
* imagem de Phallucifer Babalith
"Eles juntaram-se na treva para pensar e reflectir. Foi assim que vieram a decidir qual o material correcto para a criação do homem."






Chopin, Nocturne, opus 27 #2
http://www.youtube.com/watch?v=asDXpfFMKNA&feature=user
Junto ao rio Tejo, num banco informe, vejo as minusculas ondas palpitantes num ritmo único, e lembro-me da cor safira que os nossos olhos ganhavam quando se entrecortavam e se faziam mais que dois por um serem. Penso nas ideias belas que o homem solta do cérebro. Na dança das imagens que rodopiam em redor das coisas do amor, quer numa casa sózinho que é quarto de pensão nas memórias brancas da solidão acompanhada, quer nos instantes de dois junto ao mercado do Porto populado de pombos. As tuas unhas na minha pele e o vinho bebido que soltavam. A minha dor na pele que era um conforto do fermento da tua pele. A Lua que acompanha o sonhador abandonado de uma tarde finda. A calunia da mortalidade em tudo o que é imortal e saber dança-lo em passos de alma. A tristeza das coisas que foram alegremente fundas e se esquecerão para sempre de deixar de ser. Iluminas-me no meu canto escuro, porque a noite chegou e o rio é a espessura da isolação que corre. Iluminas-me no meu singelo cantar. A minha voz cheia de ti. Por isso sei agora que sou só eu e eu só, que sou completo.
Modigliani (THEME) - Original Theme Song - My Reason
http://www.youtube.com/watch?v=RqWqwKRqUfk
Um homem caminha, contra o vento oco lançado na noite, os seus olhos humidos de emoção, prosseguindo quase arrastado e a sentir impossivel o desfeche, embora nada tão fluido. Leva um caderno na mão, debaixo do braço, e sente solene a presença das palavras, as ultimas memórias do amor esmagadas contra as folhas. Tudo vai continuar lá, como antigamente. Só ele morrerá como uma brasa que, arrancada à fogueira, se quis salvar e que hoje fumega os fantasmas do passado mas chora a eternidade ainda presente.
Um abraço. Que ele dá. Independentemente de tudo.
Gothic piano Volume IV – Ethrendas
http://br.youtube.com/watch?v=nja76tnUv5Q&NR=1
Ela cresce contra o céu apertado da noite, quebra os ovos da percepção, e inunda o tempo de fogo. O futuro abre os olhos e cria para trás. Molhamo-nos na corrente de flama e dançamos os amores passados. A memória como um pilar de força, e as nossas palavras a beijar a existência.
A vida num instante e o instante nas abobadas do teu olhar fixado nas prateleiras dos meus sonhos. As tuas mãos são o meu coração e os teus lábios a minha garganta bebida. Sentir que nunca mais partiremos, e que nem a terra nem a lua são um lugar de verdade. Que o tempo não é uma passagem.
O teu rubor é o meu sangue, a tua palidez a brancura de mim vertida, o teu sorriso o punhal do meu viver.




Rachmaninov plays Rachmaninov: Elegie
Ela entra a passos lentos, descalços, a sua saia escarlate bailando e senta-se quieta aos seus pés, ali, onde as cerejas crescem quietas e, quietas continuam a crescer. Fica muito parada, a escuta-lo muito, ele na sua veste de mar antigo e chuva crepuscular, ela parada, a escutar o seu olhar com tantas palavras ditas por dizer.
Tudo é muito quieto e é muito quieto durante muito tempo. E quando ele começa a dançar, quando o vagar é do primeiro passo, tudo se tornam dedos de escritor e pianista.
Contam-se as histórias de todas as noites em que houve velas.
http://www.youtube.com/watch?v=UZnUMKCzsus
Mozart " Eine kleine Nachtmusik" Allegro
A menina de olhos verdes abre as pálpebras que tremem ao Sol. Ergue-se do verde como quem saltita, e segue o rio. O menino de olhos verdes é um pássaro que segue contra o rio, e rodopiam numa outra corrente que sobe, que desce e que sobe. A menina fecha os olhos e toca o sol com as pálpebras, porque param. Segue contra o rio e ele segue a favor do rio e rodopiam e o rio é um furacão fresco de alegria. Sentam-se palpitantes e desenham histórias com os dedos no ar, expressivos e dançantes. O verde namorisca o vento que salpica a água. Erguem-se de um salto e chove, não se tocam, senão com a alegria radiante dos corpos distantes. Fecham os olhos e abrem os olhos e o menino é pássaro é homem e ela dança e dança e a floresta ri-se com o rio.
http://www.youtube.com/watch?v=Qb_jQBgzU-I&feature=related
"The RIde of the Valkyries" from Die Walkure
Contra remoinhos e a fúria dos elementos, contra ventos e os homens tormentos, navegam os cavalos sobre a terra de serpentes e feras, a brisa nos cabelos e o sorriso como uma fenda clara de céu.
Perscrutam as maravilhas do verde e do amarelo que borbulham no ar, com olhos laranja de fogo. Todas as serpentes de cabeça comida. O riso triunfal dos bárbaros na sapiência dos edifícios de mármore onde os homens se reúnem para ler as colunas antigas.
O mundo cai e cai numa espiral, elas cavalgam a queda e voam, os cabelos contra a corrupção do tempo. Os estandartes orgulhosos erguidos contra as montanhas negras. O clarão do homem que se ergue ao Pôr do Sol como um Sol Nascente.
As almas que são uma na moção, sem palavra ou outra oração. As estrelas na ponta dos dedos que queimam e cintilam de riso e vitória, e as mulheres cospem as chamas e molham os campos.
http://www.youtube.com/watch?v=GSKL5E3zSjs


Se nunca mais nos víssemos, inventariamos que nos víamos.
No dia em que o homem não viver na ilusão será outra coisa qualquer. Não um homem.
Menos uma ilusão mais três tomam o seu lugar, é uma hidra.
Despes-te de ilusões = despes-te de sonhos = despes-te de ti.
As sombras não têm sombra, não falam com ninguém quando as quatro paredes se fecham. Se não for eu a brincar com a minha sombra, torno-me nela.
Se passares por mim, como luz que passa por mim, vejo-te. Se cresceres contra mim, ficará escuro, taparás o Sol, é a única forma de nunca mais nos vermos, e é a única forma de me agarrares em vez de passares por mim.
Se nunca mais nos virmos, imaginarei que ficarás eternamente a tentar descobrir o mistério do cubo, porque o cubo és tu, e tentar descobri-lo é deixares de ser tu.
Ou que estás a arranjar as unhas, com os gatos a cobrirem o chão, e a caírem do tecto, e a cruzarem e rebolarem nas paredes, tu espreguiças-te, sempre que arranjas as unhas estás nua. E o gato que sorri quando te espreguiças é o único mistério do cubo: que o cubo é feito de espelhos. Que a luxúria resolve todas as equações que a razão fracciona.
Tu não respondes.
Ela:
Estou a fazer o cubo.



"A Finisterra, o buraco do inferno" todos me dizem.
Eu digo que a minha terra, a nossa terra, tem uma alma, e não me refiro apenas ao povo ou às tradições do povo. A terra que pisamos, essa mesma. É dela que falo. A terra que vivemos.
Eles dizem que a minha terra gosta de todos os chulos e de todas as putas. Dizem que o calor queima e que o frio corta e que os contrastes arranham, que quando se encosta o ouvido à areia não se pode ouvir nada, que o amor não está lá. Dizem "A tua finisterra é o inferno" e eu sorrio, a lenda diz que todas as sombras, no seu pico, acabam aqui. Dizem "a tua finisterra é o inferno" e partem, partem todos.
Eu digo que os chulos e as prostitutas não me interessam, que não sou português mas lusitano, que uma planta não é responsável pelo bicho que a consome. Pergunto-me porque são tão ingratos, que não reconhecem a mãe da sua infância, da sua adolescência, da sua vida toda. Que há sangue meu derramado aqui, que há sangue dos meus que bebi aqui, nesta terra de cálice.
Dizem:
"Mãe é quem nos ama", como se não tivessem conhecido o amor. Como seres que nada amam.

Uma lei de confluência moral sistematiza-se e articula-se de modo a fazer pensar que, aquele que foi imoral, terá por fim a boca do verme no apodrecimento da carne e que o que, ao longo da sua vida, permaneceu a salvo das imprudências, será recebido nas palavras cantadas dos santos.
Aí, são as bocas dos santos que nos consomem o invólucro e a prisão corporal, à imagem de que, os vermes, que em verdade, nos devoram o cadáver, pareceriam em vez simbolizar a degeneração da alma.
No entanto, depois da morte, o santo volta sempre ao mundo na forma de verme; e se um homem nasce santo, é o verme que nasceu no interior que o faz santo.
Por exemplo, em detrito antagónico, a transformação do verme em borboleta não significa a mutação de um pecador em redimido, mas sim a metamorfose de anjo para a forma de cobra. Justificamo-lo no facto da vaidade da borboleta, intencional ou desprovida de intenção, todavia notada por todos os olhares, e conduzida para a chama para a sua consumição no fogo diabólico, como todos os empreendimentos dos quais paixão e vaidade tolda a prudência e utilidade.
A chama que a consome, e a boca dos santos, não diferem, porque a chama, vista de dentro, é uma e a mesma com a boca dos vermes. Não é nada como a boca dos vermes, mas como o orgulhoso estandarte de reis, do ponto de vista exterior.
É de notar que estes fogos condecoram o orgulho como as penas decoram a vaidade do pavão, e no pavão, que por conveniência relacionarei a Melek Taus, tudo seduz, Senhor das Luzes que deseja um mundo à sua imagem e por conseguinte imortal. O motivo da civilização nasce neste ponto, pelo qual é educada. E, utilizando a conveniência metafórica do Senhor das Luzes, o seu trabalho principal consiste das civilizações, à medida que o deserto (enquanto os impérios erguem e quedam) lhe é permanente habitação (mesmo nas cidades) e reino, onde nem Deus daria entrada, ou onde não seria permitido entrar senão pela consciência do Ente mencionado. E se por um lado Deus não poderia ultrapassar as barreiras e os limites desse deserto e habitar com Ele, por outro, todos os santos ousam e têm necessariamente de ousar a travessia.
As bocas e os braços de Deus são os vermes, e, à medida que o Senhor do Mundo labora em direcção ao infinito e à imortalidade da vida e do conhecimento, o labor das mil bocas dos vermes é destruir o mundo, de encontro à pureza primordial e absoluta de todas as coisas. Deus faz o mundo acabar permanentemente.
O santo, que atravessa o deserto, é símbolo à crucificação na mesma medida em que esta não diferiria do voo da mariposa e da borboleta em direcção ao fogo. Assim é com os homens que ousam, porque o verme, nunca notado, se assemelha a um anjo invisível, e a borboleta colorida a um diabo dançarino e a um fogo-fátuo. Não obstante, no momento em que a borboleta penetra no fogo que a atrai, aí a sua existência exterior quebra e mostra-se frágil, consumindo-se. O fogo que antes a atraía pelo exterior e no qual se queima presentemente pelo interior, são as luzes e as luzes a ilusão e os sonhos inquietos da escuridão: este fogo, que era externo, tornou-se interior, e por isso é deserto. Não esqueçamos a chama que consome, no interior, como a boca dos vermes e que se tornou pois na aparência exterior da borboleta por sua vez consumida, e é assim que iluminam o Mundo com o Fogo Negro.
A caveira de cada santo sepultado é pois análoga ao lampião que permanece nas torres mais altas do mundo.
O problema da Torre de Babel é que foi construída para cima, em direcção ao mundo dos reflexos, e não para baixo, onde se encontram as estrelas.
Construir uma torre que alcance as alturas, é semelhante ao voo da borboleta, a cova é o trabalho do verme.
Construir uma cova para alcançar as alturas, e uma torre alta para tocar as profundezas, é o trabalho do Mago.
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e Jamais
