava
E engolido pelo seu ventre menstrual, que inchava
O oceano negro do seu coração cantando
Amarrava o céu e o inferno, meus.

Eu sou minuto vivo na coreografia
Do seu mamilo em bico
Uma dança ao Sol
Um tiro na humidade celeste
Uma sombra aquecida
Na noite dos amantes.

Um raio de Sol que entra
Nos poros do seu umbigo
Um grão de para-sempre
Incrustado nos mares
A paz para além da personalidade
A paixão para lá da dor.

Deixa-me levares-me os braços
O crisma, a roda, a medicina!
Besunta o amor sem lágrimas
E dissipa a solidez solitária.

Determino-me nas estrelas
Tão pequeno quanto é pequeno
Ser a vê-las.
Enorme quanto é grande
Amanhecê-las.


Horned Wolf

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Lago das Almas, O Carrocel dos Corpos


The Spheres - John Santerineross

Quando Gabriel sopra o chifre
E os lobisomens da rua
E a mulher nas mulheres
Se move nua

Quando a terra estremece
E os corpos do avesso
Repetem os seus hinos

Quando sou chamado
Para o meu lugar amado
E a pequenez do peso
Que deixou de ser voo

Digo-te "caminho
Pelo vale aéreo da luz
Anos sem fim
E no mar das almas
Não há terror ou selva
Que nos tapem

Olha para mim
Não te esqueças que voei
Ou penses, que esse voo
Teve fim
Por mais que derrubado
Os cães me comam

Quando o chifre soa
Eu não posso levantar
Se não para outro corpo
E só os ouvidos são ainda
Semelhantes ao que eu todo
Fui

As cidades em sal
Se um de nós dança
E ousa

Perdoem-me as águas
Por serem desmedidas
A vaga por aparentar limite
Sem o haver
Ou o fogo por romper
Todos os corpos
Que nos foram dados
Que a terra não se esqueça
De ser o primeiro retrato
De um romance
Da saudade
Sem alcance
E me perdoe o ar
Como antes
Eu não poder voar"


André Consciência

domingo, 13 de novembro de 2011

La Gitana



O teu cabelo em rosas na geada enquanto dançávamos,
A feiticeira a enfeitiçar e o paladino em luar,
À luz das estrelas teciamo-nos numa teia de seda e aço
Sem memória como o mármore nas câmaras de Boabdil,
No jardim secreto das rosas com as fontes e os orvalhos
Onde a nevada serra nos suavizou com as brisas e os galhos!
À luz das estrelas enquanto tremíamos do riso à carícia
E o deus veio quente sobre nós na nossa pagã delícia.
Era o Baille de la Bona demasiado sedutor? Sentiste
Pelo silêncio e pela doçura toda a tensão que assentiste?
Pois o teu cabelo em rosas e a minha carne em espinhos,
E a meia noite desceu em nós como mil loucas auroras.
Ah! minha cigana, minha Gitana, minha Saliya! estavas desejosa
Que a dança se tornasse solene? - Ó solarenga terra de Espanha!
Minha Gitana, minha Saliya! Mais deliciosa que uma pomba!
Com teu cabelo incendiado por rosas e teus lábios acesos por amor!
Deverei ver-te? E beijar-te uma vez mais? Eu divago para longe
Da terra solarenga de verão para a gelada estrela polar
Hei-de encontrar-te, hei-de encontrar-te! Eu estou a retornar
Da obscenidade e da neblina para te procurar na solarenga terra de Espanha.
Hei-de encontrar-te, minha Gitana, minha Saliya! como antigamente
Com teus cabelos incendiados de rosas e o teu corpo feliz com ardosas.
Eu hei-de encontrar-te, eu hei-de ter-te, no sul e no verão
Com a nossa paixão no teu corpo e o nosso amor na tua boca -
Com o nosso espanto e a nossa adoração seja o mundo incendiado e renovado!
Minha Gitana, minha Saliya! Eu retorno para ti!


Tradução de André Consciência

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Lusofonia




Os baloiços, onde estudávamos as estrelas
Com o balançar próprio do pêndulo
Nas rotas do fogo.

O cavalinho, onde te despia
Com chicote, e escapavas a galope
No mesmo lugar.

A almofada com que sufocava
As escaladas do teu êxtase.

E os escorregas onde rimos
A noite desprovida de olhos.

As pátrias antes de o serem:
Com medo criador, derrotadas.

Os mortos
Enquanto extra-pátria.

O cavalinho, que língua era a do corpo
Prévio à penetração?

Os navios, e o que é o português
Se não um sistema de controlo
Da psicologia humana?

Almeida Garret e Castelo Branco
A arrancarem estimuladamente as unhas.

As folhas caídas da civilização
Os workshops, os ecosistemas,

África, com trovadores do Porto,
Uma colecção de cromos
De René Guenon.

Que se foda, vou a galope
Que as àguas duram pouco
E os bicharocos lambem-nos as patas
No mesmo instante que lhes damos uso.

As galinhas em trânsito onírico
As hormonas a exalarem flores
Recintos e repórteres.

Vendo, na berma da estrada
Garrafas de nada.


Horned Wolf

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Carruagem do Sol




O Douro doura
Despenhado
No mar das montras.

Ela saia da loja
Transportada pela carruagem
Do Sol.

O movimento da emoção volteava
Em som de cascalho.

Fomos peixes fora de água
A ver A Morta, de Rembrandt.

Foste Leviatã exterior ao aquário
Sobre o meu corpo emocional
A chuva rebrilhava por ti
E a lunaridade do alvão.

Houve uma altura em que não acreditava
Existir. Nessa altura, conseguia ver bandeiras,
E não conseguia aquários ou fora deles.

De súbito encontro-te
Na uva azul e nervurada.

Vou alcançar-te, vamos... exercitar-nos
Nos pastos. Somos bonitos, hoje.


Horned Wolf

Lisboa




Belém sombreia o Tejo.

As esplanadas a deslizarem
Para o despenhadeiro das margens.

Minha mão a calcar os Jerónimos,
A planar a fria cidadela de onde
Um urbano castanho se esguincha.

Ouve-se a chuva nos telhados
Romanescos.

É desconfortável um mundo
Em que haja céu visível
Sem telhado inteiro, ou outro
Embaciado.

Lisboa é um tecto para baixo
Uma beleza que fez nascer
Calçada, fumo, portos
E o terror do firmamento
Confortavelmente tapado.

Este conceito do belo decresce
Conforme diminui o outro conceito
O do terror. São cercos a Lisboa.

A estética a bater a punheta
Com as mãos de um general inagarrável
Pelos séculos.

A Graça desce na cidadania do vento,
De embate às molas da insónia
E à sofreguidão messiânica do futuro.

Um rio terroso vai avançando
E subindo o cimento. Abrindo-o,
A Travessa de S. Vicente,
Um andar soterrado
E sem felinos, acaba.


II

Cidade de luz, à noite.
Cidade de noite, à luz.

Os inspectores-de-fora viajam
Para o lodaçal Lisboeta
Reportando um velório criminal
De que nada é
Excepto na medida
Da sua intrínseca
Inexistência.

Os bairros encavalitados
Com as pedras da loucura
E Bosch num trono de poeira
Luminosa, a olhar sobre a cidadela
Corvo.

No piso inferior, Jerónimo
De Sousa, deixa-se sodomizar
Pelas investidas sensatas
De Artaud.

Os trabalhadores faltam
Bebem chá verde
Por dentro de garrafas.

Montículos de fogo
Na tua boca
E que a cidade não se pronuncie.


Horned Wolf

sábado, 5 de novembro de 2011

Café e Lenha


Estado Líquido - Babalith


As margens fecharam a luz
E um lago dançou a meio de mim.

Os cafés pairavam, debaixo da água.
Em conversa, tu, com o cântico das sereias, eu
Como faróis negros ao longe.

O escuro entrava nos relógios que boiavam
Em nosso redor, apagando-os para o outro lado
Do Universo, e ela ria-se, sem que a sua
Cadeira, perturbasse o lago.

Eu leio o que te ouvi dizer, e escrevo.

Tu também estás na margem:
Os ângulos todos. Jactos de luz rápida
Que nos iluminavam por dentro:
Nunca tinha visto o meu corpo por fora,
Ou melhor, o teu corpo por dentro.

Cidades inteiras giram à volta das árvores
Mas o lago quieto, o café quieto,
Fora do horizonte, a ver o horizonte
Por paisagem, como quem sabe amar
O tempo.


Horned Wolf

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Trémula II


Fuente de La Vida - Temple of Meus


O búlgaro atravessou o pátio
E subiu as escadas,
Ofegante.

Olhou para mim e inclinou
Ligeiramente, a cabeça.
Surpreendera-me a mim mesma.

Quando os venezianos começaram
A despir-se
O meu corpo pegajoso
Encontrava os nervos à flor
Da pele.

O homem, com a idade do meu pai,
Arrancara-me segredos.
Fizera-se acompanhar por seus dois
Sócios.

Um, cansado, bebia um copo
De chá. Agarrei a oportunidade,
Fui buscar o desejo ao inferior
Passei os lábios como qualquer outra
Rapariga recatada, fazendo algumas
Declarações introdutórias.

Refreei o júbilo e o aborrecimento
Despindo gentilmente os meus
Visitantes. Fiquei na galeria até eles
Aparecerem. Tirei o véu, passei os dedos
Pelos cabelos, e iniciei uma dança
Privada de triunfo. Um homem no pátio
Fitava-me sem expressão nas feições
Rapaces.

Acordei a meio de nus, tomando subitamente
Consciência do cansaço e da transpiração.
Entrancei devidamente os cabelos, ainda fazia noite,
Puxei o véu para a cabeça e retirei-me para o meu
Apartamento.


Horned Wolf

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Trémula




Enquanto os homens estavam nos banhos ou ocupados
Adquiri o hábito de me passear nua com os ouvidos abertos.

Encontrava-se junto da porta com um pénis cor de rubi
Nas mãos enormes e revoltadas.

Diz-se que os pés dele eram como as raízes da volúpia
Mais profunda, e que milhares de cúpidos e faunos
Faziam ninho no seu cabelo.

Ao meio dia, fornecia-lhe pele em bruto. Gostava
De me apreciar segurando objectos de vidro, de qualidade.

Perguntei a mim própria se teriam filhos, ele
E a Tristeza, perguntei-me como seriam
Com suas pequenas fendas palpitantes.

O aparecimento de uma visitante bem proporcionada, elegante,
Subia os degraus ao fundo, os cabelos cobertos
Por um véu verde escuro, por baixo, o corpo nu
Apenas completado por chinelos dourados.

Estava despida como assistente, somente, e por um momento
Vi-me a querer um adereço para as extremidades inferiores.

A mulher elegante apareceu nos aposentos de Maria,
Um homem grande de cafetã e turbante, banqueteando-se
Nas suas costas. Encontrei-lhe o olhar
Sem querer.

Inclinou a cabeça. Não olhes. Embaraçada, voltei
A minha atenção para o musculado rubi.

Os venezianos estavam atrasados.


Horned Wolf

Your God That Daughter of Light


Cthulho Stele - Parjer Ryan


Descrevi o poeta como uma cidade
De mármore e profiro, jóia
Das jóias.

Os seus palácios e as suas mesquitas
Erguem-se do céu em direcção
Às águas.

Descrevi no poeta
O caldeirão das culturas.

Torres e minaretes de floresta
Paredes altas e jardins verdes
O Sol a brilhar por entre a água
E o casco a passar pelas pesadas nuvens.

Descrevi o poema como dança nocturna
Extática,
Em que os homens se mutilam para se parecerem
Mais
Com as mulheres.

Entre o poeta e o poema
Um personagem impressionante
Com um turbante de neve na cabeça
E uma túnica de seda púrpura
Até aos pés:

O personagem tremulava
Agitado pelo capricho das brisas.
Em redor, nada se movia:

A silhueta de uma mulher vestida
De negro.

Em redor, pilhas de frutos estranhos,
Um chapéu alto, um monte de pães redondos
E achatados, um burro, um par de sacos
De pele, água, moviam-se.


Horned Wolf

domingo, 16 de outubro de 2011

Multidão Memória


The Loss of Alsace Lorraine - Emmanuel Benner



Saíram, vestidos de mimos,
Os sonhos que eu perdi, todos,
A ver um espectáculo de luzes.

No céu sem ninguém habitam granadas
Como um silêncio de revoluções subterrâneas.
O meu peito jorra todo em neve que derrete:
Eu tenho memórias nos dedos,
Canções sem letra, choros leves
No peso amplo da noite.

Os seus cabelos lambem
A sua pele rosada
E eu fico a ouvir os poemas da torneira
A pingar lágrimas
Quando a chama se eleva
Aos patamares do inalcançável:
Haver tudo passado
E o cinzento ser pele de manhã.

A multidão na rua caminha devagar
Embora esteja a chover torrencialmente
Procurei o contorno da tua nuca
A tua respiração
Mas tudo o que passou não tinha
Nome
Excepto eu, com os meus dedos
Irrequietos.


Horned Wolf

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Entrámos




A Lua levantou-se e a sua luz fria,
Nós estávamos sentados, a olhar o vazio.
De repente, o rosto escorregava-me
Lágrimas abaixo.

Os cabelos escuros dela a meu lado
Estenderam borboletas brancas.

As pedras pareciam engolir-nos aos dois.
Ficámos um pouco de tempo na floresta iluminada
Imóveis pelo peso do que acabara de acontecer.


Horned Wolf

terça-feira, 11 de outubro de 2011

...



Naquela noite
A Lua Cheia mal chegava
Para alimentar um pássaro.

O velho dissera uma palavra
Desde o crepúsculo, as suas faces
Estavam encovadas e o seu rosto
Demasiado grande para os olhos.
Cada parcela do seu corpo concentrada
Em trazê-la de volta.

Depois do quarto minguante
Retirava-se gradualmente
Para um mundo sombrio.

O lume da verdade transformava
Os monstros em rapazinhos
Excepto ele, com os seus dedos
Irrequietos.

Havia muito entre nós:
Muito amor, muita dor,
Muitos mal entendidos,
Pele esticada, pálpebras sombrias,
Quando os carneiros começaram a nascer.

Para lá da janela verde
A luz no nosso quarto era doce.

A rapariga escondia-se na cozinha, enchia o corpo de cinza
E tapava o rosto por debaixo de peles
Espalhando as pernas com um presente misterioso:
Gemia com voz de folha a sussurrar ao vento.

Um dragão embateu nos meus punhos
Levantei-me e fui buscar um copo de água.
O meu corpo parecia uma corda de piano.

O Sol pôs-se para lá das janelas coloridas
Quatro vezes, e no interior do nosso quarto.
No extremo do pomar havia um banco de pedra
Cheio de musgo.

A Primavera acabara de chegar e eu não sabia quanto tempo
Teria de esperar ao frio.
Os vidoeiros que cresciam em nosso redor envolviam-nos
Como uma capa prateada sussurrante.
Dentro de nós, o fumo erguia-se das chaminés.

As faúlhas da minha fogueira subiam em espiral
Como pequenas bailarinas.

O toque da sua mão aqueceu-me o corpo todo,
Senti uma felicidade deliciosa que me começava
No coração a expandir-se pelo corpo.

O velho não dissera uma palavra
Desde manhã, as suas faces
Estavam encovadas e o seu rosto
Demasiado grande para os olhos.
Cada parcela do seu corpo concentrada
Em morrer.


Horned Wolf

sábado, 8 de outubro de 2011

Na Manhã Seguinte




Afastou-se na direcção da floresta sem uma palavra
E as sombras engoliram-na.
Naquele momento soou uma trompa
No pequeno pavilhão.

Sentia o rosto a arder
A luz das lanternas dourava-lhe o cabelo
E no seu vestido leve ela estendia
Os braços brancos numa súplica
Os seus gritos rachavam o gelo
E espantavam os pássaros das árvores.

Uma risada percorreu a multidão
A clareira pareceu escurecer
Percorrida pelo sino da voz.

Vigio-te há muito, desde antes
Do tempo ser tempo.

Haverá mais cor no teu rosto
Como se uma longa geada
Começado a derreter.

Transportei-te até ao meu barco,
Onde núpcias.
Ninguém disse uma palavra.

Um pouco mais longe
A serpente branca estava enrolada
No ramo de um arbusto.

Disse-te palavras:
Amor, verdade, lealdade,
Confiança, sorriste
Reflectindo a luz da Lua
Nos teus dentes pontiagudos.

Ouviu-se um cacarejar de desdém,
Trocista, e depois o silêncio.

Transportei-a até ao meu barco,
Onde nos deitámos.
Ninguém disse uma palavra.

Um pouco mais longe
A serpente branca estava enrolada
No ramo de um arbusto.

A nossa última visita ao outro reino
Terminara.


Horned Wolf

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pássaro Azul



O céu estava rosado. Ela queria escrever as linhas da eternidade num frágil bloco no carro, à beira do horizonte. O pôr do Sol nas árvores ou o mesmo astro a nascer perpendicular ao mar que se descobria no fundo do descampado que, com vegetação densa e molhada, apenas caminhávamos a custo. O reflexo das copas no rio, ou o pontão desfeito com as madeiras semi-mergulhadas. Uma família de férias, as suas silhuetas no crepúsculo, com os mais velhos a segurar luzidamente cachimbos finos. Mas eu sou nuvens e fumo, um cheiro que se deixou cair nas coisas sem se tornar algo. A substância efervescente do céu, que nenhum Deus veio abraçar. Musgo verde nas pedras do lago, a explosão de uma partícula de água numa superfície aquosa. O desabrochar de flores nas minhas lágrimas. A neblina na terra. O gelo macio da tua pele. . . . . . . . . São lúgubres as virtudes do homem, da mulher, o Homem é vil e o seu amor é mais devastador que o ódio dos anjos. Se existe um pássaro azul na hora mais escura, com as mãos em oração e as asas como frondosas velas ao vento, revele-se agora. Ilumine a minha alma peregrina com os sonhos dos primeiros leões, das crianças invioladas, das virgens em luta - de outra coisa mais antiga, um amor que não é o dos homens. . . . . . Nada no mundo está parado, excepto os deuses nos seus imóveis corpos de pedra, prova crassa do tédio que nos criou. Um dia tu também te lembrarás do pássaro que morreu na tua barriga, e chorarás a minha queda.

André Consciência

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apocalipse Acto V

As diferenças são, invariavelmente, motivo de erradicação de um por parte do outro, quer por se ingeri-las quer por eliminá-las, nesse sentido tudo está em qualquer coisa e nada se move isoladamente. Da mesma forma se relaciona o nosso passado, aquilo que nos é antigo, e aquilo que nos é novo, assim, o antigo destina-se a tornar-se novo e o novo a tornar-se antigo e decrépito. O Homem percepciona esta realidade sem, todavia, existir no seu plano. Entre uma e outra coisa funciona um terceiro corpo, esse terceiro corpo é o homem tal como desceu primeiro ao mundo.

O individuo vive enquanto elemento das relações humanas, a sua vontade é, enquanto individuo, um somatório de querer completar ou destruir o outro, ou seja, de se fundir com ele. Os dois entes jamais se tocam, no entanto ambos consomem o terceiro corpo, que os aprisiona por via da crença mutua e já só se justifica com as suas próprias parasitas.

Apocalipse Acto IV

A Livre Vontade reside no acto de se adaptar e celebrar a adaptação, é precisamente o contrário da liberdade de escolha. Viver é o acto de imitação, mas para que o sinta de forma vibrante, o actor interno, terá de se convencer da exclusividade dos seus gestos, a sua vontade, por mais isolada que aparente ser, é a de colaborar e participar nas engrenagens da escravatura da consciência social, sem a qual a vida enquanto a conhecemos - como uma encenação - perderia os membros e os órgãos. Se o seu acto, durante a encenação colectiva, se mostrar suficientemente grandioso para o público, então finalmente poderá ser ceifado sem medo, esse é o objectivo do Homem: cessar.

Apocalipse Acto III

O facto inegável de não possuirmos qualquer tipo de forma é interrompido pelas maquinações da palavra, a existência da mesma criou um Deus que, sendo inferior a nós, sobre nós domina. A palavra não tem forma e, todavia, nomeia a arquitectura da forma. Depois de um homem conhecer a palavra, mesmo o esforço de a calar, se equivale ao esforço de tentar conter um caudal num recipiente frágil demais para o mesmo. Neste sentido se criaram os ossos (gigantes para a chispa que somos), antenas que escoam a alma e a reduzem ao pó, com o fim de eliminar o vírus da palavra. A consciência, entre a morte a que o seu corpo a força e a morte a que a sua alma a força, improvisa e procura crescer para além do tempo e do espaço agarrando-se com todo o ímpeto ao tempo e ao espaço. Este crescimento acelera a sua dissolução, a consciência, pois, procura a mágoa, de forma a paralisar-se e a olhar sobre si mesma, ou sobre outro, que é não só idêntico a olhar sobre si mesma, como uma e a mesma coisa. É necessário, todavia, que alguém acredite na sua vitimização, para tal fim o ente magoará o seu semelhante, procurando, além disso e desta forma, preservá-lo. Mas o homem que rir e o homem que, através dessa prática, troçar desta condição, será o homem que, à porta do inferno, guardará as chaves do paraíso.

O riso do Joker é inútil, e muito menos salva, por isso, ele contém todo o significado que o mundo pode conter, e o êxtase de existir.

A alma é uma criança, mas a palavra, que ainda está para vir e sempre o estará, é anciã e imposta sobre a alma.

Apocalipse Acto II

Para ganhar pele, há que lançar a alma ao fungo da humidade. A carne não existe, ela é a crença que a dissolução ostenta em si mesma sobre si mesma e que a impede de se dissolver. Qualquer lugar que os sentidos da alma, ou seja, o corpo, perceba, é uma prova da irrealidade. O lugar é irreal, mas a estadia da alma naquele lugar, tal como a percebe, é real. É-se perfeito apenas no que jamais se atinge, mas por isso em tudo se é perfeito e o mundo é uma totalidade em harmonia, jamais coisa alguma se atinge num todo, mas tal facto é o acto. A consciência é o factor que ilumina este factor, sem ela, a perfeição não seria imaginada. Na consciência, o pilar do céu estrelado da perfeição é a percepção da culpa de em nada se atingir a beleza total, a beleza total seria um sono eterno e o esquecimento de si mesma. Por isso, as mãos trabalham com arrogância na evolução: toda a evolução é uma falácia diabólica e brutal.

Apocalipse Acto I

Acordei e vi-me ao espelho. O espelho mostrou uma imagem de mim se o que eu fosse não fosse mais do que esquecer-me: porque esquecer é ter figura. As quatro mãos do meu cansaço, duas em mim e duas no espelho, conversavam em linguagem gestual sobre assassínios que curam, sempre com o sarcasmo da linguagem universal que é a mentira. Se um dia eu pudesse ter só um braço, só um olho, uma narina apenas, e a minha figura quebrasse os espelhos, a repetição seria nova e o novo um sentimento familiar.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A Drowning



Uma a uma, as pessoas adormeceram. No exterior, a neve caia sobre os muitos telhados da memória, com a forma de silêncios longos. As cores estavam às escuras. Pegava numa chama pela raiz. Só se ouviam os relógios, partidos, à procura de funcionarem uma vez mais. Por favor... Disse. Estou aqui, André. Respondeu o palhaço do frio astro. Estremeci, imaginando até onde a sua fúria o levaria. Há muito tempo, vagueou pela neve até morrer, sem alcançar lado algum. Tem de ser, palhaço. Tu e eu. Murmurei. Percorri a casa em bicos de pés assim que a primeira luz do dia agarrou o chão. Com a luz, todos os adormecidos haviam agora perecido. Que os santos vão contigo, André. Disse o intruso, retirando a chama do meu braço.

A principio, nem sequer tentei descobrir onde era o covil do lobo ornado ou como chegar lá rapidamente. O meu objectivo era desaparecer. Assim, fiz o que pude para tornar a minha alma difícil de seguir. Muito dentro de mim, eu podia fechar os olhos e sair em qualquer outro lugar. Tens a certeza? Pareces estranho, triste. Não precisas de vir, sabes? Pedi. Eu sei, André. A superfície do lago mostrava-se gelada e a bruma pairava como uma mortalha cinzenta móvel. Os pássaros nus e falecidos, penduravam-se inanimados nos ramos dos azevinhos com bagas. A vegetação encontrava-se triste. Por cima das copas afastadas das árvores não havia céu, só o infinito. Gelaria tão depressa que não teria tempo de me afogar. É ela - O quê? - É ela! O palhaço enterrou a cabeça na palma da minha mão, tremendo violentamente. Tens medo de mim, André? Perguntei-lhe.


Horned Wolf

Multidão Memória - Performance Poética

Sábado, 15 de Outubro de 2011 - 21:00h

Poesia de André Consciência interpretada pelo autor, acompanhada pelas atmosferas sonoras de Alma Púrpura e a dança interpretativa de Soraya Moon. O acto será agraciado por uma exposição de algumas das gravuras de Borus Aura e contemplará o peso espectral da memória tanto como a cegueira da conduta.



"A jaula perto da fonte, na praça,
Alberga três gémeos cegos. Ao lado,
Um teatro de marionetas, desempenha
Uma peça sem sentido."

Valor da inscrição: 5,00€

Local: Sintra - Rua Tomé de Barros Queirós, nº 29b - Sintra

Inscrições no local, através do telefone 219 234 257 ou por e-mail:

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cavalos. Visitantes. III




Uma gota de sangue carmesim em contraste com a pele
Branca,
Uma jovem viúva.

Os seus olhos estavam lavados e caiam-lhe, escuros
E lustrosos,
Pelos ombros.

Falámos do tempo, da música
Da sua casa, sobre
Uma nuvem de trovoada.

Um ser humano de meia-idade, vestido com o traje
Esfarrapado de um pastor, sacudia e contorcia o corpo
Rudemente:
O bonecreiro obrigava-o a mexer-se.

Umas gotas de éter num pano e depois...
Andar um pouco a cavalo, talvez.

Ela movia-se nos meus braços
Como uma ave elegante:
Os olhos escuros continuavam
A arder e a pele a derreter.

No seu pescoço estava o fio de prata
Da minha mãe.

A noite de lua nova
Encontrava a porta ligeiramente aberta.


Horned Wolf

sábado, 1 de outubro de 2011

Sombras de Pólen

Homenagem ao blogue The Scarlet Chamber




Na noite fluvial
O veneno percorrendo as veias
Em taças de cascavéis escoantes
Na embriaguez de pessoas

Vidraças nos olhares esgazeados
Sorvendo palavras de fumo
No êxtase líquido da secura tragada

Na fermentação de egos
Exaltando folículos fendidos
Formam-se crisálidas consistentes
Expirando larvas em pólen

E em cada sombra de rostos
De chamas pálidas e inexpressivas
Uma ave ergue o olhar aos céus


Tatiana Pereira

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cavalos. Visitantes. II




Ouvi-la-ei chamar-me na pulsação do sangue
No premente bater do coração.

Sob os sombrios carvalhos onde estávamos
Tudo era sombra e imobilidade,
As luzes coloridas brilhavam difusamente
E a música zumbia.

A imundice dos campos
Seguia-nos a medo
No cacarejar de uma velha.

Uma confusão de pés no relvado
Alguns descalços, outros calçados.

De novo, à sombra do vidoeiro sem folhas
Encostada a um tronco, com a roupa despida
Na erva estendida.

Uma a uma, as minhas memórias
Entraram nos trenós e começaram
A deslizar pelo gelo,
Correndo contra os primeiros alvores
Do dia.

O Inverno começava a clarear,
Trémulo de exaustão,
Com o corpo coberto por uma camada
De gelo.

Do meu peito saiu um grande soluço.


Horned Wolf

Cavalos. Visitantes.

Sobre um lençol de gelo negro
Os nossos acompanhantes vinham de trenó
Com longos nomes de estrelas e
As suas luzes a surgirem da bruma.

Uma teia de aranha ao vento
Dançava com as mulheres leves.

Mais à frente
O conjunto de peixes mortos
Tremia com
Sentimentos afectuosos.


Horned Wolf

sábado, 24 de setembro de 2011

Frio




As margens do rio que as chuvas recentes
Fizeram torrente castanha e espumosa.
Pousei a cabeça na mão, com o meu
Suspiro, com a minha... caligrafia.

O frio entrava por cada frincha
O vapor de água saia-me pela boca.
Os outros bebem com a sua pele
Cor de cera e os seus olhos mortos.

Uma sentou-se e ficou a observar
Com olhos sonhadores
Ao som dos fragmentos de gelo a deslocarem-se
Na água, e do pio solitário de um mocho.

Eu fiquei à espera.


Horned Wolf

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Padrão da Noite


Orla de Floresta - Courbet


Criaturas de todas as formas e feitios
Pegavam-nos pelas pequenas mãos e ensinavam-nos
Os passos.

Na floresta sem fim, algumas árvores
Tinham o teu perfume, outras o meu
E o arvoredo, odor conjunto.

Depois, sabíamos os passos
De cór,
Sentávamo-nos sobre as árvores
A cada Lua Cheia, e olhávamos
A nudez a brilhar, e tocávamos
A água prateada da pele
Com os movimentos
Emocionais
De escorrermos no astro.

Quando a Lua estava mais alta
E viamos por entre os ramos
Dos carvalhos mais altos
Vislumbravamo-nos na orla
Da floresta.


Horned Wolf

O Vôo




Um músico aspira
À composição que será capaz
Apenas uma vez na vida.

Os nossos pés
Aclararam perto
Do chão das folhas.

Caímos, os pulsos
Percorridos de velocidade
As faces rubras
A romperem o Sol
Com sangue
À sombra das árvores.

Era uma música
Que continuaríamos a ouvir em sonhos
Vidas depois
E nos cobriria a solidão
Do seu percurso
Com capas vaporosas.

A Clareira da Dança
Tinha as suas próprias
Regras.


André Consciência

Dentro da Mata Virgem




Um dia, colocado frente ao comboio deslizante, para enfrentar a morte, senti, antes do segundo que aproveitei para escapar do embate, o mundo estarrecer e parar todo, comigo incluído. Depois, o corpo tremia e a mente sem ventos. Descobri que a sensação de se estar frente a frente com a morte é exactamente a mesma sentida, daquelas duas vezes, em que durante as minhas evocações de magia cerimonial as criaturas trouxeram aparição em peso, carne e osso, a respiração paralisa, a minha e a da natureza nas redondezas - e mesmo o coração desvanece para o silêncio do trovão.

A ti não te evoquei, embora te pressentisse desde que me lembro de ter nervos nos veios do tempo. Os nossos olhos cruzaram-se num bar e eu revi-te de frente para traz no horizonte dos dias. Descobri, só depois, que a tua nudez, a tua em específico, apresentava para mim os sintomas relatados no anterior parágrafo, mas em que se conseguia, dentro daquele estado, gradualmente, respirar, e que o coração despertasse e se vivesse e fluísse naturalmente no interior do próprio samadhi.

Quando, ao nos encontrarmos, deixámos de pensar no ruído lá fora, fizemos o nosso jejum, de comida e de sono, e adereços semelhantes que interferissem com a água que somos a fluir um no outro. O teu olhar silencioso, belo e misterioso enchia, pouco a pouco, o ar de melodia e doce murmúrio. Enxames de pequenas criaturas brilhantes, que não eram fadas nem insectos, e muito menos pássaros, mas estrelas cadentes, mergulhavam, desciam e subiam, como a humidade das nossas almas a derreterem-se (expandirem-se) uma à outra. Ensinei-te o preço da minha nudez enquanto metafísica. Respirámos para dentro um do outro, com uma mão na nuca e outra no sexo, enchemos-nos como sóis que se reflectem mutuamente, os animais nocturnos entraram em alvoroço e, calando-os e até as estrelas, fizemos amor.

Quando voltaste, sozinha, a passear o rio que ladeava o mato, viste nadadoras com grandes olhos luminosos, mãos despidas, pernas voluptuosas e peles brilhantes, com olhares sempre virados para cima, para a superfície, estendendo graciosamente os braços brancos para a margem de uma ilhota ou de um salgueiro. Todas tinham a tua figura.


Horned Wolf

A Lua Apaga as Luzes



A Lua devasta os pinheiros
Dura os caminhos em que abre
As portas.

A Lua dependura
Os corações
De pernas ao alto.

A Lua torna
O Tempo da Morte
Em Espaço Brilhante.

A Lua é uma orgia de fadas
Em que bebemos a sede
E desorientados fitamos a fome.

Está frio
E no frio que está
As mulheres e os filhos
De todas as famílias
Congelaram.


André Consciência

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Prodígios


Andrei Chikatilo



Um poema que não fala de vento
Nem de vozes limpidas,
Ou de dormir nunca mais.

Um poema que não fala das árvores
Perdidas na saliva das ilhas
Nem das entranhas do mar
Que desprendem.

Deus não é eterno;
A metamorfose ignora-se;
Os fundos dos restaurantes olham;
Hoje, definitivamente, não chega,
Nem a próxima noite;
Os ossos são a única parte tranquila
Do corpo;
A sombra envolve-se
E se não fosse a música
Tinha um tiro nos cornos.

Levanto a cabeça e deixo a voz baixar.
Um duende dança na erecção do meu pénis.


Horned Wolf

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Morte a Saldo




O coração rechassado para longe do cais
Das auroras. Ficaste a beber, com gestos
Repetidos, a tristeza do rosto pelos
Lábios. A febre, engrossada com a seiva
Dos cedros acima, até que tocavas o corpo
Da morte. A luz um véu, a esperança, um
Horror sinistro, ilegível lâmpada
Arbusto estelar, ah, mil putas sufocam
Sob o jugo das minhas asas: relógios
Agitados pelo fim. Este poema, do que fala?
Do que fala este poema do que fala?
Os olhos, fustigados de mistério assombroso
Que há no bolor fumarento do tédio;
O ar!, que sufoca e paralisa numa torrencial
Euforia; Centenas de putas desfiguradas
E já sem nome, misturam-se na cicuta que abeira
O precipício da beleza do teu corpo:
Disse.

Os jornais, repletos de letras em merda
Inscritas, avançam pelo dia como barcos.

O mundo não deixou de ser
Outro dia qualquer
Após a miríade de irrelevâncias
Intransponível.


Horned Wolf

sábado, 17 de setembro de 2011

Nação Fantasma




Chegava um triste lamento
O ar das correntes e a picada gélida
A aceitarem a brisa libertadora.

Depois, a extensão de terra desolada
Que contorna o Ocidente da Espinha do Mundo,
Norte, Leste, uma canção interminável
Enchia-me os ouvidos.

Ouvira-a a cada segundo que ladeara
A cadeia de mares, a visão das vastas
Montanhas. As praias, quando caíssem
As primeiras neves.

No primeiro dia em que me afastei
Da Espinha do Mundo, as carroças solitárias
Punhados de cavalos sem cavaleiros.
A fraqueza puxava o Sol baixo no horizonte.
As estradas de ébano, mantinha o capuz
Baixo, soltava um ligeiro aceno de cabeça
A cada ruína.

O pico dos lagos rochosos dominava
A região coroada, no curto Verão, da queimadura
Na neve.

Uma bandeira ondulando, desafiadoramente,
Contra o forte vento.


Horned Wolf

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquele Que Está Diante de Deus




Á esquerda do jaspe e da sardónica,
Envolto num arco íris de esmeralda
Contorcia-se um relâmpago vestido
Com as neves longas do Inverno
E munido de um rosto ao Sol.

Na Igreja, só a fronte de alguns
Brilha. No céu, Adão possui chagas
Tudo o resto, asas, mas nem todas
As asas, em tamanho são iguais.

Á esquerda do Rio Tigre, um raio
Dourado, com corpo de crisólito
E bronze nos membros, fazia arder
Os fachos dos olhos.

No céu, todos seguram espadas
E o Príncipe do reino da Pérsia
Ainda não está no Inferno,
Mas nem todas as espadas, são,
Em cumprimento, proporcionais.

Só podemos ter um corpo novo
Se cairmos para cima:
Cabelo de mulher, dentes de leão
E vulto de homem, asas, com estertor
De batalha, e caudas de escorpião
Para assustar a morte.
Há centenas de milhões de cores
Que nem sequer conhecemos.


Horned Wolf

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Morte de Urzes



O silêncio é uma ravina
Onde se esconde o pardal
E Deus se inclina.

É uma tontura
Onde acaba o homem
E a Lua perdura.

O silêncio é a solidão
Das árvores que cantam
E incêndio orfão.

O silêncio é a morte
Que nasce nas urzes
E rasga a norte.

Estendemos, no deserto
As almas, e deitamo-nos
Sobre elas.

As estrelas giram
Que os nossos corpos sorriam
Criando aguarelas.


André Consciência

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Portas e Penedos - performance de dança e poesia por André Consciência e Soraya Moon


Sexta-feira, 26 de Agosto às 22:00
Espaço Tuatha
Rua Pinheiro Chagas, nº 48, 2º 1050-175
Lisboa


"De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver."

Poesia de André Consciência interpretada pelo autor, acompanhada pelas atmosferas sonoras de Babalith e a dança interpretativa de Soraya Moon. O acto será acompanhado por uma exposição de cariz esotérico e contemplará o fantasmagórico enquanto matriz da realidade mundana do dia a dia.

Valor: 5 euros

Inscrições no local ou por email:
abismohumano@gmail.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Deeper Shade Upon Her Name


Hooded Figure on Hallowed Ground - Gary Corb


No término da prata-além
O seu título de negrume
Abrasa-se e espalha-se com aras
O ventoso esquecimento esmorece
E bailam um lume, as lunares folhas
Da sombra campestre.

Abre-se alada, eclipsada,
Uma gruta de lobos
E levanta-se a brilhar
Com orgulho e em colisão
Com o topo da Lua.

A forma funda santifica
A treva de estar
Nua.

Envolvem-se os poemas
E na fera giratória
A água levita-se
E torna-se memória.


André Consciência

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ohmésêhese

A jaula perto da fonte, na praça,
Alberga três gémeos cegos. Ao lado,
Um teatro de marionetas, desempenha
Uma peça sem sentido. O cachimbo
Chinês, proporciona um sonho a branco
E branco. Na neve, o homem de chapéu
Perseguiu a raposa, com corpo de mulher,
Ou do açúcar no matutino café, dois
Tiros para o ar a saírem dos olhos
Aguados, raios parta o mundo e os seus
Penhascos, o homem olhou para as mãos
As suas mãos de raposa, com penas,
E sangue e deserto, a serem o fim
Do coração e o fim do coração, escultor.

Sem magia, os pulsos não tremiam,
Pôde executar muitos assassínios
Na noite que os guerreiros de elite
Cheynne, saíram vestidos de mimos.


André Consciência

domingo, 14 de agosto de 2011

O Verão nas Nossas Bocas


Summer of Love - Ora Moon


As minhas mãos aprendem-te, um vento melódico
na geada pura, de ti brotam enchentes
minhas mãos com tudo.

O meu sangue acordando onde moves a matéria
Beijo os teus olhos e deslizo na esperança
Do teu aro de fogo que se entrega
Na carne viva da tua carne em ascendência
Na luz dos meus braços seguro-te, luz pulsante
do meu perpétuo instante.
O incêndio da tua voz a murmurar o mundo
De cada coisa, abrindo a minha face
Para que a água encha, os dias a nascer
Onde o corpo aspira longamente, e as sombras
em êxtase, dos bárbaros de rosto divino,
O fulgor do mar inspirado, do crepúsculo,
Da montanha nos cavalos brancos da nossa vida.

O verão nas nossas bocas, a morrerem
Uma na outra, os arcos do horizonte
Derrubados no amor, mais terrível
Do que o dia.


André Consciência

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jibrael


Parsifal - Delville

Um burburinho louco passa pelas cidades desconstruídas do nosso dia-a-dia. Nada nos marca e tudo é, não obstante, tão fundo quanto somos. Tanto tenho a dizer e com eloquência bastante sobre a nossa actualidade, no entanto a loucura simulada é a única resistência, o simulacro negro e desesperado do neo-Dionísio. Uma virulência requintada invadiu a racionalidade dos homens e a graça das mulheres. Todos somos as suas presas uns dos outros. Não pretendo ser poético, há música bastante na electricidade que nos perfura e nos liberta de nós mesmos, no anjo inimigo da carne e apologista do auto-consumo do eu. Pai, se te lembras de nós, que somos poeira e esquecimento, aproxima a tua estrela. O inútil cresce e pressiona-nos a trabalhar sob a sua cruel e luminosa espada, espicaça-nos o espírito e mói-nos no lodo de carícias longínquas. Ímpios se tornaram os teus ministros, o escárnio habitou a boca dos teus juízes, a santidade escolheu o rosto dos pecadores. Dia e noite medito na queda dos templos, nas prisões derramadas. Faz-me como uma árvore plantada junto às correntes de águas, para que rompa os edifícios e as teias dos que sem a tua graça prevaleceram na tua força. Porque tu conheces o caminho dos ímpios, mas o vulto das pedras e do teu corpo primeiro conduz à sua ruína. A anarquia dos anjos paira sobre as cidades ensopadas da ausência de sangue. Há muito caíram as nações e os povos, todos. Os teus anjos reúnem-se num louvor de mentira e de vaidade. Deito-me com o meu coração no leito. Que os meus ossos sejam como a sombra de ti e que o meu vulto seja. Que na morte haja uma lembrança de ti e no Seol eu te louve. Tu, que puseste na escuridão o teu sorriso em toda a terra, os teus dedos na montanha, no chão, no céu, a esquecer-se dos impérios, infernais ou celestiais. Vede agora, como a perfídia se desfaz em tudo o que passa pelas veredas dos mares, no céu que adentra a ave, no mar dos bois, no campo dos peixes.

Horned Wolf

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Desenho Através do Som

I

O comboio estava lúgubre. Numa linha continua de desvario. Calou-se tudo. As suas engenharias sem som nem existência. Uma catedral com fantasmas de monges. Uma plataforma quente para os ovnis fermentados. Por outras palavras, a senhora tinha sido despida e acorrentada ao metal, com fedor a merda e urina e sangue menstruado. Os ratos olhavam-na melancólicos a partir do crucifixo.

Um cavaleiro em seu socorro assassinava espectros dos homens que se haviam enforcado no sexo dela para ressuscitar e regurgitar no coração. Perdeu-se numa gruta de luzes, num túnel entre a vida e a morte, percorrido a todo o seu comprimento por comboios sem sonoridades. Qual seria uma mulher? A que procurava. A infância que buscava desarrolhar. Por outras palavras, a foice que Hitler carregava em todos os discursos.

Uma selva de emoções desconhecidas tapava o caminho para o buraco com que procurava suga-la da inexistência. Desvaneceu no próprio estômago.

Acordou no intestino de um boi defunto. A solidão da manhã bem presente na sua febre. Mil bichos da madeira corroíam as suas engenharias. Descobria-se ser, em toda a sua plenitude, um comboio insonoro. As silvas cresciam no Elísio intestinal. Não queria socorrer a morte da mulher. Esvaziar o Graal era inexistir. Arranhou as paredes do seu cadáver exterior. Quantas luzes mais teria de suportar a manhã?

Sombria cantiga dos pirilampos, dos rouxinóis de voz gutural. Lombrigas asseadas jogavam às cartas no tampo do seu cérebro limpo de vida. Cantiga antiga no alívio de todas as bexigas.

A madeira das linhas ferroviárias a desabar o muro.

Ah! Estrondo das roldanas! Gemida a mulher. Mar sem fim! Luz rasga. LAM. Senti descer o sangue por toda a narrativa em formato de electricidade nas florestas dos sentidos, dos sonhos vividos da Segunda Guerra, do conforto dos campos de concentração. O som cobria as palavras como a substância faz a sombra.

Mitiguei os templos que faltavam na lavagem do mundo de fogo, das esferas do demiurgo nauseado. O comboio estridente esmagava um cão, apodrecia um homem, abria as múltiplas vaginas de uma mulher, acabava os povos.

Naves espaciais a descer do tecto em fios de lava de aranha. Descortinavam a estratégia mais certeira da beleza. A intempérie da realidade confusa na ponta do caralho. Derrubar uma nação durante a lenta e doce e cândida e lânguida e saturada e agitada e atormentada masturbação. A morte do cão sob o estrondo das roldanas. Foi o estrondo e não o peso, que elevou o império. O peso só no estrondo voa.

Hmm. Hmumh. Como os robôs riem. Sorriso alcoolizado. Devagar, o mundo acorda para o amor. O estômago já não arrota sem sorrir. Espirais de entendimento.



II

Hoje descobriram que sonhávamos. Não havia por isso como distinguir os elementos da realidade dos elementos transcendentes. O Dalai Lama cantava sendo chicoteado por um índio alto e chinês aplaudido por três macacos gordos em divãs.

A esposa do monge banhava-se um pouco afastada, no varandim com vista para a neve, e pensava no que não seria a voz do homem azul, as serpentes lavavam-se na sua pele solta e ela chorou os homens que não sabiam dormir dentro do sonho. O chicote estalava com mais força sob o filho de Deus. Cresciam roseiras de lótus na cabeça dos leões recém-nascidos do sangue. O xamã ria-se sob a forma do corvo que aprendeu a rir. O seu voo uma linha impecável.

O homem movimentava-se dentro das campainhas a perder a forma humana. Deslocava-se em torpor pela colocação da voz que respondia do outro lado das portas. Nada era fixo que não fosse fixo. Os cabelos das campainhas dançavam na maré das horas. Não havia nada para dizer. A sensação era uma boca de sensação. E tudo cai, sempre, no interior das margens do rio.

Sal. Manhã. De noite. Imerso. Submerso. Esgravatar a solidão dos dias. Escutar dentro das fendas. Perfuração lenta. Descobrir dentro das fendas a microscópica loucura que compõe. A minha nação não existe. Nunca existiu, um homem que eu nunca conhecerei, uma lesma na rua pisada. Nada me impede de roubar. De matar. De violar. De chorar.

O crocodilo banha-se na pele esfolada das rainhas. Assim, assim. As campainhas percorrem o cosmo.

A
Electricidade
Acompanha
A
Realidade.

Gotas de água
Na solidão.
O papagaio
Solta-se da mão,
Presa à devoração
Das
Estrelas.

Raiva calma
Da loucura
Principiante.

Som. Som. Som. Som. Aumua. Regressão.


Horned Wolf

* em escrita automática durante o workshop "O Som e a Linha", de Nuno Bastos

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Viagens


Edite Melo


Rodeado de estrelas e pelas oito portas
Apressa-se a sair da aldeia
O velho carvoeiro de corpo inerte
Cuja cabeça se desprende do corpo à noite
Aponta para as papas e para o colchão
O corpo começa a dissolver-se
Os outros esqueletos regressam ao rio
E afundam-se.

Um chifre de marfim é bastante fundo
O sapo projecta a cabeça para a frente
Acesa à porta de uma cabana tosca de pastor
A estrada desaparece num pequeno vale arborizado
Á medida que o Sol se vai escondendo
O céu ganha uma cor de laranja vermelha.

Esperam pelo anoitecer
Para se aproximarem
Do portão escondido.

O pobre homem cai redondo no chão
Sem fazer um ruído.
A monotonia das terras encharcadas pela chuva.
O caminho segue às curvas no meio do nevoeiro.

O louva-a-deus penetra nas chamas.
As cabeças sem corpo começam a gritar:
"Talvez um dia encontres a jovem que seguiste"
Parece melancólica mas conduz-te à sua humilde casa.

Sobes para uma elevação coberta de lodo
Na margem oposta, pingando das profundezas,
Levas a trompa antiga aos lábios e sopras
Com força.


Horned Wolf

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Amor das Almas


Diego Rivera


Não existem portas nesta fortaleza
No entanto, há ladrões que roubam o ouro.

No campo, os olhos amarelos do amor,
A maioria regressa a casa conforme o horizonte
Se vai escondendo no Sol.

Sorriso expandido. Rente chuva de fogo.
Estrelas abertas e rodeadas de espaço.
Aldeia em chamas.

A morte ergue-se do trono e canta
O mar de um lado e as montanhas do outro
Tudo se solta das minhas mãos para as tuas
Não haverá outro dia depois deste.

Passas para os montículos fumegantes,
Cobertos de erva, para as areias intermináveis.
Sob o céu amarelo, um pássaro maior
Do que uma águia.


Horned Wolf

terça-feira, 7 de junho de 2011

Procelária




A encosta com cheirinho a caldeirada de peixe
Oeste nada tem que o assinale, nas saias
De uns montes, cumes escarpados e o trilho vira
A tarde avança, as tonalidades do Sol fazem reflexo
Sobre a pedra cinzenta, o caminho para o império
Das ilusões, bebido no archote das cobras.

Cristalino e brilhante, escuto,
Vai chover. As crianças brincam
Nadando com a electrididade do ar
Lá no alto, o ninho do amor
Cerca o meio-dia, ouves o barulho
Dos risos a bater, um cântico de gemidos
No tufo das árvores.

Segura no Sol, ó Anjo, e brilha sobre mim,
Escala comigo, ó Anjo, e faz-me de marfim,
Conta comigo as almas que caíram, no jardim
Para teu prazer, e desdobraram os lírios
Arrancaram a sombra ao rosto do amor
E as cicatrizes ao corpo do louvor.

Vislumbro a terra dos teus ombros, abençoada
A multidão de fantasmas até ao fim do mar
A sua pele coberta em ouro, e a boca
Onde os homens acabam - as encostas geladas
Do teu corpo - aquecem as embarcações que embarcaram.

Ó príncipe na neve, sento-me sob a tua juba,
Sobre a tua anca, e na minha pele estival repousam
Os amores que tanto ousam.

Aos pés das suas estátuas jaz Deus
A sua carne ciclicamente despedaçada
Nos troncos da alvorada.


Horned Wolf

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mundo Sem Fim




O anão só com um braço
Fita, do salão sumptuoso,
O porto: Um mar de vinho
Mudo.

As brisas da noite, muito
Antigas, chegaram também
A estas paragens.

As mulheres desapareceram todas
Correm na luz ao longe.

De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver.

Uma aranha com asas fita através do fumo
O leste dilacera-se
O anão encosta o barco à praia
Os penhascos brancos
Acolhem ninhos de amor.

Nunca mais eu terei de conter
Uma gota
Do meu rio.


Horned Wolf

sábado, 4 de junho de 2011

Depois da Chuva


Le Déluge - Léon-François Comerre


Uma multidão de rios passa
Pela fronteira do meu caos memorial
A sombra das vitórias afundadas
A beber sumos de amor
Prevalece sobre as verdades sombrias
Dos destroços
Apaixonados, da solidão.

Raiva, antiga, das companhias serem não mais
Que nada, das loucuras serem tudo
O que é inconsequente. Nesta idade
Nada, chega a alguma coisa.

Eu gostava era de ter uma sombra
Não como eu, mais como tu,
Mas nunca tu mesma, excepto
No longínquo sonhar
Do tempo vertido pelo ralo das manhãs.

Despede-te agora, e não chores
Porque os rios passaram
E não mais sobrámos do que nêsperas
Comidos à dentada, dos desperdícios múltiplos
E da inexistência fragmentada.


André Consciência

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Horror dos Templos VII (FIM)




Há um cão que representa todas as estatuetas
O silêncio do quarto abala um raio ensurdecedor
Mármore entra numa sala munida de chão
Uma mulher muito bela está em cabeça de bronze
Numa parede incrustada de frente
Eu tenho tantas perguntas, e da minha boca
Começa a sair um fumo vermelho que cobre
O teu rosto.

A cabeça de bronze está muda e queda
O abstracto desenha mosaicos no chão
Excepto na zona em frente da porta ao fundo
Onde a medusa se faz com uma ranhura no topo:
O mofo cheira a tragos fortes a iluminação
Das velas.

O tecto de pedra desce, aflito, a abrir
Uma das portas; gigantescas larvas da areia
Cobrem-se de lascas de madeira.

Cada um pega numa foice, molhados pela chuva dourada
Permanecemos completamente secos. O chão, brilhante,
Espalha-se pelas almofadas e baixas mesas.

Está de pé, de pernas abertas, larga seda,
E tem a mão no punho curvo e sexual.

Um cálice dourado entra no quarto, usa uma espécie
De chapéu na cabeça, e há um relevo esculpido no Sol:
Uma pata mirrada do tamanho da de um macaco.

A escuridão mergulha nas escadas e o rosto
A bater no fresco ataca as correntes de humidade intensa:
Com as suas masmorras, os olhos ferem o Sol.

De repente, passa uma sombra por cima de ti.

Uma mulher muito bela deitada num sofá de cetim
Agita um enorme abano para uma criatura horrorosa
E sem cabelo.

O leite é branco como o amarelo dos olhos.
A sacerdotisa sorri, dá um estalo com os dedos
E o sexo cego precipita-se pela escada abaixo
O pavor transforma-se em arrogância
E assim nascem filósofos.


Horned Wolf

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Horror dos Templos VI


Despair - Edvard Munch


A lanterna com uma mão e envolta numa capa
Esquiva-se de ti.

É preciso muita coragem, para sobreviver
Dentro dos globos oculares.

A pele amarela estica-se muito e espreguiça-se
Cobrindo as caveiras.

O poderoso olhar do pensamento abate-se
Sobre os débeis fantasmas.

Uma boa iluminação proporciona um lado e o outro
Dos archotes.

As tapeçarias e os frescos estão decorados
Com paredes.

O lado esquerdo encosta-se a uma delas, semelhante
A uma esfinge.

A lua em quarto crescente forma uma piscina que existe
Acentua-se um forte cheiro a ervas,
Enquanto caminhas.

Oz azel oat - NÃO BEBER!

O fresco de vinte metros de comprimento cobre quase toda a parede
A orelha à frente do pincel, as mãos nos godés, estar de pé
Ser acima de se ser homem.

Gostas do meu trabalho?

Répteis descarnando crânios tentam deter um exército de homens anões,
Fustigados pelos orcos mortos.

Talvez o homem que procuras seja convidado
No entanto sei que o templo só chega ao interior
Da pintura, depois de atravessar uma cortina de chuva
Dourada.

Coça o queixo e pensa que a arte é cruel e infléxivel
Todos os artistas trabalham secretamente numa cidade
Perdida.

É ela a sacerdotisa do templo, seduziu-te com promessas
De riquezas muitas. Ouves choros aflitos e sádicas gargalhadas.
Na sala do tesouro vi por exemplo aparecer à minha frente de repente
Uma figura envolta numa capa. É pavoroso indagar uma cara
Durante alguns segundos, e a morte que te preparou. A morte pôs
Qualquer coisa numa caixa dourada e voltou a desaparecer.

Os olhos esbugalhados abandonam a sala juntos
Mas a meio do corredor separam-se.


Horned Wolf

domingo, 22 de maio de 2011

O Horror dos Templos V


No baixo-relevo da Estela da Vitória, a arte mesopotâmica imortalizou NARAM-SIN que, na cabeça, traz a coroa de chifres, reservada aos deuses


De elmo na cabeça desço as escadas, cautelosamente,
Magro, arrepiante, e de roupas andrajosas, tenho os globos
Oculares na boca.

Morte e líquido, cortinados adamascados caiem
Do tecto até ao chão.

Salas sujas de sangue seco em pó, baldes
Baloiçam do tecto pendurados em cordas.
O arco baixo com o seu esgravatar com a cabeça preta
E longa de um insecto, ossos velhos espalhados
Nas lajes de pedra.

É certo que
As criaturas pavorosas gostam de se pôr
A pairar no ar a impedir todas as passagens
Redondas, são possuidoras de olhos tamanhosos
Verdes e escamados, cobertos de espinhos
Adormecem lançando olhares
Um espelho cai e quebra-se.

O olho, vaporoso e tóxico, corrói o chão,
O mundo enche-se de orifícios de ventilação
Mas preferíamos nunca haver um primeiro sopro.

O homem moderno é sempre alto, semelhante
A um réptil, usa armadura e curvatura de espada,
Todos guardam, entricheirados, sacos empilhados,
A dormir muitos, muito redondos, por solo:
Homenzinhos escanzelados e agachados
Cobertos por sacos de batata rasgados.

Ah, leitor, para entenderes esta leitura dos templos
Basta fazer-te chegar que esta terra esteve abandonada
Durante muitos anos, mas aos poucos descoberta por homens
E outras criaturas que o abrigo clamou. Costumam atacar
As carruagens que passam, à procura de comida:
Assim a sacerdotisa e os seus escravos organizam o mundo.

Chiu, a esta altura o corredor desemboca numa lúgubre câmara
Onde, de caudas de macaco nos bolsos, dois homens ratazana se entretêm a mascar
A carcaça de um duende.

Pára por um momento, e observa a civilização:
Um baixo relevo de criaturas horrorosas
A ser consumidas pelas chamas, se entrares
Descobres uma grande pilha de ossos
O covil escuro do negro cão da morte
E à medida que rastejas por seus túneis
A luz vai desaparecendo até não veres um palmo
À frente do nariz.

Vislumbre tardio de luzinhas que dançam
Trémulas, na penumbra tunelar
Zumbem sonoramente, com o barulho da idade
Da electricidade.

A água jorra da boca de uma cabeça de leão
A água agita-se quando o monstro se move
E já só o horror dos templos nos comove.


Horned Wolf

sábado, 14 de maio de 2011

O Horror dos Templos IV


Purgatory Travelers - Emanuel R. Marques



Dunas sobre pedras, as mãos sobre o escorpião,
Esmagas o crustáceo sob a botas e vasculhas os seus membros
Dilacerantes, encontras sacos pequenos de algodão,
Brancos e... variados.

Dentro de um frasco de vidro o homem verde ervilha
E minúsculo, com asas pontiagudas oferece pulos alegres.

Tira-me daqui. Leitor, tira-me daqui:
Eu grito dentro de um frasco transparentes nas entranhas
Avolumadas, do lacrau. Quando me ergo para
Vos falar, abro-me como um ovo, voo para fora
Perscrutando a vossa alegria e cantando inaudivelmente
E borrifando-vos a cabeça com um pó brilhante.

Os novos templos são a poesia, a pintura, a infâmia
E a heresia.

Se te queres proteger do Sol, leitor, se
Pretendes continuar comigo, usa o escorpião do avesso
Como lenço para a cabeça. De cabeça e pescoço tapados
Caminhas para Sul. E não existe um único ponto
Nesta única paisagem, em que possas encontrar uma
Sombra.

Não gosto de usar a palavra "embora" nos poemas,
Tento distinguir o que encobre a bruma difusa e vislumbro
Um muro alto. A pedra encontra-se a menos de um quilómetro de mim
Aos saltos, e és tu. Por detrás desse muro erguem-se
Ao compasso dos segundos, telhados de torres.

A areia, tomada de paixões pelo vento e assim arrebatada
Acumulou o muro até meio. Não existem ou existiram pegadas
Fora da imaginação.


Horned Wolf

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Horror dos Templos III




A sede só é insuportável se possuis
Um cantil possuído de água, ou os cânticos
Que a água a jorrar.

De repente, as tuas mãos enchem-se de sabão
Que tu bebes em longos e deliciosos tragos.

A emanação da areia escaldante continua a lançar-se
Impiedosamente ao Sol da tarde. E como nos custa
Separar as mãos do deserto com bebidas a cair.

Cavalos nómadas amarram-se com força às estacas,
Tementes da tempestade seca.

Vestem túnicas amarelas e anéis ornam
Os dedos da barba, as bocas pontiagudos
Das gigantescas larvas, vão usar enquanto
Cinto.

Pássaros enormes esvoaçam a oeste
Onde se põem as árvores em verde derrame.
Os abutres estão atentos ao que se passa
No oásis.


Horned Wolf

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lixo




Queria uma nascente que me mostrasse
Os sonhos que eu perdi, todos, como se
A começar, e a vida fosse bela como o teu riso
No meu cadente olhar.

Mas a vida foi passando, e a nascente
Sempre a brilhar, demorou-me os dias
Lentos a passar, os meus olhos roucos
Secaram, deixando um burburinho surdo
Da pérola do meu peito contra o sonho desfeito.

Não tenho a quem a dar, prefiro os rios,
Ficar a imaginar. Nascerão cidades
Famílias de braço dado, todo um viver
Feliz e amado. Nascerá do outro lado do rio
A vida que não tendo e a querendo
A mim me consumiu.


André Consciência

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Promises in the Light


Promises in the Light - Horned Wolf

sábado, 23 de abril de 2011

O Horror dos Templos II


A Destruição do Templo de Jerusalém - Francesco Hayes


O Rio Vermelho
E os campos cultivados para lá
Preenchem-se ao anoitecer
De homens a envelhcer
Onde se entrelaçam as raizes e os ramos
Todas as criaturas morrem no sono
Todas as almas sem corpo
Falam a mesma lingua
As pontas dos seus dedos
A individuar-se nos archotes acesos.

Leitor, o meu corvo guiar-te-à
Até ao rio Peixe
Onde veleiros a Sul alcançam barcaças
Com a marca do Porto da Areia
Negra.

O meu corvo crocita e afasta-se
O arrepio na tua espinha atravessa
O capim alto.

Fumo a Leste, as tripulações alheias
Continuam a descarregar mercadoria.
Setas em chamas com carapuças e capotes
Ardem cabanas.

O tempo da areia engole o pobre homem
Morto pelos duendes.

Olhando para o céu
Vemos voar na nossa direcção
A infinidade estelar
De astros que não podemos identificar,
Á medida que se aproxima
Reparamos que o grande espaço sideral
Tem corpo de abutre e cabeça de mulher,
Lança gritos estridentes que rasgam
Camisas.

Os homens dormem em buracos de areia seca
Quando acordam.

Da areia ressequida jorram ondas
De calor.


Horned Wolf

A Insolência das Janelas - performance poética (por André Consciência)



Sábado, 21 de Maio · 21:00 - 22:00
Castelo de Asgard
Rua Tomé de Barros Queirós, 29 B
Sintra





"Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis"


Poesia de André Consciência interpretada pelo autor e acompanhada pelas atmosferas sonoras de Babalith, produzidas em exclusivo para o evento. O acto será acompanhado por uma exposição de Cláudio Carvalho e da sua gravação ao vivo nascerá o novo álbum de Babalith.


Valor da inscrição: 5,00 €

Inscrições no local, através do telefone 219 234 257 ou por email:
castelodeasgard@gmail.com ou abismohumano@gmail.com

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Horror dos Templos

Duende Negro - J. Velasco


Uma alcateia de mães uiva
Em redor da cabana em que nasce
A Lua-Cheia.

Duendes, ao cuidado da negritude
Das florestas, obrigando animais murchar
Com a penetração do olhar.

No Deserto das Caveiras
Os dragões da dissolução
Alimentam inconsciências.

A sua ciência tenebrosa:
A passagem da morte semeia cidades
E destrói o caos.

Um langor passa por mim, pois sinto-me anão,
Afio a espada e passo os pés pela balaustrada,
No largo da aldeia, todos fitam o céu onde

Os corvos escutam os duendes a passarem-se
Por Pedras.


Horned Wolf

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Viagens Marítimas (fragmento final)

Sea Piece by Moonlight - Casper David Friedrich


XVIII

Milhares de peixes de cores vivas vagueiam
Por entre os ramos de corais brancos.
Beleza extraordinária, riso cristalino
Duendes da água salpicados de pequenas escamas
Douradas.

Uma taça gigantesca, talhada na
Rocha.

O grande bico abre e fecha.


XIX

O focinho comprido
Do peixe-broca
Ostenta as formas
Do saca-rolhas.

O seu gosto consiste
Em ser engolido
Insistentemente
Por variados polvos.


XX

No interior do enorme crustáceo,
Por cima de mim,
O oceano adquire uma tonalidade vermelho-sangue.

Ancorado numa pequena enseada,
O casco do navio pirata.

Se fores um homem de gosto
Abre o fundo do navio com algumas pancadas
E sacia-te comendo a tripulação.

Depois, junta todo o ouro numa pilha,
Fica quieto, e escuta uma voz profunda
Clamar por ti.


XXI

Empoleirado nas cristas, avistamos as luzes, o Porto
Da Areia Preta, cintilando no crepúsculo.

As guelras desvanecem-se numa ilha
Deserta e às escuras.


Horned Wolf

Viagens Marítimas (terceiro fragmento)

Holy Island, Scotland - Kevin Temple


XII

Magos
Moveram-se para o oleado interior
Do Pacífico.


XIII

Vê-se
Uma película cintilante
Um formigueiro que atravessa
Todas as barreiras.

O Tritão, à porta
Arregala ainda mais
Os olhos.

Corta o Peixe-Serra
Que aumenta de tamanho
Com a faca da bancada.


XIV

O Peixe-Broca, o Peixe-Machado,
E o Peixe-Brilho, com uma luz azul
No alto da cabeça.

Estranho espaço de areia limpa
A arena é ao mesmo tempo uma saída
Para o exterior.

Poisada, muito direita
A caveira humana vomita
Musgo: uma voz
Dentro da tua cabeça
Remexe a água luminosa:
Vaga forma humana
Capitão da marinha, morto
Pela amotinada traição.

Ossos espalhados e comidos por fauna.


XV

As criaturas das profundezas permitem-vos a paz
Enquanto lêem: Urnas entaladas entre rochas e cobertas
Com verdete.

Escadarias de mármore e grandes portões de bronze
Corroído.

Escancarado, lá dentro, enorme e gordo
O escorpião. Corais sólidos e cinzentos, criptas de pedra
A parir estátuas, nobres figuras humanas,
Altivas feições de peixe, onde escrevo inscrições
Desconhecidas, coroas de jade verde
Com golfinhos encadeados uns nos outros.

O Oceano:
Uma voz tão profunda como a vibração dos ossos.


XVI

Um remoinho para a escuridão
Luz fraca sob o abismo escuro
A sala está iluminada a vermelho
Velha e murcha, a bruxa-do-mar
Toma banhos-de-vapor,
Um ajuntamento de Tritões em seu redor.

Eu, o poeta, sento-me numa mesa tosca
Cá fora, as grandes mãos escrevem
Com membranas estendidas,
Num anel de latão esverdeado
Em forma de espiral.


XVII

Na área rochosa e funda no mar
Existe um edifício, de tijolo,
Rodeado de seixos cobertos de algas,
É habitado por enormes caranguejos
Comidos em permanência por minúsculos
Parasitas.


Horned Wolf