
K'ak'ma
"Eles juntaram-se na treva para pensar e reflectir. Foi assim que vieram a decidir qual o material correcto para a criação do homem."








The End - The Doors
A luz negra dos escorpiões foi-se abatendo nos raios rubros do céu e afundaram-se os aracnídeos, lentamente, num remoinho aéreo de sangue. Lodaçal dos vermes e dos demónios importantes – os outros vivem nos caixotes de lixo e na gordura dos opulentos. Os escorpiões em eleições. Rimei. Vamos nos revoltar, vamos, vamos nos revoltar – quis o sangue. As formigas vermelhas cobrem, de mandíbulas estimuladas, esta árvore nua. Um grupo de homens com implantes e microfones em círculo, falam com vozes distorcidas e mecânicas. Falam de partidos como quem fala de contas. Einstein sacrificado com um macaco pendendo da sua garganta por uma forca, e um macaco alado sobre ele, que lhe caga nos olhos e ri. Depois bandeiras, umas pintadas, outras queimadas. Fico cego, só escuto este canto índio. Chego a lembrar-me, depois, dos canibais. E dos canibais para fora, como Antonin Artaud. As pupilas dilatam-se. Que raiva! Que raiva! Vejo homens a vir à costa e eu a roer-lhes os dedos que se agarram à firmeza do pontão no Porto. Está uma ventania danada, tenho relâmpagos dentro do mar. O vosso navio de loucos, afundado. Engolir as entranhas dos poetas inundados. Frenesim do sangue. Chamem-lhe o que lhe chamarem, é isso a poesia. Frenesim do sangue. Eu não bebo. Está um dia solarengo dentro do meu propósito. O meu sorriso não tem igual. Não me confundo com os outros.
Silêncio.
Viste o acidente lá fora?
Uma centena de homens, cada um com uma centena de homens na mão, saiu apressadamente, aos tropeções. E discutiam sobre os corpos moribundos das crianças. O cântico cada vez mais surdo. Um ergueu o punho e esmagou a cabeça vizinha, jorrando mil percevejos.
Correm os carteiros.
Viste o acidente lá fora?



A primeira vez que escreveu poesia soube o que era não ter pais. Escrevera um poema a cantar de fezes, que deixou no correio da sua avó junto com um lenço ao qual se havia assoado. Era uma traquinice, ainda assim percebeu que, ao poetizar, era ele pai e mãe, e nada acima dele.
A primeira coisa é esta. A irmã leva um caniche literalmente arrastado pela trela. O pobre bicho não tem velocidade para acompanhar a menina. Ele dizia para ela parar, sem ser escutado. Depois afirmou, a pulmões cheios, que nunca havia gostado da irmã, só para ganhar a atenção, também ele um menino. Com isto, confundiu-se a si próprio, e ficou mais adulto.
A menina atacava-o com o cinto, brincadeiras de gaiato. Ele conseguiu roubar-lhe o cinto numa das investidas e simulou um ataque. A mãe entrou no quarto e acusou-o de maus tratos à menina.
O pai ficava a aspirar a casa depois de saber do nascimento da filha, dizia que era para estar tudo limpo quando ela chegasse. Mas o miúdo só queria saber como era a bebé. Depois viu-a, e sentiu uma tranquilidade e uma paz inesperadas.
A mãe subira ao pediatra, e para distrair a bebé o miúdo pôs-se a brincar com ela usando-se da sua aranha de plástico, acontece que a aranha fazia alergia ao bebé. Quando a mãe chegou acusou o miúdo de saber que estava a fazer mal e de o fazer por gosto.
Alguns anos mais tarde, depois do miúdo se mudar muitas vezes e já não ser um miúdo, a primeira namorada desaparecer doente, e ele não querer ver os livros da nova escola, ela com já parte da vassoura partida na mão, ofegante, com espuma nos cantos da boca, as faces rubras, os maxilares alargados e as narinas dilatadas, os olhos a quererem saltar para fora e ver o mundo (cof cof). Ele sentia uma linha em brasa nas costas, estava aparentemente calmo, muito quieto, a olha-la fixamente com uma chispa no olhar e um sorriso trocista no rosto. Ela dizia: "Não és nosso filho. És filho do diabo!" O rapaz regalava-se com uma descoberta irrefutável, capacidade que tinha para tirar até ao último resquício de auto-controlo da mulher. Se esse poder era ser filho do diabo, havia de o exercitar não só naquela mulher mas noutras mulheres e noutros homens, e dedicar os anos seguintes a refinar essa arte.








O homem que cavalga longamente por terrenos bravios, sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos oculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça ha o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.
Italo Calvino

«Escolhemos o assunto, o segredo das obras-primas está aí, na escolha do assunto e no temperamento do amor»
«O autor na sua obra, deve ser como Elohim no universo, presente e visível em toda a parte»
«Os grandes artistas não são os rivais do mundo, são os seus copistas»
«A arte existe no instante em que o artista se aproxima da natureza»
«Os grandes artistas têm pátria»
«Na arte só uma coisa importa: explicar»
«Sabei que o segredo da natureza é corrigir as artes»
«Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte não deve ser como esse espelho
Que nos mostra só o nosso próprio rosto»
«É gratuitamente que se descobrem os mistérios da arte»
«O grande artista é um homem completamente realizado e o pequeno tem ainda uma falha a compensar. O segundo consegue invariavelmente compensa-la»
«A arte dos sóbrios pode tocar-nos; enriquece-nos porque encontramos em nós essas normas»
«Toda a forma de arte é uma racionalização da harmonia de emoções no corpo do artista»
«A arte é o mel da alma amassado nas asas da felicidade e do trabalho»
«Por termos verdadeira vida temos arte. A arte começa precisamente onde começa a vida real, onde não há mais nada à nossa frente. Será que a arte não é mais do que uma confissão da nossa potência?»
«Toda a arte é harmonia entre dois semelhantes»
«A verdade é o pressentimento da arte»
«A arte é a mais bela das verdades»
«Toda a arte começa na satisfação física (ou no conforto) da partilha e da imparcialidade»
«A tarefa actual da arte é introduzir a ordem no caos»
«O verdadeiro objectivo da ciência é o prazer; em contrapartida, o verdadeiro objectivo das artes é a verdade»
«Toda a arte é completamente útil»
«A arte exprime sempre algo que não seja ela própria»
«O mundo não é um espelho para reflectir a arte, mas um martelo para forjá-la»
«A natureza é a mão direita da arte. A última só nos deu o ser, mas a primeira tornou-nos homens»
«A lei suprema do belo é a representação da arte»
«A arte é o absoluto lutando por ser auto-expressão»
«A moral deve ser um órgão artístico da vida humana»
«Estar, em qualquer ocasião, satisfeito: toda a arte está nisso»
«É através da perfeição e só pela perfeição, que podemos realizar-nos na arte; pela perfeição e só através da perfeição, nos podemos proteger dos perigos da existência irreal»
«A responsabilidade faz parte do prazer na arte»
«Os espelhos são usados para ver a alma. A arte, para ver a cara»

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«Não há bastantes coisas proibidas pela lei. É preciso um proibir para si próprio outras.»
«Uma boa coisa só o é desde que praticada sem moderação.»
«A ordem é a maior romancista do mundo; para se ser fecundo, basta estudá-la.»
«As obras-primas devem ter sido geradas voluntariamente; a produção ao acaso não vai além da mediocridade.»
«Nós assemelhamos-nos à ordem.»
«Aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, e fará muitíssimas coisas.»
«As pequenas alegrias que nos abençoam a todo o momento podem ser consideradas como destinadas a manter-nos em descanso, a fim de que a serenidade necessária para suportar as grandes felicidades nos relaxe por inteiro durante a bonança.»
«Um acontecimento vivido é infinito, ou pelo menos liberto na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é ilimitado, porque é uma chave para tudo que veio antes e depois.»
«É desacreditando as rosas que as fazemos desabrochar.»
«O homem está pronto para tudo desde que não lhe seja dito com mistério; quem quer ser acreditado deve falar com clareza.»
«Representar é a realidade. É um acto de bondade que o actor inflige a si próprio. Essa bondade tem a ver com a lucidez e isso é algo de muito atractivo.»
«As asas do casamento são tão graciosas que são precisos dois, para dançá-lo, e, por vezes, três.»
«A grandeza da afeição pode medir-se pela grandeza das verdades: tão natural é amarmos aquilo que é perfeito.»
«A prova de um afecto impuro é uma lágrima.»
«Enquanto o poço não seca, sabemos dar valor à água.»
«Os homens estão dispostos a ser prestáveis desde o momento em que têm poder.»
«Todos podem salvar alguém, e não temos de nos abandonar a nós próprios.»
«Quem não quer ser aconselhado, ainda pode ser ajudado.»
«Elohim apenas fez o vinho, mas a natureza fez a água.»
«O álcool consola, preenche os vazios psicológicos, demonstra a presença de Elohim. Compensa o homem, anima a sua razão, transporta-o a regiões supremas onde é mestre do seu próprio destino.»
«As alegrias eternas encobrem os bens passageiros que elas próprias causam.»
«A alegria é a presença do tempo.»
