quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - III


Giuliano Romano

Gênesis 6:4 Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antiguidade.



«Não há bastantes coisas proibidas pela lei. É preciso um proibir para si próprio outras.»

«Uma boa coisa só o é desde que praticada sem moderação.»

«A ordem é a maior romancista do mundo; para se ser fecundo, basta estudá-la.»

«As obras-primas devem ter sido geradas voluntariamente; a produção ao acaso não vai além da mediocridade.»

«Nós assemelhamos-nos à ordem.»

«Aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, e fará muitíssimas coisas.»

«As pequenas alegrias que nos abençoam a todo o momento podem ser consideradas como destinadas a manter-nos em descanso, a fim de que a serenidade necessária para suportar as grandes felicidades nos relaxe por inteiro durante a bonança.»

«Um acontecimento vivido é infinito, ou pelo menos liberto na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é ilimitado, porque é uma chave para tudo que veio antes e depois.»

«É desacreditando as rosas que as fazemos desabrochar.»

«O homem está pronto para tudo desde que não lhe seja dito com mistério; quem quer ser acreditado deve falar com clareza.»

«Representar é a realidade. É um acto de bondade que o actor inflige a si próprio. Essa bondade tem a ver com a lucidez e isso é algo de muito atractivo.»

«As asas do casamento são tão graciosas que são precisos dois, para dançá-lo, e, por vezes, três.»

«A grandeza da afeição pode medir-se pela grandeza das verdades: tão natural é amarmos aquilo que é perfeito.»

«A prova de um afecto impuro é uma lágrima.»

«Enquanto o poço não seca, sabemos dar valor à água.»

«Os homens estão dispostos a ser prestáveis desde o momento em que têm poder.»

«Todos podem salvar alguém, e não temos de nos abandonar a nós próprios.»

«Quem não quer ser aconselhado, ainda pode ser ajudado.»

«Elohim apenas fez o vinho, mas a natureza fez a água.»

«O álcool consola, preenche os vazios psicológicos, demonstra a presença de Elohim. Compensa o homem, anima a sua razão, transporta-o a regiões supremas onde é mestre do seu próprio destino.»

«As alegrias eternas encobrem os bens passageiros que elas próprias causam.»

«A alegria é a presença do tempo.»

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - II


Selo de Azazel



«É tão fácil observar-se a si mesmo quanto olhar para a frente sem se voltar»

«Não escaves dentro de ti. É nisso que está a fonte do bem, e esta pode jorrar continuamente, se nunca escavares»

«Para se conhecer a si mesmo não é preciso conhecer os outros»

«O conhecimento do próximo tem isto de especial: não passa pelo conhecimento de si mesmo»

«Se queres um escudo impenetrável, permanece fora de ti mesmo»

«Para suportar as aflições do próprio, toda a gente tem coragem de sobra»

«Por mais pretextos que demos às nossas alegrias, nada mais que o altruismo e a humildade as causam»

«Os ricos têm um feliz entusiasmo, os pobres feliz serenidade»

«A única coisa que me une a uma árvore ou a um monte de terra, é a felicidade»

«O improviso é que me faz suportar a morte. Às vezes acordo com este grito: - A vida! A vida! Valso sobre mim mesmo como sobre um sepulcro cheio. Oh! Como a vida é leve, como este único minuto com a vida pela eternidade eleva! Como a morte esplêndida é aborrecida e inútil! Tudo se passa, tudo se passa. Todos os dias dizemos palavras novas, cumprimentamos com sorrisos vários e fazemos diferentes mesuras. Descongelam-se os hábitos lentamente dissipados. O tempo cura: cura a ambição e o fel e torna as figuras sublimes»

«Tanto do que pode acontecer acontece...»

«Não há quem sustente uma luta mais fácil do que aquele que se tenta vencer a si próprio»

«Criador de anarquias sempre me pareceu o papel digno de um intelectual - dado que a inteligência integra e a análise fortalece»

«O amor-próprio é um balão cheio de eloquência, do qual saem bonanças quando o picam»

«Pode matar-se o amor-próprio; feri-lo, nunca»

«O amor-próprio é um anjo comedido, que consegue acordar sob as mais benevolentes carícias, mas que estabiliza, consolado com a vida perante um simples beijo»

«Aquele que pode negar Elohim diante de uma noite estrelada, diante da sepultura das pessoas que mais estima, diante do martírio, é muito feliz e sem mácula»

«Nos dias de hoje, apenas nos ateus sobrevive a paixão pelo divino. Todos os outros se salvarão»

«Perguntaram um dia a alguém se havia ateus falsos. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos falsos?»

«O cristianismo fez pouco pelo amor ao torná-lo um pecado»

«Não há paixão mais altruísta do que a luxúria»

«Sempre encontrei no sexo uma grande virtude consoladora, e nada adoça mais as minhas alegrias vindas dos meus sucessos do que sentir que uma pessoa amável se desinteressa por eles»

«Só há um templo no mundo e é o céu. Nada é mais sagrado que esta força sublime. Inclinar-se diante de um astro é fazer homenagem a esta revelação na carne. Toca-se uma mulher quando se toca um corpo celeste»

«O nascimento e a castidade - a porta da frente e a porta de trás do mundo»

«A bestialidade é o produto de um longo polimento da carícia»

«Se as mulheres fossem mortais, conheceriam o último amante»

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Nós, os Nephilim - I


The Sons of God Saw the Daughters of Man that they were Fair - Daniel Chester


Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens

A mulher, amarrada à Árvore da Vida
cujos frutos baloiçam, primaveris, como almas
e as folhas brincam, na brisa, infantis
como corações que palpitam,
e arde-lhe, contra a pele, o seu cascalho
de fulgores que coabitam.

Incendiada, os seus ouvidos professam,
a sua boca escuta, engolindo palavras,
o seu ventre doa-se, cospe, prenhe:
o Espírito de Deus não permanecerá no homem
indefinidamente.

As crianças ajoelham-se, prostradas,
para se receberem.
Mudos, quietos, despertam,
fitam o mundo, que lavram com fogo,
aguardam que a idade, da idade,
os decifre.


«As sociedades humanas podem subsistir sem o exercício do poder. Nem sempre há o poder enquanto domínio para que os grupos possam viver organizadamente e sem violência.»

«Os espíritos põem à prova a adversidade.»

«O fogo é a prova do ouro, a paz dos homens fortes»

«Na esperança o homem encontra a sua salvação na paz»

«Há dois poderosos construtores: o tempo e a conciliação»

«A medicina da conciliação é celestialmente doce, e sempre fértil»

«Para que toda a energia da alma se desfira, a bonança da serenidade é-lhe necessária»

«A conciliação desperta em nós capacidades que, em circunstâncias desfavoráveis, teriam ficado adormecidas»

«A lisonja é uma moeda verdadeira que só tem curso por humildade nossa»

«Um sábio encontra sempre outro ainda mais sábio que o admira»

«Entre os homens, na maioria dos casos, a inactividade significa a contemplação, e a actividade, inteligência»

«Sejamos corajosos para com as nossas acções!, enjeitemos-las depois de cometidas! - O remorso de consciência é decoroso»

«Teoricamente, se a percepção é infinita toda a acção é finalmente útil e devidamente grátis»

«Sentiríamos frequentemente orgulho das nossas mais belas acções, se o mundo conhecesse todos os motivos que as fundamentaram»

«É fácil pensar, é fácil agir, mas agir segundo o próprio pensamento é o mais fácil»

«A felicidade pode nem sempre ser acção, mas não há acção sem felicidade»

«Quem pensar muito produzirá muito»

«O homem que sofre não age»

«O homem que contempla não tem escrúpulos; só é escrupuloso o de acção»

«A inteligência só conduz à acção, ela é a fé que dá ao homem o ímpeto indispensável para agir e o entendimento para perseverar»

«Todos os homens são insensíveis enquanto espectadores. Mas todos os homens se tornam sensíveis quando agem»

«Após a acção, a filosofia é indispensável»

«Quase todos os homens vivem inconscientemente no entusiasmo. O entusiasmo é o fundo da vida, foi o entusiasmo que inventou os jogos, as distracções, os romances e o amor»

«A vida é aquilo que nos empurra para o que nos havíamos proposto»

«Para triunfar na paz pela vida, o homem tem de ter uma grande inteligência e um coração de fogo»

«A vida é fascinante: não é preciso olhá-la através das lentes correctas»

«A vida é um paraíso, os homens sabem-o e preocupam-se em sabe-lo»

«Somos feitos de céu, mas temos de viver como se fossemos de carne»

Unhat


Mulher com Cesto - Duarte Brasil



A escuridão encontra-me despido, o corpo quieto. Engasgado com uma serpente verde-esmeralda, um idoso e húmido falcão de tez cinzenta, vesgo de um olho - guardando o coração numa algibeira e a espada na outra mão - que se assemelha ao mesmo tempo com um homem e com um espantalho (anjo espanta-anjos, costumava eu, quando éramos ambos meninos, época em que o espécime vivia num cubo quebra-cabeças algumas vezes e outras crucificado no sopé da montanha, chamar-lhe, brincando), escuta-me enquanto falo com as sombras e deixa-se ver. Saúdo-o. Apetece-me fazer um jogo, e se as sombras desejam acompanhar-me, melhor companhia não encontrariam os meus sórdidos gostos. "Espantalho, algum dia eu serei feliz?" O espantalho ri-se com vontade, escancarando a boca como um pato. Eu também me rio, não por sentir qualquer alegria em particular, mas porque um arrepio, escalando as entranhas, o força. "Se aprenderás a rir-te, essa é que é a questão que deve ser posta." Responde-me. Sério, prossigo. "Espantalho, desejas-me mal?" O líquido da minha memória é penetrado por várias plasmificações que deixarei de fora desta narrativa. O espantalho é, de momento, um negro alto, de cabelo rapado e olhos escuros, escondidos, severos mas bondosos, que vive no interior da montanha, que o grifo guarda, onde acumulou as mais preciosas jóias do mundo (eu sei como, mas a falta de limites ai presente excede as paredes de Xibalba, e até o terror e a volúpia da Casa de Jaguares - sem o conhecer, nenhum homem conhece os mistérios da entrega). "Porque" vai esboçando as palavras, com um sorriso rasgado e simples, de inocente fogo no olhar, "quando um homem se torna próspero, sendo próspero para tudo o que o rodeia, é olhado com suspeita e encerrado no túmulo do inferno?" Os chocalhos que carrega nas peles de leopardo agitam-se sonoramente. Humedeço a boca com um som surdo. "Espantalho, és verdadeiro?" O seu traço banha-se de muitas formas de mulheres nuas em simultâneo, deixando, no centro, um túnel cinzento. "Como uma mulher". Daí em diante, como podereis imaginar que não exporia a intimidade de uma mulher ao público, também não relatarei que outros conhecimentos viemos a partilhar.


"Ele sentou-se para cumprir o desejo do seu coração, e pesou as palavras como o Segundo em Toth. A força que protegeu Toth levou a humildade aos deuses escondidos de Maati, que se alimentam de Maat durante os seus anos de vida. Eu ofereço as minhas libações enquanto ele abre caminho. Eu avanço, e eu piso a senda. Olhai para que possa continuar a avançar, e que eu possa atingir o vislumbre de Rá, e daqueles que oferecem libações."

sábado, 23 de janeiro de 2010

Conchas de Noite


Be My Shelter - Babalith

A última coisa que um anjo sente é o acto de cair sobre si próprio na mater-ia intumescente do mundo – não tanto do mundo como da sua saturada sombra, onde cada homem e cada mulher vive. A queda de um anjo, porém, não é algo que encontre final – e será legível intitular de queda a algo sem fundo ou sem solo onde cair? Não é aqui, todavia, que quero chegar. Por um lado, ainda que muitas vezes a aparência tenha apontado um outro sentido, nunca pretendi ser consolado pelo leitor, não será essa a tarefa mais alta da palavra, nem tanto me apresentei como um doente para o qual o leitor fosse a medicina, pois não se encontram, os meus médicos, entre as legiões humanas. Não, com a palavra procurei sempre erguer lampiões de cintilância, algumas vezes, e de negrume umas quantas outras, contra os inimigos do Homem.

Homem, tu, que és trespassado em todas as fibras pelo Anjo Caído nas suas múltiplas facetas e, um dia, conhecerás, límpido, o seu rosto (não, não creio que esse dia venha a chegar, e nem tanto sei se felizmente ou infelizmente), sabe que tudo trabalha contra ti. Trabalha contra ti o amor, quer o manifestes na carne, porque o manifestaste na carne, quer o não faças, porque ficou a faltar. Trabalha contra ti a amizade, por falhar redondamente, por acontecer (como tudo aqui) às escuras e aos encontrões. Trabalha contra ti a própria vida, com todos os pesos que faz, como uma sanguessuga primordial, prender à consciência enquanto a aperta irremediavelmente. Aqui, todos os espelhos estão distorcidos. Fecha os olhos, abre os olhos. A tua vontade assim o comandou (seria, pelo menos, de supor). Dedica um momento a sentir todo o teu ser de uma só vez, agora, com ele assim, abre os olhos! Abre-os! Saberás o que quero dizer, e quanto pus se agarra à vista para colar as membranas do espírito com o peso hipnótico. Trabalha contra ti o dinheiro, a tua própria casa, a chuva e o Sol, a noite e o dia, mortalha mortuária. Mas não tenhas medo. Porque tu és o Sol e a chuva, o dia e a noite, e só tu poderás sair vitorioso desta batalha.

Não tenhas medo, porque só o medo poderia cerrar os olhos da tua eterna alma. A tua alma é virgem, homem, e a tua alma é virgem, mulher: ela não se esgota , e pode impregnar-se de qualquer forma sem ser possuída até ao fim do seu ser (seria, pelo menos, de supor...). Atenção, viajante, olhai a prece do viandante. Muitas coisas se trocam aqui de posição: se para mostrar a real realidade ou para te enganar, só as encruzilhadas o poderão afirmar. Atenta que estás em Xibalba, onde até os fogos sagrados são ímpios e traiçoeiros, e todos os deuses são falsos. Mas confiai no meu conselho, a bondade é a mais poderosa das armas a portar no seio do caos. Tenho a dizer-te que enquanto os teus olhos estiverem colados e por isso a tua virgindade rompida, não ouses sequer sonhar com ela (com a bondade, isto é), ou eu próprio, que não sou dos mais esfomeados, devorarei, cheio de sede pelas estrelas, o teu coração (poderás constatar que vivo uma aparente dualidade entre o meu beijo, que cura, e a minha boca, que consome).

Um abraço.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aos que se aquecem no frio

Ao Nodula de Nomada, por ser um poeta da memória (sem especiais pretensões literárias e escrito primeiro para o Fórum Abismo Humano)




Recordo-me. Eu e a vida não éramos dois. Eu e o mundo não éramos dois. As pessoas falavam e das suas bocas saíam as cores dos sons. Todas tinham painéis de fundo, como se estática de televisão mas com padrões próprios, às vezes imagens nítidas do que seriam, talvez, memórias. Nunca o soube ao certo. Não acreditava em Deus nem deixava de acreditar, ele estava lá, em toda a sua presença, e por isso eu não entendia como é que as pessoas tinham a coragem ou a necessidade de falar com Ele tantas vezes. Comunicava com Ele uma vez de cinco em cinco anos. Depois haviam as outras coisas. Havia o meu irmão ter medo de ficar sozinho comigo em casa, havia a minha mãe que deitava água benta em meu redor. O meu pai que acordava muitas vezes de noite para me ver.

Os Mestres separaram-se de mim e foi assim que se deu o começo da minha adolescência, e com os mestres o mundo. As vozes passaram a ser vozes que já não eram minhas (deixei de ver as coisas cá fora e passei a vê-las cá dentro). Pensava sobre tudo e tinha respostas sobre tudo que ninguém queria escutar ou compreender, respostas sobre tudo que levantavam o terror no conformismo da formatação social. Mas os mestres gritavam e eu gritava também e cada vez me sentia mais mudo, mais surdo, sobretudo mais zangado.

Depois, mudávamos de casa tantas vezes. Não sei ao certo para fugir ao quê. A última vez mudei para um sítio muito longe. Um lugar para o qual não me queria mudar, as pessoas eram totalmente diferentes, não conhecia nada nem ninguém e estava muito longe de tudo o que conhecia e encontrava-me suficientemente longe de todos os que conhecia para, naquela idade e naquelas circunstâncias, saber que nunca mais os ia ver na vida.

As respostas que eu tinha e que de um momento para o outro já não se inseriam no mundo, porque eu e o mundo nos havíamos tornado dois, sem aviso, tornaram-se mordaças. Já não estava zangado, estava irremediavelmente deslocado. De noite, quando todos dormiam, sentava-me no escuro e encostava a navalha às veias. O novo sentido da minha vida era o suicídio.

Lembro-me de estarem a gritar comigo, de pegar na faca de cozinha e dos estragos que me fiz. Os seus rostos aturdidos. A minha satisfação pelo silêncio. Como eu era ridículo…

Esqueci-me disso quando, no deserto da minha vida, a vi, no barco que seguia para Tróia. Ruiva, belíssima, ao vento. Apaixonei-me pela primeira vez e à primeira vista. Conheci-a nesse dia. A conversarmos ao vento, junto ao mar. Sem aviso, de súbito, nós dois a caminhar pelas praias sem destino, só os olhares e o som e as palavras e a intimidade repentina. Então eu, que não falava com ninguém, com absolutamente ninguém.

Ela estava doente, porque se procurara suicidar demasiadas vezes e o seu coração se tornara demasiado débil e frágil. A minha rosa. As coisas já não eram como antigamente mas eu sabia que, se tentasse, ainda a podia salvar. Se falasse com Deus mais uma vez, mesmo que Ele já não estivesse lá a minha vontade faria a ponte.

Ficava os dias e as noites a ouvir Nine Inch Nails, Depeche Mode, U2, Radiohead, Lenny Kravitz, Led Zeppelin e Pearl Jam, deitado no meu beliche, onde ninguém me podia ver, e pensava obsessivamente nela. Não pensava muito sobre o nosso futuro, pensava sobre o futuro dela. Esperava-a dentro de meses uma operação de alto risco vital. As probabilidades apontavam todas para a sua morte. Chorava na minha beliche. Um dia, antes de adormecer, falei com Ele. Na semana seguinte, já muito próxima da operação, ela voltou do médico com um sorriso naquele rosto, que era todo iluminado pelos olhos grandes e pelos lábios vermelhos, e disse-me que estava tudo bem. Que estava curada. Que não precisava de ser operada. “Os médicos estão incrédulos”, disse-me. Recordo-me como me preocupava, se ela morresse, eu sem saber a sua morada (porque tinha problemas em casa), ninguém me avisaria. Eu não falava com mais ninguém, ela não falava com mais ninguém, e por isso não conhecíamos ninguém em comum. Recordo-me de como olhava, ainda assim, tristemente para o céu e me dizia, apontando para Vénus, que se ela me faltasse e eu a quisesse, deveria dirigir-me àquela estrela. Disse “prometo que te escutarei”. Acho que foi a coisa mais cruel que ouvi até hoje.

Aliviado, não obstante, e pronto a viver a vida, escrevi-lhe o meu primeiro poema digno desse nome (se alguma vez escrevi um poema digno desse nome), um poema de amor. Via-a nos quadros que tinham flores, passava as mãos por eles e deixava-lhe uma mensagem em sussurro. Nunca mais a vi, nunca mais falei com ela (nunca leu o poema). Desesperei. Continuei a escrever, sobre dor, desespero, ódio (escrevi uma vez que, se não houvesse morrido, a mataria por me ter morrido). Descobri aquele tipo que era fã de Garbage e que a conhecia, disse-me: “A chavala estava doente. Morreu.” Assim, sem mais, com os óculos de sol irritantes e o sorriso cínico que o caracterizava.

Não falava com ninguém e por isso não falei com ninguém. Tinham-me deitado para uma fornalha fechada. Não foi uma fase difícil, nem complicada, foi uma fase absolutamente absurda. Em casa, constantemente sangrava e fazia os meus pais sangrar. Dia sim e dia não destruía o meu quarto. Quiseram internar-me, tinham fabricado uma teoria patética de que eu estava a ser violado nas casas de banho da escola. Mas a raiva retirou-me as ideias de suicídio, cresceu ao ponto da vida, a morte era-lhe totalmente insuficiente. Na escola, caminhava com outro rapaz, o Fanica, chamavam-lhe. Estávamos sempre os dois juntos e nunca conversávamos. Por vezes conversávamos com as outras pessoas, nunca um com o outro. Atirávamos tijolos aos vidros dos carros e fugíamos e queimávamos-nos com cigarros. Fechava os olhos, quando estava sozinho, e via um outro mundo, bárbaro mas harmonioso. Via um réptil cheio de luz. Durante todo aquele período, é a única coisa boa de que me recordo. Por mais estúpido que pareça, disso e de ter montado um teatro de fantoches, a minha personagem era um lobo malvado. Gostei muito disso.

Depois deixei o Fanica, e fiquei só comigo. Procurava entendimento e encontrei-o na literatura, na música, na pintura, na filosofia (principalmente a renascentista) e na espiritualidade. Encontrei-o em Allan Poe de amores pela sua esposa falecida, em My Dying Bride com a sua “For My Fallen Angel”, com o folclore que procurava ressuscitar dos mortos os amores perdidos, o mito vampírico, a saudade de um W. B. Yeats, a alma viúva de Garret, o “Elizyum” dos Fields of the Nephilim, as fantasmagóricas curtas metragens de Samuel Beckett. Foi a arte que me acalmou, especialmente o romantismo, o neo-romantismo, o surrealismo e o absurdismo, e com ela o gótico. As minhas paredes eram um conjunto de textos, poemas, e pinturas (parte textos meus e poemas meus).

Vestia-me ao estilo de vagabundo, tirava fotografias em caixotes de lixo, e passei a vestir-me de preto, um pouco mais arranjado.

Aqui onde moro, não existia nenhum gótico, nenhuma gótica, e eu não conhecia nenhum gótico nem nenhuma gótica, nunca tinha falado com nenhum.

A contina perguntava-me: “sempre tão triste, de preto, morreu alguém?” Se apenas soubesse. Mas respondia-lhe com um sorriso forjado: “Estou de luto pela sociedade – não sabia que ela morreu e que nem deu no noticiário? Além de que, todos os dias, perecem incontáveis indivíduos por serem tratados discriminadamente, sem dignidade ou respeito.” Entristecia-me, embora pareça divertido, se pensava nela e me interrompiam com um “estás a pensar na morte da bezerra?” Dizia que estava a pensar num trecho qualquer do Livro do Desassossego, lido na biblioteca durante o almoço.

Gotchise. Baptizaram-me de Gotchise, por causa de Cotchise, o último chefe de tribo apache a morrer livre, e do gótico. Esse ainda é o meu apelido hoje em dia, aqui onde vivo. As novas vagas adolescentes provêem de infâncias problemáticas, e encontram, algumas, conforto na estética e na música. Hoje, os ditos góticos não faltam em número. Podem não se interessar por arte além da música, dos filmes e do estilo visual, mas é a vida que conta, é aquela qualidade secreta. Não os abomino como vejo tantos fazer. Amo-os e olho por eles com a vida.

Costumo lembrar-lhes de como ganhei interesse no humanismo mas sobretudo na humanidade: por toda a incompreensão sofrida, há que compreender duplamente. Só assim nos tornamos sábios, cultos e astutos como serpentes. Compreender a humanidade (que não se compreende a si mesma), todavia, é mergulhar de cabeça no pacto com o Diabo. É encarar de frente tudo aquilo que o vulgo homem disfarça; encontrar a besta em campo aberto e ela sermos nós, e faze-lo com a benevolência maternal, a calma e a paz que à morte dizem respeito.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Mosquito de Cristo e o Polvo de Freud


Look at Your Hands - Babalith


Matei um mosquito. Posso seguramente dizer que matei um mosquito. Tenho na minha escrivaninha presentes de Natal que comprei e nunca dei a ninguém (por nunca ter voltado a ver um rosto meu semelhante). Uma colecção de livros espalha-se pelas duas divisões da minha casa e chega a escalar o chão tanto como a descer as paredes. Não gosto de móveis. O homem tem de sentir o solo, é o terreno que lhe dá força, o céu e a suspensão só lhe poderá trazer a fome e a fraqueza. Tenho uma cama muito semelhante a uma... tábua de tortura. E mantenho os olhos bem abertos toda a noite, não me permito descansar e ser invadido por essa luz divina, que de manhã (mas só de manhã) recua resignada para se esconder nas fendas húmidas da terra. Tenho latas de comida, gravadores, instrumentos musicais vários, taças, ramos (alguns arrancados e queimados outros arrancados e deixados a cru), incenso, insecticida, punhais, sinos, máquinas fotográficas, desenhos bizarros nas quatro paredes para me proteger de Deus e da justiça dos homens. Papel de prata emoldurado. Todas estas coisas fazem por si mesmas divisões aleatórias, com uma tijoleira de álbuns de música e algumas esculturas que me foram ofertando pelos meus serviços de mágico. Dossiers vermelhos com letras hebraicas sobre a bandeira de Portugal, e que muitas vezes quis queimar. Tenho uma só verdade com muitas versões e tenho um mosquito. Na ausência de persianas tapei as janelas com lençóis. Uma cartola. Uma bengala. Amontoados de roupa. Alguns livros estão assinados com o meu nome, como janelas para o exterior, o mundo dos homens, do qual nunca pude participar. Tenho luz apenas no computador e uma lâmpada encarnada sobre o meu réptil. O réptil, porém, não é o meu companheiro. O mosquito tem vindo, todos as noites, a visitar-me como um amante fiel e a trocar as carícias do sangue. Ao acordar a minha presença liga-se com muitas actividades, os meus sentidos seguem-na por inteiro e desdobram-se nessa direcção incerta, por isso, ausente, nunca havia chamado de mosquito ao mosquito (“aqui está um mosquito”). Apercebendo-me do sucedido, golpeei-o, de forma a entortar-lhe o corpo. Contemplei as suas misérias, as trémulas asas, que desfiz com os dedos à semelhança da cinza, e evocando todo o mundo para dentro de mim como um Deus canibal, friccionei uma mão contra a outra transformando a sua forma de insecto numa reluzente mancha de sangue. De dia, continuo a banquetear-me dos corpos de sonho que os homens deixam cair, como excrementos de sapo, e deposito na massa amarela resultante, uma legião de ovos, fundo, bem fundo, para que o anjo rapina os não encontre.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Coração Punho


Exodus - Babalith


Farei do meu coração sanguíneo, um punho fechado
E sentir-me-eis impelido, a esmurrar
Sem que nenhum sentimento em particular
Me venha a impedir, o rosto frágil e pedinte dos afectos.

Isso farei, com particular apreço; de seguida
Escutarei falar da pátria que me vendeu
Ao Deus dos vadios famintos, e esse músculo
Da vida, formará o laço apertado de quem esgana
O seu soberano. Deste acto, a sobriedade será a imperadora.

Quando, por fim, o meu corpo cansado
Vier dar à costa da minha atribulação, e
O território escavar a areia com os ossos das nossas
Desilusões, terei esquecido o teu nome eterno.

O meu punho decompõe-se, formando moscas
Sem destino. O teu rosto escava a praia
Como a praia escava o teu rosto. Eu passei.

Horned Wolf

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Sonho de Orfeu



Gaita Galega

Quente o âmbar, e canta alguém,
Na noite Sol, coração também, luz:
Rosto de sal, silêncio imortal.

Femme et Faune

Um Novo Blogue Abriu


Née des feuilles

E Ela se ergueu triunfante do seu próprio calvário. Batendo de cascos num chão pueril onde pelos selvagens percorriam-lhe a maciez das coxas. A tez morena da sua pele outrora de cal no contraste das silvas, os seus cornos espiralados sob a testa morna de cabra, os seios chupados ainda humedecidos quer pelo orvalho quer pela saliva do Ente que a criou. Na sua vagina o leite derramado da eternidade.

Bona Dea vivante

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Promessas 6


Holy Grail - Edwin Austin Abbey


"Basta, não inflameis mais este fogo que me devora. Não é esta a morte que desejo porque me dá alegria e voluptuosidade demasiadas!"

Maria Madalena dei Pazi


"Uma luz deslumbrante brilhou de súbito com um ruído ensurdecedor que não era, de modo algum, um ruído; eles encontravam-se lançados na eternidade, num turbilhão de cores e de formas; depois houve um choque súbito e cairam cada vez mais baixo, mais baixo, mais baixo. Ele fechou os olhos aterrorizado, mais baixo, mais baixo, e eles continuaram a cair para sempre, mais baixo."

L. Langley


"Pareceu-lhe que ambos caiam vertiginosamente como num ascensor em que se tivesse quebrado os cabos de aço. De um momento para o outro seriam trucidados. Continuavam, ao contrário, a afundar-se no infinito e quando ela lhe enlaçou o pescoço, deixou de ser um desmoronamento, mas sim uma queda e, ao mesmo tempo, uma ascensão para além da consciência."

F. Thiess


"Havia (...) uma penetração funda, cada vez mais profundamente, para cima, para o alto, através da carne, através da obscuridade mole e ardente, intumescida, ilimitada, sem tempo."

J. Ramsey Ullman


"Sinto-te minha até à profundidade última, em mim assim como a alma se confunde com o corpo"

D'Annunzio


"É como se a alma penetrasse em todos os meus nervos."

Goethe


"Passou-se com ele qualquer coisa de misterioso, (...) Todo o seu ser se sentia penetrado como se lhe tivessem deitado na medula um bálsamo que o embriagasse instantaneamente. (...) Esta sensação não tinha começo nem fim, era tão poderosa que arrastava o corpo com ela, desligando-o do cérebro... Não eram os corpos que se uniam, mas a vida. (...) Nunca se inventaram palavras para exprimir este momento supremo da existência, do qual é possível ver toda a vida nua e inteligível"

Liam O' Flaherty


"Ele sentia ter chegado ao estado mais selvagem da sua natureza... Como mentem os poetas e todos os outros! Fazem crer que precisam do sentimento, quando o que precisam afinal é dessa sensualidade aguda, destruidora, terrível... até para purificar e iluminar o espírito é necessária a sensualidade sem frases, pura e escaldante"

D. H. Lawrence


"Por vezes, quando se encontrava nos braços dele, ela sentia-se invadida por uma espécie de torpor, quase clarividente, durante o qual julgava tornar-se, através da transfusão de uma outra vida, uma criatura diáfana, fluída, penetrada dum elemento imaterial puríssimo"

D'Annunzio


sábado, 2 de janeiro de 2010

Promessas 5


A Morte de Jacinto - Méry-Joseph Blondel


Numa morte viva eu vivo uma vida morta - o amor matou-me, ai de mim tal morte - que me vejo privado tanto da vida como da morte.

G. Bruno, Eroici furori, I, ii, 10.


Assim, morremos para viver somente no amor, unidos inseparavelmente, eternamente, numa união sem fim, ocupados só connosco.

Richard Wagner


O demónio, passa de um coração para o outro... Deixamos de pertencer a nós próprios! Demónio, demónio, torna-te um Deus!

Richard Wagner


A sua imagem apareceu-me na noite - e quase morri de angústia.

Khusrev


Fitaram-se já a morte e a voluptuosidade e os seus dois rostos tornaram-se num só.

D'Annunzio


Ele teria querido envovê-la, atraí-la a si, aspirá-la, bebê-la possuí-la de qualquer modo sobrehumano.

D'Annunzio


O símbolo divino - da Ceia - é um enigma para os sentidos terrestres; mas aquele que uma vez - de uma boca ardente, amada - aspira o sopro da vida - e cujo ardor sagrado - funde o coração em vagas de arrepios - cujo olhar se abre... - comerá do seu corpo - e beberá do seu sangue eternamente.

Novalis


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Mercury Stained



"In that year there was
an intense visitation
of energy.
I left school & went down
to the beach to live.
I slept on a roof
At night the moon became
a woman's face.
I met the Spirit of Music."

Jim Morrison

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sobre as Cinzas das Estrelas


Rio Guadiana - Isabel M.

Atégina, coroada de astros, silente senhora da terra,
Lua fervente nas águas sulfurosas da montanha,
Quando a vós os anjos falam a noite é bela e iluminada,
A terra treme, e a treva circunda o coração do homem.

Horned Wolf

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fénixterra

Dedicado à Finisterra e a O Bar do Ossian

O Sonho de Ossian - Jean Auguste Dominique Ingres


A tua face é o segredo das nações,
O teu olhar estende-se através das constelações,
Senhor dos Órfãos, Senhor dos Mortos,
Os meus olhos são cegos e eu perco-me na multidão,
O sofrimento das Eras é um colosso nos meus ombros.

Fénix do meu sangue, sou um templo que tu habitas,
A minha carne a tua essência, criatura
De Mar e Sol.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

La Mort Transfigureé


La mort du fossoyeur - Carlos Schwabe


Vem, meu anjo de luz, que sobrevoa o meu deserto, que coroa o Universo, lado a lado esmaguemos a oposição ao triunfo do Amor, da Liberdade, da Sabedoria, da adoração.
Caiam os pilares da restrição, ardam as falsidades da política e da religião e os laços de rancor que envolvem homem e mulher no inferno da ignorância.
Vem, Senhor do faixo brilhante, e penetra-me como uma serpente ondulante, no Amor, êxtase que tece a Vontade.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Corda


Adoração dos Magos - Domingos António de Sequeira


A solidão não pisa a linha que o rio
Sobranceiro à civilização, sombreia
Tal como não conheço a forma que a Lua
Desenha sobre o oceano para lhe arrancar
Com canção, as bordas.

Procuro as palavras que descrevam
Não haver barco que não a maré
Nem a montanha com o sopé.
E com palavra e som, pensamento,
E dom, faria esculturas, e deuses miniaturas,
Mas eu não tenho pincéis por tinta
Ou mãos que não sejam toque.

No meu corpo, existe ser os corpos
Que se atraem e repelem, se amam
E velejam o precipício do esquecimento
Para que cada rosto se devore em momento.

Na minha voz, existe o silêncio da vaga
Dantesca e atroz, que engole amantes sós.
No meu gesto, existe a lamuria da sereia
Despida de Lua e nua, nua, no meu passo de dança.

André Consciência

sábado, 12 de dezembro de 2009

It's Full of Stars...


Autumn In Paisley - Stars of the Lid


Procurei o contorno da tua nuca
De manhã, a tua respiração
Na árvore. Os poetas descansam
A sombra é tão fresca
Que num quadro chega a ser canção.
A felicidade dos outros
Em mim, eu procurei.
E desejava não saber, que há mais
Do que tigres na neve ou crianças
Que brincam na erva.
Desejava que o lápis não desenhasse
Mais que paisagens, não fosse
Parar aos sonhos das primeiras luzes
Das quais pisamos a cinza
Com um infinito sufoco nos lábios.
Ah, e a alma uma cruz, um turíbulo
De memórias apagadas, em brasa
Os rostos todos do mesmo incêndio
A estender os braços ao alivio
Da morte.

Sossego, ao parapeito das estrelas
E fico a ver a vida de tanta gente
E tudo o que passa não tem nome.
Ninguém se lembrará
Do pólen que caiu dos vossos beijos,
E do que as flores fizeram sorrir.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A Boca do Mar Comeu o Lobo


Adam and Evil - colagem e manipulação de Babalith


Dos musicais carroceis da felicidade com todos os seus precipícios, o feiticeiro retorna aos lodaçais do abismo e, lentamente, volta a crescer nele a pele de tubarão. Dorme um sono lesto e de rebeldia. Acorda cheio de piolhos falantes e persegue os seus sonolentos dias numa tentativa suicida de se separar de si mesmo para se tornar a si mesmo. Vomita tudo o que os homens, nas suas prisões lá em cima, com horror guardam. Coça a pele e volta a adormecer, sonhando sobre mares traiçoeiros. Deixa-se visitar por um hermafrodita no qual tudo quer tocar e nada o pode conseguir. O hermafrodita brilha, porque tem sangue forte de anjo. Ao feiticeiro quase que o hermafrodita aparenta o perfume da sabedoria, não soubesse melhor. Jogam xadrez e o hermafrodita repara que o feiticeiro tem muitas cicatrizes. Lança, não sabendo o que é ser homem ou mulher: “Qual o maior desejo humano?”. O feiticeiro responde com a ruína. O metade-anjo: “Não será ruína, em vez, o seu maior medo?”. O feiticeiro procura rir-se, mas a sua boca é uma cicatriz que nunca se fecha e por isso nunca se abre. “É de supor que a procura humana é pela felicidade, mas a ruína abate-se irremediavelmente sobre a sua condição, asfixiando-a. É, sim, na morte que o homem encontra satisfação e no seu prolongamento que ele encontra a felicidade por manifestação do amor. A isto vem substituir a ruína, ou a espuma da vaga, a espuma da vaga cria a pele do grande tubarão.” Coça-se e continua: “Um dia, o próprio homem, alimentando-se de pedras, se tornará pedra e ruína, para conhecer, quieto, os ventos e a terra e os céus. A seguir, será chama, e sem apagar ou queimar o seu corpo negro. Não, o desejo maior do homem é a ruína, é sobre isso que canta o amor sob o engodo quer do sofrimento quer da felicidade.” O hermafrodita sorriu, com uma inocência eterna e virgem. Não sabia jogar xadrez mas gostava de brincar com as peças. “E a História?” Perguntou. “O que tendes com a Historia?” Ripostou o feiticeiro. “A História ergue-se sobre a ruína.” Depois das palavras do hermafrodita, o feiticeiro grunhiu: “Mero rasto de cinzas, e a sua posterior disposição ao vento. Nada lá se encontra a mais do que na contemplação das mutáveis e insubstanciais nuvens no Outono ou na Primavera, pois tudo o que está abaixo dos céus não lhe é superior, excepto quando da espuma da vaga se cria uma ruína que lhe sobrevive, por quanto tempo sobrevive.” Enquanto escutava o feiticeiro o hermafrodita engoliu uma torre. Riu-se com canção. “O que é que isso interessa?” O feiticeiro riu-se, rouco. “Não mais do que um grito na penumbra, caro hermafrodita. Não mais do que um grito na penumbra.”

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ruínas


Must Have Been Love - Babalith


Relacionei-me com homens que foram virtuosos. Morriam aos sessenta anos, e ninguém deixava de exclamar: "Praticaram o bem na Terra, ou seja, praticaram a caridade: e só isso, nada de mais, qualquer um pode fazer o mesmo." Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatravam na véspera, por uma palavra mal interpretada, separam-se, um para o oriente, outro para o ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não voltam a rever-se, cada um envolto do seu solitário orgulho. É um milagre que se renova a cada dia, e que nem por isso é menos miraculoso. (...) Coveiro, é belo contemplar as ruínas das cidades; mas é mais belo contemplar as ruínas dos seres humanos.

D'Os Cantos de Maldoror, Lautreamont

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ilha Peito


Na Terra dos Sonhos - Mariah


Há uma terra a leste do coração,
meu amor,
para lá dos mundos naufragados,
à esquerda da esperança.

Um lugar onde o veneno da medusa
é bebido em cálices nocturnos,
e onde os adolescentes
nadam
com os primeiros golfinhos da manhã.

Não tem nome nem mapa nem rota,
é uma terra de vento e luz,
onde Deus está por inventar,
e o Demo não desembarcou ainda
com as suas filhas de prata.

É uma pulsante ilha no meu peito,
escuta-a, amor,
a terra onde poisarás a fronte,
e onde uma noite apenas
dura todo o sempre.

João de Mancelos, em Alma Azul

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Lira Insubmissa"


Retrato de Abel Acácio Botelho - António Ramalho

Primeiro Fragmento:

1 - Trabalhar em equipa é semelhante a viajar em vela pelo mar, estamos dependentes dos ventos, ou seja, dos humores e condições de todos os elementos que a compõem.
2 - Trabalhar sozinho é semelhante a viajar com barco a motor, a desvantagem sendo a necessidade de suportar os custos da gasolina.

3 - Um problema assola as camadas mais maduras entre os intelectuais, à medida que a sua maturidade e com ela a sua racionalidade, cristaliza, assim a sua sabedoria diminui, na mesma medida em que perdem o discernimento no que respeita à sua própria estrutura. Os seus vícios, deixam de os ver, o motivo sendo simples, e que explicaremos no problema da razão:
4 - O "raciocínio" é um instrumento de excelência que permite a organização, sistematização e estruturação das "coisas" (para englobarmos tudo o que é ideia e emoção, acto e situação) vindo todavia com a mesma problemática que afecta a modernidade (já lá chegaremos). Procura justificar-se e bastar-se a si próprio, procura ser tanto causa como efeito, o motivo motor, a rota e a conclusão. Nenhuma motivação humana, nem uma, é de natureza racional - a razão analisa, não cria. Uma vez mergulhado a fundo na razão que o ignora, o ser humano está trancado e a chave fora deste idealismo, deste sistema, permanecendo inacessível.
5 - Este idealismo, ao contrário do que se possa pensar, faz parte do aspecto negativo da modernidade - aquele de se seguir luzes falsas. O idealismo dos dias de hoje é o informatismo que veio substituir o industrialismo dos dias de ontem. As ideias abandonaram a substância, não a possuem mais do que um placar electrónico, com uma paisagem paradisíaca e uma bela mulher nua. Estão a tentar distrair-nos para não escutarmos a voz das coisas, a voz dentro da voz dos que falam e do silêncio do que está calado - porque cantar a natureza dessas coisas, isso sim, e só isso, causaria uma verdadeira revolução para o estado (situação) moderno. Uma revolução, primeiro, em consciência e do indivíduo, e depois o mundo, com uma alma, abrir-nos-ia as portas.
6 (a) - Um exemplo das coisas tornadas em falsa substância, e da flagrância do truque moderno, está na consequência do guerrear dos hippies - e associações de direitos humanos que batalhavam nessa época - pelas liberdades sexuais - nudez, sexo antes do casamento, amor homossexual, mais liberdade para a mulher, etc - hoje feito em reclames de TV e videoclips de venda, estampado em embalagens de tudo o que é consumível ao ponto do sufoco da dimensão profunda no que respeita ao assunto sexual, tornando-o mecânico e despido de significado. Antes, o significado de todas as "coisas" modernas é estas serem consumíveis, ficando assim não menos virtuais que a moeda. De igual forma ao que explanamos respectivamente à tendência da razão, também o capitalismo se fecha nessa máxima, e procura ser tanto causa como efeito, o motivo motor, a rota e a conclusão.
6 (b) - Falando alegoricamente, e agora de um anjo como esfinge: A todos impõe um teste (sem sair ainda do campo da intelectualidade) - o da luz e o da escuridão, o de depois da luz ser escuridão enquanto depois da escuridão há luz. O caminho para o Éden só se abre de Noite, e esta é uma parábola dirigida aos idealistas.
6 (c) - Quando os ideais esquerdistas e os ideais liberais se expurgarem de todo o materialismo (mito e doutrina, nunca pedra e rio e pão), serão dignos do respeito dos sábios.

7 - Quando somos adolescentes, o amor olha-nos nos olhos e do seu hálito inalamos a morte, então, a morte está em tudo e em tudo está a sede de viver. Antes existe vida, sem nada se interpor entre si própria.

8 - Há no homem o ser-se bobo, e hoje começa a descobrir-se que não existe corte, indo então este homem à procura de rir-se de si próprio e ser bobo duas vezes, numa suposta ascese que desemboca em lado nenhum. Mas isto só os bobos, ou quase só os bobos, o sabem.


Horned Wolf

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Promessas 4 ***


Partida das Bruxas - Luis Ricardo Farelo


"Parecia que entrara nele uma parcela da fascinação amorosa daquela mulher, assim como no ferro entra um pouco da virtude do íman. Tratava-se, verdadeiramente, de uma sensação magnética do prazer."

"O homem sentia a presença da mulher deslizar e misturar-se no seu sangue até ao ponto deste se tornar a vida dela, e o sangue dela a sua própria vida."
G. d'Annunzio

"Quando me uno a uma mulher a percepção através do sangue é intensa, suprema... Dá-se a passagem não sei exactamente do quê, entre o seu sangue e o meu, no momento da união. De tal modo que, mesmo que se afaste de mim, permanece entre nós esse modo de nos conhecermos através do sangue, mesmo que se tenha interrompido a percepção através do cérebro."
D.H. Lawrence

"O sangue é o grande agente simpático da vida, o motor da imaginação; é o substrato animado da luz magnética, ou luz astral, polarizadas nos seres vivos; é a primeira incarnação do fluido universal, é a força vital materializada."
Eliphas Levi



How We Became Fire - Moonspell

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Morte Comer Para Viver


Ruínas do Convento do Carmo - Wolf38


Sento-me no chão frio deste mosteiro, que foi barrado a cimento pelas portas e de onde brotaram as sementes daqueles depois de mim.
Reconheço, aqui na escuridão em que a minha sombra é o pátio e depois do pátio o mundo e a seguir para dentro do mundo, ser um destroço perdido dessa penumbra móvel, que sou um fruto da árvore branca da ignorância. Em todos nós, que cantámos neste solo regado, doentes com o medo e o nosso medo cheio de criação, a amável memória do caos no rosto d’Ela, que o Inverno sepultou de brancura e gelo. No fundo de todos nós, doentes com a organização, como uma flama albina dentro do espelho, a saudade. Geração após geração este esquecimento pueril. Do medo do escravo construimos o temor do guerreiro. Da saudade inútil esculpimos poetas e lançamos-los para fora destas paredes. Edificámos um forte contra a poluição da tua indiferença. Envelhecemos e morremos incontáveis vezes, fortalecendo as paredes com os nossos ossos.
Uma noite, a maçã caiará sobre este caixão de cristal quebrando-o todo, as canções da Lua serão Carne. Depois, o Mundo não será uma esfera, mas será uma continuidade de mundos.


Horned Wolf

domingo, 22 de novembro de 2009

A Sede


Rede de Esgoto

A tez negra da pele. As expressões. Peculiares. Os barcos europeus. Ficam encalhados na costa. Maciços. Na areia. A sonoridade enrolada da água. Os vidros. Cordas. Pele queimada. Luzidia. Pele de negro. A corda. Esticada. Quase rompe. Linhas. Linhas que são feitas de homens, os homens todos feitos de músculos. O vento puxa para um lado. Os homens puxam para o outro. O vento. Não possui rosto. Não tenho pé aqui. O vento. Não possui assobio. Observo nas ondas. Martelos quadrados. A ferrugem. É o estuque dos barcos. Os homens sentam-se parados. Absorvem o sol. As mulheres dançam em procissões, com pedrinhas de muitas cores que soltam tons que eu não ouço. Os olhos das mulheres brilham. Verdes. Pálpebras núbias. Reconstroem os barcos. Os europeus não lhes podem roubar a mãe. Os europeus não lhes podem roubar o mar. A não ser que electrifiquem também a rede marítima. Não consigo sentar-me tanto tempo como eles, quieto. Com o Sol. Treinei. Na Europa. Treinei. Treinei horas de meditação. Treinei horas de posturas. E não consigo ficar parado como eles. O próprio acto de estar parado inquieta-me. Como um movimento. Irritante. Merda. O rapazinho. Os meus lábios não sorriem. Movimento de sucção constante. Sorvem ar queimado. O rapazinho e o lenço que ata à volta da cabeça bonita dela. Que prende perto da nuca formosa dela. Ela. Ata-lhe tranças. Depois o lenço. Na praia. De noite. Poetas mortos no rochedo. Observo nos espelhos. Ardor nos globos brancos. O perfume dela. As minhas narinas uma queimadura. Carne podre. O perfume dela: ondas do mar. O perfume do mar. Barcos. São barcos de madeira. Quebrados. Urram. Ele. Urram. Ela. Gestos. Gesticulam como bárbaros. Planeiam comandar os barcos fantasmas. Ele sente-se feliz. Ele vê-a a rir-se. Ele vê as estrelas e o som das estrelas no silêncio dos olhos alegres dela. Alegres. Sonhadores. Pega numa cana. Ela. Faz serpentes na areia. Vê o som do cano que rasga a praia. Ele. Pega numa cana ele. Faz círculos para apanhar a serpente. Um pequeno. Ela. Evita. Maior. Outro maior. Ela perfura. Ele ri-se. Ela ri-se. Mãos. Dedos. Ele a adorar os dedos. O rapazinho. Que os dedos dela são os dedos mais bonitos que viu. O olhar dela é mil abraços. Quentes. Como sopros quentes. No inverno. O cheiro da madeira podre. O armário. O grito mudo da carne putrefacta. Um grito de revolta. Contra a morte. A vida. É liberdade. Ele. Pega numa cana. A casota em ruínas perto do entulho. Riem-se. Ele. Conta uma estória. Uma estória: vivia ali um eremita muito sábio que aprendeu todos os mistérios do universo com um caranguejo. Ela, continua uma estória. Beijam-se. Beijam-se. O barulho entaramelado dos bichos da madeira. Lutam com as canas, à espada. Ele ganha sempre. Depois. Abre os braços. Sacrifica o coração. O sorriso dela. Golpeada. Depois da derrota. Os canos do esgoto. Cortam a praia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Espelho

The Cyclops - Odilon Rendon


Se, durante demasiado tempo, fixamos o espelho, o nosso corpo é invadido de uma dormência.

Os nossos olhos incendeiam-se, e o nosso corpo não conhece as labaredas.

sábado, 14 de novembro de 2009

O 13º Cavaleiro de Vénus


Alma a Vagar na Pradaria - Guilherme de Faria


O cavalo golpeia o rio
Branco como o Sol
Nunca foi montado
E nunca atravessado.

De noite, o cavalo dorme
E sonha, os banquetes de homens
Perdidos na fluidez
Do chão.

O cavaleiro monta a morte
Negro como o breu
E da Lua, vê a sorte.

Se o Sol o acorda, com a brisa
Não se lembra da sua donzela
E as suas mãos são pedra selada
Contra rosa.

Vai, depois, uma morte
Acender tantas
Que a inocência oculta
E o azul sepulta.

Agora o lago, sacia
Bandos de cavalos selvagens.
O céu trespassa os exércitos
Vertendo penas, são carcaças.

Horned Wolf

sábado, 7 de novembro de 2009

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo


Tudo é Vaidade, Charles Allan Gilbert


Ó Poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Colheita


Rússia durante a Fome de 1921-1923


Aproximam-se, da falésia
Com paz nos cadáveres
As crianças, e curam
A crença da tortura
Numa dança.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ninguém, a Terra

Dedicado a absolutamente ninguém


Eu e o maldito Cais do Sodré

A Lua, na minha aldeia, é sempre grande, e faz uma rota igual todas as noites. Saúdo o Sol quatro vezes ao dia, e sei o seu percurso exacto. Na minha aldeia as estrelas ainda não estão poluídas. Sei de cor o crescimento da vegetação, quando a queimam, ou a cortam e aparam. Sei de cor o canto do corvo, e dos pássaros que se aninham no meu telhado e deixam cair palha pelas frestas das paredes. O mocho, os morcegos. A minha aldeia não tem muros, só planuras, e depois o meu terraço decorado com estatuetas de corujas e rodeado pelas trepadeiras. Sei de cor o movimento das trepadeiras, por isso parecem estar sempre paradas, como a Lua, o Sol e as estrelas. Até os cavalos parecem estar parados, se galopam. Os porcos e as ovelhas. A minha aldeia é um túmulo aberto e ninguém a visita. Na minha aldeia moram idosos e, de todos os estabelecimentos comerciais, existem somente cafés, onde se juntam com conversas sobre mulheres e a juventude que passou. São sempre as mesmas pessoas e também estão paradas. Conhecem-me de cor, o meu vulto vestido de negro. À noite, sento-me sempre só e não gosto de conversar, embora sorria de quando em vez ao ouvir algum disparate divertido. Ninguém me incomoda. Tornei-me na minha aldeia. Não sou outra coisa, quando saio da minha aldeia sinto-me a viajar entre sombras, sendo uma sombra. Os habitantes da minha aldeia são como as árvores da minha aldeia, são parte do terreno e não pessoas. Lá fora, por vezes, quando as bocas se beijam, as sombras, a minha e a outra, parecem tocar-se, numa ilusão da alma. Depois tudo volta a ser terra e folhas ao vento, como sempre foi. Terra e folhas ao vento na minha aldeia.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

"Darkcell"



Não voz, no campanário
Para descrever a mudez do poeta
Que se aquieta, na viuvez
Dançada pelo bobo, castelo de cartas
Gracejando a sua queda,
Entre todos e nos quartos
De luz acesa nas noites apagadas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Casa de Sonho


In Every Dream Home an Heartache, Fields of the Nephilim


De semblantes estimulados,
Os braços envolta de mulheres
E a luz cintila, que entra
O céu gelado, o chão morno
E toda a luz cinzenta é pele
Se as árvores soltam chuva
E as cabeças habitam lâminas
De perfume, e todo
O cinzento é pele de manhã.

Agora isto, gritos em casas de sonho,
De paredes mornas e tectos quebrados
A deixar entrar os pés frios de uma cabeça
Cheia de balas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Casa de Jaguares

Ishtar, por Vian Sora


A Procissão dos Deuses, nesta terra, deve ser feita entre leões, porque o poder da fome habitou os leões, e não contra os leões, por isso, os leões conhecem o amor e são o símbolo de Ishtar. O Homem Real está Nu e monta sobre quatro Leões; devora os quatro bois.

Pazuzu (que espalhava a fome), tantas vezes temido, que caminha como um homem mas possui o corpo de um Escorpião e uma face de Leão (asas repletas de penas), era, na Mesoptamia, um protector contra o Demónio, Lamashtu, que trazia a doença.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vénus Reflectindo Cisnes

Dedicado à Marta


Cisnes Reflectindo Elefantes, Salvador Dali


A neve na língua solta
Desfaz o tempo.
É crepúsculo, e a água
Do teu corpo, reflecte
O chão.

Quantos cisnes voam, no teu riso.

O teu olhar cobre-se
Da simplicidade dos flocos
E a eternidade move-se
Efémera, uma figura de ti.

Quantos cisnes voam, no teu riso.

As criaturas brilhantes
Que são os dias bailantes
Levantam-se da tua noite
E brindam as asas
Que vão dar a todas as costas.

Quantos cisnes voam, no teu feliz adormecer.

Cansados, os corpos misturam-se
Com a noite, e o frio
De todos os ribeiros celestes
Na pele que vestes.

Quantos cisnes voam, no teu feliz adormecer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Círculos Azuis

_C_r_i_a_n_ç_a_,_ _v_ê_,_ _e_s_t_a_ _m_o_r_t_e_ _q_u_e_ _n_o_s_ _d_e_u_ _v_o_z_ _d_e_ _t_i_g_r_e_s_ _m_e_s_m_o_ _s_e_n_d_o_ _h_o_m_e_n_s_,_ _q_u_e_ _n_o_s_ _d_e_u_ _f_o_m_e_ _m_e_s_m_o_ _q_u_a_n_d_o_ _é_r_a_m_o_s_ _a_n_j_o_s_._



Algol, Last Minutes of a Dying Star

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Promessas 3 **


Mesh-ki-ang-gasher (small), Babalith, 2005


"Tu deixarás os teus sentidos como que desprotegidos, sem nada entre a sua inteligência e o mundo, vais deixa-los sorver tudo tão directamente que sentirás que morres no prazer e no horror dilacerante. Cedo, todavia, será que te aperceberás que o intelecto se tornou, no despertar real dos canais físicos, sagaz e excelente."

"Meditai sobre aquela digestão que procede debaixo, para cima. Somos fome pura e despida de conceitos, e nisto jaz a nossa primeira virtude, uma virtude caída e denegrida, mas também um poder iluminado e ascendido.
Atentai uma vez mais. Como têm sede.., como a temem e a matam sem respeito. Ninguém acreditaria, meu amor, se disséssemos nas suas próprias palavras que a função da sua sede é matar, que a função da sua sede não é ser morta, qual absurda impossibilidade."

"Entre nós, não existem barreiras na carne devido ao mesmo que a transcende e que a é. O que, por conseguinte, estas criaturas que se passeiam em multidão cometem, é um incesto de estripe menor, não digna, na verdade, de ser intitulada de incesto."

Retirado d"As Cartas de Mesh-ki-ang-gasher"


André Consciência


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

5 da Manhã Visto da Janela


Brother Wolf, Sister Moon - "The Cult" ao vivo em 2009



Um senhor faz passear o cão branco debaixo do azul negro que o desnorteia. Do outro lado de uma porta há vozes que discutem coisa nenhuma, iradas com a ausência da vida e com a presença dela. Um individuo escapa do burburinho, trôpego de febre, perdendo-se nos ângulos entre a escuridão no céu e a noite absoluta da calçada. O cão continua a fitar uma direcção de paredes mudas e ruelas vazias. A noite é uma amante sem sexo... esse é o seu sexo, e derrama-se nas vozes iradas, no silêncio da calçada, no esgar canino e no vazio das ruelas. Cá dentro, a estalajadeira, emparedada na estalagem, escutou-nos o riso.


O meu corpo desenvolve-se no teu,
E as janelas para o jardim,
Para todos os jardins do mundo
No vulto nu da tua saudade
Fazem tombar as estrelas
Arder florestas que nunca cresceram
A altura das nuvens, desaparece,
E a face do céu é branca
Em todos os sinos de todas as vilas
Baloiçam as tuas ancas.

sábado, 19 de setembro de 2009

David e Golias no Vale das Sombras


David e Golias no Vale de Elah - Gustave Doré

Um era um amante triste, outro um gigante.
O amante esperava pelo que já não vinha, olhava pela janela e suspirava. O gigante não conhecia janelas, corria o mundo sem cansaço, e rugia.
Encontraram-se no circo, onde actuaram juntos e se tornaram inseparáveis, o gigante fazia o número de morto e o amante de assassíno.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Queimadura do Gelo

Dedicado à Alexandra

PETE WHITE, Odin's Sacrifice, 2000

Sento-me, trémulo na espera, e procuro respirar com dignidade. Escuto o zumbido molhado nas paredes de pedra, a claridade móvel e cristalina, como se fosse um túnel ali onde fica. Tento distrair o zumbido. Penetro dentro do meu próprio ser e arranco de mim mesmo o grito de Odin. As suas histórias, uma brancura a lavrar as minhas recordações, tornam-se nas aventuras da minha alma calejada, esculpida e forjada como gelo no fogo ao longo dos anos. O tempo é para sempre, o som ensurdecedor da fome e da pele a esticar tornaram-se no silêncio da árvore. Toda a minha vida estive aqui, nesta pedra nua, acolhido pelas estrelas longínquas para as quais não adivinho (nunca o consegui, mesmo quando elas me queimaram o olho direito) um significado. Por golpe da sua luz escancaram-se as portas de todos os mundos, e apertam venda após venda. Por isso sento-me, já sentado, e não sei já se tremo, o meu corpo é uma memória e as sensações um pensamento de estrelas.
Como podem os meus temer-me tanto, ou respeitar-me? Eu, que nada sou ou tive direito a ser, além de uma resposta aos teus desafios, Pai? Estudei as runas, aprofundei-as até à força de envelhecer os meus ossos pesados, levei uma vida de batalhas, mesmo se nunca quis matar e me envergonha derramar sangue mais fraco, e não me atingiu sequer um vislumbre, que fosse digno de ti.

Aproximavam-se dois lobos, não hesitantes mas proficientes, em círculos por volta do gigante de gelo e do fogo do seu coração. Geri e Freki, pensou o sábio guerreiro, e quando o derrubaram por terra não resistiu, procurou, apenas, respirar com dignidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Portugal Progressista?



Antigamente, as questões do amor estavam mais ligadas à etiqueta do que no presente, por exemplo, filho de barão casa com filha de barão, e os casamentos eram quer política quer estratégia de negócio. Instalaram já há algum tempo uma nova Vesta em Nova York (por mérito de França e da sua revolução), e a chama que uma vez preservava toda a Roma é agora a Chama da Liberdade - a Liberdade é, cada vez mais, a Luz guia e o calor que alimenta a nossa civilização. Hoje, o ideal do amor começa também a ser a liberdade (tendo, no geral, ramificado para a leviandade).

Na Idade Média adoptamos o patriarcalismo hebreu e o prazer e a matéria eram vistos como "maus", ainda, Agostinho determinou que o sexo era a fonte de todos os pecados, e devia ser um sacrifício apenas justificável quando para procriação. Entre os atenienses, o sexo teria de ser produto da submissão e da dominação - as mulheres eram totalmente desvalorizadas. A seguir, com a ascensão da burguesia, a nudez deixa de ser vista com naturalidade, e o sexo não deve ser falado, a informação dos livros é controlada. A partir de 1870 começou a aparecer uma espécie de ciência sexual. Continua a questão dos nascimentos legítimos e dos não legítimos (a ideia é o controlo populacional).

Com a mulher a ir trabalhar então o sexo (em vez do dever) passa a ser visto como a base do casamento. Mas ainda ha a necessidade de uma contra-cultura: por exemplo, o movimento de luta pelos direitos civis e os hippies que aceitam o sexo fora do casamento, o aborto, a nudez, e.t.c. A liberdade sexual era símbolo da liberdade social. Resulta a celebração do prazer e a independência sexual. Os casais passam a poder constituir família sem filhos. Os homossexuais passam a poder ter espaços próprios, diminui o tabu sobre a sexualidade das crianças. Agora, com todas as liberdades, o sexo passa a ser o produto principal do consumismo, toda e qualquer propaganda passa a ter uma referência ao sexo, a luta pela liberdade sexual da mulher é estigmatizada: para comprar um pacote de cereais nada melhor que a imagem de uma mulher semi-nua em poses sugestivas. A liberdade ficou assim manipulada, a cenoura pendurada à frente do focinho do burro conduz o burro e descansam-se um pouco as rédeas. Agora, tudo parece mais confortável. pu** da cenoura! Está quase! Tiro na cabeça.

A sociedade que vivemos hoje conseguiu avanços quantitativos, os tabus afrouxaram, mas, esquecendo-se dos avanços qualitativos (afecto, humanização), o nosso sexo é mecânico.

Mudamos agora a palavra “amor”, para a palavra “patriotismo”, a palavra “sexo” ou “sexualidade” para a palavra “progresso”, e revemos o texto. Depois continuamos. Ao individuo move-o o amor, mas ao ser social move-o o ódio, o medo e a inveja. Assim, face ao progresso, a opinião pública tende a opor-se, no sentido de salvar a identidade, criança que procura não evoluir com medo da morte (um exemplo que evoco à memória é o facto do PS/PSD permanecerem no poder, apesar do interminável e enjoativo queixume). Portugal é um país que já morreu. Morreu, a titulo alegórico, com D. Sebastião e espreita-nos, como um grande fantasma, da névoa. Agarramos-nos à carcaça e arrastamos-la pela Região, que se tornou ninho de vermes, cães famintos, e criminosos. O mais comum dos cidadãos é educado a pensar como um escravo ou como um ladrão, porque, sem identidade, sem alma, todo o sistema, ou os seres sociais que compõem o sistema, vagueia fora da lei ou dentro da tirania. O saudosismo cria uma fronte de batalha pelos valores da terra, da história, do património cultural, edifica deuses como D. Afonso Henriques ou ainda Viriato, numa tentativa de recordar os cães de que um dia tiveram um dono e também uma matilha. “Houveram deuses, não venha então o medo. Preciso de uma razão para ser eu mesmo. Criaram aquilo que sou, por isso sei que sou eu mesmo.” Constituem-se esforços pelo tribalismo de um lado, do outro um Portugal desesperado (que morreu ainda infante) chega a sugerir o seu “velho” e virtual império, desta vez debaixo da bandeira cultural, destacando-se sobre os países pobres do nosso falecido colonialismo, enquanto por outro lado o progresso, todavia, dirige-se à universalidade, a moralidade do cientista aponta que a ciência é para o mundo, e não para uma nação em específico (excluímos a divisão ocidente/oriente). O progresso indica as liberdades, os privilégios, os prestigios, os direitos humanos (o desejo está a tornar-se sinónimo de direito) e, numa palavra, o individuo. Não obstante, o burro e a cenoura voltam a penetrar o cenário. Igualdade = direito de consumir. Fraternidade = supermecado. Luz = dinheiro. Somos produtos à venda dos nossos produtos. Como se ensina a liberdade a pessoas que conhecem apenas a promiscuidade e a arte de escravizar, mentir, e manipular? O progresso moderno tem um só ideal, a Verdade, inseparável da liberdade, porque toda a mentira é construção do medo e o medo pai de toda a opressão. Todavia nós nada sabemos desses conceitos, ficámos perdidos na névoa, com D. Sebastião, o Rei que faria do Mundo o Império de Cristo. As nossas maiores mentes sentiram esse medo da verdade e da morte tanto quanto o vulgo saca-carteiras, por isso criaram obras como “A Mensagem”, para se esconderem e ao seu povo dentro da redoma da superstição. “Alento Portugal! Alento! Afinal, somos um povo de suspiros.” É importante é dormir, porque a dormir sonhamos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Circus Infernalium (excerto)




II

A rapariga solta violentamente a mão da mão do rapaz. "Retira, nesse caso, a máscara!"

Recebe um espelho e, colocando-se em frente ao rapaz, segurando-o a nível do coração, começa a falar sem som.

Faz-se um silêncio tremendo.
Depois começa a surgir som nas palavras:
"(...) a violência dos seus braços é a mudez do teu nome. Vê-me! Vento e Sol que se põe e a voz do nigredo no vento que tu ouves, «não salvarás», «não salvarás», és um de nós! Massa orgânica desesperada que quer sangue e esperma e dor cantada! [pausa surpreendida e deixa cair o espelho que se quebra] Pedem ajuda! E tu sentes tanto... Tanto. Tanto! As palavras deles começam a sair por ti mas tu nem sequer as apanhas e é por isso que tens tantas mascaras não é?"

O rapaz, que uiva e ri ao mesmo tempo, repete:
"É oan saracsam snet euq ossi rop é e sahnapa sa reuqes men ut sam it rop rias a maçemoc seled sarvalap?"
Abana a cabeça e diz: "Os desassossegados expressam-se por mim, em arte, e libertam-se..."
Ela responde: "Tu não podes liberta-los!"
"Não?" pergunta e ri-se.
Ela: "Não! São olhos velados que não podes libertar. São olhos velados que vêem tudo, e tu não vês tudo ainda, por isso não apodreces com a mesma rapidez mas as coisas apodrecem através de ti."

Ela apanha dois pedaços de vidro partido e coloca-os sobre os olhos:
"Não existe escapatória fora da ilusão de que o Sol renasce. O Sol só existiu uma vez e a sua viagem pela escuridão depois, foi para sempre. É esse o olho que te observa e o mudo e hórrido grito é o sonho pútrido de todos os mitos humanos."

Ele ri-se bem disposto e ela larga os vidros e ri-se e dão as mãos, animados, enquanto cantam uma canção de embalar sem palavras.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Niilismo Místico, a Estética e a Beleza





Carpocrates - Gnóstico Alexandrino

De bases platónicas e influências cristãs, ensinava-nos Carpocrates da existência de um primordial, e que anjos, muito afastados desta fonte, contrairam a doença da criação (divisão), numa espiral descendente rumo à decadência. Estes Construtores-do-Mundo aprisionaram as Almas Caídas, o princípio primordial em cada um de nós, em túmulos de carne e osso, e por isso as Almas percorrem a forma e experimentam a metamorfose. O Adversário é o Mensageiro entre o Homem e o Primordial por via do Juíz (o mais alto entre os poderes criadores). O mundo não foi criado por Deus mas é uma sombra da sua Luz e em si mesmo, não é bom nem mau, é totalmente indiferente a e despido de valores. A forma do homem se elevar acima dos seus próprios dejectos é fazer a alma lembrar-se, abrindo os olhos, através das várias experiências que descrevem a vida.



Nikos Kazantzakis e o Niilismo Heróico


"Não espero nada. Não temo nada. Sou livre"
-em grego: Δεν ελπίζω τίποτα. Δεν φοβούμαι τίποτα. Είμαι ελεύθερος

"Eu sou o marinheiro de Odysseus com coração de fogo mas de mente cruel e limpa."
- Toda Raba (1934)

"Sou fraco, efêmera criatura feita de barro e sonho. No entanto, sinto todo o poder do universo a girar dentro de mim."


Do "The Saviors of God" (1927; Versão inglesa 1960):

We have seen the highest circle of spiraling powers. We have
named this circle God. We might have given it any other name
we wished: Abyss, Mystery, Absolute Darkness, Absolute Light,
Matter, Spirit, Ultimate Hope, Ultimate Despair, Silence.
We come from a dark abyss, we end in a dark abyss, and we call the luminous interval life.


A expressão “niilismo heróico” tem sido usada com total aceitação pelos críticos de Kazantzakis, para designar o niilismo activo de Nietzsche aplicado às obras de Kazantzakis. A substituição do termo “activo” por “heróico” deve-se à presença da força dionisíaca na descrença em relação aos valores do mundo. O princípio do niilismo heróico fundamenta toda a peregrinação ascensional do texto de Kazantzakis. O herói, tal qual Zaratustra, empreende um itinerário activo, calcado na auto-superação e na instituição de novos valores auferidos por essa superação. Cada etapa da jornada tem o carácter niilista de não se crer em nada, de escapar das imposições morais e conceituais que dificultam a libertação. Toda a ascese protagonizada por Ulisses é um tratado de libertação de todas as máscaras culturais e valores, sejam metafísicos ou platônicos, pisando nos degraus da não-crença.
O herói é o autor dessa subida, inaugurando um combate perigoso, que o deixa sempre à beira do abismo, por travar a luta entre o mundo socrático – ou ainda cristão – e o mundo dionisíaco. O herói irrompe da própria natureza e concentra em si tudo que é vital e instintivo.
Diante do abismo e pisando nos degraus do nada, o herói ainda combate e não esmorece. O niilismo heróico vê-se nessa vontade de potência, vital, de criar ou recriar o que o herói vai destruindo a passos transvalorizadores.

(...)

Assim, como edificar um novo mundo sem bases para a sua fundação? Como cantar as glórias de um herói que almeja o esquecimento e a perda do seu nome? É deste modo que a epopéia moderna de Kazantzakis, apesar de lançar-se como um canto de restauração do mundo épico perdido, guia-se pela relação entre o cantar (fazer poético) e o pensamento (verdade). Visão subjetiva e criativa, o pensamento é o próprio acto de engendrar e de constituir o discurso da verdade, porém perecível e dissolúvel como a vida. Assim que se dissolvem os laços vitais, apagam-se o pensamento, o mundo, a criação; a verdade constituída pelo poeta (cantor) morto retorna ao nada, e assim alcança ele a real libertação, mais além da necessidade de criação e verdade.

Carolina Bernardes


Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! — NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.



“Esse ponto de contacto interior, apesar de toda a sua importância, não é, entretanto, mais do que um ponto. Após o longo período de materialismo de que ela está somente a despertar, a nossa alma encontra-se repleta de germes de desespero e de incredulidade, prestes a soçobrar no nada. A esmagadora opressão das doutrinas materialistas, que fizeram da vida do universo uma vã e detestável brincadeira, ainda não se dissipou. A alma que volta a si permanece sob a impressão desse pesadelo. Uma luz vacilante brilha tenuemente, como um minúsculo ponto perdido no enorme círculo da escuridão. Essa luz fraca é apenas um pressentimento que a alma não tem coragem de sustentar; ela pergunta-se se a luz não será o sonho, e a escuridão a realidade. Essa dúvida e os sofrimentos opressivos que deve à filosofia materialista distinguem a nossa alma da alma dos primitivos. Por mais levemente que se lhe toque, a alma soa como um vaso precioso, que se encontrou rachado na terra. É por isso que a atracção que nos leva ao primitivo, tal como o sentimos hoje, só pode ser, sob sua forma actual e factícia, de curta duração.

Salta aos olhos que essas duas analogias da arte nova com certas formas de épocas passadas são diametralmente opostas. A primeira exterior, será sem futuro. A segunda é interior e encerra o germe do futuro. Após o período de tentação materialista a que aparentemente sucumbiu, mas que repele como uma tentação ruim, a alma emerge, purificada pela luta e pela dor. Os sentimentos elementares, como o medo, a tristeza, a alegria, que teriam podido, durante o período da tentação, servir de conteúdo para a arte, atrairão pouco o artista. Ele se esforçara por despertar sentimentos mais matizados, ainda sem nome. O próprio artista vive uma existência completa, relativamente requintada, e a obra, nascida de seu cérebro, provocara no espectador capaz de experimenta-las, emoções mais delicadas, que nossa linguagem é incapaz de exprimir.”

Wassily Kandinsky



Como Expressado em Friedrich Hölderlin

“Ai de mim, perambula na noite e habita como que no inferno, sem o divino, a nossa geração”

A canção de Hyperion


Oh santos génios! Vós caminhais,
lá por cima, em luz, sobre terra suave.
Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos da artista
nas cordas santas

Sem destino, como a criança
Adormecida, os anjos respiram;
Castamente guardado
Em discretos botões,
O espírito floresce-lhes,
Eterno,
E os santos olhos
Vêem em silenciosa
E eterna claridade.

Nós, porém, fomos condenados a errar,
Sem descanso, p’la terra fora.
Ao acaso, de uma
Hora para a outra,
Os homens sofredores
Somem-se e caiem,
Como a água atirada de
Recife para recife,
Ano após ano, na incerteza.




O Poema Conciso

Porque és tão curto? Já não amas, como noutros
Tempos, o cântico? Nesse tempo, ainda jovem,
Quando em dias de esperança cantavas,
Nunca encontravas o fim.

Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te
banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a
Terra é fria e o pássaro da noite sibila,
Incómodo, perante os teus olhos.





II




“(... ) compreender a negatividade na arte moderna como a expressão mais potente da experiência espiritual a que dá lugar a ausência da experiência religiosa.”
Vega

“o sagrado é uma parte da estrutura da consciência e não um estádio na evolução da consciência. Ou seja, não houve uma época em que as coisas eram mais espirituais do que hoje. (...) Vivemos numa época que não o reflete ou encoraja ou foca da maneira que outras culturas o fizeram no passado onde a religião era dominante. Mas não significa que não esteja lá.”
Mircea Eliade


"O silenciar dos nossos sentidos físicos conduz muito mais facilmente à experiência das coisas espirituais; da mesma maneira, o silenciar de nossas faculdades espirituais conduz a um conhecimento experimental de Deus, tanto quanto este seja possível, através da graça, na vida presente."
A Nuvem do Não-Saber, Anónimo




O Dialecto da Beleza:

Balthazar dizia que a morte era a morte tanto no Mundo como em Deus, no propósito de uma vida plena. Para Balthazar, a Beleza é o todo no fragmento, pensamento interno à lógica da presença da ausência e da ausência da presença.

Para Tomás de Aquino, a beleza brota do jogo entre o efémero, mostrando-se um momento de vida que caminha em direcção à perfeição, e assim de encontro a Deus e à redenção de tudo o que existe. É ao aproximarmo-nos do nada que o tempo se preenche de maravilhas, e quando o mal passa o artista vem mais tarde a encontrar formas belas para o caos e a desordem que o caracterizaram: a beleza mostra-se vitoriosa através do fim.

Para Dostoevsky, é importante desmascarar a beleza do inferno, da degradação, a beleza regozija-se no desespero e o nada revela-se. O niilismo e a redenção unem-se no objectivo da liberdade. O homem é um ser trágico e eterno, entre este e o outro mundo, e a sua única possibilidade de felicidade é a renúncia à liberdade.

O Deus de Raskolnikov mergulhou com o homem no Abismo, e o homem pode, perante a luz negra do niilismo, entregar-se à transparência do amor, ou à inércia.



Exemplificado em Herberto Helder


O Amor em Vista

(...)

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder