terça-feira, 28 de setembro de 2010

Evocação V


Paseo por Andalucia - Francisco de Goya

Deus, Senhor de clemência, concedei às almas de vossos servos e servas, cujo aniversário celebramos, um lugar de lenitivo para os seus tormentos, aventura de uma paz inalterável e o esplendor da glória eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. (Santo Afonso Maria de Ligório).


Decido fazer a quinta evocação enquanto ébrio. Surges do caos como uma dança árabe. Não tenho pensado nos teus pés até agora. Os teus pés eram o principal. Eles pisavam ao longo da praia. Depois dos teus pés na areia, ou no verde pintado do batelão, os livros que nós líamos e discutíamos. Nem antes nem depois, mas acima, os teus cabelos e os teus olhos de quem despertou demais. O teu sexo só depois das mãos e do pescoço e dos ombros. Do rosto. Contavas-me a história da deusa muitas vezes. Eu não acreditava nenhuma. Essa tua deusa é uma mulher qualquer, não a minha. Não contei a ninguém que morreste, sabes? Não existe ninguém fora de nós.

Horned Wolf

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Evocação IV


L'Arcangelo Raffaele - Autor Desconhecido

Ó meu Senhor! Purifica-os das transgressões; as tristezas, desvanece-lhes e transforma a sua escuridão em luz. Permite que -entrem no jardim da felicidade, purifiquem-se com a água mais límpida e, no mais sublime monte, contemplem Teus esplendores. (‘Abdu’l-Bahá).

Alguém te comeu o estômago. O teu coração palpita descompassadamente e à vista dos olhos de todos. Por várias vezes os comprimidos com que evocavas a morte e que te beberam o sangue. Hoje já não queres partir. Assim, cada pulsar agita as larvas rebeldes que habitam o teu peito, que é para dizer que a tua respiração é um assobio atroz. Contorces-te no triângulo. Queres proteger o peito com as mãos delgadas e isso é um ataque à carne lívida. Eu conhecia um padre que morreu, ficou sem pernas num acidente de automóvel e morreu. Vestia sempre o negro e um chapéu de cowboy. Esse padre depois falava comigo e eu pedia-lhe que te cuidasse. Que te sarasse o peito – e às vezes o teu peito parecia ser só o que era, o leito puro, limpo e perfeito para as minhas lágrimas evaporarem e os meus beijos repousarem. Hoje continuas na mesma escuridão, continuas devorada, como um vampiro rendido. E eu olho-te a partir do meu casebre da arte, as minhas mão começam a sangrar. Se te viro as costas os meus olhos voltam-se para as minhas costas. Deixei de trazer a espada comigo, porque sei que se te olhar tempo o suficiente te matarás de novo. Não. O teu olhar doloroso e inteligente não espera nada de mim. É por isso que a tua carne sensível magoa a minha carne aérea. Uma espuma de heresias sopra do lábio ferido, sem que o movas. Tornas-te macia e suave, como a banha das larvas. Preparas-te para dormir.

Horned Wolf

sábado, 25 de setembro de 2010

Evocação III


Lunáticos - Cordélia Urueta

“A esposa roga pela alma de seu esposo e pede para ele refrigério, e que volte a reunir-se com ele na ressurreição; oferece sufrágio todos os dias aniversários de sua morte” (De monogamia, 10).

Através da única janela no tecto um pedaço de céu roxo condensa-se no triângulo com a velocidade a que a cinza dos incensos cai. És difícil de definir. Um conjunto configurado de uvas azuis ou como eras, excepto que vestida de um olho ciclópico e vulcânico. Todos estamos cansados. E isso lembra-me o mar e o barco quebrado que escolhemos enquanto assombramos o eléctrico alto mar. A sombra da Lua canta magnética. Não temos esperança, e isso agrada-nos hoje mais do que nunca. O barco é só uma desculpa para o naufrágio. Se apenas conseguisses quebrar esta Oroboros... Despimos-nos na Lua, hoje não te guardo rancor. Amo-te. Os teus seios, duas manchas de pus amarelado. Sim... Amo o bem, e o bem não te conhece. Já ninguém te encontra. Não chores.

Horned Wolf

Evocação II


Morte de Abel - Gustave Doré

"O pão duro que o pão tiver purificado e que a invocação tiver santificado, oferecei-o orando pelos mortos” .(Didaqué)

Hoje estás sentada no triângulo com uma saia vermelha (eu nunca te vi de saia vermelha) que cobre o piso axadrezado. É como se metade de ti fosse sangue meu e paixão. O redondo dos teus seios está nu, ou o oásis abdominal. Não estás a pensar em nada, e os teus braços erguem-se, os frágeis cotovelos formando um ângulo recto e dois mamilos de pele lisa. Consigo ver-te os olhos mais limpidamente que ontem, quase como quando estavas. Parecem fixos com mensagens secretas (se a água pudesse ser fixa), serenos e compassionais. Pouso a espada. Amanhã não vais morrer. Mostra-me o outro mundo. Somos crianças ainda. Crianças quase mudas. Não morreste primeiro que eu. A praia era quase a nossa pele. Não sei. A brevidade ondulatória sempre me recordou a eternidade. Não acredito que os mortos amem, muito menos os vivos. A vaga não pertence. Tens uma coroa de fogo e sempre que a pousas prateia. Os teus cabelos estão soltos. Mostra-me o outro mundo. Coisas que se esqueceram. Não sei. Nunca amei ninguém. Não sei. Amor é teres morrido e ficado para sempre com perfume nas mãos, e força de as trabalhar. Se pudesse colocar-me fora da minha eternidade repousaria a cabeça no teu colo e a tua barriga respiraria mais rápido, como costumava, e abriria as bocas de centenas de piranhas cegas para me devorar o pensamento. O pensamento. És tu. Por favor, mostra-me. O Sol chega fundindo as luzes. É o Sol que as tuas mãos chamam. Gelado. Se te embrulhar no meu coração, não morras. Ficavas sempre calada. Os teus olhos como agora. Se eu dizia morte, ouvias Sol. Se eu fosse só um túnel, para os teus passos. Ninguém se lembra da memória. Há seis homens que tremem sem pele e engasgam-se nomes bárbaros. Volto a pegar na espada. És uma miríade de aberrações. Gostava de te decepar os braços e de me rir sozinho sobre as tuas lágrimas.

Horned Wolf

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Evocação I


Le Jour des morts - William-Adolphe Bouguereau


"Que o Senhor lhe conceda a graça de obter misericórdia do Senhor naquele dia".(2 Tm 1,18)

Ela está inerte, no triângulo, de braços pendurados ao longo do tronco e joelhos dobrados. Os seus cabelos ruivos lambem a sua pele rosada e os seus lábios encarnados exprimem tristeza. Há interferências de outras vozes que me aguardam, ela própria está absorvida numa multidão de murmurantes. O hemisfério esquerdo da minha cabeça lateja enquanto se fixa em mim com olhos acusatórios. Afirma que a deixei morta durante todo este tempo, que a abandonei a águas estagnadas. O meu coração sente-se angustiado e o meu peito deseja o acto do vómito. Mostra-me o seu inferno cheio de sombras azuis e negras que se assemelham a mosquitos. Eu dou-lhe um sabão que cai aos seus pés descalços e inertes. De repente dançamos nas miríades de dedos púrpura que se tocam no céu, afogamos-nos nas estrelas e voltamos a emergir na manhã seca de Verão a caminho marítimo de Tróia. São as primeiras chuvas, hoje. O teu inferno tem túneis de esgoto e coisas que eu não sei identificar. Estás sentada sobre as pernas alvas por cima da água celeste e brincamos à eternidade. Mas temos peso demais para não a romper. Eu peço-te que te reveles. Dás-me pedras a comer, no Inferno escuro, cheio de ventres que engolem. A tua pele encarquilhada cai em constância do teu corpo velhaco. Tens mil canções para mim. Os meus poemas. Mas eu defendo-me com o coração e a serpente. Espeto-te com o tridente emprestado de Neptuno. As tuas pernas são como serpentes em redor da minha cintura. O meu pénis uma terceira. Todas se enrolam. O meu corpo é a preguiça. Por hoje despeço-me e fico a ouvir os poemas da torneira a pingar. Há uma cabeça de fogo descendente entre nós, que faz com que nunca importemos.

Horned Wolf

quarta-feira, 19 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

R.I.P. Xibalba Mannequins...

e todas as crianças beberam lágrimas
dos seios da mãe,
e todas as crianças beberam prazer
dos chifres do pai.

Vila Final

Vida, uma sombra parada de madrugadas inesquecíveis. A tua forma na minha forma largada. Cume das manhãs altas, vulto do raio indissolúvel.

Sombra da raiva, sombra da luz, sombra do amor. Doutrina da chuva em dias nocturnos.

Fotografias do teu semblante, fotografias do teu corpo, rasgões do Sol no fim da tarde.

Cinzas, quando a noite está no fundo. Lágrimas, quando a chama se eleva aos patamares do inalcançável.

Vida, estou cansado de viver os vossos rostos, já lhes falta cor, depois libertos, primeiro mutilados, da água do amor.

André Consciência in À Beira-Lua, pàgina 76.

Também este espaço se torna agora um livro aberto (um livro fechado).

quinta-feira, 15 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Triste Murmúrio dos Piolhos na Solidão da Foz


Inferno - Andre Cameron


O infernal turbilhão, vertiginoso,
leva as almas de envolta na rapina
e nunca pára o ímpeto furioso.
e ao ser lançadas do alto da ravina
as almas soltam gritos e lamentos,
ali blasfemam contra a Luz divina.

DO INFERNO-Canto V.' de Dante Alighieri


Conheci-te num bairro oculto entre os prédios cinzentos e desmantelados pelo fumo. Estava sentado à beira de um abismo que a busca pelo petróleo causou. Dormia sempre ali. Sonhara percorrer o mundo. Mas cansei-me cedo - esta cidade só por si é um labirinto de paredes iguais com histórias iguais. Costumava acender uma chama lá ao fundo e subia uma lua avermelhada. Imaginava que existia um mundo lá em baixo que se percorria caindo, sem esforço. Tu vieste com a tua mochila às costas, com pins anarquistas. Aconchegaste-te comigo e cantámos um para o outro até adormecermos. Na tarde seguida (acordámos bem depois do alvor), fiquei a ouvir relatos das tuas viagens nomádicas. Na outra manhã, fiz um pacto contigo. Eu contava-te os magníficos mundos que explorava enquanto fitava o abismo, e tu, nas tuas demandas, verificavas se existiam. A partir daí, também para ti o labirinto. Continuo a contemplar-te depois da chama ao fundo da ravina nomádica.

Horned Wolf

Xochicuicatl

Uma Curiosidade Sobre "Sleepytime Gorilla Museum"

A melhor é nada mais do que esta obra de arte a ser explorada:
www.sleepytimegorillamuseum.com


Desafio



Quem escreveu "The Dreadful Story of Pauline and the Matches" (a história segue na caixa de comentários), inspiração a "The Dreadful Story of Harriet and the Matches" de Tiger Lillies?

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vati Cano

Dedicado ao Goldmundo


Abismo do Pecado - Jana Vieras


Talvez não gostassem de acreditar, porque vou explicar como vi a Cidade Santa sob a insígnia de Roma Católica Apostólica. É ela a cidade da toca da aranha. Há duas montanhas cegas que rodeiam o abismo, e que situam a cidade no fundo do vácuo, ligada à superfície por mil cordas grossas muito penosas de subir, atadas entre si, numa rede que vai servindo como telhado à povoação. Caminha-se na escuridão, com os cuidados de não enfiar o pé numa qualquer fenda, e agarrado a um círio. Por cima há tudo, estendido por milhões de quilómetros, mas apenas vemos o céu e no céu o todo, uma e outra nuvem. Entrevê-se, ainda mais acima do Todo, Deus: este é o verdadeiro telhado da cidade, e não oferece passagem nem apoio.
As casas, em vez de se erguerem na vertical, são escavadas para dentro da terra, de forma a dar maior altura ao céu. As paredes formam escadas de pedra, grutas, miradouros sobre os rios subterrâneos com barcos semelhantes a caves, nascentes de água, fogos-fátuos, e homens que, perto de serem invisuais, aquecem a sopa de cupins subterrâneos ao lume. Mais afastada pode-se descobrir uma linha de faunos de carga que carregam blocos de pó para os duches. Há vasos com minerais e plantas subterrâneas para decoração, altares e candelabros para oração.
Coberta pelo precipício, a vida na Cidade Santa é mais segura do que noutras cidades. Sabem, em cada momento, que a rede de cordas não aguenta o céu.


Horned Wolf

sexta-feira, 26 de março de 2010

Enquanto Dormes



Os flocos pousam nos cedros, dois peitos de neve derretem um no outro. As estrelas aproximam-se, lentamente, dos teus movimentos. A noite sobe como uma carícia leve. Eu respiro.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.

Uma Curiosidade Sobre "Flesh for Lulu"

Nos "Flesh for Lulu", Rocco vem de Wasted Youth:

Rebecca's Room - Wasted Youth

Glenn Bishop foi para Under Two Flags:

Masks - Under Two Flags

E foi substituido por Kevin Mills dos Specimen:

Hex 12' - Specimen

Nick Marsh está agora no projecto Urban Voodoo Machine:



Desafio


Hyimn to the Morning Star - Sleepytime Gorilla Museum

O que é a Estrela da Manhã? Responde e desbloqueia o próximo Xochicuicatl.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.

Uma Curiosidade Sobre "Giardino Violetto"

A banda foi a primeira em Itália a ser publicada com Creative Commons.

Peguem o Danse Macabre. Itália produziu óptimo deathrock e óptimo darkwave.


Desafio


Postcards from Paradise - Flesh for Lulu

Em que filme que Brooks protagonizou foi popularizado o nome de "Lulu"? Coloca na caixa de comentários, e desbloquea o próximo post Xochicuicatl.

domingo, 14 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.

Uma Curiosidade Sobre "Le Vene di Lucretia"

"Le Vene di Lucretia" mostra influencias de "Madre del Vizio" e "Rozz Williams"


Amore Fede Speranza - Madre del Vizio


A Fire of Uncommon Velocity - Rozz Williams

Download do Album


Desafio


Litanie a Satana - Il Giardino Violetto

Quem escreveu Les Litanies de Satan? Coloca a resposta na caixa de comentários e desbloqueia o próximo Xochicuicatl.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Casa de Morcegos, Saúda os Senhores no Trono


Cotz'na

Fui deixado por morto na Casa de Morcegos. Não é verdade? Pois olhai bem para os meus destroços e do que são feitos, de que forma a lâmina dos focinhos quirópteros se enterra em mim. A questão a traduzi-lo põe-se: como posso ser inteiro se momentos vários da minha vivência inteiros são? Sou assim dividido e sendo dividido o sangue escorre. É fácil adormecer e deixar que os morcegos operem o seu milagre às escondidas da vigilância, mas eu deverei penetrar a minha Palavra viva na insónia eterna e sobreviver como testemunha. Mas os morcegos penetram até a Palavra, e a palavra fragmenta-se em várias nuvens de memória movediça. Tal como na morte, toda a minha vida passa na minha percepção, excepto que não com ordem e seguimento, não! Em vez, todas as lembranças guincham em simultâneo. Eu lembro-me. Sim. Recordo-me. Não! Talvez. E se. Vi que foi. Aqui e agora. Tantas vezes. E sempre que. Nunca mais. O eterno repetir da lentidão dos ponteiros. Ninguém agarra os ângulos, desfazemos-nos no tempo. Salteadores nas ameias do crepúsculo. Vagar humano. Velocidade felina. Tudo se calou para sempre. E isso não se cala. Caramba! Sh… Os pardais nunca foram pardais. O nome destes morcegos é Legião. Calaram-se muito. Não tenho cabeça. Espera, ainda tenho cabeça. Coça-me as costas. Fodia e quanto mais fodia mais me energizava. Não faz mal. O quanto podes. Mas nunca te deixes vir na rapariga errada ou envelheces 3 anos. Absurdo. De há um mês para cá, ganhei verrugas. A cantina com a mulher que me quer. Sh… Daquela vez apanhei uma enorme serpente a caminho do mosteiro abandonado, fiz com ela uma Oroboros que usei à cintura e no fim deixei-a em 8. Não sei quem, mas alguém a vandalizou. Desenterrou o ovo e a rosa. Mesmo assim ela está grávida. Espero que não faça um aborto. Se o fizer engravidará de novo. Fecha as portas caralho! Está a entrar uma bruma que ainda nos vai separar a todos. Quem é que está a gritar? Primeiro acordo os animais todos, naturalmente. Mas quando começo assim a floresta fica estarrecida em silêncio. Os outros dizem que me transformo numa serpente negra e muito alta. Alentejo. E Cabeço das Fraguas. Isso tudo já foi, não é? Fui apanhado a dormir em Marrocos. Estava lá aquele gajo cujo nome é o sussurro da respiração. É ASV. Parecia. Hehe. Já não sei o que fazer com ela se não pára de gemer. Tanta merda. Que rios são estes? Falésias. Rios. Portugal está entre a terra e o mar. Se quiseres falar com Ele, vai para lá. Morcegos no meu cabelo. Não vou quebrar a asana. A bófia tem rondado a gruta. Um dia ainda conto e decoro quantas árvores existem nesta serra sem usar um único número. Esse dia é hoje. Não importa quantas vezes me perco, o caminho de volta é perder-me. Mas quando volto trago as vozes de tudo por quanto passei. Ervas e rochas e areia. Essas vozes, sabes. Estás louco! Claro que estou. Vês aquele túnel? Estamos cá em cima, no segundo mosteiro. Vês aquele túnel? Pára de escrever e não cantes. Não pises as folhas e não dances. As 3 e picos a Lua põe-se exactamente em alinhamento com aquele túnel que desemboca a meio da parede. O que metes no altar é a tua sombra. Cala-te! Os telhados estão sempre a cair. Não sei como nunca morri. Os outros partem sempre a cabeça pelo menos. Sim! Ela! Ela! Como é que os olhos dela podem brilhar tanto?! Em Tróia. Morreu-te. Essa bruxa ruiva. Agora já é tarde para chorar, não achas? Os pombos em Faro são muito diferentes dos pombos em Lisboa, e há ainda os do Porto, que cantam Anathema perto da feira. Espera lá. Não, no Alentejo não há. O que há mais é rapinas. Mas vais conhece-las a todas. Dorme em cima desta pedra, é o que eu faço sempre. Não digas mais nada. Esses livros não eram para ti próprio. Por isso é que os tivemos de queimar. A Santa não se esquece de nada. A míuda se calhar nem era maior. Agora já foi apanhada. Quantos corpos de prostituta tem o teu corpo, virgem? Não sei quantas mais mulheres aguenta a chama. E homens. Vais ficar gordo. Cala-te! Já há muito tempo que estou perdido. Eles acham que eu invento estas histórias! Se soubessem ahah. Com quantos camelos se faz o Sol? Ups. Nada como o Salvador Dali. Os morcegos, já não se ouvia deles nem um piu. Saí da palavra, pus só a cabeça de fora da sua boca, e procurei verificar se era manhã. Um Morcego da Morte, com o chocalho de ossos e as órbitas pendentes, decapitou-me em voo tal como decapitaria o fruto do ramo. Mesmo sem cabeça, ainda ouço asas a roçarem. Mas é só isso.

Um Morte e Sete Morte levaram a minha cabeça. Ainda escuto e vislumbro, mas não com os órgãos da cabeça. Sempre pensei que se separassem a cabeça do meu corpo, a minha consciência se agarraria sobretudo à cabeça. Isto era mentira. Sem cabeça, porém, podia controlar todos os animais existentes na Grande Árvore dos Mundos. Pedi a cada um que trouxesse o seu alimento e o deixasse junto da minha carcaça viva. Acho que Morte Um e Morte Sete se riam, e acho que os outros Senhores estavam sérios e com receio. Finalmente encontrei o que queria, quando vi o meu próprio corpo através da cabeça Ornada de um Lobo, que vinha sendo trazida pela boca de uma fêmea de Coiote. Vejam, se não é Lúcifer, o Corção do Céu, que desce, o próprio para acender estes olhos. Um anjo entre os morcegos. Durante quatro dias o céu encheu-se de lama e a terra escureceu. Por fim o diabo incendiou o esterco, dando luz ao mundo e abrindo o céu para o azul do Sol. Por esta altura a cabeça do lobo e os seus chifres estava bem assente sobre os meus ombros. Vejo-me a mim próprio neste preparo e vendo-me neste preparo vejo-me a mim com corpo de lobo e cabeça humana.

Reconheço, assim, ser os gémeos Ascendido e Descendido. Todos os senhores se riem e festejam. Pois no seu seio têm o meu corpo humano, vivo e derrotado. Como sempre fomos o conselheiro da Corte Abaixo da Superfície, ordeno que o meu eu seja sentado no trono em brasa e depois deitado ao rio. Restam-lhe cinzas. Estas cinzas criarão os primeiros peixes à superfície, e um dia serão homens e mulheres para governar com todos os poderes subterrâneos. Quanto a mim, os Gémeos, não temos nós os rostos de todos os bobos? Operámos milagres, ardemos as casas sem que elas ardessem, dançámos, matando-nos e ressuscitando-nos, e tanto deslumbrámos Morte Um que nos pediu que com ele o repetíssemos. Só o repetimos por metade, a primeira. Morte Sete pediu clemência. Não a obteve, porque tomámos as suas poltronas no Lugar da Esperança.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Casa de Fogo


K'ak'ma

Permaneço agora, compassadamente, na Casa de Fogo. Não existe muito a dizer sobre isto. Existe, no que respeita este tema, o fogo, e nada mais. Cá fora, este fogo arde de noite, de dia dormindo no interior, pois é o fogo das flores que se formam a partir do céu e que perdem o perfume nos artifícios, que vão usar essas quintêssencias, no aspecto decaído e consumível, como forja. Distingui a vinda do dia e sai. Entre os fantasmas, viram-me mover como um coiote e por isso tremeram, furaram os ouvidos, os braços, e colocaram os seus corações num vaso que me ofertaram. Mas o Morte Sete, não temendo, convidou-me ao trono em brasa. Perscrutei a Casa de Morcegos, não lhe agradando com resposta. Mas o Morte Um, não temendo, teceu esta questão: "Sobrevives à Casa de Fogo pela graça dos corações dos Jaguares. Porém, quem, em toda Árvore dos Mundos, és tu, que haveis dependurado os seus quatro corpos, esses quatro corpos dos primeiros entre os homens, já sem coração?" Eu respondendo: "Sou a Água da Beleza e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram doçura, para conhecer o seu caminho. Sou a Queda de Água e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram noite, para conhecer o seu caminho. Sou a Água das Araras e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram Lua, para conhecer o seu caminho. Sou o Casa de Água e devorei a ch'ul do Diferenciado, de forma a compreender o caminho. Sou Qo'ahau e subi as Montanhas da Manhã para arrancar da Serpente Imperadora a insígnia da Realeza." Arrogância, pensaram Morte Um e Morte Sete, empurrando-me para a Casa de Morcegos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre o Vento


Saudade - Sara Conde


Desta vez, a simplicidade
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.

Horned Wolf

terça-feira, 9 de março de 2010

Casa de Jaguares


Balam na


Por esta altura o povo de Xibalba e os seus senhores evitavam as pétalas cristalizadas na minha língua e o frio corpo de ossos que a cobria. Fiz-me mover até à Casa de Jaguares. Na porta, uma pintura de mulheres com serpentes no peito a caminhar sobre feras. Prostrei-me a um canto no interior, e descansando permiti os felinos gastarem a sua vitalidade nos meus ossos. De manhã, jaziam, ofegantes. Intacto, devorei, sem pressa, o coração de cada um. Senti a queimadura espalhar-se nos meus órgãos. Os meus olhos de água acolheram o fogo. E abandonando a casa os guardiões puseram-se em fuga, indagando-se sobre a minha origem.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Casa de Gelo


Cic na


Na terceira noite foram-me dadas roupas, sob o pretexto de vir a necessita-las. Conduziram-me à Casa de Gelo, cuja porta se fazia ver ornamentada por três corações de fogo esculpidos a gélido. No interior existia, em toda a câmara e provindo da solidez do frio, o mesmo brilho prateado que antes me sussurrara, mas que desta vez permaneceu em silêncio. Na primeira hora resisti com bravura, aquecendo o corpo por todos os meios. E ainda na segunda.

Na terceira hora o frio vencia-me o corpo trémulo. Despi as roupas, e aprofundei-me nessa hostil temperatura. Toda a vontade e todo o desejo haviam despertado, porque essas coisas é que movem o mundo cego, tendo em vista a sobrevivência dos que, porque vão morrer, pensam poder não vir jamais a morrer. Aprofundei-me no gelo. Deixei de querer, transcendi, e o corpo ganhou o silêncio das coisas congeladas. Encontrava-me a ser o amor que já preservava o universo ainda antes de se conceber: o magnetismo inesgotável que rodeia as coisas que derretem de encontro ao mundo visível: Os imortais, porque a morte já foram.

Não vou morrer, sei já ter morrido. Agora, toda a minha carne no interior dos meus ossos.

Casa de Lâminas


Ch'am


Na segunda noite dirigi-me por meu próprio intento à Casa de Lâminas, cuja entrada em madeira não possuía qualquer inscrição, excepto marcas de haverem existido inscrições depois raspadas. Sentei-me e, enquanto esperava, pela primeira vez desde a minha viagem ao Lugar do Medo, passei pelas brasas. De imediato isto veio chamar uma legião tremeluzente de escaravelhos que ostentavam, no lugar de mandíbulas, tortuosas lâminas. Não soube de outra forma de lidar com esta prova, excepto o que fiz: negociar que, não oferecendo resistência, levassem apenas a carne dos animais. Quero com isto dizer que devoraram somente a minha cauda e as minhas asas. Da minha cauda organizaram um tacho de pétalas encarnadas, e das asas um vaso de pétalas brancas. Um momento posterior, na minha língua fizeram família as pétalas amarelas, que espantaram os insectos ainda antes da manhã ser chegada.

sábado, 6 de março de 2010

Casa de Treva


Ak'ab na


De corações que comandandavam a minha derrota, os Senhores de Xibalba conduziram-me à porta encimada por três esféricas jóias roxas. Avançando pelo lusco-fusco transgredi a passagem. Visitou-me nada e nada poder ver. Depois uma luz prateada que se confundia com o negro estendeu-me alguns objectos, que pude apenas tactear, e fez-lo com a legendagem que se segue:

A Morte deu-me uma chama, eu a tocha e o cigarro oferto. Na treva, acenderás uma clareira. Vinda a aurora, devolverás a tocha e o cigarro ao vulto da morte.

Anui. E não usei a tocha ou o cigarro, para o efeito da luz, aceitei activamente a treva. Vista a negridão da sala, os guardiões pensaram haver concretizado a vitória. Na madrugada, devolvi os objectos. E não ofendendo a treva, não os desgastei nem me apaguei.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Uma Curiosidade Sobre "Crimson Muddle"

A líder de Crimson Muddle, Hellbore, provém de uma excelente banda chamada Deadchovsky, e ali figura nos teclados.


Le Frere Du Sandwichier - Deadchovsky


Desafio


Santa Violenta - Le Vene Di Lucretia

Quem é a Lucrécia? Desbloqueia o próximo post Xochicuicatl colocando a tua resposta na caixa de comentários.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Uma Curiosidade sobre "Seraphin Twin"

Em 1996 Brain Terry abandonou a banda para uma tourné extensiva com Dream Disciples (má troca, na minha opinião), dando assim um fim à banda, que conseguiu depois os últimos suspiros com a ajuda de Mark Elder tocando com Garden of Delight e Rosetta Stone em Londres.


Pray - Dream Disciples


Agony - Garden of Delight


Witch - Rosetta Stone


Desafio


La Rousalka - Crimson Muddle

Quem é Rusalka? Descobre e desbloqueias o Xochicuicatl seguinte.

SAÚDA OS SENHORES NO TRONO

Xibalba Mannequins Marca Hoje um Ano de Existência



“Senhor da doença e da dor, da morte e da destruição nas ruas e nos trilhos, da morte e da destruição através da aguardente, da morte e da destruição através da intoxicação, da morte e da destruição pelo vómito, da morte e da destruição pelo esforço e pela exaustão – apresenta-te, senta-te ante este Mundo de cemitério. E também o mestre da dor e do infortúnio, dos ferimentos por pistola e faca e vidro, apresenta-te, senta-te ante este Mundo de cemitério! E também o senhor do vómito e da indigestão, o senhor da febre e da disenteria, e também o senhor da malária e da tuberculose, do inchaço do abdómen (cancro), da gripe e da bronquite, e também o senhor de toda as doenças menores; e também o senhor da varíola, apresenta-te deste lado ante este montanhoso santuário do cemitério! Senta-te neste lugar, sejam quais forem as tuas manifestações; Olhai por nós aqui ante este Mundo. Sentai-vos, todos vós. Senhores, perdoai as minhas faltas.”
(Bunzel 1952, 390).


Sem que penetrasse a rua a Este, a rua a Este penetrou todas as outras e, por fim, tomou-me, que jazia ainda imóvel no centro, uma gárgula a guardar a aridez do deserto. Vi uma sala rodeada de exóticas e ornamentadas passagens para outras câmaras. Dispostos em tronos, por ordem de hierarquia, encontrei os senhores, e não mais havia nesta sala excepto um mastro no centro do tecto em que, chovendo rosas azuis, um coração se agitava. Abaixo, um rosto oval, de olho escarlate na testa e boca aberta em O, emanava o hálito dos silêncios mais antigos que o tempo. Eis o lugar da assembleia. Pensei sem a verbalização deste pensamento. Nudificado, deixei a pele abrir-se e estendi a consciência (o corpo) até ao primeiro Senhor, o leitor poderá compreender o que procurei fazer no tempo que se seguiu se, imagine-se, se focar no centro da sua mão, onde sentirá uma palpitação. De seguida que se sensibilize, digamos, no seu dedo do meio da sua mão esquerda, sem ignorar o resto do corpo, e com este, se force a roubar toda a vitalidade desse dedo que existe entre os outros quatro dedos. Sentirá de imediato, se não for um babuíno, uma dormência profunda nessa zona. Isto foi o que fiz ao primeiro senhor, o que fiz ao segundo, o que fiz ao terceiro, e depois o que fiz ao quarto. O quarto denota uma simples diferença, e que nada tem de extraordinário, dos outros três. Trata-se de um mistério dos sentidos já por todos conhecido. E se o leitor não se resumir ao chimpanzé (trata-se de mera expressão, pois os chimpanzés já o sabiam ainda o homem estava a aprender a ir à Lua), saberá que existe uma diferença vital bastante perceptiva entre a proximidade que estabelece a uma árvore e a um pedaço morto de madeira. O quarto senhor, era mais, pois, como uma árvore, e os três primeiros como manequins de madeira, a quem chamaram de Pai, de Filho, e de Espírito Santo.

Abri também eu uma boca invisível, em O. Arranquei-lhe, como o vendaval arrasa a resistência da floresta, o seu sangue. Escutei-lhe um lamento, e, sabendo que o lamento é o nome manifesto da coisa que lamenta, reconheci “Morte Uma”. Repeti o processo, identificando “Morte Sete”. Tinha agora ambos os senhores dos juízes, e que são o inicio e o fim, representando as húmidas ventosas do tempo e do vento. De seguida feri aquele Coberto de Crostas, Ferida Voadora, cujo ofício é adoecer toda a vida sobre a terra, permitindo as libações de sangue que amarram os demónios à obediência. Depois, o que Recolhe o Sangue, sempre que o chão o recebe, e o distribui aos Senhores, fundindo a mortalidade à eternidade dos mundos (criando o Sol e a Lua). A seguir, e obediente aos primeiros, o Demónio do Pus, servo da criação, e o Espírito Maligno, servo da acção. O domínio dos dois Senhores é derreter as formas dos homens e das mulheres que caminham na terra, sem o qual não poderia, neste momento, pica-los qual angélico mosquito. Depois, o Báculo de Osso e o Báculo de Caveira, cuja obra é retirar do homem sem forma todos os resquícios mortais, o que conseguem por agência da fome e pela ausência total das divindades.
Ainda, o Demónio dos Resíduos, e o Demónio da Punhalada, cujo labor é voltar a cobrir de imundície aqueles que, depois de orientados pelos prévios Senhores, cessam de velar pela sua própria essência. Esses arrastar-se-hão nas formas grosseiras até conseguirem retornar à morte através delas. Por sua vez, aqui trabalha o Senhor Asa, que administra o acidente e o acaso fatal, levando a liberdade caótica até ao vulto mais fixo, e o Inquerideira, que mede o caos pelas gravidades essenciais em relação com as gravidades periféricas, usando-as para assassinar. Os dois consomem os viandantes, como é caso do narrador, pela garganta e pelo peito, levando-os a misturar-se com os seus trajectos, desde que fora dos seus lares, por milagre da morte.
Assim, todos eles foram nomeados. E disse uma voz, cujo som se resumia a “ooooooooooooooooooooooooooooo”, “Saúda os senhores do trono”. Mas eu, sorri. E sorrindo ria-me deles. Eu que sou Tsuk’ te, a Árvore do Mundo, e o fruto de Tsuk’ te. E lembro-me do quadro de Francis Bacon, com todos estes senhores na raiz do corpo, o cérebro, pois o mundo, fora do espelho dos olhos, é do avesso. “Senta-te, ó voz! Eu que reconheço na vida a simples porta para a morte, na morte a simples transição para a vida! Eu, que desposei os femininos corpos despidos dos másculos e incorpóreos deuses da morte, e através dos seus corpos nasci, te digo que nenhum destes é um Senhor, e todos são manequins. Como a manequins que se desejam como eu os saúdo. Manhã, Morte Um! Manhã, Morte Sete.” A todos saudei. Fui então, depois de cada um se apresentar, convidado a sentar-me no trono acima de todos os outros tronos do Lugar do Medo e dos Fantasmas, porque os senhores de Xibalba invejam o conhecimento dos homens e não poderão desenvolver-se sem eles.
Sabendo que se tratava de um trono em brasa, o não fiz, antes tomando a palavra: “Eu, que sou Garras Sangrentas e Dentes Sangrentos; Eu, que desci aqui não como um macaco ou como um artesão, mas como o corpo nu do amor que toma forma a partir da incorpórea guerra para tomar as outras formas, para assimilar o macaco e o artesão na sua sabedoria, te dito: aqui me posarei para vos governar após a travessia da Casa do Fogo.”

Foi assim que vim a conhecer “Casa de Treva”.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.

Uma Curiosidade Sobre "Voices of Masada"

Voices of Masada descende de Burning Gates e Revolution By Night.


Oblivion Door - Burning Gates


Remnants - Revolution by Night


Desafio


Atonement - Seraphin Twin

A resposta para esta pergunta é também a resposta para o significado do nome desta banda. Qual a diferença entre o aspecto de Lúcifer e o aspecto dos outros Serafins?

Quem descobrir desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Uma Curiosidade Sobre "Radio Werewolf"




Nikolas Schreck entrevistado por Tom Metzger

Apesar de Nikolas Schreck estar documentado na Church of Satan, fundada por Anton LaVey, ele era um militante (e se não encontrarem esta informação em mais lado nenhum, é porque sou eu a fonte) da ONA, aparente adversária da Church of Satan.

Em 2002, depois de muitas contradições, cria com Zeena Schreck (filha única de Anton LaVey) o Sethian Liberation Movement. No mesmo ano, se não me engano, lança Demons of the Flesh: The Complete Guide to Left-Hand Path Sex Magic, um livro tendencioso, medíocre, mais ou menos estupidificante e, dentro desse domínio, sem novidade.

Foi um dos mais poderosos representantes da degeneração do movimento gótico e da sua decadência, talvez (dá-se o generoso benefício da dúvida) porque também em si tenha sido poderoso o ímpeto, que ali é puro, de despir as roupagens para vestir a noite. A treva e a roupagem são o mesmo, treva é conhece-lo. A seguir, a treva e a noite não são o mesmo, e há luz nesse saber.


Desafio


Fragments - Voices of Masada

Quem descobrir e deixar na caixa de comentários o que é Masada, desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

terça-feira, 2 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Strenght Through Joy - Radio Werewolf


Quem descobrir e deixar na caixa de comentários de onde provém originalmente o termo "Radio Werewolf", desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

Vozes da Encruzilhada


Escultura da Basílica de Paray-le-Monial
Guarda o silêncio e o silêncio te guardará


O viandante aguardou, como o cavaleiro vela eternamente sobre a caveira do seu rei, e um dia viu abrir-se sobre si quatro estradas diversas. A cínica escuridão banhava Oeste. A Norte abriu-se a Lua, serenamente cantando. Viu a Sul o Sol, rugindo, inteiras, as planícies. A Este, palpitante, uma gruta para o interior de um coração.

Pensou nas encruzilhadas, recordou-se de como os rabis ali abandonavam os seus bodes, impondo as mãos sobre os seus focinhos e com eles libertando os seus pecados. Aquilo que largamos tem os seus mundos. Meditou. Poderão os mundos arcar, verdadeiramente, com todas as nossas faltas? Pois não é a sua carne aquela do Cristo Gnóstico apenas através do espírito do pecador? Depois escutou os trilhos. E aquele branco, que dizia:
Não sabeis que estais a ser sonhado, e que essa é a fluidez de toda a imobilidade? E se o reconheceres, não estarás já a sonhar? E, ainda, não será este um despertar? O que te pode ser negado?

Aquele amarelo, que dizia:
Quando o Sol está na sua hora mais alta, quem te haveria de usar como tocha? Não ama o leão o Sol? Que negro seria capaz de o amarrar à cólera, se o leão e a fome não são um contra o outro, mas amantes para sempre em paz?

Aquele vermelho, que não dizia nada.

E aquele negro, que dizia:
A um morto, nenhuma potência visível ou invisível nega a vida. A um morto, nenhuma porta se fecha. A um morto, nenhuma maravilha é insondável. A um morto, nenhuma amarra assombra. A um morto, nenhum senhor no trono atormenta.

Então, eu, o viandante, mesmo enquanto aguardava esperei, e aguardando enquanto esperava, vi a canoa tornar-se novamente Adão e Eva. Exaustos, na espera, mumificaram-se nos braços um do outro, arderam sem fim nem óleo.

Até os fantasmas nas ruas se cansaram e, mesmo sem casas, abandonaram os moldes e voltaram para as suas sombrias habitações. Todos os manequins de pus se tornaram relógios do tempo escorrendo para o solo como areia. Sobrou apenas a rua que nada tinha vindo a dizer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Rio de Pus



The Wreckage of My Flesh - My Dying Bride


Quem testemunhou a confusa ira do sangue, não se felicitará com, e preferirá a sua ira, à observância da letal melancolia a seguir advinda: descobrindo-se rejeitado, após o tempo demorado da travessia, o sangue desiste de si mesmo, e eis que em pus se vai suicidar. O fétido da doença demarca a corrente pútrida. A canoa, nauseada, estremece, vomitando cabelos loiros que rodopiam para se perder com o verde, com o amarelo. Toda a raiva que o sangue, por gerações todas, não domou, agora é corpo no homem para o consumir (agora é furúnculo no homem, para o consumir). Mas, não tendo antes cedido à sede, e primeiro aprendido a auto-revolução do escorpião, reconheço ser este pus a (anti)matéria-prima dos magos. Com ele, construo os manequins, e guardando aguardo, na incerteza de que a minha espera fará do meu vulto a estátua correcta.

Um pardal pousa sobre cada um dos manequins, separa a lança para cantar, os olhares vertendo vazio, e toda a sonoridade da câmara azulada no pus, inclusive o ruído mudo do silêncio, é engolida. Nenhuma vibração, nenhuma ressonância. O meu coração bate sem eco. É hora.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Rio de Sangue


The End - The Doors

A luz negra dos escorpiões foi-se abatendo nos raios rubros do céu e afundaram-se os aracnídeos, lentamente, num remoinho aéreo de sangue. Lodaçal dos vermes e dos demónios importantes – os outros vivem nos caixotes de lixo e na gordura dos opulentos. Os escorpiões em eleições. Rimei. Vamos nos revoltar, vamos, vamos nos revoltar – quis o sangue. As formigas vermelhas cobrem, de mandíbulas estimuladas, esta árvore nua. Um grupo de homens com implantes e microfones em círculo, falam com vozes distorcidas e mecânicas. Falam de partidos como quem fala de contas. Einstein sacrificado com um macaco pendendo da sua garganta por uma forca, e um macaco alado sobre ele, que lhe caga nos olhos e ri. Depois bandeiras, umas pintadas, outras queimadas. Fico cego, só escuto este canto índio. Chego a lembrar-me, depois, dos canibais. E dos canibais para fora, como Antonin Artaud. As pupilas dilatam-se. Que raiva! Que raiva! Vejo homens a vir à costa e eu a roer-lhes os dedos que se agarram à firmeza do pontão no Porto. Está uma ventania danada, tenho relâmpagos dentro do mar. O vosso navio de loucos, afundado. Engolir as entranhas dos poetas inundados. Frenesim do sangue. Chamem-lhe o que lhe chamarem, é isso a poesia. Frenesim do sangue. Eu não bebo. Está um dia solarengo dentro do meu propósito. O meu sorriso não tem igual. Não me confundo com os outros.



Silêncio.

Viste o acidente lá fora?

Uma centena de homens, cada um com uma centena de homens na mão, saiu apressadamente, aos tropeções. E discutiam sobre os corpos moribundos das crianças. O cântico cada vez mais surdo. Um ergueu o punho e esmagou a cabeça vizinha, jorrando mil percevejos.

Correm os carteiros.

Viste o acidente lá fora?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Rio de Escorpiões




Atravessei já os primeiros vales, escavados previamente por rios que então secaram, deixando-me aos pés nus o verde. Desci a Xibalba despido, e na forma de uma árvore sem cascalho (homem, alguma vez notaste que o sistema nervoso humano - pausa - é uma árvore de raízes no topo?). Nascem flores vermelhas no seio da verdura, o céu é feito de planuras idênticas em textura à vegetação terrestre. Mas é difícil de o contemplar, com as suas rachas sanguíneas, porque logo sou interceptado por legiões de pardais, pequenos pardalecos, cantando alegremente, correndo como a superfície de um rio sobre o telhado dos vales. E serpenteando essas fundas sinuosidades celestes, vejo-os incendiarem-se de imobilidade. Suponho estar próximo do fim. Imóveis. O apatetado chilrear cai no chão e estatela-se em mil histerias de silêncio. Legião fita-me, eu passo. Uma canoa, revestida da pele de Eva, e cujas madeiras são ossos de Adão, espera-me, movida aos soluços por um imenso abismo de escorpiões da cor das covas que a luz não ousa.

Nos mundos dos homens, tenho visto muito, esta metáfora não me assusta. Sei exactamente o que dizer perante o violento desespero dos homens, que aprenderam, ainda no Éden, a implorar misericórdia às suas sombras. Embora me ria, o meu riso não é mais glorioso do que o do louco que, frente a uma procissão de escorpiões, se queda a rir (porque se ri sozinho).

Não é tempo de ser inútil. Salto corajosamente para a canoa, e recordo-me desta canção (ela impedirá que falhe na minha travessia).

Ah, quanta vez, na hora suave pela morte vivemos, porque só somos hoje, porque morremos para ontem. Pela morte esperamos, porque só poderemos crer em amanhã, pela confiança da morte de hoje. Tudo o que temos é a 'Morte', tudo o que queremos é a morte, é morte tudo o que desejamos querer...
Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tzuqunel


Shaman - John Myers


Um plácido mar sobre a carcaça, um silente céu abaixo,
E sem fim não há corvo, não há vaca sem fim,
Ilimitado cipreste ou jade que se haja reunido.
Coisa alguma se erigiu, o que forma está sozinho,
Sozinho o que reveste: eis luz e conhecimento.

Solitários, afundaram a noite, o conhecimento está sozinho
Tornou-se homem. A luz está sozinha,
É montanha e é vale, túmulo e dolmén.


Nota: Sendo luz, o verdadeiro homem só reconhece luz no que o rodeia, esta é a natureza do conhecimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Luz do Mundo

Dedicado a R.







As ervas ardem a noite e o silêncio comove-se em linguagem.
De mim até ao céu pendura-se a sombra invertida das árvores
O vazio roça contra a poesia da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Tejo.

Escuta-se então, na penumbra do clarão
O sibilar constante das correntes,
A pureza do seu negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu perdi-me, para encontrar as ninfas deste mar.

Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Ao som de rede estendida. Uma a uma, diz-me palavras,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos mortos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.


Horned Wolf




Parabéns, desbloqueou este post

Para todos os leitores de "Xibalba Mannequins"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diários do Quotidiano



A primeira vez que escreveu poesia soube o que era não ter pais. Escrevera um poema a cantar de fezes, que deixou no correio da sua avó junto com um lenço ao qual se havia assoado. Era uma traquinice, ainda assim percebeu que, ao poetizar, era ele pai e mãe, e nada acima dele.

A primeira coisa é esta. A irmã leva um caniche literalmente arrastado pela trela. O pobre bicho não tem velocidade para acompanhar a menina. Ele dizia para ela parar, sem ser escutado. Depois afirmou, a pulmões cheios, que nunca havia gostado da irmã, só para ganhar a atenção, também ele um menino. Com isto, confundiu-se a si próprio, e ficou mais adulto.

A menina atacava-o com o cinto, brincadeiras de gaiato. Ele conseguiu roubar-lhe o cinto numa das investidas e simulou um ataque. A mãe entrou no quarto e acusou-o de maus tratos à menina.

O pai ficava a aspirar a casa depois de saber do nascimento da filha, dizia que era para estar tudo limpo quando ela chegasse. Mas o miúdo só queria saber como era a bebé. Depois viu-a, e sentiu uma tranquilidade e uma paz inesperadas.

A mãe subira ao pediatra, e para distrair a bebé o miúdo pôs-se a brincar com ela usando-se da sua aranha de plástico, acontece que a aranha fazia alergia ao bebé. Quando a mãe chegou acusou o miúdo de saber que estava a fazer mal e de o fazer por gosto.

Alguns anos mais tarde, depois do miúdo se mudar muitas vezes e já não ser um miúdo, a primeira namorada desaparecer doente, e ele não querer ver os livros da nova escola, ela com já parte da vassoura partida na mão, ofegante, com espuma nos cantos da boca, as faces rubras, os maxilares alargados e as narinas dilatadas, os olhos a quererem saltar para fora e ver o mundo (cof cof). Ele sentia uma linha em brasa nas costas, estava aparentemente calmo, muito quieto, a olha-la fixamente com uma chispa no olhar e um sorriso trocista no rosto. Ela dizia: "Não és nosso filho. És filho do diabo!" O rapaz regalava-se com uma descoberta irrefutável, capacidade que tinha para tirar até ao último resquício de auto-controlo da mulher. Se esse poder era ser filho do diabo, havia de o exercitar não só naquela mulher mas noutras mulheres e noutros homens, e dedicar os anos seguintes a refinar essa arte.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada - Fim


We Can Fuck Forever - Rudzielec Madzia


Eu vi-me a ser demais enquanto via muito em ti. Tu és tão traiçoeira quanto os pássaros da alegria.

Aninham-se, parece uma luta, que uns cantem contra os outros, parece-me uma luta que ignorem o silêncio entre si: não descansa na solidão, odeia porque tenta alcançar o que não se alcança: outro.

Talvez porque éramos todos reflexos uns dos outros num espelho de corpos e as palavras faziam amor com as imagens, nós falámos. Abriste a porta e entraste. Estávamos de olhos vendados e corpos sem roupa, uma vela, entre nós, de pernas cruzadas, as mãos nas mãos: havia fogo que passava entre as coisas que éramos nos nossos corpos pequenos, cheios de uma chama que parecia grande e que nos apagou.

Tudo o que aprendi contigo é um pesadelo, quero-te morta sempre que te recordo, quero-te mais fria do que o gelo entre nós: quero-nos dormentes. Quero perder o acesso ao teu nome, contar-te como se fosses uma estória.

“Sinto que te conheço desde sempre, como se o mundo tivesse sido construído aos nossos olhos e sempre tivéssemos sido companheiros.” Quando eu desaparecer, e já não me conhecer, como tu nunca me conheceste, ainda te conhecerei, como sempre me conheceste.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada X


Fear - Ratpat 13


Existia mais um dia, com a luz da manhã fresca nas fossas nasais, e transpunha os portões de ferro e tinta gasta da escola de Oeiras, rindo-me, como sempre o fazia, quando passava pelo porteiro a que chamávamos, alegremente, de Mata-Ratos (às vezes, quando o seguíamos, perseguia-nos de punho fechado). O dia, porém, não ia ser alegre, excepto talvez quando descesse ao jardim com o Henrique à procura de pinhões, e os partíssemos à pedrada. Ás vezes, quando, de longe, na sala de aula de música, me abstraia na janela, via a linha de pinheiros e atingia uma coisa qualquer que estava para lá dessa linha. Pensava, ali, que descobria os padrões das coisas, e as sequências que constituíam os padrões das coisas não se assemelhavam nada à nossa pequena visão, ontem presa às ninharias da altura, hoje, amanhã, como se nada mudasse realmente. As marcas do tempo e do espaço tornavam-se mais como pequenas parcelas de uma pintura, cada uma com mil telas, e nem todas se encontravam na mesma tendência, pelo que, muitas vezes, seguindo determinados percursos, pensava descobrir quem sonhava o meu próprio mundo, e penso que uma vez, toquei os olhos do escritor deste conto. O Norberto, cego de um olho (porque o irmão o apedrejara), referia-se ao clítoris da professora em palavras de um crioulo não esquecido. Depois tocava o sino. Na escola, era sempre cinzento, era sempre manhã fria e lufadas cinzentas. As meninas cumprimentavam-me. “Esqueleto vai doze”, o Luís sorria com os comentários e depois o João Paulo, na sua bicicleta, vinha roubar-lhe os berlindes, torcia-lhe o braço e, ameaçador, eu protegia-o sempre.

Desvio-me da folha, escuto as paredes. As paredes vibram levemente, são paredes de um templo, são o meu segundo corpo. São a minha prisão, e, cá dentro, cabe o céu onde já pranteei todos os meus infernos e fui sempre, dentro de uma infinidade estranha, consolado. Estas paredes podiam ser um espelho de ti, mas não te aceitam, são muralhas, são muralhas porque eu sou o meu castelo. Sou independente, e por isso amo-te sem fraqueza. O meu coração é meu. Dou-o e nunca o perco.

As paredes desaparecem. Existe céu. Existes tu sepultada no céu. Escondida e aninhada no quarto escuro do coração, conduzindo sempre de renovado fôlego os fantasmas da exaustão.

Na escola, todos os sonhos eram pesadelos. O Luís era maior, porque dizia de mim as coisas más que haviam nele. O Luís Meireles era maior porque desviava todos os golpes para o meu peito. Hoje não pude jogar futebol. Balbuciaram qualquer coisa sobre os meus ténis. Amanhã penduraram-me só pelas pernas de um lugar vertiginoso, a queda era a morte. Amanhã gritei e fui içado, continuava vertigem, eu esmurrava o ar e ouvia os risos.

Fecho os olhos. Risos. Eu sou todos eles, eu sou as mãos nas minhas pernas que hoje estão doentes.
Fecho os olhos. Eles riem-se, a ver-me gesticular pateticamente no ar. Eu sou todos eles, e a mão de Deus.
Cigarro e silêncio. Vocês eram nuvens, eu esbracejava mas não vos tocava… vocês: o corpo de Deus.

Os montes tapam o rio de vidas que sou. Inscrevo sinais da parede, mudo porque sou cego, e imagino viver o que vivi. De repente, uma linha de pinheiros, e pela janela, uns olhos de criança fitam-me, compreendem-me.

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende.” Mas eu conheci-te. Conheci-te quando olhaste para mim.

Até nos pesadelos existem momentos de prazer, e mesmo a mente quebrada, embora despreze o seu corpo e o seu ser, ou se conforme na humilhação para se tornar capaz de viver, prevalece na faculdade de perceber que o corpo tem um orgulho singelo de si mesmo, de existir e de estar onde está nas sensações que percorre. Ninguém percorre o meu corpo, o meu corpo percorre as coisas. E hoje, a exaustão, depois do exercício no ginásio da escola, faz-me um brilho forçado nos olhos apagados. Percorro o campo arenoso. Eu vi que ele olhava para mim porque olhei para ele sem medo, ainda não me aprendi a calar, e espero nunca aprender. Existem olhos nos meus olhos que se antecipam de medo e insistem em acelerar o passo, por isso, eu caminho lentamente. De repente, uma dor aguda e a minha cara encontra-se atingida, ao meu lado, uma pedra morre contra o chão, posterior à carne e ao sangue.

Ele disse-me: “As palavras são como pedras que cada um esculpe segundo o capricho próprio, e o egoísmo rouba todas as nossas verdades. Não comunicamos, roubamos. Não existe templo para a nossa expressão, existe o mercado do furto.”

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende”. Mas eu gostava. Eu gostava de poder, pelo menos, morrer nessa vontade.

Na biblioteca, jogava xadrez, e, ano após ano, chegava, rompendo eliminatórias, à final. Ouvi-a declamar, por detrás de uma secretária trespassada em livros de palavras vazias a roubarem espaço vazio, a sua paixão por mim. Elas a rirem-se. Elas a troçarem de mim e do meu corpo. Elas a troçarem dela. Envergonhada, fitava o chão e desculpava-se. A partir desse momento esqueci o seu nome, e ainda hoje não me lembro. O escritor também não se lembra. Nem os padrões entranhados nos padrões seriam capazes de o recuperar.

Olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes.
Estamos muito sós, a flutuar e a atravessar muitos olhos, túneis que desembocam em túneis que em túneis vão desembocar, e existe uma festa de semblantes aberrantes no quarto escuro do meu coração, quando acendem a luz, e o ruído cresce, eu termino em tudo o que conheço. Respiro, em bocas ocas, o desespero que já não desespera.

Risos, a sair de bocas ocas em bocas ocas. Torrentes. A tua mão calorosa? Meu anjo? Gratidão.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada IX


Hollow Project - Garden of Bad Things


Bruma, não existe nenhuma caixa sobre o meu cérebro, não existe cabeça e não existem pés. Não tenho corpo mas tenho bruma negra e a percepção da bruma negra. Ninguém me ouve, ninguém escuta as minhas palavras, eu não as escuto, não tenho voz, onde estão os meus lábios. Peito, peito, incontinência. Dedos, dedos cheios de palavras e que só soltam musica: dedos que nunca conheceram palavras.

Demência, foi no que nos tornámos. Eras tu a tremer no teu quarto como se a morte da tua mãe, depois de dois anos, fosse ainda febre no teu corpo, a impedir-te de pensar, a impedir-te de amar, a gastar a cor das coisas. Oh como tu me querias magoar. Tornamos-nos em demência, eu quis cuidar de ti, quisemos cuidar de ti, e tu quiseste destruir-te sem aviso. Eu fui a primeira ferida que te fizeste. Éramos demência: éramos eu sem cortar unhas, sem me lavar, sem limpar os dentes: era o teu silêncio desconhecido e insuportável. “Somos estação”, e eu ria-me. “Somos estação”, repetia o absurdo.

Demência, foi no que nos tornámos, eu feria-me e escrevia para ti num sangue rosado pela folha branca. Não via nada, a dor era cegueira. Tu nunca aceitaste a minha carta, nunca leste o meu sangue. Depois era praia, era os meus movimentos nos dias como se fossem todos eles movimentos de fugir. Eram os olhos, naquele dia maiores, da minha mãe, uma presença clara, “Calma, tu queres viver tudo ao mesmo tempo. Calma, ainda és tão novito”. Eu repetia, repetia essa verdade em mim: “Eu sou tudo, vivo, em cada detalhe. A minha presa são os momentos, o meu rebanho os segundos.”
A água de Tróia conseguia, por um momento, eclipsar o resto do mundo, juntei a si as minhas lágrimas, o meu interior, que doía, parava só por um instante, de doer lá fora como carne esfolada, esfolada de ti, de não estares nela.

Mentiste-me, quiseste magoar-me cada vez mais: destruí-te com uma só estocada, foste pior que nada: foste sangue por debaixo de cascos de cavalo, sangue que se une à lama de gente que se arrasta de ossos quebrados de luas partidas.

Não tinha boca: O mar fala de coisas de mim: o mar fala de coisas que nunca vi: que perdi para sempre. Tu, quando irrompes das coisas. Formas com demasiado conteúdo, quebravam o mundo.

A Metade Devorada VIII


The Betrayal - Garden of Bad Things


Muitos nomes. Existem muitos nomes em muitas bocas com várias letras, e tu és uma combinação perfeita de letras compostas de sonoridade. Depois, há muitas bocas que exalam o teu ar e pronunciam o teu nome enquanto o ouves, porque, no dia a dia, se cruzam em ti e contigo e te interrompem o ser e dão novas direcções ao olho do espírito. De todas essas vozes que acompanham a tua vida eu nunca ouço o alento, eu nunca ouço o teu nome, ninguém diz o teu nome na minha vida, por isso eu articulo-o muitas vezes nas minhas cordas vocais. Existem todos aqueles que interrompem o teu ser, eu seguro-o todo como um berço de céu, não te atravesso, corro contigo, corremos e somos um só correr.

Condenados ao espelho… Condenados ao espelho…

Caio e rasgo a pele, rasgo a pele e uivo, pareço sentir as alturas das árvores nocturnas como gestos que me tocam, a vida entre a vegetação e os sons longínquos, todos ao alcance do meu acto voraz.
Vislumbre de ti, os meus olhos laranja pintam-te e engolem-te, a minha pelugem é um fogo de Vontade, enrolo-me sobre as tuas coxas descobertas de Luar, mas queimo-te, mas queimo-te. É a tua mordedura em mim. Voraz no sangue que pulsas, voraz na nossa santidade, por um verso de pecado orgulhoso, por uma lua menstruada que nos banhe.
As nossas noites são mentira, e hoje acordei numa noite sem mentir, hoje eu desejo a neblina uma vez mais, na brancura da verdade e nos corredores entre os tempos. Este lobo é um guardião de momentos, os momentos são o seu rebanho, e os segundos as suas presas. Uma lufada de um novo ar e tu cais, a tua carne espirra um perfume desagradável a queimadura, a pacto, e eu desprezo-te, hei de ser eu, sua puta, em cada homem que entrar nas tuas fendas para então cuspir sobre o teu corpo, abandonar-te à exaustão, deixar-te para trás sem olhar para trás, quebrar cascas de ovos pisar os teus beijos e estilhaçar dentes razos ao chão.

Todos os sonhos, são sonhos demais. Toda os sonhos que não sonhamos, são sonhos de menos.

A serpente enrolava-se muitas vezes e eu perdia a conta dos seus desenhos, ela não tinha pele à excepção do calor das mãos enlaçadas, e voltava a traçar as tuas formas no espelho do meu coração, reproduzia o teu riso nas paredes do meu corpo, quando o teu riso dizia o meu nome e eu te salvava, ou quando uma gargalhada de ti deixava escapar o teu nome e me redimias de todos os contrários. Éramos espada e cortávamos o ferro das impossibilidades. Levo-te e o nosso rio come o mar. Vai-te embora, esqueço-te todos os dias. O mar fala-me de ti. O mar fala-me de coisas que eu nunca vi. Estamos sós em todos os cantos que não iluminamos. Fingimos muito, não é?

Fins. Danças e cartas desviadas. Formas desvairadas e saudosas, formas que contem demais para formas. A morte não é nenhum de vocês, a morte não és tu, metade-devorado, nem o simples e infindo vagabundo, a morte é aquilo que vocês impedem, é aquilo que, não alcançando, me rasga o peito e cospe estas palavras sangrentas, convulsiona estas mãos a auto-mutilarem-se em publico. Queimar, queimar e perfurar na queimadura, os olhos cegos e ardentes de todos os leitores: ninguém compreende, os olhos que ofuscam e possuem são os buracos na minha pele, são os meus sentimentos desfigurados em textos erráticos: que corrompem a verdade a cada leitura, que me amarram e me apagam no tempo. As obras não imortalizam, as obras apagam os autores no tempo: desvanecem, irreconhecíveis..

Não há chão. Nunca mais quero chão.

Estávamos sozinhos, quando Deus decidiu queimar os homens. Todas as amarras desatadas, foi como se roubassem articulações, foi como o passar de mutilações: aqui não existes. Aqui tudo acorda e nada existe. Não existem mãos, tudo voa. Aqui as pinturas dissolvem-se, sopros estranhos arrasam os nossos ouvidos e escondem-se num lugar inalcançável. Somos livres: o nosso preço: mascaras, muitas mascaras, todas as mascaras: um monte que sepulta: o céu.

A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

Lembrança: A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem, dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

A Metade Devorada VII


The Beast of Rejection - Brownboots


Era mais imbecil quando procurava comunicar espírito equipado de palavras bem estruturadas e supostamente sábias, e parecia extremamente inteligente e louvável. Porque devia saber que o espírito se expressa de silêncios imbuídos nas coisas. Então as palavras eram insanidades absurdas e as respostas eram como línguas torcidas: de repente o mundo era apatia persistente, crescente a cada teimosa investida.

Todas as coisas banais elevavam as emoções, e estavam até na ponta da língua, como se nós não fossemos intactos devido a segredos. Nas profundidades havia um selo de “sei lá”, uma entrelinha incomodativa de anões (com faces fragmentadas) que sussurram ao ouvido um “não sejas estúpido”.


Vamos para outro lado. Depois risos, e uma linha ténue de cor indigo a penetrar bisbilhoteira e desinteressada nas janelas sombrias e abandonadas das coisas. Nas janelas que às vezes davam para momentos de vida intensa, nas janelas que não possuíam guardiões e em que todos os guardiões são invasores de uma estranheza errática. Nas janelas quebradas de ilesas, que davam para festas de momentos que partilham as suas histórias de carne e sangue vivo: abandonadas eternamente, sombrias de só serem visitadas por olhos escondidos de tudo. “Nunca foste tu”, enrolava-se essa voz, “nunca foste tu a sentir, foi o sentimento das coisas.”

Vamos para outro sítio.

“Se, por um momento, pudesses definir com textura as gravidades mais abstractas, o que significaria para ti a Luz da qual Lúcifer é portador? E o que é isso, que atrai, como a luz solar as plantas, os homens ao Samadhi?” E ela dizia coisas sobre uma divindade abstracta, ao alcance do homem por via do conhecimento. Eu apostava que ela não existia - nem a pessoa, nem a divindade: de olhos como órbitas, de órbitas como cascatas de vazia escuridão (tão terrivelmente inundada de nada), nas dunas da pele contorcida em espirais de tempo que, frequentemente, se enganavam na direcção: em unhas negras e partidas cerradas contra um assento de brutalidades suaves e irreconhecíveis: com desertos de brasa e secura nas palmas das mãos e um coração oferecido aos deuses do tempo: um corpo despejado nos degraus que enganavam estrutura: observava o espectáculo de ilusionismo: ela dizia: conhecimento.
E depois, o ondular do sol intenso no pacífico mar, ela em palavras “orgulho sincero”, eu dizia “gratidão” porque os ouvidos se enchiam de um mel que colava as minhas fibras de volta. A bandeira dela era verdadeira, os leões são solitários.
O vento, a brisa que me tocou, que passou por mim e que não pude agarrar. Todos os homens.
Nós éramos alguma coisa. Se nunca te conheci, deixa-me repousar, um ultimo instante, na memória impossível de ti.

Eu queria ver como seria tudo quando tudo estivesse destruído.

Entrei, interno, nas folhas de Outono externas, e o mundo dançou para mim de novo. Assim, eu voltava daquela noite em que ela se desesperava nas paredes dementes da ausência dele, com que partilhou tortura e agonia até ao ponto do amor, com que criava lápides escarpadas para manchar um coração que me amava de morte. E cambaleava pelas ruas na manhã, depois de a erguer de uma cama de sepulto para que ela pudesse desfrutar de um dia de labor no café em que o patrão obsceno. Naquele beco em que o mundo todo não nos via e nós éramos mais completamente o mundo: que ela usava para falar de fábulas requintadas, nesse, vieram muitos cães. De mente tranquila em vibrações obsoletas, trilhava imponentemente, eles eram um redemoinho de bestas e os seus latidos não furavam, e os seus dentes conseguiam o interior de uma carne tanto amada como estranha. Ela não fora abalada, ela era as coisas e as coisas que eram eram isso mesmo, coisas que eram e já não são, coisas que são ela.

A Metade Devorada VI


Acceptance vs Rejection - Squish Squash


I

O gato, alvo e com um olho de cada cor, estava muito preso, muito apertado e respirava ar queimado e abafado, esfregava-se contra os vidros.

Vesti o fato de macaco branco, coloquei os óculos grossos e fingi que me entusiasmava, cobri os pés de borracha isoladora, fitei as portas largas e gradeadas e abri-as.

Então quando me dizia que a minha zona de trabalho passaria a ser o inferno, fixou-se no meu sorriso e foi-se embora, para o outro lado de filas de maquinas de aço que, por nunca pararem de se mover, podiam bem estar mais vivas que os operadores.
Por vezes os rádios soltavam uma melodia e, se esta melodia fora significativa noutros tempos, éramos invadidos por reminiscências de caminhos humanos, mas a névoa ao contrário de se abrir, fazia-se notar com mais insistência, sendo que os óculos fechados e embaciados do suor eram o maior grilhão que nos separava de tudo o que fora uma vez nosso.

Depois, quando nos atiraram para a sala vidrada e que não era, como tudo naquela cidade secreta com passadeiras e carros colossos de amarelos; e coisas que esmagam e coisas que queimam e coisas que prendem e outras que rasgam; quando nos atiraram para ali e todos iniciaram o processo de deitar fumo pela boca e engolir líquidos castanhos, ou aglomerarem-se como pequenos carneiros em filas por alimento; quando me atiraram para a pequena sala quadrada, senti-me asfixiado. Os passos e os olhares e respirar pesavam-me com o peso dos pesadelos. E ela, que estava por ali, não havia modo de surgir. E quando o fez, na sua falta de sorriso cansado, balbuciou qualquer coisa sobre eu não ir ter com ela, e depois como se não houvesse mais nada a dizer-me, sentou-se com uma desconhecida que era como se conspurcasse tudo o que era familiar e próximo. E eu pedi que se sentasse num outro lugar mais espaçoso, onde eu podia sentar-me também. Os deuses e o diabo sabiam porque estava na fábrica. Os deuses e o diabo sabiam que ela não respeitava a minha falta de dinheiro e que vagabundos poetas se amam por um dia. Ela, como se dormisse, não respondeu, e a sua colega fez um sorriso impossível.


II

De repente, toda a minha vida estava nela, e nas minhas praticas, nas minhas disciplinas sórdidas e bizarras. Depois ela, apoiando o coração na nossa solidão entre os quilómetros de Lisboa-Porto, e horas de trabalho ingrato que me emudeciam os lábios com revolta calada, e um olhar desesperado por escapatórias e soluções, sem que viessem, e dias que faltava e procurava que o meu currículo encaixasse por toda Lisboa; e dias que ela telefonava e eu calado, não nos falávamos quando falávamos, e ela tocava-me como despedidas a prepararem-se. Apoiando o coração na nossa solidão foi rachando-o e quebrou-o. Mas ela havia sempre de voltar, eu sei, porque, coração completo ou metade devorado, éramos casa um do outro, porque jurávamos que amávamos não para amar, mas porque não se continha.

Depois foi o silêncio total: Irreconhecível e fora da vida que se conhecia e concebia. Quatro dias paralisados. Depois uma mensagem: “Telefona-me agora”

Ás vezes, sempre com a mente na alquimia e no deserto, e naquilo que escrevia dia e noite sobre a alma das coisas se resumir numa só alma de coisas, vinha uma espécie de ladrão e esse ladrão, em vez de me roubar o coração, roubava-me a paz ao devolver-mo. Ás vezes aguentava muito, e lia Byron, Blake ou Yeats, depois chorava muito, e continuava a ler entre as lágrimas. De seguida chorava muito sem livros, só comigo e com os meus movimentos desregulados de círculos caminhados. Depois pegava no telemóvel, que tinha estragado quando ela me disse do outro colo, e tentava pessoas: pessoas que me pisavam, prostrando-me humilhado, em lições sobre mim mesmo, em castigos de quebra de eremitério.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Unhat


Behind the Scarecrow, II - David Eppstein


O Sol já está aí. Amerenê, anjo espanta-anjos, costumava eu, quando éramos ambos meninos, e tu vivias num cubo quebra-cabeças algumas vezes e outras crucificado no sopé da montanha, chamar-te, brincando. Não tens sombra na qual te manifestares, cá fora, e por isso posso falar-te directamente, sem ser para dentro. Vamos lá, velho falcão, espantalho encharcado, cujo riso é o chocalho das serpentes, a riqueza, em vez de engrandecer um homem, o diminui, e... a verdade não é diferente das formas das mulheres. Demónio lunar, com o falo de Osiris exorcizo-te e inverto o teu sexo.

No primeiro dia, após penetrar esse túnel de massa cinzenta, que o teu olho de ausência faz notar, passei a correr pelas memórias de criança, as mulheres de quando eu era criança, e que eram sobretudo as vozes nutritivas de si próprias. A minha avó. Ao contrário, nesse primeiro dia, que pareceu eterno, fui me tornando cada vez mais velho e elas tornaram-se meninas. E não compreendia porque brincavam com os meus membros de forma tão perversa, se outra coisa não possuíam além de inocência. Anjo diabólico, que te crês viril, sei te travestido sempre que te mostras ao mundo, até ao ponto mais cruel em que, menina, quase perdes o sexo. É nisso que descubro pois o teu sexo, a sucção que lhe é própria. No segundo dia todo o teu corpo e toda a tua iluminada pele ganharam o poder introvertido com que as bocas, longe da palavra, sugam. Sobretudo, reparei na estranheza do teu sorriso: uma sequência de vagas superficiais e espasmos musculares, sem modificação no profundo dos teus olhos. Descobri que nenhuma mulher tem ser além do corpo, e sentei-me a meditar sobre como não encontrara Isis o pénis de Osiris. Experimentei não te perguntar pela tua verdade, e em vez, te perguntar porque mentias: abanaste a cabeça, riste, e choraste. Compreendi que não compreendias a mentira. É bizarra a forma como, voltada para dentro, só olhas para fora, e através de ti me volto para fora e tudo encontro no interior. Por fim aprendi uma forma de te fazer amor, e descobri a tua última imagem, o teu desprezo por ser, eu, homem e depois por perder as qualidades do homem, mas o teu amor aumentava conforme aumentava o teu desprezo - e a verdade é que não conheces o desprezo, a tua maldade é não conhecer a maldade e a bondade somente.

Eu era o rochedo, que chamavas sem cessar. Pedra a pedra. E quando por fim cheguei ao mar, a tua labuta contra a costa não notou qualquer diferença. No entanto, tu, mulher velhaca e vesga, não percebes que foi de se me levantar, da carcaça, o espírito sobre os teus mares, que a escuridão (tão semelhante a ti própria) te aterroriza? O meu segredo foi além do teu.