quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Cavalos. Visitantes. II
Ouvi-la-ei chamar-me na pulsação do sangue
No premente bater do coração.
Sob os sombrios carvalhos onde estávamos
Tudo era sombra e imobilidade,
As luzes coloridas brilhavam difusamente
E a música zumbia.
A imundice dos campos
Seguia-nos a medo
No cacarejar de uma velha.
Uma confusão de pés no relvado
Alguns descalços, outros calçados.
De novo, à sombra do vidoeiro sem folhas
Encostada a um tronco, com a roupa despida
Na erva estendida.
Uma a uma, as minhas memórias
Entraram nos trenós e começaram
A deslizar pelo gelo,
Correndo contra os primeiros alvores
Do dia.
O Inverno começava a clarear,
Trémulo de exaustão,
Com o corpo coberto por uma camada
De gelo.
Do meu peito saiu um grande soluço.
Horned Wolf
Cavalos. Visitantes.
Os nossos acompanhantes vinham de trenó
Com longos nomes de estrelas e
As suas luzes a surgirem da bruma.
Uma teia de aranha ao vento
Dançava com as mulheres leves.
Mais à frente
O conjunto de peixes mortos
Tremia com
Sentimentos afectuosos.
Horned Wolf
sábado, 24 de setembro de 2011
Frio

As margens do rio que as chuvas recentes
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
O Padrão da Noite

Orla de Floresta - Courbet
Quando a Lua estava mais alta
O Vôo

Um músico aspira
Que continuaríamos a ouvir em sonhos
Dentro da Mata Virgem
A Lua Apaga as Luzes
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Prodígios

Andrei Chikatilo
Um poema que não fala de vento
Nem de vozes limpidas,
Ou de dormir nunca mais.
Um poema que não fala das árvores
Perdidas na saliva das ilhas
Nem das entranhas do mar
Que desprendem.
Deus não é eterno;
A metamorfose ignora-se;
Os fundos dos restaurantes olham;
Hoje, definitivamente, não chega,
Nem a próxima noite;
Os ossos são a única parte tranquila
Do corpo;
A sombra envolve-se
E se não fosse a música
Tinha um tiro nos cornos.
Levanto a cabeça e deixo a voz baixar.
Um duende dança na erecção do meu pénis.
Horned Wolf
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Morte a Saldo

O coração rechassado para longe do cais
Das auroras. Ficaste a beber, com gestos
Repetidos, a tristeza do rosto pelos
Lábios. A febre, engrossada com a seiva
Dos cedros acima, até que tocavas o corpo
Da morte. A luz um véu, a esperança, um
Horror sinistro, ilegível lâmpada
Arbusto estelar, ah, mil putas sufocam
Sob o jugo das minhas asas: relógios
Agitados pelo fim. Este poema, do que fala?
Do que fala este poema do que fala?
Os olhos, fustigados de mistério assombroso
Que há no bolor fumarento do tédio;
O ar!, que sufoca e paralisa numa torrencial
Euforia; Centenas de putas desfiguradas
E já sem nome, misturam-se na cicuta que abeira
O precipício da beleza do teu corpo:
Disse.
Os jornais, repletos de letras em merda
Inscritas, avançam pelo dia como barcos.
O mundo não deixou de ser
Outro dia qualquer
Após a miríade de irrelevâncias
Intransponível.
Horned Wolf
sábado, 17 de setembro de 2011
Nação Fantasma
Chegava um triste lamento
O ar das correntes e a picada gélida
A aceitarem a brisa libertadora.
Depois, a extensão de terra desolada
Que contorna o Ocidente da Espinha do Mundo,
Norte, Leste, uma canção interminável
Enchia-me os ouvidos.
Ouvira-a a cada segundo que ladeara
A cadeia de mares, a visão das vastas
Montanhas. As praias, quando caíssem
As primeiras neves.
No primeiro dia em que me afastei
Da Espinha do Mundo, as carroças solitárias
Punhados de cavalos sem cavaleiros.
A fraqueza puxava o Sol baixo no horizonte.
As estradas de ébano, mantinha o capuz
Baixo, soltava um ligeiro aceno de cabeça
A cada ruína.
O pico dos lagos rochosos dominava
A região coroada, no curto Verão, da queimadura
Na neve.
Uma bandeira ondulando, desafiadoramente,
Contra o forte vento.
Horned Wolf
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Aquele Que Está Diante de Deus
Á esquerda do jaspe e da sardónica,
Envolto num arco íris de esmeralda
Contorcia-se um relâmpago vestido
Com as neves longas do Inverno
E munido de um rosto ao Sol.
Na Igreja, só a fronte de alguns
Brilha. No céu, Adão possui chagas
Tudo o resto, asas, mas nem todas
As asas, em tamanho são iguais.
Á esquerda do Rio Tigre, um raio
Dourado, com corpo de crisólito
E bronze nos membros, fazia arder
Os fachos dos olhos.
No céu, todos seguram espadas
E o Príncipe do reino da Pérsia
Ainda não está no Inferno,
Mas nem todas as espadas, são,
Em cumprimento, proporcionais.
Só podemos ter um corpo novo
Se cairmos para cima:
Cabelo de mulher, dentes de leão
E vulto de homem, asas, com estertor
De batalha, e caudas de escorpião
Para assustar a morte.
Há centenas de milhões de cores
Que nem sequer conhecemos.
Horned Wolf
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Morte de Urzes
O silêncio é uma ravina
Onde se esconde o pardal
E Deus se inclina.
É uma tontura
Onde acaba o homem
E a Lua perdura.
O silêncio é a solidão
Das árvores que cantam
E incêndio orfão.
O silêncio é a morte
Que nasce nas urzes
E rasga a norte.
Estendemos, no deserto
As almas, e deitamo-nos
Sobre elas.
As estrelas giram
Que os nossos corpos sorriam
Criando aguarelas.
André Consciência
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Portas e Penedos - performance de dança e poesia por André Consciência e Soraya Moon
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A Deeper Shade Upon Her Name
Hooded Figure on Hallowed Ground - Gary Corb
No término da prata-além
O seu título de negrume
Abrasa-se e espalha-se com aras
O ventoso esquecimento esmorece
E bailam um lume, as lunares folhas
Da sombra campestre.
Abre-se alada, eclipsada,
Uma gruta de lobos
E levanta-se a brilhar
Com orgulho e em colisão
Com o topo da Lua.
A forma funda santifica
A treva de estar
Nua.
Envolvem-se os poemas
E na fera giratória
A água levita-se
E torna-se memória.
André Consciência
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Ohmésêhese
Alberga três gémeos cegos. Ao lado,
Um teatro de marionetas, desempenha
Uma peça sem sentido. O cachimbo
Chinês, proporciona um sonho a branco
E branco. Na neve, o homem de chapéu
Perseguiu a raposa, com corpo de mulher,
Ou do açúcar no matutino café, dois
Tiros para o ar a saírem dos olhos
Aguados, raios parta o mundo e os seus
Penhascos, o homem olhou para as mãos
As suas mãos de raposa, com penas,
E sangue e deserto, a serem o fim
Do coração e o fim do coração, escultor.
Sem magia, os pulsos não tremiam,
Pôde executar muitos assassínios
Na noite que os guerreiros de elite
Cheynne, saíram vestidos de mimos.
André Consciência
domingo, 14 de agosto de 2011
O Verão nas Nossas Bocas
Summer of Love - Ora Moon
As minhas mãos aprendem-te, um vento melódico
na geada pura, de ti brotam enchentes
minhas mãos com tudo.
O meu sangue acordando onde moves a matéria
Beijo os teus olhos e deslizo na esperança
Do teu aro de fogo que se entrega
Na carne viva da tua carne em ascendência
Na luz dos meus braços seguro-te, luz pulsante
do meu perpétuo instante.
O incêndio da tua voz a murmurar o mundo
De cada coisa, abrindo a minha face
Para que a água encha, os dias a nascer
Onde o corpo aspira longamente, e as sombras
em êxtase, dos bárbaros de rosto divino,
O fulgor do mar inspirado, do crepúsculo,
Da montanha nos cavalos brancos da nossa vida.
O verão nas nossas bocas, a morrerem
Uma na outra, os arcos do horizonte
Derrubados no amor, mais terrível
Do que o dia.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Jibrael

Parsifal - Delville
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Desenho Através do Som
* em escrita automática durante o workshop "O Som e a Linha", de Nuno Bastos
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Viagens
Edite Melo
Rodeado de estrelas e pelas oito portas
Apressa-se a sair da aldeia
O velho carvoeiro de corpo inerte
Cuja cabeça se desprende do corpo à noite
Aponta para as papas e para o colchão
O corpo começa a dissolver-se
Os outros esqueletos regressam ao rio
E afundam-se.
Um chifre de marfim é bastante fundo
O sapo projecta a cabeça para a frente
Acesa à porta de uma cabana tosca de pastor
A estrada desaparece num pequeno vale arborizado
Á medida que o Sol se vai escondendo
O céu ganha uma cor de laranja vermelha.
Esperam pelo anoitecer
Para se aproximarem
Do portão escondido.
O pobre homem cai redondo no chão
Sem fazer um ruído.
A monotonia das terras encharcadas pela chuva.
O caminho segue às curvas no meio do nevoeiro.
O louva-a-deus penetra nas chamas.
As cabeças sem corpo começam a gritar:
"Talvez um dia encontres a jovem que seguiste"
Parece melancólica mas conduz-te à sua humilde casa.
Sobes para uma elevação coberta de lodo
Na margem oposta, pingando das profundezas,
Levas a trompa antiga aos lábios e sopras
Com força.
Horned Wolf
quarta-feira, 8 de junho de 2011
O Amor das Almas

Diego Rivera
Não existem portas nesta fortaleza
No entanto, há ladrões que roubam o ouro.
No campo, os olhos amarelos do amor,
A maioria regressa a casa conforme o horizonte
Se vai escondendo no Sol.
Sorriso expandido. Rente chuva de fogo.
Estrelas abertas e rodeadas de espaço.
Aldeia em chamas.
A morte ergue-se do trono e canta
O mar de um lado e as montanhas do outro
Tudo se solta das minhas mãos para as tuas
Não haverá outro dia depois deste.
Passas para os montículos fumegantes,
Cobertos de erva, para as areias intermináveis.
Sob o céu amarelo, um pássaro maior
Do que uma águia.
Horned Wolf
terça-feira, 7 de junho de 2011
Procelária
A encosta com cheirinho a caldeirada de peixe
Oeste nada tem que o assinale, nas saias
De uns montes, cumes escarpados e o trilho vira
A tarde avança, as tonalidades do Sol fazem reflexo
Sobre a pedra cinzenta, o caminho para o império
Das ilusões, bebido no archote das cobras.
Cristalino e brilhante, escuto,
Vai chover. As crianças brincam
Nadando com a electrididade do ar
Lá no alto, o ninho do amor
Cerca o meio-dia, ouves o barulho
Dos risos a bater, um cântico de gemidos
No tufo das árvores.
Segura no Sol, ó Anjo, e brilha sobre mim,
Escala comigo, ó Anjo, e faz-me de marfim,
Conta comigo as almas que caíram, no jardim
Para teu prazer, e desdobraram os lírios
Arrancaram a sombra ao rosto do amor
E as cicatrizes ao corpo do louvor.
Vislumbro a terra dos teus ombros, abençoada
A multidão de fantasmas até ao fim do mar
A sua pele coberta em ouro, e a boca
Onde os homens acabam - as encostas geladas
Do teu corpo - aquecem as embarcações que embarcaram.
Ó príncipe na neve, sento-me sob a tua juba,
Sobre a tua anca, e na minha pele estival repousam
Os amores que tanto ousam.
Aos pés das suas estátuas jaz Deus
A sua carne ciclicamente despedaçada
Nos troncos da alvorada.
Horned Wolf
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Mundo Sem Fim
O anão só com um braço
Fita, do salão sumptuoso,
O porto: Um mar de vinho
Mudo.
As brisas da noite, muito
Antigas, chegaram também
A estas paragens.
As mulheres desapareceram todas
Correm na luz ao longe.
De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver.
Uma aranha com asas fita através do fumo
O leste dilacera-se
O anão encosta o barco à praia
Os penhascos brancos
Acolhem ninhos de amor.
Nunca mais eu terei de conter
Uma gota
Do meu rio.
Horned Wolf
sábado, 4 de junho de 2011
Depois da Chuva
Le Déluge - Léon-François Comerre
Uma multidão de rios passa
Pela fronteira do meu caos memorial
A sombra das vitórias afundadas
A beber sumos de amor
Prevalece sobre as verdades sombrias
Dos destroços
Apaixonados, da solidão.
Raiva, antiga, das companhias serem não mais
Que nada, das loucuras serem tudo
O que é inconsequente. Nesta idade
Nada, chega a alguma coisa.
Eu gostava era de ter uma sombra
Não como eu, mais como tu,
Mas nunca tu mesma, excepto
No longínquo sonhar
Do tempo vertido pelo ralo das manhãs.
Despede-te agora, e não chores
Porque os rios passaram
E não mais sobrámos do que nêsperas
Comidos à dentada, dos desperdícios múltiplos
E da inexistência fragmentada.
André Consciência
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Horror dos Templos VII (FIM)
Há um cão que representa todas as estatuetas
O silêncio do quarto abala um raio ensurdecedor
Mármore entra numa sala munida de chão
Uma mulher muito bela está em cabeça de bronze
Numa parede incrustada de frente
Eu tenho tantas perguntas, e da minha boca
Começa a sair um fumo vermelho que cobre
O teu rosto.
A cabeça de bronze está muda e queda
O abstracto desenha mosaicos no chão
Excepto na zona em frente da porta ao fundo
Onde a medusa se faz com uma ranhura no topo:
O mofo cheira a tragos fortes a iluminação
Das velas.
O tecto de pedra desce, aflito, a abrir
Uma das portas; gigantescas larvas da areia
Cobrem-se de lascas de madeira.
Cada um pega numa foice, molhados pela chuva dourada
Permanecemos completamente secos. O chão, brilhante,
Espalha-se pelas almofadas e baixas mesas.
Está de pé, de pernas abertas, larga seda,
E tem a mão no punho curvo e sexual.
Um cálice dourado entra no quarto, usa uma espécie
De chapéu na cabeça, e há um relevo esculpido no Sol:
Uma pata mirrada do tamanho da de um macaco.
A escuridão mergulha nas escadas e o rosto
A bater no fresco ataca as correntes de humidade intensa:
Com as suas masmorras, os olhos ferem o Sol.
De repente, passa uma sombra por cima de ti.
Uma mulher muito bela deitada num sofá de cetim
Agita um enorme abano para uma criatura horrorosa
E sem cabelo.
O leite é branco como o amarelo dos olhos.
A sacerdotisa sorri, dá um estalo com os dedos
E o sexo cego precipita-se pela escada abaixo
O pavor transforma-se em arrogância
E assim nascem filósofos.
Horned Wolf
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O Horror dos Templos VI

Despair - Edvard Munch
A lanterna com uma mão e envolta numa capa
Esquiva-se de ti.
É preciso muita coragem, para sobreviver
Dentro dos globos oculares.
A pele amarela estica-se muito e espreguiça-se
Cobrindo as caveiras.
O poderoso olhar do pensamento abate-se
Sobre os débeis fantasmas.
Uma boa iluminação proporciona um lado e o outro
Dos archotes.
As tapeçarias e os frescos estão decorados
Com paredes.
O lado esquerdo encosta-se a uma delas, semelhante
A uma esfinge.
A lua em quarto crescente forma uma piscina que existe
Acentua-se um forte cheiro a ervas,
Enquanto caminhas.
Oz azel oat - NÃO BEBER!
O fresco de vinte metros de comprimento cobre quase toda a parede
A orelha à frente do pincel, as mãos nos godés, estar de pé
Ser acima de se ser homem.
Gostas do meu trabalho?
Répteis descarnando crânios tentam deter um exército de homens anões,
Fustigados pelos orcos mortos.
Talvez o homem que procuras seja convidado
No entanto sei que o templo só chega ao interior
Da pintura, depois de atravessar uma cortina de chuva
Dourada.
Coça o queixo e pensa que a arte é cruel e infléxivel
Todos os artistas trabalham secretamente numa cidade
Perdida.
É ela a sacerdotisa do templo, seduziu-te com promessas
De riquezas muitas. Ouves choros aflitos e sádicas gargalhadas.
Na sala do tesouro vi por exemplo aparecer à minha frente de repente
Uma figura envolta numa capa. É pavoroso indagar uma cara
Durante alguns segundos, e a morte que te preparou. A morte pôs
Qualquer coisa numa caixa dourada e voltou a desaparecer.
Os olhos esbugalhados abandonam a sala juntos
Mas a meio do corredor separam-se.
Horned Wolf
domingo, 22 de maio de 2011
O Horror dos Templos V

No baixo-relevo da Estela da Vitória, a arte mesopotâmica imortalizou NARAM-SIN que, na cabeça, traz a coroa de chifres, reservada aos deuses
De elmo na cabeça desço as escadas, cautelosamente,
Magro, arrepiante, e de roupas andrajosas, tenho os globos
Oculares na boca.
Morte e líquido, cortinados adamascados caiem
Do tecto até ao chão.
Salas sujas de sangue seco em pó, baldes
Baloiçam do tecto pendurados em cordas.
O arco baixo com o seu esgravatar com a cabeça preta
E longa de um insecto, ossos velhos espalhados
Nas lajes de pedra.
É certo que
As criaturas pavorosas gostam de se pôr
A pairar no ar a impedir todas as passagens
Redondas, são possuidoras de olhos tamanhosos
Verdes e escamados, cobertos de espinhos
Adormecem lançando olhares
Um espelho cai e quebra-se.
O olho, vaporoso e tóxico, corrói o chão,
O mundo enche-se de orifícios de ventilação
Mas preferíamos nunca haver um primeiro sopro.
O homem moderno é sempre alto, semelhante
A um réptil, usa armadura e curvatura de espada,
Todos guardam, entricheirados, sacos empilhados,
A dormir muitos, muito redondos, por solo:
Homenzinhos escanzelados e agachados
Cobertos por sacos de batata rasgados.
Ah, leitor, para entenderes esta leitura dos templos
Basta fazer-te chegar que esta terra esteve abandonada
Durante muitos anos, mas aos poucos descoberta por homens
E outras criaturas que o abrigo clamou. Costumam atacar
As carruagens que passam, à procura de comida:
Assim a sacerdotisa e os seus escravos organizam o mundo.
Chiu, a esta altura o corredor desemboca numa lúgubre câmara
Onde, de caudas de macaco nos bolsos, dois homens ratazana se entretêm a mascar
A carcaça de um duende.
Pára por um momento, e observa a civilização:
Um baixo relevo de criaturas horrorosas
A ser consumidas pelas chamas, se entrares
Descobres uma grande pilha de ossos
O covil escuro do negro cão da morte
E à medida que rastejas por seus túneis
A luz vai desaparecendo até não veres um palmo
À frente do nariz.
Vislumbre tardio de luzinhas que dançam
Trémulas, na penumbra tunelar
Zumbem sonoramente, com o barulho da idade
Da electricidade.
A água jorra da boca de uma cabeça de leão
A água agita-se quando o monstro se move
E já só o horror dos templos nos comove.
Horned Wolf
sábado, 14 de maio de 2011
O Horror dos Templos IV

Purgatory Travelers - Emanuel R. Marques
Dunas sobre pedras, as mãos sobre o escorpião,
Esmagas o crustáceo sob a botas e vasculhas os seus membros
Dilacerantes, encontras sacos pequenos de algodão,
Brancos e... variados.
Dentro de um frasco de vidro o homem verde ervilha
E minúsculo, com asas pontiagudas oferece pulos alegres.
Tira-me daqui. Leitor, tira-me daqui:
Eu grito dentro de um frasco transparentes nas entranhas
Avolumadas, do lacrau. Quando me ergo para
Vos falar, abro-me como um ovo, voo para fora
Perscrutando a vossa alegria e cantando inaudivelmente
E borrifando-vos a cabeça com um pó brilhante.
Os novos templos são a poesia, a pintura, a infâmia
E a heresia.
Se te queres proteger do Sol, leitor, se
Pretendes continuar comigo, usa o escorpião do avesso
Como lenço para a cabeça. De cabeça e pescoço tapados
Caminhas para Sul. E não existe um único ponto
Nesta única paisagem, em que possas encontrar uma
Sombra.
Não gosto de usar a palavra "embora" nos poemas,
Tento distinguir o que encobre a bruma difusa e vislumbro
Um muro alto. A pedra encontra-se a menos de um quilómetro de mim
Aos saltos, e és tu. Por detrás desse muro erguem-se
Ao compasso dos segundos, telhados de torres.
A areia, tomada de paixões pelo vento e assim arrebatada
Acumulou o muro até meio. Não existem ou existiram pegadas
Fora da imaginação.
Horned Wolf
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O Horror dos Templos III
A sede só é insuportável se possuis
Um cantil possuído de água, ou os cânticos
Que a água a jorrar.
De repente, as tuas mãos enchem-se de sabão
Que tu bebes em longos e deliciosos tragos.
A emanação da areia escaldante continua a lançar-se
Impiedosamente ao Sol da tarde. E como nos custa
Separar as mãos do deserto com bebidas a cair.
Cavalos nómadas amarram-se com força às estacas,
Tementes da tempestade seca.
Vestem túnicas amarelas e anéis ornam
Os dedos da barba, as bocas pontiagudos
Das gigantescas larvas, vão usar enquanto
Cinto.
Pássaros enormes esvoaçam a oeste
Onde se põem as árvores em verde derrame.
Os abutres estão atentos ao que se passa
No oásis.
Horned Wolf
terça-feira, 3 de maio de 2011
Lixo

Queria uma nascente que me mostrasse
Os sonhos que eu perdi, todos, como se
A começar, e a vida fosse bela como o teu riso
No meu cadente olhar.
Mas a vida foi passando, e a nascente
Sempre a brilhar, demorou-me os dias
Lentos a passar, os meus olhos roucos
Secaram, deixando um burburinho surdo
Da pérola do meu peito contra o sonho desfeito.
Não tenho a quem a dar, prefiro os rios,
Ficar a imaginar. Nascerão cidades
Famílias de braço dado, todo um viver
Feliz e amado. Nascerá do outro lado do rio
A vida que não tendo e a querendo
A mim me consumiu.
André Consciência
quinta-feira, 28 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
O Horror dos Templos II

A Destruição do Templo de Jerusalém - Francesco Hayes
O Rio Vermelho
E os campos cultivados para lá
Preenchem-se ao anoitecer
De homens a envelhcer
Onde se entrelaçam as raizes e os ramos
Todas as criaturas morrem no sono
Todas as almas sem corpo
Falam a mesma lingua
As pontas dos seus dedos
A individuar-se nos archotes acesos.
Leitor, o meu corvo guiar-te-à
Até ao rio Peixe
Onde veleiros a Sul alcançam barcaças
Com a marca do Porto da Areia
Negra.
O meu corvo crocita e afasta-se
O arrepio na tua espinha atravessa
O capim alto.
Fumo a Leste, as tripulações alheias
Continuam a descarregar mercadoria.
Setas em chamas com carapuças e capotes
Ardem cabanas.
O tempo da areia engole o pobre homem
Morto pelos duendes.
Olhando para o céu
Vemos voar na nossa direcção
A infinidade estelar
De astros que não podemos identificar,
Á medida que se aproxima
Reparamos que o grande espaço sideral
Tem corpo de abutre e cabeça de mulher,
Lança gritos estridentes que rasgam
Camisas.
Os homens dormem em buracos de areia seca
Quando acordam.
Da areia ressequida jorram ondas
De calor.
Horned Wolf
A Insolência das Janelas - performance poética (por André Consciência)
"Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis"
Poesia de André Consciência interpretada pelo autor e acompanhada pelas atmosferas sonoras de Babalith, produzidas em exclusivo para o evento. O acto será acompanhado por uma exposição de Cláudio Carvalho e da sua gravação ao vivo nascerá o novo álbum de Babalith.
Valor da inscrição: 5,00 €
Inscrições no local, através do telefone 219 234 257 ou por email:
castelodeasgard@gmail.com ou abismohumano@gmail.com
segunda-feira, 18 de abril de 2011
O Horror dos Templos
Duende Negro - J. Velasco Uma alcateia de mães uiva
Em redor da cabana em que nasce
A Lua-Cheia.
Duendes, ao cuidado da negritude
Das florestas, obrigando animais murchar
Com a penetração do olhar.
No Deserto das Caveiras
Os dragões da dissolução
Alimentam inconsciências.
A sua ciência tenebrosa:
A passagem da morte semeia cidades
E destrói o caos.
Um langor passa por mim, pois sinto-me anão,
Afio a espada e passo os pés pela balaustrada,
No largo da aldeia, todos fitam o céu onde
Os corvos escutam os duendes a passarem-se
Por Pedras.
Horned Wolf
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Viagens Marítimas (fragmento final)
Sea Piece by Moonlight - Casper David Friedrich XVIII
Milhares de peixes de cores vivas vagueiam
Por entre os ramos de corais brancos.
Beleza extraordinária, riso cristalino
Duendes da água salpicados de pequenas escamas
Douradas.
Uma taça gigantesca, talhada na
Rocha.
O grande bico abre e fecha.
XIX
O focinho comprido
Do peixe-broca
Ostenta as formas
Do saca-rolhas.
O seu gosto consiste
Em ser engolido
Insistentemente
Por variados polvos.
XX
No interior do enorme crustáceo,
Por cima de mim,
O oceano adquire uma tonalidade vermelho-sangue.
Ancorado numa pequena enseada,
O casco do navio pirata.
Se fores um homem de gosto
Abre o fundo do navio com algumas pancadas
E sacia-te comendo a tripulação.
Depois, junta todo o ouro numa pilha,
Fica quieto, e escuta uma voz profunda
Clamar por ti.
XXI
Empoleirado nas cristas, avistamos as luzes, o Porto
Da Areia Preta, cintilando no crepúsculo.
As guelras desvanecem-se numa ilha
Deserta e às escuras.
Horned Wolf
Viagens Marítimas (terceiro fragmento)
Holy Island, Scotland - Kevin Temple XII
Magos
Moveram-se para o oleado interior
Do Pacífico.
XIII
Vê-se
Uma película cintilante
Um formigueiro que atravessa
Todas as barreiras.
O Tritão, à porta
Arregala ainda mais
Os olhos.
Corta o Peixe-Serra
Que aumenta de tamanho
Com a faca da bancada.
XIV
O Peixe-Broca, o Peixe-Machado,
E o Peixe-Brilho, com uma luz azul
No alto da cabeça.
Estranho espaço de areia limpa
A arena é ao mesmo tempo uma saída
Para o exterior.
Poisada, muito direita
A caveira humana vomita
Musgo: uma voz
Dentro da tua cabeça
Remexe a água luminosa:
Vaga forma humana
Capitão da marinha, morto
Pela amotinada traição.
Ossos espalhados e comidos por fauna.
XV
As criaturas das profundezas permitem-vos a paz
Enquanto lêem: Urnas entaladas entre rochas e cobertas
Com verdete.
Escadarias de mármore e grandes portões de bronze
Corroído.
Escancarado, lá dentro, enorme e gordo
O escorpião. Corais sólidos e cinzentos, criptas de pedra
A parir estátuas, nobres figuras humanas,
Altivas feições de peixe, onde escrevo inscrições
Desconhecidas, coroas de jade verde
Com golfinhos encadeados uns nos outros.
O Oceano:
Uma voz tão profunda como a vibração dos ossos.
XVI
Um remoinho para a escuridão
Luz fraca sob o abismo escuro
A sala está iluminada a vermelho
Velha e murcha, a bruxa-do-mar
Toma banhos-de-vapor,
Um ajuntamento de Tritões em seu redor.
Eu, o poeta, sento-me numa mesa tosca
Cá fora, as grandes mãos escrevem
Com membranas estendidas,
Num anel de latão esverdeado
Em forma de espiral.
XVII
Na área rochosa e funda no mar
Existe um edifício, de tijolo,
Rodeado de seixos cobertos de algas,
É habitado por enormes caranguejos
Comidos em permanência por minúsculos
Parasitas.
Horned Wolf
terça-feira, 5 de abril de 2011
Viagens Marítimas (segundo fragmento)
Procession of Spores - Martin Madsen VI
Plantas aquáticas deitam a dormir luz escorregadia
Túneis de áspera rocha inclinam-se, sem fim,
Com a suavidade do pescoço das bailarinas,
Todas as portas pesadas dão para penhascos
De parede, salpicados de grutas, anémonas,
Protuberâncias.
Não podes cair, suspenso na água
E transparente.
VII
A moreia estremece e morre
Vagarosa pela água
Os seus dentes de agulha
Ondeando na corrente.
Passa, sobre o jardim
Um galeão afundado
Um palácio de cúpulas
Sem cobertura.
VIII
No palácio bóiam uniformes,
Cores de jóia, membranas e dedos,
Pele que encarquilhou.
O musgo marinho interessa-se
Por todas as curiosidades,
De si saem cortesãos sumptuosamente
Vestidos, salões de audiências,
E um inchado Peixes-Rei
Que ao pronunciar-se
De respiração saliente
Com dificuldade olha.
A bela adormecida no topo
Tem que nenhum fidalgo
A possa despertar.
IX
A princesa jaz perpendicular
Num fofo leito de musgo
As pérolas parecem olhos
O jade lembra a pele
As algas trepadeiras, dedos.
Acotovelam-se cortesãos.
X
Farrapos de pé, mastros
Flutuando na corrente
Penumbras repentinas
Ostras amontoadas
Por aranhas-do-mar
Paredes derrubadas
Pelas linhas do barco.
XI
Os jardins submarinos têm portões de ferro
Que não aceitam ferrugem,
As árvores nascem peixes coloridos
Em vez de pássaros.
A pouco e pouco, jardim-floresta,
Rugido repetido e à escuta,
Do peixe-leão,
Vivendas de vulgar aspecto
Fazem-se rodear por arco-íris.
Entre arbustos, um gato.
Horned Wolf
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Viagens Marítimas
I
A bordo de navios, veleiros, barcos de guerra,
Carcaças ao lume, vagabundo das experiências salgadas,
Com a calmaria absoluta das tempestades dentro
Da pele, perdia-se a conta das criaturas que degolara.
Igual a um Peixe-Sol na areia preta do oceano, desfraldado,
Rapina marinha, salta a amurada.
O sabre descose a carne, a cavilha de ferro é uma bailarina
No miasma da noite, e assim como pastam as chamas
As águas profundas deleitam-se nos cadáveres,
E só a brisa é refúgio dos piratas.
Rios grosseiros amarrados ao mastro, casacas
Um dia elegantes, homens debaixo da quilha,
Na bandeira, iscos, pão preto, carne e sal.
II
Peixes corrosivos ganham cor
Verde-mar
O oceano não é profundo,
E há recifes de espirais de coral.
Pátios e algas, pés no fundo,
Pátios luminosos, bolhas
Uma estrela gigantesca,
A água fria e cordas nas mãos.
A garganta roça-se na espada polida
Á procura de se soltar.
III
Azulejos vermelhos, verdes,
Brilhantes e limpos por algas
O pátio invadido por restos
De corais.
Pedra cinzenta dos prédios
Um alto, conserva-se sobre os outros
E peixes que nunca foram peixes
Observam como anjos
De dentro das janelas.
IV
Sereias, de pingentes em forma de búzio
Nos vitrais da nossa catedral,
Ao anoitecer, respirar debaixo da água,
Como quem canta.
Pérolas negras flutuam entre beijos
E as ondulações das caudas,
Escadarias, buracos escuros.
V
Leveza ágil, portas abertas à força
Daquilo que apodrece,
Moluscos prateados, silhuetas,
Do tamanho de homens delgados,
Homens só com olhos e dentes
E gulas dementes.
Moedas de ouro.
Horned Wolf
domingo, 3 de abril de 2011
Grace
While most of them walk the same road, I’d rather pick other ways to get there. Meanwhile, I’m presented with splendorous mountains, leafy valleys and peaceful rivers. Randomly, in between such pictures, I do find the road in which almost everybody marches. So I walk along and among some of them (couldn’t tell if in the right way) and maybe get to know one or two – is it possible to know someone really? Then…
The unstoppable quest restarts… it’s a chase all right. Yet…
You’re not the hunted, you’re not the hunter… as I’m neither the prey nor the predator; my best guess goes to my wish to fulfil curiosity. Things are what they are and like they are, so I’m grateful with what I get… everybody should be too. So I go back to my ways, my routes with mythical landscapes where your smile lit the sun, your hands hold leafs on the trees, your eyes shine on every rock and your glaze pulls the wind to blow.
With luck I’ll be there someday, where I can see you every time I look in the mirror…
Simply, I’ve never left this city.
Wolf – Music & Lyrics
Horned Wolf - Video & Art
The Poisonous I – Voice & Soul
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Abrahadabra
A Voz da Serpente
Miasma of Secretions - Babalith
I
Vede como é bela a sua cabeça em cascata
Uma mão globular com uma miríade invisível
De dedos ao Sol alegre das tempestades
Que o amor prende à delicadeza sua,
De mulher, a santidade um rio que bóia
Cantando o perfume das flores magoadas
Uma cor de céu a transmitir a Deusa.
II
Judeus, a cair dos pinheiros,
Dinheiro a escorregar das banhas
De um velho gordo
Asas recolhidas em abismos
Poças de sapo,
Homens de prudência tornados
Bandidos.
III
Um pedaço de tecto [abismo]
Num montículo de poeira à esquerda
Tu serás a minha lápide de terra
Esquece-me e solta-me
Uma estrela reparada por amantes
Nesse quarto inacabado
E eu adormecerei na tua campa dourada.
IV
Mortos, a tropeçar tempo adentro
Sobre os ossos da noite,
Colocam-se no altar
Da razão juíza
Os meus olhos expandem-se
Para lá da preocupação
No fogo aéreo
E sem desejo
Amanheço.
V
O silêncio do país desejado
A dormir quieto, de chuva branda,
As casas, ali, engoliram
Os jogos.
As árvores desceram, com seus ramos
E raízes, os corpos húmidos das crianças.
O sossego abateu os pássaros.
As ardósias retiram as dobras
Que restam à noite, fazendo-a
Lisa, abençoam o mal para criar
Caminhos, terra seca e água.
Horned Wolf
quarta-feira, 23 de março de 2011
O Triunfo do Génio da Destruição

The Triumph of the Genius of Destruction - Mihály Zichy
Vejam, este vestir de nu
Este coração loiro
A despir a mortalidade
Com um sonho.
Um vento vazio
Num chapinhar de folhas
Um corpo lívido, com a morte.
Com a morte, solto-te os cabelos,
As vozes eternas calam-se contra
As encostas, o tempo cai
Acendendo as velas
Os montes e cidreiras
O fogo era só uma epopeia
De nunca ter servido para nada.
Eis o conforto das coisas quebradas
E velhas, e choradas, roseiras
Enroladas na raiz do peito,
Todas as vidas erradas sem puderem
Ser contadas.
Horned Wolf
terça-feira, 15 de março de 2011
Virgo

Estrelas - Autor Desconhecido
Tu, que sabendo a noite
Com almas cansadas de sangue
E alegres de vinho
Foste enviada como anjo
Na hora tremeluzente
Em que os astros marejados
Com os mantos púrpura
Da piedade, e me encontraste
Na minha cadeira de coisa nenhuma,
Sonolento, com poesias
De hora alguma.
Fizeste nascer duas árvores
De prata dourada, no peito
Onde havia a espada
Que guardava a alegria enclausurada
No começo das flores vestidas.
És alta, tão alta que o não vês,
Eu descanso a teus pés
A raiz profunda, e a noite está quieta
A receber os teus cabelos.
O mar no teu corpo, beija-nos
Com a música de um louco
E em círculo vão as mãos
Moer o vidro da vileza.
Quem quer que a ti chegue
Crescerá em fortaleza.
Horned Wolf
domingo, 13 de março de 2011
Strange Attractor (Tóquio)
cities and people and landscapes. a cave area at
the top of a nearby forested hilltop.
electric power grid shutting enough to feed 10 of us for 3months
water barrel and solar power I am OK
phone lines stay up I can still keep in touch
maybe some material in your backpack,
a bed and fishing gear.
Most of our good caves are too close to the sea
Horned Wolf
sábado, 12 de março de 2011
The Landscape

Chaim Soutine
Nos dias de chuva há pessoas que se juntam e algo de sórdido num perfume estragado, nada se altera ao olfacto, é o coração que adoece. Estou a olhar em volta do assombro que ficou nas coisas serem. Nada pode compensar coisa nenhuma. Os dias passam, com chuva, com Sol. A ver um espectáculo de luzes. Não há mais nada para ver.
André Consciência
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Junho Flamejante

Flaming June - Fredrick Lord Leighton
Sentou-se, a pensar
Um sorriso vagueava
Pelos campos abertos
Do seu rosto.
Atravessava os olhos
Iluminava as têmporas,
Enrubescia as bochechas,
Perdia-se na nuca.
Sentou-se a pensar,
Á sua frente, branca
A tela por findar,
Enquanto pensava
O semblante todo
Um nariz ficou,
Que se desfez mole
Em testa, todo o rosto
Uma testa
Cheia de faro.
Alcançou a sua imagem
E formou-se todo aragem
Sem pensar ela escavava
A beleza que alastrava:
No frio Inverno aquecia,
Quente Agosto refrescava.
Horned Wolf
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Hortus Deliciarum

Hölle - Herrad von Landsberg
Os pensamentos flutuam e pingam na distância, antes do mar.
No fim há uma chuva incomensurável de lágrimas de cristal.
Alguns, marcados, serão tochas em lugares escuros,
Os fantasmas farão ninho em seu redor, porque os seus corpos
São como céus acesos. Que a morte vos afaste.
Eu fui sacrificado e não morri.
Sem a luz, quem descobriria o inferno?
Horned Wolf
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Thou Art Continuous

Fritz Lang's Metropolis - The Whore of Babalon
Priest & Priestess Speech from Liber XV - Gnostic Mass
0. Não há por dentro e por fora.
1. A receptividade cessou e tornou-se toda ela em criatividade.
2. A razão chegou ao fim e tomou a sua forma original, poder.
3. Os corpos desapareceram e passaram a ser os seus actos.
4. Não existe o cepticismo, mas a embriaguez da loucura.
5. As essências criativas são da mulher.
6. O poder é da sombra da mulher: os deuses.
7. Os actos são do homem.
8. A loucura é uma segunda mulher, e resulta do poder com o acto.
9. Até ao seu pescoço o homem é uma serpente, e não está sozinha, mas envolve-se numa massa de serpentes.
10. A cabeça do homem é uma essência que frutifica o cosmo.
11. Como espectro inteiro (cabeça aos pés), o homem é a luz de uma estrela.
12. Quando o poder for todo dirigido à essência criativa, se abrirá a terra celeste, onde por detrás de cada professor se esconderá um destruidor de mundos.
13. A civilização na terra celeste é o caos erótico dos corpos do avesso.
14. Esta civilização será intemporal, inconcebível, sensível mas somente inteligível, os seus edifícios serão por isso de anti-matéria.
15. Algo parecido com o que hoje chamamos de consciência, vitorioso, emergirá entre a luz manifesta e a imanifesta para viajar o mundo, o mundo quebrará o seu veículo que se derramará sobre si mesmo e cairá no abismo sem fundo do amor. Nesta queda ininterrupta todas as coisas retornam a abrir a terra celeste.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Descrição de um Escorpião
Voy a perder la cabeza por tu amor - Enrique Bunbury
Gordo e preto
Tanto as suas pernas como os seus braços eram curtos chouriços
Como troncos, a gordura a desaparecer com a pele e com o osso.
Estava nu, expandido na cama
As mãos torcidas para fora e os pés a alastrarem-se,
O extremo das suas pernas era os tornozelos
Com os pés metidos para dentro.
Quando fechava pesadamente as pernas
O seu badalo encolhia-se a desaparecer.
Tinha a cabeça de frente, espetada no ar como um prego.
Tinha os olhos desanuviados, sem procura
Como se não se importassem de se terem afundado naquele corpo.
Abria os lábios, abria os ossos da cara, e puxava para dentro
A barba pelos poros.
Horned Wolf
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Chacal 418
0. O homem (e a mulher) nasceu dividido e unido por um abismo, do outro lado está o seu amante, a divindade. A travessia é a senda do artista.
1. Deus é o Amor, ele preside sobre a morte e sobre a ressurreição, apenas.
2. A manifestação de Deus, e portanto do Amor, é o Fogo Secreto, é o Sangue, como substância física e como simbolizante da Vida.
3. Para empreender na travessia o peregrino perceberá que o seu sangue, íntimo, é o exterior.
4. O sangue é vitalizado por (1) paradoxos, pelo (2) encontro da atracção com a repulsa, pela (3) fusão do amor com a guerra, pelo (4) encontro de erotismo com o instinto de sobrevivência. O coração é uma esfera, governa sobre o mundo da matéria e das ideias.
5. O sangue vive primeiro na pedra, como vida espiritual. (1)
6. O sangue é em segundo invocado na planta, como consciência, ou seja, como a vida sexual. (2)
7. O sangue é em terceiro invocado no Sol, como a vida animal, e é aqui mulher. (3)
8. O sangue é em quarto transmutado pelo Sol, e absorve o próprio Sol onde vivem os animais, a Lua onde vivem as plantas, e a Terra onde vivem as pedras: isto significa que em quarto o sangue é invocado no Caos, e o Fogo Secreto existe em relação com existir a Noite. Nesta esfera vive o homem enquanto meta do homem. (4)
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Mulher Mão

Le Jockey Perdu - René Magritte
Mãos de mulher, sombra coagida,
Os minutos a desaparecerem com sufoco.
Esta saudade rasgada, minha voz
Ultrajada. Peito tremente,
Derramado até aos cotovelos
Na cevada.
Maldita manhã, escrever para nada,
Nem sequer um ritmo de janela
O tempo turva a saudade,
Peito fechado, peito escuro
E lambido.
A porta abre-se e fecha-se sem que nela passes,
Mede-se o silêncio e confirma-se a distância dos sons.
A bomba rega os campos amarelos, e ouvíamos cantigas
Pela rua de braço dado.
Ah, velha, nova memória que me comes as costas
Ao Inverno, ao inicio do serão, só fechar a porta no fim da noite.
Arregalo os olhos à passagem do vento, bato as pálpebras
Em todas as direcções, e ignoro.
Os ouvidos enfiavam-se nos gemidos,
Será que se lembra a pedra
Da forma do teu queixo
Desenhado no tampo da mesa
Pelo dedo do meu lembrar?
Ah leiam ou falem com a minha imagem
Sabendo que já não estou, mas que o sejam!
Sabem-me mal a porra dos cigarros
Que me ardem as mãos, o medo me não mete
Escuro, e tenho uma cama de ferro,
As oliveiras ainda têm estrelas e as estrelas
Sombras negras, os homens ainda jogam às cartas
Os seus risos uma demência de Lua,
Os cães ladram, de uma ponta à outra da vila
Não tenho rosto para atirar água, mas um abismo,
Cimento a secar, bater com os baldes e fazer eco,
Espalho-me pela manhã e não saio daqui,
Que ser melodia, é ser incompleto.
André Consciência
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Sarna

The Wili brides in white dance into the night - Johanna Bohoy
A pouca distância do lume, sentado numa poça,
Fiquei a imaginá-la a sentir tonturas e pensamentos
Novos.
A realidade tornara-se, pela primeira vez, real.
Segurei-a com as duas mãos, olhei-a.
A seguir, fui-me recolher dentro de uma
Das paredes, e fazia eco.
Ela estava deitada na cama, morta,
Arranjada por mim.
Haviam de tê-la visto vestida de noiva.
As crianças aproximam-se para me dar pontapés
E atirar pedradas ao lombo de um cão.
Não sabem que tenho emoção, memórias
Porque os olhos só falam a partir do medo
E eu, não me restou.
Ela tinha bonecas que eram colheres de pau,
Vestidas.
Eu gostava de ir para as matas, de cinto desapertado,
Dizer que me matava.
Horned Wolf
sábado, 8 de janeiro de 2011
A Orgia das Ratazanas
Child, Doll or Bone - John Santerineross
Os únicos pelos das ratazanas,
Na torre do sino
Sãos os púbicos
E têm cara de pessoas.
Por imitação, uma
É a primeira que ri.
As outras, originais,
Seguem.
O rapaz rato tinha treze anos
Quando lhe foi apresentada
Fizeram-no encara-la de frente.
Tinha as ancas de uma mula
E a cor diferente,
Os dedos fazem tranças
Em tudo quanto tocarem.
A sua baba é uma sopa de pão
E da sua orelha quadrados de carne
Ao lado estava o rapaz rato pendurado
Pelas patas de trás,
Deixa escorrer do pénis
Desenhos irregulares de vinagre.
Depois espreitam-se, do canto do olho,
As ratazanas tantas, com medo imenso
De se tocarem, e sustêm a respiração:
Ficam transparentes, só então se agarram
Sem vergonha, lançando as unhas
Às dobras dos dentes, vomitando
Nos colos.
Horned Wolf
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Nuit
O quintal entrava dentro da luz lá fora
O rapaz tinha seis seios
A mãe tentava imaginar uma vontade
Para lhe pôr dentro.
Esta sombra de intenção tinha cores
Mas só diante das palavras.
Era um livro que seguia o silêncio antes
E depois de ser dito.
O quintal lança-se sobre a terra
O presidente ia dizer alguma coisa importante
Toda a neblina vem do rosto a dissolver-se
Na água.
Horned Wolf
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Sombrinha
Os campos estendem-se na distância da vila,
Abrem-se asas, nos pássaros
As mães e os filhos carregam malas com vestidos
E o horizonte deixava-se deslizar pelas planícies.
Toc toc toc toc toc
A sombra ia descansar à vila, aproveitava.
Faltava pouco para o campo atravessar as ruas
Com o rosto coberto de terra.
Os pardais morrem com um som triste
Mas ouvia-se apenas o descanso.
Ali estou eu, a estalar no centro
De uma pedra do passeio,
A ser esquecido enquanto o silêncio
Embacia as imagens.
O silêncio passou, só se ouviam as folhas
De hera a enfiarem-se nos pássaros,
E passos de cristal,
A terra seca a escorregar nas chinelas.
Horned Wolf
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Alma
Video : Possession (Andrzej Zulawski, 1981, starring Isabelle Adjani & Sam Neill)
Music : Kaneda - Monarchs and Heretics (2008)
Curiosidades:
http://xibalbamannequins.blogspot.com/2009/03/o-porteiro.html
http://xibalbamannequins.blogspot.com/2010/10/blog-post.html
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Ano Novo
.
A planície infinitamente verde espanta-se
Com a massa negra de blocos brancos
No seu seio de prédios.
Se o corpo nos arde, para virmos à cidade
Apanhar os risos frescos
Sabemos a sua invenção
Sós e com a nossa violência
De inocência e perversão.
A memória do silêncio e o espaço da neve
Tudo substituído pela companhia
Das campainhas dos apartamentos.
As pessoas sentam-se alheadas e imóveis
Nos buffets, e o prédio em frente bate
Inesperadamente, contra o Sol,
Iluminando as ruas num clarão.
Na planície infinitamente verde
As sombras abrem-se
Em promessas às searas.
A noite recolhe-se à primeira lâmpada
Das avulsas casas.
O silêncio atira-se aos gritos
Contra os milhafres cegos,
Vindo do fundo da terra
Com o negro escorrimento das raízes.
De noite, o céu é de um azul claro
Que passa devagar.
Tento erguer-me contra este vulto
De não coisas, reúno as vísceras
Da cólera e os ossos do sangue,
A solidão do urro e o abandono da urgência,
E fico, para minha surpresa, só com medo
Com pena de mim mesmo.
A boca, os olhos, os ouvidos
São coisas de afogar,
O mofo esponjoso, o silêncio selado.
A vida senta-se sobre mim e sobre
A massa negra de blocos brancos,
Senta-se, loira, risonha e abundante
Com o seu peso de coisas a renovarem-se
Em constância, sobre a nossa mortificação.
Atira-nos olhares clandestinos, para que imaginemos
Como será a sua submissão no prazer,
Todos cabemos na sua grande vaginação.
Oh, memória agora, de ti,
Uma vontade de chorar estremece à tua volta
E eu tenho um desejo vaporoso de me tornar
Num halo de consolação.
Mas tu foste embora, com as luzes da cidade,
E onde te imagino suponho estar eu,
Ponho a tocar para nós Mozart, depois Bach,
E sento-me sobre o piano, ignorando os trovões
No infinito verde, e os comboios, no infinito
A preto e branco.
É belo ouvir-me nesta hora breve,
Eu, que inventei o Inverno,
E as pérolas que se fecham no silêncio
Para imaginar que as minhas mulheres o são
E não simples rameiras mortais,
Com fedor a medo e vil sobrevivência.
Sofro pela noite e escrevo, enquanto
Um coral de reis e rainhas dança no meu centro
Com deputados e ministros sob as botas reais,
Procuro chegar até à minha fadiga
Para que se ouça o Piano melhor.
Desconfio que o quarto da pensão existe todo
Dentro do cigarro, silêncio adentro.
Horned Wolf
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Haifisch

Great Whte Shark - Autor Desconhecido
Levou o irmão para junto às águas salgadas, porque houvera notícia de naufrágio. As pessoas agarravam-se umas às outras, apinhando-se e indo ao fundo, e viam-se barbatanas inquietas farejando à beira da tempestiva electricidade. Para lhe falar dos anjos que caíram, esperou que um tubarão saltasse à superfície e enfiasse um gritante naco humano, todo palpitante e a estalar vermelho, nas cerras dentadas, manipulando-o pelas mandíbulas. “Vê, que este tubarão tem lágrima, como o têm todos, e os oceanos salgam.” Disse-lhe, sem que ele compreendesse. “Essa lágrima é o filho de Deus, a segunda pessoa de uma trindade” fez-se continuar. “É impossível ver Deus, o que se vê d’Ele são os efeitos, também é uma revelação saber o choro do tubarão, porque vive já de si submerso nas águas.” Abanando a cabeça, procurou o outro disto a negação, e ripostou com uma interrogação: “Porque choraria?” E ele, personificando: “É do desassossego, se pára, morre. É do frio, o fundo do oceano é glacial. Porque se afastou de Deus, e só a ferocidade lhe resta como calor. Pranteia pelas vítimas de se haver tornado vitima. Como sabes, o tubarão é possuído de sangue frio, não sobreviveria aqui de outro modo. O frio só tocou aquele cuja essência se tornou. Olha, que Deus, no fundo do Oceano, está na fome, mas o seu filho na lágrima. No fundo do Oceano, é Deus que é visível e o homem invisível.”
Horned Wolf
Cubismo Hermético

O Pintor e o seu Modelo - Georges Braque
Solto dos ramos derretidos
O Sol acorda-me pela vidraça
E transpõe os instantes que o frio
Cristalizou.
Filetes de água de uma gravura,
Que se destrói.
Uma toalha brilha em alegria
Dentro da bacia.
Cobre-lhe a boca
A minha roupa desmanchada -
A cadeira abandonada à dormência da manhã.
No espelho não há frio e abro a janela.
A invasão do Sol sem tempo
Um estranho mundo de plástico.
Golpes avulsos ressoam nuvens num céu de vidro.
Portas que se transformam em lenha,
A lenha em lume.
Subitamente, o pátio ecoa pelo buzinar forte
Os ramos de azevinho consomem-se também
Nas dobras dos sinos.
Horned Wolf
domingo, 26 de dezembro de 2010
Os Sete Anos de Fome

Os Sete Anos de Fome - Friedrich Overbeck
No dia em que Adão saiu para fora da bíblia
Comeu barro e bebeu água, pôs-se a pensar
Com os olhos além da carne e da memória.
“Serei”, afirmou, "o primeiro materialista,
Uma música que atravessa a vidraça,
Um raio de sol que se ouve pela primeira vez,
Uma dimensão absoluta que cada noite possam
Abrir lá ao longe, numa vaga de luar:
Não há nenhum mistério nisto
Pois é bem sabido que a vida vai
Para além da memória
E nascia já nos espaços desertos muito tempo
Antes de se haver tomado a morte,
Era então a visão de uma plenitude sem risos."
A harmonia ignota da sua presença imediata,
Logo que se pôs a ruminar, esvaziava-se.
De pólo em pólo, os an(j)os vibravam assim como corda
E com eles, de Adão, os longos olhos retumbantes.
Esvaziava-se e persistia, porque persistir
É ficar íntimo, nu e humilde. Imaginou
A primeira Jerusalém Celeste sem livro
E embora fosse ele morto, a cidade
Era nossa, da voz que era sua, e que éramos
Nós, ele ouvia-se e perguntava-se
Afinal quem era.
Não há consumismo que do eco não venha.
Dentro da nossa inquietação, Jerusalém é real,
Raízes de sombras, tudo o resto miragem.
Horned Wolf
sábado, 25 de dezembro de 2010
Ser ou não ser não é a questão

Untitled - Zdzisław Beksiński
A tarde cessara quando saí.
A chuva escurecia rapidamente.
O destino pôs-se a percorrer a cidade perturbada.
Do outro lado, o cansaço trazia um corpo húmido, morno;
O sangue trazia as mãos.
O esquecimento absoluto e o absoluto da ressurreição
Desciam - ligados e siameses - a ribanceira,
Anunciando um subterrâneo pleno.
Eu fugia de mim como se me agradasse também
Percorrer as ruas, e doíam-me subjacentemente
Os ossos das unhas; a água entre nós
Formava pátios, jardins, portas, gradeamentos,
Muros, janelas vazias, gente movimentada,
Céus de esponja, tudo da cor das luas.
O vento inventava-nos olhos cerrados, cólera
Obscura.
Passo pela grande ruína no coração da cidade
Os seus destroços fazem brotar coroas
Como frutos, porque todas as coroas
Provêem do triunfo da ruína.
As crianças fogem, estrugindo na lama,
Os carros brincam em poças pretas.
O silêncio fumega terras ensopadas,
A noite ameaça os vidros entre tudo:
Se as luzes não se acendessem, nunca a noite
Chegaria.
Deus é uma consequência
Da criação.
Ponho um disco no aparelho: “We’re here
Because we’re here.” Ah, seja o meu mal
E sendo suave
Como carícias de folhas de árvore, sexo e mel,
Cause dano à consciência, fissura.
É assim, não vamos ao sono
Sem que Deus esteja com isso satisfeito,
Depois esquecemos Deus
E não vamos ao sono de todo:
Existimos, e isso é que é o sono.
E isso é que é um cadáver de Deus:
Esqueçamos essa carcaça,
Esqueçamos existir,
A ver o que é afinal.
Ponho um disco no aparelho, e do centro da música
Arranco à socapa as flores, talheres, lâmpadas, móveis,
Pratos de sopa, copos de cristal, exposições de arte
E fios de aço. Nisto é que um homem lhe resta
Estar lúcido, e se nele raiou algum vislumbre
Do que é o futuro: a presença de nós próprios
Como alarme do sonho, a interrogação submersa
Na intimidade, como se não escrevesse aqui,
Porque deixou de haver pedra e cardos,
E jazemos dentro das pedras e dos cardos:
A cidade irreal num cerco à terra,
A imaginação sem erguer cidades, mas erguida
Da cidade já de si fantástica, astros, que se põem tão alto
Quanto as chaminés, ah esqueçam! Danem-se
Os espectros das civilizações passadas, esta é a finistérrica
Civilização do espectro, ah cidade! Que é chão e céu
Como uma brilhante cascata de luzes, há só uma morada
De lâmpadas fundidas e todas as outras em fila, nela se esquecem:
Nessa é que eu morava!
As fachadas erguem-se das vozes falecidas, as galerias
Multiplicam-se. Como num labirinto, de volta de um
Apeadeiro.
As esquinas adormecem nas lâmpadas,
Onde quer que seja o fundo.
Horned Wolf
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Transfiguração de Jesus

Transfiguração de Jesus - Teófanes, o Grego
Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.
Aconteceu uma memória, a revelação abala a chuva.
É o passado que faz vibrar a natureza, a manhã solar,
O Verão opressivo, Março a atirar-se pelos ventos
E a Lua sem conseguir, no silêncio, parar de cair,
As massas nubladas, a música fria e cristalizada
Que povoa, e abre as esferas no labirinto dessa chuva
Que é aura.
Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre,
E sabe não haver retórica possível.
A vertigem baloiça-se nas massas cinza
Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis.
A colina desce as casas em toalhas aquosas
Os prédios adentram-se pelos sinos das Igrejas
Ninguém o vê, mas o cão percebe, e ladra.
A água cai, sim, mas é gente silenciosa
Que se levanta dela.
Nas livrarias, o chão de tábuas apodrece de humanidade
E o vento atira-a pela porta.
Eu gritei aos astros até enlouquecer
E a consciência esgotou até às fezes
A minha condição animal.
Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.
Horned Wolf




