segunda-feira, 20 de julho de 2009

Diálogo Atrás da Membrana

Francesco Clemente



O menino
"Sibila ó monte de Luz"

A menina
"Habita a Morte! Vive!"

O menino
"A Luz do Mundo a seus pés; a sua Coroa: a Luz do Mundo; o seu Coração: um Globo de Trevas ferido em vermelho."

A menina
"O teu sangue na luz sem eco."

O menino
"Eu sou o animal da boca quebrada, e do orifício de mim um Universo."

A menina
"Eu sou este, que criou, sem egoísmo, o que é seu."

O menino
"Eu sou este, que escapou da morte e do sufoco."

A menina
"Silêncio é o meu feitiço."

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fornalha

Chisai Benjo, Takahashi Kaito



Nos recantos da Lua arde a floresta. As criaturas vis, os rastejantes, os que caminham o lodo, os que se escondem nas grutas, e as bestas que não conhecem nome, são eternas, e reconhecem-No quando os arbustos se incendeiam e morrem, imortais, com o fogo da vida. As sombras tremem e escapam sem demora, porque as testemunhas são os seus lampiões. Da resina dos arbustos solta-se o perfume do Celeste, o Inexistente é invadido de uma recordação perene, veste ossos de sonho e emerge da terra negra e verde.




Perfume a Mar Vazio, Horned Wolf

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Santistuto

Adagio de Kris kuksi, 2002



Hoje consegui expandir os meus horizontes, descobri, junto à larga e envernizada porta da entrada do Santuário, um homem de casaco cinzento e cinzentas as roupas, que toca accordion incansavelmente. Falta-lhe uma orelha, na qual usa gesso, e tem um violino, com a sua caixa, aos pés amarrotados, para onde ninguém deita moedas nem notas. As notas e as moedas não são parte do Santuário, mas as pessoas continuam a mover-se à imagem da sua existência. À medida que toca parecem existir rachas nas paredes que mudam de direcção e dançam formas, mas eu creio que estas rachas são uma ilusão óptica do próprio som. Perto da caixa do violino, estão pedaços de jornal rasgados, talvez para lembrar o dinheiro em papel, e está um cacho de bananas. Por vezes, a ladeira do outro lado da porta, abre-se, e a face de um pequeno macaco com sinos, espreita de olhar tanto curioso como amplo e vazio. Encontrei também, na retaguarda da quinta, a lixeira, onde habitam inclusive as prostitutas, embora seja difícil distingui-las excepto pelas formas das latas. Ai, podem encontrar-se, nas laterais, urnas e pequenos caixões – provavelmente de crianças. No portão de entrada, todo ele de latão, uma caneca grande de cerveja, sempre cheia.

Podem encontrar-se palmeiras, depois do rico e imponente portão de saída do Santuário, formam um corredor e de um lado do corredor, campos de milho, do outro, a casa dos escravos. Por vezes, os aristocratas de chapéus-de-chuva e bigodes espiralados, vão confessar-se aos escravos. No caso do escravo retorquir, é mandado açoitar por outro escravo e eles observam atentamente o menear dos rabos como se de eclipses se tratassem. Em muitas ocasiões, se a sessão for longa, podem ser vistos frutos a amadurecer e a escorregarem dos rabos para o solo.

Depois de eu mesmo me quedar para ver este evento, e ao retornar para o meu quarto, a senhora de branco, que gemia num dos cantos dos ângulos, deu-me a mão despida, o pulso fino. A minha pele roçou a dela. Logo a mordi violentamente e sangrei longamente.

Nas paredes do meu quarto, uma das árvores está a despir-se ao espelho e a escrever uma carta para alguém muito longe.



A Sea of People, Horned Wolf, 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Discurso de Bab'El


Horned Wolf, Discurso de Bab'EL



"A Confusão das Línguas" por Gustave Doré (1865)

domingo, 5 de julho de 2009

Vila Final

Orangotango de Sumatra - Autor Desconhecido




Ela têm um pesadelo que é meu.

Passo as horas ali, no final da vila, numa fabrica abandonada, encostado à árvore que está no final do mundo e que estala de Noite com tecidos oraculares. Ás vezes passam pessoas, com cães, no escuro, e com cães escuros. Estou na bruma, sinto-me invisível porque sou um fantasma. Tenho cada vez mais a certeza. Mesmo quando me olham como se eu fosse um louco, percebo que ninguém nunca mais me porá a vista em cima. A não ser ao jeito de assombração. Os tijolos singelos e abandonados, encosto-me todo a eles. Assobiam, ocos, ao vento. Sou todo eles. A lua é uma ferida de luz no meu sono, e assim são os meus sonhos.

A solidão somos nós, e somos nós todos vistos do meu corpo.

As vossas presenças são como pedras, mudas, frias, arremessadas contra o meu corpo imortal, como árvores que morrem e que nunca serão derrubadas. Como mundos de florestas que morrem e que nunca serão derrubadas. Onde só os deuses dançam, horrorizados de tão fantasmagóricos.

A luz verde e que é uma doença e que é como se fosse o amarelo da febre talvez.

Estou tão cansado. Pálido. Existem rugas em mim esta noite. Visíveis. Só as rugas são visíveis, eu sou leve e transparente.

Porque não vieste? Não queria ter vivido para sempre.

Perto das linhas finais, alguém me pergunta alguma coisa sobre anjos. Só respondo quando me perguntam as coisas dos anjos.

Teço uma resposta e acabo, antes de me meter no comboio e ser consumido pelas lâmpadas confusas.

domingo, 28 de junho de 2009

A Metade Devorada V






Era um dia especial porque eu podia brilhar sem ninguém ver: ser mais genuíno. A nossa estética arquitectura portuguesa sempre foi amante de um futurismo transcendente. E até àquele dia eu nunca tinha reparado em ti, que não vias as mesmas luzes que eu, no céu. Escolhíamos roupa e eu não reparava em ti, lá fora reparava em ti, tu não vias as pequenas faíscas que escapavam do Sol e desciam como mil peixes incandescentes para inundar a terra. Tu não o vias, eu testemunhava-o sozinho. Era já um rapaz feito, mas só então percebi.


Eu amo, e depois, morro, e quando amo morro, e quando morro amo.


Todas aquelas coisas que não eram nada, insolentes insubordinações que se afastavam do círculo e criavam outros círculos: como se pretendessem o absurdo de se existir por fora, tal se eu não contivesse tudo. E engolindo um milhão de estrelas pousei nos seus crepúsculos. Nunca existiu isto, fora do corpo mineral: Um exercito de sapos que coaxavam e pulavam de lugar em lugar. Arrastava-os para mim, as suas fantasias mais secretas, os seus combates, as paixões, e todas essas extraviações de uma anomalia extra-terrestre intitulada de pensamentos, de pluralidades charlatãs.


Todos os dias eu nascia no Sol, para me lembrar.


Eu amava-te. Tanto quanto te amo. É quase pena o que não pudémos contar. E é quase pena os anos de silêncio, por uma recordação serena, uma recordação quase só do coração.
Era de noite quando as estrelas caíram. Era de noite quando Deus se lembrou de queimar os homens. Eu fiquei contigo no pontão, quase debaixo da Ponte Vasco da Gama, e tinha escrito na madeira, para ti; apenas o rio e os olhares e os gestos com brisas de cabelo, diziam mais: ainda era de dia para nós, e não sabíamos que o nosso amor não era a única forma de se morrer e de se escapar da morte.


Devido ao Olho.
Fui cinzas, marés inteiras de cinzas.
Fui cinzas e fui Olho.
A tua mão, tão perto da minha…
Tocávamos-nos enquanto fazíamos muita força com os corações, mas ainda existíamos, mas o mundo ainda se encontrava colado a nós. As pessoas tinham o peso de sombras. Nós éramos o centro gravitacional. E não sabíamos, não sabíamos que éramos engolidos para sempre, gradualmente e copiosamente, engolidos para sempre.





Eu só sabia que éramos dois quando iniciávamos o rito de amor. Deve ter sido ali, que alguma forma alienígena a tudo o que éramos entrou em nós para crescer às escuras, se vingar de sermos como éramos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Macaco Amestrado





A cultura, as tradições, são feitas passar essencialmente pelo bem-poético, como eu lhe chamo, e assim tem sido ao longo dos tempos por mais mãos à palmatória que tenham existido. O “capital” desse bem é a inspiração.

“Educação de Direita”, e falta dizer educação em que sentido. Como a maior parte de propaganda de direita, o texto mostra conceitos que fascinam os perdidos num mundo perdido, não os pondo todavia em prática ou nem sequer os conhecendo.

Uma falácia encontra-se neste artigo, que se baseia em dois temas:
A Liberdade, A Educação (educar + acção, teoria e a prática dessa teoria). É claro que parte da liberdade está em saber tomar decisões conscientemente, para tal, necessita-se de informação e de inteligência. Para adquirir informação é necessária uma mente aberta, vulneravel, para adquirir inteligência um raciocinio forte, uma boa resolução das equações relacionadas com os limites e uma limpidez incorruptivel posta em prática. Nenhuma destas coisas vai de encontro ao que o artigo menciona, nem da forma como o menciona. O mesmo será dizer que o macaco amestrado é o macaco livre. A educação do homem integro e inteiro provem da liberdade, a liberdade do homem escravo provem da educação imposta.

A cultura provém das liberdades, e toda a educação sã se baseia nesse ideal, porque a vida e a liberdade se baseiam na mesma alma, uma cultura proveniente das opressões (e por opressão não a igualizo a esse bem que é a disciplina) é uma cultura indesejada.



Resposta a Boulevard das Ideias

terça-feira, 16 de junho de 2009

Felicidade


O espectáculo acabou, as cortinas fecharam-se e agora ninguém nos escuta quando rimos sozinhos. Nunca contei a ninguém se ela se tranca, se ela fica trancada na casa de banho a dar-se prazer, se me fecha no exterior. A multidão na rua caminha devagar embora esteja a chover torrencialmente. Eu estou parado e as pingas não me tocam. A multidão na rua é toda de amantes, agarram-se na chuva a tentar prender tudo aquilo que nunca será deles. Ouvi dizer que está frio. Deve ser devido a estas e a outras coisas. Não há nada para ver aqui, as cortinas cerradas. Tudo o que está fresco já passou de prazo. Os seus gemidos na casa de banho dizem que sou um mau rapaz. Os amantes apertam a dor, não vá tudo o resto escapar. E ninguém percebeu a felicidade. Lembram-se dela ao jeito de anedota, se ninguém os vê, e riem-se em sussurro.

sábado, 13 de junho de 2009

The Death of Knowledge



Modelo: Lady Alexiel
Foto Original: Nanashi

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Placas do Jardim


Giordano Bruno por Ettore Ferrari





I

O Sol aquece a Terra. Assim existe vento, chuva, e chama.

O Amor aquece o Amante. Assim existem suspiros, pranto, e chama.

Destapar o coração ardente, é vencer os deuses e o homem. Não existe outra arma, e nenhuma outra muralha além dos raios do Astro.

Esplendor é a agua que se precipita contra a Flama, e causa o Cristal, a Pedra.



II


De Luzes Gémeas, dedica a vista a tudo o que é Superior.

Oferece-lhe tudo o que seja igual ou inferior a ti.



III

O labor da Inteligência dá-se na quietitude e no repouso, não no trabalho movimentado.

Assim o labor do Amor é pacifico, apesar de de si, se gerar o movimento.



IV

O lado negro da Lua é sempre o lado de quem a olha. O lado luminoso da Lua é sempre o lado de quem a contempla.



V

O Amante perfeito reflecte-se no carvalho que não treme. Não no carvalho que dobra sem partir.

O desejo sem a dor é o mais alto afecto do homem.



VI

"Chegando ao ultimo e ao dia mais feliz da nossa vida, planeamos para esse dia paz, saude e tranquilidade de espírito; porque não obstante quanto, por um lado, a maior dor nos atormentou com obstáculos, esse tormento, por outro lado, tornou-se completamente absorvido pelo prazer que tomamos nas nossas criações e na consideração dos nossos fins."

Epicuro, traduzido por mim



VII

Os escolares de Sócrates podiam subornar os guardas prisionais, porém Sócrates não queria temer a Morte, porque nenhum filósofo teme a Morte: O ultimo favor de Asclepius.



VIII

O coração, tornado na maçã dourada, deve ser oferecido a nada que ultrapasse outro objecto em especifico, mas àquilo que é, em todas as coisas, infinito.

Da mesma forma, aquele que se esconde nas caves deve ser resgatado para o peito, para que suspire de amor e cause o caos e a tempestade em todos os quatro cantos do mundo. Depois, a luz, fará que seja tranquilo, a escuridão dar-lhe-á nobreza.

O peito é a habitação da beleza e da bondade. E assim são os seios da amante e da mãe, que origina a natureza em estado puro do intelecto e da razão.

As tempestades nos quatro cantos do mundo serão murmúrios de amor, e a inocência o punhal que rasga a mortalha do coração ardente.



IX

Nenhum Raio do Astro é real, excepto se desperta o desejo juntamente com a ideia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Metade Devorada IV





Nós riamos-nos da minúscula criatura canina, porque uma força estranha à sua natureza e à sua constituição o voltava contra a cauda magoando-lhe a coluna, e o lançava num reboliço de tentar caminhar e se confundir por só dar voltas sobre si mesmo. Depois a alva nervura do olho, manchada de um vermelho lustro, e não haviam nele órbitas vazias, havia carne papuda e sangue jorrado, o vulto em tremura, como se risse. Nós riamos-nos. E ele era uma mancha pisada, contra o solo movediço de intransponível: à espera, em todos os passos: a voz da morte. Por isso riamos-nos e tomávamos brindes amaldiçoados, construíamos enredos de vida em seu nome, para diverti-la. O meu corpo encarquilhado, ilusório, observador do ilusionista. A morte dizia: conhecimento. Depois eu era o cão, em todos os tempos para os quais procurasse escapar, procurava correr, confuso, por voltas sobre mim mesmo sempre que apontava para algum sítio. Haviam duendes de faces desfiguradas, e riam-se muito. A ultima palavra.


Todas.

Um vagabundo. Um homem cuja metade devorada criava asas de traças em humidades nauseantes. Mil asas pequeninas de um eclipse psicadélico e de um estrondoso mar em comoção. Abismos do espaço e do tempo. O vagabundo não se interessava, a sua face suja era límpida demais para incógnitas, e por isso era inconcebível. A metade devorada ostentava tentáculos microscópicos de carne cortada, e abraçava todas as coisas com um sufoco e uma avidez sobrenatural.


Antinomianismo: contrariar a corrente de decadência para a qual a criação, deixada a si mesma, tende a escorrer. Que estes sejam ferreiros, quer dizer que são capazes de moldar o mundo através do fogo.

Com luz de ave azul, de ave que caminha nos meandros dos espaços inatingíveis entre as estrelas, emanando sonhos e redemoinhos de renovações invisíveis, ela perscrutava os meus olhos, como se os seus tocassem e explodissem violeta, e quando me apanhava a alma, ia dizendo: “as árvores em que se abriga são o isolamento, mas as palavras que ele não encontra, e que procura, são ele”.
Eu quedava-me em litania: a poesia é feita à imagem do leitor. Deus lê-nos, nós escrevemos. E estamos muito sós, a flutuar e a atravessar muitos olhos, túneis que desembocam em túneis que em túneis vão desembocar. Eu olhava os olhos extraídos das órbitas pela pressão, as janelas abandonadas desde o inicio, daquele frágil cão inutilizado pelo fim. E risos, a sair de bocas ocas em bocas ocas. Torrentes. A tua mão calorífica? Meu anjo? Gratidão.
Depois, aquela parte que não estava devorada arrastava-se pelas linhas de ferro, e vagabundeava sem realeza vagabunda: apanhava os restos que se dividiam em restos que se dividiam em restos: a parte comida era a parte deixada por comer: ser-se devorado.


Reflexos, a sala escura, e o espectáculo de ilusionismo, eram agora um iluminado labirinto de espelhos cristalinos e incorpóreos. Havia glória no canto dos coros, estendida na distância até tudo se tornar distância: os fantasmas desistiam e voltavam aos seus abrigos de esquecimento.

O meu corpo encarquilhado, a crescer contra si mesmo enquanto mirrava, inquebrável porque estático, impossível de derrubar, a observar. O ilusionista era o seu predilecto truque.




sábado, 23 de maio de 2009

GÓTICO - Subcultura ou Género Musical?




Resposta meio abrutalhada num debate em que os góticos dos velhos tempos atacavam os góticos das novas gerações, porque gostavam de gothic metal e não pertenciam, por conseguinte, à subcultura. Os góticos da nova geração não sabiam como responder a isso e ficavam confusos:

A diferença do punk do qual descendeu o gótico do gótico é que o gótico é menos cru, sim, começa a introduzir o órgão e as letras são muitas vezes introspectivas e até depressivas. Existe uma maior sensibilidade poética, uma ligação no que respeita as letras ao romantismo, ao mórbido, e ao sobrenatural. Muitas vezes a voz é dramática e profunda.

Do rock gótico surge a subcultura, é certo, e a subcultura já não era, somente, um movimento musical. Foi incluindo moda, os bares, literatura, pintura, filosofia, banda desenhada e até jardinagem; os sobreviventes do movimento estético do rock gótico criaram para si mesmos o que se chama disso mesmo, uma cultura, um mundo próprio. Só aqui é que se torna numa subcultura digna desse nome (e até hoje ainda não uma contra-cultura, por causa do niilismo inerente a limita-lo em termos de crenças politicas e soluções concretas para o mundo).

Dentro da subcultura estava um revivalismo da literatura gótica, ou melhor, o rock gótico desde o seu começo é que aspirava a este revivalismo em primeiro lugar, que combinava o horror e o romance, uma rejeição das doutrinas pre-estabelecidas e um mergulho do intelecto na obscuridade, que se lançava no seu modo aos novos descobrimentos (o mundo era desconhecido e cheio de peripécias sobrenaturais e bizarras). A figura da autoridade e do dogma é nesta literatura (como os condes e os sacerdotes) vista como maléfica e assustadora, ruínas (as ruínas do que consideravam o velho mundo, ruínas nas quais viviam), etc. As criações humanas decaiam e morriam. E para ilustrar como era temível a autoridade, mostravam um mundo medieval que tão bem foi marcado pelas tiranias da fé e do dogma. A beleza também começa a ser olhada com um misto de admiração e suspeita, a mulher é fatal, a loucura um mistério a penetrar (Freud descobre que o homem tem uma besta no seu interior, coincidente com a imagem artística dos lobisomens - libido, etc), e ergue-se uma bandeira contra o catolicismo (coisa dos protestantes). Em suma, esta literatura do século dezoito intitulada de “literatura gótica” vai inserir o fantástico em elementos do realismo que marcava afincadamente a época (esta escola, tal como o gothic rock, também começou na Inglaterra, e espalhou-se para França e para a Alemanha, que de resto é a mãe do Romantismo, que contribuiu para o género gótico). Ah, a androginia que vês vem da época vitoriana, que passou a chamar a essa literatura de gothick (com o “k”), que adoravam a imaginação fantástica da arquitectura gótica. E para não deixar que o movimento aqui morresse, vai Poe beber a Ann Radcliffe e ao romantismo de Byron (tal como contemporaneamente o senhor Burton bebe de Poe). O movimento literário continua por ai fora até ao Bram Stoker, no século vinte já aparece sob a forma de Lovecraft (entre outros).

É claro que a literatura influencia o cinema, e o cinema copia a literatura, e antes das bandas góticas já existia uma vivência da literatura gótica no cinema. Não foi apenas o rock gótico a manifestar a literatura gótica (alias em todos estes géneros teve muita influencia Black Sabbath), mas por exemplo King Diamond, do Heavy Metal, ou sim, vários grupos do Métal Gótico (e se o metal gótico não é gótico então o rock gótico também não seria gótico) e várias outras bandas que se tornou cliché para um gó estar contra - porque se o pessoal no geral gosta temos de estar contra ou então ficamos menos gós, mas não interessa erudição, acusar os outros de estar na moda chega - )

Esta literatura tem influencias fortes do período estilístico e filosófico barroco, que retrata um jogo de poder entre o divino e o humano, e o efeito da ilusão, e a arquitectura gótica expressa isso mesmo, pela própria mente construíam catedrais altas o suficiente para chegar ao céu - uma torre de babel - (já a pintura gótica mostrava pessoas de rostos voltados para o céu, como os românticos olhavam para o infinito - e os principais pintores da pintura gótica iniciam a pintura do renascimento, em que a ciência, a matéria e o sobrenatural são um e o infinito rompe pelo finito), pelos vitrais do homem a luz natural entrava e tornava-se sobrenatural.

Poderia escrever um livro sobre isto tudo, mas vou abreviar e dizer que gótico não é o artigo que compramos, seja este um CD, um filme, um livro, gótico é uma qualidade que pode estar ou não inserida no artigo, e a mesma coisa vale para pessoas. Um CD de Gothic Metal não é um CD de Gothic Rock, isso é absurdo. Mas podem ser, ambos, cds que se incorporem na subcultura gótica que, acima de tudo, voltada para si mesma como os iluministas, vê fundir-se a angustia da morte latente no homem como criatura solitária - despida de um deus -, no corpo e nas coisas da terra, com o sentimento do sublime, da noite das coisas que acaba por o despir de pátria e roupagem e o entrega às fúrias da criatividade errante que vive da fusão desses dois opostos - o sublime e a angustia.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Política






Anarquismo

Como doutrina politica pretende eliminar o estado e emancipar o sujeito social, a meta è a felicidade inerente a qualquer um pela liberdade.
Preceitos:
. As instituições são más, o indivíduo é bom.
. A vontade e a razão de cada membro de uma sociedade è a ordem e a harmonia da mesma.

Ironicamente, o primeiro teorista do anarquismo foi um padre britânico de nome William Goldwin. Segue-se-lhe Pierre Joseph Proudhon, um socialista francês que tinha em 1840 publicada a sua obra “O que é a Propriedade?” A sua resposta “é o roubo”. “A Filosofia da Miséria” é publicada em 1846, este sugere uma grandiosa transformação nas unidades de produção pela troca livre de produtos entre as associações de trabalhadores. Instalava-se o crédito gratuito e os juros terminavam. As classes sociais perdiam o lugar.

Mickhail Bakunine, outro teorista do anarquismo, era um revolucionário russo que se opôs ao Marxismo e que participou, em Paris e em Praga, nas revoluções de 1848. A ele junta-se o príncipe Piotr Kropotkine de Moscovo, um outro teórico do anarquismo e revolucionário que contem entre as suas publicações “Palavras de um Revoltado” de 1885, “A Conquista do Pão” de 1888 e “A Anarquia, Sua Filosofia, Seu Ideal”, de 1896.

Em 1845, o alemão Kasper Stirner publica “Der Einzige und sein Eizentum”, que faz dele, filosofo anarquista radical, o percursor do existencialismo ateu.

Em 1921, Kronstadt, dá-se a insurreição de marinheiros e operários contra o governo soviético. Em 1936, a guerra civil de Espanha, durante a qual Buenaventura Durruti, um anarquista de Madrid organizou a Coluna Durruti que procurou libertar Saragoça contra os franquistas. Morre na defesa de Madrid. Mas aqui o anarquismo foi suprimido pelo comunismo a partir de 1937.

Oliveira Martins, um publicista português, traz a influencia de Proudhon (“O Socialismo na Monarquia” – 1945), unido a Antero de Quental, Pedro de Amorim Vieira (“Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé” – 1866); Lopes de Mendonça e Francisco Maria de Sousa Brandão, que contribuiu para o “Eco Operário”.

Em Portugal, toda a divulgação foi abolida em 1927, surgindo alguns agrupamentos políticos novamente após o 25 de Abril.
Ainda em português, mas no Brasil, encontramos José Rodrigues Leite e Oiticica, tendo estado preso por ser partidário desta doutrina politica. Entre as suas obras podemos encontrar “Sonetos” (1911 – 1919) e “Princípios e Fins do Programa-Anarquista” (1919).




Monarquia

Monos – Só
Arakhein – Comandar

A monarquia é o mais antigo dos sistemas políticos.
Originalmente, o monarca era um deus por direito, elegido pela Divindade, numa monarquia absoluta. A partir da Idade Média o Rei, influenciado pelo ideal cristão, passava a ser aquele sagrado e ungido com a seguinte missão por deus herdada: proteger a Igreja, exercer a Justiça, instalar a Paz no Reino. Mais tarde, Filipe IV, o Belo, opõe-se firmemente ao Papa Bonifácio VIII, em 1301 o Rei acusa o Bispo Pamiers de traição e o mesmo é encarcerado. Pela sua mão, muitos dos principais chefes dos templários foram queimados em 1310 e 1314.

Na época moderna veio à luz a monarquia parlamentar, em que os poderes do Rei se encontram condicionados a uma assembleia eleita, no caso da Inglaterra. No caso da França, o Rei, apesar da monarquia absoluta, encontrava-se submetido às “leis do Reino”.

Hoje em dia, porém, a inspiração liberal deixou os reis com direitos extremamente reduzidos, sendo que os republicanos levaram a monarquia, na maior parte dos casos, ao desaparecimento. Foi fora da Europa, como por exemplo Marrocos, que a monarquia preservou os seus aspectos tradicionais.

A Monarquia do Norte:
Foi uma revolução dada após a morte do presidente Sidónio Pais, há apenas 91 anos, em que os monárquicos proclamaram a monarquia no Porto a comando de Paiva Couceiro. Cerca de um mês depois, a Monarquia do Norte findava às mãos de uma contra-revolução republicana.

Há apenas 29 anos o Partido Popular Monárquico elegeu cinco e seis deputados, tendo ocupado cargos governativos.

A aristocracia vem de aristos (excelente) e kratos (poderio), representa a nobreza, homens exímios em sabedoria e justiça, é uma elite de talento que foi reduzida a moedas, notas, um último nome e um brasão constantemente desonrado.

Sugiro vivamente esta leitura dos valores monárquicos por Manuel Abranches de Soveral.



De resto, uso-me das palavras de D.H. Lawrence:

"Temos uma vasta população industrial que tem de ser alimentada, portanto a maquina tem de continuar a trabalhar, custe o que custar. (...) Os homens não tem energia, sentem-se como que perseguidos, mas não reagem. De resto, nenhum saberia o que fazer, embora todos falem. Os jovens queixam-se de não ter dinheiro para gastar. A vida deles depende exclusivamente do dinheiro, e não o têm. Na nossa civilização, e devido à nossa educação, a massa depende inteiramente do dinheiro que pode gastar, e agora há pouco. (...) As mulheres estão desesperadas, mas também são as que gostam de gastar dinheiro.
Se ao menos fosse possível explicar-lhes que viver e gastar dinheiro não significa o mesmo! Mas não vale a pena. (...) Se os homens usassem calças vermelhas, como eu costumo dizer, não pensariam tanto no dinheiro. Podiam dançar e saltar e cantar, pavonear-se, ser elegantes e precisariam de pouco dinheiro. E poderiam divertir as mulheres e as mulheres poderiam diverti-los. (...) Esta é a única solução para o problema industrial: treinar as pessoas para conseguirem viver, e viver bem, sem necessidade de gastar. Mas é impossível. Hoje em dia as pessoas são limitadas, e a grande massa nem mesmo procura pensar, porque não sabe: devia ser viva e alegre e adorar o deus , que é o grande deus das massas. A elite pode ter outros cultos, mas seria melhor que fossem pagãs.
Mas os mineiros não são pagãos, muito longe disso. São uma gente triste, morta, morta para o amor, para a vida. Os mais jovens andam com as raparigas nas motos e vão dançar jazz quando podem. Mas estão mortos por dentro. Para tudo precisam de dinheiro, e o dinheiro envenena quando se tem e quando não se tem. (...)
Aproximam-se maus dias. Se as coisas continuam assim, no futuro só nos resta a morte e a destruição das massas (...) (Mas) Todas as calamidades que assolaram o mundo jamais conseguiram apagar os corações (...)."

terça-feira, 12 de maio de 2009

Pantheology






Tudo brinca, e nada mais ha a dizer.

A natureza manifesta-se e a consciência acompanha-a.

As raizes das árvores afundam-se na terra, as estrelas estão altas, no céu, mas tanto as raizes das árvores como as raizes das estrelas são silêncio.

A morte não existe, em todas as ocasiões tudo está vivo.

Tudo é sexual, e todo o sexo de comum vontade é um sacramento e uma celebração da polaridade da existência (natureza e consciência).

Brinca, no jogo dos corpos nus e na tecelagem das vestes. Este o ritual, a prece, e a meditação.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Diablero

A arte de um diablero não é lembrar-se que a vertigem da alma o pode tornar em animal, mas esquecer-se, enquanto a vertigem dura, que foi homem e que poderá tornar a sê-lo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

The Passion of Fools

Na boca do meu sentimento
um milhão de anos é desterrado
pelo som articulado do teu nome
e a paralisia de tudo
- até da vida, -
é a minha peculiar forma
surda, de te gritar.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Retratos

Não sei ao certo a razão pela qual todos tomaram o meu sífilis, primeiro criado como uma criança no carinho do segredo, depois rasgando a membrana ao olho púb(l)ico, como uma pancada na consciência. Eu esperava actos de recriminação, não é a Sífilis doença para pervertidos? Mas não, a odiosa culpa, como se tivesse sido cada um deles a colocar as sementes de morte em mim. E como os odiei ai, com um tom sarcástico de indiferença, como se estivesse tudo bem. Mas os bastardos nem no que respeita o meu próprio processo de morte me concederam o dó da responsabilidade, como se eu fosse um produto dos seus actos moribundos. Actos moribundos com qualquer coisa de muito errada, a ausência do seu vírus mortal nos seus corpos.

Quando estava com alguém, não se falava de mais nada, como se a minha condição fosse um bom tema de conversa e falar sobre ele, e preocuparem-se muito, aliviasse as mazelas. Ah, e o desconforto com que o faziam, o pouco-à-vontade que a minha presença gerava. Divertia-me um pouco. É verdade. Só quando estava sozinho, à janela do meu apartamento, a olhar a lua, é que sorria tristemente. Gostava de estar de volta no campo, com as minhas primeiras aventuras a três. Ou mesmo, muito antes disso, de estar no barco para Tróia, a olhar a minha feiticeira ruiva sem que ela soubesse, ainda, quem eu era. O meu primeiro amor morreu era eu um adolescente, e eu não morri para ninguém porque quando morri, já não era para ninguém senão memória e fantasma.

Mas retomando o curso do dis-curso. Depois desse pouco à vontade começaram a surgir os ataques, os ataques… Como se com isto se protegessem da culpa que nem sequer possuíam. Que parvoíce. Um a um, fodi-lhes a vida. Eles tinham tanto a perder e eu só tinha o fim pela frente e eu queria sair com triunfo, sem que ninguém pusesse a mão na minha morte, no meu ser, no meu eu. E foi ai que me dediquei inteiramente às putas e ao sadomasoquismo. Sem perceber muito bem porque razão, foi ai que estoirei as minhas ultimas notas, nisso e em quartos de pensão para onde por sua vez nunca levei ninguém e onde nunca nenhuma mulher nem nenhum homem me tocou sexualmente, embora as moscas fodessem sobre mim enquanto eu tentava dormir e as baratas caíssem nos copos com agua riscados e as manchas de esperma e sangue de outras pessoas que não eu nem causadas por mim ainda se pudessem ver nos lençóis à luz clara da manhã. Não sei bem o que me levou a nunca mais voltar a casa. Mas um dia senti esse ímpeto, um pouco em reverso, sonhei que a casa ardia e, recordo-me pus-lhe fogo na noite seguinte. Agora, não havia como voltar, ninguém visitaria a minha casa para ver as minhas coisas depois de ido.

Tive saudades de algumas pessoas, família, amantes (só sentia nostalgia, no geral, das primeiras, as da juventude), mas invadia-me ainda mais o nojo que se colava à percepção desses. Às vezes não a conseguia justificar, à náusea, e… sentia-me enlouquecido, sem saber o que me guiava. Talvez a morte, talvez a própria Sífilis? Talvez todo o desgosto da vida e que até então escondera. E tudo isso a ser a mesma criatura monstruosa: eu, e eu em todos os nomes, em todas as pontes e em todas as mulheres nuas que coroei com o luar e cujos castelos derrubei com a minha lança de deus.

Acariciava as memórias e cuspia nas pessoas em si. Na minha mente, degolava cada personagem do palco da memória, quando depois das cortinas se fecharem, surgiam num todo, horríveis, com toda a beleza a ser veneno, arma única para a totalidade do fedor. Por fim, a minha ultima inimiga: a Sífilis, a comer-me que nem uma mãe porca. Curvado, apoiado em duas muletas e algum gesso, paguei, na gota última de dinheiro, o táxi e lá estava. Entre Gaia e o Porto. A ponte, noite funda. Já no rio, ninguém me apanharia.

Agora apetece-me rir. Foi tão fácil fugir e ninguém me apanhar. Haha.

Vocês que estão a ler-me, lembrem-se que são livres, vocês são livres porque ninguém está a olhar e nunca houve alguém a olhar.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Adão & Eva

Na figura do teu aconchego
a vontade da pele ser a tua pele.
Mesmo a morte, ha de pintar
no meu corpo, o rosto do mundo.

Os beijos que trocamos
gravam nomes.
O sangue que beijamos
inscreve palavras
nas lápides dos antepassados.

A manhã arranca os nossos pés,
colados juntos, à eternidade;
mas por mandamento da alma
um só vulto de amor
ergue as asas da imortalidade.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A Metade Devorada III

O primeiro tiro de caçadeira, abafando as coisas em mim como trovão que cega o céu, como o tambor de um deus que abraça e destrói: rio que se despista contra oceano. Não olhei para ele, porque o barulho era tremendo. Trémulo, peguei com toda a força que tinha no meu tambor de latão, como se fosse fazer as pessoas orgulharem-se.


"que o meu pai vai morrer"

Então naquele dia, como em todos os dias, a minha avó pegava em mim pelo braço, com o pulso forte que só as pessoas da sua idade possuem, e levava-me ao largo onde podia comprar coisas frescas dentro da fruta e das suas cores liquidas na boca. Às vezes eu ficava sentado à porta da mercearia, perto do mercado, e observava os meninos de rua com bicicletas e posturas de rua e palavras de rua e aspectos livres e aspectos oprimidos. Quando eu entrava ela fazia-me carregar um leite de pacote, depois uma peça de fruta, e comprava, a pensar em mim, vinho “Pegões” e sobremesas que vinham enroladas em papelão. Então, quando estava na fila:

“Por favor deixe-me passar é que o meu marido tem um cancro, está acamado em casa” e eu sorria, tão compreensivo como enjoado, como se houvesse regalias e prémios de quase-viuvez, ou qualquer coisa que se herda de alguém que não deixou, como se mesmo naquela cama, debilitado, ela o pudesse violar e violar o seu nome e cobrir de espinhos um coração invisível, à espera.



Ele batia no volante e expirava de cada vez que o carro parava porque havia outro carro na mesma rua, demasiado perto; porque os sinais também ficam vermelhos. “Calma…” dizia-lhe ela “ainda te dá um troço” e suspirava às escondidas. Centrava-me em ouvir o batimento que existia dentro do meu peito, como se fosse algo de concreto perante tudo o resto, esquecido que de cada lado existiam os meus irmãos. E pensava que ele não queria chegar atrasado ao inevitável.


como as paredes gigantes do hospital branco




de cabeças baixas, não falando porque nunca houve nada sobre o que se falar, e fingindo que na dor era solidariedade e que na dor não era um adeus mais definitivo que nunca




Então peguei nela, sempre forte, naqueles momentos, e a pretexto de a levar à casa de banho




como se fossem amuletos, eu com uma colecção de livros, de livros que diziam Swami Vivekananda, com capas lisas e de uma só cor, como se fossem mundos que suprimiam os outros mundos numa beleza nova, e ele dizia num quarto clarificado num aquecedor rotativo, do qual por vezes se queixava ou, não se queixando, tremia de frio procurando abafar mil gemidos que se amontoavam. E por vezes dizia que não conseguia engolir, ou arrotar. E outras vezes as suas pernas inchadas e brancas e roxas podiam estender-se ainda no sofá. E ele dizia do seu quarto: “O que é que eu vou fazer agora com eles?” e eu sabia as palavras dos assuntos, mas não sabia responder-lhe, não sabia falar com ele, nem quando, quase, me pedia no seu jeito rude. Não soube falar com ele quando os seus olhos estavam mortos e o seu corpo vivo e sem ver me chamou. Não soube falar com ele no dia em que sufocou e praguejou antes do fim das palavras.



rezamos pela alma que podia estar a partir, que estava a partir, apertou-me com força, e eu era uma luzente torre de força: “é o meu homem! É o meu homem! Meu companheiro! Meu marido! Meu irmão!” e eu a sentir os mil dardos das suas palavras que o feriam, que me feriam quando ela as dizia, penetrarem-na insuportáveis como pregos de ferrugem como buracos irreparáveis no coração.


Eles disseram que ele estava estático e amarelo. O meu tio, alto, corpulento e todo ele animado no seu estilo próprio e pachorrento tinha cara de bebé, e o seu choro era mais indefeso e abandonado do que o do mais pequeno bebé. Se eu soluçava, dizia sempre que era pelos outros. A mim, a morte não me havia de impressionar.



Eu pensava: talvez: como se ela não fosse ter a ultima palavra, como se a sua ultima palavra fosse: talvez: eu.



“Merda!”




Não soube porquê, da primeira vez que me chamou como se eu fosse um qualquer herói, e das outras vezes, porque nunca perguntava, sabia porque me habituava a não saber. E quando deixei a pequena carta no último momento antes do caixão ser completamente um caixão, brincava como quem suplicava que fosse sério, de explicar porque era o meu herói.

O último beijo do meu pai na rigidez daquele desprezível resto de tudo, foi veneno, foi eclipse, foi veneno, como a ultima pazada e as feições duras do coveiro num enterro pobre e desinteressante, como se nada fosse, porque era nada, como se fosse tudo. E invadido por coisas que não pude dominar eu dizia que se chorava, era por ser a ultima vez. E a ultima vez, ali, foi como uma pedra basilar, foi como uma coisa completa, que cobria todas as outras coisas: coisas que foram, muitas, e que me tinha esquecido, coisas que seriam até eu ser esquecimento.


quando as pessoas negras me comprimentavam, eu nunca sabia quem eram


para pintar a casa, para plantar as muitas arvores das quais conhecia toda a ciência, para me falar da índia e dos seus sons e dos seus animais, esmurrar a mesa por causa de uma guerra ou uma tortura que eu não podia sequer imaginar e que tentava alcançar sem forças, porque sabia que o seu passado era o meu. Para guardar a casa, naquele dia turbulento, apoiado à caçadeira e quieto durante horas, coberto pela substância da noite e pelo fogo de céu azul dos seus olhos.






Sei-te como se não existisses fora da minha demência.
Como se existisse fora de mim: e a morte não apagasse de verdade.

domingo, 12 de abril de 2009

O Anarquismo na Nova Tecnologia (o surgimento do Cyberpunk)



"a consensual hallucination experienced daily by billions."


1. Neuromancer de William Gibson. O termo Cyberpunk provem da corrente de ficção científica que esta obra gerou.

2. Nos anos oitenta, ainda antes do Neuromancer, em 81, tínhamos a obra prima chamada de Blade Runner e que veio inspirar o Cyberpunk com igual pujança. Ate, uma década a seguir, o Extreminador 2, no seu conceito, e hoje em dia temos o Matrix! São os mais famosos.

3. A moda Cyberpunk é o desperdício de criatividade dos que poderiam ser cyberpunks, cujo físico e estética se encontra entre os mundos, no grande Totem chamado computador.

4. Um cyberpunk, anarquista infiltrado, depois de acabar a universidade plantava uma bomba-virus, quebrando as paredes dos quartéis do poder privado.

5. http://www.well.com/~hlr/vcbook/vcbookbiblio.html

6. O Ninjitsu já passou a historia, agora o novo "Modo Silencioso" é dos japoneses otakus.

7. Eu como sou gótico e atrasado, ainda sou amigo dos golemns e do Frankenstein, será que esta na altura de redefinir o Raio?

8. http://www.eff.org/

9. O Anjo é um Puer Aeternus de consciência idosa, e o Cyberpunk é um lógico que sofre do sindroma de Peter Pan. O erro de J. M. Barrie foi ter posto o pirata no lado errado.

10. Será o Social Engennering o futuro Grande Olho cuja luz descobre todos os vermes para todos os olhos? O Homo Veritas em convulsão no seu ovo.

11. http://www.planetanews.com/autor/MICHEL%20MAFFESOLI

12. Lenin definia a modernidade como a electricidade e as mentes soviéticas. Diga-se da pós modernidade "informatica e esoterismo"!

13. Tudo começou com os Phreaks, os piratas das linhas telefónicas, aqueles designados a roubar a tecnologia do controle estatal e do controle industrial como Prometeus deu a Chama ao homem. Os hackers são os phreaks dos computadores, e o Cyberpunk o movimento social e cultural do seu produto.

14. André Breton escreveu: «A vida verdadeira está ausente, já dizia Rimbaud. Este será o instante a não deixar passar para a reconquistar. Em todos os domínios, eu penso que será necessário aportar a esta busca toda audácia de que o homem seja capaz.» E Breton acrescenta: « Fé persistente no automatismo como sonda, esperança persistente na dialética (aquela de Heráclito, de Mestre Eckhart, de Hegel) para resolução das antinomias que desafiam o homem, reconhecimento do acaso objectivo como índice de reconciliação possível dos fins da natureza e dos fins do homem aos olhos deste último, vontade de incorporação permanente ao aparelho psíquico do humor negro que, a uma certa temperatura pode ter o papel de válvula, preparação da ordem prática a uma intervenção sobre a vida mítica, que, na maior escala, figura de limpeza. »

15. Michel Zeraffa tentou resumir assim a teoria de Breton : « O cosmos é um criptograma que contém um decriptador: o homem. »

16. Wiener, pai da cibernética, juntou a física probabilística, a filosofia e a neurologia num só. Ele falava de quantidade, hoje o Cyberpunk fala de qualidade.

17. Primeiro a informática era restrita a projectos militares, e primeiro era utilizada para estruturar e organizar. Depois de Wiener começou a revolução do microcomputador, a partir daqui o computador acessível ao indivíduo, então como instrumento intimo de lazer, depois, com a Deusa Internet... cada um de nós pode conquistar o mundo. A Mente é o Caduceu, o Computador o Espelho Mágico.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Interview with "The Papah Female"

"Desire to Ascend"
To taste the light
is the gift of darkness.

Picture from: Phallucifer Babalith
Credits to LuneBleu




Q: Hi Phallucifer, how are you doing today?

P. B. I’m just fine, thank you.

Q: I have some questions for you. Let’s start with your motivations, what are your major sources of inspiration?

P. B. It’s the same with “The Cathedral of Papah Female” album and the “Puscifer Baphomaat” gallery, on weekends I watch the pigs fighting in the mud, biting the trees and I meditate on men living on the city, then I focus on one particular man/woman-pig and I start the artwork process. The “Magickal Maa” music project deals with many different aspects, but I meditate on leaves rotting, they smell much better than human corpses.

Q: I gather that sex is a constant theme on your work. How do you deal with sex and the erotic?

P. B. I believe sex has become a bad thing, and people will always find many ways to face it, because they can’t run away from it. Most of the time they kneel to it and become raging animals. That is nature. Art is my nature. I don’t like women, and I don’t like men. In fact I pretty much hate them, I’d rather have myself filled up with a goat phallus. I deal with sex mostly through art, and I like to bite myself and to bite pretty girls in sensible places. Now as to what should have been happening, the church has a particle of sense and reason there, just as the pagans do, sex should be a celebration of

1 – Freedom

2 – Love

Sex is not a celebration of freedom nowadays, just look at all the bondagers, terrorized by their sex urges, crouched till they become insignificant pricks.

Sex is not a celebration of love nowadays, either, just look at all the couples: they don’t want children. To have a child is more than to bring unto the world another stupid beast, to have a child means the ultimate sacrifice, the one that claims and ascertains that love and care is above all the little caprices of the vile people.

I can satisfy myself with the dead because the dead represent the body surrendered to love, a corpse doesn’t look back, the eyes of a corpse are still, totally in the moment, surrendered.

Mortal men should only let go when in the arms of either Love, or Will, everything else must become tallness through resistance (sex is a great training ground for such a discipline). True anarchism has nothing to do with disorder and punk behaviour, but everything to do with resistance and integrity.


Q: And what about you?

P. B. I am not a mortal man, because I was never born, I was made up and am, therefore, similar to the metaphysical beings that populate the myths. I have no resistance because I am like a river, a creating and a creative force.


Q: I can understand that you have some influences from philosophy, literature and the esoteric sciences, who are your so called “masters” on this playground?

P. B. The problem with philosophy, literature and the esotericism is the self imposed questions, people shouldn’t question themselves, this divides them and makes them weak, it is an affirmation of self doubt. We, as individuals, are the answers, and we evolve by answering others. If we are to put questions, in order to exercise our intelligence, we should do so to others, to understand others. As soon as you fall from this bridge you are to think of dignity first, because your sense of dignity will be that same spot where you left yourself behind. Now stop making stupid questions, please, I have no masters, never will, and I worship everything.

Q: OK, the interview has come to an end. Thank you very much Phallucifer.

P.B. You are welcome. Good bye and may you all be raped by life.




* Algumas das músicas de Phallucifer Babalith podem ser ouvidas aqui.

** Entrevista feita por Horned Wolf.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Speech for Deaf Citizens

O mundo, sobre nós, agiganta-se.

E a nossa pequenez alastra-se.

A canção da manhã escapou-se através do nosso silêncio.

As ruas continuam, e as gentes que as populam, os risos ordinários.

Eu fui sepultado, na cova da tua boca.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Gothic Siamese




Lembram-se delas?
Sempre de mão dada, nunca eram vistas na rua sem ser juntas, e os vultos de mão dada.
Era nas ruas de Lisboa.
Quem falava no gótico falava sempre nelas, e lembrava-se dos seus beijos junto à fonte.
Ainda no tempo da vanguarda.
Será que hoje vivem?
Onde se terão os seus vultos escondido? E será que, seja em que abismo for, as mãos ainda caminham uma na outra?

De certeza que alguém se de lembrar, nas ruas de Lisboa, juntas, elas conquistaram o mundo inteiro, contra o mundo inteiro.



* Imagem de Jessica Walker

**
Cliquem para a primeira festa MOP de 2009, a acontecer amanhã.

terça-feira, 24 de março de 2009

Julius Evola




Para mim a integridade, existe naquele ponto em que os praticantes de artes marciais pressionam os músculos do plexo, e tomam consciência de todo o seu corpo. A Integridade tem de vir do centro, e de ser o centro.

Julius Evola foi uma das minhas maiores influencias no passado, mas esse senhor é dos esoteristas e dos escritores mais manipulativos que já li, quando parece estar a referir-se a uma virtude do espírito, está, na maioria das vezes, a encerrar o homem numa masmorra de grilhões bem preparada, cheia de ideias reforçadas, fascinantes e ofuscantes. Não é uma masmorra escura e aberta aos sentidos como alguns outros gostam de fazer. É uma masmorra cheia de luz artificial que se insere nos olhos como um vírus.

Existe algo de inabalavel de facto no espírito, mas a sua manifestação nos mundos inferiores efectua-se por via de férteis combinações de uma arte espiralica.

É, pelo que me parece a mim, contra as leis da aprendizagem a ideia fixa, e a fide ou a fé aos princípios morais quer do individuo, quer da sociedade, é trocar a Palavra pela palavra: um dom muito presente em Evola.

O problema de Evola é que vem a ser levado de uma forma demasiado politica, ética e moral, e a politica, a ética, e a moral, formas menores de influenciar (menos do que expressar e tocar por mérito do vislumbre espiritual), será sempre lixo agarrado aos ciclos, à mentira da horizontalidade, e à corrupção humana.


PS:
Esta critica afasta-se dos ultimos trabalhos de Julius Evola.
A comprovação de um mestre, que foi sempre mestre, está nos ultimos actos.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O Romantismo



"Death stands above me,
whispering low
I know not what into my ear;
Of His strange language all I know
is, there is not a word of fear."

Walter Savage Landor


1 - A valorização da manifestação individual; a capacidade do ser humano se ensinar e se construir a si próprio por intermédio da sua interacção consigo mesmo e com o mundo; e, porque procura ver no mundo uma extensão da sua alma.

(... A possibilidade de se fazer do mundo uma representação coerente não retira nada ao facto de o mundo tal como é em si mesmo não ser o mundo tal como se reflecte no espírito humano.... Nada pode, fora do próprio ser humano, decidir do que será a sua opção de homem ...
Kant)


2 - A auto-analise por via da emoção exprimida e levada a confessar-se em detrimento do recalcamento.
3 - A defesa da liberdade, da vida, do amor e da luz.
4 - A busca das origens e o combate à corrupção social a favor da pureza e do estado de inocencia humana.
5 - O respeito à infância, à nação, à tradição (que caracterizam o individualismo grupal e individual, e potencia a contribuição de cada sub-grupo num panorama mais generalizado).
6 - O Romantico é um teórico do irracional, exprimindo-o por via da ciência das letras, tendo presente o espirito literário, brindando a besta de inteligência e dando-lhe uma via de criação/recriação metódica.
7 - A insatisfação do indivíduo com o mundo que o circunda, a sua revolta contra a ordem estabelecida e estagnante, o caracter da sua rebelião social, politica e metafisica.

(... "Sobre a bandeira romântica, leu-se esta tripla divisa: liberdade política, religiosa e literária", escreveu F. R. de Toreinx em 1829; Goya considerava Satã o Deus do Romantismo)

8 - A materialização da tendencia vertiginosa em direcção ao infinito, ao outro, ao divino.
9 - O acto poético como êxtase derivado da inconsciência, a dissolução do ser no seu próprio mar primevo de esquecimento, abandono e criação, revelando novas realidades.
10 - A fertilização por parte do mundo exterior (chamado real) no interior (chamado de sonho) e do interior no exterior, revelando com naturalidade a impressão da alma na natureza, por via do mito.
11 - A valorização da dualidade espelhada na sua imagem unificada por via da arte: prazer/dor, beleza/horror.

(Novalis afirmava que a crueldade provem da volupia assim como a religiosidade, Hugo escreveu "A Morte e a Beleza são duas coisas profundas (...) Duas irmãs igualmente terríveis e fecundas")

12 - O gosto pelas enganadoras mascaras da forma, tão sedutoras no seu amor, implorando, em cada manifestação, serem tomadas pela Luz que nunca se afecta; brotando eclipses nos cegos.

"... o pintor evocará na paisagem o prolongamento da sua melancolia ou dos seus sonhos. Não se tratará realmente de um programa nem da observação directa de um sítio, mas da escolha de elementos eleitos em função do seu valor sentimental."

domingo, 22 de março de 2009

O Dever da Bondade

Anjo em brancos trajes,
Que absorvam estes lábios
A fragilidade na decadência.

sábado, 21 de março de 2009

A Fome das Hienas






“O estado, eu assim o digo, onde todos, os bons e os maus, são bebedores de veneno; o estado, onde todos, os bons e os maus, perdem a si mesmos; o estado, onde o suicídio lento de todos é chamado de ‘vida’. ”

“Sim, uma morte para muitos aqui foi tramada, uma que se glorifica e se honra como se vida fosse: deveras, é um serviço entusiástico para todos os pregadores da morte!”

“Rumo ao trono todos eles se esforçam: é sua loucura – como se a felicidade sentasse no trono! Frequentemente a imundície e a vileza sentam no trono – e, frequentemente também, o trono se assenta sobre a imundície e a vileza”

“Loucos eles todos me parecem, macacos em escalada, vorazes e repulsivos. Para mim, cheira muito mal o seu ídolo, o monstro gélido: cheiram mal eles todos, esses idólatras”.

- Friedrich Nietzsche



I

A O.T.O. passou por Carl Kellner, Reuss, e Crowley, o ultimo transferiu o cargo de O.H.O. a Germer e documentos a McMurtry para que este pudesse tomar a OTO em caso de emergência. Germer, na sua morte, não deixou descendentes. Em respeito às propriedades da OTO deixou-as em testamento à sua esposa, Sascha, e a Mellinger. McMurtry só foi avisado da morte de Germer anos mais tarde e sucedeu-se um grande atraso nos assuntos da liderança da Ordem. Metzger procurou então proclamar-se Outer Head, Mellinger, o seu mentor, não estava sequer ciente disto e a publicação de afirmação como O.H.O. de Metzger foi enviada a Wilfred Smith, que estava morto! Metzger não era aceite, Sascha tentou enviar os direitos de propriedade do seu falecido esposo ao ultimo mas estes foram bloqueados por Mellinger que denunciou Metzger como fraude. Metzger então ocupou-se com a Ordo Illuminatorum. Kenneth Grant também tentou a sua sorte, mas segundo ele a OTO já não concede graus cerimonialmente e abandona a Missa Gnóstica (a cerimonia principal). Quando McMurtry percebeu a situação assumiu-se como líder da O.T.O. tendo como testemunhas Israel Regardie e Gerald Yorke. Então começou a reconstruir a O.T.O. convidando os membros antigos sobreviventes. Entretanto, Marcelo Ramos Motta, sem legitimidade dada para ser Cabeça, decidiu que era o sucessor de Germer e, não fora sequer Iniciado formalmente na O.T.O., porém na A.:A.: Formou então um grupo da O.T.O. no seu país, o Brasil. Por fim decidiu processar Weiser (um publicante de Crowley) porque só ele tinha os direitos da O.T.O. Samuel Weiser ganhou em tribunal, e o Juiz nem sequer reconheceu a O.T.O. de Motta como legal. Mas o tribunal reconheceu a O.T.O. de McMurtry como a continuação legal da O.T.O. de Crowley. Em vez de nomear um sucessor McMurtry desejou que este fosse escolhido por votos e após a sua morte sucedeu a O.H.O. Hymenaeus Beta, presente ainda hoje.


II

No início, com Kellner, a entrada no círculo interior da O.T.O. tinha como pre-requesito graus altos na Franco-Maçonaria. Kellner e Reuss tornaram a O.T.O., pela implementação de certos ritos, independente da Maçonaria e, porque a O.T.O. praticamente era dos dois na morte de Kellner, Reuss liderou. Crowley, de seguida, cedo ganhou o Xº grau. E eis a disposição por graus na Ordem:

Segundo o manifesto M M M

O Minerval
I M.
II M..
III M∴
P∴M∴
IV Companion of the Holy Royal Arch of Enoch.
Prince of Jerusalem.
Knight of the East and of the West.
V Sovereign Prince of Rose Croix. (Knight of the Pelican and Eagle.)
Member of the Senate of Knight Hermetic Philosophers Knights of the Red Eagle.
VI Illustrious Knight (Templar) of the Order of Kadosch, and Companion of the Holy Graal.
Grand Inquisitor Commander, Member of the Grand Tribunal.
Prince of the Royal Secret.
VII Very Illustrious Sovereign Grand Inspector General.
Member of the Supreme Grand Council.
VIII Perfect Pontiff of the Illuminati.
IX Initiate of the Sanctuary of the Gnosis.
X Rex Summus Sanctissimus (Supreme and Most Holy King).

Segundo Oriflamme

I Prüfling [Probationer]
II Minerval
III Johannis-(Craft-) Freimauer [Craft Freemason]
IV Schottischer-(Andreas-) Mauer [Scottish Mason]
V Rose Croix-Mauer
VI Templer-Rosenkreuzer
VII Mystischer Templer
VIII Orientalisher Templer
IX Vollkommener Illuminat [Perfected Illuminatus]
X Supremus Rex

A pessoa que atingiu o décimo grau governa um sector, um pais, uma região ou um grupo linguístico e o O.H.O. governa a Ordem mundialmente. Porém, é natural que apenas os de grau Xº subam a O.H.O. por descendência. Só os Outer Heads é que podem conceder o grau Xº. Em 1915 Crowley começa a aborrecer-se com a O.T.O. e altera o sistema inteiro (a pedido de Reuss) em serviço a mensagem da Thelema. "It is impossible for free men to acknowledge any system which is bound up with the fetishes of savages whose only motive for action is the fear born of their ignorance." Nesta altura existia já outro grau Xº ao qual não é dada muita importância. Reuss governa, como cabeça Nacional, a Itália e Crowley a América (estava, na altura, a viver em Nova York) e eram os dois únicos como cabeças nacionais. Quando Reuss morre, Crowley afirma que nas suas ultimas cartas o mesmo deu sucessão a Crowley como O.H.O., mas esta carta nunca foi encontrada, assim como não foi encontrada carta alguma que indicasse qual o sucessor. De qualquer modo, numa espécie de votação Crowley serviu como O.H.O. desde aqui à sua morte.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Subvulvios






Conduziu-a à cama, para, assim embebida, sonhar, e, sabendo que ia sair o seu amante, Samanta segurou o braço que lhe pertencia. Ele segurou a sua mão. “Não antes de te ter, não desta vez. Se podes, deita-te a meu lado, só até que o sono venha.” E ele, não lhe largando as frágeis mãos, chamou pelo porteiro. Era um homem idoso, mas robusto, de longas barbas e óculos igualmente albinos, perfeitamente redondos. Vestia um casaco longo, castanho, e cinzentas calças largas, presas por uma correia ao casaco. Samanta estava nua, e Ornat pediu que, se agachando, ela afastasse as suas pernas, sorvendo, a sua jóia escarlate, o ar carregado da moradia. Antecipando o que viria, deixou a cabeça ao colo entre as pernas de Ornat e este ordenou ao porteiro que a penetrasse. O mesmo, causando a sua vagarosa erecção, sempre servil, obedeceu. Ela apertou as mãos e soltou um pequeno som, fragilizada por demais. “Se me amas realmente, com certeza saberás saber o meu sabor em todos os homens.” Largou os braços, que se suportaram na cama (como que pregados a uma qualquer cruz de tormento), e abandonou a casa.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Caminho da Liberdade




"I see you... I have observed you... For 1000 years, I have observed you!"

"Civilization, old and evil..."

"Does it always smell like this in here?... how does the wind get in here?"

Robert E. Howard



Eu louvo o capitalismo e a obediência cega
- Eu louvo o grande domador de cães selvagens

Eu louvo o pudor
- Eu louvo a força de proibir

Eu louvo o superficialismo, ele é um homem gordo de braços minusculos e sorriso de orelha a orelha
- Eu louvo os que sorriem porque estão a ser observados

Eu louvo a falta de palavra
- Eu louvo os homens de pistola na boca

Eu louvo a mente fechada
- Eu louvo os corações de jaula

Eu louvo o Estado
- Eu louvo os que protegem e servem

Eu louvo a estupidez e a deslealdade
- Eu louvo o sorridente e o distraido que usa como bainha de espada o seu amigo

Eu louvo a ignorância
- Eu louvo o homem atado de pernas e braços

Eu louvo a pequenez
- Porque ela é tudo no mundo

quarta-feira, 18 de março de 2009

A Metade Devorada II




Sentei-me, hoje, de noite escura, naquele sofá habitual constituído simples, por almofada de um sofá de verdade que estava rasgado e envolto de pelo de gato e que foi deposto mesmo ao lado do caixote de lixo na noite antes de aparecer o carro que o recolhe com tantos sons despertando o vazio das ruas do Penteado, uma aldeola entre duas vilas. Depois, outras almofadas que não me recordo de onde vieram, talvez trapos da minha avó, faziam o encosto e, como habitual, confortado por isto pus-me quieto dentro de tudo o que é inconfortável como se fosse conformismo. A música, a tocar baixinho, embalava tudo um pouco numa melancolia perene. Como se fosse preciso um suporte para, simplesmente, sentir. Como se fossemos tão débeis que precisássemos de suportes para sentir. Como se fossemos máquinas frias e fantasmagóricas, inconscientes dentro do vazio gélido do consciente. Pensei que queria desprezando. Pensei que talvez ela pudesse estar ao meu lado. Quem sabe a beijar-me. Pensei que, como em raros momentos, ela podia estar verdadeiramente comigo. Esses eram momentos irreais. Ninguém tem tempo, ninguém tem disponibilidade, por outras palavras, não há coragem para se estar de verdade com alguém. Olha-se por detrás do ombro, com os olhos cegos de gelados, em frente, planeando esculturas de pedra fria e sem expressão, olha-se para dentro para se contemplar a dor, para se agarrar à dor, para se suportar. Continua-se e fim. Ah, se o mundo fosse de um Divino mais vivo, quem sabe, ela pudesse ser mais vivamente aquela divindade de juba solar, vestes de sereia e corpo felino. Nesta divindade fantasmagórica que é, é aquela escultura de Inverno que está descontente mesmo consigo mesma, que se trocou por pedra e nunca ousou olhar ao corpo de fogo. Bonita, não obstante, quão bonita. Sincera, pura, serena, nos seus olhos brilhantes prados sem fim, feitos de paz. No seu sorriso que consigo causar rasga-se uma alegria inabalável ou insuportável e mostra-se a fulgurar. Enfim, pensei em como já dançavas longe porque nunca estiveste senão na imaginação, e o que não? Se existes és um corpo tão celestial e distante quanto uma nuvem bem bela e púrpura de serena, ou de pesadelo aglomerado. A minha mão chega às nuvens, a minha voz controla as nuvens. Tu, inatingível como uma nuvem, presa nas teias bailarinas de uma imaginação mais bela que a própria lua ou tudo o que tem luar. Que um próprio lago ou todos os nenúfares prateados pela noite em sonoridades gotejantes. Aparece. E apareces. E pereces. E imortal. Quantos foram os monstros que te atacaram? Quais os seus nomes? Tu não sabes, tu nunca lhes resgataste os nomes, que pena. Quem tem o nome tem o comando, tem o controle. Quem escreve e é esmagado pelas letras e encoleirado pelas frases escreve as próprias feridas e entrega a si mesmo o abismo indecifrável. Ah, mas tu, só sabes o hálito dessas vis criaturas sob o teu pescoço a aquecê-lo, a adoecer o sangue fermentado. Mas tu só cais e não sabes onde e te ausentas dormente para não sentir quando voltas a cair, sem parar nunca de cair em primeiro lugar. Cais quando te ergues e morres quando cais. Eu sei que o afecto ausente é como um terror presente no afecto, que não sentes, que não és.

Eu esqueci-me e voltei atrás, tu deste-me um livro e estávamos no Pinhal Novo. Tudo brilhava à excepção dos meus pais e da casa e da escuridão e da tua partida longínqua porém iminente. Eu escrevi esse livro e não sei quantas páginas tinha, ou se tinha dor que sei que também tinha mas sei a paz. Enfim, dane-se. Eu queria ver como seria tudo quando tudo estivesse destruído.



* Manipulação de Phallucifer Babalith

terça-feira, 17 de março de 2009

A Teoria do Mundo Infindo



“The ancient tradition that the world will be consumed in fire at the end of six thousand years is true, as I have heard from Hell.
For the cherub with his flaming sword is hereby commanded to leave his guard at tree of life; and when he does, the whole creation will be consumed, and appear infinite and holy, whereas it now appears finite & corrupt.
This will come to pass by an improvement of sensual enjoyment.
But first the notion that man has a body distinct from his soul is to be expunged; this I shall do by printing in the infernal method, by corrosives, which in Hell are salutary and medicinal, melting apparent surfaces away, and displaying the infinite which was hid.
If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite.
For man has closed himself up, till he sees all things thro' narrow chinks of his cavern.”

William Blake




A Noção do Infinito no Finito e a Indiferenciação de Todas as Coisas

Finito

A palavra Finito tem como definição: “completo”, “terminado” e “acabado”, sendo também no italiano, e não o dizemos em vão, sinónimo calão para “morto”.



Infinito

A noção de infinito teve início nas deambulações filosóficas dos gregos, sobre o espaço interminável e as multiplicidades sem fim de mundos, anteriores a Platão e a Aristóteles.
É no século quinto antes de Cristo que Zenão de Elea (discípulo de Paraménides e defensor do Uno) descobre, nos Paradoxos de Zenão, que se aplicarmos a continuidade a um movimento, e o conceito da infinita divisão, matematicamente, esse movimento, como uma unidade, nunca existiu.
O Paradoxo do Estádio diz-nos que, para se atingir uma meta, é necessário primeiro, a titulo de exemplo, atingir-se o ponto intermédio do seu cumprimento, e para se atingir este ponto intermédio, o ponto intermédio, assim sendo até ao infinito. Da mesma forma nos diz a matemática que, de o numero um ao numero dois, existem, depois da virgula, infinitos números, e para chegar ao numero um, ou ao numero dois, ou a qualquer outro numero, um infinito número de operações.
Esta teoria comprova a existência, pelo menos intelectual, do infinito, mas é rebatida quando tenta comprovar a inexistência do finito, ou do seu modo de aplicação. O finito não pode, e nisto o argumento é valido, integrar-se no infinito e permanecer finito, mas, pela divisibilidade, o infinito pode integrar-se no finito.

Isto não o souberam os gregos, e foi com o horror do movimento, o horror do infinito, e a degradação do número que as formas de pensar pitagóricas foram abandonadas e uma barreira separou os filósofos da realidade. Só com o renascimento viria o infinito a reaparecer.

ELP. Como é possível que o universo seja infinito?
FIL. Como é possível que o universo seja finito?
ELP. Julgam que se pode demonstrar essa infini¬dade?
FIL. Julgam que se pode demonstrar essa finidade ?
ELP. De que extensão falas?
FIL. E tu de que limites falas?
(Giordano Bruno, 1984, p. 27)

FIL. Em suma, indo directamente ao assunto, parece-me ridículo dizer-se que fora do céu está o nada, que o céu está em si próprio, localizado por acidente, e é lugar por acidente, idest com respeito às suas partes, E seja como for que se interprete o seu «por acidente», não se pode fugir a que se faça de um, dois; porque sempre é uma coisa o continente, e outra o conteúdo, e tanto assim é, que para ele próprio o continente é incorpóreo, e o conteúdo é corpo o continente é imóvel, o conteúdo móvel; o continente matemático, o conteúdo físico. Ora, seja essa superfície o que se quiser, nunca me cansarei de perguntar: o que é que está para além dela? Se se responde que está o nada, então direi ser o vácuo, o inane, e um tal vácuo, um tal inane que não tem limite nem qualquer termo ulterior, tendo porém limite e fim no lado de cá. É mais difícil imaginar isto que pensar ser o universo infinito e imenso, porque não podemos fugir ao vácuo se quisermos admitir o universo finito. Vejamos agora, se é possível que exista o tal espaço em que nada está. Neste espaço infinito encontra-se este universo (por acaso, ou por necessidade, ou providência, por enquanto não nos interessa). Pergunto se este espaço, que contém o mundo, tem maior faculdade de conter um mundo do que outro espaço qualquer, existente mais além.
(Bruno, 1984, p. 29-32)

FIL. Para a solução do que procuras resolver, deves primeiro considerar que, se o universo é infinito e imóvel, não há necessidade de procurar o seu motor. Segundo, que sendo infinitos os mundos nele contidos, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo principio interno que é a própria alma, como noutro lugar provámos; por isso é escusado andar a investigar o seu motor extrínseco. Terceiro, que estes corpos mundanos se movem na região etérea e não estão pendurados ou pregados a qualquer corpo, assim como esta terra, que sendo um deles, não está fixa em parte alguma; a qual demonstrámos girar à volta do próprio centro e em torno do sol, movida pelo instinto animal interno. Enunciadas tais advertências, segundo os nossos princípios, não somos obrigados a demonstrar o movimento activo, nem o passivo duma eficiência infinita, intensiva, pois que são infinitos o móvel e o motor, e a alma movente e o corpo movido concorrem num sujeito finito, isto é, em cada um dos ditos astros mundanos. Tanto assim, que o primeiro princípio não é o que move; mas, quieto e imóvel, proporciona o movimento a infinitos e inumeráveis mundos, grandes e pequenos animais postos na amplíssima região do universo, tendo cada um deles, segundo a condição da própria eficiência, a razão da mobilidade, mudança e outros acidentes.
(Bruno, 1984, p. 45-46)

E diz Galileu:
“Salviati: Se te perguntar quantos são os quadrados perfeitos, podes responder-me, sem mentir, que são tantos quantas as suas raízes quadradas; visto que todo o quadrado tem a sua raíz e que toda a raíz o seu quadrado, não há nenhum quadrado que tenha mais de uma raíz nem uma raíz que tenha mais de um quadrado.”
Simplício: O que há a decidir nesta situação?”
Salviati: Não vejo outra solução que não seja a de que todos os números são infinitos; que os quadrados são infinitos; e que a imensidão dos quadrados não é menor que a de todos os números, nem maior, e, em conclusão, que os atributos de igualdade, maior que e menor que, não têm lugar no infinito, mas só nas quantidades finitas.”

Mas Galileu pensou que, porque o infinito se comportava de forma diversa de tudo o resto, devia ser, a título da eficiência de cálculo e da ordenação intelectual do mundo, evitado, teoria simpatizada por Gauss, no século XIX:

“Protesto contra o uso de uma quantidade infinita como sendo uma entidade de facto; isto nunca é permitido em matemática. O infinito é só uma maneira de falar, na qual se fala correctamente de limites para os quais certas razões se aproximam tanto quanto desejarmos, ao passo que outras crescem sem limite.”




O Finito, o Infinito, e a Indiferenciação

A palavra porta, e o conceito que carrega, traduz-se numa definição finita. A porta é um objecto cuja utilidade é ora abrir passagem ora fechar passagem a um ou vários homens e mulheres, independentemente do material do qual é constituído (pode ser uma porta de madeira, de ferro, de aço, e.t.c.). Porém, o objecto em si, além da abordagem pela sua utilidade, terá, de si, limites? A porta não é sem as paredes e as divisões, assim o diríamos. Mas, imagine-se que se retirava uma porta de um quarto e suspendia-se a mesma no céu, sem paredes e divisões, permaneceria uma porta e, a sua utilidade a mesma, se a porta está fechada não se passa através dela (embora se possa contornar pelo céu) e se está aberta atravessa-se. Se retiramos o céu, a amplitude, as paredes e as divisões, deixa de ser possível prosseguir o raciocínio, porque sem espaço (virtual ou real) para a porta, a porta não existe. Se considerarmos que o céu é infinito, a porta pode ainda ser colocada no céu, mas se retirarmos a porta, a terra, a estrela, os astros, e qualquer referência igualmente e aparentemente finita, o céu perde a concepção, sendo o céu (e/ou o infinito) aplicado a cada uma. A este nível, o céu pode ainda ser colocado na porta (não dizemos, com isto, que a porta é o céu e que a porta é infinita, mas que uma caracteristica da porta é o céu e o infinito).

A diferença e a pluralidade é sustentada pelo raciocínio que nos dita que todas as coisas estão separadas (pela diferenciação, a nível do intelecto, pelo espaço e pela eventualidade a nível físico), e se um espaço e um tempo existem onde se possam assim espalhar, um espaço e um tempo existem em que estão intrinsecamente unidas (este espaço, este tempo, e este intelecto, em si mesmos). A porta, embora seja uma porta e nada mais, não acaba na porta, tem continuidade no seu contexto, que tem continuidade no seu contexto, e assim o livro que se situa no solo e que se pode encontrar uma vez a porta transposta. Sob este prisma, nesta característica cada objecto é um símbolo igual e um símbolo vivo (em movimento de expansão) para o infinito, mesmo que um livro seja um livro e a sua utilidade a leitura, e uma porta e a sua utilidade o zelo da segurança e da privacidade.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Do Pó Viemos







Na década de 2000 a Academia Russa da Ciência, o instituto alemão Max Planck e a Universidade de Sydney descobrem memória na matéria inorgânica, e a capacidade do pó galáctico formar hélices e duplas hélices. O Conselho de Investigação Nacional dos Estados Unidos, está a estudar as formas de vida inorgânica na Terra (organismos sem ADN). O pó não orgânico, em forma de plasma e gravidade zero, forma as estruturas do ADN, conexas por força electromagnética.


Pai, eu vi o pó, e os homens pensavam que o pó era à semelhança da morte. E a morte pensou os homens como pó. E os homens, o pó, e a Morte, eram um, excepto no Espírito Santo, que tocou as coisas intocadas.

Ajuda-me a entender, Pai, tu que abres sempre uma clareira quando o caos é cerrado e a esperança vã, porque se move o que morreu em tempos, porque toma o barro vida, e porque empalidece o espírito, e gela, onde a morte toma força? A vida que conhecemos, como a conhecemos, termina hoje. Eu inscrevo o teu nome com o meu sangue, e não o meu, que o espelho apagou.

sábado, 14 de março de 2009

Joker




Have you ever danced with the devil in the pale moonlight?

The Joker




Sempre que as trevas me visitavam sem convite, quando eu punha todos os sinais de proibido, vinham com rosto de palhaços, nos sonhos, palhaços profetas, depois, a minha vida desmoronava toda. Tudo era impossível de ser realidade na dor da realidade. Depois, adormecia lentamente, e davam-me a beber qualquer coisa que me fazia acordar sem saber bem de que noite, porque a noite era quando se fechava os olhos do rosto, e os olhos da mente e os olhos da emoção. Só a alma é que há de saber dessas noites.

Depois... Enquanto acontecia, descobri uma coisa, pranteava muito, por vezes sorria, e como já tudo era muito grande, nada cabia nos sorrisos nem nas lágrimas, e meio louco, comecei a rir-me mais, rir-me de ironia, depois rir-me de escárnio. E percebi uma coisa, o mundo não cabe na mão, nem no pranto, mas o mundo cabia, sim, num riso de escárnio.

Eu tinha muito medo do palhaço, depois, o palhaço riu-se em mim em vez de se rir de mim.

O Palhaço ri-se de tudo o que eu nunca me riria, se eu não risse já com ele.

Ás vezes riu-me como quem dá um fatal tiro na cabeça e vê o mundo rodar e dançar finalmente.

Mesmo que fosse a aranha que teceu as estrelas, uma cara branca havia de se rir por detrás do negro do espaço, havia de ser um riso que se ria de mim e que se ria em mim rompendo-me todo.

Já fui tantas mascaras e ainda sou, porque por detrás da mascara não há ninguém como o conhecemos, e mesmo assim, nunca me consigo disfarçar perante o Joker, nem quando me visto de Joker...

Talvez esse riso desse rosto seja o vidro do Espelho como o lado de lá do Oceano que têm uma Noite uma Mãe. Mas não ver o reflexo no espelho é o primeiro sinal do Espelho. Não ver o reflexo no espelho é o primeiro sinal do Espelho não ver o reflexo no espelho é o primeiro sinal do Espelho.. não ver o reflexo no espelho é o primeiro sinal do Espelho. Porque os mortos quando caminham no Templo dela, caminham por túneis e sempre de costas, não a olham, tem ainda muito medo de morrer.

Porque olhar para a morte não é olhar, é deitar os olhos à Taça.

O Mundo é uma Febre. E mesmo quando tudo se cala, até o zumbido do silêncio, ele a rir-se, tão cristalino... tão impiedosamente cristalino.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Integridade





“O monstro não é aquele sem moral, neutro, cheio de clareza, mas todos os monstros são abortos da moral”

Horned Wolf




I

Onde Crowley (num dos seus momentos de estupidez) falha o Nietzsche:

"We have a sentimental idea of self-sacrifice, the kind which is most esteemed by the vulgar and is the essence of popular Christianity. It is the sacrifice of the strong to the weak. This is wholly against the principles of evolution. [...] There is here a conflict between private and public morality. We should not protect the weak and the vicious from the results of their inferiority. By doing so, we perpetuate the elements of dissolution in our own social body. We should rather aid nature by subjecting every newcomer to the most rigorous tests of his fitness to deal with his environment. The human race grew in stature and intelligence as long as the individual prowess achieved security, so that the strongest and cleverest people were able to reproduce their kind in the best conditions. But when security became general through the operation of altruism the most degenerate of the people were often the offspring of the strongest."— Confessions (Ch. 49):

Com este Darwinismo Social, as hienas formam bando e muitas vezes devoram o leão. Aqui dizemos “forte” para disfarçar “as maiorias”, e dizemos “o fraco” para camuflar “o discriminado por parte das maiorias”, e derivados, assim desfavorecendo o indivíduo, procurando prejudicar a Estrela.



II

O Liberalismo

"O escocês Adam Smith (1723-1790) expôs a teoria de que os individuos poderiam estruturar a sua vida económica e moral sem se restringirem às intenções do Estado, e pelo contrário, de que as nações seriam tanto mais fortes e prósperas quanto mais permitissem que os individuos pudessem viver de acordo com a sua própria iniciativa."

"o conceito basico da liberdade foi criado durante a Idade Antiga na Grecia, na Idade Média as cidades italianas revoltaram-se contra os Estados Pontifícios papais debaixo da bandeira da "liberdade"

"A resistência holandesa ao opressivo catolicismo espanhol é frequentemente apontada como outro exemplo; apesar da recusa em conceder liberdade de culto aos católicos, é usualmente considerado uma luta predecessora dos valores liberais."

"O Liberalismo pode encontrar algumas de suas raízes no humanismo que se iniciou com a contestação da autoridade das igrejas oficiais durante a Renascença"


"O liberalismo defende uma sociedade caracterizada pela livre iniciativa"



III

Ensino

A escola foca-se em dois aspectos: o caracter cientifico, e o caracter moral (sob o nome também de religioso), o ultimo, afasta-se mais da alma do que o primeiro, na sua busca pelo Mistério. As duas, porém, são dirigidas ao intelecto, podem proporcionar capacidade de argumentação e facilidade no calculo, mas não podem conceder nobreza de alma. Podem ensinar uma pessoa a saber como pensar no seu meio ambiente, e que regras deve ou seguir ou contornar, mas não impedem o homem de todos os actos vis. Alguns dos homens mais perversos foram alguns dos homens mais inteligentes, precisamente porque tinham educação suficiente para chegar longe. Os valores não nascem de regras, os valores brotam do espírito.

A unica forma de ensinar a alma de outrém, é por via da inspiração e da genialidade: a religião e moral é um desvio que procura atribuir ao intelecto qualidades que não lhe pertencem, qualidades que pertencem à alma e ao génio. O intelecto conhece a lógica (e as quantidades), a alma a nobreza (as qualidades).

O intelecto pode expandir os nossos horizontes, e à medida que este é o objectivo da ciência, temos um efeito contrario de coagulação por parte da religião e moral.
Mas só a Experiencia pode intensificar a Consciência.

O que é que faz de um homem um homem melhor afinal? A AUTO-REALIZAÇÃO. Penso que este se tornou termo esquecido, enquanto a ciência progride e se discutem códigos de ética, e ao mesmo tempo se afirma que não temos qualquer razão de ser, porque, como numa corrida de ratos, escondendo o panico, corremos na escuridão sem qualquer paradeiro, sem qualquer integridade nem significado. O HOMEM REALIZADO em si mesmo, pode ser desprezado pela sua sociedade, mas vive satisfeito e oferece ao proximo, porque abundando, jorra. O homem sem auto-realização, ainda que bem sucedido será sempre um infeliz, empenhado em fazer o proximo igualmente infeliz.

Mas nenhum homem chega à auto-realização sem antes se despir de quaisquer intremedios e pre-conceitos sobre a sua percepção do mundo, porque ela é a união directa da alma a esse Universo.

A um homem digno não importa recompensa ou punição, importa a Realização. E esta educação cientifica e moral não é, realmente, uma educação, mas um misto de instrução e domesticação.