sábado, 7 de março de 2009

Subvúlvios




Foi durante o Reinado de uma dita rainha Sofia, que Ornat Tebunah, um conde de mérito, estabeleceu, isolando-se na sua moradia, o seu próprio lugar no mundo, com imunidade por qualquer dos seus feitos.

Tido, primeiro, como poeta de alta qualidade e artista-mor do seu próprio cabaré, tanto nas artes musicais como no desempenho teatral em palco, este foi então procurado pelas muitas almas perdidas que vagueavam sem razão ou estrela guia, na procura do auto-conhecimento.





I

Entre o lusco-fumo da bruma da demência do sono e do estado desperto, Ornat fez-se notar na porta aberta que permitia brancura entornar-se e mesclar-se em ares de meia-luz, pela sua ampla casa, e movendo-se pouco, da sua beliche real observou a mulher de cabelo carmesim selvagem, no seu rosto arredondado, decorado de dois bonitos olhos tamanhosos, e de um corpo carnudo sem ainda a mácula da glutonisse.

“Psst”, chamou. Falando baixinho, porque os habitantes da casa, em retiro, se deixavam ainda inebriados pela sonolência, a mulher balbuciou qualquer coisa como o seu desejo de marcar um tempo a sós com o aristocrata. Por entre o seu cabelo negro, que se aparentava, sempre, húmido, os olhos azuis-escuros não largaram a mulher durante um momento mudo. “Minha senhora, afirmo que traz consigo o cheiro citadino das maquinas de lata e da pestilência dos muitos moribundos, pedintes do dia-a-dia, e porém não inteiramente, o cheiro de uma mulher. Alguma vez provou uma?” Calada, ele percebeu o seu não, e, expirando o cansaço provindo do seu descanso, desceu a degraus lentos do seu leito. Tomou o braço da senhora perfumada, e levou-a para a cama a seguir à sua. Através de lençóis escuros e transparentes, ela observou um corpo feminino, seios perfeitamente redondos, em copa, miraculados de mamilos doridos e encarnados, abdominais mais macios e ondulados do que as areias desérticas, coxas alvas, capazes de eclipsar a graciosidade do cisne, os pés sensualmente almofadados, lábios sequiosos, pestanas adormecidas num qualquer sonho erótico, cabelo áureo, faces tenras e coradas. “Mas, senhor, não está ainda na hora de abrir a casa. Voltarei mais tarde, dos meus afazeres.” Puxou, procurando libertação. Sossegadamente, ele sentou-a primeiro, passando os seus dedos por detrás da sua orelha, então, com as duas mãos envoltas na sua cintura, deitou-a. Beijou-lhe a face ao frémito da respiração tremeluzente. E tomou forma outra, corpo nu, pontiagudo de concupiscência, deixou os dedos, a perna barbeada e o joelho acima, percorrerem a fragilidade da mulher até ao centro púbico, passando à de leve brisa de borboleta o seu toque mágico de mão, passeando-a em pequenos furacões pelo peito e pelo pescoço desprotegido. Ao lado, a mulher despertava, gemendo entre os mundos. Ornat ergueu-se, voltando, como uma fera antes camuflada, à sua forma habitual. A mulher, suplicante, repleta de desejo e sentindo o cheiro aos fluidos nocturnos daquela que ali prolongara a noite, fitou-a, com o olhar de uma presa imersa no seu destino. Ornat, deixando o compartimento, sussurrou para si mesmo “É política da casa deixar-se algo, quando nela se entra”.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sunless





1977: Cientistas descobrem organismos situados na profundidade do oceano. Estes extraem o calor da água quente, rica em mineral, que se eleva do chão oceânico.

1999: Um cientista sugere a existência de planetas habitáveis na sombra, improváveis de detectar por instrumentos.



Fito, parado, o esgar movimentado das águas.
O perfume do ferro e do magnésio
A altura da lua, em qual gravidade
O calor da terra espelha a vida
Sem Sol, cego, cego, uma sombra
Nas miríades do Universo.

Tusso, convulso, o gás de hidrogénio,
A radioactividade fervente
Que me permite a liquidez do sangue.
Arrefece a luz, a respiração,
A pele, mas nós somos tudo
O que o Inverno já foi
E no gelo da historia
Assombraremos a memória acabada.

A Morte escapou com o Sol
Órfãos de deusa, órfãos de deus,
Brilhamos, com a luz de quem não vê,
E as nossas preces ecoam,
a solidão que sobrevoam.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Feitiços de Inverno






I
Dói demais, saber que és senão um porquê, os mil braços apagados, olhares em fogo sufocados, amor que já não se vê. Não vai acabar, nós vamos ser sempre o luar, a respiração ofegante de uma noite hesitante onde nenhum de nós decidiu hesitar (a respiração ofegante de uma noite hesitante que nunca quis acabar). A tua mão aperta-me desde o âmago no peito, tu estás morta e eu sou o teu leito. Sou sentir-te perto de mim e tudo decepado e eu um ser mutilado e sem fim. Não vai acabar; vamos ser sempre um coração só e uma luz e uma paixão. Meu corpo é teu cadáver e tu, viva, és tremura de mão.


II
Descrevo a minha descendência de onde parei, descendendo. Que os anjos mortos e sepultados, cegos e estrangulados, cantem, de línguas decepadas, os sopranos ao meu lamento. Ao grito da minha ausência de voz. Os dias que passam são tristezas que barram a minha casca de frio e indiferença. A pior dor é a de não nos ser permitido usar o coração ou sequer tê-lo ou sequer dá-lo. É forçar-nos a desfigura-lo e transforma-lo numa parede sem face e sem expressão, descolorida de tudo. Que vários assassinatos à mão divina e que as legiões lupinas do tempo que perseguem e despedaçam tudo presenciem a minha morte, os brilhares fugazes e impressos da minha morte onde só há o meu escrever.


III
Sou alguém que se arrasta nas ruelas de viver. Sou um sonho que se afasta, nas ruas a perecer…


Trechos retirados de um livro que escrevi ha muito muito tempo, ainda Jesus era Menino e a Morte uma Criança.
Homenagem a Vitany.

A Palavra da Cinza


Tudo se mistura em riso, até as estrelas são uma teia de gargalhadas sonoras, e o caos a sua estrutura. Entre a disrupção, como cal nas rachas das paredes brancas, formam-se doutrinas, crenças, algomerados de pensamentos, todos nascidos gémeos e assassinos do seu irmão, depositários da semente da anulação ou da roda sem cessas. O fogo sexual, de que só os animais tomam conhecimento, vem lavar as paredes...Depois, na ventilação da memória, tudo começa quando todo o pensar solta espectros putridos que dançam por volta da chama, e a única vida é o silêncio virgem, um silêncio só tocado pela lingua mais incandescente, cuja palavra é cinza.

Violino Sem Cordas




Um beijo. Sonolento, arrebatado pela doçura, um beijo. O silencio. Não bebi sangue. Foi um beijo, atrever-me-ia a dizer um beijo como qualquer outro. Ao Sol, os corrimões amarelos e a vista da praia de Sesimbra. O azul. Ele estava perto da máquina de escrever. As cortinas de céu. Os lábios de homem, ásperos e com feridas. Os meus lábios de rapaz. O vermelho incandescente dos pés da escrivaninha, um incêndio. A ausência de sangue e a velhice eterna. O cheiro de sovacos. O fim das noites, de todas as noites desde então, gravado no meu rosto.

Os seus dedos já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa. Cortaram a luz. O ruído surdo das asas. A lentidão das penas.

A boca trémula e os lábios que se afundaram nos lábios. Os lábios que se derrocaram nas gengivas. O ruído vivo da dor. Só conheço os meus olhos fechados. As pombas morrem. A casa inteira-se de esqueletos de pomba. O ruído seco do chilreio de pardais, como agulhas. As mãos brancas na minha saia. Nas minhas pernas de rapaz.

O nosso sangue é o silêncio. O som surdo do rapazito. Devorado em sucessivas pausas movimentadas. Não haviam manchas no cadeirão. Carne podre. Fria. Fecho os olhos. O rosto de todos os fins a procriar mais um. Foram felizes.

A boca é a secura onde morrem as chamas. O estalido do silêncio. Observo nos espelhos. Ela chora. São tantas as vozes. Ela chora. Muitos os lamentos. Ninguém escuta todas as suas vozes. Os seus dedos tocam piano. O silêncio das teclas. O silêncio do desejo. O silêncio do desejo de ouvir a melodia. A madeira surda do piano. Alegria. Peso absurdo. Imóvel. A surdina dos lábios esfarelados. A boca esfarelada nos seus dedos débeis. Tentei ser gigante e pedra e estrela. Cinzento. Uma explosão branca de cinzento. Pés. Pernas. Coxas. Um cadeado em redor do pescoço do rapaz. Ela move-se sem som. Diz, se ele pergunta, que o seduz e nada se ouve. Silêncio. Azul e magenta. Encaixados. Um cadeado em redor do pescoço do rapaz. Fechado. Completo. Ranhura na cintura. Observo nos orifícios. Os meus olhos são covas abertas. Observo. Branco. Sem o sossego negro das vestes. Tornaram-se cinza. Ele odeia-a. O rapazito. Odeia-a. Quer come-la. Ela. Abre os lábios e geme e o som invade a casa e desfaço-me contra as paredes mudas. As estrelas. Riem-se de mim. Apatia. Os dedos dele. As suculências húmidas. Procuram. Serpentes sem sangue. A mão. A mão do rapazito. Cheia de cabelos. Cheia de cabelos do rapazito. Já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa.

São Borondon






Quando o Atlântico reflecte o Sol,
A ilha de San Borondon
À força de um luminoso lençol
Espreita, nos olhos de Sebastião
Em que, por obra da devassidão
Se perde, e as suas pobres gentes
A nação.

No ancoradouro da sua melancolia
Relembra nos seus erros
O fim da primazia
Com que os ventos escutavam
Ibéricos, as almas uivantes
De glória, orgulho e vitória.

A cruzada, pensa, cedo devia
Haver sido abandonada
E não devia o rei ter havido
Qual jesuíta, e se o rancor
Da fé maldita, não proliferasse
De terror vaidoso, e se apagasse…
A luz, não da razão, nem crença
Mas do amor pelo sangue e região
Lavado tinha os olhos
Das escamas da cegueira
Breve, letal e mui certeira.

De si, de Dom Sebastião,
Não resta outra religião
Senão a hedonística, da ilha
E do amor às coisas da terra
Que, se nos nutre, é sempre santa
Como calor nos dá o fogo
Do sangue e do coração,
Da alma e da razão.

Fita, ele e mais alguns
A península do fim do Reino
E espera que o Mundo passe
E os exércitos se reúnam
Debaixo do seu estandarte.

Não conquistareis terras
Mas por terras conquistados
E guardareis a vida
Contra toda a fé estrangeira
À própria vida
Que é passageira.



* Homenagem seja feita a um homem que ama essa divindade que é a Lusitânia: Klatuu.

Dark Cinderella (Humor para Duendes)



Longínquo no tempo, Cinderella, uma órfã prostituta foi apadrinhada na casa de uma ilustre rainha, cujo marido, conhecido nas artes libertinas, possuía, bastardas, duas esbeltas filhas, presentes na sua corte de horrores nocturnos (ou deveria dizer... prazeres?). Estas suas irmãs de artifício, penteavam e pintavam a menina como se trabalhassem uma boneca de louça. Vestiam-na de boneca, vestido de boneca, sapatinho de boneca, e instigavam a sua depravação adolescente.

Cedo, a Cinderella, de perícia nos seus afazeres, tornou-se na principal serva sexual da corte.

Uma noite, o Rei, cujo vulto de leviandade se agitava e agigantava no reino, e que esperara pacientemente os avanços na arte por parte da sua filha adoptiva, concedeu-lhe a sua cama. E Cinderella dormia com o rei e com a rainha, sempre exposta aos seus desejos e sem o descanso que é próprio a uma jovem.

Cedo, a rainha, ao lume do ciúme, exilou-a, fazendo do seu ninho de sono o curral. Mas Cinderella tinha um coração suado de bondade, e as suas irmãs continuavam a usufruir dos seus serviços. Cinderella agradava, apesar de suja.

"As tuas roupas parecem-se com culotes menstruados" provocava uma, enquanto as removia, "e a tua cara como um balde de lama" a outra, enquanto a beijava. Então elas comeriam os chocolates e observariam enquanto Cinderella lhes lambia a suculência.

Agora, porque as irmãs, ardentes, desejavam o rei e o poder que vem com o rei, envenenaram a sua esposa e, ao escutar as novas da morte da rainha, riram, como as hienas riem, quando na euforia da fome.

O Rei, todavia, não conseguia tirar de si o desgosto, e muito menos emancipar-se nas suas preciosas bastardas. Mandou que se chamasse Cinderella, lavou-a, e depois, na companhia da sedutora, dançou suavemente toda a noite, e permitiu-se o luxo das lágrimas. Quando o seu semblante recuperado, pousou o olhar no da menina, apercebeu-se do significado do seu destino. "Tens de ser tu. Tu substituirás a minha esposa." Despiu-lhe as roupas de boneca e substituiu-as pelas esplendorosas, que vestia a rainha. Deixou para ultimo a coroa, que assentava na perfeição, e depois os sapatos. Mas o pé de Cinderella não cabia. O pavor invadiu a mente poderosa do rei, e depois de cinco minutos de silêncio e reflexão, com a faca, tomou a comedida resolução de cerrar os pés da menina à medida, então encaixando-lhe os sapatos ensopados no jorro quente. Após o primeiro sapato embutido, a rapariga, lamentando-se, conseguiu a fuga.

Deformada e escoando vida, correu pelo reino, não conseguindo apagar de si o terror. O povo falava de uma assombração, um demónio que se disfarçava da falecida rainha, e conversavam alegremente entre si sobre como a haviam apedrejado até ao seu ultimo sopro. Em celebre festa, queimaram pois o seu cadáver.

O Rei casou com uma das suas filhas bastardas e viveram felizes para sempre.




* Imagem de byluluka

Cânticos



I

Neófito,
A quem olhaste, quando, pela primeira vez, se abriram os teus olhos?
O deserto, a primeira coisa. O deserto foi a primeira coisa que tocou os teus olhos.
Néofito ! Sobre o que caminhas?
Quem te fornece a fome da qual extrais a voz dos anjos?
Quem é o teu pai?
O deserto.
E se o vendaval da noite rasga a areia
E, a areia engole o Sol no seu abraço incandescente
No seu oceano de gelo
Tu és o seu filho.


II

E neófito,
É na pedra que encontrarás exemplo,
Ela não cresce, não pode ser comida,
Nem mesmo bebida
Ela nada pede,
A pedra é perfeita
Como as coisas sozinhas podem ser perfeitas.


III

Meu neófito,
Consegues ver o cantil?
E agora o meu turbante?
O cantil não é um turbante
E nem o turbante procura ser cantil,
No mundo, cada coisa é o seu objecto.
Mas tu, tu pertences ao Anjo
E no mundo disfarçarás o cantil, o turbante,
O assassino, o curandeiro,
E todas as coisas roubadas.
Por isso, sempre que o Sol Nasce,
Deves subir a duna e sauda-lo
Porque o Sol se mascara de tudo o que a luz
Atinge, e não se divide.
Dorme então e sonha
A multiplicidade das formas,
Mas quando o beijo frio da Noite
Tocar a terra, vigía
E alimenta-te do silêncio da morte,
Só assim permanecerás no Mundo.


IV

E só, neófito,
Quando o cabelo prateado
Com que vieste à bruma
Se tornar fraco e quebradiço,
E o teu riso poderoso
Como o fim do uni-verso
E souberes de cor
Os segredos do vento
Deverás tu ensinar
Os filhos dos homens
E devorar os seus vícios
Na boca do deserto.

Os Sinos






Fecho os meus olhos durante muito tempo, há muito tempo, e os momentos passam, passam como mundos que, em sequência, se desmancham aos meus pés na forma móvel de mil berlindes negros. Aceito-os e ignoro-os. Por debaixo das minhas pálpebras cerradas, fecho mais o olhar, os meus olhos choram pétalas de cravo e esperam que o perfume te atraia. As pétalas desenham um pequeno círculo, um pequeno altar no solo. Dentro da taça, acendo a vela. Desvio o olhar do espelho e descubro o sangue onde pétalas haviam. O sangue, responsável por tudo o que é único e imortal, o sangue que mata e o sangue que ressuscita, o sangue, esse, que pode fazer a neve e o gelo serem quentes ao toque, esse sangue, todo ele, vertido no cálice do teu olhar.

Alongo-me a fitar a taça. Ela contém os vultos bailarinos do meu inferno. Ecos:

Estou sentado num divã, nu, como me apresento sempre a ti, e a minha pele brilha, tremeluzente com as velas. Escuto Wagner e tenho um cigarro nas mãos, que tresandam a vida e morte. Olho o círculo de pétalas de cravo em que se empareda e dança o escorpião. Os mundos que caiem e se dividem, ficam suspensos, no interior do círculo. Desvio o olhar do espelho. A taça abriga o Universo em ecos. Em ecos…

Pergunto-te porquê? Porque me renegaste à sombra? Tem pelo menos a piedade de me esclarecer, de me retirar das mãos esganadas desta agonia. Eu fui tocado pelo amor do teu olhar mas os homens desprezam-me. A mim, que presenciei mais do que poderiam… sim, estava a espreguiçar-se debaixo da lua, com os gatos. E eu… atacou-me uma fraqueza, fui esmagado pela minha ânsia e cai no chão, uivando. A partir daí os meus dias tem sido um inferno. O mundo é aborrecido, populado de criaturas aborrecidas, eu sou, sobretudo eu, aborrecido, e espero pelo tempo da loucura, das orgias e das cidades incendiadas. O tempo em que o mundo volte a apelar pela tua justiça.





* A imagem é uma manipulação de Phallucifer

O Porteiro





Passaram algumas luas desde que não sei dizer se estou de pé, ou sentado, nem mesmo se se apressam os meus passos, se corro. Estou parado, ainda que gire sobre mim mesmo com a agitação nocturna das folhas sombreadas pela ventania e dos ratos que percorrem as veias do castelo; que a minha cabeça embata na parede, repetidamente, para cheirar o sangue e calar as minhas meditações. São as questões, as inquisições, as perguntas de todos, de tantos, a olharem para mim e a procurarem respostas, parados, fixos. A tocarem-me. Todos queriam saber de mim, de mim porque eu era aquele que nunca indagava. Depois, quando todos partiam e os ultimos ecos dos ultimos passos abandonavam o pátio, eu escutava só as pedras da parede e o vento entre as fendas, e o ruido seco da palha e até a melodia da lua, se brilhava com força suficiente. A Lua tinha o som dos lagos parados. Os cisnes voavam de noite, e escutava os sussurros das suas asas. Nessas noites, não dormia, porque também não sentia necessidade de acordar...

Tudo se repetia, o estrondo mudo do sol, a palavra do calor, depois os olhares, os passos, os lábios movidos e as linguas revolvidas (as humidades cintilantes), os gestos fernéticos que não ilustravam nada senão um nervosismo continuo e desconexo. Os ultimos ecos dos ultimos passos no pátio, que era o último pátio do mundo. O pôr do sol (cujo ruido se assemelha a um rio, talvez mais próximo de um riacho), e então a noite e as suas criaturas, a maior delas, como um predador sublime, sendo o próprio silêncio. Um dia, não veio ninguém. Não houve passos nos corredores nem vozes no pátio, não houve indagações nem olhares intrometidos. A primeira coisa que mudou, após esse sórdido acontecimento, foi que o ruido do sol passou sempre a ser o ruido do sol-pôr, principalmente quando nascia. A luz passou a ser inquietante, como multidões sem fim, multidões de asas de cisne em meu redor, num bater de asas histérico e absurdo. Tapei todas as janelas com tábuas, e as portas com panos negros, de veludo negro. As velas perdi-as pelo escuro, no frio solo. Esfarelei-as, ao encontra-las, entre as unhas por cortar e a robutez das mãos sujas. Depois percebi, quando, nos ruidos nocturnos, e desses, primeiro nos cisnes, escutava os sussurros de gente, primeiro difusos e dificeis de perceber, depois indagações várias sobre tudo, a fazer parecer o mundo ser tantas coisas em vez de uma só coisa.

Os aldeões dizem que eu sou acabrunhado por um demónio a que apelidam de Legião. Trazem-me chá quente, que me acalme a febre, e sacos de água quente para me aquecer, vinho para beber e ração de cão para comer. Mas eu não os vejo, e desconfio que caminho já como os cães. Não consigo ter a certeza se me movo verticalmente ou horizontalmente. Não sei, mesmo, se ainda urino ou obro, e se o faço, onde e de que forma, parece-me até que como gente, ou que fornico os mastins esfomeados, e uma única certeza me resta: ser a Porta e a Voz do Mundo.

Os Filhos da Noite







Imagine-se...
Uma época de silêncio ouvido, de palavra sem som, aí, quando abriamos os olhos e os fechavamos, estávamos dentro uns dos outros, para sempre. E a nossa palavra não era muda, porque era sem estrondo, porque era sem mil sombras, porque era o escuro e o escuro era a luz.

Então veio uma luz outra, um louco que sai de casa em pleno dia, de lanterna na mão (como Nietzsche ilustra) e nos diz, "Deus está morto, nós matámo-lo". O iluminismo, que nos deu lanternas a todos e deixamos de ser objectos dessa historia do silencio falado, passamos a ser os sujeitos, isolados, sozinhos, quase inteiros, metade devorados. Um "penso logo existo" e, qual facada final, somos orfãos. Os outros são objectos da nossa luz, não são conosco, são debaixo de nós, nunca nos satisfarão, nunca olharão para nós como se não fossem meras marionetas, imagens de espelho. Na treva da iluminação frouxa, o mundo inteiro é um abismo, em todas as direcções. Tudo o que está próximo nos mutila a identidade, nos interrompe conosco próprios, como um monstro engasgado nos seus próprios tentáculos.

Este desespero auto-centrado cedo leva a democracia à mediocracia, a razão perde lugar para o ceder ao dizer afectado, à voz ruidosa, se antes viamos os naufrágios com o conforto da contemplação, agora afundamos também, e afundamos na noite, sem nunca deixarmos de nos observar, nem no último momento. De um moderno para o pós-moderno eis-nos, os nossos concertos, os nossos livros, os nossos amigos, rituais quotidianos que nos arrepiam, sem qualquer significado. Estamos a ser devorados constantemente pelo próprio ar, se me tocas mato-te. Começou por alguém parado, a chorar, num banco... As pessoas pararam por ela mas ela não as via, ofuscava-a a lanterna. A seguir todos começaram a fazer o mesmo, e deixou de haver olhares. Ficou apenas o olhar do abismo, meia duzia de rabiscos esotéricos e herméticos, cerveja, para passar o tempo enquanto esperamos morrer.

Faltou-nos um sentido para as coisas, e se antes achavamos que eramos os exilados da Jerusalem - enquanto o procuravamos -, passamos a se-lo efectivamente, quando, sem ter tido respostas, deixamos de ter perguntas. A noite caia mais completamente, ou melhor, nós caiamos nela, engolidos pelo céu. Somos insensiveis, somos indiferentes, porque a indiferença foi o nosso pai e a nossa mãe; emocionamo-nos totalmente num acto masturbatório e ejaculamos para a sarjeta.

Cortamos os pulsos, e sentimos finalmente o olhar do Outro, o horror do outro, inviolável, incontrolável. O Outro. Bastou-Lhe um olhar, quando pequenos, para nos cegar. E do limite ao limiar, estendem-se as mãos do anjo.

Olho-te como uma menina, o teu punho fechado, trémulo mas firme, a tua expressão armagurada e o fogo dos teus olhos, que te incendeia e te queima. O teu punho fechado no teu sangue, erguido no ar, no formato de um coração sangrento.

Ah, se a abrisses, o mundo a teus pés.

Que a Noite nunca faça faltar o amor para com os seus filhos.


*dedicado a Beatriz Hierro

Alegoria de Nietzsche




Observei os monstros.
Os monstros dividem-se em dois. Aqueles monstros que atiram pedras aos monstros, e aqueles monstros que recebem as pedras e as comem, e se habituam a come-las.
Dediquei-me a humanos e a monstros e os humanos receberam-me e deitaram-me fora, precisavam de sangue e de coisas da terra e eu era demasiado angélico.
Os monstros agarraram-se a mim. Que lealdade era esta? Que tipo de vampirismo? Que pena eu senti. Eu disse: todos os monstros estão sozinhos, os que atiram as pedras e os que recebem as pedras, e tu agora nunca mais precisas de estar sozinho. Eu vou comer pedras contigo e contigo eu vou atirar pedras. E tu vais ver que és um anjo, como eu, és um anjo. Os monstros são anjos que os humanos comeram, porque os humanos não comem pedras, alimentam-se antes de carne viva e de anjos, e que deitaram fora como assim o exige o aparelho digestivo.
Algures no meio da merda eu hei de retratar as asas, e quando voltarem a acreditar em asas, a dormência abandonará as vossas, e as pedras serão rosas e as rosas lampiões para iluminar os homens.
Por isso eu transformei as minhas asas em cinza e disse: "nunca ninguém derrubará esta essência do fogo".
Os monstros fitaram-me longamente, a arremassarem-me como uma pedra e a comer-me como pedra e os humanos compadeceram-se de mim, porque me tornei estrume de monstro e de homem e nenhum anjo, se alguma vez lembrou, se lembra de mim.
* dedicado a Gotik Raal

Cadáver Sem Nome




It starts once upon a time,
with all the frogs in line,
whispering, singing,
alive and kicking.

All that and...
sincerely awaiting for
the eggs to etch.

I want to fly away
from here and there,
with a cigarette
in my mouth
of sorrow and a weeping throat.


*Cadaver de HornedWolf e pUnChdRuNk-LoVeSiCk

O Mundo Sem Capitalismo I






Vou dividir este post em dois, e no primeiro, vou escrever sobre como foi possível viver sem o capitalismo. No segundo, como é, ainda, possível viver sem o capitalismo, pelo menos dentro de uma perspectiva consumista, em que nós próprios somos – mas sempre o fomos, devo pois antes dizer -, devemos ser produtos de venda. Um capitalismo em que qualquer um que não se encontre nestes parâmetros, é um alvo a abater.

O passado:

Julius Evola falava da Luz do Norte, de uma virilidade espiritual e de uma soberania olimpiana. Falamos também dos tempos em que a autoridade e o ícone da integridade era tanto divino como temporal, como temos ilustração nos faraós e nos imperadores. Segue-se o tempo dos monarcas em que o poder é simbolizado no líder militar, no guerreiro. Aqui o sangue é a honra, e esta honra a bandeira a ser seguida. Com o sangue, como Evola sabe ilustrar e muito bem, a lealdade, a fidelidade, e o dever.

Esta passagem da autoridade espiritual para a autoridade militar e política pode ser bem expandida com Max Webber, embora num prisma mais anárquico. Para Max Webber, o espírito do homem, de cada homem, movia-se num veio magico-mitico, de primordialidade e interacção com o divino, sendo que o advento a que chama de “desencantamento do mundo” se pôs com a racionalização e o intelectualismo destas mesmas relações entre o homem e o sobrenatural, criando pois a religião e uma forma monopolizada de coerção de um homem sobre o outro, e se Evola ilustra a passagem do espiritual ao sangue, do divino ao guerreiro, webber fala-nos da passagem do feiticeiro ao sacerdote, do espírito ao politico. De seguida, das doutrinas religiosas passa-se a um quase niilismo científico, este desencantamento que continua a levar o homem a suplicar por um significado espiritual que o preencha, quando na antiguidade interagia naturalmente com esse significado, havendo trocado presentemente o sentimento de realização pelo sentimento da própria suplica. Estas são as características do capitalismo. Á semelhança deste exemplo, o capitalismo afirma que o homem, em comunidade, deve viver como um canibal de forma a sobreviver, quando na verdade o canibal há muito que sobrevive para comer.

“uma das limitações da ciência mais difíceis de aceitar é justamente essa sua incapacidade de nos salvar, de nos lavar a alma, de nos dizer o sentido da vida num mundo que ela desvela e confirma não tendo em si, objectivamente, sentido algum”

O segundo colapso deu-se quando se trocou o sangue pelo papel, e a honra pelas notas. A autoridade abandonou o guerreiro e escolheu o mercador. Com a revolução burguesa, o contrato social deixou de contemplar a honra e a fidelidade para abraçar a economia e o utilitarismo. A democracia mascarou a tirania do rico sobre o pobre, por debaixo de bandeiras de liberdade e igualdade. O banqueiro e o industrialista na linha da frente das nações europeias. Até que, com a exaltação das classes baixas, o ideal passa a ser o trabalho e apenas o trabalho, quer este seja intelectual ou físico, e nunca o acto livre, independente, o trabalhar e nunca o Agir, sendo o chicote que impulsiona o escravo, num mundo capitalista e consumista, o vizinho, e aquele individuo pelo qual passámos na rua; se paramos para agir como livres pensadores, é assim que diz o mito, eles devoram-nos. O mundo, diz-nos esse mito, é uma máquina trituradora e a alternativa a movermo-nos ao seu ritmo é a morte ou a miséria.

“Os princípios dominantes do homem são aqueles da parte material das hierarquias tradicionais: ouro e trabalho. Isto é como as coisas são hoje; estes dois elementos, quase sem excepção, afectam cada possibilidade de existência” Julius Evola

“The only demand that property recognizes, is its own gluttonous appetite for greater wealth, because wealth means power; the power to subdue, to crush, to exploit, the power to enslave, to outrage, to degrade, turning the producer into a mere particle of a machine, with less will and decision than his master of steel and iron.” Emma Goldman – Anarchism and Other Essays



E prosseguindo, como Ernst Jünger explicaria no seu Anarch, a liberdade é a marca da liderança humana, dando o exemplo de Sócrates, que não era livre apenas por si mesmo, mas por todo o povo. Assim os grandes lideres militares eram seguidos e admirados pelo seu povo, eram, também, os poetas épicos do acto. A barbárie, seria, pois, um estado mais nobre e natural do que um capitalismo dissimulado. A liberdade espiritual e a espiritualidade marca o ser humano e distingue-o do animal, a inteligência sendo apenas uma forma aguçada do instinto. O Estado não é uma marca humana nem natural porque não é uma marca livre nem espiritual, mas é um produto intelectual que não estava cá, e que poderá voltar a deixar de estar.

“Once connected with life, the formative principles repeat themselves. They float as germs, as possibilities in life's undifferentiated stream. This explains the constantly repeated attempts at state-building in the coelenterates, all the way from the primeval animals. Freedom in the spiritual sense first entered into the stream of life with man. From now on freedom also cannot be lost. In this respect we can concur with Hegel.”

Ainda, Novalis acredita no medievalismo monárquico mas sobretudo clerical, em que a cristandade devolveria o encantamento a essa Europa desencantada de Webber, pela unidade numa só doutrina e num só conjunto de crenças, unindo numa religiosidade mística a economia, a politica, a cultura e a sociedade, conferindo simultaneamente transcendência social.

“Belos, esplêndidos tempos: a Europa era terra cristã, e a Cristandade habitava una este recanto de mundo humanamente configurado...”

A entrada do capitalismo, do mundo dos negócios e da instrumentalização mercantil e a doença visceral pela propriedade, numa visão do mundo sem poesia, magia, ou espiritualidade, vem contaminar a Europa.

E com isto Novalis dá-nos uma das citações mais góticas e pós-iluministas que eu conheci:

“O ódio à Religião (...) transforma a música do universo, infinita e criadora, em um matraquear uniforme de um moinho monstruoso que é impulsionado pela tempestade do acaso e, nadando sobre ela, é um moinho em si, sem arquitecto ou moleiro, e na verdade um autêntico perpetuum mobile, um moinho que mói a si mesmo”


Interessante é todavia observar o panorama actual, e ver na sombra desse caos a luva da Luz que vem, essa Luz do Norte, passagem do caos para a primordialidade, liberdade e verdade. Se, de certa forma, o intelectualismo exagerado marcou a nossa queda da Era Dourada, e o homem continuou depois a “cair” ao ponto da supressão desse próprio intelectualismo para a desordem e a confusão, no silêncio que segue os estoiros o véu deixará de arder para que o homem possa novamente ser fogo.



"I must create a system or be enslaved by another mans; I will not reason and compare: my business is to create." - William Blake

"Capitalism is the astounding belief that the most wickedest of men will do the most wickedest of things for the greatest good of everyone." - John Maynard Keynes

Sede


Poetas mortos nos rochedos. Observo nos espelhos. Sem roupa, o corpo mudo e carnudo. Com vergonha. Rubor sem som. Oferece uma concha. O vazio a ecoar. Ela estende a mão nua. Os ossos por debaixo. O azul. Ardor nos globos brancos. Ela esticada com formas. Apanha o objecto. O vazio a ecoar com força. Sentem-se felizes. É como se a praia fosse deles. De noite, nas paragens do silencio do tempo. A noite é deles. A solidão. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Todos os fins a procriarem mais um. Frio. A tremer. Os tendões a gritar. Aponta para uma estrela. Faz dela uma concha. A luz gritante da estrela no silencio dela. Odeio-me. Os lábios cerrados. Todo eu. Os lábios cerrados. Engolidos. As memórias não salvam. Ela canta nos meus olhos. A minha vida é nos olhos cerrados. A intensidade febril dos bichos da madeira. O silencio azul. A madrugada sem testemunha. Ela. O pé despido fincado na areia. Ele. Comparam as pegadas. Ele. Ri-se. O ruído das ondas. Ri-se. Ouço só as vagas. A espuma. Apatia. Quero rasgar tudo. Observo nos espelhos. Os ossos. Os ossos estavam vibrantes. As pernas eram velozes. Correm. A areia. Entulho. Madeira negra. A flutuar no mar. Riem-se, surdos. Quero gritar. Observo nos espelhos. O azul. O silêncio. O sangue. Os ossos. Riem-se. Surdos. O entulho. Queimam o entulho. Frio fugidio. As mãos, sempre uma na outra. Bailam. Os dedos. Ele adora os dedos. Fome de viver. O roupeiro. A intensidade febril dos bichos da madeira. Destroços. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Magia. Testemunhas da madrugada. Ruído contínuo da luz. Agulhas. Pardais. Neblina. Os dedos, e ele a adorar os dedos. Ela. Está quieta, atenta ao respirar do rapaz. Queimam o entulho. Fogo. Escuto-o e não tem som nem calor. Deitam-se. Em redor da luz. Como agulhas. Lutam, riem. Não alcanço as vagas. Não consigo dormir. O sussurro desassossegado das vagas. Sem ar. Beijam-se. Beijam-se. Beijam-se. O azul. Observo nos espelhos. Beijam-se. Os lábios sumidos. Fantasmas secos. O azul das lágrimas. Lua. Observo. Frio avassalador. A neblina. A neblina limpa tudo. O gelo das noites. Sentem-se felizes. O estrondo mudo das vagas, do fogo. Observo nos espelhos. O gelo das estrelas. Suspiros longínquos, como garras. Os nossos beijos. Fantasmas molhados. Como qualquer outro.



* imagem de Phallucifer Babalith

Fala-me da Vida




Talvez eu seja invisível. Hoje pintei os olhos. Pinto sempre os olhos, ou as unhas, em alturas de mudança agressiva. São pinturas de guerra, é a minha forma de falar-te da vida. Pois. Talvez eu seja invisível. Mesmo com pinturas de guerra. As pessoas que se sentam aqui comigo, quando se sentam, não se sentam comigo. Sentam-se com elas, acho que é isso.

Quando foi que comecei a perder o interesse em mim? Quando perdi o interesse nos outros. Nada possuem que me possam realmente dar, e nada pretendem de mim senão a si mesmos. Uma pena que sejam tão... aborrecidos, e que eu me torne tão burlescamente aborrecido, com a minha mascara de pele, e a minha cartola, e as minhas pinturas, com os meus gestos tão burlescos de comprimento e de despedida. Com os meus reflexos de humanidade apodrecida. Como explicar-lhes que sou senão e apenas, já, anjo e animal? E que dos dois, só o animal ainda respira aqui? Como poderei explicar aos que me amam, que nem eles valem a pena, que no fim decidi partir, mesmo que eles ficassem, sós e sem mim? Sós e com nojo de mim, esse mesmo nojo que eu sinto de todos os outros? E será que esta névoa a evoquei com pretensões de me proteger, ou... não sei. Eu mesmo me perdi de mim nesta névoa.

Comecei por... Ver as formas que tu tomavas na chuva, ou no pano negro da entrada desta casa de perdição, e que abanava ao vento... tu és uma forma de esperança... Serena, pacificante. Dizes-me que tudo passa e que, de tudo o que passa, com nada me devo realmente preocupar, que a beleza fica. E não fica como que a jeito de parada, que fica como nos modos de um rio ou das vagas incessantes do oceano, móvel, agradável, suavizante. De tudo não preciso de viver mais nada, toda a vida que vivi me chega para sempre. Depois é como se o hoje voltasse a ter lugar, como se a traição dos dias perdesse o espaço de manobra. Estás aqui outra e outra vez, nunca igual e sempre a mesma. Não existem mentiras. Toda a verdade está aqui, outra e outra vez, sempre igual e nunca a mesma. Os rostos estranhos continuam a penetrar o bar onde montei esta exposição, onde voltei a ser abandonado outra e outra vez. Entram e saem com a mesma expressão com que entraram e com que ficaram. Não se chega a perceber o que são, porque são tão invisíveis quanto eu... Eu sei que ninguém me virá buscar, sei isso por saber que eu estou aqui para sempre. Para sempre... Para sempre. Nunca mais.

Descanso, e descanso em paz. Descanso em paz porque me engano. Porque não me deixo enganar por mais ninguém. Amo todas as almas que uma vez amei, e odeio todas as pessoas que alguma vez amei.

Será Que Me Consegues Ouvir?





Pertenço a uma geração de filósofos, de artistas e de activistas (ou então de tolos, drogados e viciados da carne e dos orgulhos egoístas), porque a minha geração não tem as mesmas escolhas. É a geração anterior que nos sustenta, e nos deixa o espaço para divagar, para procurar ser humanos à nossa maneira.

Não sei, sento-me em conversas intermináveis de inteligência talvez inútil, sabe a café, e espero o dia todo que comece algum dialogo a sério, algum dialogo que seja como o roçar de mãos. As mãos não vêem, hoje são os intelectos que se tocam, e as mãos servem somente para agarrar pilas e tocar conas.

Não sei, aprendi a olhar todos os que amo com suspeita, todos os que amo desconfiam de mim, porque o amor faz coisas más. O combate do intelecto surge de um modo desprendido, cada inteligência enriquece a outra.

Existem luvas por cima do que os dedos alcançam.

A morte leva-os a todos ainda antes de morrerem, quero dizer que o tempo os come.

Caminho só. Ainda que estejamos enrolados um no outro na cama mais sedosa. Sinto-me mais só que nunca. E talvez esta seja a altura mais plena da minha vida, agora que só a minha concentração aqui vive, sem alma, sem corpo sequer (o corpo é agora os actos feitos e nunca os sofridos).

Vocês as duas nunca saberão o quanto vos amo, o quanto vos amei sempre. Sei isso porque o mundo é um engano e tudo já passou.

MorMorto




A nuca bem delineada da senhora da limpeza no hotel, enquanto arrasta, de cabelo preso, o carrinho prateado com os lençois. Os meus passos mudos atrás dela. A nuca, enquanto os pés passeiam e os olhos param.

O sabor do escuro e da pouca luz da noite entre as persianas, e o sabor das camas tal como são arranjadas nas pensões, o conforto inesquecivel que invade o corpo, e o espírito embriagado no cheiro dos tecidos.

A água nas fontes depois de horas de sede, e o sabor dos lábios molhados de uma mulher rendida. Vê-la fechar e abrir os olhos lentamente. Vê-la colocar os dedos finos, suavemente, nos contornos do pescoço. Sentir o abraço do seu corpo, com temperatura e perfume.

Os dedos pintados com o toque do céu a roçar suavemente nas minhas nádegas.

A terra em que me deito depois das noites xamânicas, o ressoar do tambor e o colar de ossos que chocalha à volta do meu pescoço enquanto danço como um Deus.

Os abraços e os uivos e as correrias nos prados, saltar por cima e para cima de pedras, parando aqui e ali para adorar a Lua.

O cheiro do campo quando chego a casa. Uma noite na cidade de Lisboa, passada na Metropolis enquanto a rapaziada ébria escorrega e cai no chão e ri e brinca só porque sim.

A erva da Globenkien e os pés dela descalços. Os desenhos que ela desenhou ao meu colo. Vê-la pintar perto da janela numa tela do seu tamanho e parar, existir só a respiração dela, os tons, as paragens e as pincelagens.

Rir-me alto.

Chorar com o peito esmagado. Um ombro morno. De manhã, e não haver ninguém nas ruas e os vultos das casas cerradas parecem demasiado definidos.

Um murro contra a parede e um urro enraivecido. Os confrontos e os olhares. A pancadaria com a bófia nas manifestações ou saltar vedações e rasgar as minhas calças preferidas. As vacas que olham para mim enquanto procuro o proximo café nos desertos do Alentejo.

Os comboios do Algarve e ainda sentir o Guadiana.

Aquela invasão do fosforo na pele, perto dos olhos, acendido próximo às narinas. O fumo a percorrer o peito, a relaxar o corpo e a suavizar a mente, a ampliar os momentos e os pensamentos.

As gaivotas do Tejo e as noites em que quis morrer por causa de ti.

Todos aqueles que conhecerei, e tudo aquilo pelo qual passarei.

Como pudeste escolher abandonar tudo isto e como, pelos deuses, pudeste ocupar tudo isto?

A Metade Devorada



Eu queria ficar parado, porque naquele dia havia a sensação nostálgica a noites de natal, com presenças quase perto, respiradas e pulsadas no coração. Queria ficar parado porque ali todos aqueles que um homem solitário ainda tem estão mais vivos que nunca num abraço. E, acima de tudo, porque queria saber então a última palavra no toque. Se a ultima palavra do sopro gelado da morte podia ser ainda: eu. Há quem diga que vivemos como ratos dentro de uma roda viciante e eu sei não obstante que a vida é uma linha vertical que se põe a meu lado e brinca com um boneco que não sou eu mas que, sendo observado por mim, eu sou.
E fiquei parado enquanto desfrutava daqueles raros momentos com o meu pai e o meu irmão, como antigamente, enquanto até esse momento desaparecia. E deixava só o fumo do cigarro queimado dançar com o ar impregnado de sonhos, os carros eram lentos nas luzes nocturnas, os olhares das pessoas solitários em todas as esquinas, e por vezes uma pessoa passava entre um par de pessoas obedecendo a uma qualquer lei graciosa da violação da proximidade.
E eu esperava que ela me encontrasse, se ficasse muito parado, não tinha a certeza se estava um passo atrás se um passo a frente, mas sabia que nos seguíamos como amantes.
Os lábios das pessoas estavam cerrados e grotescos quando se abriam porque estavam cerrados. A luz do tráfego desvanecia-se entre momento e momento para abraçar outro momento à procura sempre daquela mãe e ventre de todos os momentos; como uma criatura de filamentos telepáticos que nos alberga. E eu sei que estás por ai, quero saber a ultima palavra. Se a ultima palavra é abraço e traição, e se é um nome que não encaixa, um nome que é maior que os nomes: eu. E depois, na ultima palavra do eu: tu.

Sei que estás por ai.

Clássicas II



Chopin, Nocturne, opus 27 #2

http://www.youtube.com/watch?v=asDXpfFMKNA&feature=user

Junto ao rio Tejo, num banco informe, vejo as minusculas ondas palpitantes num ritmo único, e lembro-me da cor safira que os nossos olhos ganhavam quando se entrecortavam e se faziam mais que dois por um serem. Penso nas ideias belas que o homem solta do cérebro. Na dança das imagens que rodopiam em redor das coisas do amor, quer numa casa sózinho que é quarto de pensão nas memórias brancas da solidão acompanhada, quer nos instantes de dois junto ao mercado do Porto populado de pombos. As tuas unhas na minha pele e o vinho bebido que soltavam. A minha dor na pele que era um conforto do fermento da tua pele. A Lua que acompanha o sonhador abandonado de uma tarde finda. A calunia da mortalidade em tudo o que é imortal e saber dança-lo em passos de alma. A tristeza das coisas que foram alegremente fundas e se esquecerão para sempre de deixar de ser. Iluminas-me no meu canto escuro, porque a noite chegou e o rio é a espessura da isolação que corre. Iluminas-me no meu singelo cantar. A minha voz cheia de ti. Por isso sei agora que sou só eu e eu só, que sou completo.







Modigliani (THEME) - Original Theme Song - My Reason


http://www.youtube.com/watch?v=RqWqwKRqUfk

Um homem caminha, contra o vento oco lançado na noite, os seus olhos humidos de emoção, prosseguindo quase arrastado e a sentir impossivel o desfeche, embora nada tão fluido. Leva um caderno na mão, debaixo do braço, e sente solene a presença das palavras, as ultimas memórias do amor esmagadas contra as folhas. Tudo vai continuar lá, como antigamente. Só ele morrerá como uma brasa que, arrancada à fogueira, se quis salvar e que hoje fumega os fantasmas do passado mas chora a eternidade ainda presente.

Um abraço. Que ele dá. Independentemente de tudo.









Gothic piano Volume IV – Ethrendas

http://br.youtube.com/watch?v=nja76tnUv5Q&NR=1

Ela cresce contra o céu apertado da noite, quebra os ovos da percepção, e inunda o tempo de fogo. O futuro abre os olhos e cria para trás. Molhamo-nos na corrente de flama e dançamos os amores passados. A memória como um pilar de força, e as nossas palavras a beijar a existência.

A vida num instante e o instante nas abobadas do teu olhar fixado nas prateleiras dos meus sonhos. As tuas mãos são o meu coração e os teus lábios a minha garganta bebida. Sentir que nunca mais partiremos, e que nem a terra nem a lua são um lugar de verdade. Que o tempo não é uma passagem.

O teu rubor é o meu sangue, a tua palidez a brancura de mim vertida, o teu sorriso o punhal do meu viver.

Brumas

Tu eras um jovem mais velho, e antes de eu te conhecer, eu ainda não conhecia a música, conhecia bandas que ninguem da minha idade conhecia, mas não conhecia a música. Tu trouxeste a música. Eras o jovem que estava à margem, um drogado viciado nos skates, um hippie dentro do ska, um amante do reggae dentro do metal, um gótico dentro da vida, e um punk dentro da sociedade. Ninguém que olhasse para ti diria sequer que a literatura ou a pintura te interessavam. Estavas na mesma escola que eu e dizias aos meus professores que enquanto eramos jovens deviamos gastar o nosso tempo a viver, e não a estudar. Ninguém daria nada por ti e tu deste tudo por mim. Ainda me lembro do dia em que me deste a discografia completa dos Doors, eu a ouvir e algo a entrar em mim que me mudaria para sempre, embora eu raramente medite sobre isso. Ou de faltar às aulas e de estar a ler os livros que tu me deste do Rei Lagarto Jim Morrison, e daquele professor que uma vez me encontrou, não era dificil, eu ficava a ler à porta da sala. Lembro-me do orgulho que senti quando o professor me disse "é boa literatura" e não me marcou falta. Eu nunca pensaria que alguém me compreendesse, nem mesmo tu. Instigavas-me a escrever, e eras a unica pessoa que lia realmente o que eu escrevia, as miudas suicidas a quem dava os meus textos nunca os compreenderam e fingiram sempre. Tu dizias: "Tens o futuro garantido".


Vivias num sotão, como eu vivo hoje, e lembro-me de ir a tua casa para ler prosa e poesia, lembro-me de amares poesia japonesa, e de eu a ler a sentir todas as fragrancias. Nunca me incomodavas e foi no teu antro que senti a primeira reminescencia xamanista, porque a exalavas. Ninguém diria isso de ti. Nunca aprovaste quando eu, pela dor das raparigas, explorei as drogas e me perdi um pouco, não gostavas sequer que eu fumasse, mas admiravas a minha consciência à margem de tudo o que era convencional. Conhecias as drogas e sabias que elas eram uma das coisas mais banais da decadencia humana, tal como o resto da programação social.
Bebias e não foi contigo que eu conheci a bebida, sempre que me dedicavas o teu tempo estavas sóbrio, e olhavas-me com uma luz e uma compaixão que ainda hoje não compreendo.


Os anos passaram-se e nós perdemo-nos um do outro. Encontrei-te uma vez no Bairro Alto, ébrio, disseste muitas vezes "granda gajo", e abraçavas-me, como se não me visses, e eu soube que já não passava de um fantasma.

Extinção



Em 2008 os cientistas aperceberam-se de algo que já acontecia há algum tempo:

os anfíbios, que sobreviveram quando os dinossauros pereceram, extinguiam-se.

A Terra entrava no espasmo da sua sexta extinção em massa, e um sinal disso era exposto pela situação vivida por esta espécie de mais de 250 milhões de anos.

As novas espécies não mostravam sinais de surgir, excepto por mutações frágeis, débeis e perenes.

Os cientistas lançaram-se à pesquisa e descobriram uma diferença fundamental entre as extinções em massa prévias, e a daquela anunciada pela época em que se vivia, esta extinção em massa era causada pelo homem.

Não conseguiram perceber se o inicio se dera há dez mil anos atrás, quando os asiáticos se moveram para as américas, ou no advento do industrialismo, com a população humana a aumentar, ou mesmo se tivera início na própria década de 2008, mas sabiam que nos últimos anos a percentagem de morte aumentava a velocidades drásticas.

Naquela altura, a espécie agora eliminada a que chamavam de Sapo de Pernas Amarelas da Serra Nevada, e o Sapo do Sul de Pernas Amarelas, declinaram de 95 a 98 por cento, mesmo nas zonas mais protegidas. Inicialmente, os sapos que viviam nos lugares altos e ermos pareciam sobreviver, depois, também eles se despiram da vida.

As trutas, eles culparam as trutas com que os homens populavam aqueles lugares, retiraram-nas, os sapos recuperaram e depois voltaram a declinar, desta vez os cadáveres contavam a história. Mortos por fungos. Os fungos continuaram, mataram as plantas, depois os outros animais selvagens. Não tocaram o homo sapiens, porque o homo sapiens era a imagem do fungo.

Os habitats naturais escasseavam, à medida que o homem ocupava vastamente as áreas, isto e o aquecimento global mais os ventos de fragrância pesticida deram o derradeiro golpe de misericórdia.


Quando o homem acordou, as suas cidades estavam desertas, excepto pela vida selvagem que furava através das paredes, pelas trepadeiras, e através dos homens, pela loucura.

O Presente Especial



O Presente Especial de Gibor


Gibor, o duende, saltava sobre as teclas de um piano, fazendo música para a multidão de escaravelhos abaixo de si, que, ritmicamente, construíam fitas de lustre através dos excrementos. O retorno do Rei Lagarto havia de ser festejado da melhor forma.

Tudo estava pronto e enquanto esperava, Gibor, humilde servo do Lagarto, foi dar de comer às moscas. As moscas metem nojo porque odeiam o nojo a que amamos agarrar-nos.

Cada um se distraía conforme as suas inclinações, e a esposa do Lagarto, A Grande Escorpião, bordava sonhos venenosos no uso da sua cauda como agulha. No chão, o bebé azul, filho dos dois, lia um livro em silêncio.

Os pirilampos chegaram a dançar, para afastar do reino todos os pensamentos, porque todos os pensamentos são maus quando se está perto da inteligência do Rei Lagarto. Gibor juntou-se ao baile.

Toda a sala se petrificou perante o olhar do Rei Lagarto porque a sua presença inundava agora a sala e ele tinha chegado.

O Rei Lagarto sentou-se no seu trono de caveira de búfalo e tudo ficou em silêncio, mas os pirilampos pregaram-se às suas escamas com um zumbido e o rei lagarto brilhava.

Crispando o olhar, o Rei Lagarto materializou uma flauta de osso para a borboleta, para que hipnotizasse as mulheres;
Um tambor de pele humana, para que o Louva-a-Deus dominasse os homens;
Deu uma criança aos escaravelhos que logo começaram a arrancar estrelas da sua carne;

E ao seu bebé deu um sino, porque o bebé azul era mudo.
À sua esposa, concedeu um colar cuja pérola continha a noite inteira.

À cozinheira, a aranha, materializou o último dos presentes e ao duende, Gibor, o Porteiro, nada deu. Mas Gibor ofereceu-lhe um fóssil antigo que tinha a marca de uma espiral, o símbolo de toda a primordialidade.

- És um extraordinário duende! Mereces uma prenda especial – e o Rei Lagarto ficou a olhar para ele e com a força do olhar transportou-o para um formigueiro.

Gibor apressou-se até ao centro, onde encontrou a formiga Rainha. E o Rei Lagarto disse – Todo o formigueiro simboliza a vida da espiral, trabalhando em redor da Mãe – Gibor meditou e respondeu – Obrigado, Pai! –

Gibor, o Porteiro, compreendendo que o Lagarto lhe apontava um portal, aproximou-se, estudou as mandíbulas da formiga, e deixou-se devorar por elas. De volta ao palácio, o corpo vazio do duende tombou e todos os insectos se riram com estalidos da desgraça do duende, e o Lagarto alegrou-se.

Lutis Nitra



O clima serpenteava o olho da montanha, vociferando tempestades escuramente coloridas. Branco, lívido, aproximou-se da rocha tamanhosa, sem deter a tremura. Inscrições distantes na sua crueza. Aqui me sacrifiquei em nome do Mais Luminoso e Negro Príncipe. Derramou-se, em lágrimas, sobre a pedra banhada no seu sangue, a sua pele, alva como a neve, impávida como o gelo, onde todas as coisas caminhariam, rastejariam, e voariam rumo às espirais turbulentas da perfeição: tudo o que alguma vez foi e será escrito.
O granizo arrancou-lhe um buraco, introduzia-se como um intruso na carne daquele que foi espírito e despia as ilusões de proporção, porque o Príncipe era uma pedra: e só a verdade é passível de ser escrita, assim como o que é na Rocha inscrito o é nas regiões da imortalidade.
O Sol afastou o tumulto, tranquilo e omnipotente, abraçou-o de calor, à criatura cândida e agora albina como cál. E o Sol durou um dia apenas, na eternidade da escuridão, o Sol nunca se apagou. Nenhum fantasma possuiu o seu vulto, a sua brancura era agora luz.

Clássicas I


Rachmaninov plays Rachmaninov: Elegie

Ela entra a passos lentos, descalços, a sua saia escarlate bailando e senta-se quieta aos seus pés, ali, onde as cerejas crescem quietas e, quietas continuam a crescer. Fica muito parada, a escuta-lo muito, ele na sua veste de mar antigo e chuva crepuscular, ela parada, a escutar o seu olhar com tantas palavras ditas por dizer.

Tudo é muito quieto e é muito quieto durante muito tempo. E quando ele começa a dançar, quando o vagar é do primeiro passo, tudo se tornam dedos de escritor e pianista.

Contam-se as histórias de todas as noites em que houve velas.

http://www.youtube.com/watch?v=UZnUMKCzsus

Mozart " Eine kleine Nachtmusik" Allegro


A menina de olhos verdes abre as pálpebras que tremem ao Sol. Ergue-se do verde como quem saltita, e segue o rio. O menino de olhos verdes é um pássaro que segue contra o rio, e rodopiam numa outra corrente que sobe, que desce e que sobe. A menina fecha os olhos e toca o sol com as pálpebras, porque param. Segue contra o rio e ele segue a favor do rio e rodopiam e o rio é um furacão fresco de alegria. Sentam-se palpitantes e desenham histórias com os dedos no ar, expressivos e dançantes. O verde namorisca o vento que salpica a água. Erguem-se de um salto e chove, não se tocam, senão com a alegria radiante dos corpos distantes. Fecham os olhos e abrem os olhos e o menino é pássaro é homem e ela dança e dança e a floresta ri-se com o rio.

http://www.youtube.com/watch?v=Qb_jQBgzU-I&feature=related

"The RIde of the Valkyries" from Die Walkure

Contra remoinhos e a fúria dos elementos, contra ventos e os homens tormentos, navegam os cavalos sobre a terra de serpentes e feras, a brisa nos cabelos e o sorriso como uma fenda clara de céu.

Perscrutam as maravilhas do verde e do amarelo que borbulham no ar, com olhos laranja de fogo. Todas as serpentes de cabeça comida. O riso triunfal dos bárbaros na sapiência dos edifícios de mármore onde os homens se reúnem para ler as colunas antigas.

O mundo cai e cai numa espiral, elas cavalgam a queda e voam, os cabelos contra a corrupção do tempo. Os estandartes orgulhosos erguidos contra as montanhas negras. O clarão do homem que se ergue ao Pôr do Sol como um Sol Nascente.

As almas que são uma na moção, sem palavra ou outra oração. As estrelas na ponta dos dedos que queimam e cintilam de riso e vitória, e as mulheres cospem as chamas e molham os campos.

http://www.youtube.com/watch?v=GSKL5E3zSjs

Pain


PAIN ARRIVES FROM WHERE WE LEAST EXPECT IT
O mocho, porque o mocho era quando nós estávamos.
Existem os dois vultos que dançam em redor da sua auréola conjunta, uma coroa de espinhos já sem rosa.
A cruz da nossa remissão é uma dor sem sentido, são as mentiras com que criaram o homem, com que o nosso amor se embriagou como se fosse amor, quando o amor já não é do tempo dos homens mas de outra qualquer espécie mais nobre que conhecemos, apenas, na utopia.
No braço direito da cruz está tudo o que é estrangeiro a tudo, estou eu, em embrião para sempre.
No braço esquerdo da cruz aquele espantalho que se disse anjo e que afugentou tudo o que podiam ser anjos. Aos seus pés aninho-me, chamo-lhe Pai, peço-lhe que me proteja, que os pardais pousem sobre ele e cantem para mim, ele canta contra o vento e devolve-me a solidão onde julgo saber os sons, as felicidades, e todas essas coisas que os homens sem tecto sonham e fingem com muita força ser verdade.
Tudo o que tu eras, minha alma, não existe, nem existiu.
De volta ao fundo do cérebro, os répteis não conhecem nomes, são monumentos de antiguidade contra a própria civilização, os sonhos dos homens são os dejectos soltos das suas escamas, tu não és, por favor, pára, tu não és, senão uma rocha pela qual passei, onde descansei. O Sol que bate nas rochas é eterno e omnipresente. Tu és um capricho do tempo. No olhar do réptil tudo o resto acaba, porque tudo é verdadeiro.
Acaba, acaba, acaba.
Cabra cega.
Acaba. E devora-te no teu canto lésbico. O Sol não é para nós.
Eu, Sou, Quieto, O Escuro, o Sol, Acabo, Aqui, Agora.
Não tens nome, e possa eu, Senhor, nunca mais ser enganado. Deixa a tua morte na morte. Só eu, Sol, Vivo no Cadáver. Afasta de mim as mulheres e os homens, e deixa-me ver as coisas que só tu sabes nos grãos desérticos.

Monólogo e a Sombra que (é) Muda





Se nunca mais nos víssemos, inventariamos que nos víamos.

No dia em que o homem não viver na ilusão será outra coisa qualquer. Não um homem.

Menos uma ilusão mais três tomam o seu lugar, é uma hidra.

Despes-te de ilusões = despes-te de sonhos = despes-te de ti.

As sombras não têm sombra, não falam com ninguém quando as quatro paredes se fecham. Se não for eu a brincar com a minha sombra, torno-me nela.

Se passares por mim, como luz que passa por mim, vejo-te. Se cresceres contra mim, ficará escuro, taparás o Sol, é a única forma de nunca mais nos vermos, e é a única forma de me agarrares em vez de passares por mim.

Se nunca mais nos virmos, imaginarei que ficarás eternamente a tentar descobrir o mistério do cubo, porque o cubo és tu, e tentar descobri-lo é deixares de ser tu.

Ou que estás a arranjar as unhas, com os gatos a cobrirem o chão, e a caírem do tecto, e a cruzarem e rebolarem nas paredes, tu espreguiças-te, sempre que arranjas as unhas estás nua. E o gato que sorri quando te espreguiças é o único mistério do cubo: que o cubo é feito de espelhos. Que a luxúria resolve todas as equações que a razão fracciona.

Tu não respondes.


Ela:
Estou a fazer o cubo.

Klimt









Era um dia em que o Anjo, ao lado da minha cama molhada de suor e encharcada de escuro, tinha uma sombra embuçada que se dobrava, como um animal que fareja à procura de morte. O meu tecto era a Noite. Ele dobrou-se sobre o meu peito para me devorar o coração, soube vê-lo espelhado no canto do olho. Quis voltar-me para mim: "shhh" foi a resposta da sombra do Anjo. "Se retirares agora o teu olhar das estrelas, a tua alma será lesada para sempre."

O veneno da serpente é os leões. A porta abre-se sempre para os dois lados simultaneamente. Dentro da câmara, o meu corpo flutua, o seu peito aberto num coração que eclodiu, o meu corpo gira em volta do coração suspenso no ar. Existe sangue, as paredes escorrem tinta negra numa nota de suicídio:
"Soltei um Leão"
Existe muita luz, nesta escuridão, e por isso os homens encandeiam-se com a bruma.
As palavras voltam-se contra a voz. Mata-me, amor, para que a voz viva.
Lenha, todos aqueles que mais amei, lenha, tudo aquilo que mais amei, fogo.
A letra da Voz é a cinza.

Relações Humanas





E odeio, odeio de morte e com as vísceras estes pedaços de pó que gostam de dançar em meu redor, estes vazios que a vida faz bailar sem brilho.

A solidão, a solidão fantasmagórica das sombras que se bebem nos bares ao som de músicas cavernosas como se os outros a nosso lado fossem companhia. Oh! Possam os hologramas, num futuro recente, substituir as pessoas com cheiros pestilentos. Mas depois, dá-nos aquela vontade de esmurrar, de enfiar o caralho nalgum sítio e para isso falta-nos a carne! Como nos poderemos babar sobre um pescoço de fêmea a copular? Babamo-nos para cima de um pescoço qualquer, molhamos os punhos de sangue, e deitamos fora. Agora já estamos saciados...

Será que ninguém vê que esta já é a realidade que vivemos? E todo o ritual emocional, banalizado ao preliminar da necessidade, da fome de amassar alguma coisa e perguntar: "está escuro, existe luz por aí?", "está frio, tens chama? tens de comer?" E faz-se uma refeição aquecida a micro-ondas. Pronto a comer. Pronto a comer. Pronto-a-comer. Até os casamentos se chamam "happy meal", com um sorriso "I'm loving it" e come-se num instante.

Disse-me:
Apetece-me "Comer-te".

Respondo:
Bebe também as minhas lágrimas.

O Buraco do Inferno


"A Finisterra, o buraco do inferno" todos me dizem.

Eu digo que a minha terra, a nossa terra, tem uma alma, e não me refiro apenas ao povo ou às tradições do povo. A terra que pisamos, essa mesma. É dela que falo. A terra que vivemos.

Eles dizem que a minha terra gosta de todos os chulos e de todas as putas. Dizem que o calor queima e que o frio corta e que os contrastes arranham, que quando se encosta o ouvido à areia não se pode ouvir nada, que o amor não está lá. Dizem "A tua finisterra é o inferno" e eu sorrio, a lenda diz que todas as sombras, no seu pico, acabam aqui. Dizem "a tua finisterra é o inferno" e partem, partem todos.

Eu digo que os chulos e as prostitutas não me interessam, que não sou português mas lusitano, que uma planta não é responsável pelo bicho que a consome. Pergunto-me porque são tão ingratos, que não reconhecem a mãe da sua infância, da sua adolescência, da sua vida toda. Que há sangue meu derramado aqui, que há sangue dos meus que bebi aqui, nesta terra de cálice.

Dizem:
"Mãe é quem nos ama", como se não tivessem conhecido o amor. Como seres que nada amam.

The Principles of Hell



Dedicado a pUnChdRuNk-LoVeSiCk





Uma lei de confluência moral sistematiza-se e articula-se de modo a fazer pensar que, aquele que foi imoral, terá por fim a boca do verme no apodrecimento da carne e que o que, ao longo da sua vida, permaneceu a salvo das imprudências, será recebido nas palavras cantadas dos santos.

Aí, são as bocas dos santos que nos consomem o invólucro e a prisão corporal, à imagem de que, os vermes, que em verdade, nos devoram o cadáver, pareceriam em vez simbolizar a degeneração da alma.

No entanto, depois da morte, o santo volta sempre ao mundo na forma de verme; e se um homem nasce santo, é o verme que nasceu no interior que o faz santo.

Por exemplo, em detrito antagónico, a transformação do verme em borboleta não significa a mutação de um pecador em redimido, mas sim a metamorfose de anjo para a forma de cobra. Justificamo-lo no facto da vaidade da borboleta, intencional ou desprovida de intenção, todavia notada por todos os olhares, e conduzida para a chama para a sua consumição no fogo diabólico, como todos os empreendimentos dos quais paixão e vaidade tolda a prudência e utilidade.

A chama que a consome, e a boca dos santos, não diferem, porque a chama, vista de dentro, é uma e a mesma com a boca dos vermes. Não é nada como a boca dos vermes, mas como o orgulhoso estandarte de reis, do ponto de vista exterior.

É de notar que estes fogos condecoram o orgulho como as penas decoram a vaidade do pavão, e no pavão, que por conveniência relacionarei a Melek Taus, tudo seduz, Senhor das Luzes que deseja um mundo à sua imagem e por conseguinte imortal. O motivo da civilização nasce neste ponto, pelo qual é educada. E, utilizando a conveniência metafórica do Senhor das Luzes, o seu trabalho principal consiste das civilizações, à medida que o deserto (enquanto os impérios erguem e quedam) lhe é permanente habitação (mesmo nas cidades) e reino, onde nem Deus daria entrada, ou onde não seria permitido entrar senão pela consciência do Ente mencionado. E se por um lado Deus não poderia ultrapassar as barreiras e os limites desse deserto e habitar com Ele, por outro, todos os santos ousam e têm necessariamente de ousar a travessia.

As bocas e os braços de Deus são os vermes, e, à medida que o Senhor do Mundo labora em direcção ao infinito e à imortalidade da vida e do conhecimento, o labor das mil bocas dos vermes é destruir o mundo, de encontro à pureza primordial e absoluta de todas as coisas. Deus faz o mundo acabar permanentemente.

O santo, que atravessa o deserto, é símbolo à crucificação na mesma medida em que esta não diferiria do voo da mariposa e da borboleta em direcção ao fogo. Assim é com os homens que ousam, porque o verme, nunca notado, se assemelha a um anjo invisível, e a borboleta colorida a um diabo dançarino e a um fogo-fátuo. Não obstante, no momento em que a borboleta penetra no fogo que a atrai, aí a sua existência exterior quebra e mostra-se frágil, consumindo-se. O fogo que antes a atraía pelo exterior e no qual se queima presentemente pelo interior, são as luzes e as luzes a ilusão e os sonhos inquietos da escuridão: este fogo, que era externo, tornou-se interior, e por isso é deserto. Não esqueçamos a chama que consome, no interior, como a boca dos vermes e que se tornou pois na aparência exterior da borboleta por sua vez consumida, e é assim que iluminam o Mundo com o Fogo Negro.

A caveira de cada santo sepultado é pois análoga ao lampião que permanece nas torres mais altas do mundo.

O problema da Torre de Babel é que foi construída para cima, em direcção ao mundo dos reflexos, e não para baixo, onde se encontram as estrelas.

Construir uma torre que alcance as alturas, é semelhante ao voo da borboleta, a cova é o trabalho do verme.

Construir uma cova para alcançar as alturas, e uma torre alta para tocar as profundezas, é o trabalho do Mago.

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*ver The Giant Kings of Hell

e Jamais




A Fornalha

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Casamento
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A forma como matamos as coisas é determinada pela água ardente da beleza com que as bebemos. Deste modo, o casal beija-se na sua viagem contemplativa e conjunta do mundo, dança por cima dos próprios beijos e fornica ao som da vulnerabilidade que cada um causa no outro. Quando se dá o comprometimento das almas, o pensamento se unifica em causa mesma e os corpos, um do outro, exigem as almas, cada um tem um colóquio com os infernos que presidem sobre todos os votos.
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Os coros são compostos de máscaras, as máscaras são compostas do despir das máscaras, das drogas inseridas na seringa da rendição. Para a outra pessoa, existe uma espera cheia de coisas estranhas que parecem familiares. Depois, as criaturas de máscaras despidas de máscaras, pegam fogo ao primeiro, e o primeiro explode com o segundo.
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O fogo nunca espera, e os dois tornam-se na espera que arde.
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Mundo
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A noite lambe, húmida, vazia, as fendas do mundo. As janelas também pegam fogo. Mephisto inunda o mármore das estátuas de chama bailarina.
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Dentro das fendas do mundo, duas crianças gémeas, dois pequenos anjos, menino e menina, gostam de cantar, como se a jaula não cobrisse a voz. Os mortais absorvem a música para dançar em orgia. Prostituem-se em pactos orphicos de fogo, whisky, lambem-se nos pés e fodem como serpentes.
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O homem e a mulher deixam de ser dois, na unidade da carne; e na carne os dentes agudos do espírito.
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Maçã
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A lenda diz que a beleza é uma puta drogada e masturbatória, que se masturba para masturbar a força no acto de a esvair. A força trabalha dia e noite nos vales secretos do mistério, para a recolha dos diamantes que, sem chegar a conhecer, entrega na fornalha prateada da pele bela, à espera do fruto atormentado da tormenta. Um dia, a beleza suicida-se no seu excesso, então, triste, a força sepulta-a em paredes de vidro e cristal, arrasta-a, na noite, ao mais alto cume da montanha, e canta lamúrias. Daqui, nasce a sabedoria. A lenda conta que só uma maçã pode voltar a quebrar a Santa Morte.

The Giant Kings of Hell



*Imagem de William Blake

Um Rei não hesitaria em esmagar um verme na estrada. Embora o seu orgulho real não passe de palha soprada pelo vento.

Nem o cortesão, o burguês, nem o mercador, nem o escravo, ninguém hesitaria em pisar um verme se o verme se coloca na estrada. E se o verme está à berma da estrada, ninguém perderia tempo em pisa-lo.

Por isso, o mundo acaba na boca dos vermes.