segunda-feira, 28 de setembro de 2009

5 da Manhã Visto da Janela


Brother Wolf, Sister Moon - "The Cult" ao vivo em 2009



Um senhor faz passear o cão branco debaixo do azul negro que o desnorteia. Do outro lado de uma porta há vozes que discutem coisa nenhuma, iradas com a ausência da vida e com a presença dela. Um individuo escapa do burburinho, trôpego de febre, perdendo-se nos ângulos entre a escuridão no céu e a noite absoluta da calçada. O cão continua a fitar uma direcção de paredes mudas e ruelas vazias. A noite é uma amante sem sexo... esse é o seu sexo, e derrama-se nas vozes iradas, no silêncio da calçada, no esgar canino e no vazio das ruelas. Cá dentro, a estalajadeira, emparedada na estalagem, escutou-nos o riso.


O meu corpo desenvolve-se no teu,
E as janelas para o jardim,
Para todos os jardins do mundo
No vulto nu da tua saudade
Fazem tombar as estrelas
Arder florestas que nunca cresceram
A altura das nuvens, desaparece,
E a face do céu é branca
Em todos os sinos de todas as vilas
Baloiçam as tuas ancas.

sábado, 19 de setembro de 2009

David e Golias no Vale das Sombras


David e Golias no Vale de Elah - Gustave Doré

Um era um amante triste, outro um gigante.
O amante esperava pelo que já não vinha, olhava pela janela e suspirava. O gigante não conhecia janelas, corria o mundo sem cansaço, e rugia.
Encontraram-se no circo, onde actuaram juntos e se tornaram inseparáveis, o gigante fazia o número de morto e o amante de assassíno.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Queimadura do Gelo

Dedicado à Alexandra

PETE WHITE, Odin's Sacrifice, 2000

Sento-me, trémulo na espera, e procuro respirar com dignidade. Escuto o zumbido molhado nas paredes de pedra, a claridade móvel e cristalina, como se fosse um túnel ali onde fica. Tento distrair o zumbido. Penetro dentro do meu próprio ser e arranco de mim mesmo o grito de Odin. As suas histórias, uma brancura a lavrar as minhas recordações, tornam-se nas aventuras da minha alma calejada, esculpida e forjada como gelo no fogo ao longo dos anos. O tempo é para sempre, o som ensurdecedor da fome e da pele a esticar tornaram-se no silêncio da árvore. Toda a minha vida estive aqui, nesta pedra nua, acolhido pelas estrelas longínquas para as quais não adivinho (nunca o consegui, mesmo quando elas me queimaram o olho direito) um significado. Por golpe da sua luz escancaram-se as portas de todos os mundos, e apertam venda após venda. Por isso sento-me, já sentado, e não sei já se tremo, o meu corpo é uma memória e as sensações um pensamento de estrelas.
Como podem os meus temer-me tanto, ou respeitar-me? Eu, que nada sou ou tive direito a ser, além de uma resposta aos teus desafios, Pai? Estudei as runas, aprofundei-as até à força de envelhecer os meus ossos pesados, levei uma vida de batalhas, mesmo se nunca quis matar e me envergonha derramar sangue mais fraco, e não me atingiu sequer um vislumbre, que fosse digno de ti.

Aproximavam-se dois lobos, não hesitantes mas proficientes, em círculos por volta do gigante de gelo e do fogo do seu coração. Geri e Freki, pensou o sábio guerreiro, e quando o derrubaram por terra não resistiu, procurou, apenas, respirar com dignidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Portugal Progressista?



Antigamente, as questões do amor estavam mais ligadas à etiqueta do que no presente, por exemplo, filho de barão casa com filha de barão, e os casamentos eram quer política quer estratégia de negócio. Instalaram já há algum tempo uma nova Vesta em Nova York (por mérito de França e da sua revolução), e a chama que uma vez preservava toda a Roma é agora a Chama da Liberdade - a Liberdade é, cada vez mais, a Luz guia e o calor que alimenta a nossa civilização. Hoje, o ideal do amor começa também a ser a liberdade (tendo, no geral, ramificado para a leviandade).

Na Idade Média adoptamos o patriarcalismo hebreu e o prazer e a matéria eram vistos como "maus", ainda, Agostinho determinou que o sexo era a fonte de todos os pecados, e devia ser um sacrifício apenas justificável quando para procriação. Entre os atenienses, o sexo teria de ser produto da submissão e da dominação - as mulheres eram totalmente desvalorizadas. A seguir, com a ascensão da burguesia, a nudez deixa de ser vista com naturalidade, e o sexo não deve ser falado, a informação dos livros é controlada. A partir de 1870 começou a aparecer uma espécie de ciência sexual. Continua a questão dos nascimentos legítimos e dos não legítimos (a ideia é o controlo populacional).

Com a mulher a ir trabalhar então o sexo (em vez do dever) passa a ser visto como a base do casamento. Mas ainda ha a necessidade de uma contra-cultura: por exemplo, o movimento de luta pelos direitos civis e os hippies que aceitam o sexo fora do casamento, o aborto, a nudez, e.t.c. A liberdade sexual era símbolo da liberdade social. Resulta a celebração do prazer e a independência sexual. Os casais passam a poder constituir família sem filhos. Os homossexuais passam a poder ter espaços próprios, diminui o tabu sobre a sexualidade das crianças. Agora, com todas as liberdades, o sexo passa a ser o produto principal do consumismo, toda e qualquer propaganda passa a ter uma referência ao sexo, a luta pela liberdade sexual da mulher é estigmatizada: para comprar um pacote de cereais nada melhor que a imagem de uma mulher semi-nua em poses sugestivas. A liberdade ficou assim manipulada, a cenoura pendurada à frente do focinho do burro conduz o burro e descansam-se um pouco as rédeas. Agora, tudo parece mais confortável. pu** da cenoura! Está quase! Tiro na cabeça.

A sociedade que vivemos hoje conseguiu avanços quantitativos, os tabus afrouxaram, mas, esquecendo-se dos avanços qualitativos (afecto, humanização), o nosso sexo é mecânico.

Mudamos agora a palavra “amor”, para a palavra “patriotismo”, a palavra “sexo” ou “sexualidade” para a palavra “progresso”, e revemos o texto. Depois continuamos. Ao individuo move-o o amor, mas ao ser social move-o o ódio, o medo e a inveja. Assim, face ao progresso, a opinião pública tende a opor-se, no sentido de salvar a identidade, criança que procura não evoluir com medo da morte (um exemplo que evoco à memória é o facto do PS/PSD permanecerem no poder, apesar do interminável e enjoativo queixume). Portugal é um país que já morreu. Morreu, a titulo alegórico, com D. Sebastião e espreita-nos, como um grande fantasma, da névoa. Agarramos-nos à carcaça e arrastamos-la pela Região, que se tornou ninho de vermes, cães famintos, e criminosos. O mais comum dos cidadãos é educado a pensar como um escravo ou como um ladrão, porque, sem identidade, sem alma, todo o sistema, ou os seres sociais que compõem o sistema, vagueia fora da lei ou dentro da tirania. O saudosismo cria uma fronte de batalha pelos valores da terra, da história, do património cultural, edifica deuses como D. Afonso Henriques ou ainda Viriato, numa tentativa de recordar os cães de que um dia tiveram um dono e também uma matilha. “Houveram deuses, não venha então o medo. Preciso de uma razão para ser eu mesmo. Criaram aquilo que sou, por isso sei que sou eu mesmo.” Constituem-se esforços pelo tribalismo de um lado, do outro um Portugal desesperado (que morreu ainda infante) chega a sugerir o seu “velho” e virtual império, desta vez debaixo da bandeira cultural, destacando-se sobre os países pobres do nosso falecido colonialismo, enquanto por outro lado o progresso, todavia, dirige-se à universalidade, a moralidade do cientista aponta que a ciência é para o mundo, e não para uma nação em específico (excluímos a divisão ocidente/oriente). O progresso indica as liberdades, os privilégios, os prestigios, os direitos humanos (o desejo está a tornar-se sinónimo de direito) e, numa palavra, o individuo. Não obstante, o burro e a cenoura voltam a penetrar o cenário. Igualdade = direito de consumir. Fraternidade = supermecado. Luz = dinheiro. Somos produtos à venda dos nossos produtos. Como se ensina a liberdade a pessoas que conhecem apenas a promiscuidade e a arte de escravizar, mentir, e manipular? O progresso moderno tem um só ideal, a Verdade, inseparável da liberdade, porque toda a mentira é construção do medo e o medo pai de toda a opressão. Todavia nós nada sabemos desses conceitos, ficámos perdidos na névoa, com D. Sebastião, o Rei que faria do Mundo o Império de Cristo. As nossas maiores mentes sentiram esse medo da verdade e da morte tanto quanto o vulgo saca-carteiras, por isso criaram obras como “A Mensagem”, para se esconderem e ao seu povo dentro da redoma da superstição. “Alento Portugal! Alento! Afinal, somos um povo de suspiros.” É importante é dormir, porque a dormir sonhamos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Circus Infernalium (excerto)




II

A rapariga solta violentamente a mão da mão do rapaz. "Retira, nesse caso, a máscara!"

Recebe um espelho e, colocando-se em frente ao rapaz, segurando-o a nível do coração, começa a falar sem som.

Faz-se um silêncio tremendo.
Depois começa a surgir som nas palavras:
"(...) a violência dos seus braços é a mudez do teu nome. Vê-me! Vento e Sol que se põe e a voz do nigredo no vento que tu ouves, «não salvarás», «não salvarás», és um de nós! Massa orgânica desesperada que quer sangue e esperma e dor cantada! [pausa surpreendida e deixa cair o espelho que se quebra] Pedem ajuda! E tu sentes tanto... Tanto. Tanto! As palavras deles começam a sair por ti mas tu nem sequer as apanhas e é por isso que tens tantas mascaras não é?"

O rapaz, que uiva e ri ao mesmo tempo, repete:
"É oan saracsam snet euq ossi rop é e sahnapa sa reuqes men ut sam it rop rias a maçemoc seled sarvalap?"
Abana a cabeça e diz: "Os desassossegados expressam-se por mim, em arte, e libertam-se..."
Ela responde: "Tu não podes liberta-los!"
"Não?" pergunta e ri-se.
Ela: "Não! São olhos velados que não podes libertar. São olhos velados que vêem tudo, e tu não vês tudo ainda, por isso não apodreces com a mesma rapidez mas as coisas apodrecem através de ti."

Ela apanha dois pedaços de vidro partido e coloca-os sobre os olhos:
"Não existe escapatória fora da ilusão de que o Sol renasce. O Sol só existiu uma vez e a sua viagem pela escuridão depois, foi para sempre. É esse o olho que te observa e o mudo e hórrido grito é o sonho pútrido de todos os mitos humanos."

Ele ri-se bem disposto e ela larga os vidros e ri-se e dão as mãos, animados, enquanto cantam uma canção de embalar sem palavras.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Niilismo Místico, a Estética e a Beleza





Carpocrates - Gnóstico Alexandrino

De bases platónicas e influências cristãs, ensinava-nos Carpocrates da existência de um primordial, e que anjos, muito afastados desta fonte, contrairam a doença da criação (divisão), numa espiral descendente rumo à decadência. Estes Construtores-do-Mundo aprisionaram as Almas Caídas, o princípio primordial em cada um de nós, em túmulos de carne e osso, e por isso as Almas percorrem a forma e experimentam a metamorfose. O Adversário é o Mensageiro entre o Homem e o Primordial por via do Juíz (o mais alto entre os poderes criadores). O mundo não foi criado por Deus mas é uma sombra da sua Luz e em si mesmo, não é bom nem mau, é totalmente indiferente a e despido de valores. A forma do homem se elevar acima dos seus próprios dejectos é fazer a alma lembrar-se, abrindo os olhos, através das várias experiências que descrevem a vida.



Nikos Kazantzakis e o Niilismo Heróico


"Não espero nada. Não temo nada. Sou livre"
-em grego: Δεν ελπίζω τίποτα. Δεν φοβούμαι τίποτα. Είμαι ελεύθερος

"Eu sou o marinheiro de Odysseus com coração de fogo mas de mente cruel e limpa."
- Toda Raba (1934)

"Sou fraco, efêmera criatura feita de barro e sonho. No entanto, sinto todo o poder do universo a girar dentro de mim."


Do "The Saviors of God" (1927; Versão inglesa 1960):

We have seen the highest circle of spiraling powers. We have
named this circle God. We might have given it any other name
we wished: Abyss, Mystery, Absolute Darkness, Absolute Light,
Matter, Spirit, Ultimate Hope, Ultimate Despair, Silence.
We come from a dark abyss, we end in a dark abyss, and we call the luminous interval life.


A expressão “niilismo heróico” tem sido usada com total aceitação pelos críticos de Kazantzakis, para designar o niilismo activo de Nietzsche aplicado às obras de Kazantzakis. A substituição do termo “activo” por “heróico” deve-se à presença da força dionisíaca na descrença em relação aos valores do mundo. O princípio do niilismo heróico fundamenta toda a peregrinação ascensional do texto de Kazantzakis. O herói, tal qual Zaratustra, empreende um itinerário activo, calcado na auto-superação e na instituição de novos valores auferidos por essa superação. Cada etapa da jornada tem o carácter niilista de não se crer em nada, de escapar das imposições morais e conceituais que dificultam a libertação. Toda a ascese protagonizada por Ulisses é um tratado de libertação de todas as máscaras culturais e valores, sejam metafísicos ou platônicos, pisando nos degraus da não-crença.
O herói é o autor dessa subida, inaugurando um combate perigoso, que o deixa sempre à beira do abismo, por travar a luta entre o mundo socrático – ou ainda cristão – e o mundo dionisíaco. O herói irrompe da própria natureza e concentra em si tudo que é vital e instintivo.
Diante do abismo e pisando nos degraus do nada, o herói ainda combate e não esmorece. O niilismo heróico vê-se nessa vontade de potência, vital, de criar ou recriar o que o herói vai destruindo a passos transvalorizadores.

(...)

Assim, como edificar um novo mundo sem bases para a sua fundação? Como cantar as glórias de um herói que almeja o esquecimento e a perda do seu nome? É deste modo que a epopéia moderna de Kazantzakis, apesar de lançar-se como um canto de restauração do mundo épico perdido, guia-se pela relação entre o cantar (fazer poético) e o pensamento (verdade). Visão subjetiva e criativa, o pensamento é o próprio acto de engendrar e de constituir o discurso da verdade, porém perecível e dissolúvel como a vida. Assim que se dissolvem os laços vitais, apagam-se o pensamento, o mundo, a criação; a verdade constituída pelo poeta (cantor) morto retorna ao nada, e assim alcança ele a real libertação, mais além da necessidade de criação e verdade.

Carolina Bernardes


Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! — NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.



“Esse ponto de contacto interior, apesar de toda a sua importância, não é, entretanto, mais do que um ponto. Após o longo período de materialismo de que ela está somente a despertar, a nossa alma encontra-se repleta de germes de desespero e de incredulidade, prestes a soçobrar no nada. A esmagadora opressão das doutrinas materialistas, que fizeram da vida do universo uma vã e detestável brincadeira, ainda não se dissipou. A alma que volta a si permanece sob a impressão desse pesadelo. Uma luz vacilante brilha tenuemente, como um minúsculo ponto perdido no enorme círculo da escuridão. Essa luz fraca é apenas um pressentimento que a alma não tem coragem de sustentar; ela pergunta-se se a luz não será o sonho, e a escuridão a realidade. Essa dúvida e os sofrimentos opressivos que deve à filosofia materialista distinguem a nossa alma da alma dos primitivos. Por mais levemente que se lhe toque, a alma soa como um vaso precioso, que se encontrou rachado na terra. É por isso que a atracção que nos leva ao primitivo, tal como o sentimos hoje, só pode ser, sob sua forma actual e factícia, de curta duração.

Salta aos olhos que essas duas analogias da arte nova com certas formas de épocas passadas são diametralmente opostas. A primeira exterior, será sem futuro. A segunda é interior e encerra o germe do futuro. Após o período de tentação materialista a que aparentemente sucumbiu, mas que repele como uma tentação ruim, a alma emerge, purificada pela luta e pela dor. Os sentimentos elementares, como o medo, a tristeza, a alegria, que teriam podido, durante o período da tentação, servir de conteúdo para a arte, atrairão pouco o artista. Ele se esforçara por despertar sentimentos mais matizados, ainda sem nome. O próprio artista vive uma existência completa, relativamente requintada, e a obra, nascida de seu cérebro, provocara no espectador capaz de experimenta-las, emoções mais delicadas, que nossa linguagem é incapaz de exprimir.”

Wassily Kandinsky



Como Expressado em Friedrich Hölderlin

“Ai de mim, perambula na noite e habita como que no inferno, sem o divino, a nossa geração”

A canção de Hyperion


Oh santos génios! Vós caminhais,
lá por cima, em luz, sobre terra suave.
Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos da artista
nas cordas santas

Sem destino, como a criança
Adormecida, os anjos respiram;
Castamente guardado
Em discretos botões,
O espírito floresce-lhes,
Eterno,
E os santos olhos
Vêem em silenciosa
E eterna claridade.

Nós, porém, fomos condenados a errar,
Sem descanso, p’la terra fora.
Ao acaso, de uma
Hora para a outra,
Os homens sofredores
Somem-se e caiem,
Como a água atirada de
Recife para recife,
Ano após ano, na incerteza.




O Poema Conciso

Porque és tão curto? Já não amas, como noutros
Tempos, o cântico? Nesse tempo, ainda jovem,
Quando em dias de esperança cantavas,
Nunca encontravas o fim.

Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te
banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a
Terra é fria e o pássaro da noite sibila,
Incómodo, perante os teus olhos.





II




“(... ) compreender a negatividade na arte moderna como a expressão mais potente da experiência espiritual a que dá lugar a ausência da experiência religiosa.”
Vega

“o sagrado é uma parte da estrutura da consciência e não um estádio na evolução da consciência. Ou seja, não houve uma época em que as coisas eram mais espirituais do que hoje. (...) Vivemos numa época que não o reflete ou encoraja ou foca da maneira que outras culturas o fizeram no passado onde a religião era dominante. Mas não significa que não esteja lá.”
Mircea Eliade


"O silenciar dos nossos sentidos físicos conduz muito mais facilmente à experiência das coisas espirituais; da mesma maneira, o silenciar de nossas faculdades espirituais conduz a um conhecimento experimental de Deus, tanto quanto este seja possível, através da graça, na vida presente."
A Nuvem do Não-Saber, Anónimo




O Dialecto da Beleza:

Balthazar dizia que a morte era a morte tanto no Mundo como em Deus, no propósito de uma vida plena. Para Balthazar, a Beleza é o todo no fragmento, pensamento interno à lógica da presença da ausência e da ausência da presença.

Para Tomás de Aquino, a beleza brota do jogo entre o efémero, mostrando-se um momento de vida que caminha em direcção à perfeição, e assim de encontro a Deus e à redenção de tudo o que existe. É ao aproximarmo-nos do nada que o tempo se preenche de maravilhas, e quando o mal passa o artista vem mais tarde a encontrar formas belas para o caos e a desordem que o caracterizaram: a beleza mostra-se vitoriosa através do fim.

Para Dostoevsky, é importante desmascarar a beleza do inferno, da degradação, a beleza regozija-se no desespero e o nada revela-se. O niilismo e a redenção unem-se no objectivo da liberdade. O homem é um ser trágico e eterno, entre este e o outro mundo, e a sua única possibilidade de felicidade é a renúncia à liberdade.

O Deus de Raskolnikov mergulhou com o homem no Abismo, e o homem pode, perante a luz negra do niilismo, entregar-se à transparência do amor, ou à inércia.



Exemplificado em Herberto Helder


O Amor em Vista

(...)

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder

domingo, 16 de agosto de 2009

Luz Serpenteante




Liza Minelli sintetizada em Siouxie Sioux para estética de final de milénio




Literatura Obscura Medieval do Século XVIII (E a Escola Inglesa)

O gótico começa com a desilusão para com as ideias racionalistas, a tribo sentimentalista, de sonhadores que estão contra o materialismo e a favor do iluminismo (embora o desafiasse pela exposição sem pudor do caos) - a estudar também o estilo barroco. Surge em oposição à filosofia neoclássica, e buscava os temas mais reprimidos da psique humana, os seus medos, aproximando o simbólico e o obscuro, o verificavel e o sobrenatural. Politicamente, repare-se no significado do seguinte: padres malignos em catedrais misteriosas, e ariostocratas maléficos em castelos abandonados.

A arquitectura dos espaços dos homens é claustrofóbica, e a natureza exalta o terror pela vastidão.


Século XVIII:
O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole
The Old English Baron, a gothic story (1777)
The Recess; or, A Tale of Other Times (1783-1785)
Charlotte Smith, autora de Emmeline
The Orphan of the Castle (1788)
The Castle of Wolfenbach (1793)
The Mysterious Warning (1796)
Clermont (1798)
The Orphan of the Rhine(1798)
Zofloya, or, The Moor: A Romance of the Fifteenth Century (1806)
Vathek (1786)
Anne Ward Radcliffe (1764-1823)
The Castles of Athlin and Dunbayne (1789)
A Sicilian Romance (1790)
The Romance of the Forest (1791)
The Mysteries of Udolpho (1794)
The Italian, or The Confessional of the Black Penitents (1797)
Northanger Abbey (1818), Jane Austen
The Monk (1796)
Les Crimes D'Amour (1800)
The Pursuits of Literature (1796), de T. J. Matthias
Melmoth, the wanderer (1820)
Frankenstein, or The Modern Prometheus (1820)
The Strange Case of Dr. Jeckill and Mr. Hyde (1886)
The Island of Dr. Moreau (1896), de H. G. Wells
Dracula (1897) de Bram Stoker
Carmilla (1872)
The Picture of Dorian Gray (1891) escrito por Oscar Wilde
Edith Birkhead (1921) The Tale of Terror.
Montague Summers (1938) Gothic Quest
Devendra Varma (1957) The Gothic Flame
Victor Sage (1985) Horror Fiction in the Protestant Tradition
David Punter (1996) The Literature of Terror
Maggie Kilgour (1995)The Rise of the Gothic Novel, Routledge
Fred Botting (1996) Gothic, Routledge




O Romantismo do Século XIX (E a Escola Francesa)

O Romantismo do século XIX (eu sei, a importancia alemã), que, de intelectualidade rebelde, buscava o nacionalismo, o individualismo, o drama humano, condecorado de lirismo e de subjectividade. Aqui busca-se o exótico, o selvagem, a liberdade... O romantico idealizava uma sociedade à imagem da sua alma, exaltava a mulher, e procurava escapar à realidade.

A natureza é utilizada neste movimento de forma a exaltar os sentimentos e os paraísos artificiais florescem.

Continuando em França, o impressionismo, em que o que o homem vê não são os objectos mas a luz (preste-se atenção a isto), passando então a pintar não em estúdio mas ao ar livre, e o expressionismo, mais preocupado com a interiorização da arte do que com a sua exteriorização, dando-se importância à mensagem oculta de cada obra. Nos anos 20 de Paris o surrealismo, centrado no psicológico, liberto da lógica e da razão, para lá do quotidiano e boca aberta do inconsciente. Aqui a rejeição a valores estáticos como pátria, família, religião, trabalho e honra, realçando e louvando um novo elemento, o humor. Começa a escrita automática e um ingrediente comunista, a arte é dos homens comuns, não dos génios.

No século XX o modernismo, que clama que as formas tradicionais de arte foram ultrapassadas, golpe desferido pelos impressionistas e simbolistas (eu sei, a importância alemã), e por Nietzsche (que matou Deus) depois Freud (que nos diz que as impressões do exterior advêem dos impulsos interiores e que assim o exterior não é absoluto e por si mesmo) e Jung com o seu inconsciente e o seu inconsciente colectivo. A ideia era que, em vez de re-aproveitar as técnicas antes conseguidas, se começasse inteiramente de novo (em paralelo com o advento da teoria da relatividade na fisica, por exemplo, e portanto num panorama em que a realidade perdera a solidez).

Continuando com os franceses, explore-se a cultura de cabaret com o seu teatro, as suas comédias, canções e danças, as mulheres e a volúpia, o criticismo e a liberdade de expressão.



Do Romantismo:
Francisco Goya
Bocage
Sturm und Drang
Arte moderna de Giulio Carlo Argan
Eugène Delacroix
William Turner
William Blake
Edward Young
James Thomson
William Cowper
Robert Burns
Byron
Shelley
Keats
Goethe
Schiller
Herder
Friedrich Schlegel
Novalis
Friedrich Hölderlin
Stendhal
Victor Hugo
Musset
Leopardi
Manzoni
Almeida Garrett
Alexandre Herculano
José Espronceda
José Zorilla
José de Alencar
Walter Scott
Balzac
Beethoven
Chopin
Tchaikovsky
Felix Mendelssohn
Liszt
Grieg
Brahms
Verdi
Wagner
Pucinni
António Feliciano de Castilho
Camilo Castelo Branco
Soares de Passos
Júlio Dinis
João de Deus
Gonçalves de Magalhães
Gonçalves Dias
Álvares de Azevedo
Casimiro de Abreu
Fagundes Varela
Junqueira Freire
Castro Alves



Modernismo:
Macunaíma
Klaxon
Antropofagia
Friedrich Nietzsche
Søren Kierkegaard
Sigmund Freud
Carl Jung
Salon des rejects
Manet
Stéphane Mallarmé
Torre Eiffel
industrialização
Gustav Mahler
Gustave Flaubert
Arnold Schoenberg
Kandinsky
Der blaue Reiter
cubismo
Picasso
Georges Braque
Joseph Conrad
Virginia Woolf
James Joyce
T.S. Eliot
Erza Pound
Wallace Stevens
Guillaume Apollinaire
Joseph Conrad
Marcel Proust
Gertrude Stein
Wyndham Lewis
Marianne Moore
William Carlos Williams
Franz Kafka
Igor Stravinsky
Matisse
Mondrian
Le Corbusier
Mies van der Rohe
Walter Gropius
Frank Lloyd Wright
John Maynard Keynes


Expressionismo:
Mendelsohn
Die Brücke
Van Gogh
Edvard Munch
art noveau
Paul Klee
Henri Matisse
Paul Gauguin
Ernst Ludwig Kirchner
Emil Nolde
Bauhaus
advento da abstração
Vassíli Kandínski
August Macke
Diego Rivera
Jackson Pollock


Impressionismo:
Impressão, nascer do sol (1872)
Claude Monet
A luz e o movimento
Edgar Degas
Renoir
Edouard Manet
Washington Maguetas


Surrealismo:
Max Ernst
René Magritte
Salvador Dalí
André Breton
Luis Buñuel
Guillaume Apollinaire
Paul Éluard
Louis Aragon
Benjamin Péret
Jacques Prévert
Alberto Giacometti
Antonin Artaud
Juan Miró


Cabaret:
Josephine Baker
Madame Satã
Le Chat Noir
Moulin Rouge
La Goulue
Yvette Guilbert
Jane Avril
Mistinguett
Le Pétomane
Henri de Toulouse-Lautrec
Folies-Bergère
Charles Aznavour
Jacques Brel
Serge Gainsbourg
Edith Piaf
The Swingle Singers
Buntes Theater
Werner Finck - Katakombe
Karl Valentin - Wien-München,
Claire Waldoff
Kurt Tucholsky
Erich Kästner
Klaus Mann
Marlene Dietrich
Karl Farkas
Werner Finck
Dora Gerson
Dieter Hildebrandt
Erich Kästner
Ute Lemper
Klaus Nomi
Dieter Nuhr
Volker Pispers
Alf Poier
Gerhard Polt
Jura Soyfer
Kurt Tucholsky
Karl Valentin
Karin Berri
Tineke Schouten
Bert Visscher
Najib Amhali
Brigitte Kaandorp
Wim de Bie
Louis Davids
Sanne Wallis de Vries
Freek de Jonge
Herman Finkers
Javier Guzman
Raoul Heertje
Youp van 't Hek
Toon Hermans
Wim Kan
Kees van Kooten
Theo Maassen
Wim Sonneveld
Hans Teeuwen
Jochem Myjer
Hans Liberg
Claudia de Breij
Karen Akers
Joséphine Baker
Kaye Ballard
Laurie Beechman
Ann Hampton Callaway
Liz Callaway
Peter Cincotti
Rosemary Clooney
Bob Dorough
Michael Feinstein
Ella Fitzgerald
Murray Grand
Hildegarde
Billie Holiday
Lena Horne
Eartha Kitt
Nancy LaMott
Peggy Lee
Jay Leonhart
Dorothy Loudon
Amanda McBroom
Susannah McCorkle
Carmen McRae
Bette Midler
Liza Minnelli
Mark Murphy
John Pizzarelli
Faith Prince
Kenny Rankin
Annie Ross
Bobby Short
Nina Simone
Frank Sinatra
Jeri Southern
Barbra Streisand
Elaine Stritch
Julie Wilson
The Butterfly Club
Le Lido
Lapin Agile
Cabaret Voltaire
Tropicana
The Blue Angel
Can Can



Os Beatniks (e a Escola Americana)

Agora na América (mas ainda baseado na boémia francesa), os Beatniks, 1950-1960, um grupo de escritores, cujas características se provavam pela obscenidade alargando as permissões da censura. Boémios hedonistas que celebravam a espontaneadade criativa, eram viscerais nas suas palavras e no experimento da combinação das suas palavras, procurando através disto um entendimento espiritual aprofundado.


Geração Beat:
Howl (1956) de Allen Ginsberg
Naked Lunch (1959) de William S. Burroughs
On the road (1957) de Jack Kerouac
Neal Cassady

Ecos da Geração Beat:
Hippies
Punks




Os Oitenta e os Noventa

Nos oitenta, começa a aparecer a música, que continua nos 90 e então se difunde um pouco nos derivados do Metal: Gothic Metal, Doom Metal, Metal Sinfonico e Dark Ambient.


Anos oitenta e noventa:
Joy Division
Bauhaus
The Sisters of Mercy
Siouxsie and The Banshees
Alien Sex Fiend
London After Midnight
Faith and Muse
Clan of Xymox
e.t.c.





Cinema:

Faltou falar das influências no cinema, embora muito esteja incluído no expressionismo:

Temos Georges Melies, o ilusionista, que começou a filmar em 1896:

The Devil's Castle

The Lady Vanishes

L'Éclipse du soleil en pleine lune

The Magic Lantern

Infernal Cakewalk

Le Monstre

La Cornue Infernale

Le Chauldron Infernale

Evocation Spirite

Le Voyage Dans La Lune

Les Cartes Vivants




Em 1910, a primeira versão em filme de Frankenstein.

Robert Winer com o O Gabinete do Dr.Caligári.

Fritz Land com o Vampiro de Dusseldrof.

O Der Golem, o Estudante de Praga, e o Alraune (ao estilo de Frankenstein, a menina é uma experiência) de Paul Weneger.

O Corcunda de Notre Damme.

Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

The Hound of Baskervilles.

O Nosferatu de Murnau.

O Dracula de Bram Stoker.

O Dracula de Bela Lugosi, The Devil Bat, White Zombie, The Wolfman.

Phantom of the Opera.

The Blackbird.

O London After Midnight, que infuenciou a banda. The Magician.

The Mummy.

I Walked With a Zombie.

Cat People.

Vampyr.

Freaks.

Entrevista com o Vampiro.


As listas não estão, obviamente, completas.


A subcultura, culta, apenas dispersa, não unida, sem a devida capacidade para causar uma mudança social significativa, ainda que, cada vez mais, conquistando espaço. Aqui os eruditos encantados, os cientistas feiticeiros, os pensadores do apocalipse, suficientemente atentos para clamar: uma alma sensível encontra beleza mesmo no terror dos destroços, e da ruína da sua época e da sua civilização ela ergue o intelecto e a luz como uma chama impossível de extinguir.




Curiosidades
1:
Lembrem-se que Streisand começou nos cabarés. Aprendeu o estado de "diva" com as drag queens e tinha um público vasto de fãs homosexuais que frequentavam os locais de cabaré.

O Frank Sinatra e o seu jazz não são propriamente música de cabaré, no entanto o cabaré era uma temática que expunha, e movia-se dentro do meio, actuando também em cabarés. Muita da música de cabaré pode até ser ouvida em clubes de jazz, a diferença sendo que o cantor de cabaré se foca no teatro musical e no caracter intimista (e nisto o Sinatra podia ser um expert).

A Garland fazia cabaré, entre as coisas pelas quais é famosa.


2:
Tolouse-Lautrec

Frequentador assíduo do Moulin Rouge e outros cabarés, o pequeno nobre acaba se acomodando muito bem naquele ambiente tão estranho que seus pais nunca aceitaram em ter o filho. O tema principal das pinturas de Toulouse-Lautrec era a vida boémia parisiense, que ele representava através de um desenho que lembra a espontaneidade do desenho satírico de Honoré Daumier, e uma composição dinâmica que poderia ter sido influenciada pela fotografia e as gravuras japonesas, dois fatores de grande importância cultural no fim do século XIX.

Era atraído por Montmartre, uma área de Paris famosa pela boemia e por ser antro de artistas, escritores, filósofos. Escondido no coração de Montmartre estava o jardim de Pere Foret onde Toulouse-Lautrec pintou uma série de óleos sobre tela ao ar livre de Carmen Gaudin (a modelo ruiva que aparece no quadro "A Lavadeira" de 1888). Quando o cabaré Moulin Rouge abriu as portas ali perto, Toulouse-Lautrec foi contratado para fazer cartazes. Posteriormente ele passou a ter assento cativo no cabaré, onde suas pinturas eram expostas. Nos muitos conhecidos trabalhos que ele fez para o Moulin Rouge e outras casas noturnas parisienses estão retratadas a cantora Yvette Guilbert, a dançarina Louise Weber, mais conhecida como a louca e cativante La Goulue("A Gulosa"), a qual criou o cancan francês, e também a mais discreta dançarina Jane Avril.


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3:
O Anjo Azul

O Anjo Azul mergulha nas entranhas da degradação e da decadência do ser humano sem dó nem piedade. A atmosfera turva e cativante é bastante peculiar para um cineasta bebedor do expressionismo alemão, e é nesse clima sombrio e pesado que Sternberg constrói a sua história, a partir do belíssimo argumento de Robert Liebmann. Mas, sem dúvida, estamos diante de um filme onde a categoria do seu director é o grande destaque.

(...)

A rigor, percebemos que, com o decorrer da metragem, Sternberg homenageia Murnau e seu Fausto - alguém pode encontrar um pouco do humor efêmero de Aurora. Temos, no entanto, um filme com personalidade, que fala por si, que exalta alegrias, emoções e tristezas. Há, também, alusões eróticas impensáveis para a época (Marlene Dietrich, em optimo desempenho, dança e canta com poucas peças de roupa sob seu corpo perfeito).


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4:
Vaudeville


Vaudeville foi um gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Desenvolvendo-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, "circos de horror", museus baratos e literatura burlesca, o vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos. A cada anoitecer, uma série de números eram levados ao palco, sem nenhum relacionamento dire(c)to entre eles. Entre outros, músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarina(o)s, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único a(c)to ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmetes.



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Sugestão do Dia:



sábado, 8 de agosto de 2009

Promessas 2 *

Orpheus, Jean Delville, 1893




Em ti vislumbro toda a vontade de viver e toda a dor de não se crescer à medida da alma. Depois pela tua questão cheguei a ti, embora tu não a mim. Interrogavas-te sobre a minha religião, sem mesmo me haveres ainda conhecido, quando conhecer-me é morrer.

Minha é a religião que rejeita todos os credos, e aceita somente as coisas, providas das suas maldições e bênçãos, assim como as sentimos dentro de nós. Se para vós, a religião se descreve no conjunto de crenças que recaem no sobrenatural, assim como nos códigos morais que permitem atingir o sagrado, para nós, que vivemos nada mais nada menos como o sobrenatural e o sagrado englobando, não obstante, o caído, o que nos resta adorar além da existência das coisas conforme passamos por elas e elas nos atravessam na invisibilidade dos espelhos?

Porque nós somos dentro das coisas, e porque ousamos rasgar todas as peles, não existe em nós a fé por elas, apenas a fé interna às mesmas, contida e saboreada no laboratório dos sentidos.

Porque somos eterna e amplamente sós, não serão descobertos códigos morais ou sociais que nos conduzam. Não somos ateus, pois não negamos os deuses nos homens, não somos agnósticos pois a dúvida, em nós, não impera, e o deísmo não será uma bandeira na constatação de que a razão, deixada a si mesma, não vale o mais pequeno sopro. Em nós, a virtude e a justiça são consequências da liberdade, em vós, da opressão. Qualquer lugar que pise amaldiçoo e sacralizo, então, se procuras um altar no qual adorar aquilo que começas agora a visualizar no movimento das minhas palavras, busca o espelho, nesse mesmo momento em que, ali, não encontres o teu reflexo.


(...)

Uma diferença, todavia, vem estabelecer-se na medida em que, da amálgama revolta dos sonhos da carne e do espírito da qual provem o mundo, extraímos o fluido luminoso e a treva numa medida perfeitamente regulada, assim, no mundo do espírito aquilo que é fogo virá influenciar a temperatura do nosso corpo no sentido dos graus mais baixos, enquanto que aquilo que é gelo o aquecerá. Devido a esta sensibilidade acrescida e ao manejo aperfeiçoado do mundo oculto, sentimos frio e calor, mas não sofremos de frio, nem de calor.


(...)


A eternidade é a condenação do futuro; é, contrariamente ao que pavoneiam, não o rumo certo da glória daquele por todos amado, mas a errancia.

(...)


Diana, hoje observo-te a brincar, como uma pequena chama ao luar, entre becos e sombras e mascaras de lobos, com um sorriso de criança e a inocência cruel das rosas, e pareces pequena e grande em simultâneo, mas eu sei melhor, sei que és pó. A morte, tudo iguala minha pequena. E embora a tua brincadeira seja mais uma corrida até ao final dos finais, a consciência da imortalidade em mim brinca em passos de dança com o precipício da inconsciência em ti. Por isso mesmo permito-te conhecer alguns aspectos da nossa existência ou, deveria talvez proclamar, inexistência. A minha esperança sopra também nos ventos de que o venhas a espalhar às mentes despreparadas e despedaçadas dos teus semelhantes, pois a anarquia e o caos é o deleite e o vício mortal da eternidade.


(...)



O Vampiro organiza-se em sociedade segundo o modelo anarquista e, simultâneamente, aristocrático, em que o seu sangue é tido como sangue azul e dele é requerida uma certa nobreza dotada de uma etiqueta própria, porém natural, provinda das entranhas, então refinada ao máximo potencial da educação e do conhecimento. Não existe, pois, nenhuma hierarquia e, se alguma pirâmide de estatuto prevalecesse, seria aquela do poder da expressão do semblante de cada membro, sendo que os estados de espírito são, naturalmente, mais ou menos flexíveis.

Todo o Vampiro existe a um nível de igualdade simétrica e inquebrável, sendo porém a individualidade o princípio máximo que regularia esta associação, e por isso, cabe a cada associado trabalhar unicamente aquilo que espelha no mundo a sua particularidade, a sua inspiração e verdade; e assim, o lucro é visto em termos de realização, mais do que pelo cobre, isto é, a moeda de latão.

Esta, seria igualmente a vossa ordem natural, embora uma diferença interna resida em que no homem mortal, a individualidade se caracterize por se ancorar no corpo, dai o intercâmbio do sangue provocar muitas vezes a morte, sendo a nível da alma que o homem mais se mistura e se une com as coisas de forma saudável. Por sua vez, a individualidade do vampiro existe na sua alma, da qual o sangue é a interacção, o seu erotismo, a sua comunhão, compartilha e a sua fertilidade. Se um vampiro arrisca a sua alma, que é a sua maldição, coloca também a sua existência numa situação frágil e possivelmente fatal.



Mesh-ki-ang-gasher

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

É talvez o último dia da minha vida.


Nezahualcoyotl, O Rei Poeta




É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Alberto Caeiro



It is maybe the last day of my life.
I saluted the Sun, raising my right hand,
But I did not salute him, saying to him goodbye,
I expressed my pleasure to see him instead: nothing else.

Alberto Caeiro
* Traduzido por André Consciência

sábado, 1 de agosto de 2009

Promessas 1 *

HR Giger



Cara Filosofa dos Abismos, folgo em encontrar-te sempre curiosa, também um dia esta ansiedade de descobrir te fará morrer as sete felinas mortes, e nesse dia serás uma de nós. Por agora, satisfaço a tua indulgência na fornalha fraca de palavras poucas, para que talvez um dia possas vir a perceber muito em tudo o que é pouco.

(...)

Esforça-te para conhecer cada um destes animais de cor em ti mesma, e alimentai-vos primeiramente da sua essência. Só mais tarde voltarás o teu dom para as estrelas.

(...)

O prazer é, indecorosa e delicada criatura, uma dilacerante luz guia, uma voz que queima e que abre caminho: não distingue, conhece; em si coabitam todas as vidas livres aprisionadas na experiência, e o seu nome é legião.


(...)

A deficiência de cada Vampiro é assim a particularidade, ou particularidades, do mesmo, sendo esta a sua derradeira e inquestionável perfeição.


(...)

Sim, aqui tens a verdade, não simpatizamos com o Sol da mesma forma que vós, porque vedes nele um potencial salvador e o dador da vida. Nós, fitamos-lo como um opressor e agoiro de cegueira. Contempla que o Sol caminha, tranquilo, pela noite eterna do cosmo, e quando se impõe ali no vosso céu diurno tapa toda a terra num túmulo de falsidade, já distorcido. Apreciamos a noite porque é cada um de nós um Astro Ardente, um Sol, uma Estrela, cada um de nós é o Sol quando o mesmo caminha na noite, e fazemos-lo na Terra. Só nos sonhos vossos ganhamos forma, assim como nas sombras da rua, e nos fantasmas que as mãos ainda desenham e abraçam. Somos os vossos desejos, a vossa dança com a morte, e o vosso trago de um vinho perpétuo. Somos o orvalho quando a donzela do que ainda é puro em vós, se precipita uma vez mais na gravidade da ilusão, e a borboleta se reduz a queimadura no Archote de Lúcifer.


(...)


O sangue dos seres vivos é pois, para nós, como o incenso, gerado da resina das árvores, se afigura para os anjos, ou mesmo como a prece de um coração puro e silencioso o é para Deus. O sangue é o único cântico e o hino único capaz de criar um ambiente sagrado em nosso redor, a partir do qual podemos penetrar as hostes da mortalidade e dos vivos.

Uma vez adquirido pelas nossas formas, este sangue é pois despido das suas limitações tanto como da sua castração, tornando-se numa essência pura ardente, com a qual brindamos, novamente, o mundo cíclico e sistemático dos homens comuns, que, sem as características inerentes à nossa imortalidade, se extinguiria facilmente, como uma vela a descoberto face ao gelado sopro do inferno.




No fogo e na bruma.




Mesh-ki-ang-gasher
* Ha uns anos (julgo), diverti-me a fazer correspondência, em papel, sob este nome. Hoje estava a reler as copias das cartas e hão de se seguir mais dois posts da autoria de Mesh-ki-ang-gasher, sendo que achei peculiar o meu bizarro passa-tempo (do qual aliás hoje já não me recordava).

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Pensamentos

Gárgula (neogótica) da Catedral de Notre-Dame em Paris


Da Morte

É natural que um homem nutra esperança de que, após a sua morte, seja lembrado com um suspiro lânguido no coração das donzelas e daqueles homens convictos do seu tempo, dos seus companheiros de armas.

Tenho náusea, náusea de todas estas mortes. E quando sonho a minha morte, sonho morrer não de amor, nem por causa alguma que aglutinasse as mentes agudas dos homens, penso só, e só, morrer só, de solidão, morrer de solidão. Acabar assim, na escuridão, seco e frio, claro e cristalino. Porque só a solidão não se corrompeu.

Só do espelho, pode o corpo nu se vestir. E só da luz da chama se tinge a agua.


Da Solidão

Se fosse, ao menos, dois, saberia onde me encontrar.
Vivemos como Ciclopes.



Do Que a Eternidade Anima

A chama é o pânico num teatro sem vida.
A morte é a calma num teatro de gelo.



Da Verdade

Por vezes a verdade é tão feroz quanto a nossa leoa e tão pura e plácida quanto o nosso cisne. Por vezes pode até despir-nos de olhos como o nosso falcão justo.


Da Companhia

Até o mais profundo afecto do homem social, a família, se baseia na projecção mais superficial do homem em geral, o dinheiro.



Da Poesia

A poesia em palavras é só mais uma mascara social, um véu intelectual sustentado por uma cortina ilusória entre um homem e uma estrela, um homem e a beleza das coisas a sério. Tanto palavreado só servirá para se esconder delas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Diálogo Atrás da Membrana

Francesco Clemente



O menino
"Sibila ó monte de Luz"

A menina
"Habita a Morte! Vive!"

O menino
"A Luz do Mundo a seus pés; a sua Coroa: a Luz do Mundo; o seu Coração: um Globo de Trevas ferido em vermelho."

A menina
"O teu sangue na luz sem eco."

O menino
"Eu sou o animal da boca quebrada, e do orifício de mim um Universo."

A menina
"Eu sou este, que criou, sem egoísmo, o que é seu."

O menino
"Eu sou este, que escapou da morte e do sufoco."

A menina
"Silêncio é o meu feitiço."

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fornalha

Chisai Benjo, Takahashi Kaito



Nos recantos da Lua arde a floresta. As criaturas vis, os rastejantes, os que caminham o lodo, os que se escondem nas grutas, e as bestas que não conhecem nome, são eternas, e reconhecem-No quando os arbustos se incendeiam e morrem, imortais, com o fogo da vida. As sombras tremem e escapam sem demora, porque as testemunhas são os seus lampiões. Da resina dos arbustos solta-se o perfume do Celeste, o Inexistente é invadido de uma recordação perene, veste ossos de sonho e emerge da terra negra e verde.




Perfume a Mar Vazio, Horned Wolf

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Santistuto

Adagio de Kris kuksi, 2002



Hoje consegui expandir os meus horizontes, descobri, junto à larga e envernizada porta da entrada do Santuário, um homem de casaco cinzento e cinzentas as roupas, que toca accordion incansavelmente. Falta-lhe uma orelha, na qual usa gesso, e tem um violino, com a sua caixa, aos pés amarrotados, para onde ninguém deita moedas nem notas. As notas e as moedas não são parte do Santuário, mas as pessoas continuam a mover-se à imagem da sua existência. À medida que toca parecem existir rachas nas paredes que mudam de direcção e dançam formas, mas eu creio que estas rachas são uma ilusão óptica do próprio som. Perto da caixa do violino, estão pedaços de jornal rasgados, talvez para lembrar o dinheiro em papel, e está um cacho de bananas. Por vezes, a ladeira do outro lado da porta, abre-se, e a face de um pequeno macaco com sinos, espreita de olhar tanto curioso como amplo e vazio. Encontrei também, na retaguarda da quinta, a lixeira, onde habitam inclusive as prostitutas, embora seja difícil distingui-las excepto pelas formas das latas. Ai, podem encontrar-se, nas laterais, urnas e pequenos caixões – provavelmente de crianças. No portão de entrada, todo ele de latão, uma caneca grande de cerveja, sempre cheia.

Podem encontrar-se palmeiras, depois do rico e imponente portão de saída do Santuário, formam um corredor e de um lado do corredor, campos de milho, do outro, a casa dos escravos. Por vezes, os aristocratas de chapéus-de-chuva e bigodes espiralados, vão confessar-se aos escravos. No caso do escravo retorquir, é mandado açoitar por outro escravo e eles observam atentamente o menear dos rabos como se de eclipses se tratassem. Em muitas ocasiões, se a sessão for longa, podem ser vistos frutos a amadurecer e a escorregarem dos rabos para o solo.

Depois de eu mesmo me quedar para ver este evento, e ao retornar para o meu quarto, a senhora de branco, que gemia num dos cantos dos ângulos, deu-me a mão despida, o pulso fino. A minha pele roçou a dela. Logo a mordi violentamente e sangrei longamente.

Nas paredes do meu quarto, uma das árvores está a despir-se ao espelho e a escrever uma carta para alguém muito longe.



A Sea of People, Horned Wolf, 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Discurso de Bab'El


Horned Wolf, Discurso de Bab'EL



"A Confusão das Línguas" por Gustave Doré (1865)

domingo, 5 de julho de 2009

Vila Final

Orangotango de Sumatra - Autor Desconhecido




Ela têm um pesadelo que é meu.

Passo as horas ali, no final da vila, numa fabrica abandonada, encostado à árvore que está no final do mundo e que estala de Noite com tecidos oraculares. Ás vezes passam pessoas, com cães, no escuro, e com cães escuros. Estou na bruma, sinto-me invisível porque sou um fantasma. Tenho cada vez mais a certeza. Mesmo quando me olham como se eu fosse um louco, percebo que ninguém nunca mais me porá a vista em cima. A não ser ao jeito de assombração. Os tijolos singelos e abandonados, encosto-me todo a eles. Assobiam, ocos, ao vento. Sou todo eles. A lua é uma ferida de luz no meu sono, e assim são os meus sonhos.

A solidão somos nós, e somos nós todos vistos do meu corpo.

As vossas presenças são como pedras, mudas, frias, arremessadas contra o meu corpo imortal, como árvores que morrem e que nunca serão derrubadas. Como mundos de florestas que morrem e que nunca serão derrubadas. Onde só os deuses dançam, horrorizados de tão fantasmagóricos.

A luz verde e que é uma doença e que é como se fosse o amarelo da febre talvez.

Estou tão cansado. Pálido. Existem rugas em mim esta noite. Visíveis. Só as rugas são visíveis, eu sou leve e transparente.

Porque não vieste? Não queria ter vivido para sempre.

Perto das linhas finais, alguém me pergunta alguma coisa sobre anjos. Só respondo quando me perguntam as coisas dos anjos.

Teço uma resposta e acabo, antes de me meter no comboio e ser consumido pelas lâmpadas confusas.

domingo, 28 de junho de 2009

A Metade Devorada V






Era um dia especial porque eu podia brilhar sem ninguém ver: ser mais genuíno. A nossa estética arquitectura portuguesa sempre foi amante de um futurismo transcendente. E até àquele dia eu nunca tinha reparado em ti, que não vias as mesmas luzes que eu, no céu. Escolhíamos roupa e eu não reparava em ti, lá fora reparava em ti, tu não vias as pequenas faíscas que escapavam do Sol e desciam como mil peixes incandescentes para inundar a terra. Tu não o vias, eu testemunhava-o sozinho. Era já um rapaz feito, mas só então percebi.


Eu amo, e depois, morro, e quando amo morro, e quando morro amo.


Todas aquelas coisas que não eram nada, insolentes insubordinações que se afastavam do círculo e criavam outros círculos: como se pretendessem o absurdo de se existir por fora, tal se eu não contivesse tudo. E engolindo um milhão de estrelas pousei nos seus crepúsculos. Nunca existiu isto, fora do corpo mineral: Um exercito de sapos que coaxavam e pulavam de lugar em lugar. Arrastava-os para mim, as suas fantasias mais secretas, os seus combates, as paixões, e todas essas extraviações de uma anomalia extra-terrestre intitulada de pensamentos, de pluralidades charlatãs.


Todos os dias eu nascia no Sol, para me lembrar.


Eu amava-te. Tanto quanto te amo. É quase pena o que não pudémos contar. E é quase pena os anos de silêncio, por uma recordação serena, uma recordação quase só do coração.
Era de noite quando as estrelas caíram. Era de noite quando Deus se lembrou de queimar os homens. Eu fiquei contigo no pontão, quase debaixo da Ponte Vasco da Gama, e tinha escrito na madeira, para ti; apenas o rio e os olhares e os gestos com brisas de cabelo, diziam mais: ainda era de dia para nós, e não sabíamos que o nosso amor não era a única forma de se morrer e de se escapar da morte.


Devido ao Olho.
Fui cinzas, marés inteiras de cinzas.
Fui cinzas e fui Olho.
A tua mão, tão perto da minha…
Tocávamos-nos enquanto fazíamos muita força com os corações, mas ainda existíamos, mas o mundo ainda se encontrava colado a nós. As pessoas tinham o peso de sombras. Nós éramos o centro gravitacional. E não sabíamos, não sabíamos que éramos engolidos para sempre, gradualmente e copiosamente, engolidos para sempre.





Eu só sabia que éramos dois quando iniciávamos o rito de amor. Deve ter sido ali, que alguma forma alienígena a tudo o que éramos entrou em nós para crescer às escuras, se vingar de sermos como éramos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Macaco Amestrado





A cultura, as tradições, são feitas passar essencialmente pelo bem-poético, como eu lhe chamo, e assim tem sido ao longo dos tempos por mais mãos à palmatória que tenham existido. O “capital” desse bem é a inspiração.

“Educação de Direita”, e falta dizer educação em que sentido. Como a maior parte de propaganda de direita, o texto mostra conceitos que fascinam os perdidos num mundo perdido, não os pondo todavia em prática ou nem sequer os conhecendo.

Uma falácia encontra-se neste artigo, que se baseia em dois temas:
A Liberdade, A Educação (educar + acção, teoria e a prática dessa teoria). É claro que parte da liberdade está em saber tomar decisões conscientemente, para tal, necessita-se de informação e de inteligência. Para adquirir informação é necessária uma mente aberta, vulneravel, para adquirir inteligência um raciocinio forte, uma boa resolução das equações relacionadas com os limites e uma limpidez incorruptivel posta em prática. Nenhuma destas coisas vai de encontro ao que o artigo menciona, nem da forma como o menciona. O mesmo será dizer que o macaco amestrado é o macaco livre. A educação do homem integro e inteiro provem da liberdade, a liberdade do homem escravo provem da educação imposta.

A cultura provém das liberdades, e toda a educação sã se baseia nesse ideal, porque a vida e a liberdade se baseiam na mesma alma, uma cultura proveniente das opressões (e por opressão não a igualizo a esse bem que é a disciplina) é uma cultura indesejada.



Resposta a Boulevard das Ideias

terça-feira, 16 de junho de 2009

Felicidade


O espectáculo acabou, as cortinas fecharam-se e agora ninguém nos escuta quando rimos sozinhos. Nunca contei a ninguém se ela se tranca, se ela fica trancada na casa de banho a dar-se prazer, se me fecha no exterior. A multidão na rua caminha devagar embora esteja a chover torrencialmente. Eu estou parado e as pingas não me tocam. A multidão na rua é toda de amantes, agarram-se na chuva a tentar prender tudo aquilo que nunca será deles. Ouvi dizer que está frio. Deve ser devido a estas e a outras coisas. Não há nada para ver aqui, as cortinas cerradas. Tudo o que está fresco já passou de prazo. Os seus gemidos na casa de banho dizem que sou um mau rapaz. Os amantes apertam a dor, não vá tudo o resto escapar. E ninguém percebeu a felicidade. Lembram-se dela ao jeito de anedota, se ninguém os vê, e riem-se em sussurro.

sábado, 13 de junho de 2009

The Death of Knowledge



Modelo: Lady Alexiel
Foto Original: Nanashi

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Placas do Jardim


Giordano Bruno por Ettore Ferrari





I

O Sol aquece a Terra. Assim existe vento, chuva, e chama.

O Amor aquece o Amante. Assim existem suspiros, pranto, e chama.

Destapar o coração ardente, é vencer os deuses e o homem. Não existe outra arma, e nenhuma outra muralha além dos raios do Astro.

Esplendor é a agua que se precipita contra a Flama, e causa o Cristal, a Pedra.



II


De Luzes Gémeas, dedica a vista a tudo o que é Superior.

Oferece-lhe tudo o que seja igual ou inferior a ti.



III

O labor da Inteligência dá-se na quietitude e no repouso, não no trabalho movimentado.

Assim o labor do Amor é pacifico, apesar de de si, se gerar o movimento.



IV

O lado negro da Lua é sempre o lado de quem a olha. O lado luminoso da Lua é sempre o lado de quem a contempla.



V

O Amante perfeito reflecte-se no carvalho que não treme. Não no carvalho que dobra sem partir.

O desejo sem a dor é o mais alto afecto do homem.



VI

"Chegando ao ultimo e ao dia mais feliz da nossa vida, planeamos para esse dia paz, saude e tranquilidade de espírito; porque não obstante quanto, por um lado, a maior dor nos atormentou com obstáculos, esse tormento, por outro lado, tornou-se completamente absorvido pelo prazer que tomamos nas nossas criações e na consideração dos nossos fins."

Epicuro, traduzido por mim



VII

Os escolares de Sócrates podiam subornar os guardas prisionais, porém Sócrates não queria temer a Morte, porque nenhum filósofo teme a Morte: O ultimo favor de Asclepius.



VIII

O coração, tornado na maçã dourada, deve ser oferecido a nada que ultrapasse outro objecto em especifico, mas àquilo que é, em todas as coisas, infinito.

Da mesma forma, aquele que se esconde nas caves deve ser resgatado para o peito, para que suspire de amor e cause o caos e a tempestade em todos os quatro cantos do mundo. Depois, a luz, fará que seja tranquilo, a escuridão dar-lhe-á nobreza.

O peito é a habitação da beleza e da bondade. E assim são os seios da amante e da mãe, que origina a natureza em estado puro do intelecto e da razão.

As tempestades nos quatro cantos do mundo serão murmúrios de amor, e a inocência o punhal que rasga a mortalha do coração ardente.



IX

Nenhum Raio do Astro é real, excepto se desperta o desejo juntamente com a ideia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Metade Devorada IV





Nós riamos-nos da minúscula criatura canina, porque uma força estranha à sua natureza e à sua constituição o voltava contra a cauda magoando-lhe a coluna, e o lançava num reboliço de tentar caminhar e se confundir por só dar voltas sobre si mesmo. Depois a alva nervura do olho, manchada de um vermelho lustro, e não haviam nele órbitas vazias, havia carne papuda e sangue jorrado, o vulto em tremura, como se risse. Nós riamos-nos. E ele era uma mancha pisada, contra o solo movediço de intransponível: à espera, em todos os passos: a voz da morte. Por isso riamos-nos e tomávamos brindes amaldiçoados, construíamos enredos de vida em seu nome, para diverti-la. O meu corpo encarquilhado, ilusório, observador do ilusionista. A morte dizia: conhecimento. Depois eu era o cão, em todos os tempos para os quais procurasse escapar, procurava correr, confuso, por voltas sobre mim mesmo sempre que apontava para algum sítio. Haviam duendes de faces desfiguradas, e riam-se muito. A ultima palavra.


Todas.

Um vagabundo. Um homem cuja metade devorada criava asas de traças em humidades nauseantes. Mil asas pequeninas de um eclipse psicadélico e de um estrondoso mar em comoção. Abismos do espaço e do tempo. O vagabundo não se interessava, a sua face suja era límpida demais para incógnitas, e por isso era inconcebível. A metade devorada ostentava tentáculos microscópicos de carne cortada, e abraçava todas as coisas com um sufoco e uma avidez sobrenatural.


Antinomianismo: contrariar a corrente de decadência para a qual a criação, deixada a si mesma, tende a escorrer. Que estes sejam ferreiros, quer dizer que são capazes de moldar o mundo através do fogo.

Com luz de ave azul, de ave que caminha nos meandros dos espaços inatingíveis entre as estrelas, emanando sonhos e redemoinhos de renovações invisíveis, ela perscrutava os meus olhos, como se os seus tocassem e explodissem violeta, e quando me apanhava a alma, ia dizendo: “as árvores em que se abriga são o isolamento, mas as palavras que ele não encontra, e que procura, são ele”.
Eu quedava-me em litania: a poesia é feita à imagem do leitor. Deus lê-nos, nós escrevemos. E estamos muito sós, a flutuar e a atravessar muitos olhos, túneis que desembocam em túneis que em túneis vão desembocar. Eu olhava os olhos extraídos das órbitas pela pressão, as janelas abandonadas desde o inicio, daquele frágil cão inutilizado pelo fim. E risos, a sair de bocas ocas em bocas ocas. Torrentes. A tua mão calorífica? Meu anjo? Gratidão.
Depois, aquela parte que não estava devorada arrastava-se pelas linhas de ferro, e vagabundeava sem realeza vagabunda: apanhava os restos que se dividiam em restos que se dividiam em restos: a parte comida era a parte deixada por comer: ser-se devorado.


Reflexos, a sala escura, e o espectáculo de ilusionismo, eram agora um iluminado labirinto de espelhos cristalinos e incorpóreos. Havia glória no canto dos coros, estendida na distância até tudo se tornar distância: os fantasmas desistiam e voltavam aos seus abrigos de esquecimento.

O meu corpo encarquilhado, a crescer contra si mesmo enquanto mirrava, inquebrável porque estático, impossível de derrubar, a observar. O ilusionista era o seu predilecto truque.




sábado, 23 de maio de 2009

GÓTICO - Subcultura ou Género Musical?




Resposta meio abrutalhada num debate em que os góticos dos velhos tempos atacavam os góticos das novas gerações, porque gostavam de gothic metal e não pertenciam, por conseguinte, à subcultura. Os góticos da nova geração não sabiam como responder a isso e ficavam confusos:

A diferença do punk do qual descendeu o gótico do gótico é que o gótico é menos cru, sim, começa a introduzir o órgão e as letras são muitas vezes introspectivas e até depressivas. Existe uma maior sensibilidade poética, uma ligação no que respeita as letras ao romantismo, ao mórbido, e ao sobrenatural. Muitas vezes a voz é dramática e profunda.

Do rock gótico surge a subcultura, é certo, e a subcultura já não era, somente, um movimento musical. Foi incluindo moda, os bares, literatura, pintura, filosofia, banda desenhada e até jardinagem; os sobreviventes do movimento estético do rock gótico criaram para si mesmos o que se chama disso mesmo, uma cultura, um mundo próprio. Só aqui é que se torna numa subcultura digna desse nome (e até hoje ainda não uma contra-cultura, por causa do niilismo inerente a limita-lo em termos de crenças politicas e soluções concretas para o mundo).

Dentro da subcultura estava um revivalismo da literatura gótica, ou melhor, o rock gótico desde o seu começo é que aspirava a este revivalismo em primeiro lugar, que combinava o horror e o romance, uma rejeição das doutrinas pre-estabelecidas e um mergulho do intelecto na obscuridade, que se lançava no seu modo aos novos descobrimentos (o mundo era desconhecido e cheio de peripécias sobrenaturais e bizarras). A figura da autoridade e do dogma é nesta literatura (como os condes e os sacerdotes) vista como maléfica e assustadora, ruínas (as ruínas do que consideravam o velho mundo, ruínas nas quais viviam), etc. As criações humanas decaiam e morriam. E para ilustrar como era temível a autoridade, mostravam um mundo medieval que tão bem foi marcado pelas tiranias da fé e do dogma. A beleza também começa a ser olhada com um misto de admiração e suspeita, a mulher é fatal, a loucura um mistério a penetrar (Freud descobre que o homem tem uma besta no seu interior, coincidente com a imagem artística dos lobisomens - libido, etc), e ergue-se uma bandeira contra o catolicismo (coisa dos protestantes). Em suma, esta literatura do século dezoito intitulada de “literatura gótica” vai inserir o fantástico em elementos do realismo que marcava afincadamente a época (esta escola, tal como o gothic rock, também começou na Inglaterra, e espalhou-se para França e para a Alemanha, que de resto é a mãe do Romantismo, que contribuiu para o género gótico). Ah, a androginia que vês vem da época vitoriana, que passou a chamar a essa literatura de gothick (com o “k”), que adoravam a imaginação fantástica da arquitectura gótica. E para não deixar que o movimento aqui morresse, vai Poe beber a Ann Radcliffe e ao romantismo de Byron (tal como contemporaneamente o senhor Burton bebe de Poe). O movimento literário continua por ai fora até ao Bram Stoker, no século vinte já aparece sob a forma de Lovecraft (entre outros).

É claro que a literatura influencia o cinema, e o cinema copia a literatura, e antes das bandas góticas já existia uma vivência da literatura gótica no cinema. Não foi apenas o rock gótico a manifestar a literatura gótica (alias em todos estes géneros teve muita influencia Black Sabbath), mas por exemplo King Diamond, do Heavy Metal, ou sim, vários grupos do Métal Gótico (e se o metal gótico não é gótico então o rock gótico também não seria gótico) e várias outras bandas que se tornou cliché para um gó estar contra - porque se o pessoal no geral gosta temos de estar contra ou então ficamos menos gós, mas não interessa erudição, acusar os outros de estar na moda chega - )

Esta literatura tem influencias fortes do período estilístico e filosófico barroco, que retrata um jogo de poder entre o divino e o humano, e o efeito da ilusão, e a arquitectura gótica expressa isso mesmo, pela própria mente construíam catedrais altas o suficiente para chegar ao céu - uma torre de babel - (já a pintura gótica mostrava pessoas de rostos voltados para o céu, como os românticos olhavam para o infinito - e os principais pintores da pintura gótica iniciam a pintura do renascimento, em que a ciência, a matéria e o sobrenatural são um e o infinito rompe pelo finito), pelos vitrais do homem a luz natural entrava e tornava-se sobrenatural.

Poderia escrever um livro sobre isto tudo, mas vou abreviar e dizer que gótico não é o artigo que compramos, seja este um CD, um filme, um livro, gótico é uma qualidade que pode estar ou não inserida no artigo, e a mesma coisa vale para pessoas. Um CD de Gothic Metal não é um CD de Gothic Rock, isso é absurdo. Mas podem ser, ambos, cds que se incorporem na subcultura gótica que, acima de tudo, voltada para si mesma como os iluministas, vê fundir-se a angustia da morte latente no homem como criatura solitária - despida de um deus -, no corpo e nas coisas da terra, com o sentimento do sublime, da noite das coisas que acaba por o despir de pátria e roupagem e o entrega às fúrias da criatividade errante que vive da fusão desses dois opostos - o sublime e a angustia.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Política






Anarquismo

Como doutrina politica pretende eliminar o estado e emancipar o sujeito social, a meta è a felicidade inerente a qualquer um pela liberdade.
Preceitos:
. As instituições são más, o indivíduo é bom.
. A vontade e a razão de cada membro de uma sociedade è a ordem e a harmonia da mesma.

Ironicamente, o primeiro teorista do anarquismo foi um padre britânico de nome William Goldwin. Segue-se-lhe Pierre Joseph Proudhon, um socialista francês que tinha em 1840 publicada a sua obra “O que é a Propriedade?” A sua resposta “é o roubo”. “A Filosofia da Miséria” é publicada em 1846, este sugere uma grandiosa transformação nas unidades de produção pela troca livre de produtos entre as associações de trabalhadores. Instalava-se o crédito gratuito e os juros terminavam. As classes sociais perdiam o lugar.

Mickhail Bakunine, outro teorista do anarquismo, era um revolucionário russo que se opôs ao Marxismo e que participou, em Paris e em Praga, nas revoluções de 1848. A ele junta-se o príncipe Piotr Kropotkine de Moscovo, um outro teórico do anarquismo e revolucionário que contem entre as suas publicações “Palavras de um Revoltado” de 1885, “A Conquista do Pão” de 1888 e “A Anarquia, Sua Filosofia, Seu Ideal”, de 1896.

Em 1845, o alemão Kasper Stirner publica “Der Einzige und sein Eizentum”, que faz dele, filosofo anarquista radical, o percursor do existencialismo ateu.

Em 1921, Kronstadt, dá-se a insurreição de marinheiros e operários contra o governo soviético. Em 1936, a guerra civil de Espanha, durante a qual Buenaventura Durruti, um anarquista de Madrid organizou a Coluna Durruti que procurou libertar Saragoça contra os franquistas. Morre na defesa de Madrid. Mas aqui o anarquismo foi suprimido pelo comunismo a partir de 1937.

Oliveira Martins, um publicista português, traz a influencia de Proudhon (“O Socialismo na Monarquia” – 1945), unido a Antero de Quental, Pedro de Amorim Vieira (“Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé” – 1866); Lopes de Mendonça e Francisco Maria de Sousa Brandão, que contribuiu para o “Eco Operário”.

Em Portugal, toda a divulgação foi abolida em 1927, surgindo alguns agrupamentos políticos novamente após o 25 de Abril.
Ainda em português, mas no Brasil, encontramos José Rodrigues Leite e Oiticica, tendo estado preso por ser partidário desta doutrina politica. Entre as suas obras podemos encontrar “Sonetos” (1911 – 1919) e “Princípios e Fins do Programa-Anarquista” (1919).




Monarquia

Monos – Só
Arakhein – Comandar

A monarquia é o mais antigo dos sistemas políticos.
Originalmente, o monarca era um deus por direito, elegido pela Divindade, numa monarquia absoluta. A partir da Idade Média o Rei, influenciado pelo ideal cristão, passava a ser aquele sagrado e ungido com a seguinte missão por deus herdada: proteger a Igreja, exercer a Justiça, instalar a Paz no Reino. Mais tarde, Filipe IV, o Belo, opõe-se firmemente ao Papa Bonifácio VIII, em 1301 o Rei acusa o Bispo Pamiers de traição e o mesmo é encarcerado. Pela sua mão, muitos dos principais chefes dos templários foram queimados em 1310 e 1314.

Na época moderna veio à luz a monarquia parlamentar, em que os poderes do Rei se encontram condicionados a uma assembleia eleita, no caso da Inglaterra. No caso da França, o Rei, apesar da monarquia absoluta, encontrava-se submetido às “leis do Reino”.

Hoje em dia, porém, a inspiração liberal deixou os reis com direitos extremamente reduzidos, sendo que os republicanos levaram a monarquia, na maior parte dos casos, ao desaparecimento. Foi fora da Europa, como por exemplo Marrocos, que a monarquia preservou os seus aspectos tradicionais.

A Monarquia do Norte:
Foi uma revolução dada após a morte do presidente Sidónio Pais, há apenas 91 anos, em que os monárquicos proclamaram a monarquia no Porto a comando de Paiva Couceiro. Cerca de um mês depois, a Monarquia do Norte findava às mãos de uma contra-revolução republicana.

Há apenas 29 anos o Partido Popular Monárquico elegeu cinco e seis deputados, tendo ocupado cargos governativos.

A aristocracia vem de aristos (excelente) e kratos (poderio), representa a nobreza, homens exímios em sabedoria e justiça, é uma elite de talento que foi reduzida a moedas, notas, um último nome e um brasão constantemente desonrado.

Sugiro vivamente esta leitura dos valores monárquicos por Manuel Abranches de Soveral.



De resto, uso-me das palavras de D.H. Lawrence:

"Temos uma vasta população industrial que tem de ser alimentada, portanto a maquina tem de continuar a trabalhar, custe o que custar. (...) Os homens não tem energia, sentem-se como que perseguidos, mas não reagem. De resto, nenhum saberia o que fazer, embora todos falem. Os jovens queixam-se de não ter dinheiro para gastar. A vida deles depende exclusivamente do dinheiro, e não o têm. Na nossa civilização, e devido à nossa educação, a massa depende inteiramente do dinheiro que pode gastar, e agora há pouco. (...) As mulheres estão desesperadas, mas também são as que gostam de gastar dinheiro.
Se ao menos fosse possível explicar-lhes que viver e gastar dinheiro não significa o mesmo! Mas não vale a pena. (...) Se os homens usassem calças vermelhas, como eu costumo dizer, não pensariam tanto no dinheiro. Podiam dançar e saltar e cantar, pavonear-se, ser elegantes e precisariam de pouco dinheiro. E poderiam divertir as mulheres e as mulheres poderiam diverti-los. (...) Esta é a única solução para o problema industrial: treinar as pessoas para conseguirem viver, e viver bem, sem necessidade de gastar. Mas é impossível. Hoje em dia as pessoas são limitadas, e a grande massa nem mesmo procura pensar, porque não sabe: devia ser viva e alegre e adorar o deus , que é o grande deus das massas. A elite pode ter outros cultos, mas seria melhor que fossem pagãs.
Mas os mineiros não são pagãos, muito longe disso. São uma gente triste, morta, morta para o amor, para a vida. Os mais jovens andam com as raparigas nas motos e vão dançar jazz quando podem. Mas estão mortos por dentro. Para tudo precisam de dinheiro, e o dinheiro envenena quando se tem e quando não se tem. (...)
Aproximam-se maus dias. Se as coisas continuam assim, no futuro só nos resta a morte e a destruição das massas (...) (Mas) Todas as calamidades que assolaram o mundo jamais conseguiram apagar os corações (...)."