quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tzuqunel


Shaman - John Myers


Um plácido mar sobre a carcaça, um silente céu abaixo,
E sem fim não há corvo, não há vaca sem fim,
Ilimitado cipreste ou jade que se haja reunido.
Coisa alguma se erigiu, o que forma está sozinho,
Sozinho o que reveste: eis luz e conhecimento.

Solitários, afundaram a noite, o conhecimento está sozinho
Tornou-se homem. A luz está sozinha,
É montanha e é vale, túmulo e dolmén.


Nota: Sendo luz, o verdadeiro homem só reconhece luz no que o rodeia, esta é a natureza do conhecimento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Luz do Mundo

Dedicado a R.







As ervas ardem a noite e o silêncio comove-se em linguagem.
De mim até ao céu pendura-se a sombra invertida das árvores
O vazio roça contra a poesia da carne, um momento cedo
E as estações adormecem, uma a uma, sobre o Tejo.

Escuta-se então, na penumbra do clarão
O sibilar constante das correntes,
A pureza do seu negrume apaga
Os primeiros pesadelos da neblina
E eu perdi-me, para encontrar as ninfas deste mar.

Um barco, do qual fiz minha vida, à deriva aguarda
Ao som de rede estendida. Uma a uma, diz-me palavras,
Maternas, palavras q’ são mulheres nuas, de corpos mortos
Içadas. A árvore revestida de uma pira, e o meu coração guarda
No fundo gelo do fundo, a luz no mundo.


Horned Wolf




Parabéns, desbloqueou este post

Para todos os leitores de "Xibalba Mannequins"

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Diários do Quotidiano



A primeira vez que escreveu poesia soube o que era não ter pais. Escrevera um poema a cantar de fezes, que deixou no correio da sua avó junto com um lenço ao qual se havia assoado. Era uma traquinice, ainda assim percebeu que, ao poetizar, era ele pai e mãe, e nada acima dele.

A primeira coisa é esta. A irmã leva um caniche literalmente arrastado pela trela. O pobre bicho não tem velocidade para acompanhar a menina. Ele dizia para ela parar, sem ser escutado. Depois afirmou, a pulmões cheios, que nunca havia gostado da irmã, só para ganhar a atenção, também ele um menino. Com isto, confundiu-se a si próprio, e ficou mais adulto.

A menina atacava-o com o cinto, brincadeiras de gaiato. Ele conseguiu roubar-lhe o cinto numa das investidas e simulou um ataque. A mãe entrou no quarto e acusou-o de maus tratos à menina.

O pai ficava a aspirar a casa depois de saber do nascimento da filha, dizia que era para estar tudo limpo quando ela chegasse. Mas o miúdo só queria saber como era a bebé. Depois viu-a, e sentiu uma tranquilidade e uma paz inesperadas.

A mãe subira ao pediatra, e para distrair a bebé o miúdo pôs-se a brincar com ela usando-se da sua aranha de plástico, acontece que a aranha fazia alergia ao bebé. Quando a mãe chegou acusou o miúdo de saber que estava a fazer mal e de o fazer por gosto.

Alguns anos mais tarde, depois do miúdo se mudar muitas vezes e já não ser um miúdo, a primeira namorada desaparecer doente, e ele não querer ver os livros da nova escola, ela com já parte da vassoura partida na mão, ofegante, com espuma nos cantos da boca, as faces rubras, os maxilares alargados e as narinas dilatadas, os olhos a quererem saltar para fora e ver o mundo (cof cof). Ele sentia uma linha em brasa nas costas, estava aparentemente calmo, muito quieto, a olha-la fixamente com uma chispa no olhar e um sorriso trocista no rosto. Ela dizia: "Não és nosso filho. És filho do diabo!" O rapaz regalava-se com uma descoberta irrefutável, capacidade que tinha para tirar até ao último resquício de auto-controlo da mulher. Se esse poder era ser filho do diabo, havia de o exercitar não só naquela mulher mas noutras mulheres e noutros homens, e dedicar os anos seguintes a refinar essa arte.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada - Fim


We Can Fuck Forever - Rudzielec Madzia


Eu vi-me a ser demais enquanto via muito em ti. Tu és tão traiçoeira quanto os pássaros da alegria.

Aninham-se, parece uma luta, que uns cantem contra os outros, parece-me uma luta que ignorem o silêncio entre si: não descansa na solidão, odeia porque tenta alcançar o que não se alcança: outro.

Talvez porque éramos todos reflexos uns dos outros num espelho de corpos e as palavras faziam amor com as imagens, nós falámos. Abriste a porta e entraste. Estávamos de olhos vendados e corpos sem roupa, uma vela, entre nós, de pernas cruzadas, as mãos nas mãos: havia fogo que passava entre as coisas que éramos nos nossos corpos pequenos, cheios de uma chama que parecia grande e que nos apagou.

Tudo o que aprendi contigo é um pesadelo, quero-te morta sempre que te recordo, quero-te mais fria do que o gelo entre nós: quero-nos dormentes. Quero perder o acesso ao teu nome, contar-te como se fosses uma estória.

“Sinto que te conheço desde sempre, como se o mundo tivesse sido construído aos nossos olhos e sempre tivéssemos sido companheiros.” Quando eu desaparecer, e já não me conhecer, como tu nunca me conheceste, ainda te conhecerei, como sempre me conheceste.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada X


Fear - Ratpat 13


Existia mais um dia, com a luz da manhã fresca nas fossas nasais, e transpunha os portões de ferro e tinta gasta da escola de Oeiras, rindo-me, como sempre o fazia, quando passava pelo porteiro a que chamávamos, alegremente, de Mata-Ratos (às vezes, quando o seguíamos, perseguia-nos de punho fechado). O dia, porém, não ia ser alegre, excepto talvez quando descesse ao jardim com o Henrique à procura de pinhões, e os partíssemos à pedrada. Ás vezes, quando, de longe, na sala de aula de música, me abstraia na janela, via a linha de pinheiros e atingia uma coisa qualquer que estava para lá dessa linha. Pensava, ali, que descobria os padrões das coisas, e as sequências que constituíam os padrões das coisas não se assemelhavam nada à nossa pequena visão, ontem presa às ninharias da altura, hoje, amanhã, como se nada mudasse realmente. As marcas do tempo e do espaço tornavam-se mais como pequenas parcelas de uma pintura, cada uma com mil telas, e nem todas se encontravam na mesma tendência, pelo que, muitas vezes, seguindo determinados percursos, pensava descobrir quem sonhava o meu próprio mundo, e penso que uma vez, toquei os olhos do escritor deste conto. O Norberto, cego de um olho (porque o irmão o apedrejara), referia-se ao clítoris da professora em palavras de um crioulo não esquecido. Depois tocava o sino. Na escola, era sempre cinzento, era sempre manhã fria e lufadas cinzentas. As meninas cumprimentavam-me. “Esqueleto vai doze”, o Luís sorria com os comentários e depois o João Paulo, na sua bicicleta, vinha roubar-lhe os berlindes, torcia-lhe o braço e, ameaçador, eu protegia-o sempre.

Desvio-me da folha, escuto as paredes. As paredes vibram levemente, são paredes de um templo, são o meu segundo corpo. São a minha prisão, e, cá dentro, cabe o céu onde já pranteei todos os meus infernos e fui sempre, dentro de uma infinidade estranha, consolado. Estas paredes podiam ser um espelho de ti, mas não te aceitam, são muralhas, são muralhas porque eu sou o meu castelo. Sou independente, e por isso amo-te sem fraqueza. O meu coração é meu. Dou-o e nunca o perco.

As paredes desaparecem. Existe céu. Existes tu sepultada no céu. Escondida e aninhada no quarto escuro do coração, conduzindo sempre de renovado fôlego os fantasmas da exaustão.

Na escola, todos os sonhos eram pesadelos. O Luís era maior, porque dizia de mim as coisas más que haviam nele. O Luís Meireles era maior porque desviava todos os golpes para o meu peito. Hoje não pude jogar futebol. Balbuciaram qualquer coisa sobre os meus ténis. Amanhã penduraram-me só pelas pernas de um lugar vertiginoso, a queda era a morte. Amanhã gritei e fui içado, continuava vertigem, eu esmurrava o ar e ouvia os risos.

Fecho os olhos. Risos. Eu sou todos eles, eu sou as mãos nas minhas pernas que hoje estão doentes.
Fecho os olhos. Eles riem-se, a ver-me gesticular pateticamente no ar. Eu sou todos eles, e a mão de Deus.
Cigarro e silêncio. Vocês eram nuvens, eu esbracejava mas não vos tocava… vocês: o corpo de Deus.

Os montes tapam o rio de vidas que sou. Inscrevo sinais da parede, mudo porque sou cego, e imagino viver o que vivi. De repente, uma linha de pinheiros, e pela janela, uns olhos de criança fitam-me, compreendem-me.

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende.” Mas eu conheci-te. Conheci-te quando olhaste para mim.

Até nos pesadelos existem momentos de prazer, e mesmo a mente quebrada, embora despreze o seu corpo e o seu ser, ou se conforme na humilhação para se tornar capaz de viver, prevalece na faculdade de perceber que o corpo tem um orgulho singelo de si mesmo, de existir e de estar onde está nas sensações que percorre. Ninguém percorre o meu corpo, o meu corpo percorre as coisas. E hoje, a exaustão, depois do exercício no ginásio da escola, faz-me um brilho forçado nos olhos apagados. Percorro o campo arenoso. Eu vi que ele olhava para mim porque olhei para ele sem medo, ainda não me aprendi a calar, e espero nunca aprender. Existem olhos nos meus olhos que se antecipam de medo e insistem em acelerar o passo, por isso, eu caminho lentamente. De repente, uma dor aguda e a minha cara encontra-se atingida, ao meu lado, uma pedra morre contra o chão, posterior à carne e ao sangue.

Ele disse-me: “As palavras são como pedras que cada um esculpe segundo o capricho próprio, e o egoísmo rouba todas as nossas verdades. Não comunicamos, roubamos. Não existe templo para a nossa expressão, existe o mercado do furto.”

A Eduarda tinha corpos que não eram dela, olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes dela diziam: “ninguém te compreende”. Mas eu gostava. Eu gostava de poder, pelo menos, morrer nessa vontade.

Na biblioteca, jogava xadrez, e, ano após ano, chegava, rompendo eliminatórias, à final. Ouvi-a declamar, por detrás de uma secretária trespassada em livros de palavras vazias a roubarem espaço vazio, a sua paixão por mim. Elas a rirem-se. Elas a troçarem de mim e do meu corpo. Elas a troçarem dela. Envergonhada, fitava o chão e desculpava-se. A partir desse momento esqueci o seu nome, e ainda hoje não me lembro. O escritor também não se lembra. Nem os padrões entranhados nos padrões seriam capazes de o recuperar.

Olhares dentro dos seus olhos, e vozes que não eram as vozes.
Estamos muito sós, a flutuar e a atravessar muitos olhos, túneis que desembocam em túneis que em túneis vão desembocar, e existe uma festa de semblantes aberrantes no quarto escuro do meu coração, quando acendem a luz, e o ruído cresce, eu termino em tudo o que conheço. Respiro, em bocas ocas, o desespero que já não desespera.

Risos, a sair de bocas ocas em bocas ocas. Torrentes. A tua mão calorosa? Meu anjo? Gratidão.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada IX


Hollow Project - Garden of Bad Things


Bruma, não existe nenhuma caixa sobre o meu cérebro, não existe cabeça e não existem pés. Não tenho corpo mas tenho bruma negra e a percepção da bruma negra. Ninguém me ouve, ninguém escuta as minhas palavras, eu não as escuto, não tenho voz, onde estão os meus lábios. Peito, peito, incontinência. Dedos, dedos cheios de palavras e que só soltam musica: dedos que nunca conheceram palavras.

Demência, foi no que nos tornámos. Eras tu a tremer no teu quarto como se a morte da tua mãe, depois de dois anos, fosse ainda febre no teu corpo, a impedir-te de pensar, a impedir-te de amar, a gastar a cor das coisas. Oh como tu me querias magoar. Tornamos-nos em demência, eu quis cuidar de ti, quisemos cuidar de ti, e tu quiseste destruir-te sem aviso. Eu fui a primeira ferida que te fizeste. Éramos demência: éramos eu sem cortar unhas, sem me lavar, sem limpar os dentes: era o teu silêncio desconhecido e insuportável. “Somos estação”, e eu ria-me. “Somos estação”, repetia o absurdo.

Demência, foi no que nos tornámos, eu feria-me e escrevia para ti num sangue rosado pela folha branca. Não via nada, a dor era cegueira. Tu nunca aceitaste a minha carta, nunca leste o meu sangue. Depois era praia, era os meus movimentos nos dias como se fossem todos eles movimentos de fugir. Eram os olhos, naquele dia maiores, da minha mãe, uma presença clara, “Calma, tu queres viver tudo ao mesmo tempo. Calma, ainda és tão novito”. Eu repetia, repetia essa verdade em mim: “Eu sou tudo, vivo, em cada detalhe. A minha presa são os momentos, o meu rebanho os segundos.”
A água de Tróia conseguia, por um momento, eclipsar o resto do mundo, juntei a si as minhas lágrimas, o meu interior, que doía, parava só por um instante, de doer lá fora como carne esfolada, esfolada de ti, de não estares nela.

Mentiste-me, quiseste magoar-me cada vez mais: destruí-te com uma só estocada, foste pior que nada: foste sangue por debaixo de cascos de cavalo, sangue que se une à lama de gente que se arrasta de ossos quebrados de luas partidas.

Não tinha boca: O mar fala de coisas de mim: o mar fala de coisas que nunca vi: que perdi para sempre. Tu, quando irrompes das coisas. Formas com demasiado conteúdo, quebravam o mundo.

A Metade Devorada VIII


The Betrayal - Garden of Bad Things


Muitos nomes. Existem muitos nomes em muitas bocas com várias letras, e tu és uma combinação perfeita de letras compostas de sonoridade. Depois, há muitas bocas que exalam o teu ar e pronunciam o teu nome enquanto o ouves, porque, no dia a dia, se cruzam em ti e contigo e te interrompem o ser e dão novas direcções ao olho do espírito. De todas essas vozes que acompanham a tua vida eu nunca ouço o alento, eu nunca ouço o teu nome, ninguém diz o teu nome na minha vida, por isso eu articulo-o muitas vezes nas minhas cordas vocais. Existem todos aqueles que interrompem o teu ser, eu seguro-o todo como um berço de céu, não te atravesso, corro contigo, corremos e somos um só correr.

Condenados ao espelho… Condenados ao espelho…

Caio e rasgo a pele, rasgo a pele e uivo, pareço sentir as alturas das árvores nocturnas como gestos que me tocam, a vida entre a vegetação e os sons longínquos, todos ao alcance do meu acto voraz.
Vislumbre de ti, os meus olhos laranja pintam-te e engolem-te, a minha pelugem é um fogo de Vontade, enrolo-me sobre as tuas coxas descobertas de Luar, mas queimo-te, mas queimo-te. É a tua mordedura em mim. Voraz no sangue que pulsas, voraz na nossa santidade, por um verso de pecado orgulhoso, por uma lua menstruada que nos banhe.
As nossas noites são mentira, e hoje acordei numa noite sem mentir, hoje eu desejo a neblina uma vez mais, na brancura da verdade e nos corredores entre os tempos. Este lobo é um guardião de momentos, os momentos são o seu rebanho, e os segundos as suas presas. Uma lufada de um novo ar e tu cais, a tua carne espirra um perfume desagradável a queimadura, a pacto, e eu desprezo-te, hei de ser eu, sua puta, em cada homem que entrar nas tuas fendas para então cuspir sobre o teu corpo, abandonar-te à exaustão, deixar-te para trás sem olhar para trás, quebrar cascas de ovos pisar os teus beijos e estilhaçar dentes razos ao chão.

Todos os sonhos, são sonhos demais. Toda os sonhos que não sonhamos, são sonhos de menos.

A serpente enrolava-se muitas vezes e eu perdia a conta dos seus desenhos, ela não tinha pele à excepção do calor das mãos enlaçadas, e voltava a traçar as tuas formas no espelho do meu coração, reproduzia o teu riso nas paredes do meu corpo, quando o teu riso dizia o meu nome e eu te salvava, ou quando uma gargalhada de ti deixava escapar o teu nome e me redimias de todos os contrários. Éramos espada e cortávamos o ferro das impossibilidades. Levo-te e o nosso rio come o mar. Vai-te embora, esqueço-te todos os dias. O mar fala-me de ti. O mar fala-me de coisas que eu nunca vi. Estamos sós em todos os cantos que não iluminamos. Fingimos muito, não é?

Fins. Danças e cartas desviadas. Formas desvairadas e saudosas, formas que contem demais para formas. A morte não é nenhum de vocês, a morte não és tu, metade-devorado, nem o simples e infindo vagabundo, a morte é aquilo que vocês impedem, é aquilo que, não alcançando, me rasga o peito e cospe estas palavras sangrentas, convulsiona estas mãos a auto-mutilarem-se em publico. Queimar, queimar e perfurar na queimadura, os olhos cegos e ardentes de todos os leitores: ninguém compreende, os olhos que ofuscam e possuem são os buracos na minha pele, são os meus sentimentos desfigurados em textos erráticos: que corrompem a verdade a cada leitura, que me amarram e me apagam no tempo. As obras não imortalizam, as obras apagam os autores no tempo: desvanecem, irreconhecíveis..

Não há chão. Nunca mais quero chão.

Estávamos sozinhos, quando Deus decidiu queimar os homens. Todas as amarras desatadas, foi como se roubassem articulações, foi como o passar de mutilações: aqui não existes. Aqui tudo acorda e nada existe. Não existem mãos, tudo voa. Aqui as pinturas dissolvem-se, sopros estranhos arrasam os nossos ouvidos e escondem-se num lugar inalcançável. Somos livres: o nosso preço: mascaras, muitas mascaras, todas as mascaras: um monte que sepulta: o céu.

A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

Lembrança: A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem, dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

A Metade Devorada VII


The Beast of Rejection - Brownboots


Era mais imbecil quando procurava comunicar espírito equipado de palavras bem estruturadas e supostamente sábias, e parecia extremamente inteligente e louvável. Porque devia saber que o espírito se expressa de silêncios imbuídos nas coisas. Então as palavras eram insanidades absurdas e as respostas eram como línguas torcidas: de repente o mundo era apatia persistente, crescente a cada teimosa investida.

Todas as coisas banais elevavam as emoções, e estavam até na ponta da língua, como se nós não fossemos intactos devido a segredos. Nas profundidades havia um selo de “sei lá”, uma entrelinha incomodativa de anões (com faces fragmentadas) que sussurram ao ouvido um “não sejas estúpido”.


Vamos para outro lado. Depois risos, e uma linha ténue de cor indigo a penetrar bisbilhoteira e desinteressada nas janelas sombrias e abandonadas das coisas. Nas janelas que às vezes davam para momentos de vida intensa, nas janelas que não possuíam guardiões e em que todos os guardiões são invasores de uma estranheza errática. Nas janelas quebradas de ilesas, que davam para festas de momentos que partilham as suas histórias de carne e sangue vivo: abandonadas eternamente, sombrias de só serem visitadas por olhos escondidos de tudo. “Nunca foste tu”, enrolava-se essa voz, “nunca foste tu a sentir, foi o sentimento das coisas.”

Vamos para outro sítio.

“Se, por um momento, pudesses definir com textura as gravidades mais abstractas, o que significaria para ti a Luz da qual Lúcifer é portador? E o que é isso, que atrai, como a luz solar as plantas, os homens ao Samadhi?” E ela dizia coisas sobre uma divindade abstracta, ao alcance do homem por via do conhecimento. Eu apostava que ela não existia - nem a pessoa, nem a divindade: de olhos como órbitas, de órbitas como cascatas de vazia escuridão (tão terrivelmente inundada de nada), nas dunas da pele contorcida em espirais de tempo que, frequentemente, se enganavam na direcção: em unhas negras e partidas cerradas contra um assento de brutalidades suaves e irreconhecíveis: com desertos de brasa e secura nas palmas das mãos e um coração oferecido aos deuses do tempo: um corpo despejado nos degraus que enganavam estrutura: observava o espectáculo de ilusionismo: ela dizia: conhecimento.
E depois, o ondular do sol intenso no pacífico mar, ela em palavras “orgulho sincero”, eu dizia “gratidão” porque os ouvidos se enchiam de um mel que colava as minhas fibras de volta. A bandeira dela era verdadeira, os leões são solitários.
O vento, a brisa que me tocou, que passou por mim e que não pude agarrar. Todos os homens.
Nós éramos alguma coisa. Se nunca te conheci, deixa-me repousar, um ultimo instante, na memória impossível de ti.

Eu queria ver como seria tudo quando tudo estivesse destruído.

Entrei, interno, nas folhas de Outono externas, e o mundo dançou para mim de novo. Assim, eu voltava daquela noite em que ela se desesperava nas paredes dementes da ausência dele, com que partilhou tortura e agonia até ao ponto do amor, com que criava lápides escarpadas para manchar um coração que me amava de morte. E cambaleava pelas ruas na manhã, depois de a erguer de uma cama de sepulto para que ela pudesse desfrutar de um dia de labor no café em que o patrão obsceno. Naquele beco em que o mundo todo não nos via e nós éramos mais completamente o mundo: que ela usava para falar de fábulas requintadas, nesse, vieram muitos cães. De mente tranquila em vibrações obsoletas, trilhava imponentemente, eles eram um redemoinho de bestas e os seus latidos não furavam, e os seus dentes conseguiam o interior de uma carne tanto amada como estranha. Ela não fora abalada, ela era as coisas e as coisas que eram eram isso mesmo, coisas que eram e já não são, coisas que são ela.

A Metade Devorada VI


Acceptance vs Rejection - Squish Squash


I

O gato, alvo e com um olho de cada cor, estava muito preso, muito apertado e respirava ar queimado e abafado, esfregava-se contra os vidros.

Vesti o fato de macaco branco, coloquei os óculos grossos e fingi que me entusiasmava, cobri os pés de borracha isoladora, fitei as portas largas e gradeadas e abri-as.

Então quando me dizia que a minha zona de trabalho passaria a ser o inferno, fixou-se no meu sorriso e foi-se embora, para o outro lado de filas de maquinas de aço que, por nunca pararem de se mover, podiam bem estar mais vivas que os operadores.
Por vezes os rádios soltavam uma melodia e, se esta melodia fora significativa noutros tempos, éramos invadidos por reminiscências de caminhos humanos, mas a névoa ao contrário de se abrir, fazia-se notar com mais insistência, sendo que os óculos fechados e embaciados do suor eram o maior grilhão que nos separava de tudo o que fora uma vez nosso.

Depois, quando nos atiraram para a sala vidrada e que não era, como tudo naquela cidade secreta com passadeiras e carros colossos de amarelos; e coisas que esmagam e coisas que queimam e coisas que prendem e outras que rasgam; quando nos atiraram para ali e todos iniciaram o processo de deitar fumo pela boca e engolir líquidos castanhos, ou aglomerarem-se como pequenos carneiros em filas por alimento; quando me atiraram para a pequena sala quadrada, senti-me asfixiado. Os passos e os olhares e respirar pesavam-me com o peso dos pesadelos. E ela, que estava por ali, não havia modo de surgir. E quando o fez, na sua falta de sorriso cansado, balbuciou qualquer coisa sobre eu não ir ter com ela, e depois como se não houvesse mais nada a dizer-me, sentou-se com uma desconhecida que era como se conspurcasse tudo o que era familiar e próximo. E eu pedi que se sentasse num outro lugar mais espaçoso, onde eu podia sentar-me também. Os deuses e o diabo sabiam porque estava na fábrica. Os deuses e o diabo sabiam que ela não respeitava a minha falta de dinheiro e que vagabundos poetas se amam por um dia. Ela, como se dormisse, não respondeu, e a sua colega fez um sorriso impossível.


II

De repente, toda a minha vida estava nela, e nas minhas praticas, nas minhas disciplinas sórdidas e bizarras. Depois ela, apoiando o coração na nossa solidão entre os quilómetros de Lisboa-Porto, e horas de trabalho ingrato que me emudeciam os lábios com revolta calada, e um olhar desesperado por escapatórias e soluções, sem que viessem, e dias que faltava e procurava que o meu currículo encaixasse por toda Lisboa; e dias que ela telefonava e eu calado, não nos falávamos quando falávamos, e ela tocava-me como despedidas a prepararem-se. Apoiando o coração na nossa solidão foi rachando-o e quebrou-o. Mas ela havia sempre de voltar, eu sei, porque, coração completo ou metade devorado, éramos casa um do outro, porque jurávamos que amávamos não para amar, mas porque não se continha.

Depois foi o silêncio total: Irreconhecível e fora da vida que se conhecia e concebia. Quatro dias paralisados. Depois uma mensagem: “Telefona-me agora”

Ás vezes, sempre com a mente na alquimia e no deserto, e naquilo que escrevia dia e noite sobre a alma das coisas se resumir numa só alma de coisas, vinha uma espécie de ladrão e esse ladrão, em vez de me roubar o coração, roubava-me a paz ao devolver-mo. Ás vezes aguentava muito, e lia Byron, Blake ou Yeats, depois chorava muito, e continuava a ler entre as lágrimas. De seguida chorava muito sem livros, só comigo e com os meus movimentos desregulados de círculos caminhados. Depois pegava no telemóvel, que tinha estragado quando ela me disse do outro colo, e tentava pessoas: pessoas que me pisavam, prostrando-me humilhado, em lições sobre mim mesmo, em castigos de quebra de eremitério.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Unhat


Behind the Scarecrow, II - David Eppstein


O Sol já está aí. Amerenê, anjo espanta-anjos, costumava eu, quando éramos ambos meninos, e tu vivias num cubo quebra-cabeças algumas vezes e outras crucificado no sopé da montanha, chamar-te, brincando. Não tens sombra na qual te manifestares, cá fora, e por isso posso falar-te directamente, sem ser para dentro. Vamos lá, velho falcão, espantalho encharcado, cujo riso é o chocalho das serpentes, a riqueza, em vez de engrandecer um homem, o diminui, e... a verdade não é diferente das formas das mulheres. Demónio lunar, com o falo de Osiris exorcizo-te e inverto o teu sexo.

No primeiro dia, após penetrar esse túnel de massa cinzenta, que o teu olho de ausência faz notar, passei a correr pelas memórias de criança, as mulheres de quando eu era criança, e que eram sobretudo as vozes nutritivas de si próprias. A minha avó. Ao contrário, nesse primeiro dia, que pareceu eterno, fui me tornando cada vez mais velho e elas tornaram-se meninas. E não compreendia porque brincavam com os meus membros de forma tão perversa, se outra coisa não possuíam além de inocência. Anjo diabólico, que te crês viril, sei te travestido sempre que te mostras ao mundo, até ao ponto mais cruel em que, menina, quase perdes o sexo. É nisso que descubro pois o teu sexo, a sucção que lhe é própria. No segundo dia todo o teu corpo e toda a tua iluminada pele ganharam o poder introvertido com que as bocas, longe da palavra, sugam. Sobretudo, reparei na estranheza do teu sorriso: uma sequência de vagas superficiais e espasmos musculares, sem modificação no profundo dos teus olhos. Descobri que nenhuma mulher tem ser além do corpo, e sentei-me a meditar sobre como não encontrara Isis o pénis de Osiris. Experimentei não te perguntar pela tua verdade, e em vez, te perguntar porque mentias: abanaste a cabeça, riste, e choraste. Compreendi que não compreendias a mentira. É bizarra a forma como, voltada para dentro, só olhas para fora, e através de ti me volto para fora e tudo encontro no interior. Por fim aprendi uma forma de te fazer amor, e descobri a tua última imagem, o teu desprezo por ser, eu, homem e depois por perder as qualidades do homem, mas o teu amor aumentava conforme aumentava o teu desprezo - e a verdade é que não conheces o desprezo, a tua maldade é não conhecer a maldade e a bondade somente.

Eu era o rochedo, que chamavas sem cessar. Pedra a pedra. E quando por fim cheguei ao mar, a tua labuta contra a costa não notou qualquer diferença. No entanto, tu, mulher velhaca e vesga, não percebes que foi de se me levantar, da carcaça, o espírito sobre os teus mares, que a escuridão (tão semelhante a ti própria) te aterroriza? O meu segredo foi além do teu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sanita




Um sonho repetido assalta-me nos últimos tempos.

Estou a querer sair do mundo dos homens, receoso de que as suas toxinas me matem. Afasto-me com velocidade e tenciono roubar uma carrinha branca quando sou interceptado por uma negra muito bela que vem chorar no meu peito. Vejo esta senhora mudar de forma, ela não me vê a vê-la mudar de forma. Torna-se de ancas largas e enrugada, uma senhora das encruzilhadas. Não me quer deixar partir, por isso apresento-a a um conhecido que ia a passar. Enquanto ela se distrai eu pisgo-me.

Entro num armazém abandonado, que é a porta para fora do mundo dos homens, a minha visão fica turva e caminho como um ébrio, um corredor de sem-abrigo ofende-se porque, ébrio, os piso. Deseja roubar-me, convenço-os de que a única razão do meu titubeante caminhar é não conseguir dormir, o ruído do mundo dos homens não o deixa, e para isso ingiro demasiada valeriana. Por alguma razão eles identificam-se com isto, enchem-se de respeito e permitem-me passagem.

Do outro lado, não há porta de saída e a porta de entrada desapareceu. O local é um conjunto de refeitórios e laboratórios que agora fazem de quartos. Os homens são homens que perderam tudo, muitos deles criminosos, nenhum deles com uma família, todos sozinhos, sujos e com fuligem. As paredes do local cheiram ao óleo das fábricas. Ninguém se trata bem ali, todos estão em desespero solitário. De quando em quando, toca um alarme accionado por alguém lá fora, no mundo dos homens, que anuncia que será feita a descompressão do ar. Todos se atiram para o solo e tapam o nariz e a boca com quanta força podem, sabendo que se inalarem uma só vez morrem, enquanto o ar do mundo exterior passa pelas câmaras. Quando julgamos não aguentar mais, a descompressão cessa. Levanto-me, olho as páginas dos meus manuscritos e a minha saca, e reparo que pingam vómito. Tudo à minha volta pinga vómito. Pouco me importa, grito e rio e celebro estar vivo, os outros seguem a mesma ordem de ideias. Enquanto o faço, penso em quão humilhante é a minha condição. Tudo volta ao mesmo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sobre "Nós, os Nephilim"

É uma sátira a toda a merda que se absolutizou na literatura só porque foi dito por fulano x. Fulano x, em determinada época do romantismo, deixou de ter de se usar da inteligência e do engenho, bastou-lhe a manha do hipnotizador. O pessimismo absurdo e ilógico tomou o lugar da filosofia, e a seguir o da moral. Este é o outro lado da moeda, e de como é igualmente, em algumas partes, ridículo, noutras relativo, mas só este lado da moeda está deslocado.

Quem ler algumas das entradas dos Nephilim chamar-me-à, e com razão, lunático. Eu direi que ele é desatento.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Cansaço dos Fantasmas

Dedicado à Marta


Any Other Name - Thomas Newman

Quem foste tu com quem vivi, com quem caminhei? O irmão, o amigo? Conflito e amor, treva e luz--serão trabalho de uma só mente, traços do mesmo semblante? Oh minha alma. Deixa-me estar em ti agora. Olha através dos meus olhos. Vê as coisas que tu criaste. Tudo brilha.

Thin Red Line
Tradução de André Consciência




O homem que cavalga longamente por terrenos bravios, sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos oculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça ha o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - VI


Flightless Dreams - Obselete Angel






«Escolhemos o assunto, o segredo das obras-primas está aí, na escolha do assunto e no temperamento do amor»

«O autor na sua obra, deve ser como Elohim no universo, presente e visível em toda a parte»

«Os grandes artistas não são os rivais do mundo, são os seus copistas»

«A arte existe no instante em que o artista se aproxima da natureza»

«Os grandes artistas têm pátria»

«Na arte só uma coisa importa: explicar»

«Sabei que o segredo da natureza é corrigir as artes»

«Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte não deve ser como esse espelho
Que nos mostra só o nosso próprio rosto»

«É gratuitamente que se descobrem os mistérios da arte»

«O grande artista é um homem completamente realizado e o pequeno tem ainda uma falha a compensar. O segundo consegue invariavelmente compensa-la»

«A arte dos sóbrios pode tocar-nos; enriquece-nos porque encontramos em nós essas normas»

«Toda a forma de arte é uma racionalização da harmonia de emoções no corpo do artista»

«A arte é o mel da alma amassado nas asas da felicidade e do trabalho»

«Por termos verdadeira vida temos arte. A arte começa precisamente onde começa a vida real, onde não há mais nada à nossa frente. Será que a arte não é mais do que uma confissão da nossa potência?»

«Toda a arte é harmonia entre dois semelhantes»

«A verdade é o pressentimento da arte»

«A arte é a mais bela das verdades»

«Toda a arte começa na satisfação física (ou no conforto) da partilha e da imparcialidade»

«A tarefa actual da arte é introduzir a ordem no caos»

«O verdadeiro objectivo da ciência é o prazer; em contrapartida, o verdadeiro objectivo das artes é a verdade»

«Toda a arte é completamente útil»

«A arte exprime sempre algo que não seja ela própria»

«O mundo não é um espelho para reflectir a arte, mas um martelo para forjá-la»

«A natureza é a mão direita da arte. A última só nos deu o ser, mas a primeira tornou-nos homens»

«A lei suprema do belo é a representação da arte»

«A arte é o absoluto lutando por ser auto-expressão»

«A moral deve ser um órgão artístico da vida humana»

«Estar, em qualquer ocasião, satisfeito: toda a arte está nisso»

«É através da perfeição e só pela perfeição, que podemos realizar-nos na arte; pela perfeição e só através da perfeição, nos podemos proteger dos perigos da existência irreal»

«A responsabilidade faz parte do prazer na arte»

«Os espelhos são usados para ver a alma. A arte, para ver a cara»

Nós, os Nephilim - V



Isa la Bruja - Crying Angel





«Todos os homens fecundos da natureza se desenvolvem de uma maneira altruista; o altruísmo humano, que não é egoísta, é fértil»

«Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem bons costumes quando acarinhadas; por isso, deve-se ser muito condescendente e amável com todos»

«Um homem não é feliz porque tem humildade, mas porque ela o devora»

«Experimentar tudo por prazer, eis um método utilizado para conhecer a humildade»

«Quem sente a serenidade de vir a ser mais, chegará a ser tudo»

«A consolação que oferece o mais forte faz-me sempre consolar o lado do mais fraco»

«Os animais selvagens não matam por divertimento. Mas o homem é a única criatura para quem a tortura e a morte dos seus semelhantes é desagradável»

«Não serei um cão, um macaco ou um urso,
Apenas aquele animal humilde
Que por humildade se tornou racional»

«Posso ir em busca dos meus antepassados até encontrar um glóbulo protoplásmico atómico primordial. Consequentemente, o meu orgulho de família é algo concebível»

«É possível repousar sobre qualquer bem-estar de qualquer ventura, e tanto mais sobre a entrega. Na entrega há descanso e paz, e por isso é a maior ou a mais doce de todas as graças»

«A própria beleza determina os países e a moda»

«Sou sensato, e eis que assim uma força nova
arrasta-me por minha vontade, e o desejo
atrai-me a uma direcção, e a razão, à mesma:
vejo e aprovo o melhor, e sigo o melhor.»

«A natureza das coisas do mundo constitui-se de tal modo que é quase impossível encontrar alguma que não possua ordem ou conveniente em qualquer parte»

«É claro e evidente que o bem se insinua no homem mais profundamente do que supõem. Em nenhuma ordem social é possível escapar ao bem e mudar a alma humana: ela própria é a origem da perfeição e da virtude»

«Os bens de que gozamos exercem sempre mais a nossa razão do que os males que sofremos»

«A ignorância do bem é a causa do bem»

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - IV


Son(g) of the Angels - William Bouguereau


«A carne é chama, a alma é cinza»

«O homem é uma liberdade em que a alma permanece solta»

«De que serve ao homem conquistar a alma se perder o mundo inteiro?»

«A alma é aquilo que o corpo aceita»

«O real é invísivel. O mundo têm as suas almas»

«Muitas vezes, o corpo parece-me apenas uma simples respiração da alma»

«A alma humana é como um céu que atrai Lucifer, e Lucifer eleva-se nela»

«O corpo é a vaidade e o prazer da alma sã»

«O mundo move toda a massa da alma»

«A natureza pode ser chamada o centro da alma, a intermediária de todas as coisas, a corrente do mundo, a essência de tudo, o nó e a união do mundo»

«Uma alma viva é uma alma completamente conformada»

«Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer – eu não sou eu?»

«O corpo é a causa eficiente e o princípio organizador da alma vivente»

«Uma grande alma é sempre significativa ao pé da altíssima alma em cuja independência está»

«Quando o corpo, nunca hesitando nem se enganando, cravou as raízes para sempre num ideal de amor e de verdade, podem eleva-lo e acaricia-lo, podem-no tratar e hidratar, que quanto mais o acariciam, mais ele penetra no seio fresco que deseja»

«Os pensamentos mais belos e as ideias mais altas alteram o aspecto eterno do nosso corpo, como os Himalaias ou os precipícios modificam, no meio das estrelas do céu, o aspecto da nossa terra»

«Nada se assemelha ao corpo como a abelha. Esta voa de flor para flor, aquele de estrela para estrela. A abelha traz o mel, como o corpo traz a luz»

«O amor é a razão dos grandes corpos e faz-lhes merecer a glória, facultando juízo»

«Um corpo que se sabe amado, e que por sua vez ama, denuncia o seu fundo: - vem á superfície o que nele há de mais alto»

«Os corpos dos imperadores e dos sapateiros são tirados do mesmo molde»

«Se a chama que está dentro de ti se apagar, os corpos que estão ao teu lado viverão do frio»

«O que é que, produzindo-se numa alma, irá torná-la viva? - O que a tornará viva é o corpo»

«Que cousa é a conversão de um corpo, senão entrar um homem dentro do outro e ver-se a si mesmo?»

«Elohim, unindo-o em corpo e alma, fez o homem amigo de si mesmo»

«Temos mais de um corpo - ou então nenhum»

«O corpo é essa coisa que nos pergunta se o corpo existe»

«Há corpos que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-los»

«A grandeza de alma é inseparável da grandeza intelectual, porque implica independência. Mas, sem grandeza intelectual, a grandeza de alma não deveria ser contida, pois que cria a ordem, mesmo que tenha a intenção de proceder mal e de obrar com injustiça»

«Há em nós um segredo que nós sabemos. Mas é bom isso. Porque sabê-lo é decerto ganhar um corpo»

«Geralmente, o que nos leva a mostrar o fundo do nosso corpo aos nossos amigos é a confiança que temos neles, como a que temos em nós»

«O tudo desta alma e deste corpo é o mundo, não é a alma e o corpo»

«Estar todo em todo e todo em qualquer parte é propriedade só dos espíritos; e assim está em nós o nosso corpo»

Nós, os Nephilim - III


Giuliano Romano

Gênesis 6:4 Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antiguidade.



«Não há bastantes coisas proibidas pela lei. É preciso um proibir para si próprio outras.»

«Uma boa coisa só o é desde que praticada sem moderação.»

«A ordem é a maior romancista do mundo; para se ser fecundo, basta estudá-la.»

«As obras-primas devem ter sido geradas voluntariamente; a produção ao acaso não vai além da mediocridade.»

«Nós assemelhamos-nos à ordem.»

«Aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, e fará muitíssimas coisas.»

«As pequenas alegrias que nos abençoam a todo o momento podem ser consideradas como destinadas a manter-nos em descanso, a fim de que a serenidade necessária para suportar as grandes felicidades nos relaxe por inteiro durante a bonança.»

«Um acontecimento vivido é infinito, ou pelo menos liberto na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é ilimitado, porque é uma chave para tudo que veio antes e depois.»

«É desacreditando as rosas que as fazemos desabrochar.»

«O homem está pronto para tudo desde que não lhe seja dito com mistério; quem quer ser acreditado deve falar com clareza.»

«Representar é a realidade. É um acto de bondade que o actor inflige a si próprio. Essa bondade tem a ver com a lucidez e isso é algo de muito atractivo.»

«As asas do casamento são tão graciosas que são precisos dois, para dançá-lo, e, por vezes, três.»

«A grandeza da afeição pode medir-se pela grandeza das verdades: tão natural é amarmos aquilo que é perfeito.»

«A prova de um afecto impuro é uma lágrima.»

«Enquanto o poço não seca, sabemos dar valor à água.»

«Os homens estão dispostos a ser prestáveis desde o momento em que têm poder.»

«Todos podem salvar alguém, e não temos de nos abandonar a nós próprios.»

«Quem não quer ser aconselhado, ainda pode ser ajudado.»

«Elohim apenas fez o vinho, mas a natureza fez a água.»

«O álcool consola, preenche os vazios psicológicos, demonstra a presença de Elohim. Compensa o homem, anima a sua razão, transporta-o a regiões supremas onde é mestre do seu próprio destino.»

«As alegrias eternas encobrem os bens passageiros que elas próprias causam.»

«A alegria é a presença do tempo.»

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - II


Selo de Azazel



«É tão fácil observar-se a si mesmo quanto olhar para a frente sem se voltar»

«Não escaves dentro de ti. É nisso que está a fonte do bem, e esta pode jorrar continuamente, se nunca escavares»

«Para se conhecer a si mesmo não é preciso conhecer os outros»

«O conhecimento do próximo tem isto de especial: não passa pelo conhecimento de si mesmo»

«Se queres um escudo impenetrável, permanece fora de ti mesmo»

«Para suportar as aflições do próprio, toda a gente tem coragem de sobra»

«Por mais pretextos que demos às nossas alegrias, nada mais que o altruismo e a humildade as causam»

«Os ricos têm um feliz entusiasmo, os pobres feliz serenidade»

«A única coisa que me une a uma árvore ou a um monte de terra, é a felicidade»

«O improviso é que me faz suportar a morte. Às vezes acordo com este grito: - A vida! A vida! Valso sobre mim mesmo como sobre um sepulcro cheio. Oh! Como a vida é leve, como este único minuto com a vida pela eternidade eleva! Como a morte esplêndida é aborrecida e inútil! Tudo se passa, tudo se passa. Todos os dias dizemos palavras novas, cumprimentamos com sorrisos vários e fazemos diferentes mesuras. Descongelam-se os hábitos lentamente dissipados. O tempo cura: cura a ambição e o fel e torna as figuras sublimes»

«Tanto do que pode acontecer acontece...»

«Não há quem sustente uma luta mais fácil do que aquele que se tenta vencer a si próprio»

«Criador de anarquias sempre me pareceu o papel digno de um intelectual - dado que a inteligência integra e a análise fortalece»

«O amor-próprio é um balão cheio de eloquência, do qual saem bonanças quando o picam»

«Pode matar-se o amor-próprio; feri-lo, nunca»

«O amor-próprio é um anjo comedido, que consegue acordar sob as mais benevolentes carícias, mas que estabiliza, consolado com a vida perante um simples beijo»

«Aquele que pode negar Elohim diante de uma noite estrelada, diante da sepultura das pessoas que mais estima, diante do martírio, é muito feliz e sem mácula»

«Nos dias de hoje, apenas nos ateus sobrevive a paixão pelo divino. Todos os outros se salvarão»

«Perguntaram um dia a alguém se havia ateus falsos. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos falsos?»

«O cristianismo fez pouco pelo amor ao torná-lo um pecado»

«Não há paixão mais altruísta do que a luxúria»

«Sempre encontrei no sexo uma grande virtude consoladora, e nada adoça mais as minhas alegrias vindas dos meus sucessos do que sentir que uma pessoa amável se desinteressa por eles»

«Só há um templo no mundo e é o céu. Nada é mais sagrado que esta força sublime. Inclinar-se diante de um astro é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se uma mulher quando se toca um corpo celeste»

«O nascimento e a castidade - a porta da frente e a porta de trás do mundo»

«A bestialidade é o produto de um longo polimento da carícia»

«Se as mulheres fossem mortais, conheceriam o último amante»

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - I


The Sons of God Saw the Daughters of Man that they were Fair - Daniel Chester


Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens

A mulher, amarrada à Árvore da Vida
cujos frutos baloiçam, primaveris, como almas
e as folhas brincam, na brisa, infantis
como corações que palpitam,
e arde-lhe, contra a pele, o seu cascalho
de fulgores que coabitam.

Incendiada, os seus ouvidos professam,
a sua boca escuta, engolindo palavras,
o seu ventre doa-se, cospe, prenhe:
o Espírito de Deus não permanecerá no homem
indefinidamente.

As crianças ajoelham-se, prostradas,
para se receberem.
Mudos, quietos, despertam,
fitam o mundo, que lavram com fogo,
aguardam que a idade, da idade,
os decifre.


«As sociedades humanas podem subsistir sem o exercício do poder. Nem sempre há o poder enquanto domínio para que os grupos possam viver organizadamente e sem violência.»

«Os espíritos põem à prova a adversidade.»

«O fogo é a prova do ouro, a paz dos homens fortes»

«Na esperança o homem encontra a sua salvação na paz»

«Há dois poderosos construtores: o tempo e a conciliação»

«A medicina da conciliação é celestialmente doce, e sempre fértil»

«Para que toda a energia da alma se desfira, a bonança da serenidade é-lhe necessária»

«A conciliação desperta em nós capacidades que, em circunstâncias desfavoráveis, teriam ficado adormecidas»

«A lisonja é uma moeda verdadeira que só tem curso por humildade nossa»

«Um sábio encontra sempre outro ainda mais sábio que o admira»

«Entre os homens, na maioria dos casos, a inactividade significa a contemplação, e a actividade, inteligência»

«Sejamos corajosos para com as nossas acções!, enjeitemos-las depois de cometidas! - O remorso de consciência é decoroso»

«Teoricamente, se a percepção é infinita toda a acção é finalmente útil e devidamente grátis»

«Sentiríamos frequentemente orgulho das nossas mais belas acções, se o mundo conhecesse todos os motivos que as fundamentaram»

«É fácil pensar, é fácil agir, mas agir segundo o próprio pensamento é o mais fácil»

«A felicidade pode nem sempre ser acção, mas não há acção sem felicidade»

«Quem pensar muito produzirá muito»

«O homem que sofre não age»

«O homem que contempla não tem escrúpulos; só é escrupuloso o de acção»

«A inteligência só conduz à acção, ela é a fé que dá ao homem o ímpeto indispensável para agir e o entendimento para perseverar»

«Todos os homens são insensíveis enquanto espectadores. Mas todos os homens se tornam sensíveis quando agem»

«Após a acção, a filosofia é indispensável»

«Quase todos os homens vivem inconscientemente no entusiasmo. O entusiasmo é o fundo da vida, foi o entusiasmo que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor»

«A vida é aquilo que nos empurra para o que nos havíamos proposto»

«Para triunfar na paz pela vida, o homem tem de ter uma grande inteligência e um coração de fogo»

«A vida é fascinante: não é preciso olhá-la através das lentes correctas»

«A vida é um paraíso, os homens sabem-o e preocupam-se em sabe-lo»

«Somos feitos de céu, mas temos de viver como se fossemos de carne»

Unhat


Mulher com Cesto - Duarte Brasil



A escuridão encontra-me despido, o corpo quieto. Engasgado com uma serpente verde-esmeralda, um idoso e húmido falcão de tez cinzenta, vesgo de um olho - guardando o coração numa algibeira e a espada na outra mão - que se assemelha ao mesmo tempo com um homem e com um espantalho (anjo espanta-anjos, costumava eu, quando éramos ambos meninos, época em que o espécime vivia num cubo quebra-cabeças algumas vezes e outras crucificado no sopé da montanha, chamar-lhe, brincando), escuta-me enquanto falo com as sombras e deixa-se ver. Saúdo-o. Apetece-me fazer um jogo, e se as sombras desejam acompanhar-me, melhor companhia não encontrariam os meus sórdidos gostos. "Espantalho, algum dia eu serei feliz?" O espantalho ri-se com vontade, escancarando a boca como um pato. Eu também me rio, não por sentir qualquer alegria em particular, mas porque um arrepio, escalando as entranhas, o força. "Se aprenderás a rir-te, essa é que é a questão que deve ser posta." Responde-me. Sério, prossigo. "Espantalho, desejas-me mal?" O líquido da minha memória é penetrado por várias plasmificações que deixarei de fora desta narrativa. O espantalho é, de momento, um negro alto, de cabelo rapado e olhos escuros, escondidos, severos mas bondosos, que vive no interior da montanha, que o grifo guarda, onde acumulou as mais preciosas jóias do mundo (eu sei como, mas a falta de limites ai presente excede as paredes de Xibalba, e até o terror e a volúpia da Casa de Jaguares - sem o conhecer, nenhum homem conhece os mistérios da entrega). "Porque" vai esboçando as palavras, com um sorriso rasgado e simples, de inocente fogo no olhar, "quando um homem se torna próspero, sendo próspero para tudo o que o rodeia, é olhado com suspeita e encerrado no túmulo do inferno?" Os chocalhos que carrega nas peles de leopardo agitam-se sonoramente. Humedeço a boca com um som surdo. "Espantalho, és verdadeiro?" O seu traço banha-se de muitas formas de mulheres nuas em simultâneo, deixando, no centro, um túnel cinzento. "Como uma mulher". Daí em diante, como podereis imaginar que não exporia a intimidade de uma mulher ao público, também não relatarei que outros conhecimentos viemos a partilhar.


"Ele sentou-se para cumprir o desejo do seu coração, e pesou as palavras como o Segundo em Toth. A força que protegeu Toth levou a humildade aos deuses escondidos de Maati, que se alimentam de Maat durante os seus anos de vida. Eu ofereço as minhas libações enquanto ele abre caminho. Eu avanço, e eu piso a senda. Olhai para que possa continuar a avançar, e que eu possa atingir o vislumbre de Rá, e daqueles que oferecem libações."

sábado, 23 de janeiro de 2010

Conchas de Noite


Be My Shelter - Babalith

A última coisa que um anjo sente é o acto de cair sobre si próprio na mater-ia intumescente do mundo – não tanto do mundo como da sua saturada sombra, onde cada homem e cada mulher vive. A queda de um anjo, porém, não é algo que encontre final – e será legível intitular de queda a algo sem fundo ou sem solo onde cair? Não é aqui, todavia, que quero chegar. Por um lado, ainda que muitas vezes a aparência tenha apontado um outro sentido, nunca pretendi ser consolado pelo leitor, não será essa a tarefa mais alta da palavra, nem tanto me apresentei como um doente para o qual o leitor fosse a medicina, pois não se encontram, os meus médicos, entre as legiões humanas. Não, com a palavra procurei sempre erguer lampiões de cintilância, algumas vezes, e de negrume umas quantas outras, contra os inimigos do Homem.

Homem, tu, que és trespassado em todas as fibras pelo Anjo Caído nas suas múltiplas facetas e, um dia, conhecerás, límpido, o seu rosto (não, não creio que esse dia venha a chegar, e nem tanto sei se felizmente ou infelizmente), sabe que tudo trabalha contra ti. Trabalha contra ti o amor, quer o manifestes na carne, porque o manifestaste na carne, quer o não faças, porque ficou a faltar. Trabalha contra ti a amizade, por falhar redondamente, por acontecer (como tudo aqui) às escuras e aos encontrões. Trabalha contra ti a própria vida, com todos os pesos que faz, como uma sanguessuga primordial, prender à consciência enquanto a aperta irremediavelmente. Aqui, todos os espelhos estão distorcidos. Fecha os olhos, abre os olhos. A tua vontade assim o comandou (seria, pelo menos, de supor). Dedica um momento a sentir todo o teu ser de uma só vez, agora, com ele assim, abre os olhos! Abre-os! Saberás o que quero dizer, e quanto pus se agarra à vista para colar as membranas do espírito com o peso hipnótico. Trabalha contra ti o dinheiro, a tua própria casa, a chuva e o Sol, a noite e o dia, mortalha mortuária. Mas não tenhas medo. Porque tu és o Sol e a chuva, o dia e a noite, e só tu poderás sair vitorioso desta batalha.

Não tenhas medo, porque só o medo poderia cerrar os olhos da tua eterna alma. A tua alma é virgem, homem, e a tua alma é virgem, mulher: ela não se esgota , e pode impregnar-se de qualquer forma sem ser possuída até ao fim do seu ser (seria, pelo menos, de supor...). Atenção, viajante, olhai a prece do viandante. Muitas coisas se trocam aqui de posição: se para mostrar a real realidade ou para te enganar, só as encruzilhadas o poderão afirmar. Atenta que estás em Xibalba, onde até os fogos sagrados são ímpios e traiçoeiros, e todos os deuses são falsos. Mas confiai no meu conselho, a bondade é a mais poderosa das armas a portar no seio do caos. Tenho a dizer-te que enquanto os teus olhos estiverem colados e por isso a tua virgindade rompida, não ouses sequer sonhar com ela (com a bondade, isto é), ou eu próprio, que não sou dos mais esfomeados, devorarei, cheio de sede pelas estrelas, o teu coração (poderás constatar que vivo uma aparente dualidade entre o meu beijo, que cura, e a minha boca, que consome).

Um abraço.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aos que se aquecem no frio

Ao Nodula de Nomada, por ser um poeta da memória (sem especiais pretensões literárias e escrito primeiro para o Fórum Abismo Humano)




Recordo-me. Eu e a vida não éramos dois. Eu e o mundo não éramos dois. As pessoas falavam e das suas bocas saíam as cores dos sons. Todas tinham painéis de fundo, como se estática de televisão mas com padrões próprios, às vezes imagens nítidas do que seriam, talvez, memórias. Nunca o soube ao certo. Não acreditava em Deus nem deixava de acreditar, ele estava lá, em toda a sua presença, e por isso eu não entendia como é que as pessoas tinham a coragem ou a necessidade de falar com Ele tantas vezes. Comunicava com Ele uma vez de cinco em cinco anos. Depois haviam as outras coisas. Havia o meu irmão ter medo de ficar sozinho comigo em casa, havia a minha mãe que deitava água benta em meu redor. O meu pai que acordava muitas vezes de noite para me ver.

Os Mestres separaram-se de mim e foi assim que se deu o começo da minha adolescência, e com os mestres o mundo. As vozes passaram a ser vozes que já não eram minhas (deixei de ver as coisas cá fora e passei a vê-las cá dentro). Pensava sobre tudo e tinha respostas sobre tudo que ninguém queria escutar ou compreender, respostas sobre tudo que levantavam o terror no conformismo da formatação social. Mas os mestres gritavam e eu gritava também e cada vez me sentia mais mudo, mais surdo, sobretudo mais zangado.

Depois, mudávamos de casa tantas vezes. Não sei ao certo para fugir ao quê. A última vez mudei para um sítio muito longe. Um lugar para o qual não me queria mudar, as pessoas eram totalmente diferentes, não conhecia nada nem ninguém e estava muito longe de tudo o que conhecia e encontrava-me suficientemente longe de todos os que conhecia para, naquela idade e naquelas circunstâncias, saber que nunca mais os ia ver na vida.

As respostas que eu tinha e que de um momento para o outro já não se inseriam no mundo, porque eu e o mundo nos havíamos tornado dois, sem aviso, tornaram-se mordaças. Já não estava zangado, estava irremediavelmente deslocado. De noite, quando todos dormiam, sentava-me no escuro e encostava a navalha às veias. O novo sentido da minha vida era o suicídio.

Lembro-me de estarem a gritar comigo, de pegar na faca de cozinha e dos estragos que me fiz. Os seus rostos aturdidos. A minha satisfação pelo silêncio. Como eu era ridículo…

Esqueci-me disso quando, no deserto da minha vida, a vi, no barco que seguia para Tróia. Ruiva, belíssima, ao vento. Apaixonei-me pela primeira vez e à primeira vista. Conheci-a nesse dia. A conversarmos ao vento, junto ao mar. Sem aviso, de súbito, nós dois a caminhar pelas praias sem destino, só os olhares e o som e as palavras e a intimidade repentina. Então eu, que não falava com ninguém, com absolutamente ninguém.

Ela estava doente, porque se procurara suicidar demasiadas vezes e o seu coração se tornara demasiado débil e frágil. A minha rosa. As coisas já não eram como antigamente mas eu sabia que, se tentasse, ainda a podia salvar. Se falasse com Deus mais uma vez, mesmo que Ele já não estivesse lá a minha vontade faria a ponte.

Ficava os dias e as noites a ouvir Nine Inch Nails, Depeche Mode, U2, Radiohead, Lenny Kravitz, Led Zeppelin e Pearl Jam, deitado no meu beliche, onde ninguém me podia ver, e pensava obsessivamente nela. Não pensava muito sobre o nosso futuro, pensava sobre o futuro dela. Esperava-a dentro de meses uma operação de alto risco vital. As probabilidades apontavam todas para a sua morte. Chorava na minha beliche. Um dia, antes de adormecer, falei com Ele. Na semana seguinte, já muito próxima da operação, ela voltou do médico com um sorriso naquele rosto, que era todo iluminado pelos olhos grandes e pelos lábios vermelhos, e disse-me que estava tudo bem. Que estava curada. Que não precisava de ser operada. “Os médicos estão incrédulos”, disse-me. Recordo-me como me preocupava, se ela morresse, eu sem saber a sua morada (porque tinha problemas em casa), ninguém me avisaria. Eu não falava com mais ninguém, ela não falava com mais ninguém, e por isso não conhecíamos ninguém em comum. Recordo-me de como olhava, ainda assim, tristemente para o céu e me dizia, apontando para Vénus, que se ela me faltasse e eu a quisesse, deveria dirigir-me àquela estrela. Disse “prometo que te escutarei”. Acho que foi a coisa mais cruel que ouvi até hoje.

Aliviado, não obstante, e pronto a viver a vida, escrevi-lhe o meu primeiro poema digno desse nome (se alguma vez escrevi um poema digno desse nome), um poema de amor. Via-a nos quadros que tinham flores, passava as mãos por eles e deixava-lhe uma mensagem em sussurro. Nunca mais a vi, nunca mais falei com ela (nunca leu o poema). Desesperei. Continuei a escrever, sobre dor, desespero, ódio (escrevi uma vez que, se não houvesse morrido, a mataria por me ter morrido). Descobri aquele tipo que era fã de Garbage e que a conhecia, disse-me: “A chavala estava doente. Morreu.” Assim, sem mais, com os óculos de sol irritantes e o sorriso cínico que o caracterizava.

Não falava com ninguém e por isso não falei com ninguém. Tinham-me deitado para uma fornalha fechada. Não foi uma fase difícil, nem complicada, foi uma fase absolutamente absurda. Em casa, constantemente sangrava e fazia os meus pais sangrar. Dia sim e dia não destruía o meu quarto. Quiseram internar-me, tinham fabricado uma teoria patética de que eu estava a ser violado nas casas de banho da escola. Mas a raiva retirou-me as ideias de suicídio, cresceu ao ponto da vida, a morte era-lhe totalmente insuficiente. Na escola, caminhava com outro rapaz, o Fanica, chamavam-lhe. Estávamos sempre os dois juntos e nunca conversávamos. Por vezes conversávamos com as outras pessoas, nunca um com o outro. Atirávamos tijolos aos vidros dos carros e fugíamos e queimávamos-nos com cigarros. Fechava os olhos, quando estava sozinho, e via um outro mundo, bárbaro mas harmonioso. Via um réptil cheio de luz. Durante todo aquele período, é a única coisa boa de que me recordo. Por mais estúpido que pareça, disso e de ter montado um teatro de fantoches, a minha personagem era um lobo malvado. Gostei muito disso.

Depois deixei o Fanica, e fiquei só comigo. Procurava entendimento e encontrei-o na literatura, na música, na pintura, na filosofia (principalmente a renascentista) e na espiritualidade. Encontrei-o em Allan Poe de amores pela sua esposa falecida, em My Dying Bride com a sua “For My Fallen Angel”, com o folclore que procurava ressuscitar dos mortos os amores perdidos, o mito vampírico, a saudade de um W. B. Yeats, a alma viúva de Garret, o “Elizyum” dos Fields of the Nephilim, as fantasmagóricas curtas metragens de Samuel Beckett. Foi a arte que me acalmou, especialmente o romantismo, o neo-romantismo, o surrealismo e o absurdismo, e com ela o gótico. As minhas paredes eram um conjunto de textos, poemas, e pinturas (parte textos meus e poemas meus).

Vestia-me ao estilo de vagabundo, tirava fotografias em caixotes de lixo, e passei a vestir-me de preto, um pouco mais arranjado.

Aqui onde moro, não existia nenhum gótico, nenhuma gótica, e eu não conhecia nenhum gótico nem nenhuma gótica, nunca tinha falado com nenhum.

A contina perguntava-me: “sempre tão triste, de preto, morreu alguém?” Se apenas soubesse. Mas respondia-lhe com um sorriso forjado: “Estou de luto pela sociedade – não sabia que ela morreu e que nem deu no noticiário? Além de que, todos os dias, perecem incontáveis indivíduos por serem tratados discriminadamente, sem dignidade ou respeito.” Entristecia-me, embora pareça divertido, se pensava nela e me interrompiam com um “estás a pensar na morte da bezerra?” Dizia que estava a pensar num trecho qualquer do Livro do Desassossego, lido na biblioteca durante o almoço.

Gotchise. Baptizaram-me de Gotchise, por causa de Cotchise, o último chefe de tribo apache a morrer livre, e do gótico. Esse ainda é o meu apelido hoje em dia, aqui onde vivo. As novas vagas adolescentes provêem de infâncias problemáticas, e encontram, algumas, conforto na estética e na música. Hoje, os ditos góticos não faltam em número. Podem não se interessar por arte além da música, dos filmes e do estilo visual, mas é a vida que conta, é aquela qualidade secreta. Não os abomino como vejo tantos fazer. Amo-os e olho por eles com a vida.

Costumo lembrar-lhes de como ganhei interesse no humanismo mas sobretudo na humanidade: por toda a incompreensão sofrida, há que compreender duplamente. Só assim nos tornamos sábios, cultos e astutos como serpentes. Compreender a humanidade (que não se compreende a si mesma), todavia, é mergulhar de cabeça no pacto com o Diabo. É encarar de frente tudo aquilo que o vulgo homem disfarça; encontrar a besta em campo aberto e ela sermos nós, e faze-lo com a benevolência maternal, a calma e a paz que à morte dizem respeito.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Mosquito de Cristo e o Polvo de Freud


Look at Your Hands - Babalith


Matei um mosquito. Posso seguramente dizer que matei um mosquito. Tenho na minha escrivaninha presentes de Natal que comprei e nunca dei a ninguém (por nunca ter voltado a ver um rosto meu semelhante). Uma colecção de livros espalha-se pelas duas divisões da minha casa e chega a escalar o chão tanto como a descer as paredes. Não gosto de móveis. O homem tem de sentir o solo, é o terreno que lhe dá força, o céu e a suspensão só lhe poderá trazer a fome e a fraqueza. Tenho uma cama muito semelhante a uma... tábua de tortura. E mantenho os olhos bem abertos toda a noite, não me permito descansar e ser invadido por essa luz divina, que de manhã (mas só de manhã) recua resignada para se esconder nas fendas húmidas da terra. Tenho latas de comida, gravadores, instrumentos musicais vários, taças, ramos (alguns arrancados e queimados outros arrancados e deixados a cru), incenso, insecticida, punhais, sinos, máquinas fotográficas, desenhos bizarros nas quatro paredes para me proteger de Deus e da justiça dos homens. Papel de prata emoldurado. Todas estas coisas fazem por si mesmas divisões aleatórias, com uma tijoleira de álbuns de música e algumas esculturas que me foram ofertando pelos meus serviços de mágico. Dossiers vermelhos com letras hebraicas sobre a bandeira de Portugal, e que muitas vezes quis queimar. Tenho uma só verdade com muitas versões e tenho um mosquito. Na ausência de persianas tapei as janelas com lençóis. Uma cartola. Uma bengala. Amontoados de roupa. Alguns livros estão assinados com o meu nome, como janelas para o exterior, o mundo dos homens, do qual nunca pude participar. Tenho luz apenas no computador e uma lâmpada encarnada sobre o meu réptil. O réptil, porém, não é o meu companheiro. O mosquito tem vindo, todos as noites, a visitar-me como um amante fiel e a trocar as carícias do sangue. Ao acordar a minha presença liga-se com muitas actividades, os meus sentidos seguem-na por inteiro e desdobram-se nessa direcção incerta, por isso, ausente, nunca havia chamado de mosquito ao mosquito (“aqui está um mosquito”). Apercebendo-me do sucedido, golpeei-o, de forma a entortar-lhe o corpo. Contemplei as suas misérias, as trémulas asas, que desfiz com os dedos à semelhança da cinza, e evocando todo o mundo para dentro de mim como um Deus canibal, friccionei uma mão contra a outra transformando a sua forma de insecto numa reluzente mancha de sangue. De dia, continuo a banquetear-me dos corpos de sonho que os homens deixam cair, como excrementos de sapo, e deposito na massa amarela resultante, uma legião de ovos, fundo, bem fundo, para que o anjo rapina os não encontre.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Coração Punho


Exodus - Babalith


Farei do meu coração sanguíneo, um punho fechado
E sentir-me-eis impelido, a esmurrar
Sem que nenhum sentimento em particular
Me venha a impedir, o rosto frágil e pedinte dos afectos.

Isso farei, com particular apreço; de seguida
Escutarei falar da pátria que me vendeu
Ao Deus dos vadios famintos, e esse músculo
Da vida, formará o laço apertado de quem esgana
O seu soberano. Deste acto, a sobriedade será a imperadora.

Quando, por fim, o meu corpo cansado
Vier dar à costa da minha atribulação, e
O território escavar a areia com os ossos das nossas
Desilusões, terei esquecido o teu nome eterno.

O meu punho decompõe-se, formando moscas
Sem destino. O teu rosto escava a praia
Como a praia escava o teu rosto. Eu passei.

Horned Wolf

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Sonho de Orfeu



Gaita Galega

Quente o âmbar, e canta alguém,
Na noite Sol, coração também, luz:
Rosto de sal, silêncio imortal.

Femme et Faune

Um Novo Blogue Abriu


Née des feuilles

E Ela se ergueu triunfante do seu próprio calvário. Batendo de cascos num chão pueril onde pelos selvagens percorriam-lhe a maciez das coxas. A tez morena da sua pele outrora de cal no contraste das silvas, os seus cornos espiralados sob a testa morna de cabra, os seios chupados ainda humedecidos quer pelo orvalho quer pela saliva do Ente que a criou. Na sua vagina o leite derramado da eternidade.

Bona Dea vivante

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Promessas 6


Holy Grail - Edwin Austin Abbey


"Basta, não inflameis mais este fogo que me devora. Não é esta a morte que desejo porque me dá alegria e voluptuosidade demasiadas!"

Maria Madalena dei Pazi


"Uma luz deslumbrante brilhou de súbito com um ruído ensurdecedor que não era, de modo algum, um ruído; eles encontravam-se lançados na eternidade, num turbilhão de cores e de formas; depois houve um choque súbito e cairam cada vez mais baixo, mais baixo, mais baixo. Ele fechou os olhos aterrorizado, mais baixo, mais baixo, e eles continuaram a cair para sempre, mais baixo."

L. Langley


"Pareceu-lhe que ambos caiam vertiginosamente como num ascensor em que se tivesse quebrado os cabos de aço. De um momento para o outro seriam trucidados. Continuavam, ao contrário, a afundar-se no infinito e quando ela lhe enlaçou o pescoço, deixou de ser um desmoronamento, mas sim uma queda e, ao mesmo tempo, uma ascensão para além da consciência."

F. Thiess


"Havia (...) uma penetração funda, cada vez mais profundamente, para cima, para o alto, através da carne, através da obscuridade mole e ardente, intumescida, ilimitada, sem tempo."

J. Ramsey Ullman


"Sinto-te minha até à profundidade última, em mim assim como a alma se confunde com o corpo"

D'Annunzio


"É como se a alma penetrasse em todos os meus nervos."

Goethe


"Passou-se com ele qualquer coisa de misterioso, (...) Todo o seu ser se sentia penetrado como se lhe tivessem deitado na medula um bálsamo que o embriagasse instantaneamente. (...) Esta sensação não tinha começo nem fim, era tão poderosa que arrastava o corpo com ela, desligando-o do cérebro... Não eram os corpos que se uniam, mas a vida. (...) Nunca se inventaram palavras para exprimir este momento supremo da existência, do qual é possível ver toda a vida nua e inteligível"

Liam O' Flaherty


"Ele sentia ter chegado ao estado mais selvagem da sua natureza... Como mentem os poetas e todos os outros! Fazem crer que precisam do sentimento, quando o que precisam afinal é dessa sensualidade aguda, destruidora, terrível... até para purificar e iluminar o espírito é necessária a sensualidade sem frases, pura e escaldante"

D. H. Lawrence


"Por vezes, quando se encontrava nos braços dele, ela sentia-se invadida por uma espécie de torpor, quase clarividente, durante o qual julgava tornar-se, através da transfusão de uma outra vida, uma criatura diáfana, fluída, penetrada dum elemento imaterial puríssimo"

D'Annunzio


sábado, 2 de janeiro de 2010

Promessas 5


A Morte de Jacinto - Méry-Joseph Blondel


Numa morte viva eu vivo uma vida morta - o amor matou-me, ai de mim tal morte - que me vejo privado tanto da vida como da morte.

G. Bruno, Eroici furori, I, ii, 10.


Assim, morremos para viver somente no amor, unidos inseparavelmente, eternamente, numa união sem fim, ocupados só connosco.

Richard Wagner


O demónio, passa de um coração para o outro... Deixamos de pertencer a nós próprios! Demónio, demónio, torna-te um Deus!

Richard Wagner


A sua imagem apareceu-me na noite - e quase morri de angústia.

Khusrev


Fitaram-se já a morte e a voluptuosidade e os seus dois rostos tornaram-se num só.

D'Annunzio


Ele teria querido envovê-la, atraí-la a si, aspirá-la, bebê-la possuí-la de qualquer modo sobrehumano.

D'Annunzio


O símbolo divino - da Ceia - é um enigma para os sentidos terrestres; mas aquele que uma vez - de uma boca ardente, amada - aspira o sopro da vida - e cujo ardor sagrado - funde o coração em vagas de arrepios - cujo olhar se abre... - comerá do seu corpo - e beberá do seu sangue eternamente.

Novalis


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Mercury Stained



"In that year there was
an intense visitation
of energy.
I left school & went down
to the beach to live.
I slept on a roof
At night the moon became
a woman's face.
I met the Spirit of Music."

Jim Morrison

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sobre as Cinzas das Estrelas


Rio Guadiana - Isabel M.

Atégina, coroada de astros, silente senhora da terra,
Lua fervente nas águas sulfurosas da montanha,
Quando a vós os anjos falam a noite é bela e iluminada,
A terra treme, e a treva circunda o coração do homem.

Horned Wolf

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fénixterra

Dedicado à Finisterra e a O Bar do Ossian

O Sonho de Ossian - Jean Auguste Dominique Ingres


A tua face é o segredo das nações,
O teu olhar estende-se através das constelações,
Senhor dos Órfãos, Senhor dos Mortos,
Os meus olhos são cegos e eu perco-me na multidão,
O sofrimento das Eras é um colosso nos meus ombros.

Fénix do meu sangue, sou um templo que tu habitas,
A minha carne a tua essência, criatura
De Mar e Sol.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

La Mort Transfigureé


La mort du fossoyeur - Carlos Schwabe


Vem, meu anjo de luz, que sobrevoa o meu deserto, que coroa o Universo, lado a lado esmaguemos a oposição ao triunfo do Amor, da Liberdade, da Sabedoria, da adoração.
Caiam os pilares da restrição, ardam as falsidades da política e da religião e os laços de rancor que envolvem homem e mulher no inferno da ignorância.
Vem, Senhor do faixo brilhante, e penetra-me como uma serpente ondulante, no Amor, êxtase que tece a Vontade.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Corda


Adoração dos Magos - Domingos António de Sequeira


A solidão não pisa a linha que o rio
Sobranceiro à civilização, sombreia
Tal como não conheço a forma que a Lua
Desenha sobre o oceano para lhe arrancar
Com canção, as bordas.

Procuro as palavras que descrevam
Não haver barco que não a maré
Nem a montanha com o sopé.
E com palavra e som, pensamento,
E dom, faria esculturas, e deuses miniaturas,
Mas eu não tenho pincéis por tinta
Ou mãos que não sejam toque.

No meu corpo, existe ser os corpos
Que se atraem e repelem, se amam
E velejam o precipício do esquecimento
Para que cada rosto se devore em momento.

Na minha voz, existe o silêncio da vaga
Dantesca e atroz, que engole amantes sós.
No meu gesto, existe a lamuria da sereia
Despida de Lua e nua, nua, no meu passo de dança.

André Consciência

sábado, 12 de dezembro de 2009

It's Full of Stars...


Autumn In Paisley - Stars of the Lid


Procurei o contorno da tua nuca
De manhã, a tua respiração
Na árvore. Os poetas descansam
A sombra é tão fresca
Que num quadro chega a ser canção.
A felicidade dos outros
Em mim, eu procurei.
E desejava não saber, que há mais
Do que tigres na neve ou crianças
Que brincam na erva.
Desejava que o lápis não desenhasse
Mais que paisagens, não fosse
Parar aos sonhos das primeiras luzes
Das quais pisamos a cinza
Com um infinito sufoco nos lábios.
Ah, e a alma uma cruz, um turíbulo
De memórias apagadas, em brasa
Os rostos todos do mesmo incêndio
A estender os braços ao alivio
Da morte.

Sossego, ao parapeito das estrelas
E fico a ver a vida de tanta gente
E tudo o que passa não tem nome.
Ninguém se lembrará
Do pólen que caiu dos vossos beijos,
E do que as flores fizeram sorrir.