quinta-feira, 11 de março de 2010

Casa de Fogo


K'ak'ma

Permaneço agora, compassadamente, na Casa de Fogo. Não existe muito a dizer sobre isto. Existe, no que respeita este tema, o fogo, e nada mais. Cá fora, este fogo arde de noite, de dia dormindo no interior, pois é o fogo das flores que se formam a partir do céu e que perdem o perfume nos artifícios, que vão usar essas quintêssencias, no aspecto decaído e consumível, como forja. Distingui a vinda do dia e sai. Entre os fantasmas, viram-me mover como um coiote e por isso tremeram, furaram os ouvidos, os braços, e colocaram os seus corações num vaso que me ofertaram. Mas o Morte Sete, não temendo, convidou-me ao trono em brasa. Perscrutei a Casa de Morcegos, não lhe agradando com resposta. Mas o Morte Um, não temendo, teceu esta questão: "Sobrevives à Casa de Fogo pela graça dos corações dos Jaguares. Porém, quem, em toda Árvore dos Mundos, és tu, que haveis dependurado os seus quatro corpos, esses quatro corpos dos primeiros entre os homens, já sem coração?" Eu respondendo: "Sou a Água da Beleza e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram doçura, para conhecer o seu caminho. Sou a Queda de Água e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram noite, para conhecer o seu caminho. Sou a Água das Araras e devorei a ch'ul daquele jaguar cujas presas eram Lua, para conhecer o seu caminho. Sou o Casa de Água e devorei a ch'ul do Diferenciado, de forma a compreender o caminho. Sou Qo'ahau e subi as Montanhas da Manhã para arrancar da Serpente Imperadora a insígnia da Realeza." Arrogância, pensaram Morte Um e Morte Sete, empurrando-me para a Casa de Morcegos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre o Vento


Saudade - Sara Conde


Desta vez, a simplicidade
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.

Horned Wolf

terça-feira, 9 de março de 2010

Casa de Jaguares


Balam na


Por esta altura o povo de Xibalba e os seus senhores evitavam as pétalas cristalizadas na minha língua e o frio corpo de ossos que a cobria. Fiz-me mover até à Casa de Jaguares. Na porta, uma pintura de mulheres com serpentes no peito a caminhar sobre feras. Prostrei-me a um canto no interior, e descansando permiti os felinos gastarem a sua vitalidade nos meus ossos. De manhã, jaziam, ofegantes. Intacto, devorei, sem pressa, o coração de cada um. Senti a queimadura espalhar-se nos meus órgãos. Os meus olhos de água acolheram o fogo. E abandonando a casa os guardiões puseram-se em fuga, indagando-se sobre a minha origem.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Casa de Gelo


Cic na


Na terceira noite foram-me dadas roupas, sob o pretexto de vir a necessita-las. Conduziram-me à Casa de Gelo, cuja porta se fazia ver ornamentada por três corações de fogo esculpidos a gélido. No interior existia, em toda a câmara e provindo da solidez do frio, o mesmo brilho prateado que antes me sussurrara, mas que desta vez permaneceu em silêncio. Na primeira hora resisti com bravura, aquecendo o corpo por todos os meios. E ainda na segunda.

Na terceira hora o frio vencia-me o corpo trémulo. Despi as roupas, e aprofundei-me nessa hostil temperatura. Toda a vontade e todo o desejo haviam despertado, porque essas coisas é que movem o mundo cego, tendo em vista a sobrevivência dos que, porque vão morrer, pensam poder não vir jamais a morrer. Aprofundei-me no gelo. Deixei de querer, transcendi, e o corpo ganhou o silêncio das coisas congeladas. Encontrava-me a ser o amor que já preservava o universo ainda antes de se conceber: o magnetismo inesgotável que rodeia as coisas que derretem de encontro ao mundo visível: Os imortais, porque a morte já foram.

Não vou morrer, sei já ter morrido. Agora, toda a minha carne no interior dos meus ossos.

Casa de Lâminas


Ch'am


Na segunda noite dirigi-me por meu próprio intento à Casa de Lâminas, cuja entrada em madeira não possuía qualquer inscrição, excepto marcas de haverem existido inscrições depois raspadas. Sentei-me e, enquanto esperava, pela primeira vez desde a minha viagem ao Lugar do Medo, passei pelas brasas. De imediato isto veio chamar uma legião tremeluzente de escaravelhos que ostentavam, no lugar de mandíbulas, tortuosas lâminas. Não soube de outra forma de lidar com esta prova, excepto o que fiz: negociar que, não oferecendo resistência, levassem apenas a carne dos animais. Quero com isto dizer que devoraram somente a minha cauda e as minhas asas. Da minha cauda organizaram um tacho de pétalas encarnadas, e das asas um vaso de pétalas brancas. Um momento posterior, na minha língua fizeram família as pétalas amarelas, que espantaram os insectos ainda antes da manhã ser chegada.

sábado, 6 de março de 2010

Casa de Treva


Ak'ab na


De corações que comandandavam a minha derrota, os Senhores de Xibalba conduziram-me à porta encimada por três esféricas jóias roxas. Avançando pelo lusco-fusco transgredi a passagem. Visitou-me nada e nada poder ver. Depois uma luz prateada que se confundia com o negro estendeu-me alguns objectos, que pude apenas tactear, e fez-lo com a legendagem que se segue:

A Morte deu-me uma chama, eu a tocha e o cigarro oferto. Na treva, acenderás uma clareira. Vinda a aurora, devolverás a tocha e o cigarro ao vulto da morte.

Anui. E não usei a tocha ou o cigarro, para o efeito da luz, aceitei activamente a treva. Vista a negridão da sala, os guardiões pensaram haver concretizado a vitória. Na madrugada, devolvi os objectos. E não ofendendo a treva, não os desgastei nem me apaguei.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Uma Curiosidade Sobre "Crimson Muddle"

A líder de Crimson Muddle, Hellbore, provém de uma excelente banda chamada Deadchovsky, e ali figura nos teclados.


Le Frere Du Sandwichier - Deadchovsky


Desafio


Santa Violenta - Le Vene Di Lucretia

Quem é a Lucrécia? Desbloqueia o próximo post Xochicuicatl colocando a tua resposta na caixa de comentários.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.


Uma Curiosidade sobre "Seraphin Twin"

Em 1996 Brain Terry abandonou a banda para uma tourné extensiva com Dream Disciples (má troca, na minha opinião), dando assim um fim à banda, que conseguiu depois os últimos suspiros com a ajuda de Mark Elder tocando com Garden of Delight e Rosetta Stone em Londres.


Pray - Dream Disciples


Agony - Garden of Delight


Witch - Rosetta Stone


Desafio


La Rousalka - Crimson Muddle

Quem é Rusalka? Descobre e desbloqueias o Xochicuicatl seguinte.

SAÚDA OS SENHORES NO TRONO

Xibalba Mannequins Marca Hoje um Ano de Existência



“Senhor da doença e da dor, da morte e da destruição nas ruas e nos trilhos, da morte e da destruição através da aguardente, da morte e da destruição através da intoxicação, da morte e da destruição pelo vómito, da morte e da destruição pelo esforço e pela exaustão – apresenta-te, senta-te ante este Mundo de cemitério. E também o mestre da dor e do infortúnio, dos ferimentos por pistola e faca e vidro, apresenta-te, senta-te ante este Mundo de cemitério! E também o senhor do vómito e da indigestão, o senhor da febre e da disenteria, e também o senhor da malária e da tuberculose, do inchaço do abdómen (cancro), da gripe e da bronquite, e também o senhor de toda as doenças menores; e também o senhor da varíola, apresenta-te deste lado ante este montanhoso santuário do cemitério! Senta-te neste lugar, sejam quais forem as tuas manifestações; Olhai por nós aqui ante este Mundo. Sentai-vos, todos vós. Senhores, perdoai as minhas faltas.”
(Bunzel 1952, 390).


Sem que penetrasse a rua a Este, a rua a Este penetrou todas as outras e, por fim, tomou-me, que jazia ainda imóvel no centro, uma gárgula a guardar a aridez do deserto. Vi uma sala rodeada de exóticas e ornamentadas passagens para outras câmaras. Dispostos em tronos, por ordem de hierarquia, encontrei os senhores, e não mais havia nesta sala excepto um mastro no centro do tecto em que, chovendo rosas azuis, um coração se agitava. Abaixo, um rosto oval, de olho escarlate na testa e boca aberta em O, emanava o hálito dos silêncios mais antigos que o tempo. Eis o lugar da assembleia. Pensei sem a verbalização deste pensamento. Nudificado, deixei a pele abrir-se e estendi a consciência (o corpo) até ao primeiro Senhor, o leitor poderá compreender o que procurei fazer no tempo que se seguiu se, imagine-se, se focar no centro da sua mão, onde sentirá uma palpitação. De seguida que se sensibilize, digamos, no seu dedo do meio da sua mão esquerda, sem ignorar o resto do corpo, e com este, se force a roubar toda a vitalidade desse dedo que existe entre os outros quatro dedos. Sentirá de imediato, se não for um babuíno, uma dormência profunda nessa zona. Isto foi o que fiz ao primeiro senhor, o que fiz ao segundo, o que fiz ao terceiro, e depois o que fiz ao quarto. O quarto denota uma simples diferença, e que nada tem de extraordinário, dos outros três. Trata-se de um mistério dos sentidos já por todos conhecido. E se o leitor não se resumir ao chimpanzé (trata-se de mera expressão, pois os chimpanzés já o sabiam ainda o homem estava a aprender a ir à Lua), saberá que existe uma diferença vital bastante perceptiva entre a proximidade que estabelece a uma árvore e a um pedaço morto de madeira. O quarto senhor, era mais, pois, como uma árvore, e os três primeiros como manequins de madeira, a quem chamaram de Pai, de Filho, e de Espírito Santo.

Abri também eu uma boca invisível, em O. Arranquei-lhe, como o vendaval arrasa a resistência da floresta, o seu sangue. Escutei-lhe um lamento, e, sabendo que o lamento é o nome manifesto da coisa que lamenta, reconheci “Morte Uma”. Repeti o processo, identificando “Morte Sete”. Tinha agora ambos os senhores dos juízes, e que são o inicio e o fim, representando as húmidas ventosas do tempo e do vento. De seguida feri aquele Coberto de Crostas, Ferida Voadora, cujo ofício é adoecer toda a vida sobre a terra, permitindo as libações de sangue que amarram os demónios à obediência. Depois, o que Recolhe o Sangue, sempre que o chão o recebe, e o distribui aos Senhores, fundindo a mortalidade à eternidade dos mundos (criando o Sol e a Lua). A seguir, e obediente aos primeiros, o Demónio do Pus, servo da criação, e o Espírito Maligno, servo da acção. O domínio dos dois Senhores é derreter as formas dos homens e das mulheres que caminham na terra, sem o qual não poderia, neste momento, pica-los qual angélico mosquito. Depois, o Báculo de Osso e o Báculo de Caveira, cuja obra é retirar do homem sem forma todos os resquícios mortais, o que conseguem por agência da fome e pela ausência total das divindades.
Ainda, o Demónio dos Resíduos, e o Demónio da Punhalada, cujo labor é voltar a cobrir de imundície aqueles que, depois de orientados pelos prévios Senhores, cessam de velar pela sua própria essência. Esses arrastar-se-hão nas formas grosseiras até conseguirem retornar à morte através delas. Por sua vez, aqui trabalha o Senhor Asa, que administra o acidente e o acaso fatal, levando a liberdade caótica até ao vulto mais fixo, e o Inquerideira, que mede o caos pelas gravidades essenciais em relação com as gravidades periféricas, usando-as para assassinar. Os dois consomem os viandantes, como é caso do narrador, pela garganta e pelo peito, levando-os a misturar-se com os seus trajectos, desde que fora dos seus lares, por milagre da morte.
Assim, todos eles foram nomeados. E disse uma voz, cujo som se resumia a “ooooooooooooooooooooooooooooo”, “Saúda os senhores do trono”. Mas eu, sorri. E sorrindo ria-me deles. Eu que sou Tsuk’ te, a Árvore do Mundo, e o fruto de Tsuk’ te. E lembro-me do quadro de Francis Bacon, com todos estes senhores na raiz do corpo, o cérebro, pois o mundo, fora do espelho dos olhos, é do avesso. “Senta-te, ó voz! Eu que reconheço na vida a simples porta para a morte, na morte a simples transição para a vida! Eu, que desposei os femininos corpos despidos dos másculos e incorpóreos deuses da morte, e através dos seus corpos nasci, te digo que nenhum destes é um Senhor, e todos são manequins. Como a manequins que se desejam como eu os saúdo. Manhã, Morte Um! Manhã, Morte Sete.” A todos saudei. Fui então, depois de cada um se apresentar, convidado a sentar-me no trono acima de todos os outros tronos do Lugar do Medo e dos Fantasmas, porque os senhores de Xibalba invejam o conhecimento dos homens e não poderão desenvolver-se sem eles.
Sabendo que se tratava de um trono em brasa, o não fiz, antes tomando a palavra: “Eu, que sou Garras Sangrentas e Dentes Sangrentos; Eu, que desci aqui não como um macaco ou como um artesão, mas como o corpo nu do amor que toma forma a partir da incorpórea guerra para tomar as outras formas, para assimilar o macaco e o artesão na sua sabedoria, te dito: aqui me posarei para vos governar após a travessia da Casa do Fogo.”

Foi assim que vim a conhecer “Casa de Treva”.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Xochicuicatl

Bem vindo a Xochicuicatl, um espaço secreto em Xibalba dedicado à música.

Uma Curiosidade Sobre "Voices of Masada"

Voices of Masada descende de Burning Gates e Revolution By Night.


Oblivion Door - Burning Gates


Remnants - Revolution by Night


Desafio


Atonement - Seraphin Twin

A resposta para esta pergunta é também a resposta para o significado do nome desta banda. Qual a diferença entre o aspecto de Lúcifer e o aspecto dos outros Serafins?

Quem descobrir desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

Xochicuicatl

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Uma Curiosidade Sobre "Radio Werewolf"




Nikolas Schreck entrevistado por Tom Metzger

Apesar de Nikolas Schreck estar documentado na Church of Satan, fundada por Anton LaVey, ele era um militante (e se não encontrarem esta informação em mais lado nenhum, é porque sou eu a fonte) da ONA, aparente adversária da Church of Satan.

Em 2002, depois de muitas contradições, cria com Zeena Schreck (filha única de Anton LaVey) o Sethian Liberation Movement. No mesmo ano, se não me engano, lança Demons of the Flesh: The Complete Guide to Left-Hand Path Sex Magic, um livro tendencioso, medíocre, mais ou menos estupidificante e, dentro desse domínio, sem novidade.

Foi um dos mais poderosos representantes da degeneração do movimento gótico e da sua decadência, talvez (dá-se o generoso benefício da dúvida) porque também em si tenha sido poderoso o ímpeto, que ali é puro, de despir as roupagens para vestir a noite. A treva e a roupagem são o mesmo, treva é conhece-lo. A seguir, a treva e a noite não são o mesmo, e há luz nesse saber.


Desafio


Fragments - Voices of Masada

Quem descobrir e deixar na caixa de comentários o que é Masada, desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

terça-feira, 2 de março de 2010

Xochicuicatl

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Strenght Through Joy - Radio Werewolf


Quem descobrir e deixar na caixa de comentários de onde provém originalmente o termo "Radio Werewolf", desbloqueará o próximo post Xochicuicatl.

Vozes da Encruzilhada


Escultura da Basílica de Paray-le-Monial
Guarda o silêncio e o silêncio te guardará


O viandante aguardou, como o cavaleiro vela eternamente sobre a caveira do seu rei, e um dia viu abrir-se sobre si quatro estradas diversas. A cínica escuridão banhava Oeste. A Norte abriu-se a Lua, serenamente cantando. Viu a Sul o Sol, rugindo, inteiras, as planícies. A Este, palpitante, uma gruta para o interior de um coração.

Pensou nas encruzilhadas, recordou-se de como os rabis ali abandonavam os seus bodes, impondo as mãos sobre os seus focinhos e com eles libertando os seus pecados. Aquilo que largamos tem os seus mundos. Meditou. Poderão os mundos arcar, verdadeiramente, com todas as nossas faltas? Pois não é a sua carne aquela do Cristo Gnóstico apenas através do espírito do pecador? Depois escutou os trilhos. E aquele branco, que dizia:
Não sabeis que estais a ser sonhado, e que essa é a fluidez de toda a imobilidade? E se o reconheceres, não estarás já a sonhar? E, ainda, não será este um despertar? O que te pode ser negado?

Aquele amarelo, que dizia:
Quando o Sol está na sua hora mais alta, quem te haveria de usar como tocha? Não ama o leão o Sol? Que negro seria capaz de o amarrar à cólera, se o leão e a fome não são um contra o outro, mas amantes para sempre em paz?

Aquele vermelho, que não dizia nada.

E aquele negro, que dizia:
A um morto, nenhuma potência visível ou invisível nega a vida. A um morto, nenhuma porta se fecha. A um morto, nenhuma maravilha é insondável. A um morto, nenhuma amarra assombra. A um morto, nenhum senhor no trono atormenta.

Então, eu, o viandante, mesmo enquanto aguardava esperei, e aguardando enquanto esperava, vi a canoa tornar-se novamente Adão e Eva. Exaustos, na espera, mumificaram-se nos braços um do outro, arderam sem fim nem óleo.

Até os fantasmas nas ruas se cansaram e, mesmo sem casas, abandonaram os moldes e voltaram para as suas sombrias habitações. Todos os manequins de pus se tornaram relógios do tempo escorrendo para o solo como areia. Sobrou apenas a rua que nada tinha vindo a dizer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Rio de Pus



The Wreckage of My Flesh - My Dying Bride


Quem testemunhou a confusa ira do sangue, não se felicitará com, e preferirá a sua ira, à observância da letal melancolia a seguir advinda: descobrindo-se rejeitado, após o tempo demorado da travessia, o sangue desiste de si mesmo, e eis que em pus se vai suicidar. O fétido da doença demarca a corrente pútrida. A canoa, nauseada, estremece, vomitando cabelos loiros que rodopiam para se perder com o verde, com o amarelo. Toda a raiva que o sangue, por gerações todas, não domou, agora é corpo no homem para o consumir (agora é furúnculo no homem, para o consumir). Mas, não tendo antes cedido à sede, e primeiro aprendido a auto-revolução do escorpião, reconheço ser este pus a (anti)matéria-prima dos magos. Com ele, construo os manequins, e guardando aguardo, na incerteza de que a minha espera fará do meu vulto a estátua correcta.

Um pardal pousa sobre cada um dos manequins, separa a lança para cantar, os olhares vertendo vazio, e toda a sonoridade da câmara azulada no pus, inclusive o ruído mudo do silêncio, é engolida. Nenhuma vibração, nenhuma ressonância. O meu coração bate sem eco. É hora.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Rio de Sangue


The End - The Doors

A luz negra dos escorpiões foi-se abatendo nos raios rubros do céu e afundaram-se os aracnídeos, lentamente, num remoinho aéreo de sangue. Lodaçal dos vermes e dos demónios importantes – os outros vivem nos caixotes de lixo e na gordura dos opulentos. Os escorpiões em eleições. Rimei. Vamos nos revoltar, vamos, vamos nos revoltar – quis o sangue. As formigas vermelhas cobrem, de mandíbulas estimuladas, esta árvore nua. Um grupo de homens com implantes e microfones em círculo, falam com vozes distorcidas e mecânicas. Falam de partidos como quem fala de contas. Einstein sacrificado com um macaco pendendo da sua garganta por uma forca, e um macaco alado sobre ele, que lhe caga nos olhos e ri. Depois bandeiras, umas pintadas, outras queimadas. Fico cego, só escuto este canto índio. Chego a lembrar-me, depois, dos canibais. E dos canibais para fora, como Antonin Artaud. As pupilas dilatam-se. Que raiva! Que raiva! Vejo homens a vir à costa e eu a roer-lhes os dedos que se agarram à firmeza do pontão no Porto. Está uma ventania danada, tenho relâmpagos dentro do mar. O vosso navio de loucos, afundado. Engolir as entranhas dos poetas inundados. Frenesim do sangue. Chamem-lhe o que lhe chamarem, é isso a poesia. Frenesim do sangue. Eu não bebo. Está um dia solarengo dentro do meu propósito. O meu sorriso não tem igual. Não me confundo com os outros.



Silêncio.

Viste o acidente lá fora?

Uma centena de homens, cada um com uma centena de homens na mão, saiu apressadamente, aos tropeções. E discutiam sobre os corpos moribundos das crianças. O cântico cada vez mais surdo. Um ergueu o punho e esmagou a cabeça vizinha, jorrando mil percevejos.

Correm os carteiros.

Viste o acidente lá fora?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Rio de Escorpiões




Atravessei já os primeiros vales, escavados previamente por rios que então secaram, deixando-me aos pés nus o verde. Desci a Xibalba despido, e na forma de uma árvore sem cascalho (homem, alguma vez notaste que o sistema nervoso humano - pausa - é uma árvore de raízes no topo?). Nascem flores vermelhas no seio da verdura, o céu é feito de planuras idênticas em textura à vegetação terrestre. Mas é difícil de o contemplar, com as suas rachas sanguíneas, porque logo sou interceptado por legiões de pardais, pequenos pardalecos, cantando alegremente, correndo como a superfície de um rio sobre o telhado dos vales. E serpenteando essas fundas sinuosidades celestes, vejo-os incendiarem-se de imobilidade. Suponho estar próximo do fim. Imóveis. O apatetado chilrear cai no chão e estatela-se em mil histerias de silêncio. Legião fita-me, eu passo. Uma canoa, revestida da pele de Eva, e cujas madeiras são ossos de Adão, espera-me, movida aos soluços por um imenso abismo de escorpiões da cor das covas que a luz não ousa.

Nos mundos dos homens, tenho visto muito, esta metáfora não me assusta. Sei exactamente o que dizer perante o violento desespero dos homens, que aprenderam, ainda no Éden, a implorar misericórdia às suas sombras. Embora me ria, o meu riso não é mais glorioso do que o do louco que, frente a uma procissão de escorpiões, se queda a rir (porque se ri sozinho).

Não é tempo de ser inútil. Salto corajosamente para a canoa, e recordo-me desta canção (ela impedirá que falhe na minha travessia).

Ah, quanta vez, na hora suave pela morte vivemos, porque só somos hoje, porque morremos para ontem. Pela morte esperamos, porque só poderemos crer em amanhã, pela confiança da morte de hoje. Tudo o que temos é a 'Morte', tudo o que queremos é a morte, é morte tudo o que desejamos querer...
Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tzuqunel


Shaman - John Myers


Um plácido mar sobre a carcaça, um silente céu abaixo,
E sem fim não há corvo, não há vaca sem fim,
Ilimitado cipreste ou jade que se haja reunido.
Coisa alguma se erigiu, o que forma está sozinho,
Sozinho o que reveste: eis luz e conhecimento.

Solitários, afundaram a noite, o conhecimento está sozinho
Tornou-se homem. A luz está sozinha,
É montanha e é vale, túmulo e dolmén.


Nota: Sendo luz, o verdadeiro homem só reconhece luz no que o rodeia, esta é a natureza do conhecimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Luz do Mundo

Dedicado a R.







As ervas ardem a noite e o silêncio comove-se em linguagem.
De mim até ao céu pendura-se a sombra invertida das árvores
O vazio roça contra a poesia da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Tejo.

Escuta-se então, na penumbra do clarão
O sibilar constante das correntes,
A pureza do seu negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu perdi-me, para encontrar as ninfas deste mar.

Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Ao som de rede estendida. Uma a uma, diz-me palavras,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos mortos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.


Horned Wolf




Parabéns, desbloqueou este post

Para todos os leitores de "Xibalba Mannequins"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diários do Quotidiano



A primeira vez que escreveu poesia soube o que era não ter pais. Escrevera um poema a cantar de fezes, que deixou no correio da sua avó junto com um lenço ao qual se havia assoado. Era uma traquinice, ainda assim percebeu que, ao poetizar, era ele pai e mãe, e nada acima dele.

A primeira coisa é esta. A irmã leva um caniche literalmente arrastado pela trela. O pobre bicho não tem velocidade para acompanhar a menina. Ele dizia para ela parar, sem ser escutado. Depois afirmou, a pulmões cheios, que nunca havia gostado da irmã, só para ganhar a atenção, também ele um menino. Com isto, confundiu-se a si próprio, e ficou mais adulto.

A menina atacava-o com o cinto, brincadeiras de gaiato. Ele conseguiu roubar-lhe o cinto numa das investidas e simulou um ataque. A mãe entrou no quarto e acusou-o de maus tratos à menina.

O pai ficava a aspirar a casa depois de saber do nascimento da filha, dizia que era para estar tudo limpo quando ela chegasse. Mas o miúdo só queria saber como era a bebé. Depois viu-a, e sentiu uma tranquilidade e uma paz inesperadas.

A mãe subira ao pediatra, e para distrair a bebé o miúdo pôs-se a brincar com ela usando-se da sua aranha de plástico, acontece que a aranha fazia alergia ao bebé. Quando a mãe chegou acusou o miúdo de saber que estava a fazer mal e de o fazer por gosto.

Alguns anos mais tarde, depois do miúdo se mudar muitas vezes e já não ser um miúdo, a primeira namorada desaparecer doente, e ele não querer ver os livros da nova escola, ela com já parte da vassoura partida na mão, ofegante, com espuma nos cantos da boca, as faces rubras, os maxilares alargados e as narinas dilatadas, os olhos a quererem saltar para fora e ver o mundo (cof cof). Ele sentia uma linha em brasa nas costas, estava aparentemente calmo, muito quieto, a olha-la fixamente com uma chispa no olhar e um sorriso trocista no rosto. Ela dizia: "Não és nosso filho. És filho do diabo!" O rapaz regalava-se com uma descoberta irrefutável, capacidade que tinha para tirar até ao último resquício de auto-controlo da mulher. Se esse poder era ser filho do diabo, havia de o exercitar não só naquela mulher mas noutras mulheres e noutros homens, e dedicar os anos seguintes a refinar essa arte.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada - Fim


We Can Fuck Forever - Rudzielec Madzia


Eu vi-me a ser demais enquanto via muito em ti. Tu és tão traiçoeira quanto os pássaros da alegria.

Aninham-se, parece uma luta, que uns cantem contra os outros, parece-me uma luta que ignorem o silêncio entre si: não descansa na solidão, odeia porque tenta alcançar o que não se alcança: outro.

Talvez porque éramos todos reflexos uns dos outros num espelho de corpos e as palavras faziam amor com as imagens, nós falámos. Abriste a porta e entraste. Estávamos de olhos vendados e corpos sem roupa, uma vela, entre nós, de pernas cruzadas, as mãos nas mãos: havia fogo que passava entre as coisas que éramos nos nossos corpos pequenos, cheios de uma chama que parecia grande e que nos apagou.

Tudo o que aprendi contigo é um pesadelo, quero-te morta sempre que te recordo, quero-te mais fria do que o gelo entre nós: quero-nos dormentes. Quero perder o acesso ao teu nome, contar-te como se fosses uma estória.

“Sinto que te conheço desde sempre, como se o mundo tivesse sido construído aos nossos olhos e sempre tivéssemos sido companheiros.” Quando eu desaparecer, e já não me conhecer, como tu nunca me conheceste, ainda te conhecerei, como sempre me conheceste.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada X


Fear - Ratpat 13


Existia mais um dia, com a luz da manhã fresca nas fossas nasais, e transpunha os portões de ferro e tinta gasta da escola de Oeiras, rindo-me, como sempre o fazia, quando passava pelo porteiro a que chamávamos, alegremente, de Mata-Ratos (às vezes, quando o seguíamos, perseguia-nos de punho fechado). O dia, porém, não ia ser alegre, excepto talvez quando descesse ao jardim com o Henrique à procura de pinhões, e os partíssemos à pedrada. Ás vezes, quando, de longe, na sala de aula de música, me abstraia na janela, via a linha de pinheiros e atingia uma coisa qualquer que estava para lá dessa linha. Pensava, ali, que descobria os padrões das coisas, e as sequências que constituíam os padrões das coisas não se assemelhavam nada à nossa pequena visão, ontem presa às ninharias da altura, hoje, amanhã, como se nada mudasse realmente. As marcas do tempo e do espaço tornavam-se mais como pequenas parcelas de uma pintura, cada uma com mil telas, e nem todas se encontravam na mesma tendência, pelo que, muitas vezes, seguindo determinados percursos, pensava descobrir quem sonhava o meu próprio mundo, e penso que uma vez, toquei os olhos do escritor deste conto. O Norberto, cego de um olho (porque o irmão o apedrejara), referia-se ao clítoris da professora em palavras de um crioulo não esquecido. Depois tocava o sino. Na escola, era sempre cinzento, era sempre manhã fria e lufadas cinzentas. As meninas cumprimentavam-me. “Esqueleto vai doze”, o Luís sorria com os comentários e depois o João Paulo, na sua bicicleta, vinha roubar-lhe os berlindes, torcia-lhe o braço e, ameaçador, eu protegia-o sempre.

Desvio-me da folha, escuto as paredes. As paredes vibram levemente, são paredes de um templo, são o meu segundo corpo. São a minha prisão, e, cá dentro, cabe o céu onde já pranteei todos os meus infernos e fui sempre, dentro de uma infinidade estranha, consolado. Estas paredes podiam ser um espelho de ti, mas não te aceitam, são muralhas, são muralhas porque eu sou o meu castelo. Sou independente, e por isso amo-te sem fraqueza. O meu coração é meu. Dou-o e nunca o perco.

As paredes desaparecem. Existe céu. Existes tu sepultada no céu. Escondida e aninhada no quarto escuro do coração, conduzindo sempre de renovado fôlego os fantasmas da exaustão.

Na escola, todos os sonhos eram pesadelos. O Luís era maior, porque dizia de mim as coisas más que haviam nele. O Luís Meireles era maior porque desviava todos os golpes para o meu peito. Hoje não pude jogar futebol. Balbuciaram qualquer coisa sobre os meus ténis. Amanhã penduraram-me só pelas pernas de um lugar vertiginoso, a queda era a morte. Amanhã gritei e fui içado, continuava vertigem, eu esmurrava o ar e ouvia os risos.

Fecho os olhos. Risos. Eu sou todos eles, eu sou as mãos nas minhas pernas que hoje estão doentes.
Fecho os olhos. Eles riem-se, a ver-me gesticular pateticamente no ar. Eu sou todos eles, e a mão de Deus.
Cigarro e silêncio. Vocês eram nuvens, eu esbracejava mas não vos tocava… vocês: o corpo de Deus.

Os montes tapam o rio de vidas que sou. Inscrevo sinais da parede, mudo porque sou cego, e imagino viver o que vivi. De repente, uma linha de pinheiros, e pela janela, uns olhos de criança fitam-me, compreendem-me.

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende.” Mas eu conheci-te. Conheci-te quando olhaste para mim.

Até nos pesadelos existem momentos de prazer, e mesmo a mente quebrada, embora despreze o seu corpo e o seu ser, ou se conforme na humilhação para se tornar capaz de viver, prevalece na faculdade de perceber que o corpo tem um orgulho singelo de si mesmo, de existir e de estar onde está nas sensações que percorre. Ninguém percorre o meu corpo, o meu corpo percorre as coisas. E hoje, a exaustão, depois do exercício no ginásio da escola, faz-me um brilho forçado nos olhos apagados. Percorro o campo arenoso. Eu vi que ele olhava para mim porque olhei para ele sem medo, ainda não me aprendi a calar, e espero nunca aprender. Existem olhos nos meus olhos que se antecipam de medo e insistem em acelerar o passo, por isso, eu caminho lentamente. De repente, uma dor aguda e a minha cara encontra-se atingida, ao meu lado, uma pedra morre contra o chão, posterior à carne e ao sangue.

Ele disse-me: “As palavras são como pedras que cada um esculpe segundo o capricho próprio, e o egoísmo rouba todas as nossas verdades. Não comunicamos, roubamos. Não existe templo para a nossa expressão, existe o mercado do furto.”

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende”. Mas eu gostava. Eu gostava de poder, pelo menos, morrer nessa vontade.

Na biblioteca, jogava xadrez, e, ano após ano, chegava, rompendo eliminatórias, à final. Ouvi-a declamar, por detrás de uma secretária trespassada em livros de palavras vazias a roubarem espaço vazio, a sua paixão por mim. Elas a rirem-se. Elas a troçarem de mim e do meu corpo. Elas a troçarem dela. Envergonhada, fitava o chão e desculpava-se. A partir desse momento esqueci o seu nome, e ainda hoje não me lembro. O escritor também não se lembra. Nem os padrões entranhados nos padrões seriam capazes de o recuperar.

Olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes.
Estamos muito sós, a flutuar e a atravessar muitos olhos, túneis que desembocam em túneis que em túneis vão desembocar, e existe uma festa de semblantes aberrantes no quarto escuro do meu coração, quando acendem a luz, e o ruído cresce, eu termino em tudo o que conheço. Respiro, em bocas ocas, o desespero que já não desespera.

Risos, a sair de bocas ocas em bocas ocas. Torrentes. A tua mão calorosa? Meu anjo? Gratidão.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada IX


Hollow Project - Garden of Bad Things


Bruma, não existe nenhuma caixa sobre o meu cérebro, não existe cabeça e não existem pés. Não tenho corpo mas tenho bruma negra e a percepção da bruma negra. Ninguém me ouve, ninguém escuta as minhas palavras, eu não as escuto, não tenho voz, onde estão os meus lábios. Peito, peito, incontinência. Dedos, dedos cheios de palavras e que só soltam musica: dedos que nunca conheceram palavras.

Demência, foi no que nos tornámos. Eras tu a tremer no teu quarto como se a morte da tua mãe, depois de dois anos, fosse ainda febre no teu corpo, a impedir-te de pensar, a impedir-te de amar, a gastar a cor das coisas. Oh como tu me querias magoar. Tornamos-nos em demência, eu quis cuidar de ti, quisemos cuidar de ti, e tu quiseste destruir-te sem aviso. Eu fui a primeira ferida que te fizeste. Éramos demência: éramos eu sem cortar unhas, sem me lavar, sem limpar os dentes: era o teu silêncio desconhecido e insuportável. “Somos estação”, e eu ria-me. “Somos estação”, repetia o absurdo.

Demência, foi no que nos tornámos, eu feria-me e escrevia para ti num sangue rosado pela folha branca. Não via nada, a dor era cegueira. Tu nunca aceitaste a minha carta, nunca leste o meu sangue. Depois era praia, era os meus movimentos nos dias como se fossem todos eles movimentos de fugir. Eram os olhos, naquele dia maiores, da minha mãe, uma presença clara, “Calma, tu queres viver tudo ao mesmo tempo. Calma, ainda és tão novito”. Eu repetia, repetia essa verdade em mim: “Eu sou tudo, vivo, em cada detalhe. A minha presa são os momentos, o meu rebanho os segundos.”
A água de Tróia conseguia, por um momento, eclipsar o resto do mundo, juntei a si as minhas lágrimas, o meu interior, que doía, parava só por um instante, de doer lá fora como carne esfolada, esfolada de ti, de não estares nela.

Mentiste-me, quiseste magoar-me cada vez mais: destruí-te com uma só estocada, foste pior que nada: foste sangue por debaixo de cascos de cavalo, sangue que se une à lama de gente que se arrasta de ossos quebrados de luas partidas.

Não tinha boca: O mar fala de coisas de mim: o mar fala de coisas que nunca vi: que perdi para sempre. Tu, quando irrompes das coisas. Formas com demasiado conteúdo, quebravam o mundo.

A Metade Devorada VIII


The Betrayal - Garden of Bad Things


Muitos nomes. Existem muitos nomes em muitas bocas com várias letras, e tu és uma combinação perfeita de letras compostas de sonoridade. Depois, há muitas bocas que exalam o teu ar e pronunciam o teu nome enquanto o ouves, porque, no dia a dia, se cruzam em ti e contigo e te interrompem o ser e dão novas direcções ao olho do espírito. De todas essas vozes que acompanham a tua vida eu nunca ouço o alento, eu nunca ouço o teu nome, ninguém diz o teu nome na minha vida, por isso eu articulo-o muitas vezes nas minhas cordas vocais. Existem todos aqueles que interrompem o teu ser, eu seguro-o todo como um berço de céu, não te atravesso, corro contigo, corremos e somos um só correr.

Condenados ao espelho… Condenados ao espelho…

Caio e rasgo a pele, rasgo a pele e uivo, pareço sentir as alturas das árvores nocturnas como gestos que me tocam, a vida entre a vegetação e os sons longínquos, todos ao alcance do meu acto voraz.
Vislumbre de ti, os meus olhos laranja pintam-te e engolem-te, a minha pelugem é um fogo de Vontade, enrolo-me sobre as tuas coxas descobertas de Luar, mas queimo-te, mas queimo-te. É a tua mordedura em mim. Voraz no sangue que pulsas, voraz na nossa santidade, por um verso de pecado orgulhoso, por uma lua menstruada que nos banhe.
As nossas noites são mentira, e hoje acordei numa noite sem mentir, hoje eu desejo a neblina uma vez mais, na brancura da verdade e nos corredores entre os tempos. Este lobo é um guardião de momentos, os momentos são o seu rebanho, e os segundos as suas presas. Uma lufada de um novo ar e tu cais, a tua carne espirra um perfume desagradável a queimadura, a pacto, e eu desprezo-te, hei de ser eu, sua puta, em cada homem que entrar nas tuas fendas para então cuspir sobre o teu corpo, abandonar-te à exaustão, deixar-te para trás sem olhar para trás, quebrar cascas de ovos pisar os teus beijos e estilhaçar dentes razos ao chão.

Todos os sonhos, são sonhos demais. Toda os sonhos que não sonhamos, são sonhos de menos.

A serpente enrolava-se muitas vezes e eu perdia a conta dos seus desenhos, ela não tinha pele à excepção do calor das mãos enlaçadas, e voltava a traçar as tuas formas no espelho do meu coração, reproduzia o teu riso nas paredes do meu corpo, quando o teu riso dizia o meu nome e eu te salvava, ou quando uma gargalhada de ti deixava escapar o teu nome e me redimias de todos os contrários. Éramos espada e cortávamos o ferro das impossibilidades. Levo-te e o nosso rio come o mar. Vai-te embora, esqueço-te todos os dias. O mar fala-me de ti. O mar fala-me de coisas que eu nunca vi. Estamos sós em todos os cantos que não iluminamos. Fingimos muito, não é?

Fins. Danças e cartas desviadas. Formas desvairadas e saudosas, formas que contem demais para formas. A morte não é nenhum de vocês, a morte não és tu, metade-devorado, nem o simples e infindo vagabundo, a morte é aquilo que vocês impedem, é aquilo que, não alcançando, me rasga o peito e cospe estas palavras sangrentas, convulsiona estas mãos a auto-mutilarem-se em publico. Queimar, queimar e perfurar na queimadura, os olhos cegos e ardentes de todos os leitores: ninguém compreende, os olhos que ofuscam e possuem são os buracos na minha pele, são os meus sentimentos desfigurados em textos erráticos: que corrompem a verdade a cada leitura, que me amarram e me apagam no tempo. As obras não imortalizam, as obras apagam os autores no tempo: desvanecem, irreconhecíveis..

Não há chão. Nunca mais quero chão.

Estávamos sozinhos, quando Deus decidiu queimar os homens. Todas as amarras desatadas, foi como se roubassem articulações, foi como o passar de mutilações: aqui não existes. Aqui tudo acorda e nada existe. Não existem mãos, tudo voa. Aqui as pinturas dissolvem-se, sopros estranhos arrasam os nossos ouvidos e escondem-se num lugar inalcançável. Somos livres: o nosso preço: mascaras, muitas mascaras, todas as mascaras: um monte que sepulta: o céu.

A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

Lembrança: A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem, dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

A Metade Devorada VII


The Beast of Rejection - Brownboots


Era mais imbecil quando procurava comunicar espírito equipado de palavras bem estruturadas e supostamente sábias, e parecia extremamente inteligente e louvável. Porque devia saber que o espírito se expressa de silêncios imbuídos nas coisas. Então as palavras eram insanidades absurdas e as respostas eram como línguas torcidas: de repente o mundo era apatia persistente, crescente a cada teimosa investida.

Todas as coisas banais elevavam as emoções, e estavam até na ponta da língua, como se nós não fossemos intactos devido a segredos. Nas profundidades havia um selo de “sei lá”, uma entrelinha incomodativa de anões (com faces fragmentadas) que sussurram ao ouvido um “não sejas estúpido”.


Vamos para outro lado. Depois risos, e uma linha ténue de cor indigo a penetrar bisbilhoteira e desinteressada nas janelas sombrias e abandonadas das coisas. Nas janelas que às vezes davam para momentos de vida intensa, nas janelas que não possuíam guardiões e em que todos os guardiões são invasores de uma estranheza errática. Nas janelas quebradas de ilesas, que davam para festas de momentos que partilham as suas histórias de carne e sangue vivo: abandonadas eternamente, sombrias de só serem visitadas por olhos escondidos de tudo. “Nunca foste tu”, enrolava-se essa voz, “nunca foste tu a sentir, foi o sentimento das coisas.”

Vamos para outro sítio.

“Se, por um momento, pudesses definir com textura as gravidades mais abstractas, o que significaria para ti a Luz da qual Lúcifer é portador? E o que é isso, que atrai, como a luz solar as plantas, os homens ao Samadhi?” E ela dizia coisas sobre uma divindade abstracta, ao alcance do homem por via do conhecimento. Eu apostava que ela não existia - nem a pessoa, nem a divindade: de olhos como órbitas, de órbitas como cascatas de vazia escuridão (tão terrivelmente inundada de nada), nas dunas da pele contorcida em espirais de tempo que, frequentemente, se enganavam na direcção: em unhas negras e partidas cerradas contra um assento de brutalidades suaves e irreconhecíveis: com desertos de brasa e secura nas palmas das mãos e um coração oferecido aos deuses do tempo: um corpo despejado nos degraus que enganavam estrutura: observava o espectáculo de ilusionismo: ela dizia: conhecimento.
E depois, o ondular do sol intenso no pacífico mar, ela em palavras “orgulho sincero”, eu dizia “gratidão” porque os ouvidos se enchiam de um mel que colava as minhas fibras de volta. A bandeira dela era verdadeira, os leões são solitários.
O vento, a brisa que me tocou, que passou por mim e que não pude agarrar. Todos os homens.
Nós éramos alguma coisa. Se nunca te conheci, deixa-me repousar, um ultimo instante, na memória impossível de ti.

Eu queria ver como seria tudo quando tudo estivesse destruído.

Entrei, interno, nas folhas de Outono externas, e o mundo dançou para mim de novo. Assim, eu voltava daquela noite em que ela se desesperava nas paredes dementes da ausência dele, com que partilhou tortura e agonia até ao ponto do amor, com que criava lápides escarpadas para manchar um coração que me amava de morte. E cambaleava pelas ruas na manhã, depois de a erguer de uma cama de sepulto para que ela pudesse desfrutar de um dia de labor no café em que o patrão obsceno. Naquele beco em que o mundo todo não nos via e nós éramos mais completamente o mundo: que ela usava para falar de fábulas requintadas, nesse, vieram muitos cães. De mente tranquila em vibrações obsoletas, trilhava imponentemente, eles eram um redemoinho de bestas e os seus latidos não furavam, e os seus dentes conseguiam o interior de uma carne tanto amada como estranha. Ela não fora abalada, ela era as coisas e as coisas que eram eram isso mesmo, coisas que eram e já não são, coisas que são ela.

A Metade Devorada VI


Acceptance vs Rejection - Squish Squash


I

O gato, alvo e com um olho de cada cor, estava muito preso, muito apertado e respirava ar queimado e abafado, esfregava-se contra os vidros.

Vesti o fato de macaco branco, coloquei os óculos grossos e fingi que me entusiasmava, cobri os pés de borracha isoladora, fitei as portas largas e gradeadas e abri-as.

Então quando me dizia que a minha zona de trabalho passaria a ser o inferno, fixou-se no meu sorriso e foi-se embora, para o outro lado de filas de maquinas de aço que, por nunca pararem de se mover, podiam bem estar mais vivas que os operadores.
Por vezes os rádios soltavam uma melodia e, se esta melodia fora significativa noutros tempos, éramos invadidos por reminiscências de caminhos humanos, mas a névoa ao contrário de se abrir, fazia-se notar com mais insistência, sendo que os óculos fechados e embaciados do suor eram o maior grilhão que nos separava de tudo o que fora uma vez nosso.

Depois, quando nos atiraram para a sala vidrada e que não era, como tudo naquela cidade secreta com passadeiras e carros colossos de amarelos; e coisas que esmagam e coisas que queimam e coisas que prendem e outras que rasgam; quando nos atiraram para ali e todos iniciaram o processo de deitar fumo pela boca e engolir líquidos castanhos, ou aglomerarem-se como pequenos carneiros em filas por alimento; quando me atiraram para a pequena sala quadrada, senti-me asfixiado. Os passos e os olhares e respirar pesavam-me com o peso dos pesadelos. E ela, que estava por ali, não havia modo de surgir. E quando o fez, na sua falta de sorriso cansado, balbuciou qualquer coisa sobre eu não ir ter com ela, e depois como se não houvesse mais nada a dizer-me, sentou-se com uma desconhecida que era como se conspurcasse tudo o que era familiar e próximo. E eu pedi que se sentasse num outro lugar mais espaçoso, onde eu podia sentar-me também. Os deuses e o diabo sabiam porque estava na fábrica. Os deuses e o diabo sabiam que ela não respeitava a minha falta de dinheiro e que vagabundos poetas se amam por um dia. Ela, como se dormisse, não respondeu, e a sua colega fez um sorriso impossível.


II

De repente, toda a minha vida estava nela, e nas minhas praticas, nas minhas disciplinas sórdidas e bizarras. Depois ela, apoiando o coração na nossa solidão entre os quilómetros de Lisboa-Porto, e horas de trabalho ingrato que me emudeciam os lábios com revolta calada, e um olhar desesperado por escapatórias e soluções, sem que viessem, e dias que faltava e procurava que o meu currículo encaixasse por toda Lisboa; e dias que ela telefonava e eu calado, não nos falávamos quando falávamos, e ela tocava-me como despedidas a prepararem-se. Apoiando o coração na nossa solidão foi rachando-o e quebrou-o. Mas ela havia sempre de voltar, eu sei, porque, coração completo ou metade devorado, éramos casa um do outro, porque jurávamos que amávamos não para amar, mas porque não se continha.

Depois foi o silêncio total: Irreconhecível e fora da vida que se conhecia e concebia. Quatro dias paralisados. Depois uma mensagem: “Telefona-me agora”

Ás vezes, sempre com a mente na alquimia e no deserto, e naquilo que escrevia dia e noite sobre a alma das coisas se resumir numa só alma de coisas, vinha uma espécie de ladrão e esse ladrão, em vez de me roubar o coração, roubava-me a paz ao devolver-mo. Ás vezes aguentava muito, e lia Byron, Blake ou Yeats, depois chorava muito, e continuava a ler entre as lágrimas. De seguida chorava muito sem livros, só comigo e com os meus movimentos desregulados de círculos caminhados. Depois pegava no telemóvel, que tinha estragado quando ela me disse do outro colo, e tentava pessoas: pessoas que me pisavam, prostrando-me humilhado, em lições sobre mim mesmo, em castigos de quebra de eremitério.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Unhat


Behind the Scarecrow, II - David Eppstein


O Sol já está aí. Amerenê, anjo espanta-anjos, costumava eu, quando éramos ambos meninos, e tu vivias num cubo quebra-cabeças algumas vezes e outras crucificado no sopé da montanha, chamar-te, brincando. Não tens sombra na qual te manifestares, cá fora, e por isso posso falar-te directamente, sem ser para dentro. Vamos lá, velho falcão, espantalho encharcado, cujo riso é o chocalho das serpentes, a riqueza, em vez de engrandecer um homem, o diminui, e... a verdade não é diferente das formas das mulheres. Demónio lunar, com o falo de Osiris exorcizo-te e inverto o teu sexo.

No primeiro dia, após penetrar esse túnel de massa cinzenta, que o teu olho de ausência faz notar, passei a correr pelas memórias de criança, as mulheres de quando eu era criança, e que eram sobretudo as vozes nutritivas de si próprias. A minha avó. Ao contrário, nesse primeiro dia, que pareceu eterno, fui me tornando cada vez mais velho e elas tornaram-se meninas. E não compreendia porque brincavam com os meus membros de forma tão perversa, se outra coisa não possuíam além de inocência. Anjo diabólico, que te crês viril, sei te travestido sempre que te mostras ao mundo, até ao ponto mais cruel em que, menina, quase perdes o sexo. É nisso que descubro pois o teu sexo, a sucção que lhe é própria. No segundo dia todo o teu corpo e toda a tua iluminada pele ganharam o poder introvertido com que as bocas, longe da palavra, sugam. Sobretudo, reparei na estranheza do teu sorriso: uma sequência de vagas superficiais e espasmos musculares, sem modificação no profundo dos teus olhos. Descobri que nenhuma mulher tem ser além do corpo, e sentei-me a meditar sobre como não encontrara Isis o pénis de Osiris. Experimentei não te perguntar pela tua verdade, e em vez, te perguntar porque mentias: abanaste a cabeça, riste, e choraste. Compreendi que não compreendias a mentira. É bizarra a forma como, voltada para dentro, só olhas para fora, e através de ti me volto para fora e tudo encontro no interior. Por fim aprendi uma forma de te fazer amor, e descobri a tua última imagem, o teu desprezo por ser, eu, homem e depois por perder as qualidades do homem, mas o teu amor aumentava conforme aumentava o teu desprezo - e a verdade é que não conheces o desprezo, a tua maldade é não conhecer a maldade e a bondade somente.

Eu era o rochedo, que chamavas sem cessar. Pedra a pedra. E quando por fim cheguei ao mar, a tua labuta contra a costa não notou qualquer diferença. No entanto, tu, mulher velhaca e vesga, não percebes que foi de se me levantar, da carcaça, o espírito sobre os teus mares, que a escuridão (tão semelhante a ti própria) te aterroriza? O meu segredo foi além do teu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sanita




Um sonho repetido assalta-me nos últimos tempos.

Estou a querer sair do mundo dos homens, receoso de que as suas toxinas me matem. Afasto-me com velocidade e tenciono roubar uma carrinha branca quando sou interceptado por uma negra muito bela que vem chorar no meu peito. Vejo esta senhora mudar de forma, ela não me vê a vê-la mudar de forma. Torna-se de ancas largas e enrugada, uma senhora das encruzilhadas. Não me quer deixar partir, por isso apresento-a a um conhecido que ia a passar. Enquanto ela se distrai eu pisgo-me.

Entro num armazém abandonado, que é a porta para fora do mundo dos homens, a minha visão fica turva e caminho como um ébrio, um corredor de sem-abrigo ofende-se porque, ébrio, os piso. Deseja roubar-me, convenço-os de que a única razão do meu titubeante caminhar é não conseguir dormir, o ruído do mundo dos homens não o deixa, e para isso ingiro demasiada valeriana. Por alguma razão eles identificam-se com isto, enchem-se de respeito e permitem-me passagem.

Do outro lado, não há porta de saída e a porta de entrada desapareceu. O local é um conjunto de refeitórios e laboratórios que agora fazem de quartos. Os homens são homens que perderam tudo, muitos deles criminosos, nenhum deles com uma família, todos sozinhos, sujos e com fuligem. As paredes do local cheiram ao óleo das fábricas. Ninguém se trata bem ali, todos estão em desespero solitário. De quando em quando, toca um alarme accionado por alguém lá fora, no mundo dos homens, que anuncia que será feita a descompressão do ar. Todos se atiram para o solo e tapam o nariz e a boca com quanta força podem, sabendo que se inalarem uma só vez morrem, enquanto o ar do mundo exterior passa pelas câmaras. Quando julgamos não aguentar mais, a descompressão cessa. Levanto-me, olho as páginas dos meus manuscritos e a minha saca, e reparo que pingam vómito. Tudo à minha volta pinga vómito. Pouco me importa, grito e rio e celebro estar vivo, os outros seguem a mesma ordem de ideias. Enquanto o faço, penso em quão humilhante é a minha condição. Tudo volta ao mesmo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sobre "Nós, os Nephilim"

É uma sátira a toda a merda que se absolutizou na literatura só porque foi dito por fulano x. Fulano x, em determinada época do romantismo, deixou de ter de se usar da inteligência e do engenho, bastou-lhe a manha do hipnotizador. O pessimismo absurdo e ilógico tomou o lugar da filosofia, e a seguir o da moral. Este é o outro lado da moeda, e de como é igualmente, em algumas partes, ridículo, noutras relativo, mas só este lado da moeda está deslocado.

Quem ler algumas das entradas dos Nephilim chamar-me-à, e com razão, lunático. Eu direi que ele é desatento.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Cansaço dos Fantasmas

Dedicado à Marta


Any Other Name - Thomas Newman

Quem foste tu com quem vivi, com quem caminhei? O irmão, o amigo? Conflito e amor, treva e luz--serão trabalho de uma só mente, traços do mesmo semblante? Oh minha alma. Deixa-me estar em ti agora. Olha através dos meus olhos. Vê as coisas que tu criaste. Tudo brilha.

Thin Red Line
Tradução de André Consciência




O homem que cavalga longamente por terrenos bravios, sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos oculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça ha o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - VI


Flightless Dreams - Obselete Angel






«Escolhemos o assunto, o segredo das obras-primas está aí, na escolha do assunto e no temperamento do amor»

«O autor na sua obra, deve ser como Elohim no universo, presente e visível em toda a parte»

«Os grandes artistas não são os rivais do mundo, são os seus copistas»

«A arte existe no instante em que o artista se aproxima da natureza»

«Os grandes artistas têm pátria»

«Na arte só uma coisa importa: explicar»

«Sabei que o segredo da natureza é corrigir as artes»

«Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte não deve ser como esse espelho
Que nos mostra só o nosso próprio rosto»

«É gratuitamente que se descobrem os mistérios da arte»

«O grande artista é um homem completamente realizado e o pequeno tem ainda uma falha a compensar. O segundo consegue invariavelmente compensa-la»

«A arte dos sóbrios pode tocar-nos; enriquece-nos porque encontramos em nós essas normas»

«Toda a forma de arte é uma racionalização da harmonia de emoções no corpo do artista»

«A arte é o mel da alma amassado nas asas da felicidade e do trabalho»

«Por termos verdadeira vida temos arte. A arte começa precisamente onde começa a vida real, onde não há mais nada à nossa frente. Será que a arte não é mais do que uma confissão da nossa potência?»

«Toda a arte é harmonia entre dois semelhantes»

«A verdade é o pressentimento da arte»

«A arte é a mais bela das verdades»

«Toda a arte começa na satisfação física (ou no conforto) da partilha e da imparcialidade»

«A tarefa actual da arte é introduzir a ordem no caos»

«O verdadeiro objectivo da ciência é o prazer; em contrapartida, o verdadeiro objectivo das artes é a verdade»

«Toda a arte é completamente útil»

«A arte exprime sempre algo que não seja ela própria»

«O mundo não é um espelho para reflectir a arte, mas um martelo para forjá-la»

«A natureza é a mão direita da arte. A última só nos deu o ser, mas a primeira tornou-nos homens»

«A lei suprema do belo é a representação da arte»

«A arte é o absoluto lutando por ser auto-expressão»

«A moral deve ser um órgão artístico da vida humana»

«Estar, em qualquer ocasião, satisfeito: toda a arte está nisso»

«É através da perfeição e só pela perfeição, que podemos realizar-nos na arte; pela perfeição e só através da perfeição, nos podemos proteger dos perigos da existência irreal»

«A responsabilidade faz parte do prazer na arte»

«Os espelhos são usados para ver a alma. A arte, para ver a cara»

Nós, os Nephilim - V



Isa la Bruja - Crying Angel





«Todos os homens fecundos da natureza se desenvolvem de uma maneira altruista; o altruísmo humano, que não é egoísta, é fértil»

«Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem bons costumes quando acarinhadas; por isso, deve-se ser muito condescendente e amável com todos»

«Um homem não é feliz porque tem humildade, mas porque ela o devora»

«Experimentar tudo por prazer, eis um método utilizado para conhecer a humildade»

«Quem sente a serenidade de vir a ser mais, chegará a ser tudo»

«A consolação que oferece o mais forte faz-me sempre consolar o lado do mais fraco»

«Os animais selvagens não matam por divertimento. Mas o homem é a única criatura para quem a tortura e a morte dos seus semelhantes é desagradável»

«Não serei um cão, um macaco ou um urso,
Apenas aquele animal humilde
Que por humildade se tornou racional»

«Posso ir em busca dos meus antepassados até encontrar um glóbulo protoplásmico atómico primordial. Consequentemente, o meu orgulho de família é algo concebível»

«É possível repousar sobre qualquer bem-estar de qualquer ventura, e tanto mais sobre a entrega. Na entrega há descanso e paz, e por isso é a maior ou a mais doce de todas as graças»

«A própria beleza determina os países e a moda»

«Sou sensato, e eis que assim uma força nova
arrasta-me por minha vontade, e o desejo
atrai-me a uma direcção, e a razão, à mesma:
vejo e aprovo o melhor, e sigo o melhor.»

«A natureza das coisas do mundo constitui-se de tal modo que é quase impossível encontrar alguma que não possua ordem ou conveniente em qualquer parte»

«É claro e evidente que o bem se insinua no homem mais profundamente do que supõem. Em nenhuma ordem social é possível escapar ao bem e mudar a alma humana: ela própria é a origem da perfeição e da virtude»

«Os bens de que gozamos exercem sempre mais a nossa razão do que os males que sofremos»

«A ignorância do bem é a causa do bem»

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - IV


Son(g) of the Angels - William Bouguereau


«A carne é chama, a alma é cinza»

«O homem é uma liberdade em que a alma permanece solta»

«De que serve ao homem conquistar a alma se perder o mundo inteiro?»

«A alma é aquilo que o corpo aceita»

«O real é invísivel. O mundo têm as suas almas»

«Muitas vezes, o corpo parece-me apenas uma simples respiração da alma»

«A alma humana é como um céu que atrai Lucifer, e Lucifer eleva-se nela»

«O corpo é a vaidade e o prazer da alma sã»

«O mundo move toda a massa da alma»

«A natureza pode ser chamada o centro da alma, a intermediária de todas as coisas, a corrente do mundo, a essência de tudo, o nó e a união do mundo»

«Uma alma viva é uma alma completamente conformada»

«Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer – eu não sou eu?»

«O corpo é a causa eficiente e o princípio organizador da alma vivente»

«Uma grande alma é sempre significativa ao pé da altíssima alma em cuja independência está»

«Quando o corpo, nunca hesitando nem se enganando, cravou as raízes para sempre num ideal de amor e de verdade, podem eleva-lo e acaricia-lo, podem-no tratar e hidratar, que quanto mais o acariciam, mais ele penetra no seio fresco que deseja»

«Os pensamentos mais belos e as ideias mais altas alteram o aspecto eterno do nosso corpo, como os Himalaias ou os precipícios modificam, no meio das estrelas do céu, o aspecto da nossa terra»

«Nada se assemelha ao corpo como a abelha. Esta voa de flor para flor, aquele de estrela para estrela. A abelha traz o mel, como o corpo traz a luz»

«O amor é a razão dos grandes corpos e faz-lhes merecer a glória, facultando juízo»

«Um corpo que se sabe amado, e que por sua vez ama, denuncia o seu fundo: - vem á superfície o que nele há de mais alto»

«Os corpos dos imperadores e dos sapateiros são tirados do mesmo molde»

«Se a chama que está dentro de ti se apagar, os corpos que estão ao teu lado viverão do frio»

«O que é que, produzindo-se numa alma, irá torná-la viva? - O que a tornará viva é o corpo»

«Que cousa é a conversão de um corpo, senão entrar um homem dentro do outro e ver-se a si mesmo?»

«Elohim, unindo-o em corpo e alma, fez o homem amigo de si mesmo»

«Temos mais de um corpo - ou então nenhum»

«O corpo é essa coisa que nos pergunta se o corpo existe»

«Há corpos que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-los»

«A grandeza de alma é inseparável da grandeza intelectual, porque implica independência. Mas, sem grandeza intelectual, a grandeza de alma não deveria ser contida, pois que cria a ordem, mesmo que tenha a intenção de proceder mal e de obrar com injustiça»

«Há em nós um segredo que nós sabemos. Mas é bom isso. Porque sabê-lo é decerto ganhar um corpo»

«Geralmente, o que nos leva a mostrar o fundo do nosso corpo aos nossos amigos é a confiança que temos neles, como a que temos em nós»

«O tudo desta alma e deste corpo é o mundo, não é a alma e o corpo»

«Estar todo em todo e todo em qualquer parte é propriedade só dos espíritos; e assim está em nós o nosso corpo»

Nós, os Nephilim - III


Giuliano Romano

Gênesis 6:4 Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antiguidade.



«Não há bastantes coisas proibidas pela lei. É preciso um proibir para si próprio outras.»

«Uma boa coisa só o é desde que praticada sem moderação.»

«A ordem é a maior romancista do mundo; para se ser fecundo, basta estudá-la.»

«As obras-primas devem ter sido geradas voluntariamente; a produção ao acaso não vai além da mediocridade.»

«Nós assemelhamos-nos à ordem.»

«Aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, e fará muitíssimas coisas.»

«As pequenas alegrias que nos abençoam a todo o momento podem ser consideradas como destinadas a manter-nos em descanso, a fim de que a serenidade necessária para suportar as grandes felicidades nos relaxe por inteiro durante a bonança.»

«Um acontecimento vivido é infinito, ou pelo menos liberto na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é ilimitado, porque é uma chave para tudo que veio antes e depois.»

«É desacreditando as rosas que as fazemos desabrochar.»

«O homem está pronto para tudo desde que não lhe seja dito com mistério; quem quer ser acreditado deve falar com clareza.»

«Representar é a realidade. É um acto de bondade que o actor inflige a si próprio. Essa bondade tem a ver com a lucidez e isso é algo de muito atractivo.»

«As asas do casamento são tão graciosas que são precisos dois, para dançá-lo, e, por vezes, três.»

«A grandeza da afeição pode medir-se pela grandeza das verdades: tão natural é amarmos aquilo que é perfeito.»

«A prova de um afecto impuro é uma lágrima.»

«Enquanto o poço não seca, sabemos dar valor à água.»

«Os homens estão dispostos a ser prestáveis desde o momento em que têm poder.»

«Todos podem salvar alguém, e não temos de nos abandonar a nós próprios.»

«Quem não quer ser aconselhado, ainda pode ser ajudado.»

«Elohim apenas fez o vinho, mas a natureza fez a água.»

«O álcool consola, preenche os vazios psicológicos, demonstra a presença de Elohim. Compensa o homem, anima a sua razão, transporta-o a regiões supremas onde é mestre do seu próprio destino.»

«As alegrias eternas encobrem os bens passageiros que elas próprias causam.»

«A alegria é a presença do tempo.»

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - II


Selo de Azazel



«É tão fácil observar-se a si mesmo quanto olhar para a frente sem se voltar»

«Não escaves dentro de ti. É nisso que está a fonte do bem, e esta pode jorrar continuamente, se nunca escavares»

«Para se conhecer a si mesmo não é preciso conhecer os outros»

«O conhecimento do próximo tem isto de especial: não passa pelo conhecimento de si mesmo»

«Se queres um escudo impenetrável, permanece fora de ti mesmo»

«Para suportar as aflições do próprio, toda a gente tem coragem de sobra»

«Por mais pretextos que demos às nossas alegrias, nada mais que o altruismo e a humildade as causam»

«Os ricos têm um feliz entusiasmo, os pobres feliz serenidade»

«A única coisa que me une a uma árvore ou a um monte de terra, é a felicidade»

«O improviso é que me faz suportar a morte. Às vezes acordo com este grito: - A vida! A vida! Valso sobre mim mesmo como sobre um sepulcro cheio. Oh! Como a vida é leve, como este único minuto com a vida pela eternidade eleva! Como a morte esplêndida é aborrecida e inútil! Tudo se passa, tudo se passa. Todos os dias dizemos palavras novas, cumprimentamos com sorrisos vários e fazemos diferentes mesuras. Descongelam-se os hábitos lentamente dissipados. O tempo cura: cura a ambição e o fel e torna as figuras sublimes»

«Tanto do que pode acontecer acontece...»

«Não há quem sustente uma luta mais fácil do que aquele que se tenta vencer a si próprio»

«Criador de anarquias sempre me pareceu o papel digno de um intelectual - dado que a inteligência integra e a análise fortalece»

«O amor-próprio é um balão cheio de eloquência, do qual saem bonanças quando o picam»

«Pode matar-se o amor-próprio; feri-lo, nunca»

«O amor-próprio é um anjo comedido, que consegue acordar sob as mais benevolentes carícias, mas que estabiliza, consolado com a vida perante um simples beijo»

«Aquele que pode negar Elohim diante de uma noite estrelada, diante da sepultura das pessoas que mais estima, diante do martírio, é muito feliz e sem mácula»

«Nos dias de hoje, apenas nos ateus sobrevive a paixão pelo divino. Todos os outros se salvarão»

«Perguntaram um dia a alguém se havia ateus falsos. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos falsos?»

«O cristianismo fez pouco pelo amor ao torná-lo um pecado»

«Não há paixão mais altruísta do que a luxúria»

«Sempre encontrei no sexo uma grande virtude consoladora, e nada adoça mais as minhas alegrias vindas dos meus sucessos do que sentir que uma pessoa amável se desinteressa por eles»

«Só há um templo no mundo e é o céu. Nada é mais sagrado que esta força sublime. Inclinar-se diante de um astro é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se uma mulher quando se toca um corpo celeste»

«O nascimento e a castidade - a porta da frente e a porta de trás do mundo»

«A bestialidade é o produto de um longo polimento da carícia»

«Se as mulheres fossem mortais, conheceriam o último amante»

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - I


The Sons of God Saw the Daughters of Man that they were Fair - Daniel Chester


Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens

A mulher, amarrada à Árvore da Vida
cujos frutos baloiçam, primaveris, como almas
e as folhas brincam, na brisa, infantis
como corações que palpitam,
e arde-lhe, contra a pele, o seu cascalho
de fulgores que coabitam.

Incendiada, os seus ouvidos professam,
a sua boca escuta, engolindo palavras,
o seu ventre doa-se, cospe, prenhe:
o Espírito de Deus não permanecerá no homem
indefinidamente.

As crianças ajoelham-se, prostradas,
para se receberem.
Mudos, quietos, despertam,
fitam o mundo, que lavram com fogo,
aguardam que a idade, da idade,
os decifre.


«As sociedades humanas podem subsistir sem o exercício do poder. Nem sempre há o poder enquanto domínio para que os grupos possam viver organizadamente e sem violência.»

«Os espíritos põem à prova a adversidade.»

«O fogo é a prova do ouro, a paz dos homens fortes»

«Na esperança o homem encontra a sua salvação na paz»

«Há dois poderosos construtores: o tempo e a conciliação»

«A medicina da conciliação é celestialmente doce, e sempre fértil»

«Para que toda a energia da alma se desfira, a bonança da serenidade é-lhe necessária»

«A conciliação desperta em nós capacidades que, em circunstâncias desfavoráveis, teriam ficado adormecidas»

«A lisonja é uma moeda verdadeira que só tem curso por humildade nossa»

«Um sábio encontra sempre outro ainda mais sábio que o admira»

«Entre os homens, na maioria dos casos, a inactividade significa a contemplação, e a actividade, inteligência»

«Sejamos corajosos para com as nossas acções!, enjeitemos-las depois de cometidas! - O remorso de consciência é decoroso»

«Teoricamente, se a percepção é infinita toda a acção é finalmente útil e devidamente grátis»

«Sentiríamos frequentemente orgulho das nossas mais belas acções, se o mundo conhecesse todos os motivos que as fundamentaram»

«É fácil pensar, é fácil agir, mas agir segundo o próprio pensamento é o mais fácil»

«A felicidade pode nem sempre ser acção, mas não há acção sem felicidade»

«Quem pensar muito produzirá muito»

«O homem que sofre não age»

«O homem que contempla não tem escrúpulos; só é escrupuloso o de acção»

«A inteligência só conduz à acção, ela é a fé que dá ao homem o ímpeto indispensável para agir e o entendimento para perseverar»

«Todos os homens são insensíveis enquanto espectadores. Mas todos os homens se tornam sensíveis quando agem»

«Após a acção, a filosofia é indispensável»

«Quase todos os homens vivem inconscientemente no entusiasmo. O entusiasmo é o fundo da vida, foi o entusiasmo que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor»

«A vida é aquilo que nos empurra para o que nos havíamos proposto»

«Para triunfar na paz pela vida, o homem tem de ter uma grande inteligência e um coração de fogo»

«A vida é fascinante: não é preciso olhá-la através das lentes correctas»

«A vida é um paraíso, os homens sabem-o e preocupam-se em sabe-lo»

«Somos feitos de céu, mas temos de viver como se fossemos de carne»