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sexta-feira, 7 de maio de 2010

R.I.P. Xibalba Mannequins...

e todas as crianças beberam lágrimas
dos seios da mãe,
e todas as crianças beberam prazer
dos chifres do pai.

Vila Final

Vida, uma sombra parada de madrugadas inesquecíveis. A tua forma na minha forma largada. Cume das manhãs altas, vulto do raio indissolúvel.

Sombra da raiva, sombra da luz, sombra do amor. Doutrina da chuva em dias nocturnos.

Fotografias do teu semblante, fotografias do teu corpo, rasgões do Sol no fim da tarde.

Cinzas, quando a noite está no fundo. Lágrimas, quando a chama se eleva aos patamares do inalcançável.

Vida, estou cansado de viver os vossos rostos, já lhes falta cor, depois libertos, primeiro mutilados, da água do amor.

André Consciência in À Beira-Lua, pàgina 76.

Também este espaço se torna agora um livro aberto (um livro fechado).

quinta-feira, 15 de abril de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

Casa de Morcegos, Saúda os Senhores no Trono


Cotz'na

Fui deixado por morto na Casa de Morcegos. Não é verdade? Pois olhai bem para os meus destroços e do que são feitos, de que forma a lâmina dos focinhos quirópteros se enterra em mim. A questão a traduzi-lo põe-se: como posso ser inteiro se momentos vários da minha vivência inteiros são? Sou assim dividido e sendo dividido o sangue escorre. É fácil adormecer e deixar que os morcegos operem o seu milagre às escondidas da vigilância, mas eu deverei penetrar a minha Palavra viva na insónia eterna e sobreviver como testemunha. Mas os morcegos penetram até a Palavra, e a palavra fragmenta-se em várias nuvens de memória movediça. Tal como na morte, toda a minha vida passa na minha percepção, excepto que não com ordem e seguimento, não! Em vez, todas as lembranças guincham em simultâneo. Eu lembro-me. Sim. Recordo-me. Não! Talvez. E se. Vi que foi. Aqui e agora. Tantas vezes. E sempre que. Nunca mais. O eterno repetir da lentidão dos ponteiros. Ninguém agarra os ângulos, desfazemos-nos no tempo. Salteadores nas ameias do crepúsculo. Vagar humano. Velocidade felina. Tudo se calou para sempre. E isso não se cala. Caramba! Sh… Os pardais nunca foram pardais. O nome destes morcegos é Legião. Calaram-se muito. Não tenho cabeça. Espera, ainda tenho cabeça. Coça-me as costas. Fodia e quanto mais fodia mais me energizava. Não faz mal. O quanto podes. Mas nunca te deixes vir na rapariga errada ou envelheces 3 anos. Absurdo. De há um mês para cá, ganhei verrugas. A cantina com a mulher que me quer. Sh… Daquela vez apanhei uma enorme serpente a caminho do mosteiro abandonado, fiz com ela uma Oroboros que usei à cintura e no fim deixei-a em 8. Não sei quem, mas alguém a vandalizou. Desenterrou o ovo e a rosa. Mesmo assim ela está grávida. Espero que não faça um aborto. Se o fizer engravidará de novo. Fecha as portas caralho! Está a entrar uma bruma que ainda nos vai separar a todos. Quem é que está a gritar? Primeiro acordo os animais todos, naturalmente. Mas quando começo assim a floresta fica estarrecida em silêncio. Os outros dizem que me transformo numa serpente negra e muito alta. Alentejo. E Cabeço das Fraguas. Isso tudo já foi, não é? Fui apanhado a dormir em Marrocos. Estava lá aquele gajo cujo nome é o sussurro da respiração. É ASV. Parecia. Hehe. Já não sei o que fazer com ela se não pára de gemer. Tanta merda. Que rios são estes? Falésias. Rios. Portugal está entre a terra e o mar. Se quiseres falar com Ele, vai para lá. Morcegos no meu cabelo. Não vou quebrar a asana. A bófia tem rondado a gruta. Um dia ainda conto e decoro quantas árvores existem nesta serra sem usar um único número. Esse dia é hoje. Não importa quantas vezes me perco, o caminho de volta é perder-me. Mas quando volto trago as vozes de tudo por quanto passei. Ervas e rochas e areia. Essas vozes, sabes. Estás louco! Claro que estou. Vês aquele túnel? Estamos cá em cima, no segundo mosteiro. Vês aquele túnel? Pára de escrever e não cantes. Não pises as folhas e não dances. As 3 e picos a Lua põe-se exactamente em alinhamento com aquele túnel que desemboca a meio da parede. O que metes no altar é a tua sombra. Cala-te! Os telhados estão sempre a cair. Não sei como nunca morri. Os outros partem sempre a cabeça pelo menos. Sim! Ela! Ela! Como é que os olhos dela podem brilhar tanto?! Em Tróia. Morreu-te. Essa bruxa ruiva. Agora já é tarde para chorar, não achas? Os pombos em Faro são muito diferentes dos pombos em Lisboa, e há ainda os do Porto, que cantam Anathema perto da feira. Espera lá. Não, no Alentejo não há. O que há mais é rapinas. Mas vais conhece-las a todas. Dorme em cima desta pedra, é o que eu faço sempre. Não digas mais nada. Esses livros não eram para ti próprio. Por isso é que os tivemos de queimar. A Santa não se esquece de nada. A míuda se calhar nem era maior. Agora já foi apanhada. Quantos corpos de prostituta tem o teu corpo, virgem? Não sei quantas mais mulheres aguenta a chama. E homens. Vais ficar gordo. Cala-te! Já há muito tempo que estou perdido. Eles acham que eu invento estas histórias! Se soubessem ahah. Com quantos camelos se faz o Sol? Ups. Nada como o Salvador Dali. Os morcegos, já não se ouvia deles nem um piu. Saí da palavra, pus só a cabeça de fora da sua boca, e procurei verificar se era manhã. Um Morcego da Morte, com o chocalho de ossos e as órbitas pendentes, decapitou-me em voo tal como decapitaria o fruto do ramo. Mesmo sem cabeça, ainda ouço asas a roçarem. Mas é só isso.

Um Morte e Sete Morte levaram a minha cabeça. Ainda escuto e vislumbro, mas não com os órgãos da cabeça. Sempre pensei que se separassem a cabeça do meu corpo, a minha consciência se agarraria sobretudo à cabeça. Isto era mentira. Sem cabeça, porém, podia controlar todos os animais existentes na Grande Árvore dos Mundos. Pedi a cada um que trouxesse o seu alimento e o deixasse junto da minha carcaça viva. Acho que Morte Um e Morte Sete se riam, e acho que os outros Senhores estavam sérios e com receio. Finalmente encontrei o que queria, quando vi o meu próprio corpo através da cabeça Ornada de um Lobo, que vinha sendo trazida pela boca de uma fêmea de Coiote. Vejam, se não é Lúcifer, o Corção do Céu, que desce, o próprio para acender estes olhos. Um anjo entre os morcegos. Durante quatro dias o céu encheu-se de lama e a terra escureceu. Por fim o diabo incendiou o esterco, dando luz ao mundo e abrindo o céu para o azul do Sol. Por esta altura a cabeça do lobo e os seus chifres estava bem assente sobre os meus ombros. Vejo-me a mim próprio neste preparo e vendo-me neste preparo vejo-me a mim com corpo de lobo e cabeça humana.

Reconheço, assim, ser os gémeos Ascendido e Descendido. Todos os senhores se riem e festejam. Pois no seu seio têm o meu corpo humano, vivo e derrotado. Como sempre fomos o conselheiro da Corte Abaixo da Superfície, ordeno que o meu eu seja sentado no trono em brasa e depois deitado ao rio. Restam-lhe cinzas. Estas cinzas criarão os primeiros peixes à superfície, e um dia serão homens e mulheres para governar com todos os poderes subterrâneos. Quanto a mim, os Gémeos, não temos nós os rostos de todos os bobos? Operámos milagres, ardemos as casas sem que elas ardessem, dançámos, matando-nos e ressuscitando-nos, e tanto deslumbrámos Morte Um que nos pediu que com ele o repetíssemos. Só o repetimos por metade, a primeira. Morte Sete pediu clemência. Não a obteve, porque tomámos as suas poltronas no Lugar da Esperança.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre o Vento


Saudade - Sara Conde


Desta vez, a simplicidade
Da noite em branco, a história
De vida, o haver tudo passado
A viola miudinha e uma claridade
De casas em cinza.

Horned Wolf

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A Metade Devorada VIII


The Betrayal - Garden of Bad Things


Muitos nomes. Existem muitos nomes em muitas bocas com várias letras, e tu és uma combinação perfeita de letras compostas de sonoridade. Depois, há muitas bocas que exalam o teu ar e pronunciam o teu nome enquanto o ouves, porque, no dia a dia, se cruzam em ti e contigo e te interrompem o ser e dão novas direcções ao olho do espírito. De todas essas vozes que acompanham a tua vida eu nunca ouço o alento, eu nunca ouço o teu nome, ninguém diz o teu nome na minha vida, por isso eu articulo-o muitas vezes nas minhas cordas vocais. Existem todos aqueles que interrompem o teu ser, eu seguro-o todo como um berço de céu, não te atravesso, corro contigo, corremos e somos um só correr.

Condenados ao espelho… Condenados ao espelho…

Caio e rasgo a pele, rasgo a pele e uivo, pareço sentir as alturas das árvores nocturnas como gestos que me tocam, a vida entre a vegetação e os sons longínquos, todos ao alcance do meu acto voraz.
Vislumbre de ti, os meus olhos laranja pintam-te e engolem-te, a minha pelugem é um fogo de Vontade, enrolo-me sobre as tuas coxas descobertas de Luar, mas queimo-te, mas queimo-te. É a tua mordedura em mim. Voraz no sangue que pulsas, voraz na nossa santidade, por um verso de pecado orgulhoso, por uma lua menstruada que nos banhe.
As nossas noites são mentira, e hoje acordei numa noite sem mentir, hoje eu desejo a neblina uma vez mais, na brancura da verdade e nos corredores entre os tempos. Este lobo é um guardião de momentos, os momentos são o seu rebanho, e os segundos as suas presas. Uma lufada de um novo ar e tu cais, a tua carne espirra um perfume desagradável a queimadura, a pacto, e eu desprezo-te, hei de ser eu, sua puta, em cada homem que entrar nas tuas fendas para então cuspir sobre o teu corpo, abandonar-te à exaustão, deixar-te para trás sem olhar para trás, quebrar cascas de ovos pisar os teus beijos e estilhaçar dentes razos ao chão.

Todos os sonhos, são sonhos demais. Toda os sonhos que não sonhamos, são sonhos de menos.

A serpente enrolava-se muitas vezes e eu perdia a conta dos seus desenhos, ela não tinha pele à excepção do calor das mãos enlaçadas, e voltava a traçar as tuas formas no espelho do meu coração, reproduzia o teu riso nas paredes do meu corpo, quando o teu riso dizia o meu nome e eu te salvava, ou quando uma gargalhada de ti deixava escapar o teu nome e me redimias de todos os contrários. Éramos espada e cortávamos o ferro das impossibilidades. Levo-te e o nosso rio come o mar. Vai-te embora, esqueço-te todos os dias. O mar fala-me de ti. O mar fala-me de coisas que eu nunca vi. Estamos sós em todos os cantos que não iluminamos. Fingimos muito, não é?

Fins. Danças e cartas desviadas. Formas desvairadas e saudosas, formas que contem demais para formas. A morte não é nenhum de vocês, a morte não és tu, metade-devorado, nem o simples e infindo vagabundo, a morte é aquilo que vocês impedem, é aquilo que, não alcançando, me rasga o peito e cospe estas palavras sangrentas, convulsiona estas mãos a auto-mutilarem-se em publico. Queimar, queimar e perfurar na queimadura, os olhos cegos e ardentes de todos os leitores: ninguém compreende, os olhos que ofuscam e possuem são os buracos na minha pele, são os meus sentimentos desfigurados em textos erráticos: que corrompem a verdade a cada leitura, que me amarram e me apagam no tempo. As obras não imortalizam, as obras apagam os autores no tempo: desvanecem, irreconhecíveis..

Não há chão. Nunca mais quero chão.

Estávamos sozinhos, quando Deus decidiu queimar os homens. Todas as amarras desatadas, foi como se roubassem articulações, foi como o passar de mutilações: aqui não existes. Aqui tudo acorda e nada existe. Não existem mãos, tudo voa. Aqui as pinturas dissolvem-se, sopros estranhos arrasam os nossos ouvidos e escondem-se num lugar inalcançável. Somos livres: o nosso preço: mascaras, muitas mascaras, todas as mascaras: um monte que sepulta: o céu.

A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

Lembrança: A noite escura da invisibilidade. Piso a noite com a cabeça. Caio e rasgo a pele. Rasgo a carne da terra com a cabeça, os meus pés pisam o céu (já não me ferem, dentes pisados): Não há chão, nunca mais quero chão.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Cansaço dos Fantasmas

Dedicado à Marta


Any Other Name - Thomas Newman

Quem foste tu com quem vivi, com quem caminhei? O irmão, o amigo? Conflito e amor, treva e luz--serão trabalho de uma só mente, traços do mesmo semblante? Oh minha alma. Deixa-me estar em ti agora. Olha através dos meus olhos. Vê as coisas que tu criaste. Tudo brilha.

Thin Red Line
Tradução de André Consciência




O homem que cavalga longamente por terrenos bravios, sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos oculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça ha o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações.

Italo Calvino

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aos que se aquecem no frio

Ao Nodula de Nomada, por ser um poeta da memória (sem especiais pretensões literárias e escrito primeiro para o Fórum Abismo Humano)




Recordo-me. Eu e a vida não éramos dois. Eu e o mundo não éramos dois. As pessoas falavam e das suas bocas saíam as cores dos sons. Todas tinham painéis de fundo, como se estática de televisão mas com padrões próprios, às vezes imagens nítidas do que seriam, talvez, memórias. Nunca o soube ao certo. Não acreditava em Deus nem deixava de acreditar, ele estava lá, em toda a sua presença, e por isso eu não entendia como é que as pessoas tinham a coragem ou a necessidade de falar com Ele tantas vezes. Comunicava com Ele uma vez de cinco em cinco anos. Depois haviam as outras coisas. Havia o meu irmão ter medo de ficar sozinho comigo em casa, havia a minha mãe que deitava água benta em meu redor. O meu pai que acordava muitas vezes de noite para me ver.

Os Mestres separaram-se de mim e foi assim que se deu o começo da minha adolescência, e com os mestres o mundo. As vozes passaram a ser vozes que já não eram minhas (deixei de ver as coisas cá fora e passei a vê-las cá dentro). Pensava sobre tudo e tinha respostas sobre tudo que ninguém queria escutar ou compreender, respostas sobre tudo que levantavam o terror no conformismo da formatação social. Mas os mestres gritavam e eu gritava também e cada vez me sentia mais mudo, mais surdo, sobretudo mais zangado.

Depois, mudávamos de casa tantas vezes. Não sei ao certo para fugir ao quê. A última vez mudei para um sítio muito longe. Um lugar para o qual não me queria mudar, as pessoas eram totalmente diferentes, não conhecia nada nem ninguém e estava muito longe de tudo o que conhecia e encontrava-me suficientemente longe de todos os que conhecia para, naquela idade e naquelas circunstâncias, saber que nunca mais os ia ver na vida.

As respostas que eu tinha e que de um momento para o outro já não se inseriam no mundo, porque eu e o mundo nos havíamos tornado dois, sem aviso, tornaram-se mordaças. Já não estava zangado, estava irremediavelmente deslocado. De noite, quando todos dormiam, sentava-me no escuro e encostava a navalha às veias. O novo sentido da minha vida era o suicídio.

Lembro-me de estarem a gritar comigo, de pegar na faca de cozinha e dos estragos que me fiz. Os seus rostos aturdidos. A minha satisfação pelo silêncio. Como eu era ridículo…

Esqueci-me disso quando, no deserto da minha vida, a vi, no barco que seguia para Tróia. Ruiva, belíssima, ao vento. Apaixonei-me pela primeira vez e à primeira vista. Conheci-a nesse dia. A conversarmos ao vento, junto ao mar. Sem aviso, de súbito, nós dois a caminhar pelas praias sem destino, só os olhares e o som e as palavras e a intimidade repentina. Então eu, que não falava com ninguém, com absolutamente ninguém.

Ela estava doente, porque se procurara suicidar demasiadas vezes e o seu coração se tornara demasiado débil e frágil. A minha rosa. As coisas já não eram como antigamente mas eu sabia que, se tentasse, ainda a podia salvar. Se falasse com Deus mais uma vez, mesmo que Ele já não estivesse lá a minha vontade faria a ponte.

Ficava os dias e as noites a ouvir Nine Inch Nails, Depeche Mode, U2, Radiohead, Lenny Kravitz, Led Zeppelin e Pearl Jam, deitado no meu beliche, onde ninguém me podia ver, e pensava obsessivamente nela. Não pensava muito sobre o nosso futuro, pensava sobre o futuro dela. Esperava-a dentro de meses uma operação de alto risco vital. As probabilidades apontavam todas para a sua morte. Chorava na minha beliche. Um dia, antes de adormecer, falei com Ele. Na semana seguinte, já muito próxima da operação, ela voltou do médico com um sorriso naquele rosto, que era todo iluminado pelos olhos grandes e pelos lábios vermelhos, e disse-me que estava tudo bem. Que estava curada. Que não precisava de ser operada. “Os médicos estão incrédulos”, disse-me. Recordo-me como me preocupava, se ela morresse, eu sem saber a sua morada (porque tinha problemas em casa), ninguém me avisaria. Eu não falava com mais ninguém, ela não falava com mais ninguém, e por isso não conhecíamos ninguém em comum. Recordo-me de como olhava, ainda assim, tristemente para o céu e me dizia, apontando para Vénus, que se ela me faltasse e eu a quisesse, deveria dirigir-me àquela estrela. Disse “prometo que te escutarei”. Acho que foi a coisa mais cruel que ouvi até hoje.

Aliviado, não obstante, e pronto a viver a vida, escrevi-lhe o meu primeiro poema digno desse nome (se alguma vez escrevi um poema digno desse nome), um poema de amor. Via-a nos quadros que tinham flores, passava as mãos por eles e deixava-lhe uma mensagem em sussurro. Nunca mais a vi, nunca mais falei com ela (nunca leu o poema). Desesperei. Continuei a escrever, sobre dor, desespero, ódio (escrevi uma vez que, se não houvesse morrido, a mataria por me ter morrido). Descobri aquele tipo que era fã de Garbage e que a conhecia, disse-me: “A chavala estava doente. Morreu.” Assim, sem mais, com os óculos de sol irritantes e o sorriso cínico que o caracterizava.

Não falava com ninguém e por isso não falei com ninguém. Tinham-me deitado para uma fornalha fechada. Não foi uma fase difícil, nem complicada, foi uma fase absolutamente absurda. Em casa, constantemente sangrava e fazia os meus pais sangrar. Dia sim e dia não destruía o meu quarto. Quiseram internar-me, tinham fabricado uma teoria patética de que eu estava a ser violado nas casas de banho da escola. Mas a raiva retirou-me as ideias de suicídio, cresceu ao ponto da vida, a morte era-lhe totalmente insuficiente. Na escola, caminhava com outro rapaz, o Fanica, chamavam-lhe. Estávamos sempre os dois juntos e nunca conversávamos. Por vezes conversávamos com as outras pessoas, nunca um com o outro. Atirávamos tijolos aos vidros dos carros e fugíamos e queimávamos-nos com cigarros. Fechava os olhos, quando estava sozinho, e via um outro mundo, bárbaro mas harmonioso. Via um réptil cheio de luz. Durante todo aquele período, é a única coisa boa de que me recordo. Por mais estúpido que pareça, disso e de ter montado um teatro de fantoches, a minha personagem era um lobo malvado. Gostei muito disso.

Depois deixei o Fanica, e fiquei só comigo. Procurava entendimento e encontrei-o na literatura, na música, na pintura, na filosofia (principalmente a renascentista) e na espiritualidade. Encontrei-o em Allan Poe de amores pela sua esposa falecida, em My Dying Bride com a sua “For My Fallen Angel”, com o folclore que procurava ressuscitar dos mortos os amores perdidos, o mito vampírico, a saudade de um W. B. Yeats, a alma viúva de Garret, o “Elizyum” dos Fields of the Nephilim, as fantasmagóricas curtas metragens de Samuel Beckett. Foi a arte que me acalmou, especialmente o romantismo, o neo-romantismo, o surrealismo e o absurdismo, e com ela o gótico. As minhas paredes eram um conjunto de textos, poemas, e pinturas (parte textos meus e poemas meus).

Vestia-me ao estilo de vagabundo, tirava fotografias em caixotes de lixo, e passei a vestir-me de preto, um pouco mais arranjado.

Aqui onde moro, não existia nenhum gótico, nenhuma gótica, e eu não conhecia nenhum gótico nem nenhuma gótica, nunca tinha falado com nenhum.

A contina perguntava-me: “sempre tão triste, de preto, morreu alguém?” Se apenas soubesse. Mas respondia-lhe com um sorriso forjado: “Estou de luto pela sociedade – não sabia que ela morreu e que nem deu no noticiário? Além de que, todos os dias, perecem incontáveis indivíduos por serem tratados discriminadamente, sem dignidade ou respeito.” Entristecia-me, embora pareça divertido, se pensava nela e me interrompiam com um “estás a pensar na morte da bezerra?” Dizia que estava a pensar num trecho qualquer do Livro do Desassossego, lido na biblioteca durante o almoço.

Gotchise. Baptizaram-me de Gotchise, por causa de Cotchise, o último chefe de tribo apache a morrer livre, e do gótico. Esse ainda é o meu apelido hoje em dia, aqui onde vivo. As novas vagas adolescentes provêem de infâncias problemáticas, e encontram, algumas, conforto na estética e na música. Hoje, os ditos góticos não faltam em número. Podem não se interessar por arte além da música, dos filmes e do estilo visual, mas é a vida que conta, é aquela qualidade secreta. Não os abomino como vejo tantos fazer. Amo-os e olho por eles com a vida.

Costumo lembrar-lhes de como ganhei interesse no humanismo mas sobretudo na humanidade: por toda a incompreensão sofrida, há que compreender duplamente. Só assim nos tornamos sábios, cultos e astutos como serpentes. Compreender a humanidade (que não se compreende a si mesma), todavia, é mergulhar de cabeça no pacto com o Diabo. É encarar de frente tudo aquilo que o vulgo homem disfarça; encontrar a besta em campo aberto e ela sermos nós, e faze-lo com a benevolência maternal, a calma e a paz que à morte dizem respeito.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Fénixterra

Dedicado à Finisterra e a O Bar do Ossian

O Sonho de Ossian - Jean Auguste Dominique Ingres


A tua face é o segredo das nações,
O teu olhar estende-se através das constelações,
Senhor dos Órfãos, Senhor dos Mortos,
Os meus olhos são cegos e eu perco-me na multidão,
O sofrimento das Eras é um colosso nos meus ombros.

Fénix do meu sangue, sou um templo que tu habitas,
A minha carne a tua essência, criatura
De Mar e Sol.

sábado, 12 de dezembro de 2009

It's Full of Stars...


Autumn In Paisley - Stars of the Lid


Procurei o contorno da tua nuca
De manhã, a tua respiração
Na árvore. Os poetas descansam
A sombra é tão fresca
Que num quadro chega a ser canção.
A felicidade dos outros
Em mim, eu procurei.
E desejava não saber, que há mais
Do que tigres na neve ou crianças
Que brincam na erva.
Desejava que o lápis não desenhasse
Mais que paisagens, não fosse
Parar aos sonhos das primeiras luzes
Das quais pisamos a cinza
Com um infinito sufoco nos lábios.
Ah, e a alma uma cruz, um turíbulo
De memórias apagadas, em brasa
Os rostos todos do mesmo incêndio
A estender os braços ao alivio
Da morte.

Sossego, ao parapeito das estrelas
E fico a ver a vida de tanta gente
E tudo o que passa não tem nome.
Ninguém se lembrará
Do pólen que caiu dos vossos beijos,
E do que as flores fizeram sorrir.

domingo, 22 de novembro de 2009

A Sede


Rede de Esgoto

A tez negra da pele. As expressões. Peculiares. Os barcos europeus. Ficam encalhados na costa. Maciços. Na areia. A sonoridade enrolada da água. Os vidros. Cordas. Pele queimada. Luzidia. Pele de negro. A corda. Esticada. Quase rompe. Linhas. Linhas que são feitas de homens, os homens todos feitos de músculos. O vento puxa para um lado. Os homens puxam para o outro. O vento. Não possui rosto. Não tenho pé aqui. O vento. Não possui assobio. Observo nas ondas. Martelos quadrados. A ferrugem. É o estuque dos barcos. Os homens sentam-se parados. Absorvem o sol. As mulheres dançam em procissões, com pedrinhas de muitas cores que soltam tons que eu não ouço. Os olhos das mulheres brilham. Verdes. Pálpebras núbias. Reconstroem os barcos. Os europeus não lhes podem roubar a mãe. Os europeus não lhes podem roubar o mar. A não ser que electrifiquem também a rede marítima. Não consigo sentar-me tanto tempo como eles, quieto. Com o Sol. Treinei. Na Europa. Treinei. Treinei horas de meditação. Treinei horas de posturas. E não consigo ficar parado como eles. O próprio acto de estar parado inquieta-me. Como um movimento. Irritante. Merda. O rapazinho. Os meus lábios não sorriem. Movimento de sucção constante. Sorvem ar queimado. O rapazinho e o lenço que ata à volta da cabeça bonita dela. Que prende perto da nuca formosa dela. Ela. Ata-lhe tranças. Depois o lenço. Na praia. De noite. Poetas mortos no rochedo. Observo nos espelhos. Ardor nos globos brancos. O perfume dela. As minhas narinas uma queimadura. Carne podre. O perfume dela: ondas do mar. O perfume do mar. Barcos. São barcos de madeira. Quebrados. Urram. Ele. Urram. Ela. Gestos. Gesticulam como bárbaros. Planeiam comandar os barcos fantasmas. Ele sente-se feliz. Ele vê-a a rir-se. Ele vê as estrelas e o som das estrelas no silêncio dos olhos alegres dela. Alegres. Sonhadores. Pega numa cana. Ela. Faz serpentes na areia. Vê o som do cano que rasga a praia. Ele. Pega numa cana ele. Faz círculos para apanhar a serpente. Um pequeno. Ela. Evita. Maior. Outro maior. Ela perfura. Ele ri-se. Ela ri-se. Mãos. Dedos. Ele a adorar os dedos. O rapazinho. Que os dedos dela são os dedos mais bonitos que viu. O olhar dela é mil abraços. Quentes. Como sopros quentes. No inverno. O cheiro da madeira podre. O armário. O grito mudo da carne putrefacta. Um grito de revolta. Contra a morte. A vida. É liberdade. Ele. Pega numa cana. A casota em ruínas perto do entulho. Riem-se. Ele. Conta uma estória. Uma estória: vivia ali um eremita muito sábio que aprendeu todos os mistérios do universo com um caranguejo. Ela, continua uma estória. Beijam-se. Beijam-se. O barulho entaramelado dos bichos da madeira. Lutam com as canas, à espada. Ele ganha sempre. Depois. Abre os braços. Sacrifica o coração. O sorriso dela. Golpeada. Depois da derrota. Os canos do esgoto. Cortam a praia.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo


Tudo é Vaidade, Charles Allan Gilbert


Ó Poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ninguém, a Terra

Dedicado a absolutamente ninguém


Eu e o maldito Cais do Sodré

A Lua, na minha aldeia, é sempre grande, e faz uma rota igual todas as noites. Saúdo o Sol quatro vezes ao dia, e sei o seu percurso exacto. Na minha aldeia as estrelas ainda não estão poluídas. Sei de cor o crescimento da vegetação, quando a queimam, ou a cortam e aparam. Sei de cor o canto do corvo, e dos pássaros que se aninham no meu telhado e deixam cair palha pelas frestas das paredes. O mocho, os morcegos. A minha aldeia não tem muros, só planuras, e depois o meu terraço decorado com estatuetas de corujas e rodeado pelas trepadeiras. Sei de cor o movimento das trepadeiras, por isso parecem estar sempre paradas, como a Lua, o Sol e as estrelas. Até os cavalos parecem estar parados, se galopam. Os porcos e as ovelhas. A minha aldeia é um túmulo aberto e ninguém a visita. Na minha aldeia moram idosos e, de todos os estabelecimentos comerciais, existem somente cafés, onde se juntam com conversas sobre mulheres e a juventude que passou. São sempre as mesmas pessoas e também estão paradas. Conhecem-me de cor, o meu vulto vestido de negro. À noite, sento-me sempre só e não gosto de conversar, embora sorria de quando em vez ao ouvir algum disparate divertido. Ninguém me incomoda. Tornei-me na minha aldeia. Não sou outra coisa, quando saio da minha aldeia sinto-me a viajar entre sombras, sendo uma sombra. Os habitantes da minha aldeia são como as árvores da minha aldeia, são parte do terreno e não pessoas. Lá fora, por vezes, quando as bocas se beijam, as sombras, a minha e a outra, parecem tocar-se, numa ilusão da alma. Depois tudo volta a ser terra e folhas ao vento, como sempre foi. Terra e folhas ao vento na minha aldeia.

sábado, 31 de outubro de 2009

Casa de Sonho


In Every Dream Home an Heartache, Fields of the Nephilim


De semblantes estimulados,
Os braços envolta de mulheres
E a luz cintila, que entra
O céu gelado, o chão morno
E toda a luz cinzenta é pele
Se as árvores soltam chuva
E as cabeças habitam lâminas
De perfume, e todo
O cinzento é pele de manhã.

Agora isto, gritos em casas de sonho,
De paredes mornas e tectos quebrados
A deixar entrar os pés frios de uma cabeça
Cheia de balas.

domingo, 5 de julho de 2009

Vila Final

Orangotango de Sumatra - Autor Desconhecido




Ela têm um pesadelo que é meu.

Passo as horas ali, no final da vila, numa fabrica abandonada, encostado à árvore que está no final do mundo e que estala de Noite com tecidos oraculares. Ás vezes passam pessoas, com cães, no escuro, e com cães escuros. Estou na bruma, sinto-me invisível porque sou um fantasma. Tenho cada vez mais a certeza. Mesmo quando me olham como se eu fosse um louco, percebo que ninguém nunca mais me porá a vista em cima. A não ser ao jeito de assombração. Os tijolos singelos e abandonados, encosto-me todo a eles. Assobiam, ocos, ao vento. Sou todo eles. A lua é uma ferida de luz no meu sono, e assim são os meus sonhos.

A solidão somos nós, e somos nós todos vistos do meu corpo.

As vossas presenças são como pedras, mudas, frias, arremessadas contra o meu corpo imortal, como árvores que morrem e que nunca serão derrubadas. Como mundos de florestas que morrem e que nunca serão derrubadas. Onde só os deuses dançam, horrorizados de tão fantasmagóricos.

A luz verde e que é uma doença e que é como se fosse o amarelo da febre talvez.

Estou tão cansado. Pálido. Existem rugas em mim esta noite. Visíveis. Só as rugas são visíveis, eu sou leve e transparente.

Porque não vieste? Não queria ter vivido para sempre.

Perto das linhas finais, alguém me pergunta alguma coisa sobre anjos. Só respondo quando me perguntam as coisas dos anjos.

Teço uma resposta e acabo, antes de me meter no comboio e ser consumido pelas lâmpadas confusas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Felicidade


O espectáculo acabou, as cortinas fecharam-se e agora ninguém nos escuta quando rimos sozinhos. Nunca contei a ninguém se ela se tranca, se ela fica trancada na casa de banho a dar-se prazer, se me fecha no exterior. A multidão na rua caminha devagar embora esteja a chover torrencialmente. Eu estou parado e as pingas não me tocam. A multidão na rua é toda de amantes, agarram-se na chuva a tentar prender tudo aquilo que nunca será deles. Ouvi dizer que está frio. Deve ser devido a estas e a outras coisas. Não há nada para ver aqui, as cortinas cerradas. Tudo o que está fresco já passou de prazo. Os seus gemidos na casa de banho dizem que sou um mau rapaz. Os amantes apertam a dor, não vá tudo o resto escapar. E ninguém percebeu a felicidade. Lembram-se dela ao jeito de anedota, se ninguém os vê, e riem-se em sussurro.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A Metade Devorada III

O primeiro tiro de caçadeira, abafando as coisas em mim como trovão que cega o céu, como o tambor de um deus que abraça e destrói: rio que se despista contra oceano. Não olhei para ele, porque o barulho era tremendo. Trémulo, peguei com toda a força que tinha no meu tambor de latão, como se fosse fazer as pessoas orgulharem-se.


"que o meu pai vai morrer"

Então naquele dia, como em todos os dias, a minha avó pegava em mim pelo braço, com o pulso forte que só as pessoas da sua idade possuem, e levava-me ao largo onde podia comprar coisas frescas dentro da fruta e das suas cores liquidas na boca. Às vezes eu ficava sentado à porta da mercearia, perto do mercado, e observava os meninos de rua com bicicletas e posturas de rua e palavras de rua e aspectos livres e aspectos oprimidos. Quando eu entrava ela fazia-me carregar um leite de pacote, depois uma peça de fruta, e comprava, a pensar em mim, vinho “Pegões” e sobremesas que vinham enroladas em papelão. Então, quando estava na fila:

“Por favor deixe-me passar é que o meu marido tem um cancro, está acamado em casa” e eu sorria, tão compreensivo como enjoado, como se houvesse regalias e prémios de quase-viuvez, ou qualquer coisa que se herda de alguém que não deixou, como se mesmo naquela cama, debilitado, ela o pudesse violar e violar o seu nome e cobrir de espinhos um coração invisível, à espera.



Ele batia no volante e expirava de cada vez que o carro parava porque havia outro carro na mesma rua, demasiado perto; porque os sinais também ficam vermelhos. “Calma…” dizia-lhe ela “ainda te dá um troço” e suspirava às escondidas. Centrava-me em ouvir o batimento que existia dentro do meu peito, como se fosse algo de concreto perante tudo o resto, esquecido que de cada lado existiam os meus irmãos. E pensava que ele não queria chegar atrasado ao inevitável.


como as paredes gigantes do hospital branco




de cabeças baixas, não falando porque nunca houve nada sobre o que se falar, e fingindo que na dor era solidariedade e que na dor não era um adeus mais definitivo que nunca




Então peguei nela, sempre forte, naqueles momentos, e a pretexto de a levar à casa de banho




como se fossem amuletos, eu com uma colecção de livros, de livros que diziam Swami Vivekananda, com capas lisas e de uma só cor, como se fossem mundos que suprimiam os outros mundos numa beleza nova, e ele dizia num quarto clarificado num aquecedor rotativo, do qual por vezes se queixava ou, não se queixando, tremia de frio procurando abafar mil gemidos que se amontoavam. E por vezes dizia que não conseguia engolir, ou arrotar. E outras vezes as suas pernas inchadas e brancas e roxas podiam estender-se ainda no sofá. E ele dizia do seu quarto: “O que é que eu vou fazer agora com eles?” e eu sabia as palavras dos assuntos, mas não sabia responder-lhe, não sabia falar com ele, nem quando, quase, me pedia no seu jeito rude. Não soube falar com ele quando os seus olhos estavam mortos e o seu corpo vivo e sem ver me chamou. Não soube falar com ele no dia em que sufocou e praguejou antes do fim das palavras.



rezamos pela alma que podia estar a partir, que estava a partir, apertou-me com força, e eu era uma luzente torre de força: “é o meu homem! É o meu homem! Meu companheiro! Meu marido! Meu irmão!” e eu a sentir os mil dardos das suas palavras que o feriam, que me feriam quando ela as dizia, penetrarem-na insuportáveis como pregos de ferrugem como buracos irreparáveis no coração.


Eles disseram que ele estava estático e amarelo. O meu tio, alto, corpulento e todo ele animado no seu estilo próprio e pachorrento tinha cara de bebé, e o seu choro era mais indefeso e abandonado do que o do mais pequeno bebé. Se eu soluçava, dizia sempre que era pelos outros. A mim, a morte não me havia de impressionar.



Eu pensava: talvez: como se ela não fosse ter a ultima palavra, como se a sua ultima palavra fosse: talvez: eu.



“Merda!”




Não soube porquê, da primeira vez que me chamou como se eu fosse um qualquer herói, e das outras vezes, porque nunca perguntava, sabia porque me habituava a não saber. E quando deixei a pequena carta no último momento antes do caixão ser completamente um caixão, brincava como quem suplicava que fosse sério, de explicar porque era o meu herói.

O último beijo do meu pai na rigidez daquele desprezível resto de tudo, foi veneno, foi eclipse, foi veneno, como a ultima pazada e as feições duras do coveiro num enterro pobre e desinteressante, como se nada fosse, porque era nada, como se fosse tudo. E invadido por coisas que não pude dominar eu dizia que se chorava, era por ser a ultima vez. E a ultima vez, ali, foi como uma pedra basilar, foi como uma coisa completa, que cobria todas as outras coisas: coisas que foram, muitas, e que me tinha esquecido, coisas que seriam até eu ser esquecimento.


quando as pessoas negras me comprimentavam, eu nunca sabia quem eram


para pintar a casa, para plantar as muitas arvores das quais conhecia toda a ciência, para me falar da índia e dos seus sons e dos seus animais, esmurrar a mesa por causa de uma guerra ou uma tortura que eu não podia sequer imaginar e que tentava alcançar sem forças, porque sabia que o seu passado era o meu. Para guardar a casa, naquele dia turbulento, apoiado à caçadeira e quieto durante horas, coberto pela substância da noite e pelo fogo de céu azul dos seus olhos.






Sei-te como se não existisses fora da minha demência.
Como se existisse fora de mim: e a morte não apagasse de verdade.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Gothic Siamese




Lembram-se delas?
Sempre de mão dada, nunca eram vistas na rua sem ser juntas, e os vultos de mão dada.
Era nas ruas de Lisboa.
Quem falava no gótico falava sempre nelas, e lembrava-se dos seus beijos junto à fonte.
Ainda no tempo da vanguarda.
Será que hoje vivem?
Onde se terão os seus vultos escondido? E será que, seja em que abismo for, as mãos ainda caminham uma na outra?

De certeza que alguém se de lembrar, nas ruas de Lisboa, juntas, elas conquistaram o mundo inteiro, contra o mundo inteiro.



* Imagem de Jessica Walker

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Cliquem para a primeira festa MOP de 2009, a acontecer amanhã.

domingo, 22 de março de 2009

O Dever da Bondade

Anjo em brancos trajes,
Que absorvam estes lábios
A fragilidade na decadência.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Violino Sem Cordas




Um beijo. Sonolento, arrebatado pela doçura, um beijo. O silencio. Não bebi sangue. Foi um beijo, atrever-me-ia a dizer um beijo como qualquer outro. Ao Sol, os corrimões amarelos e a vista da praia de Sesimbra. O azul. Ele estava perto da máquina de escrever. As cortinas de céu. Os lábios de homem, ásperos e com feridas. Os meus lábios de rapaz. O vermelho incandescente dos pés da escrivaninha, um incêndio. A ausência de sangue e a velhice eterna. O cheiro de sovacos. O fim das noites, de todas as noites desde então, gravado no meu rosto.

Os seus dedos já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa. Cortaram a luz. O ruído surdo das asas. A lentidão das penas.

A boca trémula e os lábios que se afundaram nos lábios. Os lábios que se derrocaram nas gengivas. O ruído vivo da dor. Só conheço os meus olhos fechados. As pombas morrem. A casa inteira-se de esqueletos de pomba. O ruído seco do chilreio de pardais, como agulhas. As mãos brancas na minha saia. Nas minhas pernas de rapaz.

O nosso sangue é o silêncio. O som surdo do rapazito. Devorado em sucessivas pausas movimentadas. Não haviam manchas no cadeirão. Carne podre. Fria. Fecho os olhos. O rosto de todos os fins a procriar mais um. Foram felizes.

A boca é a secura onde morrem as chamas. O estalido do silêncio. Observo nos espelhos. Ela chora. São tantas as vozes. Ela chora. Muitos os lamentos. Ninguém escuta todas as suas vozes. Os seus dedos tocam piano. O silêncio das teclas. O silêncio do desejo. O silêncio do desejo de ouvir a melodia. A madeira surda do piano. Alegria. Peso absurdo. Imóvel. A surdina dos lábios esfarelados. A boca esfarelada nos seus dedos débeis. Tentei ser gigante e pedra e estrela. Cinzento. Uma explosão branca de cinzento. Pés. Pernas. Coxas. Um cadeado em redor do pescoço do rapaz. Ela move-se sem som. Diz, se ele pergunta, que o seduz e nada se ouve. Silêncio. Azul e magenta. Encaixados. Um cadeado em redor do pescoço do rapaz. Fechado. Completo. Ranhura na cintura. Observo nos orifícios. Os meus olhos são covas abertas. Observo. Branco. Sem o sossego negro das vestes. Tornaram-se cinza. Ele odeia-a. O rapazito. Odeia-a. Quer come-la. Ela. Abre os lábios e geme e o som invade a casa e desfaço-me contra as paredes mudas. As estrelas. Riem-se de mim. Apatia. Os dedos dele. As suculências húmidas. Procuram. Serpentes sem sangue. A mão. A mão do rapazito. Cheia de cabelos. Cheia de cabelos do rapazito. Já não tocavam piano. Incapazes de tocar piano. As pombas acumulam-se dentro da casa.

Sede


Poetas mortos nos rochedos. Observo nos espelhos. Sem roupa, o corpo mudo e carnudo. Com vergonha. Rubor sem som. Oferece uma concha. O vazio a ecoar. Ela estende a mão nua. Os ossos por debaixo. O azul. Ardor nos globos brancos. Ela esticada com formas. Apanha o objecto. O vazio a ecoar com força. Sentem-se felizes. É como se a praia fosse deles. De noite, nas paragens do silencio do tempo. A noite é deles. A solidão. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Todos os fins a procriarem mais um. Frio. A tremer. Os tendões a gritar. Aponta para uma estrela. Faz dela uma concha. A luz gritante da estrela no silencio dela. Odeio-me. Os lábios cerrados. Todo eu. Os lábios cerrados. Engolidos. As memórias não salvam. Ela canta nos meus olhos. A minha vida é nos olhos cerrados. A intensidade febril dos bichos da madeira. O silencio azul. A madrugada sem testemunha. Ela. O pé despido fincado na areia. Ele. Comparam as pegadas. Ele. Ri-se. O ruído das ondas. Ri-se. Ouço só as vagas. A espuma. Apatia. Quero rasgar tudo. Observo nos espelhos. Os ossos. Os ossos estavam vibrantes. As pernas eram velozes. Correm. A areia. Entulho. Madeira negra. A flutuar no mar. Riem-se, surdos. Quero gritar. Observo nos espelhos. O azul. O silêncio. O sangue. Os ossos. Riem-se. Surdos. O entulho. Queimam o entulho. Frio fugidio. As mãos, sempre uma na outra. Bailam. Os dedos. Ele adora os dedos. Fome de viver. O roupeiro. A intensidade febril dos bichos da madeira. Destroços. Sentem-se felizes. Juventude eterna. Magia. Testemunhas da madrugada. Ruído contínuo da luz. Agulhas. Pardais. Neblina. Os dedos, e ele a adorar os dedos. Ela. Está quieta, atenta ao respirar do rapaz. Queimam o entulho. Fogo. Escuto-o e não tem som nem calor. Deitam-se. Em redor da luz. Como agulhas. Lutam, riem. Não alcanço as vagas. Não consigo dormir. O sussurro desassossegado das vagas. Sem ar. Beijam-se. Beijam-se. Beijam-se. O azul. Observo nos espelhos. Beijam-se. Os lábios sumidos. Fantasmas secos. O azul das lágrimas. Lua. Observo. Frio avassalador. A neblina. A neblina limpa tudo. O gelo das noites. Sentem-se felizes. O estrondo mudo das vagas, do fogo. Observo nos espelhos. O gelo das estrelas. Suspiros longínquos, como garras. Os nossos beijos. Fantasmas molhados. Como qualquer outro.



* imagem de Phallucifer Babalith