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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dentro da Mata Virgem




Um dia, colocado frente ao comboio deslizante, para enfrentar a morte, senti, antes do segundo que aproveitei para escapar do embate, o mundo estarrecer e parar todo, comigo incluído. Depois, o corpo tremia e a mente sem ventos. Descobri que a sensação de se estar frente a frente com a morte é exactamente a mesma sentida, daquelas duas vezes, em que durante as minhas evocações de magia cerimonial as criaturas trouxeram aparição em peso, carne e osso, a respiração paralisa, a minha e a da natureza nas redondezas - e mesmo o coração desvanece para o silêncio do trovão.

A ti não te evoquei, embora te pressentisse desde que me lembro de ter nervos nos veios do tempo. Os nossos olhos cruzaram-se num bar e eu revi-te de frente para traz no horizonte dos dias. Descobri, só depois, que a tua nudez, a tua em específico, apresentava para mim os sintomas relatados no anterior parágrafo, mas em que se conseguia, dentro daquele estado, gradualmente, respirar, e que o coração despertasse e se vivesse e fluísse naturalmente no interior do próprio samadhi.

Quando, ao nos encontrarmos, deixámos de pensar no ruído lá fora, fizemos o nosso jejum, de comida e de sono, e adereços semelhantes que interferissem com a água que somos a fluir um no outro. O teu olhar silencioso, belo e misterioso enchia, pouco a pouco, o ar de melodia e doce murmúrio. Enxames de pequenas criaturas brilhantes, que não eram fadas nem insectos, e muito menos pássaros, mas estrelas cadentes, mergulhavam, desciam e subiam, como a humidade das nossas almas a derreterem-se (expandirem-se) uma à outra. Ensinei-te o preço da minha nudez enquanto metafísica. Respirámos para dentro um do outro, com uma mão na nuca e outra no sexo, enchemos-nos como sóis que se reflectem mutuamente, os animais nocturnos entraram em alvoroço e, calando-os e até as estrelas, fizemos amor.

Quando voltaste, sozinha, a passear o rio que ladeava o mato, viste nadadoras com grandes olhos luminosos, mãos despidas, pernas voluptuosas e peles brilhantes, com olhares sempre virados para cima, para a superfície, estendendo graciosamente os braços brancos para a margem de uma ilhota ou de um salgueiro. Todas tinham a tua figura.


Horned Wolf

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aquele Que Está Diante de Deus




Á esquerda do jaspe e da sardónica,
Envolto num arco íris de esmeralda
Contorcia-se um relâmpago vestido
Com as neves longas do Inverno
E munido de um rosto ao Sol.

Na Igreja, só a fronte de alguns
Brilha. No céu, Adão possui chagas
Tudo o resto, asas, mas nem todas
As asas, em tamanho são iguais.

Á esquerda do Rio Tigre, um raio
Dourado, com corpo de crisólito
E bronze nos membros, fazia arder
Os fachos dos olhos.

No céu, todos seguram espadas
E o Príncipe do reino da Pérsia
Ainda não está no Inferno,
Mas nem todas as espadas, são,
Em cumprimento, proporcionais.

Só podemos ter um corpo novo
Se cairmos para cima:
Cabelo de mulher, dentes de leão
E vulto de homem, asas, com estertor
De batalha, e caudas de escorpião
Para assustar a morte.
Há centenas de milhões de cores
Que nem sequer conhecemos.


Horned Wolf

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Deeper Shade Upon Her Name


Hooded Figure on Hallowed Ground - Gary Corb


No término da prata-além
O seu título de negrume
Abrasa-se e espalha-se com aras
O ventoso esquecimento esmorece
E bailam um lume, as lunares folhas
Da sombra campestre.

Abre-se alada, eclipsada,
Uma gruta de lobos
E levanta-se a brilhar
Com orgulho e em colisão
Com o topo da Lua.

A forma funda santifica
A treva de estar
Nua.

Envolvem-se os poemas
E na fera giratória
A água levita-se
E torna-se memória.


André Consciência

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Jibrael


Parsifal - Delville

Um burburinho louco passa pelas cidades desconstruídas do nosso dia-a-dia. Nada nos marca e tudo é, não obstante, tão fundo quanto somos. Tanto tenho a dizer e com eloquência bastante sobre a nossa actualidade, no entanto a loucura simulada é a única resistência, o simulacro negro e desesperado do neo-Dionísio. Uma virulência requintada invadiu a racionalidade dos homens e a graça das mulheres. Todos somos as suas presas uns dos outros. Não pretendo ser poético, há música bastante na electricidade que nos perfura e nos liberta de nós mesmos, no anjo inimigo da carne e apologista do auto-consumo do eu. Pai, se te lembras de nós, que somos poeira e esquecimento, aproxima a tua estrela. O inútil cresce e pressiona-nos a trabalhar sob a sua cruel e luminosa espada, espicaça-nos o espírito e mói-nos no lodo de carícias longínquas. Ímpios se tornaram os teus ministros, o escárnio habitou a boca dos teus juízes, a santidade escolheu o rosto dos pecadores. Dia e noite medito na queda dos templos, nas prisões derramadas. Faz-me como uma árvore plantada junto às correntes de águas, para que rompa os edifícios e as teias dos que sem a tua graça prevaleceram na tua força. Porque tu conheces o caminho dos ímpios, mas o vulto das pedras e do teu corpo primeiro conduz à sua ruína. A anarquia dos anjos paira sobre as cidades ensopadas da ausência de sangue. Há muito caíram as nações e os povos, todos. Os teus anjos reúnem-se num louvor de mentira e de vaidade. Deito-me com o meu coração no leito. Que os meus ossos sejam como a sombra de ti e que o meu vulto seja. Que na morte haja uma lembrança de ti e no Seol eu te louve. Tu, que puseste na escuridão o teu sorriso em toda a terra, os teus dedos na montanha, no chão, no céu, a esquecer-se dos impérios, infernais ou celestiais. Vede agora, como a perfídia se desfaz em tudo o que passa pelas veredas dos mares, no céu que adentra a ave, no mar dos bois, no campo dos peixes.

Horned Wolf

terça-feira, 7 de junho de 2011

Procelária




A encosta com cheirinho a caldeirada de peixe
Oeste nada tem que o assinale, nas saias
De uns montes, cumes escarpados e o trilho vira
A tarde avança, as tonalidades do Sol fazem reflexo
Sobre a pedra cinzenta, o caminho para o império
Das ilusões, bebido no archote das cobras.

Cristalino e brilhante, escuto,
Vai chover. As crianças brincam
Nadando com a electrididade do ar
Lá no alto, o ninho do amor
Cerca o meio-dia, ouves o barulho
Dos risos a bater, um cântico de gemidos
No tufo das árvores.

Segura no Sol, ó Anjo, e brilha sobre mim,
Escala comigo, ó Anjo, e faz-me de marfim,
Conta comigo as almas que caíram, no jardim
Para teu prazer, e desdobraram os lírios
Arrancaram a sombra ao rosto do amor
E as cicatrizes ao corpo do louvor.

Vislumbro a terra dos teus ombros, abençoada
A multidão de fantasmas até ao fim do mar
A sua pele coberta em ouro, e a boca
Onde os homens acabam - as encostas geladas
Do teu corpo - aquecem as embarcações que embarcaram.

Ó príncipe na neve, sento-me sob a tua juba,
Sobre a tua anca, e na minha pele estival repousam
Os amores que tanto ousam.

Aos pés das suas estátuas jaz Deus
A sua carne ciclicamente despedaçada
Nos troncos da alvorada.


Horned Wolf

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mundo Sem Fim




O anão só com um braço
Fita, do salão sumptuoso,
O porto: Um mar de vinho
Mudo.

As brisas da noite, muito
Antigas, chegaram também
A estas paragens.

As mulheres desapareceram todas
Correm na luz ao longe.

De vestes negras inclina-se
Deus, sobre o corpo de um anjo
Conjura alguma coisa da cabeça
E do coração do cadáver.

Uma aranha com asas fita através do fumo
O leste dilacera-se
O anão encosta o barco à praia
Os penhascos brancos
Acolhem ninhos de amor.

Nunca mais eu terei de conter
Uma gota
Do meu rio.


Horned Wolf

sábado, 14 de maio de 2011

O Horror dos Templos IV


Purgatory Travelers - Emanuel R. Marques



Dunas sobre pedras, as mãos sobre o escorpião,
Esmagas o crustáceo sob a botas e vasculhas os seus membros
Dilacerantes, encontras sacos pequenos de algodão,
Brancos e... variados.

Dentro de um frasco de vidro o homem verde ervilha
E minúsculo, com asas pontiagudas oferece pulos alegres.

Tira-me daqui. Leitor, tira-me daqui:
Eu grito dentro de um frasco transparentes nas entranhas
Avolumadas, do lacrau. Quando me ergo para
Vos falar, abro-me como um ovo, voo para fora
Perscrutando a vossa alegria e cantando inaudivelmente
E borrifando-vos a cabeça com um pó brilhante.

Os novos templos são a poesia, a pintura, a infâmia
E a heresia.

Se te queres proteger do Sol, leitor, se
Pretendes continuar comigo, usa o escorpião do avesso
Como lenço para a cabeça. De cabeça e pescoço tapados
Caminhas para Sul. E não existe um único ponto
Nesta única paisagem, em que possas encontrar uma
Sombra.

Não gosto de usar a palavra "embora" nos poemas,
Tento distinguir o que encobre a bruma difusa e vislumbro
Um muro alto. A pedra encontra-se a menos de um quilómetro de mim
Aos saltos, e és tu. Por detrás desse muro erguem-se
Ao compasso dos segundos, telhados de torres.

A areia, tomada de paixões pelo vento e assim arrebatada
Acumulou o muro até meio. Não existem ou existiram pegadas
Fora da imaginação.


Horned Wolf

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Abrahadabra

Dedicado à Marta Amado Ayahuasca - Babalith


Procuras uma habitação de ferro
Cria tu a tua força a partir do nada
E adora-a como sendo nada.

Ele aguarda em silêncio
A beleza primal, a força
E a vida. O intelecto brilha
Na sua fronte.

A sua mão levanta e toca o sino
No Abismo.


Horned Wolf

A Voz da Serpente

Ao blogue A Voz da Serpente no seu quinto aniversário
Miasma of Secretions - Babalith


I

Vede como é bela a sua cabeça em cascata
Uma mão globular com uma miríade invisível
De dedos ao Sol alegre das tempestades
Que o amor prende à delicadeza sua,
De mulher, a santidade um rio que bóia
Cantando o perfume das flores magoadas
Uma cor de céu a transmitir a Deusa.


II

Judeus, a cair dos pinheiros,
Dinheiro a escorregar das banhas
De um velho gordo
Asas recolhidas em abismos
Poças de sapo,
Homens de prudência tornados
Bandidos.


III

Um pedaço de tecto [abismo]
Num montículo de poeira à esquerda
Tu serás a minha lápide de terra
Esquece-me e solta-me
Uma estrela reparada por amantes
Nesse quarto inacabado
E eu adormecerei na tua campa dourada.


IV

Mortos, a tropeçar tempo adentro
Sobre os ossos da noite,
Colocam-se no altar
Da razão juíza
Os meus olhos expandem-se
Para lá da preocupação
No fogo aéreo
E sem desejo
Amanheço.


V

O silêncio do país desejado
A dormir quieto, de chuva branda,
As casas, ali, engoliram
Os jogos.

As árvores desceram, com seus ramos
E raízes, os corpos húmidos das crianças.
O sossego abateu os pássaros.

As ardósias retiram as dobras
Que restam à noite, fazendo-a
Lisa, abençoam o mal para criar
Caminhos, terra seca e água.


Horned Wolf

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Thou Art Continuous



Fritz Lang's Metropolis - The Whore of Babalon
Priest & Priestess Speech from Liber XV - Gnostic Mass


0. Não há por dentro e por fora.
1. A receptividade cessou e tornou-se toda ela em criatividade.
2. A razão chegou ao fim e tomou a sua forma original, poder.
3. Os corpos desapareceram e passaram a ser os seus actos.
4. Não existe o cepticismo, mas a embriaguez da loucura.
5. As essências criativas são da mulher.
6. O poder é da sombra da mulher: os deuses.
7. Os actos são do homem.
8. A loucura é uma segunda mulher, e resulta do poder com o acto.

9. Até ao seu pescoço o homem é uma serpente, e não está sozinha, mas envolve-se numa massa de serpentes.

10. A cabeça do homem é uma essência que frutifica o cosmo.

11. Como espectro inteiro (cabeça aos pés), o homem é a luz de uma estrela.

12. Quando o poder for todo dirigido à essência criativa, se abrirá a terra celeste, onde por detrás de cada professor se esconderá um destruidor de mundos.

13. A civilização na terra celeste é o caos erótico dos corpos do avesso.

14. Esta civilização será intemporal, inconcebível, sensível mas somente inteligível, os seus edifícios serão por isso de anti-matéria.

15. Algo parecido com o que hoje chamamos de consciência, vitorioso, emergirá entre a luz manifesta e a imanifesta para viajar o mundo, o mundo quebrará o seu veículo que se derramará sobre si mesmo e cairá no abismo sem fundo do amor. Nesta queda ininterrupta todas as coisas retornam a abrir a terra celeste.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Chacal 418




0. O homem (e a mulher) nasceu dividido e unido por um abismo, do outro lado está o seu amante, a divindade. A travessia é a senda do artista.

1. Deus é o Amor, ele preside sobre a morte e sobre a ressurreição, apenas.
2. A manifestação de Deus, e portanto do Amor, é o Fogo Secreto, é o Sangue, como substância física e como simbolizante da Vida.
3. Para empreender na travessia o peregrino perceberá que o seu sangue, íntimo, é o exterior.
4. O sangue é vitalizado por (1) paradoxos, pelo (2) encontro da atracção com a repulsa, pela (3) fusão do amor com a guerra, pelo (4) encontro de erotismo com o instinto de sobrevivência. O coração é uma esfera, governa sobre o mundo da matéria e das ideias.
5. O sangue vive primeiro na pedra, como vida espiritual. (1)
6. O sangue é em segundo invocado na planta, como consciência, ou seja, como a vida sexual. (2)
7. O sangue é em terceiro invocado no Sol, como a vida animal, e é aqui mulher. (3)
8. O sangue é em quarto transmutado pelo Sol, e absorve o próprio Sol onde vivem os animais, a Lua onde vivem as plantas, e a Terra onde vivem as pedras: isto significa que em quarto o sangue é invocado no Caos, e o Fogo Secreto existe em relação com existir a Noite. Nesta esfera vive o homem enquanto meta do homem. (4)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nuit




O quintal entrava dentro da luz lá fora
O rapaz tinha seis seios
A mãe tentava imaginar uma vontade
Para lhe pôr dentro.

Esta sombra de intenção tinha cores
Mas só diante das palavras.
Era um livro que seguia o silêncio antes
E depois de ser dito.

O quintal lança-se sobre a terra
O presidente ia dizer alguma coisa importante
Toda a neblina vem do rosto a dissolver-se
Na água.


Horned Wolf

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Transfiguração de Jesus


Transfiguração de Jesus - Teófanes, o Grego


Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.

Aconteceu uma memória, a revelação abala a chuva.
É o passado que faz vibrar a natureza, a manhã solar,
O Verão opressivo, Março a atirar-se pelos ventos
E a Lua sem conseguir, no silêncio, parar de cair,
As massas nubladas, a música fria e cristalizada
Que povoa, e abre as esferas no labirinto dessa chuva
Que é aura.

Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre,
E sabe não haver retórica possível.
A vertigem baloiça-se nas massas cinza
Por dentro da janela, a água forma horas e salas de jantar
E fizeram praças nos locais inatingíveis.

A colina desce as casas em toalhas aquosas
Os prédios adentram-se pelos sinos das Igrejas
Ninguém o vê, mas o cão percebe, e ladra.
A água cai, sim, mas é gente silenciosa
Que se levanta dela.

Nas livrarias, o chão de tábuas apodrece de humanidade
E o vento atira-a pela porta.

Eu gritei aos astros até enlouquecer
E a consciência esgotou até às fezes
A minha condição animal.

Todos os dias o cão ladra para uma janela que se não abre.


Horned Wolf

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Crimson Sabellumm

Dedicado à Marta Amado


Crimson Sabellumm - Horned Wolf


sábado, 4 de dezembro de 2010

O Quinto Cavaleiro


Le Blanc-Seine - Rene Magritte



Vem cavalgando em terra albina
O defensor da cavalaria do Sul
Ele traz sete espadas, escudo no braço:
O Anjo que o guia, e se faz seu regaço.

No horizonte escureceu
A luz que se despedia
Vi chegar não sei quem
Acender um livro
Para os cegos.

Para salvar os campos de batalha,
As sereias do mar.
E quem o chama é São Miguel,
Que manda na terra,
Quem está de ronda é Gabriel,
As ninfas do luar.

Por entre os bosques, as dunas
E as serras, passaram as nuvens,
A espuma das ondas,
E ele pôs-se a beber, e ele
Pôs-se a fumar.

Há-de chegar o dia em que as vagas
Pararão de lhe cantar.


Horned Wolf

domingo, 31 de outubro de 2010

Chama Secreta


The Wounded Angel - Hugo Simberg


Quem é esta gente cantante
Que se instalou, na sala,
Em baixo?

Não tentes perceber o candelabro
Esta noite.

Não saias à rua, muito menos.
Há coisas sem manhã possível.
E as manhãs, de qualquer modo
Não servem de nada.
Cala-te, pois, e deixa as rosas
Murchar.

Em baixo, instalou-se gente
Que quem é?

Não procures perceber o candelabro
Na sua luz, esta noite, das noites,
Esta noite, é um candelabro sem luz.


Horned Wolf

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

...


A Calling - William Adolphe Bougeureau


O chão axadrezado, as paredes brancas, uma janela no tecto. Não me vou pôr a embelezar a coisa. Está incenso e luz de vela e lenço estranho com várias cores no altar. Eu com uma pia prateada nas mãos. Procuro não mostrar medo, para não desapontar os crescidos, todos de branco, eu de branco. Bem que podia usar um vestido de menina a ser baptizada – era mais... Falta-me a palavra. Era mais literal. A maior parte das vezes, na sua casa de campo com jardins delirantes, o velho está sozinho comigo, de negro, como um carpideiro, e espalha cinzas na minha testa e na dele para depois administrar a hóstia e fazer-me a queimadura e o sangue. Durante aqueles dias não posso deixar a sala, a Lua entra pela única janela (que está sempre fechada) e o Sol, no espaço frente ao altar, encandeando o resto da sala. Mas há um… Perdi-me. Há um pássaro, isso, um pardal que entra na sala hermeticamente selada, de vez em quando. Canta com muito eco e acaba por se ir embora. O velho dá-me de comer só pão e vinho e rosas (rosas, para não de me ferir muitas vezes). Hoje, ainda como rosas. Às quatro da tarde lê-me as escrituras e canta no que hoje julgo ter sido hebraico, mas não faço ideia, e fica ali, muito magro, a balançar-se para trás e para a frente, depois. Se me apanha a masturbar bate-me com a vara – é uma das coisas proibidas durante o tempo de preparação. Nos últimos dias traz o espelho e tem-me despido quando me lê as escrituras. Só aparece às 4 da tarde, mas a comida e a bebida só devem ser tomadas, restritamente, às 9 da manhã e às 9 da noite (a água várias vezes). Devo orar ao amanhecer até se estabilizar a manhã. Ao entardecer até se estabilizar a tarde. Ao anoitecer, e dormir de forma repartida, de modo que nunca restem vestígios do dia-a-dia. Uma vez chamou outras pessoas e chamou outras vezes. No dia em que o anjo finalmente vem e eu tenho de pôr a cabeça na bandeja de prata a primeira coisa são as fezes e a urina que não se controlam e o liquido seminal e a saliva e as lágrimas abundantes.


Horned Wolf

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Lua & O Gnomo


Annunciation - Anton Raphael Mengs


Lembras-te, de quando escutavas o amor
No cais, e isso te atraia ao precipício negro
Das espirais aquosas? Dos sussurros, lábios
Na tua pele, e pernas em volta da cintura?
Ou o Sol nas mesas dos restaurantes,
Os papeis e escrevinha-los, ou as vezes
Que falavas, e as multidões te ouviam?
Lembras-te da Lua na pele vazia dos tijolos
Pelos quais passava a brisa, e do mocho
Que piava todo moído pelo vento?
Do vinho, e mais nítido ainda, era a sua forma de anjo
No berço das pratas, a pairar sobre ti
Enquanto pairavas? Das mãos gastas
De desgosto, e dos meses com canções
Que rasgam Agosto? Do fogo eterno
E à beira da morte, que guardavas mesmo quando
Te atingia o desnorte? Aqui onde estou
O céu é negro e a terra cinzenta. Eu tenho uma pedra
Na mão, de um violeta que cintila com o pulsar
Do coração. Lembra-te de mim como um cisne
Que morreu. E desta pedra espreita
A rotação das estrelas.

Horned Wolf

sábado, 25 de setembro de 2010

Evocação III


Lunáticos - Cordélia Urueta

“A esposa roga pela alma de seu esposo e pede para ele refrigério, e que volte a reunir-se com ele na ressurreição; oferece sufrágio todos os dias aniversários de sua morte” (De monogamia, 10).

Através da única janela no tecto um pedaço de céu roxo condensa-se no triângulo com a velocidade a que a cinza dos incensos cai. És difícil de definir. Um conjunto configurado de uvas azuis ou como eras, excepto que vestida de um olho ciclópico e vulcânico. Todos estamos cansados. E isso lembra-me o mar e o barco quebrado que escolhemos enquanto assombramos o eléctrico alto mar. A sombra da Lua canta magnética. Não temos esperança, e isso agrada-nos hoje mais do que nunca. O barco é só uma desculpa para o naufrágio. Se apenas conseguisses quebrar esta Oroboros... Despimos-nos na Lua, hoje não te guardo rancor. Amo-te. Os teus seios, duas manchas de pus amarelado. Sim... Amo o bem, e o bem não te conhece. Já ninguém te encontra. Não chores.

Horned Wolf

sexta-feira, 12 de março de 2010

Casa de Morcegos, Saúda os Senhores no Trono


Cotz'na

Fui deixado por morto na Casa de Morcegos. Não é verdade? Pois olhai bem para os meus destroços e do que são feitos, de que forma a lâmina dos focinhos quirópteros se enterra em mim. A questão a traduzi-lo põe-se: como posso ser inteiro se momentos vários da minha vivência inteiros são? Sou assim dividido e sendo dividido o sangue escorre. É fácil adormecer e deixar que os morcegos operem o seu milagre às escondidas da vigilância, mas eu deverei penetrar a minha Palavra viva na insónia eterna e sobreviver como testemunha. Mas os morcegos penetram até a Palavra, e a palavra fragmenta-se em várias nuvens de memória movediça. Tal como na morte, toda a minha vida passa na minha percepção, excepto que não com ordem e seguimento, não! Em vez, todas as lembranças guincham em simultâneo. Eu lembro-me. Sim. Recordo-me. Não! Talvez. E se. Vi que foi. Aqui e agora. Tantas vezes. E sempre que. Nunca mais. O eterno repetir da lentidão dos ponteiros. Ninguém agarra os ângulos, desfazemos-nos no tempo. Salteadores nas ameias do crepúsculo. Vagar humano. Velocidade felina. Tudo se calou para sempre. E isso não se cala. Caramba! Sh… Os pardais nunca foram pardais. O nome destes morcegos é Legião. Calaram-se muito. Não tenho cabeça. Espera, ainda tenho cabeça. Coça-me as costas. Fodia e quanto mais fodia mais me energizava. Não faz mal. O quanto podes. Mas nunca te deixes vir na rapariga errada ou envelheces 3 anos. Absurdo. De há um mês para cá, ganhei verrugas. A cantina com a mulher que me quer. Sh… Daquela vez apanhei uma enorme serpente a caminho do mosteiro abandonado, fiz com ela uma Oroboros que usei à cintura e no fim deixei-a em 8. Não sei quem, mas alguém a vandalizou. Desenterrou o ovo e a rosa. Mesmo assim ela está grávida. Espero que não faça um aborto. Se o fizer engravidará de novo. Fecha as portas caralho! Está a entrar uma bruma que ainda nos vai separar a todos. Quem é que está a gritar? Primeiro acordo os animais todos, naturalmente. Mas quando começo assim a floresta fica estarrecida em silêncio. Os outros dizem que me transformo numa serpente negra e muito alta. Alentejo. E Cabeço das Fraguas. Isso tudo já foi, não é? Fui apanhado a dormir em Marrocos. Estava lá aquele gajo cujo nome é o sussurro da respiração. É ASV. Parecia. Hehe. Já não sei o que fazer com ela se não pára de gemer. Tanta merda. Que rios são estes? Falésias. Rios. Portugal está entre a terra e o mar. Se quiseres falar com Ele, vai para lá. Morcegos no meu cabelo. Não vou quebrar a asana. A bófia tem rondado a gruta. Um dia ainda conto e decoro quantas árvores existem nesta serra sem usar um único número. Esse dia é hoje. Não importa quantas vezes me perco, o caminho de volta é perder-me. Mas quando volto trago as vozes de tudo por quanto passei. Ervas e rochas e areia. Essas vozes, sabes. Estás louco! Claro que estou. Vês aquele túnel? Estamos cá em cima, no segundo mosteiro. Vês aquele túnel? Pára de escrever e não cantes. Não pises as folhas e não dances. As 3 e picos a Lua põe-se exactamente em alinhamento com aquele túnel que desemboca a meio da parede. O que metes no altar é a tua sombra. Cala-te! Os telhados estão sempre a cair. Não sei como nunca morri. Os outros partem sempre a cabeça pelo menos. Sim! Ela! Ela! Como é que os olhos dela podem brilhar tanto?! Em Tróia. Morreu-te. Essa bruxa ruiva. Agora já é tarde para chorar, não achas? Os pombos em Faro são muito diferentes dos pombos em Lisboa, e há ainda os do Porto, que cantam Anathema perto da feira. Espera lá. Não, no Alentejo não há. O que há mais é rapinas. Mas vais conhece-las a todas. Dorme em cima desta pedra, é o que eu faço sempre. Não digas mais nada. Esses livros não eram para ti próprio. Por isso é que os tivemos de queimar. A Santa não se esquece de nada. A míuda se calhar nem era maior. Agora já foi apanhada. Quantos corpos de prostituta tem o teu corpo, virgem? Não sei quantas mais mulheres aguenta a chama. E homens. Vais ficar gordo. Cala-te! Já há muito tempo que estou perdido. Eles acham que eu invento estas histórias! Se soubessem ahah. Com quantos camelos se faz o Sol? Ups. Nada como o Salvador Dali. Os morcegos, já não se ouvia deles nem um piu. Saí da palavra, pus só a cabeça de fora da sua boca, e procurei verificar se era manhã. Um Morcego da Morte, com o chocalho de ossos e as órbitas pendentes, decapitou-me em voo tal como decapitaria o fruto do ramo. Mesmo sem cabeça, ainda ouço asas a roçarem. Mas é só isso.

Um Morte e Sete Morte levaram a minha cabeça. Ainda escuto e vislumbro, mas não com os órgãos da cabeça. Sempre pensei que se separassem a cabeça do meu corpo, a minha consciência se agarraria sobretudo à cabeça. Isto era mentira. Sem cabeça, porém, podia controlar todos os animais existentes na Grande Árvore dos Mundos. Pedi a cada um que trouxesse o seu alimento e o deixasse junto da minha carcaça viva. Acho que Morte Um e Morte Sete se riam, e acho que os outros Senhores estavam sérios e com receio. Finalmente encontrei o que queria, quando vi o meu próprio corpo através da cabeça Ornada de um Lobo, que vinha sendo trazida pela boca de uma fêmea de Coiote. Vejam, se não é Lúcifer, o Corção do Céu, que desce, o próprio para acender estes olhos. Um anjo entre os morcegos. Durante quatro dias o céu encheu-se de lama e a terra escureceu. Por fim o diabo incendiou o esterco, dando luz ao mundo e abrindo o céu para o azul do Sol. Por esta altura a cabeça do lobo e os seus chifres estava bem assente sobre os meus ombros. Vejo-me a mim próprio neste preparo e vendo-me neste preparo vejo-me a mim com corpo de lobo e cabeça humana.

Reconheço, assim, ser os gémeos Ascendido e Descendido. Todos os senhores se riem e festejam. Pois no seu seio têm o meu corpo humano, vivo e derrotado. Como sempre fomos o conselheiro da Corte Abaixo da Superfície, ordeno que o meu eu seja sentado no trono em brasa e depois deitado ao rio. Restam-lhe cinzas. Estas cinzas criarão os primeiros peixes à superfície, e um dia serão homens e mulheres para governar com todos os poderes subterrâneos. Quanto a mim, os Gémeos, não temos nós os rostos de todos os bobos? Operámos milagres, ardemos as casas sem que elas ardessem, dançámos, matando-nos e ressuscitando-nos, e tanto deslumbrámos Morte Um que nos pediu que com ele o repetíssemos. Só o repetimos por metade, a primeira. Morte Sete pediu clemência. Não a obteve, porque tomámos as suas poltronas no Lugar da Esperança.