segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquele Que Está Diante de Deus




Á esquerda do jaspe e da sardónica,
Envolto num arco íris de esmeralda
Contorcia-se um relâmpago vestido
Com as neves longas do Inverno
E munido de um rosto ao Sol.

Na Igreja, só a fronte de alguns
Brilha. No céu, Adão possui chagas
Tudo o resto, asas, mas nem todas
As asas, em tamanho são iguais.

Á esquerda do Rio Tigre, um raio
Dourado, com corpo de crisólito
E bronze nos membros, fazia arder
Os fachos dos olhos.

No céu, todos seguram espadas
E o Príncipe do reino da Pérsia
Ainda não está no Inferno,
Mas nem todas as espadas, são,
Em cumprimento, proporcionais.

Só podemos ter um corpo novo
Se cairmos para cima:
Cabelo de mulher, dentes de leão
E vulto de homem, asas, com estertor
De batalha, e caudas de escorpião
Para assustar a morte.
Há centenas de milhões de cores
Que nem sequer conhecemos.


Horned Wolf

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Morte de Urzes



O silêncio é uma ravina
Onde se esconde o pardal
E Deus se inclina.

É uma tontura
Onde acaba o homem
E a Lua perdura.

O silêncio é a solidão
Das árvores que cantam
E incêndio orfão.

O silêncio é a morte
Que nasce nas urzes
E rasga a norte.

Estendemos, no deserto
As almas, e deitamo-nos
Sobre elas.

As estrelas giram
Que os nossos corpos sorriam
Criando aguarelas.


André Consciência

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Portas e Penedos - performance de dança e poesia por André Consciência e Soraya Moon


Sexta-feira, 26 de Agosto às 22:00
Espaço Tuatha
Rua Pinheiro Chagas, nº 48, 2º 1050-175
Lisboa


"De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver."

Poesia de André Consciência interpretada pelo autor, acompanhada pelas atmosferas sonoras de Babalith e a dança interpretativa de Soraya Moon. O acto será acompanhado por uma exposição de cariz esotérico e contemplará o fantasmagórico enquanto matriz da realidade mundana do dia a dia.

Valor: 5 euros

Inscrições no local ou por email:
abismohumano@gmail.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Deeper Shade Upon Her Name


Hooded Figure on Hallowed Ground - Gary Corb


No término da prata-além
O seu título de negrume
Abrasa-se e espalha-se com aras
O ventoso esquecimento esmorece
E bailam um lume, as lunares folhas
Da sombra campestre.

Abre-se alada, eclipsada,
Uma gruta de lobos
E levanta-se a brilhar
Com orgulho e em colisão
Com o topo da Lua.

A forma funda santifica
A treva de estar
Nua.

Envolvem-se os poemas
E na fera giratória
A água levita-se
E torna-se memória.


André Consciência

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ohmésêhese

A jaula perto da fonte, na praça,
Alberga três gémeos cegos. Ao lado,
Um teatro de marionetas, desempenha
Uma peça sem sentido. O cachimbo
Chinês, proporciona um sonho a branco
E branco. Na neve, o homem de chapéu
Perseguiu a raposa, com corpo de mulher,
Ou do açúcar no matutino café, dois
Tiros para o ar a saírem dos olhos
Aguados, raios parta o mundo e os seus
Penhascos, o homem olhou para as mãos
As suas mãos de raposa, com penas,
E sangue e deserto, a serem o fim
Do coração e o fim do coração, escultor.

Sem magia, os pulsos não tremiam,
Pôde executar muitos assassínios
Na noite que os guerreiros de elite
Cheynne, saíram vestidos de mimos.


André Consciência

domingo, 14 de agosto de 2011

O Verão nas Nossas Bocas


Summer of Love - Ora Moon


As minhas mãos aprendem-te, um vento melódico
na geada pura, de ti brotam enchentes
minhas mãos com tudo.

O meu sangue acordando onde moves a matéria
Beijo os teus olhos e deslizo na esperança
Do teu aro de fogo que se entrega
Na carne viva da tua carne em ascendência
Na luz dos meus braços seguro-te, luz pulsante
do meu perpétuo instante.
O incêndio da tua voz a murmurar o mundo
De cada coisa, abrindo a minha face
Para que a água encha, os dias a nascer
Onde o corpo aspira longamente, e as sombras
em êxtase, dos bárbaros de rosto divino,
O fulgor do mar inspirado, do crepúsculo,
Da montanha nos cavalos brancos da nossa vida.

O verão nas nossas bocas, a morrerem
Uma na outra, os arcos do horizonte
Derrubados no amor, mais terrível
Do que o dia.


André Consciência

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jibrael


Parsifal - Delville

Um burburinho louco passa pelas cidades desconstruídas do nosso dia-a-dia. Nada nos marca e tudo é, não obstante, tão fundo quanto somos. Tanto tenho a dizer e com eloquência bastante sobre a nossa actualidade, no entanto a loucura simulada é a única resistência, o simulacro negro e desesperado do neo-Dionísio. Uma virulência requintada invadiu a racionalidade dos homens e a graça das mulheres. Todos somos as suas presas uns dos outros. Não pretendo ser poético, há música bastante na electricidade que nos perfura e nos liberta de nós mesmos, no anjo inimigo da carne e apologista do auto-consumo do eu. Pai, se te lembras de nós, que somos poeira e esquecimento, aproxima a tua estrela. O inútil cresce e pressiona-nos a trabalhar sob a sua cruel e luminosa espada, espicaça-nos o espírito e mói-nos no lodo de carícias longínquas. Ímpios se tornaram os teus ministros, o escárnio habitou a boca dos teus juízes, a santidade escolheu o rosto dos pecadores. Dia e noite medito na queda dos templos, nas prisões derramadas. Faz-me como uma árvore plantada junto às correntes de águas, para que rompa os edifícios e as teias dos que sem a tua graça prevaleceram na tua força. Porque tu conheces o caminho dos ímpios, mas o vulto das pedras e do teu corpo primeiro conduz à sua ruína. A anarquia dos anjos paira sobre as cidades ensopadas da ausência de sangue. Há muito caíram as nações e os povos, todos. Os teus anjos reúnem-se num louvor de mentira e de vaidade. Deito-me com o meu coração no leito. Que os meus ossos sejam como a sombra de ti e que o meu vulto seja. Que na morte haja uma lembrança de ti e no Seol eu te louve. Tu, que puseste na escuridão o teu sorriso em toda a terra, os teus dedos na montanha, no chão, no céu, a esquecer-se dos impérios, infernais ou celestiais. Vede agora, como a perfídia se desfaz em tudo o que passa pelas veredas dos mares, no céu que adentra a ave, no mar dos bois, no campo dos peixes.

Horned Wolf

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Desenho Através do Som

I

O comboio estava lúgubre. Numa linha continua de desvario. Calou-se tudo. As suas engenharias sem som nem existência. Uma catedral com fantasmas de monges. Uma plataforma quente para os ovnis fermentados. Por outras palavras, a senhora tinha sido despida e acorrentada ao metal, com fedor a merda e urina e sangue menstruado. Os ratos olhavam-na melancólicos a partir do crucifixo.

Um cavaleiro em seu socorro assassinava espectros dos homens que se haviam enforcado no sexo dela para ressuscitar e regurgitar no coração. Perdeu-se numa gruta de luzes, num túnel entre a vida e a morte, percorrido a todo o seu comprimento por comboios sem sonoridades. Qual seria uma mulher? A que procurava. A infância que buscava desarrolhar. Por outras palavras, a foice que Hitler carregava em todos os discursos.

Uma selva de emoções desconhecidas tapava o caminho para o buraco com que procurava suga-la da inexistência. Desvaneceu no próprio estômago.

Acordou no intestino de um boi defunto. A solidão da manhã bem presente na sua febre. Mil bichos da madeira corroíam as suas engenharias. Descobria-se ser, em toda a sua plenitude, um comboio insonoro. As silvas cresciam no Elísio intestinal. Não queria socorrer a morte da mulher. Esvaziar o Graal era inexistir. Arranhou as paredes do seu cadáver exterior. Quantas luzes mais teria de suportar a manhã?

Sombria cantiga dos pirilampos, dos rouxinóis de voz gutural. Lombrigas asseadas jogavam às cartas no tampo do seu cérebro limpo de vida. Cantiga antiga no alívio de todas as bexigas.

A madeira das linhas ferroviárias a desabar o muro.

Ah! Estrondo das roldanas! Gemida a mulher. Mar sem fim! Luz rasga. LAM. Senti descer o sangue por toda a narrativa em formato de electricidade nas florestas dos sentidos, dos sonhos vividos da Segunda Guerra, do conforto dos campos de concentração. O som cobria as palavras como a substância faz a sombra.

Mitiguei os templos que faltavam na lavagem do mundo de fogo, das esferas do demiurgo nauseado. O comboio estridente esmagava um cão, apodrecia um homem, abria as múltiplas vaginas de uma mulher, acabava os povos.

Naves espaciais a descer do tecto em fios de lava de aranha. Descortinavam a estratégia mais certeira da beleza. A intempérie da realidade confusa na ponta do caralho. Derrubar uma nação durante a lenta e doce e cândida e lânguida e saturada e agitada e atormentada masturbação. A morte do cão sob o estrondo das roldanas. Foi o estrondo e não o peso, que elevou o império. O peso só no estrondo voa.

Hmm. Hmumh. Como os robôs riem. Sorriso alcoolizado. Devagar, o mundo acorda para o amor. O estômago já não arrota sem sorrir. Espirais de entendimento.



II

Hoje descobriram que sonhávamos. Não havia por isso como distinguir os elementos da realidade dos elementos transcendentes. O Dalai Lama cantava sendo chicoteado por um índio alto e chinês aplaudido por três macacos gordos em divãs.

A esposa do monge banhava-se um pouco afastada, no varandim com vista para a neve, e pensava no que não seria a voz do homem azul, as serpentes lavavam-se na sua pele solta e ela chorou os homens que não sabiam dormir dentro do sonho. O chicote estalava com mais força sob o filho de Deus. Cresciam roseiras de lótus na cabeça dos leões recém-nascidos do sangue. O xamã ria-se sob a forma do corvo que aprendeu a rir. O seu voo uma linha impecável.

O homem movimentava-se dentro das campainhas a perder a forma humana. Deslocava-se em torpor pela colocação da voz que respondia do outro lado das portas. Nada era fixo que não fosse fixo. Os cabelos das campainhas dançavam na maré das horas. Não havia nada para dizer. A sensação era uma boca de sensação. E tudo cai, sempre, no interior das margens do rio.

Sal. Manhã. De noite. Imerso. Submerso. Esgravatar a solidão dos dias. Escutar dentro das fendas. Perfuração lenta. Descobrir dentro das fendas a microscópica loucura que compõe. A minha nação não existe. Nunca existiu, um homem que eu nunca conhecerei, uma lesma na rua pisada. Nada me impede de roubar. De matar. De violar. De chorar.

O crocodilo banha-se na pele esfolada das rainhas. Assim, assim. As campainhas percorrem o cosmo.

A
Electricidade
Acompanha
A
Realidade.

Gotas de água
Na solidão.
O papagaio
Solta-se da mão,
Presa à devoração
Das
Estrelas.

Raiva calma
Da loucura
Principiante.

Som. Som. Som. Som. Aumua. Regressão.


Horned Wolf

* em escrita automática durante o workshop "O Som e a Linha", de Nuno Bastos

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Viagens


Edite Melo


Rodeado de estrelas e pelas oito portas
Apressa-se a sair da aldeia
O velho carvoeiro de corpo inerte
Cuja cabeça se desprende do corpo à noite
Aponta para as papas e para o colchão
O corpo começa a dissolver-se
Os outros esqueletos regressam ao rio
E afundam-se.

Um chifre de marfim é bastante fundo
O sapo projecta a cabeça para a frente
Acesa à porta de uma cabana tosca de pastor
A estrada desaparece num pequeno vale arborizado
Á medida que o Sol se vai escondendo
O céu ganha uma cor de laranja vermelha.

Esperam pelo anoitecer
Para se aproximarem
Do portão escondido.

O pobre homem cai redondo no chão
Sem fazer um ruído.
A monotonia das terras encharcadas pela chuva.
O caminho segue às curvas no meio do nevoeiro.

O louva-a-deus penetra nas chamas.
As cabeças sem corpo começam a gritar:
"Talvez um dia encontres a jovem que seguiste"
Parece melancólica mas conduz-te à sua humilde casa.

Sobes para uma elevação coberta de lodo
Na margem oposta, pingando das profundezas,
Levas a trompa antiga aos lábios e sopras
Com força.


Horned Wolf

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O Amor das Almas


Diego Rivera


Não existem portas nesta fortaleza
No entanto, há ladrões que roubam o ouro.

No campo, os olhos amarelos do amor,
A maioria regressa a casa conforme o horizonte
Se vai escondendo no Sol.

Sorriso expandido. Rente chuva de fogo.
Estrelas abertas e rodeadas de espaço.
Aldeia em chamas.

A morte ergue-se do trono e canta
O mar de um lado e as montanhas do outro
Tudo se solta das minhas mãos para as tuas
Não haverá outro dia depois deste.

Passas para os montículos fumegantes,
Cobertos de erva, para as areias intermináveis.
Sob o céu amarelo, um pássaro maior
Do que uma águia.


Horned Wolf

terça-feira, 7 de junho de 2011

Procelária




A encosta com cheirinho a caldeirada de peixe
Oeste nada tem que o assinale, nas saias
De uns montes, cumes escarpados e o trilho vira
A tarde avança, as tonalidades do Sol fazem reflexo
Sobre a pedra cinzenta, o caminho para o império
Das ilusões, bebido no archote das cobras.

Cristalino e brilhante, escuto,
Vai chover. As crianças brincam
Nadando com a electrididade do ar
Lá no alto, o ninho do amor
Cerca o meio-dia, ouves o barulho
Dos risos a bater, um cântico de gemidos
No tufo das árvores.

Segura no Sol, ó Anjo, e brilha sobre mim,
Escala comigo, ó Anjo, e faz-me de marfim,
Conta comigo as almas que caíram, no jardim
Para teu prazer, e desdobraram os lírios
Arrancaram a sombra ao rosto do amor
E as cicatrizes ao corpo do louvor.

Vislumbro a terra dos teus ombros, abençoada
A multidão de fantasmas até ao fim do mar
A sua pele coberta em ouro, e a boca
Onde os homens acabam - as encostas geladas
Do teu corpo - aquecem as embarcações que embarcaram.

Ó príncipe na neve, sento-me sob a tua juba,
Sobre a tua anca, e na minha pele estival repousam
Os amores que tanto ousam.

Aos pés das suas estátuas jaz Deus
A sua carne ciclicamente despedaçada
Nos troncos da alvorada.


Horned Wolf

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mundo Sem Fim




O anão só com um braço
Fita, do salão sumptuoso,
O porto: Um mar de vinho
Mudo.

As brisas da noite, muito
Antigas, chegaram também
A estas paragens.

As mulheres desapareceram todas
Correm na luz ao longe.

De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver.

Uma aranha com asas fita através do fumo
O leste dilacera-se
O anão encosta o barco à praia
Os penhascos brancos
Acolhem ninhos de amor.

Nunca mais eu terei de conter
Uma gota
Do meu rio.


Horned Wolf

sábado, 4 de junho de 2011

Depois da Chuva


Le Déluge - Léon-François Comerre


Uma multidão de rios passa
Pela fronteira do meu caos memorial
A sombra das vitórias afundadas
A beber sumos de amor
Prevalece sobre as verdades sombrias
Dos destroços
Apaixonados, da solidão.

Raiva, antiga, das companhias serem não mais
Que nada, das loucuras serem tudo
O que é inconsequente. Nesta idade
Nada, chega a alguma coisa.

Eu gostava era de ter uma sombra
Não como eu, mais como tu,
Mas nunca tu mesma, excepto
No longínquo sonhar
Do tempo vertido pelo ralo das manhãs.

Despede-te agora, e não chores
Porque os rios passaram
E não mais sobrámos do que nêsperas
Comidos à dentada, dos desperdícios múltiplos
E da inexistência fragmentada.


André Consciência

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O Horror dos Templos VII (FIM)




Há um cão que representa todas as estatuetas
O silêncio do quarto abala um raio ensurdecedor
Mármore entra numa sala munida de chão
Uma mulher muito bela está em cabeça de bronze
Numa parede incrustada de frente
Eu tenho tantas perguntas, e da minha boca
Começa a sair um fumo vermelho que cobre
O teu rosto.

A cabeça de bronze está muda e queda
O abstracto desenha mosaicos no chão
Excepto na zona em frente da porta ao fundo
Onde a medusa se faz com uma ranhura no topo:
O mofo cheira a tragos fortes a iluminação
Das velas.

O tecto de pedra desce, aflito, a abrir
Uma das portas; gigantescas larvas da areia
Cobrem-se de lascas de madeira.

Cada um pega numa foice, molhados pela chuva dourada
Permanecemos completamente secos. O chão, brilhante,
Espalha-se pelas almofadas e baixas mesas.

Está de pé, de pernas abertas, larga seda,
E tem a mão no punho curvo e sexual.

Um cálice dourado entra no quarto, usa uma espécie
De chapéu na cabeça, e há um relevo esculpido no Sol:
Uma pata mirrada do tamanho da de um macaco.

A escuridão mergulha nas escadas e o rosto
A bater no fresco ataca as correntes de humidade intensa:
Com as suas masmorras, os olhos ferem o Sol.

De repente, passa uma sombra por cima de ti.

Uma mulher muito bela deitada num sofá de cetim
Agita um enorme abano para uma criatura horrorosa
E sem cabelo.

O leite é branco como o amarelo dos olhos.
A sacerdotisa sorri, dá um estalo com os dedos
E o sexo cego precipita-se pela escada abaixo
O pavor transforma-se em arrogância
E assim nascem filósofos.


Horned Wolf

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Horror dos Templos VI


Despair - Edvard Munch


A lanterna com uma mão e envolta numa capa
Esquiva-se de ti.

É preciso muita coragem, para sobreviver
Dentro dos globos oculares.

A pele amarela estica-se muito e espreguiça-se
Cobrindo as caveiras.

O poderoso olhar do pensamento abate-se
Sobre os débeis fantasmas.

Uma boa iluminação proporciona um lado e o outro
Dos archotes.

As tapeçarias e os frescos estão decorados
Com paredes.

O lado esquerdo encosta-se a uma delas, semelhante
A uma esfinge.

A lua em quarto crescente forma uma piscina que existe
Acentua-se um forte cheiro a ervas,
Enquanto caminhas.

Oz azel oat - NÃO BEBER!

O fresco de vinte metros de comprimento cobre quase toda a parede
A orelha à frente do pincel, as mãos nos godés, estar de pé
Ser acima de se ser homem.

Gostas do meu trabalho?

Répteis descarnando crânios tentam deter um exército de homens anões,
Fustigados pelos orcos mortos.

Talvez o homem que procuras seja convidado
No entanto sei que o templo só chega ao interior
Da pintura, depois de atravessar uma cortina de chuva
Dourada.

Coça o queixo e pensa que a arte é cruel e infléxivel
Todos os artistas trabalham secretamente numa cidade
Perdida.

É ela a sacerdotisa do templo, seduziu-te com promessas
De riquezas muitas. Ouves choros aflitos e sádicas gargalhadas.
Na sala do tesouro vi por exemplo aparecer à minha frente de repente
Uma figura envolta numa capa. É pavoroso indagar uma cara
Durante alguns segundos, e a morte que te preparou. A morte pôs
Qualquer coisa numa caixa dourada e voltou a desaparecer.

Os olhos esbugalhados abandonam a sala juntos
Mas a meio do corredor separam-se.


Horned Wolf

domingo, 22 de maio de 2011

O Horror dos Templos V


No baixo-relevo da Estela da Vitória, a arte mesopotâmica imortalizou NARAM-SIN que, na cabeça, traz a coroa de chifres, reservada aos deuses


De elmo na cabeça desço as escadas, cautelosamente,
Magro, arrepiante, e de roupas andrajosas, tenho os globos
Oculares na boca.

Morte e líquido, cortinados adamascados caiem
Do tecto até ao chão.

Salas sujas de sangue seco em pó, baldes
Baloiçam do tecto pendurados em cordas.
O arco baixo com o seu esgravatar com a cabeça preta
E longa de um insecto, ossos velhos espalhados
Nas lajes de pedra.

É certo que
As criaturas pavorosas gostam de se pôr
A pairar no ar a impedir todas as passagens
Redondas, são possuidoras de olhos tamanhosos
Verdes e escamados, cobertos de espinhos
Adormecem lançando olhares
Um espelho cai e quebra-se.

O olho, vaporoso e tóxico, corrói o chão,
O mundo enche-se de orifícios de ventilação
Mas preferíamos nunca haver um primeiro sopro.

O homem moderno é sempre alto, semelhante
A um réptil, usa armadura e curvatura de espada,
Todos guardam, entricheirados, sacos empilhados,
A dormir muitos, muito redondos, por solo:
Homenzinhos escanzelados e agachados
Cobertos por sacos de batata rasgados.

Ah, leitor, para entenderes esta leitura dos templos
Basta fazer-te chegar que esta terra esteve abandonada
Durante muitos anos, mas aos poucos descoberta por homens
E outras criaturas que o abrigo clamou. Costumam atacar
As carruagens que passam, à procura de comida:
Assim a sacerdotisa e os seus escravos organizam o mundo.

Chiu, a esta altura o corredor desemboca numa lúgubre câmara
Onde, de caudas de macaco nos bolsos, dois homens ratazana se entretêm a mascar
A carcaça de um duende.

Pára por um momento, e observa a civilização:
Um baixo relevo de criaturas horrorosas
A ser consumidas pelas chamas, se entrares
Descobres uma grande pilha de ossos
O covil escuro do negro cão da morte
E à medida que rastejas por seus túneis
A luz vai desaparecendo até não veres um palmo
À frente do nariz.

Vislumbre tardio de luzinhas que dançam
Trémulas, na penumbra tunelar
Zumbem sonoramente, com o barulho da idade
Da electricidade.

A água jorra da boca de uma cabeça de leão
A água agita-se quando o monstro se move
E já só o horror dos templos nos comove.


Horned Wolf

sábado, 14 de maio de 2011

O Horror dos Templos IV


Purgatory Travelers - Emanuel R. Marques



Dunas sobre pedras, as mãos sobre o escorpião,
Esmagas o crustáceo sob a botas e vasculhas os seus membros
Dilacerantes, encontras sacos pequenos de algodão,
Brancos e... variados.

Dentro de um frasco de vidro o homem verde ervilha
E minúsculo, com asas pontiagudas oferece pulos alegres.

Tira-me daqui. Leitor, tira-me daqui:
Eu grito dentro de um frasco transparentes nas entranhas
Avolumadas, do lacrau. Quando me ergo para
Vos falar, abro-me como um ovo, voo para fora
Perscrutando a vossa alegria e cantando inaudivelmente
E borrifando-vos a cabeça com um pó brilhante.

Os novos templos são a poesia, a pintura, a infâmia
E a heresia.

Se te queres proteger do Sol, leitor, se
Pretendes continuar comigo, usa o escorpião do avesso
Como lenço para a cabeça. De cabeça e pescoço tapados
Caminhas para Sul. E não existe um único ponto
Nesta única paisagem, em que possas encontrar uma
Sombra.

Não gosto de usar a palavra "embora" nos poemas,
Tento distinguir o que encobre a bruma difusa e vislumbro
Um muro alto. A pedra encontra-se a menos de um quilómetro de mim
Aos saltos, e és tu. Por detrás desse muro erguem-se
Ao compasso dos segundos, telhados de torres.

A areia, tomada de paixões pelo vento e assim arrebatada
Acumulou o muro até meio. Não existem ou existiram pegadas
Fora da imaginação.


Horned Wolf

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Horror dos Templos III




A sede só é insuportável se possuis
Um cantil possuído de água, ou os cânticos
Que a água a jorrar.

De repente, as tuas mãos enchem-se de sabão
Que tu bebes em longos e deliciosos tragos.

A emanação da areia escaldante continua a lançar-se
Impiedosamente ao Sol da tarde. E como nos custa
Separar as mãos do deserto com bebidas a cair.

Cavalos nómadas amarram-se com força às estacas,
Tementes da tempestade seca.

Vestem túnicas amarelas e anéis ornam
Os dedos da barba, as bocas pontiagudos
Das gigantescas larvas, vão usar enquanto
Cinto.

Pássaros enormes esvoaçam a oeste
Onde se põem as árvores em verde derrame.
Os abutres estão atentos ao que se passa
No oásis.


Horned Wolf

terça-feira, 3 de maio de 2011

Lixo




Queria uma nascente que me mostrasse
Os sonhos que eu perdi, todos, como se
A começar, e a vida fosse bela como o teu riso
No meu cadente olhar.

Mas a vida foi passando, e a nascente
Sempre a brilhar, demorou-me os dias
Lentos a passar, os meus olhos roucos
Secaram, deixando um burburinho surdo
Da pérola do meu peito contra o sonho desfeito.

Não tenho a quem a dar, prefiro os rios,
Ficar a imaginar. Nascerão cidades
Famílias de braço dado, todo um viver
Feliz e amado. Nascerá do outro lado do rio
A vida que não tendo e a querendo
A mim me consumiu.


André Consciência

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Promises in the Light


Promises in the Light - Horned Wolf

sábado, 23 de abril de 2011

O Horror dos Templos II


A Destruição do Templo de Jerusalém - Francesco Hayes


O Rio Vermelho
E os campos cultivados para lá
Preenchem-se ao anoitecer
De homens a envelhcer
Onde se entrelaçam as raizes e os ramos
Todas as criaturas morrem no sono
Todas as almas sem corpo
Falam a mesma lingua
As pontas dos seus dedos
A individuar-se nos archotes acesos.

Leitor, o meu corvo guiar-te-à
Até ao rio Peixe
Onde veleiros a Sul alcançam barcaças
Com a marca do Porto da Areia
Negra.

O meu corvo crocita e afasta-se
O arrepio na tua espinha atravessa
O capim alto.

Fumo a Leste, as tripulações alheias
Continuam a descarregar mercadoria.
Setas em chamas com carapuças e capotes
Ardem cabanas.

O tempo da areia engole o pobre homem
Morto pelos duendes.

Olhando para o céu
Vemos voar na nossa direcção
A infinidade estelar
De astros que não podemos identificar,
Á medida que se aproxima
Reparamos que o grande espaço sideral
Tem corpo de abutre e cabeça de mulher,
Lança gritos estridentes que rasgam
Camisas.

Os homens dormem em buracos de areia seca
Quando acordam.

Da areia ressequida jorram ondas
De calor.


Horned Wolf

A Insolência das Janelas - performance poética (por André Consciência)



Sábado, 21 de Maio · 21:00 - 22:00
Castelo de Asgard
Rua Tomé de Barros Queirós, 29 B
Sintra





"Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis"


Poesia de André Consciência interpretada pelo autor e acompanhada pelas atmosferas sonoras de Babalith, produzidas em exclusivo para o evento. O acto será acompanhado por uma exposição de Cláudio Carvalho e da sua gravação ao vivo nascerá o novo álbum de Babalith.


Valor da inscrição: 5,00 €

Inscrições no local, através do telefone 219 234 257 ou por email:
castelodeasgard@gmail.com ou abismohumano@gmail.com

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Horror dos Templos

Duende Negro - J. Velasco


Uma alcateia de mães uiva
Em redor da cabana em que nasce
A Lua-Cheia.

Duendes, ao cuidado da negritude
Das florestas, obrigando animais murchar
Com a penetração do olhar.

No Deserto das Caveiras
Os dragões da dissolução
Alimentam inconsciências.

A sua ciência tenebrosa:
A passagem da morte semeia cidades
E destrói o caos.

Um langor passa por mim, pois sinto-me anão,
Afio a espada e passo os pés pela balaustrada,
No largo da aldeia, todos fitam o céu onde

Os corvos escutam os duendes a passarem-se
Por Pedras.


Horned Wolf

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Viagens Marítimas (fragmento final)

Sea Piece by Moonlight - Casper David Friedrich


XVIII

Milhares de peixes de cores vivas vagueiam
Por entre os ramos de corais brancos.
Beleza extraordinária, riso cristalino
Duendes da água salpicados de pequenas escamas
Douradas.

Uma taça gigantesca, talhada na
Rocha.

O grande bico abre e fecha.


XIX

O focinho comprido
Do peixe-broca
Ostenta as formas
Do saca-rolhas.

O seu gosto consiste
Em ser engolido
Insistentemente
Por variados polvos.


XX

No interior do enorme crustáceo,
Por cima de mim,
O oceano adquire uma tonalidade vermelho-sangue.

Ancorado numa pequena enseada,
O casco do navio pirata.

Se fores um homem de gosto
Abre o fundo do navio com algumas pancadas
E sacia-te comendo a tripulação.

Depois, junta todo o ouro numa pilha,
Fica quieto, e escuta uma voz profunda
Clamar por ti.


XXI

Empoleirado nas cristas, avistamos as luzes, o Porto
Da Areia Preta, cintilando no crepúsculo.

As guelras desvanecem-se numa ilha
Deserta e às escuras.


Horned Wolf

Viagens Marítimas (terceiro fragmento)

Holy Island, Scotland - Kevin Temple


XII

Magos
Moveram-se para o oleado interior
Do Pacífico.


XIII

Vê-se
Uma película cintilante
Um formigueiro que atravessa
Todas as barreiras.

O Tritão, à porta
Arregala ainda mais
Os olhos.

Corta o Peixe-Serra
Que aumenta de tamanho
Com a faca da bancada.


XIV

O Peixe-Broca, o Peixe-Machado,
E o Peixe-Brilho, com uma luz azul
No alto da cabeça.

Estranho espaço de areia limpa
A arena é ao mesmo tempo uma saída
Para o exterior.

Poisada, muito direita
A caveira humana vomita
Musgo: uma voz
Dentro da tua cabeça
Remexe a água luminosa:
Vaga forma humana
Capitão da marinha, morto
Pela amotinada traição.

Ossos espalhados e comidos por fauna.


XV

As criaturas das profundezas permitem-vos a paz
Enquanto lêem: Urnas entaladas entre rochas e cobertas
Com verdete.

Escadarias de mármore e grandes portões de bronze
Corroído.

Escancarado, lá dentro, enorme e gordo
O escorpião. Corais sólidos e cinzentos, criptas de pedra
A parir estátuas, nobres figuras humanas,
Altivas feições de peixe, onde escrevo inscrições
Desconhecidas, coroas de jade verde
Com golfinhos encadeados uns nos outros.

O Oceano:
Uma voz tão profunda como a vibração dos ossos.


XVI

Um remoinho para a escuridão
Luz fraca sob o abismo escuro
A sala está iluminada a vermelho
Velha e murcha, a bruxa-do-mar
Toma banhos-de-vapor,
Um ajuntamento de Tritões em seu redor.

Eu, o poeta, sento-me numa mesa tosca
Cá fora, as grandes mãos escrevem
Com membranas estendidas,
Num anel de latão esverdeado
Em forma de espiral.


XVII

Na área rochosa e funda no mar
Existe um edifício, de tijolo,
Rodeado de seixos cobertos de algas,
É habitado por enormes caranguejos
Comidos em permanência por minúsculos
Parasitas.


Horned Wolf

terça-feira, 5 de abril de 2011

Viagens Marítimas (segundo fragmento)

Procession of Spores - Martin Madsen

VI

Plantas aquáticas deitam a dormir luz escorregadia
Túneis de áspera rocha inclinam-se, sem fim,
Com a suavidade do pescoço das bailarinas,
Todas as portas pesadas dão para penhascos
De parede, salpicados de grutas, anémonas,
Protuberâncias.

Não podes cair, suspenso na água
E transparente.


VII

A moreia estremece e morre
Vagarosa pela água
Os seus dentes de agulha
Ondeando na corrente.

Passa, sobre o jardim
Um galeão afundado
Um palácio de cúpulas
Sem cobertura.


VIII

No palácio bóiam uniformes,
Cores de jóia, membranas e dedos,
Pele que encarquilhou.

O musgo marinho interessa-se
Por todas as curiosidades,
De si saem cortesãos sumptuosamente
Vestidos, salões de audiências,
E um inchado Peixes-Rei
Que ao pronunciar-se
De respiração saliente
Com dificuldade olha.

A bela adormecida no topo
Tem que nenhum fidalgo
A possa despertar.


IX

A princesa jaz perpendicular
Num fofo leito de musgo
As pérolas parecem olhos
O jade lembra a pele
As algas trepadeiras, dedos.

Acotovelam-se cortesãos.


X

Farrapos de pé, mastros
Flutuando na corrente
Penumbras repentinas
Ostras amontoadas
Por aranhas-do-mar
Paredes derrubadas
Pelas linhas do barco.


XI

Os jardins submarinos têm portões de ferro
Que não aceitam ferrugem,
As árvores nascem peixes coloridos
Em vez de pássaros.
A pouco e pouco, jardim-floresta,
Rugido repetido e à escuta,
Do peixe-leão,
Vivendas de vulgar aspecto
Fazem-se rodear por arco-íris.

Entre arbustos, um gato.


Horned Wolf

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Viagens Marítimas




I

A bordo de navios, veleiros, barcos de guerra,
Carcaças ao lume, vagabundo das experiências salgadas,
Com a calmaria absoluta das tempestades dentro
Da pele, perdia-se a conta das criaturas que degolara.

Igual a um Peixe-Sol na areia preta do oceano, desfraldado,
Rapina marinha, salta a amurada.
O sabre descose a carne, a cavilha de ferro é uma bailarina
No miasma da noite, e assim como pastam as chamas
As águas profundas deleitam-se nos cadáveres,
E só a brisa é refúgio dos piratas.

Rios grosseiros amarrados ao mastro, casacas
Um dia elegantes, homens debaixo da quilha,
Na bandeira, iscos, pão preto, carne e sal.


II

Peixes corrosivos ganham cor
Verde-mar
O oceano não é profundo,
E há recifes de espirais de coral.

Pátios e algas, pés no fundo,
Pátios luminosos, bolhas
Uma estrela gigantesca,
A água fria e cordas nas mãos.

A garganta roça-se na espada polida
Á procura de se soltar.


III

Azulejos vermelhos, verdes,
Brilhantes e limpos por algas
O pátio invadido por restos
De corais.

Pedra cinzenta dos prédios
Um alto, conserva-se sobre os outros
E peixes que nunca foram peixes
Observam como anjos
De dentro das janelas.


IV

Sereias, de pingentes em forma de búzio
Nos vitrais da nossa catedral,
Ao anoitecer, respirar debaixo da água,
Como quem canta.

Pérolas negras flutuam entre beijos
E as ondulações das caudas,
Escadarias, buracos escuros.


V

Leveza ágil, portas abertas à força
Daquilo que apodrece,
Moluscos prateados, silhuetas,
Do tamanho de homens delgados,
Homens só com olhos e dentes
E gulas dementes.

Moedas de ouro.


Horned Wolf

domingo, 3 de abril de 2011

Grace




While most of them walk the same road, I’d rather pick other ways to get there. Meanwhile, I’m presented with splendorous mountains, leafy valleys and peaceful rivers. Randomly, in between such pictures, I do find the road in which almost everybody marches. So I walk along and among some of them (couldn’t tell if in the right way) and maybe get to know one or two – is it possible to know someone really? Then…
The unstoppable quest restarts… it’s a chase all right. Yet…
You’re not the hunted, you’re not the hunter… as I’m neither the prey nor the predator; my best guess goes to my wish to fulfil curiosity. Things are what they are and like they are, so I’m grateful with what I get… everybody should be too. So I go back to my ways, my routes with mythical landscapes where your smile lit the sun, your hands hold leafs on the trees, your eyes shine on every rock and your glaze pulls the wind to blow.
With luck I’ll be there someday, where I can see you every time I look in the mirror…
Simply, I’ve never left this city.


Wolf – Music & Lyrics
Horned Wolf - Video & Art
The Poisonous I – Voice & Soul

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Abrahadabra

Dedicado à Marta Amado Ayahuasca - Babalith


Procuras uma habitação de ferro
Cria tu a tua força a partir do nada
E adora-a como sendo nada.

Ele aguarda em silêncio
A beleza primal, a força
E a vida. O intelecto brilha
Na sua fronte.

A sua mão levanta e toca o sino
No Abismo.


Horned Wolf

A Voz da Serpente

Ao blogue A Voz da Serpente no seu quinto aniversário
Miasma of Secretions - Babalith


I

Vede como é bela a sua cabeça em cascata
Uma mão globular com uma miríade invisível
De dedos ao Sol alegre das tempestades
Que o amor prende à delicadeza sua,
De mulher, a santidade um rio que bóia
Cantando o perfume das flores magoadas
Uma cor de céu a transmitir a Deusa.


II

Judeus, a cair dos pinheiros,
Dinheiro a escorregar das banhas
De um velho gordo
Asas recolhidas em abismos
Poças de sapo,
Homens de prudência tornados
Bandidos.


III

Um pedaço de tecto [abismo]
Num montículo de poeira à esquerda
Tu serás a minha lápide de terra
Esquece-me e solta-me
Uma estrela reparada por amantes
Nesse quarto inacabado
E eu adormecerei na tua campa dourada.


IV

Mortos, a tropeçar tempo adentro
Sobre os ossos da noite,
Colocam-se no altar
Da razão juíza
Os meus olhos expandem-se
Para lá da preocupação
No fogo aéreo
E sem desejo
Amanheço.


V

O silêncio do país desejado
A dormir quieto, de chuva branda,
As casas, ali, engoliram
Os jogos.

As árvores desceram, com seus ramos
E raízes, os corpos húmidos das crianças.
O sossego abateu os pássaros.

As ardósias retiram as dobras
Que restam à noite, fazendo-a
Lisa, abençoam o mal para criar
Caminhos, terra seca e água.


Horned Wolf

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Triunfo do Génio da Destruição


The Triumph of the Genius of Destruction - Mihály Zichy


Vejam, este vestir de nu
Este coração loiro
A despir a mortalidade
Com um sonho.
Um vento vazio
Num chapinhar de folhas
Um corpo lívido, com a morte.

Com a morte, solto-te os cabelos,
As vozes eternas calam-se contra
As encostas, o tempo cai
Acendendo as velas
Os montes e cidreiras
O fogo era só uma epopeia
De nunca ter servido para nada.

Eis o conforto das coisas quebradas
E velhas, e choradas, roseiras
Enroladas na raiz do peito,
Todas as vidas erradas sem puderem
Ser contadas.


Horned Wolf

terça-feira, 15 de março de 2011

Virgo


Estrelas - Autor Desconhecido


Tu, que sabendo a noite
Com almas cansadas de sangue
E alegres de vinho
Foste enviada como anjo
Na hora tremeluzente
Em que os astros marejados
Com os mantos púrpura
Da piedade, e me encontraste
Na minha cadeira de coisa nenhuma,
Sonolento, com poesias
De hora alguma.

Fizeste nascer duas árvores
De prata dourada, no peito
Onde havia a espada
Que guardava a alegria enclausurada
No começo das flores vestidas.

És alta, tão alta que o não vês,
Eu descanso a teus pés
A raiz profunda, e a noite está quieta
A receber os teus cabelos.

O mar no teu corpo, beija-nos
Com a música de um louco
E em círculo vão as mãos
Moer o vidro da vileza.

Quem quer que a ti chegue
Crescerá em fortaleza.


Horned Wolf

domingo, 13 de março de 2011

Strange Attractor (Tóquio)



cities and people and landscapes. a cave area at
the top of a nearby forested hilltop.
electric power grid shutting enough to feed 10 of us for 3months

water barrel and solar power I am OK
phone lines stay up I can still keep in touch
maybe some material in your backpack,
a bed and fishing gear.

Most of our good caves are too close to the sea


Horned Wolf

sábado, 12 de março de 2011

The Landscape


Chaim Soutine


Nos dias de chuva há pessoas que se juntam e algo de sórdido num perfume estragado, nada se altera ao olfacto, é o coração que adoece. Estou a olhar em volta do assombro que ficou nas coisas serem. Nada pode compensar coisa nenhuma. Os dias passam, com chuva, com Sol. A ver um espectáculo de luzes. Não há mais nada para ver.


André Consciência

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Junho Flamejante


Flaming June - Fredrick Lord Leighton


Sentou-se, a pensar
Um sorriso vagueava
Pelos campos abertos
Do seu rosto.
Atravessava os olhos
Iluminava as têmporas,
Enrubescia as bochechas,
Perdia-se na nuca.

Sentou-se a pensar,
Á sua frente, branca
A tela por findar,
Enquanto pensava
O semblante todo
Um nariz ficou,
Que se desfez mole
Em testa, todo o rosto
Uma testa
Cheia de faro.

Alcançou a sua imagem
E formou-se todo aragem
Sem pensar ela escavava
A beleza que alastrava:
No frio Inverno aquecia,
Quente Agosto refrescava.


Horned Wolf

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Hortus Deliciarum


Hölle - Herrad von Landsberg


Os pensamentos flutuam e pingam na distância, antes do mar.
No fim há uma chuva incomensurável de lágrimas de cristal.

Alguns, marcados, serão tochas em lugares escuros,
Os fantasmas farão ninho em seu redor, porque os seus corpos
São como céus acesos. Que a morte vos afaste.
Eu fui sacrificado e não morri.

Sem a luz, quem descobriria o inferno?


Horned Wolf

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Thou Art Continuous



Fritz Lang's Metropolis - The Whore of Babalon
Priest & Priestess Speech from Liber XV - Gnostic Mass


0. Não há por dentro e por fora.
1. A receptividade cessou e tornou-se toda ela em criatividade.
2. A razão chegou ao fim e tomou a sua forma original, poder.
3. Os corpos desapareceram e passaram a ser os seus actos.
4. Não existe o cepticismo, mas a embriaguez da loucura.
5. As essências criativas são da mulher.
6. O poder é da sombra da mulher: os deuses.
7. Os actos são do homem.
8. A loucura é uma segunda mulher, e resulta do poder com o acto.

9. Até ao seu pescoço o homem é uma serpente, e não está sozinha, mas envolve-se numa massa de serpentes.

10. A cabeça do homem é uma essência que frutifica o cosmo.

11. Como espectro inteiro (cabeça aos pés), o homem é a luz de uma estrela.

12. Quando o poder for todo dirigido à essência criativa, se abrirá a terra celeste, onde por detrás de cada professor se esconderá um destruidor de mundos.

13. A civilização na terra celeste é o caos erótico dos corpos do avesso.

14. Esta civilização será intemporal, inconcebível, sensível mas somente inteligível, os seus edifícios serão por isso de anti-matéria.

15. Algo parecido com o que hoje chamamos de consciência, vitorioso, emergirá entre a luz manifesta e a imanifesta para viajar o mundo, o mundo quebrará o seu veículo que se derramará sobre si mesmo e cairá no abismo sem fundo do amor. Nesta queda ininterrupta todas as coisas retornam a abrir a terra celeste.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Descrição de um Escorpião



Voy a perder la cabeza por tu amor - Enrique Bunbury


Gordo e preto
Tanto as suas pernas como os seus braços eram curtos chouriços
Como troncos, a gordura a desaparecer com a pele e com o osso.
Estava nu, expandido na cama
As mãos torcidas para fora e os pés a alastrarem-se,
O extremo das suas pernas era os tornozelos
Com os pés metidos para dentro.
Quando fechava pesadamente as pernas
O seu badalo encolhia-se a desaparecer.
Tinha a cabeça de frente, espetada no ar como um prego.
Tinha os olhos desanuviados, sem procura
Como se não se importassem de se terem afundado naquele corpo.
Abria os lábios, abria os ossos da cara, e puxava para dentro
A barba pelos poros.

Horned Wolf

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Chacal 418




0. O homem (e a mulher) nasceu dividido e unido por um abismo, do outro lado está o seu amante, a divindade. A travessia é a senda do artista.

1. Deus é o Amor, ele preside sobre a morte e sobre a ressurreição, apenas.
2. A manifestação de Deus, e portanto do Amor, é o Fogo Secreto, é o Sangue, como substância física e como simbolizante da Vida.
3. Para empreender na travessia o peregrino perceberá que o seu sangue, íntimo, é o exterior.
4. O sangue é vitalizado por (1) paradoxos, pelo (2) encontro da atracção com a repulsa, pela (3) fusão do amor com a guerra, pelo (4) encontro de erotismo com o instinto de sobrevivência. O coração é uma esfera, governa sobre o mundo da matéria e das ideias.
5. O sangue vive primeiro na pedra, como vida espiritual. (1)
6. O sangue é em segundo invocado na planta, como consciência, ou seja, como a vida sexual. (2)
7. O sangue é em terceiro invocado no Sol, como a vida animal, e é aqui mulher. (3)
8. O sangue é em quarto transmutado pelo Sol, e absorve o próprio Sol onde vivem os animais, a Lua onde vivem as plantas, e a Terra onde vivem as pedras: isto significa que em quarto o sangue é invocado no Caos, e o Fogo Secreto existe em relação com existir a Noite. Nesta esfera vive o homem enquanto meta do homem. (4)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mulher Mão


Le Jockey Perdu - René Magritte


Mãos de mulher, sombra coagida,
Os minutos a desaparecerem com sufoco.
Esta saudade rasgada, minha voz
Ultrajada. Peito tremente,
Derramado até aos cotovelos
Na cevada.

Maldita manhã, escrever para nada,
Nem sequer um ritmo de janela
O tempo turva a saudade,
Peito fechado, peito escuro
E lambido.

A porta abre-se e fecha-se sem que nela passes,
Mede-se o silêncio e confirma-se a distância dos sons.
A bomba rega os campos amarelos, e ouvíamos cantigas
Pela rua de braço dado.

Ah, velha, nova memória que me comes as costas
Ao Inverno, ao inicio do serão, só fechar a porta no fim da noite.
Arregalo os olhos à passagem do vento, bato as pálpebras
Em todas as direcções, e ignoro.

Os ouvidos enfiavam-se nos gemidos,
Será que se lembra a pedra
Da forma do teu queixo
Desenhado no tampo da mesa
Pelo dedo do meu lembrar?

Ah leiam ou falem com a minha imagem
Sabendo que já não estou, mas que o sejam!
Sabem-me mal a porra dos cigarros
Que me ardem as mãos, o medo me não mete
Escuro, e tenho uma cama de ferro,
As oliveiras ainda têm estrelas e as estrelas
Sombras negras, os homens ainda jogam às cartas
Os seus risos uma demência de Lua,
Os cães ladram, de uma ponta à outra da vila
Não tenho rosto para atirar água, mas um abismo,
Cimento a secar, bater com os baldes e fazer eco,
Espalho-me pela manhã e não saio daqui,
Que ser melodia, é ser incompleto.


André Consciência

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sarna


The Wili brides in white dance into the night - Johanna Bohoy


A pouca distância do lume, sentado numa poça,
Fiquei a imaginá-la a sentir tonturas e pensamentos
Novos.

A realidade tornara-se, pela primeira vez, real.
Segurei-a com as duas mãos, olhei-a.
A seguir, fui-me recolher dentro de uma
Das paredes, e fazia eco.

Ela estava deitada na cama, morta,
Arranjada por mim.
Haviam de tê-la visto vestida de noiva.

As crianças aproximam-se para me dar pontapés
E atirar pedradas ao lombo de um cão.
Não sabem que tenho emoção, memórias
Porque os olhos só falam a partir do medo
E eu, não me restou.

Ela tinha bonecas que eram colheres de pau,
Vestidas.
Eu gostava de ir para as matas, de cinto desapertado,
Dizer que me matava.


Horned Wolf

sábado, 8 de janeiro de 2011

A Orgia das Ratazanas


Child, Doll or Bone - John Santerineross


Os únicos pelos das ratazanas,
Na torre do sino
Sãos os púbicos
E têm cara de pessoas.

Por imitação, uma
É a primeira que ri.
As outras, originais,
Seguem.

O rapaz rato tinha treze anos
Quando lhe foi apresentada
Fizeram-no encara-la de frente.

Tinha as ancas de uma mula
E a cor diferente,
Os dedos fazem tranças
Em tudo quanto tocarem.

A sua baba é uma sopa de pão
E da sua orelha quadrados de carne
Ao lado estava o rapaz rato pendurado
Pelas patas de trás,
Deixa escorrer do pénis
Desenhos irregulares de vinagre.

Depois espreitam-se, do canto do olho,
As ratazanas tantas, com medo imenso
De se tocarem, e sustêm a respiração:
Ficam transparentes, só então se agarram
Sem vergonha, lançando as unhas
Às dobras dos dentes, vomitando
Nos colos.


Horned Wolf

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nuit




O quintal entrava dentro da luz lá fora
O rapaz tinha seis seios
A mãe tentava imaginar uma vontade
Para lhe pôr dentro.

Esta sombra de intenção tinha cores
Mas só diante das palavras.
Era um livro que seguia o silêncio antes
E depois de ser dito.

O quintal lança-se sobre a terra
O presidente ia dizer alguma coisa importante
Toda a neblina vem do rosto a dissolver-se
Na água.


Horned Wolf

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sombrinha




Os campos estendem-se na distância da vila,
Abrem-se asas, nos pássaros
As mães e os filhos carregam malas com vestidos
E o horizonte deixava-se deslizar pelas planícies.

Toc toc toc toc toc
A sombra ia descansar à vila, aproveitava.
Faltava pouco para o campo atravessar as ruas
Com o rosto coberto de terra.

Os pardais morrem com um som triste
Mas ouvia-se apenas o descanso.

Ali estou eu, a estalar no centro
De uma pedra do passeio,
A ser esquecido enquanto o silêncio
Embacia as imagens.

O silêncio passou, só se ouviam as folhas
De hera a enfiarem-se nos pássaros,
E passos de cristal,
A terra seca a escorregar nas chinelas.


Horned Wolf

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Alma


Video : Possession (Andrzej Zulawski, 1981, starring Isabelle Adjani & Sam Neill)
Music : Kaneda - Monarchs and Heretics (2008)



Curiosidades:
http://xibalbamannequins.blogspot.com/2009/03/o-porteiro.html
http://xibalbamannequins.blogspot.com/2010/10/blog-post.html

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano Novo

.
.
A planície infinitamente verde espanta-se
Com a massa negra de blocos brancos
No seu seio de prédios.

Se o corpo nos arde, para virmos à cidade
Apanhar os risos frescos
Sabemos a sua invenção
Sós e com a nossa violência
De inocência e perversão.

A memória do silêncio e o espaço da neve
Tudo substituído pela companhia
Das campainhas dos apartamentos.

As pessoas sentam-se alheadas e imóveis
Nos buffets, e o prédio em frente bate
Inesperadamente, contra o Sol,
Iluminando as ruas num clarão.

Na planície infinitamente verde
As sombras abrem-se
Em promessas às searas.
A noite recolhe-se à primeira lâmpada
Das avulsas casas.

O silêncio atira-se aos gritos
Contra os milhafres cegos,
Vindo do fundo da terra
Com o negro escorrimento das raízes.

De noite, o céu é de um azul claro
Que passa devagar.

Tento erguer-me contra este vulto
De não coisas, reúno as vísceras
Da cólera e os ossos do sangue,
A solidão do urro e o abandono da urgência,
E fico, para minha surpresa, só com medo
Com pena de mim mesmo.

A boca, os olhos, os ouvidos
São coisas de afogar,
O mofo esponjoso, o silêncio selado.

A vida senta-se sobre mim e sobre
A massa negra de blocos brancos,
Senta-se, loira, risonha e abundante
Com o seu peso de coisas a renovarem-se
Em constância, sobre a nossa mortificação.

Atira-nos olhares clandestinos, para que imaginemos
Como será a sua submissão no prazer,
Todos cabemos na sua grande vaginação.

Oh, memória agora, de ti,
Uma vontade de chorar estremece à tua volta
E eu tenho um desejo vaporoso de me tornar
Num halo de consolação.

Mas tu foste embora, com as luzes da cidade,
E onde te imagino suponho estar eu,
Ponho a tocar para nós Mozart, depois Bach,
E sento-me sobre o piano, ignorando os trovões
No infinito verde, e os comboios, no infinito
A preto e branco.

É belo ouvir-me nesta hora breve,
Eu, que inventei o Inverno,
E as pérolas que se fecham no silêncio
Para imaginar que as minhas mulheres o são
E não simples rameiras mortais,
Com fedor a medo e vil sobrevivência.

Sofro pela noite e escrevo, enquanto
Um coral de reis e rainhas dança no meu centro
Com deputados e ministros sob as botas reais,
Procuro chegar até à minha fadiga
Para que se ouça o Piano melhor.

Desconfio que o quarto da pensão existe todo
Dentro do cigarro, silêncio adentro.


Horned Wolf

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Haifisch

Dedicado ao The Poisonous I


Great Whte Shark - Autor Desconhecido


Levou o irmão para junto às águas salgadas, porque houvera notícia de naufrágio. As pessoas agarravam-se umas às outras, apinhando-se e indo ao fundo, e viam-se barbatanas inquietas farejando à beira da tempestiva electricidade. Para lhe falar dos anjos que caíram, esperou que um tubarão saltasse à superfície e enfiasse um gritante naco humano, todo palpitante e a estalar vermelho, nas cerras dentadas, manipulando-o pelas mandíbulas. “Vê, que este tubarão tem lágrima, como o têm todos, e os oceanos salgam.” Disse-lhe, sem que ele compreendesse. “Essa lágrima é o filho de Deus, a segunda pessoa de uma trindade” fez-se continuar. “É impossível ver Deus, o que se vê d’Ele são os efeitos, também é uma revelação saber o choro do tubarão, porque vive já de si submerso nas águas.” Abanando a cabeça, procurou o outro disto a negação, e ripostou com uma interrogação: “Porque choraria?” E ele, personificando: “É do desassossego, se pára, morre. É do frio, o fundo do oceano é glacial. Porque se afastou de Deus, e só a ferocidade lhe resta como calor. Pranteia pelas vítimas de se haver tornado vitima. Como sabes, o tubarão é possuído de sangue frio, não sobreviveria aqui de outro modo. O frio só tocou aquele cuja essência se tornou. Olha, que Deus, no fundo do Oceano, está na fome, mas o seu filho na lágrima. No fundo do Oceano, é Deus que é visível e o homem invisível.”

Horned Wolf

Cubismo Hermético


O Pintor e o seu Modelo - Georges Braque


Solto dos ramos derretidos
O Sol acorda-me pela vidraça
E transpõe os instantes que o frio
Cristalizou.

Filetes de água de uma gravura,
Que se destrói.
Uma toalha brilha em alegria
Dentro da bacia.

Cobre-lhe a boca
A minha roupa desmanchada -
A cadeira abandonada à dormência da manhã.

No espelho não há frio e abro a janela.
A invasão do Sol sem tempo
Um estranho mundo de plástico.

Golpes avulsos ressoam nuvens num céu de vidro.
Portas que se transformam em lenha,
A lenha em lume.

Subitamente, o pátio ecoa pelo buzinar forte
Os ramos de azevinho consomem-se também
Nas dobras dos sinos.


Horned Wolf

domingo, 26 de dezembro de 2010

Os Sete Anos de Fome


Os Sete Anos de Fome - Friedrich Overbeck


No dia em que Adão saiu para fora da bíblia
Comeu barro e bebeu água, pôs-se a pensar
Com os olhos além da carne e da memória.

“Serei”, afirmou, "o primeiro materialista,
Uma música que atravessa a vidraça,
Um raio de sol que se ouve pela primeira vez,
Uma dimensão absoluta que cada noite possam
Abrir lá ao longe, numa vaga de luar:
Não há nenhum mistério nisto
Pois é bem sabido que a vida vai
Para além da memória
E nascia já nos espaços desertos muito tempo
Antes de se haver tomado a morte,
Era então a visão de uma plenitude sem risos."

A harmonia ignota da sua presença imediata,
Logo que se pôs a ruminar, esvaziava-se.
De pólo em pólo, os an(j)os vibravam assim como corda
E com eles, de Adão, os longos olhos retumbantes.

Esvaziava-se e persistia, porque persistir
É ficar íntimo, nu e humilde. Imaginou
A primeira Jerusalém Celeste sem livro
E embora fosse ele morto, a cidade
Era nossa, da voz que era sua, e que éramos
Nós, ele ouvia-se e perguntava-se
Afinal quem era.

Não há consumismo que do eco não venha.
Dentro da nossa inquietação, Jerusalém é real,
Raízes de sombras, tudo o resto miragem.


Horned Wolf

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ser ou não ser não é a questão


Untitled - Zdzisław Beksiński


A tarde cessara quando saí.
A chuva escurecia rapidamente.
O destino pôs-se a percorrer a cidade perturbada.
Do outro lado, o cansaço trazia um corpo húmido, morno;
O sangue trazia as mãos.

O esquecimento absoluto e o absoluto da ressurreição
Desciam - ligados e siameses - a ribanceira,
Anunciando um subterrâneo pleno.

Eu fugia de mim como se me agradasse também
Percorrer as ruas, e doíam-me subjacentemente
Os ossos das unhas; a água entre nós
Formava pátios, jardins, portas, gradeamentos,
Muros, janelas vazias, gente movimentada,
Céus de esponja, tudo da cor das luas.

O vento inventava-nos olhos cerrados, cólera
Obscura.

Passo pela grande ruína no coração da cidade
Os seus destroços fazem brotar coroas
Como frutos, porque todas as coroas
Provêem do triunfo da ruína.
As crianças fogem, estrugindo na lama,
Os carros brincam em poças pretas.
O silêncio fumega terras ensopadas,
A noite ameaça os vidros entre tudo:
Se as luzes não se acendessem, nunca a noite
Chegaria.

Deus é uma consequência
Da criação.

Ponho um disco no aparelho: “We’re here
Because we’re here.” Ah, seja o meu mal
E sendo suave
Como carícias de folhas de árvore, sexo e mel,
Cause dano à consciência, fissura.

É assim, não vamos ao sono
Sem que Deus esteja com isso satisfeito,
Depois esquecemos Deus
E não vamos ao sono de todo:
Existimos, e isso é que é o sono.
E isso é que é um cadáver de Deus:
Esqueçamos essa carcaça,
Esqueçamos existir,
A ver o que é afinal.

Ponho um disco no aparelho, e do centro da música
Arranco à socapa as flores, talheres, lâmpadas, móveis,
Pratos de sopa, copos de cristal, exposições de arte
E fios de aço. Nisto é que um homem lhe resta
Estar lúcido, e se nele raiou algum vislumbre
Do que é o futuro: a presença de nós próprios
Como alarme do sonho, a interrogação submersa
Na intimidade, como se não escrevesse aqui,
Porque deixou de haver pedra e cardos,
E jazemos dentro das pedras e dos cardos:
A cidade irreal num cerco à terra,
A imaginação sem erguer cidades, mas erguida
Da cidade já de si fantástica, astros, que se põem tão alto
Quanto as chaminés, ah esqueçam! Danem-se
Os espectros das civilizações passadas, esta é a finistérrica
Civilização do espectro, ah cidade! Que é chão e céu
Como uma brilhante cascata de luzes, há só uma morada
De lâmpadas fundidas e todas as outras em fila, nela se esquecem:
Nessa é que eu morava!

As fachadas erguem-se das vozes falecidas, as galerias
Multiplicam-se. Como num labirinto, de volta de um
Apeadeiro.

As esquinas adormecem nas lâmpadas,
Onde quer que seja o fundo.


Horned Wolf

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Transfiguração de Jesus


Transfiguração de Jesus - Teófanes, o Grego


Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.

Aconteceu uma memória, a revelação abala a chuva.
É o passado que faz vibrar a natureza, a manhã solar,
O Verão opressivo, Março a atirar-se pelos ventos
E a Lua sem conseguir, no silêncio, parar de cair,
As massas nubladas, a música fria e cristalizada
Que povoa, e abre as esferas no labirinto dessa chuva
Que é aura.

Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre,
E sabe não haver retórica possível.
A vertigem baloiça-se nas massas cinza
Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis.

A colina desce as casas em toalhas aquosas
Os prédios adentram-se pelos sinos das Igrejas
Ninguém o vê, mas o cão percebe, e ladra.
A água cai, sim, mas é gente silenciosa
Que se levanta dela.

Nas livrarias, o chão de tábuas apodrece de humanidade
E o vento atira-a pela porta.

Eu gritei aos astros até enlouquecer
E a consciência esgotou até às fezes
A minha condição animal.

Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.


Horned Wolf

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Sol Treme


Homem de Vitrúvio - Laonardi da Vinci


A luz a estalar o crânio. Imaginei
Que o Sol se enchia de terror.
Nessa prolongada meditação
A gordura que me enchia o rosto contente
Espalha-se pelos campos que se estendem
Até perder de vista, um clarão acende
O oxigénio, e o mundo aparece
Uma absurda estupidez.

Ó, é que não há nenhum esforço
Em nascer, mas para morrer
É necessário o esforço total
Do não esforço de nascer.

Toda a gente sabe, que qualquer criança
Assusta o Sol até à velhice.
As carroças, com homens de pénis
E alecrins na mão, perfilham
Martelando a memória da cidade
De terra e de estrume:
Isto, o Sol não sente em si
Tanto quanto sente a penumbra
De um quarto, como ela é
Para uma criança
No seu terror as secretárias estampam-se
Nas lâmpadas dos candeeiros.

O Sol todo treme, quando
No fundo da noite, uma mulher
Fala alto – isto é tão sobrenatural
Que nos é proibido falarmos sozinhos:
Significa que o céu não é o lugar do Sol.

Por exemplo, o oriente tem sempre varandas
Onde a noite absorve mais o fresco abrasador, que nas outras
Varandas. Aí, as serras gostam de se colocar por detrás
Das luas breves, à espera dos silêncios ásperos de Antares
E das melodias dos espaços no grande vazio das órbitas.
Se olharmos para cima, percebemos as estrelas deitarem-se ao comprido
Para nos verem melhor, pensamos que pensamos tudo isto,
Sem na verdade o ver, até ao dia que na escuridão
Um espelho nos diz sermos um ladrão.

Por isso, quando o Sol se apercebe de si mesmo num homem,
Aterrorizado, destruirá a sua civilização, mas os ralos
E os grilos, permanecerão de noite, o céu em plena Lua
E a sabedoria não terá piscado um olho. O calor
Crepitará nas coisas que pairam, e as cigarras
Estalarão.

Por exemplo, uma pedra não significa nada
Se for sabida de cor, uma madeira, ou uma estrela,
Mas no nada que significam, não são iguais umas às outras.

Sobretudo isto aterroriza o Sol, até que,
Rendendo, se arda.


Horned Wolf

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Casa Sem Paredes


Rooms by the Sea - Edward Hopper



Não haver ninguém nos céus
É que te fez, como a um grito
Contra o mesmo angustiado.

Na tua vida há o teu canto
Só, o mistério da violência
Do sangue, a vitória do desastre.

A loucura ilumina-se
No ardor do teu canto
No pecado ácido do teu olhar
No esguio corpo da tua lembrança
Á luz do meu Inverno
Nos domingos pelos campos
As abobadas coalhadas na tua súbita
Imagem.

Depois, o frio mineral das catacumbas
Perfuradas estivalmente por explosões de palmeiras.
No céu sem ninguém habitam granadas
O mar torna-se castanho como a planície
Uma luz inquieta mastiga-te os olhos
És como a minha terra, difícil de desvendar
Como um silêncio de revoluções subterrâneas
As tuas mãos e as minhas são calor
Triste. A nossa nudez saciada na tranquilidade
Cálida do chão.

Nada em ti está seguro, não és de tempo algum
Nem dos lugares, somente aparição.


Horned Wolf

sábado, 18 de dezembro de 2010

Tango to Évora




Vede, a cidade, e como continua branca
Plantaram na planície ruínas, semearam
Nas ciladas, ruas. Ocultaram-nas com santos
Partidos por muitas eras, e nichos de arcos
Évora está dorida com a lembrança,
Com o vento que fustiga as vozes de sonho
Do ossário dos homens, Évora
Uma gigante encruzilhada mortuária
Um luar silencioso e luminoso
Encostado ao vazio do casarão do espaço
E da desolação.

A manhã ao Sol mórbido, descobre
Os camponeses em espiral, cantando
Uma tragédia calada nas colunas em coral
E na floresta móvel que Diana atravessa
Suspenso de memória e sem ruído
Um murmúrio oblíquo desce as velhas ruas
A passo apressado, à procura de outras
Mais obscuras, na busca dos contornos
Da face estranha e intocável
Que errou as construções.

Que contou a evolução da vida
Para a explicar, mas nem eu, nem Évora
Somos nós, anjo que se passou por criança
Anjo que não deixou passar a cidade.

A noite da Lua é lavada por um grande Setembro,
Uma oração mutilada habita os claustros longínquos
A manhã não passa e as ruínas da planície
Ganham ar de planície. As rosas do Verão
Também não cessam de morrer nos jardins verdes
E no lago há uma antiga taça de mármore
Que bebe, sem parar, os pombos,
Com fortes descargas de água.

A planície é tão imensa, que um homem,
De pé, sente-se deitado, e quanto isto mais é
Mais a planície ganha contornos de mar
E estar deitado, de o olhar do topo
Da falésia.

Abandonado ao Sol, assobio,
Como uma criança, como uma fita negra
Ao longo da estrada. As coisas pousam
Ao de leve, na melancolia do Sol
Porque arrefeceu repentinamente,
As folhas secas sopram em coro
As andorinhas baloiçam nos fios eléctricos
E os seus olhos tornam-se distância.


Horned Wolf

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Assassino

.
.
Sento-me aqui, e o vazio relembra-me,
Uma sala quente de Verão, uma jarra
Iluminada pela Lua da varanda.
Flores, no quarto de estar.

Na água da velha casa o chão da Lua
Adormece-me devagar
A inacessibilidade da lembrança
É o cedo esquecimento.

O vazio relembra-me, como uma noite ofegante
Enorme e deserta. A minha voz primordial
É o lento respirar de um morto.

A aragem quente não me banha a face.
As quintas dos cães tão escuras…
Os insectos iludidos pelo Sol
Colam-se defuntos no meu corpo
Quebra-se a cadeira perdida,
Quem me dera que se quebrasse,
A cadeira partida, o cinzeiro de vidro
Onde deito as mãos inertes.

A palavra está morta, eu a escrever
A respiração lenta dos ossos sem suor
Nem rosto que fosforesce, nem espírito
De vapor ou lenda, nem água, nem fronte
Nem dedos. Ilumino-me
Vigilante de mim mesmo em haver morrido
Nada há de mais funerário
Do que aquele que a si mesmo se ilumina
E afugenta os predadores seus semelhantes
Ser um eco sem voz originária
Ninguém nos amar com o olhar, nunca
A nós.

Habito-me, como um pedaço de evidência de um crime
O mundo ilumina-me porque o mundo só ilumina o que passou
Ninguém, do mundo, me ilumina, vejo finalmente,
E vejo só os meus olhos, assassinei-me
Quando estavam tristes
Mas os olhos que os olham
São duas feridas de tubarão.

Amei, fumo a fugir-me embrutecido
E fui surpreso, e fui ridículo,
Porque nada depois da infância foi feito
Para ser autêntico, e eu a minha infância
Não a tenho minha: outra razão
Outro génio habitava então
Este corpo. Os outros não me olham
É impossível que me olhem os outros
Olham os astros, a Terra, a sala, a realidade
E eu não sou astros, nem terra, nem sala
Nem realidade, nem eu. Tive sonhos
Infinitos, ideias, morava-me tudo o que
Da treva se escondia, como é possível?
Quantos sonhos, ideias, memórias?
Quantos deuses e prodígios de invenções?
Um mundo inteiro à minha imagem
Pronto a desabar como um túmulo imprevisto.
A complexidade do mundo toda amealhada
No meu sangue: e julgava então
Haver não, um mundo absoluto
Um futuro absoluto, que o brilho dos astros
Não era o silêncio da sua morte, que as mãos
De um amor, não eram as mãos de um aceno
Para acenar adeus.

O milagre instantâneo ser a falsidade
De o ter vivido, e isso não ser instantâneo.
O corpo escorre-me pelas gotas frias
Do céu quente, tudo o que nasceu,
Tudo o que vi e vivi, nunca nasceu
Lavo as mãos e elas não se apagam
Tenho pena de ter mãos porque ter mãos
É não poder ter mais nada.

Há um luminoso halo de silêncio mineral
Lavo nele as minhas mãos e as minhas mãos
Não se apagam: a porta da sala, o rangido da mulher
Sombra esfumada e fumada, com aroma
A uva seca. Sonha ao meu lado, estende os pés
Ao luar das varandas: passam muitos anos no limiar
Da sua presença: a noite está deslumbrada
E angustiada, porque hoje tomo as tuas mãos
Como as tomava antes da primeira palavra
Ser pronunciada na Terra.


André Consciência

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sombra Fresca da Terra




Gostava que cantasses, mãe
Debaixo da rocha, e na falta que nos faz
Os que partiram estarem.

Gostava que cantasses, mãe
No cruel abandono dos bosques
Onde pernoita o horror
E soltasses de ti
Uma ‘sperança, um fulgor,
Uma luz contínua e escorrida
Que acreditasse o amor.

Gostava que cantasses, mãe
Nas lágrimas, dos macacos-narigudos
Morcegos-raposa e folhas de palmeira,
No rio, que chilreia,
Na cidade com dor-de-peito,
E no solitário que dorme
Sem leito.

Gostava que cantasses, mãe
As palavras de consolo,
De toda a fatalidade, inexorável
Ou me soltasses do mundo
Como o que sou, um projecto
Irrealizável, e que passou.

Gostava que cantasses, mãe
Existir eu, e em mim nem tu
Nem ninguém.


André Consciência

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estou Aqui...


Sem Título - José Sérgio Holanda


Gosto de respirar, deitado na minha cama, enquanto todos dormem. Só com os momentos que ultrapassaram a morte e fazem parte do silêncio. Imagino que brinco nas névoas da serra, e que me empoleiro nas árvores despidas. Que morri, e que ninguém o testemunhou. Existe só o lago quente no gelo, o vento mudo, e a vida toda que eu já vivi, mas sem continuação, porque sem fim. Pelas janelas embaciadas das casas de pedra, fico a sonhar vultos que se encontram para celebrar o amor que tenho em mim e que não morre. Que chegara finalmente o dia, em que deixavam de haver dias. O meu peito jorra todo em neve que derrete e levanto-me para escrever na certeza segura de que ninguém me alcança através destes vidros.


Horned Wolf